A IA já chegou para os estagiários. Você provavelmente será o próximo

Novos dados sugerem que os empregos de nível básico estão enfrentando um evento de extinção graças à inteligência artificial. A partir daí, ela só vai subir no organograma.

Por Nick Bilton – Vanity Fair – 25 de abril de 2025(tradução pelo Google)

No fim de semana, um robô de entregas na altura do joelho passou pela cafeteria do meu bairro em Los Angeles, seus “olhos” brancos e brilhantes piscando enquanto se esgueirava entre uma mãe com um carrinho de bebê e um cachorro. Nem a mãe, nem o bebê, nem o cachorro prestaram atenção ao robô. Era simplesmente normal. E, no entanto, não faz muito tempo que as pessoas saíam de cafés, com os celulares em punho, para filmar esses robôs de entrega em movimento, tirando selfies com eles ou simplesmente observando boquiabertas enquanto um robô de verdade entrava no universo. Hoje eu era a única pessoa a levantar os olhos do meu cappuccino. A frase de William Gibson de que “o futuro já está aqui, só não está distribuído uniformemente” nunca soou tão literal. Em outras palavras, a perda de empregos para robôs não está chegando, ela já começou.

Considere o humilde estagiário. Uma pesquisa realizada pela Intelligent.com descobriu que 70% dos gerentes de contratação acreditam que a inteligência artificial pode fazer o trabalho de um estagiário — e isso foi no ano passado. Naquela época, em abril de 2024, 5% dos entrevistados disseram que já ofereceram estágios, mas não os oferecem mais; quase um terço desse subconjunto culpou a IA e sua capacidade de lidar com o trabalho burocrático antes atribuído a jovens de 22 anos que estavam apenas felizes por estarem lá. Um ano depois, os números são impressionantes: a última Atualização do Mercado de Trabalho do Indeed Hiring Lab relatou no início deste mês que as ofertas de estágio em 3 de abril caíram abaixo da linha de base de 2019 e agora estão 11 pontos percentuais abaixo da mesma data em 2024, um sinal claro de que as vagas de estágio estão desaparecendo antes mesmo que a turma de 2025 receba um diploma.

Pessoas no Vale do Silício chamam essa atual substituição de empregos de “arbitragem de pessoal”, que é uma forma tecnológica de dizer: “não precisamos mais de pessoas!” Assistentes de pesquisa? Modelos de linguagem agora podem ingerir relatórios de mercado de 200 páginas, conferir citações, redigir um PowerPoint e executar projetos de pesquisa inteiros — tudo feito na nuvem e entregue ao seu computador em poucos minutos, no máximo. Aquelas chamadas de atendimento ao cliente em que você grita ao telefone e grita “Eu disse telefonista!!!” provavelmente também serão coisa do passado. A Ikea já está substituindo essas funções de suporte por um novo bot de IA chamado Billie, que pode ajudar você com peças faltantes para sua estante ou agendar entregas. Redação, design de storyboard, consultoria em finanças pessoais e uma longa lista de outras funções já estão sendo substituídas pela IA ou estão prestes a ser substituídas.

A mesma dinâmica está se espalhando para todas as áreas do mercado de trabalho. Na Bacia do Permiano, a Chevron está usando tecnologia de IA em plataformas de perfuração que detectam sinais precoces de mudanças de pressão mais rápido do que os humanos, e a empresa se orgulha de que “a IA ajuda a Chevron a extrair mais petróleo por menos”. O JPMorgan Chase implantou IA para analisar contratos de empréstimos comerciais em segundos — trabalho que antes levava 360.000 horas por ano para advogados e agentes de crédito concluir. Mais de 40 anos de trabalho agora são realizados em segundos. 

Departamentos de radiologia estão implementando sistemas de IA que podem detectar anomalias em imagens médicas com uma precisão que rivaliza com a de especialistas humanos. A pesquisa jurídica, antes realizada por exércitos de assistentes jurídicos e associados juniores, está cada vez mais automatizada. Até mesmo as áreas criativas já estão sendo substituídas por IA — agências de publicidade agora usam IA para ajudar a gerar conceitos de campanhas, redação publicitária e designs visuais que antes exigiam equipes de criativos humanos, incluindo Coca-Cola, Heinz e MintMobile.

No entanto, a prova mais tangível de que a força de trabalho humana está alerta anda sobre rodas e, em breve, sobre pernas. Los Angeles se juntou a São Francisco nesta primavera como o mais novo playground para os táxis autônomos da Waymo. A emoção inicial de entrar em um carro sem motorista desaparece rapidamente. Todos que conheço que já pegaram um Waymo dizem a mesma coisa: nunca mais pegarão um Uber dirigido por humanos. “Não preciso falar com ninguém”, celebrou uma amiga após sua viagem inaugural. “Posso peidar, cutucar o nariz, fazer o que eu quiser, e o motorista nunca se ofende. E, honestamente, parece mais seguro do que um humano verificando mensagens de texto.” Ela acrescentou: “E você não precisa dar gorjeta!”

Há dois anos, o Goldman Sachs estimou que a IA generativa sozinha poderia automatizar o equivalente a 300 milhões de empregos em tempo integral em todo o mundo. O Goldman também previu que a IA substituindo humanos poderia aumentar o PIB global em 7%, então acho que há um lado positivo, dependendo de para quem esses 7% forem distribuídos. A McKinsey previu em um relatório de 2017 que potencialmente centenas de milhões de trabalhadores perderiam seus empregos para a automação até 2030.

