Estações de esgoto recolhem 800 toneladas de lixo irregular por mês em SP, diz Sabesp

  • Quantidade é gerada nas 375 cidades atendidas, segundo a empresa, e separação custa R$ 5 milhões
  • Do total, mais de 70%, ou 580 toneladas, são provenientes da capital paulista e da Grande São Paulo

Lucas Lacerda – Folha – 15.nov.2025 

Hábitos como jogar papel higiênico ou fio dental no vaso sanitário contribuem para formar uma média mensal de 800 toneladas de lixo descartado indevidamente na rede de esgoto em São Paulo.

É o que aponta um levantamento da Sabesp com base no lixo recolhido, separado do esgoto e transportado até aterros sanitários para o descarte correto, a um custo anual de R$ 5 milhões. De acordo com a empresa, 580 toneladas, ou 72,5% do total, são coletadas na Região Metropolitana de São Paulo.

Entre o lixo descartado de forma irregular, cujo caminho mais frequente é o vaso sanitário, o que costuma aparecer são pinos de droga, preservativos, fraldas, absorventes, tampas de garrafa pet, cabelo, plástico, trapos e fios de tecido.

Além de atrapalharem a operação de tratamento, as toneladas de lixo podem causar entupimentos na rede coletora de esgoto. Considerando as 375 cidades atendidas pela Sabesp em São Paulo, foram feitas 163.992 desobstruções de rede nos últimos 12 meses, afirma a companhia.

O gasto de R$ 5 milhões para separar e destinar o lixo ao descarte correto, segundo a gerente de transformação social da Sabesp, Elaine Alves, equivale ao necessário para fazer 6.000 novas ligações de água.

“Quando falamos desse assunto, falamos de hábito. E é importante mostrar como pequenos hábitos chegam a isso”, afirma a especialista, sobre a massa de lixo que chega ao esgoto.

A obstrução da rede externa de esgoto é apenas uma das consequências do lixo descartado irregularmente, diz a gerente. Outro impacto pode ser mais imediato: se a rede coletora do local, um condomínio de apartamentos, por exemplo, entupir, o esgoto pode voltar pelos ralos para dentro do imóvel.

O entupimento também pode causar o vazamento de esgoto na rua, ocasionando uma chance para que os dejetos cheguem até córregos e rios, seja diretamente, seja por caírem na rede de águas pluviais.

Nem mesmo o óleo de cozinha deve ser jogado na rede, afirma Elaine, seja no vaso, seja na pia. Em muitos casos, a gordura forma blocos que também entopem a tubulação. A Sabesp diz que aplica desengordurante, um tipo de detergente, em locais com bares e restaurantes. O produto é usado em locais já identificados como críticos durante lavagens.

No litoral norte, segundo a companhia, isso é feito em áreas de Caraguatatuba, São Sebastião, Ilhabela e Ubatuba, por exemplo.

“Vale a pena apontar que este é um problema evitável, facilmente evitável”, afirma Elaine. “Um pequeno hábito que muda completamente o quadro. Deixar de usar vaso ou ralo como lixeira torna tudo isso evitável.”

SP: Sabesp recolhe 800 toneladas de lixo no esgoto por mês – 15/11/2025 – Cotidiano – Folha

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Companhias treinam funcionários para serem influenciadores

Estratégia fortalece a marca empregadora, diversifica porta-vozes da empresa e impulsiona engajamento e senso de pertencimento

Por Adriana Fonseca — Valor – 06/11/2025 

Funcionário da Alelo desde 2021, Thiago Oliveira tornou-se influenciador da empresa em abril de 2025 – uma função que exerce em paralelo ao seu cargo de analista de planejamento estratégico na companhia de benefícios para trabalhadores. “Eu quis me tornar influenciador”, diz. “Uma das habilidades que tenho é a comunicação, com isso achei uma oportunidade de explorar, aprender e desenvolver ainda mais essa habilidade.”

Como influenciador da Alelo, junto com outros 20 funcionários da empresa, ele apoia a criação de conteúdos internos e externos, para as redes sociais. Diz que as pautas geralmente vêm prontas, ele só precisa entrar no “personagem”. “Sempre que posso e tenho oportunidade coloco meu lado criativo, e também sugiro alterações em pautas ou roteiros”, acrescenta.

A Alelo criou a função de funcionário-influenciador em 2020, como uma evolução do papel que alguns empregados já exerciam de comunicadores internos, desde 2014. A estratégia por trás da iniciativa, conta Carolina Ferreira, diretora de gente e ASG da Alelo, é descentralizar o processo de comunicação, para que as mensagens cheguem a todos de forma mais rápida. “A mensagem é compartilhada com esse grupo e, assim, um de cada área desdobra para seu próprio grupo”, explica.

Outra função dessa estratégia é formalizar um canal de escuta. “Com encontros periódicos com o grupo, é possível conhecer temas críticos, mapear ruídos e tratar as questões necessárias sem que elas tomem uma proporção que prejudique o engajamento geral”, diz.

Desde 2021, há indicadores para medir o desempenho dos funcionários-influenciadores. Entre eles, a presença nas reuniões; a confirmação de envio das mensagens; e uma pesquisa de satisfação feita com a metodologia NPS. Com isso, há um reconhecimento com premiação interna para os que mais se destacam. “Nossos ‘influlovers’ ampliam o alcance da comunicação e fortalecem o engajamento”, afirma Ferreira.

Para isso, ela diz ser essencial capacitá-los, para que realmente atuem como facilitadores do diálogo, porta-vozes da cultura e promotores de boas experiências. A cada dois anos a Alelo reavalia os participantes. Há gestores no grupo, mas predominam pessoas com cargo de analista.

Esse tipo de programa traz uma ampliação da voz corporativa e denota certa transparência”

— Carolina Terra

Autora do livro “De funcionários a influenciadores” (Summus Editorial), Carolina Terra vê o surgimento dos funcionários-influenciadores como uma oportunidade de a organização se humanizar e como uma medida de autenticidade. “São os funcionários produzindo os conteúdos à sua maneira, com as suas vozes, suas peculiaridades”, detalha. “Esse tipo de programa traz uma ampliação da voz corporativa, trabalha na construção da marca empregadora e traz favorabilidade para a organização, pois denota certa transparência também.”

Com essa estratégia, ela diz que os principais porta-vozes, normalmente executivos da alta liderança, deixam de ser os únicos representantes da empresa. “Além disso, eu vejo vantagem também internamente: pode ser uma medida que melhora a comunicação interna, gerando identificação, reconhecimento e engajamento.”

Pesquisa da Aberje e Ação Integrada feita em 2025 apontou os programas de influenciadores como uma das principais tendências em comunicação interna.

A Vivo, do setor de telecomunicações, estruturou o “Vivo Creators” em 2020. Uma forma de reconhecer pessoas que naturalmente são influenciadoras na visão dos colegas da companhia e que amplia vozes diversas da empresa, explica Leandro de Freitas, diretor de comunicação corporativa da Vivo. “Cada ‘creator’ traz o seu olhar para o tema proposto ao contá-lo do seu jeito, com o seu sotaque”, diz o executivo. “Com uma abordagem mais leve e humana, os conteúdos produzidos por eles são facilmente compartilhados e viralizados de forma orgânica, impactando todo nosso público – administrativo, call center, campo e lojas.”

Freitas explica que o programa é estruturado em um formato gameficado – os creators participam de “missões” e precisam atingir uma pontuação e um percentual mínimo de participação para permanecer no programa. “Eles recebem a atividade, com as mensagens a serem trabalhadas e informações complementares que podem auxiliá-los. A partir daí, têm autonomia para construir conteúdos com seu próprio estilo”. Como contrapartida, recebem vouchers para compra de livros e cursos.

A escolha dos funcionários-influenciadores da Vivo acontece por meio de processo seletivo interno, que avalia critérios como comunicação, curiosidade e criatividade. Em 2024, foram 307 inscritos e 16 selecionados. O programa conta com representantes em 12 estados. Hoje, há 40 Vivo Creators. Desses, 30 criam conteúdo para rede social corporativa da Vivo e 10 propagam mensagens da empresa em suas redes sociais próprias (Instagram e LinkedIn), sob a ótica de quem trabalha na Vivo. “O papel dos colaboradores que são influenciadores vem ganhando cada vez mais relevância pela eficácia, de modo genuíno, na propagação de mensagens que fortalecem a cultura e a reputação de uma empresa”, acredita Freitas.

Especialista em gestão de pessoas na Vivo, Bianca Paiva de Oliveira é Vivo Creator desde 2021. Ela começou como “creator interna” e em 2024 passou a ser “externa”. “Conheci o programa por meio dos nossos canais internos de comunicação. Como já era entusiasta do tema, me inscrevi no processo seletivo”, conta. “Lembro até hoje da emoção quando recebi a notícia da aprovação, acompanhada de um kit de boas-vindas.”

