É impossível pensar a economia moderna, digital, sem a infraestrutura e os serviços a partir do espaço
Por Diego Bonomo – Valor – 29/01/2025
A economia espacial é estimada em cerca de US$ 385 bilhões, com perspectiva de crescimento exponencial, atingindo US$ 1,8 trilhão em 2035. Dos quase US$ 400 bilhões atuais, três quartos correspondem à iniciativa privada – a indústria do espaço – e apenas um quarto a orçamentos de governos. Embora o orçamento público ainda tenha papel fundamental para alavancar a demanda e liderar a exploração científica de alto risco, a era da corrida espacial da Guerra Fria, na qual agências estatais monopolizavam a competição por marcos de domínio tecnológico e exploração do Sistema Solar, ficou para trás.
Hoje, a economia espacial é liderada por um conjunto vibrante de conglomerados empresariais, empresas de médio porte, startups e unicórnios. Além disso, essa economia passou a ser parte integral do cotidiano de governos, empresas e indivíduos. Desde o aplicativo para entrega de comida que utiliza georreferenciamento e o comerciante que usa terminal próprio para conectar seu celular diretamente à uma constelação de satélites, ao agricultor que depende de dados sobre meteorologia para proteger e potencializar suas colheitas e ao banco que realiza pagamentos instantâneos, é impossível pensar a economia moderna, digital, sem a infraestrutura e os serviços a partir do espaço.
A despeito da economia espacial ser majoritariamente relacionada à órbita da Terra – com a manufatura de satélites e equipamentos, e a prestação de serviços relacionados a eles correspondendo a mais de 70% dessa economia -, há uma fronteira de valor em expansão, em diversas direções. Um exemplo são os serviços de lançamento, hoje liderados pela iniciativa privada e que já somam mais de US$ 7 bilhões por ano. Em 2024, atingiu-se recorde histórico, com 258 lançamentos orbitais bem-sucedidos, mais da metade dos quais para atender à demanda de empresas. Outro exemplo é a emergente base industrial para atividades na Lua, que abrange mais de 50 empresas. Essa economia lunar incluirá transporte de carga e de pessoas, transmissão de dados, geração, transmissão e distribuição de energia, abastecimento e gestão de resíduos, manufatura e extração de recursos naturais.
A economia e a exploração espaciais são lideradas por três países e blocos: Estados Unidos, China e União Europeia. Americanos, chineses e europeus competem em pelo menos três frentes. A primeira é a criação de uma infraestrutura espacial com foco em defesa e segurança, já que o espaço é – também – um domínio de conflito armado. A segunda é a exploração do Sistema Solar, com a busca de novos marcos, como o estabelecimento da primeira presença humana permanente na Lua e o primeiro voo tripulado para Marte. E a terceira é o incentivo para a expansão da indústria do espaço, com políticas públicas voltadas para esse objetivo.
Somam-se a esses três líderes outros países relevantes. A Rússia, por exemplo, tenta impulsionar seu programa de exploração espacial utilizando-se do legado da extinta União Soviética. Já a Índia apresenta-se como futuro competidor entre os líderes, tendo realizado seu primeiro pouso bem-sucedido de sonda e robô móvel na Lua, em 2023, e apresentado, há poucos meses, um programa ambicioso de exploração, que inclui a construção de uma estação espacial própria, além de incentivar a criação de startups.
Diante desse quadro, a pergunta relevante é: e o Brasil?
A resposta é simples e desanimadora: o Brasil ficou para trás. O país, que é uma das dez maiores economias do mundo, possui infraestrutura espacial desde os anos 1960, agência espacial há mais de 30 anos e ativos relevantes, como o Centro Espacial de Alcântara, mas parece ter-se esquecido de participar da nova corrida espacial. Além disso, acumula um histórico que gera pouca esperança.
Por exemplo, em 1996, o Brasil ingressou no projeto de construção da Estação Espacial Internacional, mas, por não realizar as entregas sob sua responsabilidade, foi, na prática, expulso em 2007.
Em 2000, o país assinou um acordo de salvaguardas tecnológicas com os Estados Unidos para viabilizar sua entrada na economia espacial, que não foi votado pelo Congresso Nacional. Teve que ser renegociado quase 20 anos depois e foi aprovado apenas em 2019.
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Em 2003, o veículo lançador brasileiro foi destruído por um incêndio seguido de explosões. Após a tragédia, em 2006, o país embarcou em uma parceria com a Ucrânia, criou uma empresa binacional para desenvolver um novo veículo, mas nunca produziu e lançou o foguete. A parceria foi interrompida em 2015 e o contribuinte brasileiro não recebeu uma explicação satisfatória sobre o que aconteceu com essa “Itaipu do espaço”.
Em 2018, por falta de pagamento, o Brasil foi expulso do Observatório Europeu do Sul, dedicado à pesquisa científica.
Os fatos recentes carregam ambiguidade. De um lado, há potenciais avanços, como o acordo para encerrar uma disputa por terra de 40 anos envolvendo a base de Alcântara e o novo marco legal de atividades espaciais. De outro lado, há anacronismos, como a recém-publicada política industrial, que tem uma menção tímida à economia espacial e apenas vinculada à atuação das Forças Armadas, sem o foco na iniciativa privada.
O Brasil não tem mais tempo a perder. As órbitas espaciais e as frequências de telecomunicação alocadas para o uso por satélites, ambos recursos finitos, começam a escassear e deverão ser objeto de disputas nas próximas décadas, tanto entre países quanto entre empresas. Assim, o país corre o risco de ficar de fora de uma das principais fronteiras de valor e de um ambiente estratégico fundamental deste século.
É preciso que o governo federal priorize a ampliação da participação do Brasil na economia do espaço como produtor e prestador de serviço. Para tanto, precisa aperfeiçoar as políticas públicas para gerar os incentivos corretos à expansão da indústria espacial, com a participação ativa do capital nacional e estrangeiro, e aprofundar a cooperação com os Estados Unidos, o país-líder no setor e cuja experiência recente de migração para um modelo com ampla atuação da iniciativa privada pode oferecer lições valiosas para o avanço brasileiro.
Diego Bonomo é assessor sênior do Covington & Burling, em Londres.
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