Escolha qualquer linha do tempo que desejar, a trajetória é clara: primeiro as tarefas, depois os empregos, depois carreiras inteiras, tudo será substituído por máquinas, e isso já está acontecendo.

Os otimistas em tecnologia insistem que cada salto tecnológico eventualmente cria mais empregos do que destrói: a descaroçadora de algodão gerou o engenheiro têxtil, o caixa eletrônico gerou exércitos de designers de produtos financeiros. Isso pode ser verdade ao longo da história, mas não é verdade hoje. Empregos estão desaparecendo em massa e, com a exceção limitada de digitadores rápidos, qualquer novo emprego criado também pode ser substituído pela IA antes que alguém tenha a chance de dominar sua nova área.

Os próximos 12 meses serão impressionantes no que diz respeito à velocidade com que a IA se tornará mais inteligente, rápida e capaz de fazer o que fazemos, só que melhor. OpenAI, Google, Anthropic e Meta estão lançando modelos maiores e mais precisos em um ritmo que rivaliza com as novas listas de tarifas de Donald J. Trump, enquanto empresas chinesas bem financiadas, algumas das quais supostamente são até clones de empresas de IA sediadas nos EUA, estão rapidamente alcançando a inovação americana. Fabricantes de chips não conseguem fabricar silício co

m a rapidez necessária. Capitalistas de risco, entusiasmados com a perspectiva de economia permanente de custos, estão investindo bilhões em qualquer startup cujo discurso combine “GPT-4o” e “arbitragem de número de funcionários” no slide três.

O que me leva — gulp! — à minha própria linha de trabalho. Se um modelo de linguagem pode sintetizar dados de pesquisa, adicionar uma citação de Gibson e produzir uma coluna irônica de mil palavras no estilo impecável da AP, com o que exatamente estou contribuindo além da síndrome do túnel do carpo e da predileção por travessões? A Vanity Fair pode em breve descobrir que seu repórter de tecnologia pode ser substituído por um algoritmo que nunca reclama de edições, nunca apresenta um relatório de despesas e não liga dizendo que está doente — nunca. Porque se o estagiário for realmente o canário na mina de carvão*, eu não estou muito atrás.

*A expressão “canário na mina de carvão” refere-se a um indicador ou alerta precoce de um problema ou perigo iminente, semelhante ao uso histórico de canários em minas de carvão para detectar gases tóxicos. Se um canário morria em uma mina, significava que os mineiros deveriam sair imediatamente, pois o ar era perigoso para respirar. 

AI Has Already Come for the Interns. You’re Probably Next | Vanity Fair

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Como o Brasil se tornou recordista em participação de competições de Matemática?

Prova Canguru tem mais de 1,5 milhão de inscritos, entre alunos de escolas particulares e públicas; avaliação é focada em resolução de problemas e não em memorização; OBMEP é aplicada em 99,9% das cidades do País

Por Renata Cafardo – Estadão – 07/04/2025 | 14h30

Atualização: 07/04/2025 | 17h51

A nova matemática

Competições matemáticas

Competições matemáticas têm ganhado força no País nos últimos anos, numa perspectiva de tornar a disciplina mais acessível e instigante para as crianças e adolescentes. Além da Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas (OBMEP), que já tem 20 anos, a prova internacional Canguru de Matemática bate recorde de inscritos no Brasil. Pesquisas mostram impactos positivos na aprendizagem de estudantes e escolas participantes.

No ano passado, o total foi de 1,3 milhão de alunos na Canguru e aumento de 248% no número de escolas inscritas, cerca de 7 mil. É o país com a maior quantidades de estudantes entre os centenas que fazem o exame no mundo.

A estimativa para este ano – a Canguru está sendo realizada em março e abril – é de 1,8 milhão de estudantes. Entre eles, há alunos de escolas públicas, mas também muitas instituições particulares de elite, com perfil humanista, menos voltadas para o espírito competitivo.

Medalhas da Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas (Obmep), 2024.  Foto: Divulgação/Obmep

Medalhas da Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas (Obmep), 2024. Foto: Divulgação/Obmep Foto: Divulgação/Obmep

A OBMEP também teve em 2025 o maior número de escolas e cidades inscritas já registradas em duas décadas de história. A prova é realizada em 99,93% do municípios do País, por 18,6 milhões de estudantes.

Cristina Diaz, CEO da Upmat Educacional, que organiza a Canguru no País, explica que a ideia é fazer uma “grande celebração da Matemática” e diz que os resultados podem ser usados da forma que a escola entender melhor.

“Algumas dão diplomas, medalhas, colocam em outdoor. Outras só levam as questões para debater na sala de aula”, afirma. “O objetivo é que crianças do mundo todo percam o medo da Matemática.”

O exame é o mesmo em todos os países, só traduzidos para língua local, e feito por um grupo de especialistas internacionais. A ideia é uma prova que não é focada em conteúdo e, sim, na resolução de problemas e raciocínio lógico, independentemente da idade ou série do estudante.

É algo semelhante ao que aparece também em provas como o Pisa, feito pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), e que o Brasil fica sempre entre as últimas colocações.

As questões abordam identificação de padrões ou desafios em situações que fazem sentido para as crianças e adolescentes, que estão do 3º ano do fundamental até o último do ensino médio. “Não depende se a criança teve fração na escola ou não, não é uma prova curricular”, explica Cristina.