Ela diz que sua primeira missão foi uma campanha sobre a desigualdade de gênero no esporte. “Me marcou por evidenciar quantas pautas relevantes para a sociedade poderíamos trazer ao cotidiano”, lembra. Ela conta que dedica cerca de uma hora por semana à produção de conteúdos.

Na PepsiCo, o programa de funcionários-influenciadores começou em 2019, com estagiários e trainees compartilhando suas experiências na empresa. “O sucesso foi tão natural que essa rede de influenciadores internos se expandiu para a América Latina e, depois, para o mundo, tornando-se parte do programa global”, diz Maria Teresa Orlandi, gerente sênior de comunicação na PepsiCo Brasil.

Segundo Orlandi, foi por reconhecer o poder das histórias reais que a companhia decidiu apoiar seus funcionários para que se tornassem influenciadores. “Como vozes autênticas que traduzem o que é viver e construir a PepsiCo por dentro”, afirma. “Com isso, fortalecemos não só marca empregadora, mas a cultura de pertencimento, inclusão e transparência.”

Para o funcionário-influenciador, a empresa oferece trilha de aprendizado, ferramentas práticas e um calendário com temas e iniciativas que podem inspirar conteúdos. Não há remuneração específica para a função – os influenciadores recebem brindes, experiências e produtos. O programa é aberto a todos os interessados, mas a empresa também convida pessoas que já são referências internas. “Aquelas que naturalmente influenciam, inspiram e mobilizam suas equipes”, diz Orlandi.

Com abordagem mais leve e humana, os conteúdos produzidos por eles são facilmente compartilhados”

— Leandro de Freitas

Mais de 40 funcionários já passaram pelo programa. Atualmente, são 17 ativos. Orlandi traz alguns números: “com menos de 100 publicações geradas pelos embaixadores, já ultrapassamos 140 mil visualizações nas redes sociais apenas em 2025”. O conteúdo compartilhado inclui histórias de carreira, bastidores do dia a dia, curiosidades sobre os produtos,, ações de voluntariado, conquistas pessoais e coletivas, em plataformas como LinkedIn e Instagram, corporativo ou pessoal.

Analista de marketing, Ana Sandoval é influenciadora da PepsiCo desde 2024. Ela conta, no entanto, que já compartilhava sua rotina de estagiária nas redes sociais antes mesmo de entrar oficialmente para o programa de funcionários-influenciadores da companhia. “Eu gostava de mostrar os bastidores porque muita gente nem imagina o mundo que está por trás de cada uma das marcas da PepsiCo”, diz. “Estar em uma multinacional, tendo me formado em engenharia de alimentos, sempre foi uma realização pessoal, então mostrar esse dia a dia era quase natural para mim.”

Sandoval conta que conheceu a PepsiCo na graduação, em palestra com um dos influenciadores. “Lembro quão inspirada me senti”, relata. “Naquele dia, tive certeza de que queria fazer parte da empresa e, um dia, causar o mesmo impacto em outras pessoas.”

Hoje, Sandoval compartilha nas redes um pouco da sua rotina, bastidores do escritório, fábrica, inovação de produtos e iniciativas da PepsiCo. “As pautas surgem naturalmente”. Ela publica no LinkedIn e Instagram, e diz dedicar entre duas e três horas por semana para pensar nas ideias, gravar e editar conteúdos. “Algo que encaixo facilmente entre as entregas do trabalho.”

Trainee de marketing, Aline Victória Campos Garcia também é funcionária-influenciadora, desde 2021, mas na Nestlé. Assim como Sandoval, da PepsiCo, ela já compartilhava sua rotina de estágio na Nestlé nas redes antes de entrar no programa, principalmente via stories do Instagram. “Gostava muito de interagir com meus amigos e seguidores contando mais sobre o meu dia”, diz. “Eu era estagiária na área de employer branding, e querendo buscar por uma maior visibilidade da nossa marca empregadora, comecei a compartilhar mais da minha rotina nas redes.”

Ela conta que, no início, se limitava a compartilhar sobre sua rotina no escritório, “desde o momento da chegada, almoço, reuniões e cafezinho”. Depois de um tempo, com o reconhecimento interno das marcas e outras áreas, passou a gravar conteúdos sobre lançamentos de produtos, campanhas e iniciativas da empresa. “O legal é que isso me desafia a trabalhar em uma gravação mais profissional, caprichar na edição e fazer com que o meu conteúdo faça jus com a qualidade do produto”, comenta. “Também sou convidada para marcar presença em eventos onde as marcas Nestlé são patrocinadoras, às vezes até com presença VIP”, diz, citando que já foi para eventos de games e festivais de música como Rock in Rio e The Town.

Campos publica no Instagram e no TikTok. “Aproveito o meu retorno para casa no transporte público pra editar os vídeos do dia e interagir com os novos seguidores, que normalmente querem tirar dúvidas sobre oportunidades de vagas, carreira e produtos Nestlé.”

Anahi Guedes, diretora de comunicação corporativa na Nestlé, comenta que a ideia do programa é justamente fortalecer a marca empregadora. “A iniciativa nasceu dentro da área de comunicação interna e ganhou corpo, tornando-se uma estratégia transversal que une cultura, marketing e marcas”, detalha. Ela diz que a companhia acredita que os funcionários são seus melhores porta-vozes, pois vivenciam de perto os valores, produtos e iniciativas da empresa. “O programa nasceu para potencializar essa voz, unindo autenticidade, credibilidade e pertencimento.”

A participação é aberta a todos os funcionários da Nestlé no Brasil. Hoje, mais de 1.500 empregados participam do programa, incluindo profissionais de fábricas, escritórios, campo, centros de distribuição e promotores de vendas. Segundo Guedes, há desde aprendizes e trainees até diretores. “Nos últimos três anos, o programa já gerou quase 60 milhões de visualizações orgânicas, mais de 4 mil conteúdos publicados e 2,5 milhões de engajamentos”, conta a executiva. “Além de fortalecer a reputação e a marca empregadora, o programa contribui diretamente para o clima organizacional, pois os colaboradores se sentem valorizados e reconhecidos como parte ativa da construção das marcas.”

Na Porto, seguradora, a escolha foi transformar os corretores em influenciadores – são 46 mil no total. Por meio de uma plataforma disponibilizada em julho, os selecionados tiveram acesso à capacitação em letramento digital, inteligência artificial generativa e estratégia de conteúdo. “A proposta é aprimorar as habilidades dos corretores para atuarem com protagonismo no ambiente digital, consolidando sua autoridade no setor e gerando leads qualificados”, explica Patrícia Coimbra, diretora de gente e cultura da Porto.

Para apoiar essa prática, a empresa inaugurou os Estúdios Porto, em sua matriz em São Paulo, e criou espaços de gravação em sucursais pelo país. A seleção dos influenciadores leva em conta o engajamento com iniciativas da companhia, como a participação em treinamentos. A primeira turma recebeu 3 mil inscrições.

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Novo luxo da geração Z: como o ‘modo off’ virou símbolo de status e forma de ostentação pessoal

Cansados da hiperconexão, jovens aderem à tendência de usar o silêncio digital como forma de expressar exclusividade

Por Alexandre Barreto – Estadão – 14/11/2025

Cada vez mais jovens estão optando por “viver no off”, mas agora o gesto ganhou outro sentido: desconectar virou símbolo de status. Mesmo sendo a geração mais digital da história, a geração Z transformou o ato de silenciar notificações, ignorar mensagens e sumir das redes em uma forma de ostentar exclusividade e controle – como se estar offline fosse o novo luxo em meio ao excesso de conexão.

A tendência também se reflete no Instagram e TikTok: nos últimos três meses, centenas de postagens com a frase “viver no off é o novo luxo”, mostrando paisagens, cafés e encontros presenciais, foram publicadas por diferentes usuários.

Uma pesquisa nacional da Pluxee, divulgada em agosto de 2025, aponta que 67% dos mais de 2,9 mil entrevistados reduziram o tempo de uso nas redes, desativaram ou até excluíram seus perfis. O movimento é puxado principalmente pelas pessoas de 18 a 24 anos, que lideram o hábito de passar menos tempo conectadas às redes sociais.

Júlia Moura, 23 anos, começou a tratar o offline como um status social em 2024. Ela conta que, desde então, passou a ser mais procurada pelas pessoas. “Meus amigos me chamam mais, querem saber o que estou fazendo. É algo que não rolava antes. O interesse surgiu depois que comecei a ficar off”, diz.

Para você

A jovem afirma que estabeleceu limites de tempo e só abre o WhatsApp pela manhã e à noite. Ela usa uma conta anônima para acompanhar publicações no Instagram e no TikTok, mas deixa seu perfil original desativado. “Acredito que é chique ter essa postura. Eu era daquelas pessoas que postava tudo: os pratos que comia, os lugares ‘aesthetic’ que ia, só para engajar no feed. Até digo para algumas amigas que sumir é uma forma de ostentar, já que nem todos conseguem”, conta Júlia.

À frente da HAPU, agência que aproxima marcas da geração Z, a especialista Rafaela Varella diz que conseguir se desconectar virou um privilégio hoje em dia. “É um novo tipo de luxo: do tempo, da atenção e da tranquilidade. O modo ‘não perturbe’ acabou se transformando em um símbolo de status moderno, ele representa o poder de escolher quando estar disponível e quando não estar”, conta.

Ela ainda aponta que, em um ambiente em que tudo é registrado e compartilhado, a forma como os jovens escolhem se mostrar ou não se tornou uma estratégia de identidade. Varella diz que escolher não se expor virou um gesto de afirmação, e o “não estar lá” também comunica. “É uma forma de dizer que eu existo para além do que posto”, afirma.

Por que ficar offline se tornou algo tão valorizado?

O excesso de estímulos digitais tem alimentado um fenômeno recente descrito por pesquisadores da Universidade de Oxford como brain rot, o esgotamento mental causado pelo fluxo constante de conteúdo. O termo define o impacto da exposição contínua a informações e notícias negativas, que tem deixado a geração Z cada vez mais sobrecarregada e desmotivada.

O psicólogo e especialista em psicoterapia Gabriel Mendes, formado pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), explica que boa parte das vivências das novas gerações acontece no mundo virtual. Segundo ele, o acesso constante a distrações digitais cria a sensação de estar “sempre disponível”, o que gera cansaço e enfraquece as relações presenciais. “Essa digitalização da vida, em nome da suposta praticidade que o online traz, fez com que nos tornássemos cada vez mais dependentes da conexão virtual”, diz.

E nesse sentido, muitos jovens têm decidido se desconectar: apagam suas contas, trocam o smartphone por celulares de flip, redescobrem hobbies e adotam um estilo de vida mais simples. Câmeras analógicas, livros de bolso e até os chamados “dumbphones” voltaram a fazer parte do dia a dia dessa geração. “Esse tipo de produto renasce justamente da necessidade de simplificar e reconstruir uma relação mais saudável com a tecnologia”, explica Rafaela Varella.

Assim conseguir ficar off vira uma peça de luxo — nem que seja uma desconexão meticulosamente controlada e planejada.

Ficar offline não é só uma tendência, é uma nova expressão cultural

Queren Hapuque, especialista em comportamento da geração Z, observa de perto as transformações e tendências na forma como os jovens se relacionam com o mundo e com o consumo. Ela explica que o ato de “ficar off” deixou de ser apenas uma escolha pessoal e passou a ser uma expressão cultural.

“Existe um valor social associado a quem escolhe estar menos presente nas redes, e isso acabou se traduzindo em estética. Essa ideia surge nas escolhas de lazer, como cerâmica, jardinagem e clubes de leitura, que remetem ao analógico e comunicam uma mentalidade de ritmo próprio num mundo acelerado”, diz Queren. Assim, estar desconectado da internet passou a ser visto como um ostentação pessoal para muitos jovens: é a liberdade de usar a tecnologia por escolha, e não por necessidade.

Para Carlos Ramos, 21 anos, “tudo é um status”. Ele diz que, hoje em dia, as pessoas que afirmam estar desconectadas passam a impressão de encarar isso como um luxo e até se vangloriam por isso. O jovem costuma ficar offline como uma forma de preservar a privacidade e se sentir mais exclusivo. “Eu deixo muita gente sem resposta e as pessoas cobram. Eu não fico esperando resposta de ninguém”, conta. “Uso o off quando quero curtir o momento sem pensar em like, comentário ou visualização. Quero aproveitar de verdade”, complementa.

A pesquisa da Pluxee, realizada em maio de 2025, mostra que o uso diário das redes também caiu entre os entrevistados: 51% no Facebook, 48% no Instagram e 41% no TikTok. A maioria dos brasileiros passa no máximo duas horas por dia online e pretende reduzir ainda mais, motivada pela ansiedade e pela sensação de perda de tempo.

“O que a gente tem percebido é que a presença digital dessa geração está cada vez mais pautada por intenção. A gen Z continua muito conectada, mas agora de forma mais consciente. Ela quer que o digital reflita quem ela é, e não o contrário”, pontua Queren. “A desconexão virou um novo código cultural. Tudo hoje reflete essa vontade de dominar o próprio tempo, de viver de um jeito menos padronizado e mais autêntico”, explica

Novo luxo da geração Z: como o ‘modo off’ virou símbolo de status e forma de ostentação pessoal – Estadão

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Da automação aos agentes de IA: a nova fronteira da transformação digital

A próxima revolução do software corporativo está em arquiteturas que tornam a inteligência contínua e integrada a cada fluxo de negócio

ENRIQUE DANS – Fast Company Brasil – 12-11-2025 

Executivos adoram dizer que estão “adotando IA” em seus negócios. Mas a maioria ainda enxerga a inteligência artificial como um acessório, não como algo central: colocam um chatbot aqui, automatizam um relatório ali – e chamam isso de transformação. É o mesmo erro que muitas empresas cometeram no início da internet, quando criavam sites que funcionavam apenas como vitrines digitais, sem repensar seus modelos de negócio a partir da interação online.

A IA não é um complemento. É uma camada estrutural que pode redefinir como as empresas funcionam – dos fluxos de trabalho às decisões e produtos. Quem tratá-la como um simples enfeite vai ficar para trás; quem a incorporar à estrutura do negócio vai liderar.

Como disse o estrategista de produto Connor Davis, “em breve, toda grande empresa terá uma camada agente – um sistema que não só automatiza tarefas, como também as organiza e conecta entre diferentes áreas.”

Essa diferença é fundamental. Automação é sobre eficiência: fazer o que já se faz, só que de forma mais rápida e barata. Agência é sobre delegar: deixar que o sistema tome decisões, coordene ações e até gerencie outros softwares por você. É a evolução de ferramentas que apenas seguem comandos para assistentes que entendem o contexto.

A mudança parece sutil, mas é profunda. Quando uma equipe financeira usa um modelo de linguagem para resumir relatórios trimestrais, isso é automação. Quando esse mesmo sistema identifica anomalias, ajusta projeções e envia recomendações ao diretor financeiro, isso é agência.

Empresas que perceberam essa virada já estão se reorganizando. Elas não estão apenas integrando IA aos seus processos – estão redesenhando todo o fluxo de trabalho em torno da inteligência artificial.

O QUE SIGNIFICA SER “IA FIRST”

Colocar a inteligência artificial no centro de tudo – o tão falado “IA first” –, não significa usar o modelo mais recente nem adicionar recursos generativos. Significa criar produtos e processos que já nascem com inteligência integrada – como parte do seu DNA.

Como explicou Andrew Bolis: “a IA será a camada que conecta e orquestra todas as ferramentas SaaS [software como serviço]. Em vez de pessoas pulando de um aplicativo para outro, os agentes executarão suas intenções de forma automática entre os sistemas.”

Esse é o futuro dos softwares corporativos. Hoje, as pessoas ainda são o elo entre ferramentas – copiando dados entre CRMs, planilhas e dashboards. No futuro, a camada agente fará isso automaticamente, transformando sistemas isolados em um único “organismo” inteligente e adaptável.

Essa evolução lembra o que aconteceu quando as APIs mudaram a internet. No início, as empresas criavam aplicativos separados. Depois, as APIs começaram a conectá-los. Agora, os agentes de IA farão o mesmo – mas também tomarão decisões.

OS TRÊS PILARES DE UMA ARQUITETURA IA FIRST

Empresas que realmente colocam a IA no centro têm três pilares em comum:

  • Um sistema de dados inteligente, não apenas um repositório
    Sistemas tradicionais apenas armazenam informações; sistemas IA first as compreendem. Isso exige criar camadas contextuais – como embeddings, grafos de conhecimento e mecanismos de busca semântica – que permitam acessar dados em linguagem natural e usá-los em tempo real.
  • Uma interface baseada em linguagem
    Se sua equipe ainda precisa clicar em menus e navegar por painéis, vocês estão atrasados. Em empresas IA first, a interação acontece por meio da linguagem – por voz, texto ou comandos sensíveis ao contexto. A interface se torna conversacional porque o trabalho passa a ser cognitivo.
  • Uma camada de agentes autônomos

Toda empresa IA first precisa de uma camada de orquestração que possa agir de forma autônoma dentro de limites definidos. Esses agentes não apenas buscam informações: eles executam tarefas – escrevem códigos, agendam reuniões, fazem compras, atendem clientes e realizam verificações de compliance. A questão não é se eles funcionam, mas o quanto você está disposto a confiar neles.

A MUDANÇA CULTURAL QUE OS EXECUTIVOS PRECISAM LIDERAR

Essa transformação não é só técnica – é, acima de tudo, cultural. Construir uma organização IA first exige que líderes deixem para trás décadas de pensamento linear sobre processos e hierarquias.