“Os desafios da Canguru são muito inteligentes, são abertos, obrigam a criança a pensar, o que importa não é a resposta correta somente”, diz a diretora da Escola Vera Cruz, Regina Scarpa, cujos alunos participam da prova de forma voluntária. Os que se saem melhor recebem medalhas. Para ela, competições como a Canguru mobilizam as crianças e jovens para o interesse e estudo da Matemática.

O nome Canguru é em homenagem a um professor australiano que inventou uma prova divertida de matemática nos anos 1990. Cristina acredita que a avaliação está muito conectada à ideia de uma disciplina que é criativa e sem decorebas.

Como o Estadão mostrou, cresce no Brasil e no mundo uma nova abordagem para o ensino da Matemática, que estimula a descoberta, pensamento lógico, criar hipóteses e encontrar o resultado da sua própria maneira. E, além disso, mudar as atitudes diante da disciplina e acabar com a crença de que só algumas pessoas têm jeito para a Matemática. “A gente decora, passa no vestibular, entra na faculdade e vai deixando buracos na vida adulta”, diz Cristina.

Vagas na USP e na Unicamp para medalhistas

Mais antiga, a OBMEP já abre oportunidades até para ingresso no ensino superior. A Universidade de São Paulo (USP) e a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), duas das maiores do País, têm vagas específicas para medalhistas dessa e de outras olimpíadas de conhecimento.

O Impa Tech, um bacharelado federal em Matemática da Tecnologia e Inovação do Instituto de Matemática Pura e Aplicada (Impa), no Rio de Janeiro, reserva 80% das vagas para estudantes medalhistas em olimpíadas científicas.

Pesquisas que já investigaram os efeitos da participação na olimpíada mostram impacto significativo na aprendizagem dos alunos e da escola. Uma delas diz que o benefício aumenta conforme a maior quantidade de vezes que a instituição inscreve seus alunos para a competição.

“O efeito se dá porque as escolas envolvidas com a OBMEP por um período maior de tempo modificaram seu projeto pedagógico para o ensino de Matemática, incluindo na sua rotina atividades que oportunizam o aprendizado dessa disciplina”, diz o estudo realizado pelos pesquisadores Camila M. Machado Soares e Elisabette Leo, sob supervisão do professor emérito da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Francisco Soares.

A pesquisa afirma ainda que os professores também se qualificam melhor porque se envolvem mais com o ensino da Matemática e aponta que as premiações despertam maior interesse de todos os alunos pela disciplina.

Como o Brasil se tornou recordista em participação de competições de Matemática? – Estadão

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Textos feitos por IA: se você não se dá ao trabalho de escrever, por que eu vou ler?

Seja em um e-mail privado ou em um post no LinkedIn, precisamos admitir que usar descaradamente IA para escrever pode ser uma falta de educação

MARK WILSON – Fast Company Brasil – 01-05-2025 

Sou jornalista e, antes, costumava dedicar os primeiros 30 minutos do meu dia a consumir feeds de notícias. Agora, esse hábito mudou: esses minutos são dedicados ao LinkedIn.

Esse é o curso natural da tecnologia e busco um público interessado em textos baseados em reflexão cuidadosa. Descobri que essa pseudo rede social – que eu achava constrangedora – está, na verdade, cheia de pessoas inteligentes, que vão aparecer se eu estiver disposto a dedicar um tempo extra compartilhando meus textos com elas.

Estamos agora na era dos especialistas de LinkedIn que escrevem com IA. Sua especialidade é pegar uma matéria e jogar no ChatGPT, pedindo para resumi-la em um post engraçadinho para o LinkedIn. O próprio LinkedIn tem um assistente de escrita que incentiva as pessoas a “reescrever com IA” para produzir esse tipo de conteúdo.

Eles pegam os pensamentos e pesquisas de outros, reconstroem e apresentam como se fossem seus. Mesmo quando citam referências em links, ainda assim o novo texto parece uma colcha de retalhos. Ou um bife transformado em carne processada.

Mas, sinceramente, não é esse tipo de plágio o que mais me incomoda. Aliás, o LinkedIn não é o único lugar onde você encontra pessoas publicando textos escritos por IA.

Além do uso excessivo desse recurso para resumir reuniões do Zoom, posso perceber que os e-mails de apresentações de empresas e projetos que recebo estão cada vez mais sendo escritos com a ajuda da IA, enquanto empresas como a Microsoft promovem o Copilot para ajudar a redigir memorandos corporativos (e posts no LinkedIn!).

O BOTÃO ONIPRESENTE DA IA PROMETENDO FAZER QUALQUER COISA POR VOCÊ É CERTAMENTE TENTADOR.

Parece que todo designer que conheço está usando IA para escrever sobre seus projetos. O Canva acaba de lançar ferramentas para escrever anúncios em massa para você em praticamente todos os idiomas do mundo.

Tudo isso é ok. Tem muita fumaça, mas o ambiente ainda não pegou fogo. Nem toda apresentação ou pitch de vendas precisa ser um soneto shakespeariano. Mesmo especialistas em linguagem dirão que a maior parte dos escritos não passam de fórmulas. É por isso que tecnologias preditivas de autocompletar textos têm sido tão precisas por tanto tempo.

Eu costumava ter medo de que a IA nos aprisionasse em nosso próprio universo. Agora, imagino um futuro bem mais ordinário. Nele, eu uso a IA para escrever algo para você e você pede para a sua IA resumir.

Depois, sua IA escreve de volta. E aí a minha IA resume sua resposta. Por que não foi tudo resumido desde o começo? Qual é a necessidade de alguém chegar a formular qualquer pensamento completo?