A pergunta agora não é mais “como a tecnologia pode ajudar nossos funcionários”, mas “como os funcionários podem supervisionar uma tecnologia que trabalha ao lado deles”. O gestor de amanhã não vai apenas liderar pessoas – vai coordenar pessoas e agentes.

Executivos que enxergam a IA apenas como mais uma ferramenta não vão perceber essa mudança. A questão certa a se fazer não é “qual software comprar”, e sim “quais decisões estamos prontos para delegar às máquinas”.

Essa nova era exige um modelo de governança diferente: limites éticos claros, transparência sobre dados e mecanismos de supervisão que garantam que as decisões da inteligência artificial sejam auditáveis e explicáveis. Empresas que não definirem essas regras desde cedo acabarão com sistemas que funcionam – mas que servem aos objetivos errados.

O futuro dos agentes de IA não é algo distante – ele já chegou. A grande pergunta é: sua empresa está pronta para parar de testar e começar a delegar?


SOBRE O AUTOR

Enrique Dans leciona inovação na IE Business School desde 1990, hackeando a educação como consultor sênior de transformação digital na IE University e agora se dedicando ainda mais à Turing Dream.

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Pesquisadores dos EUA dizem que Embrapa revolucionou agricultura

Estudo de pesquisadores americanos destaca a importância do investimento público para impulsionar o crescimento do Brasil no campo

Por Rafael Walendorff — Valor – 11/11/2025 

Pesquisadores de importantes universidades e institutos dos Estados Unidos publicaram um “paper” em que mostram os efeitos da atuação da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) para o aumento da produtividade agrícola do Brasil em mais de 50 anos. O texto aponta a importância do investimento público para impulsionar o crescimento do Brasil no campo, chamado por eles de “revolução agropecuária”, e escapar da “armadilha da incompatibilidade tecnológica”.

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O exemplo da Embrapa mostra o poder da transformação de um país em desenvolvimento a partir da tração dada à pesquisa pública, dizem os autores, já que os investimentos nessa área estão concentrados em países de alta renda. O destaque é para a atuação descentralizada da empresa — que tem 43 centros de pesquisa espalhados pelo país.

“Constatamos que o investimento público em P&D aumentou a produtividade agrícola nacional em 110%, com uma relação custo-benefício de 17 para 1”, afirmaram os pesquisadores Ariel Akerman, do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), Jacob Moscona, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), Heitor S. Pellegrina, da Universidade de Notre Dame, e Karthik Sastry, da Universidade de Princeton.

Com a COP30 em Belém (PA) nos holofotes do mundo e a produção agropecuária brasileira no centro dos debates globais sobre sustentabilidade e segurança alimentar e climática, o achado dos pesquisadores tem despertado a curiosidade de outros estudiosos sobre o “case de sucesso” do Brasil.

Na última semana, Arpit Gupta, professor associado de finanças na escola de negócios da Universidade de Nova York (NYU Stern School of Business), elogiou o estudo e a relação custo-benefício da intervenção da Embrapa no aumento da produtividade agrícola brasileira. “Outro excelente artigo que demonstra o sucesso da política industrial da Embrapa, permitindo ao Brasil melhorar drasticamente a produtividade agrícola em seu território. Até hoje, a Embrapa emprega 2.300 cientistas agrícolas, número comparável ao do USDA”, publicou no X.

Os pesquisadores afirmam que a Embrapa é “talvez o exemplo mais proeminente de um programa de P&D financiado publicamente em um país em desenvolvimento”. O estudo é intitulado “P&D pública encontra desenvolvimento econômico: Embrapa e a revolução agropecuária brasileira”.

Investimento em pesquisa

A Embrapa ainda pena para equilibrar seu orçamento para custeio de novas pesquisas com dinheiro público enquanto busca outras fontes para engordar seu caixa. Nos últimos dez anos, os repasses da União para essa finalidade caíram 80%. Em 2025, o valor voltou a crescer e chegou a R$ 317,3 milhões. Parte foi cortada e cerca de R$ 31 milhões estão cancelados. Os recursos efetivamente usados estão em R$ 272,3 milhões.

“A Embrapa permanece em negociação contínua com o Ministério da Agricultura e o Ministério do Planejamento e Orçamento a fim de buscar a recomposição dos valores suspensos para que não haja impactos sobre a pesquisa agropecuária”, disse a assessoria recentemente. O projeto de lei orçamentária de 2026 prevê R$ 270 milhões para a pesquisa da Embrapa. O orçamento total passa de R$ 4 bilhões, principalmente para o pagamento de salários.

No estudo, os pesquisadores cruzaram dados de censos agropecuários do Brasil, informações sobre os cientistas da Embrapa, a localização das unidades da estatal e os números da produção municipal de milho, soja, arroz, cana, café e cacau de 1950 a 2017. O trabalho avaliou a evolução da produtividade agrícola em linha com a criação da empresa de pesquisa, em 1973, e a expansão dela pelo interior.

“A estrutura descentralizada da Embrapa, na qual os laboratórios de pesquisa estavam distribuídos por diversas zonas ecológicas em vez de concentrados em um único polo, explica mais da metade desses ganhos [de produtividade]”, diz o estudo publicado na National Bureau of Economic Research (NBER), organização privada e sem fins lucrativos dos EUA que realiza pesquisas econômicas de ponta.

Na avaliação dos pesquisadores, a Embrapa “redirecionou a pesquisa para culturas básicas de importância local e para as condições ecológicas específicas do Brasil, em parte, sustentando pesquisas produtivas mesmo em regiões remotas e com escassez de recursos para pesquisa”. O estudo aponta que a Embrapa é capaz de alterar o foco, a trajetória e a produtividade do desenvolvimento científico e tecnológico no setor agrícola.

Segundo eles, a Embrapa afetou positivamente a produção agrícola, a partir da implantação das unidades descentralizadas de pesquisa e a geração de novas cultivares. O alcance geográfico da empresa desempenha um papel importante para os resultados atuais. Os pesquisadores dos EUA estimam que se a estatal operasse a partir de uma única sede central em vez dos 43 centros de pesquisas dispersos pelo país, o ganho na produtividade teria sido de 47% e não de 110%.

“Análises contrafactuais sugerem que o alcance geográfico dos esforços de pesquisa da Embrapa e o desenvolvimento de tecnologia apropriada para as variadas condições ecológicas do Brasil foram um mecanismo importante. Em conjunto, esses resultados sugerem que o investimento em P&D pública pode ser um componente importante da política de desenvolvimento e um catalisador para o crescimento da produtividade”, conclui o estudo.

Pesquisadores dos EUA dizem que Embrapa revolucionou agricultura

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‘Podridão cerebral’: como a IA e as redes sociais estão contribuindo para o declínio cognitivo?

Estudos indicam que ferramentas de pesquisa com inteligência artificial, chatbots e redes sociais estão associados a um desempenho cognitivo inferior, conhecido como ‘brain rot’

Por Brian X. Chen – Estadão/The New York Times – 11/11/2025 

No primeiro semestre, Shiri Melumad, professora da Wharton School, da Universidade da Pensilvânia, deu a um grupo de 250 pessoas uma tarefa simples de redação: compartilhar conselhos com um amigo sobre como levar um estilo de vida mais saudável. Para dar dicas, alguns puderam usar a pesquisa tradicional do Google, enquanto outros puderam contar apenas com resumos de informações gerados automaticamente pela inteligência artificial (IA) do Google.

As pessoas que usaram resumos gerados por IA escreveram conselhos genéricos, óbvios e em grande parte inúteis — coma alimentos saudáveis, mantenha-se hidratado e durma bastante! As pessoas que encontraram informações com uma pesquisa tradicional no Google compartilharam conselhos mais sutis sobre como se concentrar nos vários pilares do bem-estar, incluindo saúde física, mental e emocional.

Uso excessivo de IAs e redes sociais pode estar associado ao baixo desempenho escolar de crianças 

A indústria de tecnologia nos diz que os chatbots e as novas ferramentas de pesquisa de IA irão impulsionar a maneira como aprendemos e prosperamos, e que qualquer pessoa que ignore a tecnologia corre o risco de ficar para trás. Mas o experimento de Melumad, assim como outros estudos acadêmicos publicados até agora sobre os efeitos da IA no cérebro, descobriu que as pessoas que dependem muito de chatbots e ferramentas de pesquisa com IA para tarefas como escrever textos e realizar pesquisas geralmente têm um desempenho pior do que as pessoas que não os utilizam.

“Para ser sincera, estou bastante assustada”, diz Melumad. “Estou preocupada com o fato de os jovens não saberem como fazer uma pesquisa tradicional no Google.”

Para você

Bem-vindo à era da “podridão cerebral”, gíria usada para descrever a deterioração do estado mental causada pelo contato com conteúdo de baixa qualidade na internet. Quando a Oxford University Press, editora do Oxford English Dictionary, elegeu “brain rot” (podridão cerebral) como a palavra do ano em 2024, a definição se referia à como aplicativos de mídia social, como TikTok e Instagram, viciaram as pessoas em vídeos curtos, transformando seus cérebros em mingau.

Se a tecnologia torna as pessoas mais burras é uma questão tão antiga quanto a própria tecnologia. Sócrates culpou a invenção da escrita por enfraquecer a memória humana. Recentemente, em 2008, muitos anos antes da chegada dos resumos da web gerados por IA, a revista The Atlantic publicou um ensaio intitulado “O Google está nos tornando burros?”. Essas preocupações acabaram sendo exageradas.

Mas a crescente desconfiança da academia em relação ao impacto da IA na aprendizagem (além das preocupações mais antigas sobre a natureza distrativa dos aplicativos de mídia social) é uma notícia preocupante para os EUA, um país cujo desempenho em compreensão de leitura já está em declínio acentuado.

Neste ano, as notas em leitura entre crianças, incluindo alunos do oitavo ano e do último ano do ensino médio, atingiram novos mínimos. Os resultados, coletados pela Avaliação Nacional do Progresso Educacional, há muito considerada o exame mais confiável dos EUA, foram os primeiros desse tipo a serem publicados desde que a pandemia da covid-19 interrompeu a educação e aumentou o tempo de tela entre os jovens.

Os pesquisadores temem que haja cada vez mais evidências de uma forte ligação entre o baixo desempenho cognitivo e a inteligência artificial e as redes sociais. Além de estudos recentes que descobriram uma correlação entre o uso de ferramentas de inteligência artificial e o declínio cognitivo, um novo estudo liderado por pediatras descobriu que o uso das redes sociais estava associado a um desempenho inferior entre crianças que faziam testes de leitura, memória e linguagem.

Aqui está um resumo das pesquisas realizadas até agora e como usar a IA de uma forma que estimule — em vez de prejudicar — o cérebro.

Quando escrevemos com o ChatGPT, estamos realmente escrevendo?

O estudo mais importante deste ano sobre os efeitos da IA no cérebro foi realizado pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts, onde pesquisadores procuraram entender como ferramentas como o ChatGPT, da OpenAI, poderiam afetar a forma como as pessoas escrevem. O estudo, que envolveu 54 estudantes universitários, teve uma amostra pequena, mas os resultados levantaram questões importantes sobre se a IA poderia prejudicar a capacidade de aprendizagem das pessoas.

Para parte do estudo, os estudantes foram solicitados a escrever uma redação de 500 a mil palavras e foram divididos em diferentes grupos: um grupo podia escrever com a ajuda do ChatGPT, um segundo grupo podia pesquisar informações apenas com uma pesquisa tradicional no Google e, um terceiro grupo, podia contar apenas com seus cérebros para compor sua tarefa.

Os alunos usavam sensores que mediam a atividade elétrica em seus cérebros. Os usuários do ChatGPT apresentaram a menor atividade cerebral, o que não foi surpreendente, já que estavam deixando o chatbot de IA fazer o trabalho.

Mas a revelação mais impressionante surgiu depois que os alunos terminaram o exercício de redação. Um minuto após concluírem suas redações, os alunos foram solicitados a citar qualquer parte de suas redações. A grande maioria dos usuários do ChatGPT (83%) não conseguiu se lembrar de uma única frase.

Em contrapartida, os alunos que usaram o mecanismo de busca do Google conseguiram citar algumas partes, e os alunos que não usaram nenhuma tecnologia conseguiram recitar várias frases, com alguns até citando quase toda a redação literalmente.

“Já se passou um minuto e você realmente não consegue dizer nada?”, disse Nataliya Kosmyna, cientista pesquisadora do MIT Media Lab que liderou o estudo sobre os usuários do ChatGPT. “Se você não se lembra do que escreveu, não sente propriedade. Você ao menos se importa?”

Embora o estudo tenha se concentrado na redação de ensaios, Kosmyna diz que se preocupa com as implicações para as pessoas que usam chatbots de IA em áreas onde a retenção é essencial, como um piloto que estuda para obter uma licença. Ela afirmou que é urgente realizar mais pesquisas sobre como a IA afeta a capacidade das pessoas de reter informações.

As redes sociais podem estar associadas a notas mais baixas em leitura

Nos últimos dois anos, escolas em estados como Nova York, Indiana, Louisiana e Flórida correram para proibir celulares nas salas de aula, alegando preocupações de que os alunos estivessem se distraindo com aplicativos de redes sociais como TikTok e Instagram. Dando credibilidade às proibições, um estudo publicado no mês passado descobriu uma forte ligação entre o uso das redes sociais e um desempenho cognitivo mais fraco.

No mês passado, a revista médica JAMA publicou um estudo conduzido pela Universidade da Califórnia, em São Francisco. O Dr. Jason Nagata, pediatra que liderou o estudo, e seus colegas analisaram dados do ABCD (Adolescent Brain Cognitive Development, Desenvolvimento Cognitivo do Cérebro Adolescente), um projeto de pesquisa que acompanhou mais de 6.500 jovens de 9 a 13 anos de idade, entre 2016 e 2018.

Todas as crianças foram pesquisadas uma vez por ano sobre quanto tempo usavam as redes sociais. A cada dois anos, elas faziam vários testes. Por exemplo, um teste de vocabulário visual envolvia combinar corretamente imagens com palavras que ouviam.

Os dados mostraram que as crianças que relataram usar poucas redes sociais (uma hora por dia) até muitas (pelo menos três horas por dia) tiveram notas significativamente mais baixas nos testes de leitura, memória e vocabulário do que as crianças que relataram não usar redes sociais.

Quanto ao motivo pelo qual aplicativos de redes sociais, como TikTok e Instagram, prejudicariam as notas dos testes, a única conclusão segura é que cada hora que uma criança passa navegando pelos aplicativos tira tempo de atividades mais enriquecedoras, como ler e dormir, disse o Dr. Nagata.

Quais são algumas maneiras mais saudáveis de usar as redes sociais e a inteligência artificial?

Apesar das descobertas de uma correlação entre o uso das redes sociais e o declínio cognitivo, seria difícil recomendar uma quantidade ideal de tempo de tela para os jovens, porque muitas crianças passam tempo na frente das telas fazendo coisas não relacionadas às redes sociais, como assistir a programas de TV, disse o Dr. Nagata.

Em vez disso, ele sugeriu que os pais imponham zonas livres de telas, proibindo o uso do telefone em áreas como o quarto e a mesa de jantar, para que as crianças possam se concentrar nos estudos, no sono e nas refeições.

A Meta não respondeu a um pedido de comentário. Uma porta-voz do TikTok indicou uma página da web com instruções para configurar o Time Away, uma ferramenta para os pais criarem horários em que seus filhos adolescentes podem usar o TikTok.

Quanto aos chatbots de IA, houve uma reviravolta interessante no estudo do MIT que apresentou uma possível solução sobre como as pessoas poderiam usar melhor os chatbots para aprender e escrever.

Por fim, os grupos desse estudo trocaram de papéis: as pessoas que dependiam apenas de seus cérebros para escrever passaram a usar o ChatGPT, e as pessoas que dependiam do ChatGPT passaram a usar apenas seus cérebros. Todos os alunos escreveram redações sobre os mesmos tópicos que haviam escolhido anteriormente.

Os alunos que inicialmente dependiam apenas de seus cérebros registraram a maior atividade cerebral quando lhes foi permitido usar o ChatGPT. Os alunos que inicialmente usaram o ChatGPT, por outro lado, nunca ficaram no mesmo nível do primeiro grupo quando foram restringidos a usar apenas seus cérebros, disse Kosmyna.

Isso sugere que as pessoas que desejam usar chatbots para escrever e aprender devem considerar iniciar o processo por conta própria antes de recorrer às ferramentas de IA mais tarde no processo para revisões, semelhante aos alunos de matemática que usam calculadoras para resolver problemas somente depois de terem usado lápis e papel para aprender as fórmulas e equações. Tanto o Google quanto a OpenAI se recusaram a comentar.

Melumad, professora da Wharton, que liderou o estudo anterior envolvendo ferramentas de pesquisa de IA, diz que o problema com essas ferramentas era que elas transformavam o que antes era um processo ativo em seu cérebro — examinar links e clicar em uma fonte confiável para ler — em um processo passivo, automatizando tudo isso.

Portanto, talvez a chave para usar a IA de maneira mais saudável, diz ela, seja tentar ser mais consciente sobre como a utilizamos. Em vez de pedir a um chatbot para fazer toda a pesquisa sobre um tema amplo, diz Melumad, use-o como parte do seu processo de pesquisa para responder a pequenas perguntas, como procurar datas históricas. Mas, para um aprendizado mais profundo sobre um assunto, considere ler um livro.

‘Podridão cerebral’: como a IA e as redes sociais estão contribuindo para o declínio cognitivo? – Estadão

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Como descobrir se o vídeo que você está vendo é real ou gerado por IA

Thomas Germain – BBC Future – 7 novembro 2025

Pronto! Está chegando a sua vez de ser enganado. Talvez você até já tenha sido.