LEVA MAIS TEMPO PARA SE LER TEXTOS FEITOS POR IA DO QUE PARA ESCREVER

O que é tão insultante para mim nesses textos gerados por IA é que eles levam menos tempo e consideração para serem produzidos do que para serem lidos. Você está, pela natureza do compartilhamento dessas palavras automatizadas, sinalizando para mim que se importa menos com o meu tempo e atenção do que com o seu próprio.

Claro, você é livre para acreditar nisso o quanto quiser – na sua própria cabeça. Só não jogue isso na minha caixa de entrada ou no meu feed. Porque isso é falta de educação.

De certa forma, uma imagem ou anúncio gerado por IA é menos ofensivo para mim, porque olhamos para a maioria dos anúncios digitais por um segundo ou menos (com apenas 4% capturando nossa atenção por dois segundos inteiros).

Para o pessoal do marketing e design gráfico, por favor, não cancelem seus planos de fim de semana para obter 10 microssegundos a mais do meu engajamento! Quem se importa? (Desculpe, eu realmente gosto de um bom anúncio.)

Mas a leitura simplesmente leva mais tempo do que o processamento visual. Exige mais do público. Apresentar a um amigo ou colega uma mensagem que uma IA escreveu é como convidá-lo para o jantar e esquentar uma lasanha congelada nos microondas.

Um post de IA no LinkedIn é como levar esse mesmo jantar requentado para uma confraternização. Você deveria se envergonhar em ambos os casos. Não pela falta de habilidade ou prática em juntar palavras, mas pela falta de respeito por nem sequer tentar.

ESTAMOS NA ERA DOS ESPECIALISTAS DE LINKEDIN QUE ESCREVEM COM IA.

Agora, para ser justo, reconheço que esse erro não é totalmente sua culpa. O botão onipresente da IA prometendo fazer qualquer coisa por você é certamente tentador. E empresas como OpenAI, Google e Microsoft estão incentivando esse comportamento enquanto esperam provar que valeu a pena seu investimento em ferramentas de IA.

Elas vão nos viciar em automação mesmo quando é indelicado, porque não existe plano de negócios no mundo baseado em moderação.

A verdade, porém, é uma só: se algo não vale a pena o seu trabalho de escrever, então por que raios vai valer a pena eu ler?


SOBRE O AUTOR

Mark Wilson é redator sênior da Fast Company. Escreve sobre design, tecnologia e cultura há quase 15 anos.

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Duolingo vai demitir e substituir humanos por IA; entenda mudanças

Empresa afirmou que as mudanças não afetarão equipes no Brasil

Por Mariana Cury – Estadão – 30/04/2025 

Nesta segunda-feira, 28, o CEO do Duolingo, Luis von Ahn, anunciou, por meio de um e-mail, que foi publicado no LinkedIn, que a empresa substituirá alguns colaboradores por inteligência artificial (IA). A mudança será feita em cargos que a IA consegue desenvolver sem o auxílio humano. Segundo ele, a empresa usará a estratégia de “AI first”, ou seja, tratará a tecnologia como prioridade.

O CEO acredita que o uso das IAs não é apenas uma forma de otimizar serviço, mas também, uma maneira de “aproximar a empresa de sua missão”.

Em nota ao Estadão, a empresa afirmou que as mudanças não afetarão as operações ou a equipe do Duolingo Brasil.

De acordo com ele, as mudanças feitas com IA beneficiarão os alunos da plataforma. “Uma das melhores decisões que tomamos recentemente foi a substituição de um processo lento e manual de criação de conteúdo por um processo alimentado por IA. Sem a IA, levaríamos décadas para expandir nosso conteúdo para mais alunos. Devemos isso aos nossos alunos para que eles recebam esse conteúdo o mais rápido possível”, disse na publicação.

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Ele também comparou a decisão atual com uma de 2012, em que o Duolingo priorizou o desenvolvimento de seu aplicativo para smartphones, o que foi essencial para popularização da plataforma de estudos de línguas ao redor do mundo. Além disso, disse que as mudanças serão uma forma dos funcionários de “focarem em problemas reais, e não em tarefas repetitivas”.

A decisão de Von Ahn lembra as declarações recentes do CEO do Shopify, Tobi Lütke, em que disse que antes dos funcionários solicitarem mais recursos, eles precisam provar “o motivo que pelo qual as IAs não podem exercer essas necessidades”. Nesse mesmo sentido, novas contratações no Duolingo só serão feitas se a tecnologia não conseguir realizar determinado serviço.

Leia na íntegra a publicação do CEO

Eu já disse isso nas perguntas e respostas e em muitas reuniões, mas quero tornar isso oficial: O Duolingo vai priorizar a IA.

A IA já está mudando a forma como o trabalho é feito. Não se trata de uma questão de se ou quando. Isso está acontecendo agora. Quando há uma mudança tão grande, a pior coisa que se pode fazer é esperar. Em 2012, apostamos no celular. Enquanto outros se concentravam em aplicativos móveis complementares para sites, decidimos desenvolver a tecnologia móvel primeiro porque vimos que era o futuro. Essa decisão nos ajudou a ganhar o prêmio de Aplicativo do Ano para iPhone em 2013 e desbloqueou o crescimento orgânico boca a boca que se seguiu.

Apostar no celular fez toda a diferença. Estamos tomando uma decisão semelhante agora e, desta vez, a mudança de plataforma é a IA.

A IA não é apenas um aumento de produtividade. Ela nos ajuda a chegar mais perto de nossa missão. Para ensinar bem, precisamos criar uma quantidade enorme de conteúdo, e fazer isso manualmente não tem escala. Uma das melhores decisões que tomamos recentemente foi a substituição de um processo lento e manual de criação de conteúdo por um processo alimentado por IA. Sem a IA, levaríamos décadas para expandir nosso conteúdo para mais alunos. Devemos isso aos nossos alunos para que eles recebam esse conteúdo o mais rápido possível.

A IA também nos ajuda a criar recursos como a chamada de vídeo, que antes eram impossíveis de criar. Pela primeira vez, ensinar tão bem quanto os melhores tutores humanos está ao nosso alcance.

Ser a IA em primeiro lugar significa que precisaremos repensar grande parte da forma como trabalhamos. Fazer pequenos ajustes em sistemas projetados para humanos não nos levará a isso. Em muitos casos, precisaremos começar do zero. Não vamos reconstruir tudo da noite para o dia, e algumas coisas – como fazer com que a IA entenda nossa base de código – levarão tempo. No entanto, não podemos esperar até que a tecnologia esteja 100% perfeita. Preferimos agir com urgência e sofrer pequenos impactos ocasionais na qualidade do que agir lentamente e perder o momento.

Estaremos implementando algumas restrições construtivas para ajudar a orientar essa mudança:

Gradualmente, deixaremos de usar prestadores de serviços para fazer o trabalho que a IA pode realizar

O uso de IA fará parte do que procuramos nas contratações

O uso da IA fará parte do que avaliamos nas avaliações de desempenho

O número de funcionários só será concedido se uma equipe não puder automatizar mais do seu trabalho

A maioria das funções terá iniciativas específicas para mudar fundamentalmente a forma como trabalham

Dito isso, o Duolingo continuará sendo uma empresa que se preocupa profundamente com seus funcionários. Não se trata de substituir Duos por IA. Trata-se de remover gargalos para que possamos fazer mais com as duplas excelentes que já temos. Queremos que você se concentre no trabalho criativo e em problemas reais, não em tarefas repetitivas. Vamos apoiá-lo com mais treinamento, orientação e ferramentas para IA em sua função.

Mudanças podem ser assustadoras, mas estou confiante de que esse será um grande passo para o Duolingo. Isso nos ajudará a cumprir melhor nossa missão – e, para os Duos, isso significa ficar à frente da curva no uso dessa tecnologia para fazer as coisas.

*Mariana Cury é estagiária sob supervisão do editor Bruno Romani

Duolingo vai demitir e substituir humanos por IA; entenda mudanças – Estadão

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Robô humanoide sai dos laboratórios e começa a chegar ao chão de fábrica: veja como funciona

Turbinada por inteligência artificial (IA), uma nova leva dessas máquinas já estão operando, ainda em teste, em empresas como Mercedes-Benz, BMW e Amazon

Por Juliana Causin — O Globo – 27/04/2025

Rôbos da chinesa Ubtech trabalhandoRôbos da chinesa Ubtech trabalhando — Foto: Divulgação

Feitos à imagem e semelhança de seus criadores, eles são bípedes, têm braços articulados, mãos que manipulam objetos e circuitos que aprendem a tomar decisões. Também têm sensores, câmeras e microfones para entender o ambiente ao redor. Forjados em laboratórios ao longo de décadas, os robôs humanoides começam a chegar aos ambientes de trabalho reais para atuar com humanos.

Turbinada por inteligência artificial (IA), uma nova leva dessas máquinas está em testes em montadoras como Mercedes-Benz e BMW e nos centros de distribuição da varejista on-line Amazon nos EUA. São máquinas versáteis, que também poderiam ser úteis para substituir humanos em tarefas insalubres ou repetitivas, cujo desenvolvimento abre nova trincheira na batalha entre EUA e China, já que os principais desenvolvedores são destes dois países.

Segundo o Goldman Sachs, esse mercado deve alcançar US$ 38 bilhões (R$ 215 bilhões) até 2035, com uma redução de 40% no custo atual das máquinas. Desde 2023, os preços de um robô humanoide saíram da faixa entre US$ 50 mil e US$ 250 mil por unidade para algo entre US$ 30 mil e US$ 150 mil.

Essas máquinas inteligentes também poderiam ser a solução para empresas com escassez de mão de obra na manufatura, inclusive a avançada. Robôs que imitam humanos já existem há tempos, mas a inclusão de modelos de IA mais potentes está fazendo a diferença ao aprimorar habilidades, dispensar o controle remoto ou evitar programação constante por um humano. Os humanoides agora têm capacidade de aprender e executar tarefas complexas.

Esther Colombini, professora de robótica e IA do Instituto de Computação da Unicamp, explica que a escolha pelo formato humano não é estética, mas funcional:

— Se a operação acontece em uma estrutura física feita para humanos, posso introduzi-los nesses ambientes sem precisar de adaptações.

A pesquisadora ressalta que robótica e inteligência artificial “sempre andaram juntas”, mas os avanços recentes na IA deram mais capacidade de identificar objetos, reconhecer pessoas e se locomover. Um dos expoentes dessa aliança é o Apollo, humanoide da americana Apptronik, testado desde março pela Mercedes na Alemanha. Com 1,73 metro de altura e 72 quilos, ele transporta kits de peças para montagem de carros de uma linha para a outra.