Nos últimos seis meses, os geradores de vídeo por inteligência artificial (IA) ficaram tão bons que a nossa relação com as câmeras está azedando.

Isso é o que vai acabar acontecendo alguma hora, na melhor das hipóteses: você será enganado várias vezes, até que não aguentará mais e passará a questionar tudo o que vê. Bem-vindo ao futuro!

Mas, por enquanto, ainda existem alguns sinais de alerta para identificar quando um vídeo é real ou não.

Um desses pontos se destaca. Se você assistir a um vídeo com baixa qualidade de imagem (filmagem borrada ou granulada), pode ligar o seu “desconfiômetro”: você pode estar assistindo a um vídeo gerado por IA.

“É um dos primeiros pontos que procuramos”, afirma o professor de Ciências da Computação Hany Farid, da Universidade da Califórnia em Berkeley, nos Estados Unidos. Ele é pioneiro no campo forense digital e fundador da empresa de detecção de deepfakes (imagens falsas) GetReal Security.

É verdade que as ferramentas de vídeo com IA ficarão cada vez melhores e este conselho, em breve, será inútil. Poderá levar meses ou, talvez, anos. É difícil dizer, desculpe!

Mas, se você navegar pelas nuances desse assunto comigo por um minuto, esta dica pode evitar que você assista a algum lixo criado com IA, até aprender a mudar a forma em que você encara a verdade.

Sejamos claros. Não se trata de uma prova concreta. A verdade é que os vídeos de IA não costumam ter má qualidade. As melhores ferramentas de IA podem fornecer clipes bonitos e sofisticados. E os clipes de baixa qualidade também não são, necessariamente, feitos com IA.

“Se você observar algo realmente com má qualidade, isso não significa que ela seja fake. Não há nenhum significado nefasto nisso”, afirma o professor Matthew Stamm, chefe do Laboratório de Segurança da Informação e Multimídia da Universidade Drexel, nos Estados Unidos.

A questão, na verdade, é que os vídeos de IA borrados e pixelados são aqueles com maior probabilidade de nos enganar, pelo menos por enquanto. Eles são um sinal para observarmos mais de perto o que estamos assistindo.

Vídeos borrados e pixelados podem esconder inconsistências criadas pela inteligência artificial e enganar as pessoas com mais facilidade

“Os principais geradores de texto para vídeo como o Veo, da Google, e o Sora, da OpenAI, ainda produzem pequenas inconsistências”, explica Farid. “Mas não são mãos com seis dedos ou texto truncado. É algo mais sutil.”

Mesmo os modelos mais avançados de hoje em dia, muitas vezes, introduzem problemas como texturas de pele excepcionalmente macias, padrões estranhos ou inconstantes dos cabelos e das roupas ou pequenos objetos de fundo que se movem de formas impossíveis ou não realistas.

Tudo isso passa facilmente despercebido. Mas, quanto mais clara for a imagem, maior é a probabilidade de observarmos esses sinais de erros de IA. Daí vem a vantagem dos vídeos de menor qualidade.

Quando você pede à IA algo que pareça ter sido filmado em um telefone antigo ou em uma câmera de segurança, por exemplo, ela pode esconder os itens que poderiam revelar se tratar de inteligência artificial.

Nos últimos meses, alguns vídeos populares criados por IA enganaram inúmeras pessoas. E todos eles tinham um ponto em comum.

Um vídeo falso, mas divertido, de coelhos silvestres pulando sobre um trampolim teve mais de 240 milhões de visualizações no TikTok.

Milhões de pessoas românticas online clicaram no botão de “curtir” em um clipe que mostrava duas pessoas se apaixonando no metrô de Nova York, nos Estados Unidos. Elas enfrentaram a mesma decepção quando se descobriu que o vídeo era fake.

Eu mesmo caí em um vídeo viral de um pastor americano, em uma igreja conservadora, dando um sermão surpreendentemente de esquerda.

“Os bilionários são a única minoria de quem devemos ter medo”, berrava ele, com sotaque do sul dos EUA. “Eles têm o poder de destruir este país!”

Fiquei perplexo. Será que as nossas fronteiras políticas realmente desapareceram?

Não. Era simplesmente IA.

Resolução, qualidade e duração

O ponto em comum é que todos esses vídeos pareciam ter sido filmados de forma rudimentar.

Os coelhos de IA foram apresentados como uma filmagem feita à noite, por câmeras de segurança baratas.

O casal no metrô? Pixelado. O pastor imaginário? O vídeo parecia ter sido filmado de longe demais, com forte zoom.

E estes não eram os únicos sinais de alerta desses vídeos.

“Os três pontos que você deve observar são a resolução, a qualidade e a duração”, segundo Farid. Vamos começar pela duração, que é o mais fácil.

“Na sua maioria, os vídeos de IA são muito curtos, menores até que os clipes que costumamos observar no TikTok ou no Instagram, de cerca de 30 a 60 segundos. A imensa maioria dos vídeos que me solicitam verificar tem seis, oito ou 10 segundos de duração.”

Isso ocorre porque gerar vídeos com IA é caro. Por isso, a maior parte das ferramentas oferece, no máximo, clipes curtos.

Além disso, quanto mais longo for o vídeo, maior a probabilidade de que a IA apresente falhas.

“Você pode costurar diversos vídeos de IA, mas irá observar um corte a cada cerca de oito segundos”, explica Farid.

Os outros dois fatores — a qualidade e a resolução — apresentam relação entre si, mas são diferentes.

A resolução indica o número ou o tamanho dos pixels em uma imagem. E o processo de compressão reduz o tamanho de um arquivo de vídeo, extraindo seus detalhes. Muitas vezes, ela deixa para trás padrões de blocos e extremidades borradas.

Na verdade, Farid afirma que os fakes de baixa qualidade são tão convincentes que os criadores mal intencionados degradam seu trabalho de propósito.

“Se eu estiver tentando enganar as pessoas, o que faria? Eu geraria meu vídeo fake, reduziria a resolução de forma que você ainda pudesse assistir, mas retirando todos os pequenos detalhes. Depois, eu acrescentaria compressão, que ofuscaria ainda mais os possíveis sinais.”

“Esta é uma técnica comum”, segundo ele.

Quando você pede à IA algo que pareça ter sido filmado em uma câmera de segurança, ela consegue esconder os sinais que poderiam denunciar às pessoas que se trata de inteligência artificial

A questão é que, neste exato momento, as gigantes da tecnologia estão gastando bilhões de dólares para tornar a IA ainda mais realista.

“Tenho más notícias”, explica Stamm. “Estas dicas visuais, agora, estão aqui, mas deixarão de existir muito em breve.”

“Prevejo que essas indicações visuais desaparecerão dos vídeos em até dois anos, pelo menos as mais óbvias, pois elas já evaporaram de grande parte das imagens geradas por IA. Você simplesmente não pode confiar nos seus olhos.”

Mas isso não significa que a verdade seja uma causa perdida. Quando pesquisadores como Farid e Stamm verificam um conteúdo, eles contam com técnicas mais avançadas à sua disposição.

“Quando você gera ou modifica um vídeo, ele deixa para trás pequenos traços estatísticos que os nossos olhos não conseguem ver, como impressões digitais na cena de um crime”, explica Stamm. “Estamos observando o surgimento de técnicas que podem nos ajudar a observar e expor essas impressões digitais.”

Às vezes, a distribuição de pixels em vídeos falsos pode ser diferente da real, por exemplo, mas fatores como estes não são infalíveis.

As empresas de tecnologia também estão desenvolvendo novos padrões para verificar informações digitais. Basicamente, as câmeras poderão embutir informações no arquivo no momento em que criarem uma imagem, para ajudar a comprovar que ela é real.

Com o mesmo instrumento, as ferramentas de IA poderão acrescentar detalhes similares aos seus vídeos e imagens automaticamente, o que irá comprovar que elas são falsas. Stamm e outros especialistas afirmam que estas medidas podem ajudar.

A solução real, segundo o especialista em alfabetização digital Mike Caulfield, é começar a pensar diferente sobre aquilo que observamos online.

Procurar as indicações que a IA deixa para trás não é um conselho duradouro porque essas dicas estão sempre mudando, segundo ele. Em vez disso, Caulfield afirma que precisamos abandonar a ideia de que os vídeos ou imagens têm qualquer significado, quando estão fora de contexto.

“Meu ponto de vista é que, a longo prazo, o vídeo ficará mais parecido com o texto, a proveniência [a origem do vídeo] será mais importante que as características superficiais e podemos também nos preparar para isso”, explica ele.

Para evitar cair em vídeos falsos na era das imagens geradas por IA, é preciso ter sempre em mente qual a origem do conteúdo, quem o postou, qual o seu contexto e se ele foi verificado por uma fonte de confiança

Você nunca olha para um texto e considera que ele é verdadeiro simplesmente porque alguém o escreveu. Se houver alguma dúvida, você irá investigar a fonte da informação.