Plataforma de Hardware

Segundo a Apptronik, a IA permitiu ao robô se tornar uma espécie de “plataforma” de hardware, comparável a um iPhone: ele vem com funções básicas instaladas, mas pode ganhar novas habilidades de acordo com o emprego.

Outras montadoras investem nisso. A BMW adotou em sua operação nos EUA os robôs da Figure AI. A americana Tesla, de Elon Musk, trabalha na fabricação dos humanoides Optimus para atuarem na montadora e fora dela.

A chinesa BYD e a coreana Hyundai, que controla a Boston Dynamics, também têm projetos na área.

A Amazon começou a testar o robô bípede Digit, da Agility Robotics, em galpões dos EUA em 2023. Os primeiros resultados indicam que ele otimiza o movimento de itens e contêineres em espaços complexos, como corredores estreitos e áreas de difícil acesso para os 750 mil robôs tradicionais que já operam regularmente, diz Thomas Kampel, diretor de Comunicação Corporativa da empresa no Brasil.

Pras Velagapudi, diretor de Tecnologia da Agility, diz que a IA permite que cada unidade do Digit se beneficie do aprendizado dos outros robôs da frota, numa evolução coletiva.

— À medida que esses modelos (de IA) avançam, oferecem a possibilidade de reduzir consideravelmente o esforço necessário para ensinar um robô a realizar uma nova tarefa, um dos principais obstáculos à adoção pelos clientes — afirma o executivo, admitindo, no entanto, que ainda há um desafio de confiabilidade em relação à IA.

Além das fábricas, Andréa Janer, CEO da consultoria Oxygen, diz que humanoides avançam em outras frentes, como em tarefas domésticas ou só fazendo companhia, potencializados pela chamada “IA corporificada”:

— Em vez de você interagir por texto ou voz (com IA), você vai ter uma figura que pode te ajudar a resolver problemas. Seria um terceiro passo da IA.

Uma das empresas que quer liderar o segmento de robôs “domésticos” é a norueguesa 1X, criadora do Neo Gamma, feito para executar tarefas como aspirar o chão, regar plantas e servir café. Sim, como a robô de avental dos Jetsons. A startup anunciou que começaria os primeiros testes em casas neste ano.

Para Colombini, da Unicamp, a tecnologia ainda está longe da maturidade necessária para humanoides atuarem de forma autônoma e segura em indústrias e residências. Além de desafios operacionais, ela cita dilemas éticos e regulatórios:

— Você confiaria em deixar uma máquina de 70 quilos de metal sozinha com seu filho pequeno ou seus cachorros?

Chineses à frente

Nessa corrida tecnológica, a China parece despontar. No início deste ano, um relatório do Morgan Stanley mapeou as cem principais empresas e setores ligados a toda a cadeia de desenvolvimento de robôs humanoides: 73% das companhias envolvidas estão na Ásia, sendo 56% na China.

“A China continua a mostrar o progresso mais impressionante em robótica humanoide, onde as startups estão se beneficiando de cadeias de suprimentos estabelecidas, oportunidades de adoção local e altos níveis de apoio do governo”, avaliam os analistas.

Assim como aconteceu com carros elétricos e IA, a China incluiu os humanoides em sua estratégia de crescimento. Em 2023, o governo lançou seu primeiro plano específico para a área, com a meta de, neste ano, ter robôs em produção massiva, com “duas a três empresas com influência global”. Em 2027, Pequim quer ter humanoides “profundamente integrados à economia real”.

Entre as principais fabricantes chinesas de humanoides, estão Ubtech, Unitree e Agibot. Há uma semana, 21 humanoides foram colocados à prova (literalmente) em uma meia maratona nas ruas da capital chinesa. Um exemplar do Centro de Inovação em Robótica Humanoide de Pequim venceu a prova de 21 quilômetros em 2h40. Nada mau.

— Os chineses não querem só liderar do ponto de vista tecnológico, mas trazer o robô para um patamar de preço acessível. Falam em máquinas de US$ 30 mil até 2030, o que seria um feito enorme — avalia José Rizzo, líder de Industry X na Accenture Brasil.

Robô humanoide sai dos laboratórios e começa a chegar ao chão de fábrica: veja como funciona

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Crime organizado lucra mais com combustível e bebida do que com cocaína no Brasil, diz estudo

Facções criminosas e milícias movimentaram em 2022 R$ 61,5 bilhões com a comercialização de gasolina, álcool, diesel e lubrificantes contra R$ 15 bilhões com a droga

Por Roberta Jansen – Estadão – 13/02/2025 

O crime organizado no Brasil já movimenta mais dinheiro com a venda irregular de combustível, ouro, cigarro e álcool do que com o tráfico de cocaína, como revela estudo divulgado nesta quinta-feira, 13, pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP). A expansão de atividades criminosas para setores formais da economia é responsável por perdas fiscais na casa dos bilhões e pela ampliação do poder político dos criminosos.

De acordo com o estudo “Rastreamento de Produtos e Enfrentamento ao Crime Organizado no Brasil”, as organizações criminosas movimentaram R$ 146,8 bilhões em 2022 com a comercialização de combustível, ouro, cigarros e bebida. A movimentação financeira do tráfico de cocaína no mesmo período foi estimada em R$ 15 bilhões.

Trata-se do primeiro estudo feito no Brasil a registrar o impacto do crime organizado na economia formal e aos cofres públicos do País. Segundo o novo trabalho, as facções criminosas começaram a investir em produtos do mercado formal para lavar o dinheiro do tráfico de drogas, mas logo perceberam as vantagens financeiras e políticas de diversificar seus negócios.

“Inicialmente, essas mercadorias começaram a ser exploradas para lavar o dinheiro da droga, mas acaba gerando uma receita tão grande que a droga deixa de ser o negócio mais rentável, ainda que não deixe de ser o principal”, explicou o diretor-presidente do FBSP, Renato Sérgio de Lima. “O tráfico de droga permite o controle de territórios e, sobretudo, das rotas do comércio ilegal na Amazônia e no Mato Grosso do Sul.”

O estudo analisou o impacto do crime na comercialização de combustível, ouro, cigarro e bebidas, mas há pelo menos outras 18 atividades econômicas do mercado formal nas quais as facções criminosas têm grande protagonismo, caso do setor de transportes, do mercado imobiliário e da pesca.

Entre os quatro mercados formais estudados, o que registra a maior movimentação financeira é o de combustíveis e lubrificantes, com um total estimado de R$ 61,5 bilhões. O crime já está presente em praticamente todos os elos da cadeia: da produção ao posto de gasolina, passando por refino, transporte e logística.

“É um movimento muito grande, inacreditável; estamos cientes do problema e já alertamos as autoridades”, afirmou o presidente do Instituto Combustível Legal, Emerson Kapaz. “Estimamos R$ 14 bilhões por ano em sonegação e outros R$ 15 bilhões em fraudes operacionais, sem falar no prejuízo ao empresariado e à população de forma geral.”

Kapaz explicou que já existem diversas iniciativas junto aos governos e também na área das taxações para mitigar o problema, mas lembra que, “cada vez que a gente fecha uma porta, eles (os criminosos) abrem outras quatro”. Ainda segundo Kapaz, é preciso conscientizar o consumidor.

“Muitos consumidores não ligam para a questão tributária, mas eles precisam se conscientizar que estão contribuindo para o crime organizado quando vão a um posto irregular”, disse. “Vão pagar mais barato agora, mas, lá na frente, pagarão um preço alto na segurança pública porque, indiretamente, financiou o crime organizado.”

Como o Estadão mostrou, a suspeita é de que mais de 1 mil postos de combustível estariam sob controle do crime organizado no Brasil. A Polícia Federal, inclusive, abrirá inquérito para investigar a atuação do crime organizado no setor de combustíveis. De acordo com o ministro da Justiça e Segurança Pública, Ricardo Lewandowski, há relatos de controle de organizações criminosas até mesmo em refinarias de petróleo.

No setor de combustíveis, por exemplo, há elo do Primeiro Comando da Capital (PCC) e outras facções na adulteração de combustíveis. Em 2023, a Agência Nacional de Petróleo emitiu 187 autos de infração relacionados à adulteração de combustível por metanol. O número recorde representou um aumento de 73,5% em comparação com 2022. Quando se compara com períodos anteriores, a diferença é ainda maior. Em 2020, por exemplo, foram somente 37 casos desse tipo contabilizados pela agência.

São cerca de 43 mil postos de gasolina no País, segundo levantamento do setor. Há postos que, mesmo não apresentando combustível adulterado ao consumidor, sonegam impostos ou realizam processos fraudulentos para obter os insumos vendidos. Segundo autoridades, há quadrilhas que se aproveitam, por exemplo, de o álcool etílico hidratado, conhecido como carburante (usados nos veículos), ser basicamente o mesmo álcool para fins de indústria, só que normalmente com alíquota maior de imposto.

Diante disso, esses grupos criam empresas fantasmas para importar esse segundo tipo de álcool, supostamente para usar na indústria. Quando as cargas chegam, porém, usam para abastecer redes de postos, de forma a multiplicar os lucros.

Bebidas alcoólicas

Em segundo lugar na lista de atividades criminosas para áreas formais da economia aparece o setor de bebidas alcoólicas, com R$ 56,9 bilhões, seguido da extração e produção do ouro, com R$ 18,2 bilhões, e do cigarro, com R$ 10,3 bilhões.

Segundo o trabalho, isso tem um custo alto para o governo brasileiro. A venda ilícita de até 13 bilhões de litros de combustível em 2022, por exemplo, custou ao País cerca de R$ 23 bilhões em receita. E o contrabando e a falsificação de bebidas geraram perdas fiscais de R$ 72 bilhões no mesmo ano. De acordo com os pesquisadores, nada menos que 40% do mercado de cigarros do País é formado por produtos ilegais – um prejuízo fiscal estimado em R$ 94 bilhões na última década.

Ao ampliarem sua participação em mercados formais, facções e milícias conseguem controlar territórios estratégicos, consolidando domínio político e econômico local. Em regiões com pouca presença do Estado, como na Amazônia, por exemplo, esse domínio “alimenta ciclos de violência, exclusão social, corrupção e crimes ambientais, dificultando a implementação e políticas públicas e do combate à economia do crime”.

O novo estudo mostra também que, atualmente, a principal fonte de renda para o crime organizado são os crimes cibernéticos (os golpes via internet) e o roubo de aparelhos de telefones celulares, com uma movimentação financeira estimada em R$ 186 bilhões.

Crime organizado lucra mais com combustível e bebida do que com cocaína no Brasil, diz estudo – Estadão

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‘Pague por seu desperdício’: como Coreia do Sul consegue reciclar 97% dos resíduos alimentares

Ação integrada combina incentivos financeiros, campanhas de conscientização e regulamentações rígidas

“Já estou acostumada. Para mim, é um hábito.”