Vídeos e imagens costumavam ser diferentes, pois a sua manipulação e falsificação era mais difícil. Agora, isso acabou.

Atualmente, tudo o que interessa é de onde veio aquele conteúdo, quem o postou, qual o contexto e se ele foi verificado por uma fonte de confiança. A questão é quando, ou mesmo se, todos nós iremos aceitar este fato.

“Se eu puder ser um tanto pomposo, acho que este é o maior desafio de segurança da informação do século 21”, afirma Stamm. “Mas este problema surgiu há apenas alguns anos.”

“O número de pessoas trabalhando para resolvê-lo é comparativamente pequeno, mas vem crescendo rapidamente. Precisaremos de uma combinação de soluções, educação, políticas inteligentes e abordagens tecnológicas, tudo trabalhando em conjunto.”

“Não estou preparado para perder a esperança.”

* Thomas Germain é jornalista da BBC, especializado em tecnologia. Ele escreve há quase uma década sobre inteligência artificial, privacidade e os confins mais profundos da cultura da internet. Seu usuário é @thomasgermain no X (antigo Twitter) e no TikTok

Inteligência artificial: como descobrir se o vídeo que você está vendo é real – BBC News Brasil

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The Economist: O Airbnb quer oferecer mais do que apenas uma cama para dormir

Com crescimento desacelerado, a empresa investe em mercados emergentes e novas linhas de produtos para atrair mais usuários e aumentar sua participação no mercado global

Por Estadão/The Economist – 08/11/2025

Quando cofundou o Airbnb em 2007, Brian Chesky, então com 26 anos, era um recém-formado em design, de olhos brilhantes, que usava jeans e camisetas comuns. O chefe de tecnologia de 44 anos que recebe a revista The Economist vestido de preto da cabeça aos pés é uma figura bem diferente.

Assim como seu diretor executivo, o Airbnb também mudou com o tempo. A plataforma de reservas, que tem mais de 8 milhões de anúncios em quase todos os países, é “agora uma empresa madura”, insiste Chesky. Já se foram os dias de gastar dinheiro rapidamente para crescer.

A margem operacional do Airbnb no segundo trimestre foi de impressionantes 21%. Em agosto, a empresa anunciou que iria recomprar ações no valor de US$ 6 bilhões. Seu valor de mercado, de US$ 78 bilhões, ultrapassa o da Marriott, a maior rede hoteleira do mundo.

Para você

No entanto, os investidores temem que a maturidade tenha trazido estagnação. Embora as reservas feitas pela plataforma nos 12 meses até junho, no valor de US$ 86 bilhões, tenham representado um aumento de 10% em relação ao mesmo período do ano anterior, sua taxa de crescimento vem caindo.

Os analistas esperavam mais sinais de desaceleração quando a empresa divulgou seus resultados trimestrais em 6 de novembro. As ações do Airbnb caíram 11% no último ano. Para reacender o crescimento, ela está buscando novos mercados, novas linhas de produtos e novas tecnologias. O plano funcionará?

O Airbnb começou com Chesky e dois amigos alugando um colchão inflável na sala de estar de sua casa em São Francisco. A ideia de uma plataforma para ajudar as pessoas a abrir suas casas para hóspedes pagantes foi um sucesso, e logo o trio estava vendendo propriedades em nome de anfitriões em todo o mundo.

Em um frenesi de crescimento pré-pandêmico, a empresa se aventurou muito além do setor de hospedagem. Em 2016, ela criou um mercado para “experiências”, como passeios a pé, além de um guia turístico. Em 2019, montou um estúdio de cinema. Os custos aumentaram 45% naquele ano, mesmo com o crescimento da receita começando a desacelerar.

“Virou um caos”, reflete Chesky. “Eu não tinha ideia do que estava fazendo.” As lições que ele tirou desse período — incluindo a necessidade de manter o controle das decisões, estar atento aos detalhes e ter o menor número possível de funcionários — moldaram o estilo de liderança de Chesky desde então. (Paul Graham, um renomado investidor em startups, mais tarde usaria a abordagem de Chesky para ilustrar o que ele chamou de “modo fundador”.)

Então veio a pandemia da covid-19. Com as reservas paralisadas, Chesky viu uma oportunidade de reconstruir a empresa. Ele demitiu um quarto dos funcionários, fundiu divisões, removeu camadas de gestão e suspendeu a expansão para experiências. Apesar dos lockdowns, a estreia do Airbnb na bolsa de valores em dezembro de 2020 foi um sucesso, com suas ações mais que dobrando no mesmo dia. Quando as viagens foram retomadas, a empresa voltou a crescer rapidamente, ao se dedicar a corrigir várias reclamações dos usuários, incluindo a falta de transparência nas taxas, o excesso de anúncios de baixa qualidade e o atendimento ao cliente decepcionante.

Ultimamente, porém, o crescimento do Airbnb esfriou. A incerteza causada pelas tarifas intermitentes do presidente Donald Trump levou os consumidores a adiar a reserva de viagens. Autoridades políticas em cidades como Paris e Nova York implementaram restrições à plataforma, que consideram contribuir para o aumento dos preços das casas. A concorrência de sites de viagens como Booking.com e Expedia está se acirrando para aluguéis de curta duração. O tráfego na web para a Airbnb está diminuindo.

Em resposta, a empresa está buscando novas oportunidades de crescimento. Ela está se empenhando em expandir seus negócios de hospedagem para além dos seus cinco principais mercados: América, Austrália, Grã-Bretanha, Canadá e França, que representam cerca de metade das noites reservadas através da plataforma, de acordo com a AirDNA, uma provedora de dados.

O Airbnb aumentou as reservas no Brasil investindo em marketing local e adicionando opções de pagamento, e está tentando algo semelhante em outros países, incluindo a Índia, onde o turismo está em expansão. A AirDNA estima que o número de noites reservadas na plataforma está crescendo três vezes mais rápido em seus mercados menos estabelecidos do que em seus cinco países principais.

O Airbnb também está entrando no mercado de reservas de hotéis. Ellie Mertz, sua diretora financeira, estima que apenas uma em cada dez noites que os americanos passam fora de casa é em um Airbnb. A adição de hotéis deve ajudar a plataforma a atrair viajantes a negócios em particular. Os hotéis apreciam o Airbnb porque, ao contrário de outros sites de reservas, ela não gasta muito com anúncios no Google, que empurram seus próprios sites para baixo na lista de resultados de pesquisa.

Ao mesmo tempo, o Airbnb está se diversificando novamente, indo além do setor de hospedagem. Em maio, lançou um aplicativo atualizado que oferece não apenas um conjunto renovado de experiências, incluindo cozinhar com uma avó em Paris, mas também serviços, como treinamento pessoal com um fisiculturista campeão em Los Angeles.

E, em outubro, introduziu recursos sociais que permitem que os usuários que se conhecem por meio de uma experiência da Airbnb permaneçam em contato. Analistas esperam que aluguel de carros e um programa de fidelidade sejam os próximos passos.

Há motivos para ser cético. Muitos outros sites ajudam as pessoas a reservar atividades quando viajam; uma pesquisa do banco Wells Fargo sugere que o Viator, um rival, oferece dez vezes mais experiências em grandes cidades como Londres e Nova York. Muitos viajantes que procuram um cabeleireiro pesquisam no Google ou simplesmente vão ao shopping ou rua comercial mais próxima.

Durante uma visita a São Francisco, nossa correspondente pagou US$ 44 por uma aula de ginástica de uma hora no Airbnb, apenas para descobrir que a mulher ofegante ao seu lado pagou menos da metade disso no ClassPass, um site de reservas para exercícios físicos.

Depois, há a inteligência artificial (IA), que pode revolucionar as viagens. De acordo com uma pesquisa realizada este ano pela consultoria McKinsey, 55% dos americanos já usaram o ChatGPT da OpenAI ou uma ferramenta semelhante ao planejar uma viagem, contra 38% em 2024. Alguns podem começar a reservar quartos diretamente por meio desses serviços, assim que isso se tornar fácil.

Ao contrário de alguns concorrentes, o Airbnb até agora tem evitado integrar serviços de IA como o ChatGPT. Chesky, que é amigo de Sam Altman, fundador da OpenAI, diz que optou por não fazê-lo quando foi abordado pela empresa de IA há alguns anos, porque achou que não seria “uma ótima experiência para o usuário”.

Ele disse a Altman que empresas como o Airbnb não querem ser “reduzidas a commodities” que simplesmente fornecem dados. Em vez disso, Chesky prevê usar a IA para transformar o Airbnb em um aplicativo conversacional que irá adquirir gradualmente uma compreensão mais profunda do que seus usuários desejam.

O chefe do Airbnb também vê a tecnologia beneficiando a plataforma de outra maneira. À medida que as pessoas passam cada vez mais tempo em suas telas interagindo com bots, elas podem começar a ansiar por experiências no mundo real, incluindo viajar para novos lugares. “Desde o início, vimos isso como um movimento”, diz ele, falando em pleno “modo fundador”. “Não vimos isso como um site. Não vimos isso como um aplicativo. Não vimos isso como uma ideia comercial.” A questão é: os usuários estão procurando um movimento ou apenas um lugar para descansar?

The Economist: O Airbnb quer oferecer mais do que apenas uma cama para dormir – Estadão

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Cuidar da saúde humana exige conhecimento técnico mas também olhar humano e empatia

Por Ludhmila Hajjar – O Globo – 07/11/2025 

Há uma crise silenciosa na medicina contemporânea. Não é falta de tecnologia nem de recursos, mas de virtude. Vivemos cercados de inteligência artificial, exames de precisão e protocolos que prometem decisões perfeitas. Ainda assim, cresce o vazio entre o médico e o paciente. O progresso científico nunca foi tão grande e, paradoxalmente, nunca estivemos tão carentes de humanidade.

O médico que o ser humano merece é, antes de tudo, estudioso. A técnica salva vidas, e o conhecimento é um dever moral. Mas erra quem acredita que basta saber. A medicina é feita também de escuta, de presença, de silêncio que conforta. O conhecimento sem empatia transforma o cuidado em procedimento. É preciso saber, mas também sentir. Ser médico é equilibrar a objetividade da ciência com a ternura do olhar. É perceber quando a dor do outro precisa mais de uma palavra acolhedora do que de um exame adicional.

A medicina baseada em evidências é o alicerce da boa prática. Ela representa a vitória da razão sobre o improviso e da ciência sobre o empirismo. Decidir com base em evidências é um ato de respeito ao paciente, pois significa oferecer o melhor que o conhecimento humano já comprovou. No entanto, cabe ao médico a tarefa de interpretar e contextualizar essas evidências, aplicando-as à realidade individual de quem está à sua frente. Nenhuma diretriz substitui o julgamento que nasce da experiência e da compaixão. O bom médico é aquele que domina a ciência e, ao mesmo tempo, enxerga o ser humano por trás dos números.

Também é tempo de nos libertarmos dos abusos da indústria farmacêutica e das condutas antiéticas que, em nome do lucro, ameaçam a essência do cuidar. A indústria é parte importante do avanço médico, mas não pode ocupar o lugar do juízo profissional. As decisões clínicas devem nascer da ciência, não da pressão. Ética e independência são virtudes que protegem o paciente e preservam a alma de quem cuida. Um médico não deve vender convicções; deve sustentá-las com base em evidências, integridade e consciência.

O bom médico respeita as crenças e a fé do paciente, sem impor as suas. Entende que a espiritualidade é um refúgio legítimo diante da dor e que ciência e fé não se anulam. Também compreende que a família busca clareza e segurança, não promessas vazias. Por isso, o médico precisa ser tecnicamente impecável. Falar com dados, mas com delicadeza. Explicar sem pressa, traduzir sem arrogância, conduzir sem dominar. Uma boa decisão é fruto de conhecimento e empatia, de técnica e escuta. É o diálogo entre o que a ciência comprova e o que o coração entende.

Ser médico é cuidar de todos, não apenas de um grupo seleto. É ter compromisso com o sistema público, com os que mais precisam. É compreender que o sucesso financeiro deve ser consequência, nunca propósito. O verdadeiro reconhecimento vem das vidas salvas, dos sofrimentos amenizados e das mãos que voltam a apertar a sua em gratidão silenciosa.

A medicina exige coragem para errar tentando acertar. Exige humildade para dizer “não sei”. Equilíbrio entre o raciocínio rápido e o coração calmo. E atualização constante. O bom médico se recicla em conhecimento, participa de congressos e simpósios, lê as revistas científicas reconhecidas e se mantém atento às inovações.

Após 25 anos exercendo a medicina, recomendo que ninguém escolha essa profissão por pressão familiar ou status social. A medicina não é caminho para fama nem para riqueza. É missão de amor, renúncia e fé. Só deve segui-la quem estiver pronto para servir, para estudar até o último dia de vida, para enfrentar a dor do outro sem se endurecer e para seguir acreditando na beleza de cada gesto de cuidado.

A medicina é, antes de tudo, um ato de amor em estado científico. É o encontro entre o conhecimento e a compaixão. Quando exercida com verdade, cura o corpo e também o mundo à sua volta.

Carta ao futuro da medicina

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Histórias da vida corporativa

Evandro Milet – Publicado no Portal ES360 em 19/10/2025

O storytelling está na moda. A definição que se costuma dar é que storytelling é a prática de se contar uma boa história. Ou seja, uma história que consiga reter a atenção do interlocutor. Pode ser apenas uma frase que resuma uma situação, mas é uma boa maneira de vender uma ideia. Se essa história contiver humor, poderá ser lembrada para sempre, ainda mais se as pessoas se identificarem com situações vividas e parecidas com a história contada.  

Um leão novo chegou ao Zoológico da cidade e foi colocado na mesma jaula do leão velho. Durante as visitas o leão novo rugia imponente, atraindo o público, enquanto o leão velho dormia cansado em um canto. Na hora do almoço o leão velho recebia do tratador um suculento pedaço de carne enquanto o leão novo, revoltado, tinha que se contentar com um cacho de bananas. A cena se repetiu algumas vezes até que, inconformado, o leão novo questionou o tratador que explicou: – Quando você entrou aqui só havia vaga para um leão e aí tivemos de classificá-lo como macaco. 

Essa história lembra longas discussões sobre desvios de função e quadro de vagas limitado típicas de imbróglios burocráticos que acontecem muito em órgãos públicos, mas também em empresas privadas.

A política também alimenta histórias. Conta-se que um novo gestor público, recém eleito, recebeu do seu antecessor três cartas para serem abertas sucessivamente nas três primeiras crises que enfrentasse. Na primeira crise, aberta a primeira carta estava lá: “Culpe a administração anterior”. Resolvido o problema com a atitude tomada, seguiu o governo até que ocorreu a segunda crise. Corre-se para abrir o segundo envelope onde está: “Mude o organograma e troque as pessoas”. Sanada a segunda crise, passado mais um tempo, ocorre a terceira. Rapidamente recorre-se à terceira carta que diz: “Escreva três cartas”.

Alguns observadores da vida das empresas colocaram na forma de leis algumas verdades com as quais nos acostumamos a conviver, muitas vezes sem perceber. A Lei de Parkinson, por exemplo, diz que “o trabalho se expande para preencher o tempo disponível para ser concluído”. Outra define as seis fases de um projeto: entusiasmo, desilusão, pânico, busca dos culpados, punição dos inocentes e promoção dos não participantes. 

O grande Millôr Fernandes dá sua contribuição quando diz que “errar é humano. Botar a culpa nos outros também”. Essa tem uma variante: ”se numa situação tensa o responsável estiver tranquilo é porque já achou em quem colocar a culpa”.

Homer Simpson, personagem de Matt Groening, cartunista americano, afirma que existem três frases curtas que levarão sua vida adiante: “ Não diga que fui eu!”, “Ó, boa idéia, chefe!” e “Já estava assim quando cheguei”. 

O engenheiro Isu Fang(falecido em 2021) construiu um conjunto de leis impagáveis: 

1) Em qualquer campo da atividade humana, o homem sempre fará aquilo que sabe, e não o que deve ser feito. 

2) Se o último minuto não existisse, metade das coisas não seriam feitas.  

3) Quando numa reunião alguém apresenta um documento como subsídio para a discussão de um problema, passa-se automaticamente a discutir o documento e ignorar o problema.

4) Quando três soluções alternativas para um mesmo problema são apresentadas e uma delas pode ser caracterizada como intermediária, ela será adotada, independentemente de seu mérito. Corolário: Se você tem uma solução preferida, trate de caracterizá-la como intermediária, mesmo que precise inventar soluções alternativas para isso. 

5) A importância que um indivíduo atribui ao “status” associado ao cargo que ocupa é inversamente proporcional à sua competência para ocupá-lo. 

6)  Em sistemas complexos, não há diferenças significativas entre decisões baseadas no senso comum e aquelas baseadas em longos e intensivos estudos. Corolário: Um estudo de viabilidade deve ser desenvolvido observando a seguinte sequência de etapas: a. obtenção das conclusões; b. dimensionamento dos estudos para dar respeitabilidade às conclusões; c. realização dos estudos. 

7) Se você tiver uma boa solução, você está arriscado a ganhar um problema. Corolário: Se você lembrar que um problema existe, você provavelmente será encarregado de resolvê-lo. Ou como dizia Neném Prancha, filósofo do futebol: Quem desloca recebe, quem pede tem preferência. 

Quem viveu a vida corporativa há de se lembrar de situações que fazem essas histórias bem verdadeiras.

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