Yuna Ku – Folha – 26.abr.2025

 é jornalista do serviço coreano da BBC e mora em Seul, capital da Coreia do Sul

A jovem paga para reciclar seus restos de comida, que deposita em máquinas com sensores espalhadas por diferentes pontos onde mora –um condomínio com 2.000 apartamentos.

O sistema de reciclagem de resíduos alimentares da Coreia do Sul pode parecer estranho à primeira vista, mas transformou o país em exemplo para o resto do mundo.

O sistema sul-coreano se baseia em um princípio básico: paga-se cada vez que restos de comida são jogados fora – Getty Images

Jae-Cheol Jang é professor no Instituto de Agricultura da Universidade Nacional de Gyeongsang, no sul do país, e coator de um estudo recente sobre o sistema coreano de reciclagem de resíduos de alimentos.

“Dados do Sistema Nacional de Manejo de Resíduos de 2022 mostram que a Coreia do Sul processa cerca de 4,56 milhões de toneladas de restos de alimentos por ano (vindo de casas, restaurantes e comércios menores)”, disse Jang à BBC.

“Dessa quantidade, 4,44 milhões de toneladas são recicladas. Isso representa cerca de 97,5% dos resíduos de comida.” O número é impressionante.

Nos Estados Unidos, por exemplo, a Agência Ambiental americana estima que, das 66 milhões de toneladas de resíduos de comida gerados em 2019 por restaurantes, casas e supermercados, cerca de 60% foram parar em aterros sanitários.

A ONU calcula que, em 2019, o desperdício de alimentos em casas, comércios e restaurantes chegou a 931 milhões de toneladas no mundo.

A imagem mostra um grupo de pessoas sentadas em uma mesa em um mercado de comida. Algumas pessoas estão comendo e outras conversando. Há pratos de comida e garrafas de bebida na mesa. O ambiente é movimentado, com várias pessoas ao fundo, e há cartazes e sinais visíveis nas paredes do mercado.

Em 1996, a Coreia do Sul reciclava menos de 3% dos resíduos alimentares – Getty Images

Mas como a Coreia do Sul consegue reciclar seus resíduos alimentares de forma tão eficiente? E o que ela pode ensinar a outros países?

Campanhas de conscientização e protestos

O sistema sul-coreano é resultado de um trabalho de décadas. Em 1996, o país reciclava apenas 2,6% dos seus resíduos alimentares, mas isso começou a mudar com a transformação econômica iniciada nos anos 1980.

“A década de 1980 foi um período fundamental para o desenvolvimento econômico da Coreia do Sul”, explica o professor Jang.

“Com a industrialização e a urbanização, também surgiram problemas sociais, e um deles foi o manejo de resíduos.”

A Coreia do Sul tem mais de 50 milhões de habitantes e uma densidade populacional alta, de mais de 530 pessoas por quilômetro quadrado.

No Peru, por exemplo, a densidade não chega a 30 habitantes por quilômetro quadrado.

Com as mudanças econômicas, cresceu também o número de aterros sanitários, alguns deles próximos a áreas residenciais, o que gerou muitos protestos.

A imagem mostra uma estação de metrô moderna com uma estrutura em forma de cúpula de vidro. A cúpula é composta por painéis triangulares e é iluminada por luzes verdes. Abaixo da cúpula, várias pessoas estão descendo as escadas. Ao fundo, há prédios altos e letreiros luminosos, indicando uma área urbana movimentada. É noite, e o céu está parcialmente iluminado.

A industrialização rápida da Coreia do Sul nos anos 1980 gerou problemas sociais, como o aumento de aterros sanitários – Getty Images

Os restos de comida misturados com outros tipos de lixo causam mau cheiro e produzem líquidos poluentes, que contribuem para as mudanças climáticas.

Quando se decompõem, os resíduos liberam metano, um gás de efeito estufa muito mais potente que o dióxido de carbono.

Pressionados pelos cidadãos, o governo teve que buscar uma solução para o problema dos aterros.

“Havia um forte senso de comunidade para enfrentar os problemas sociais da época, e as políticas de gestão de resíduos do governo, combinadas com esforços nacionais, nos trouxeram até aqui”, afirma Jang.

Em 1995, foi aprovado um sistema que cobrava por volume de resíduo gerado, sem separar restos de alimentos de lixos em geral.

Em 2005, o descarte de restos de comida em aterros foi proibido por lei. E em 2013 foi implementado o atual sistema de Weight Based Food Waste Fee, ou cobrança por peso dos restos de comida, na tradução livre para o português.

O sistema continua evoluindo à medida que a tecnologia avança, mas se baseia em um princípio básico: “você tem que pagar cada vez que joga fora seus restos de comida.”

Sacolas, adesivos e radiofrequência: como funciona o sistema na prática

O sistema de cobrança varia de acordo com a região ou distrito, e até mesmo entre diferentes condomínios. Mas, no geral, existem três opções:

1. Usar sacolas autorizadas

Para quem opta por usar sacolas para descartar os restos de comida, é obrigatório fazer isso com sacolas autorizadas.

“É o caso dos meus pais, que moram em casa. Eles compram as sacolas e, quando elas estão cheias, deixam no jardim por causa do cheiro. Elas são recolhidas uma vez por semana pelo serviço municipal”, conta Yuna.

Há sacolas de diferentes tamanhos. Uma de três litros custa 300 won sul-coreanos, cerca de 20 centavos de dólar (menos de R$ 1,20 na cotação atual). Uma de 20 litros custa US$ 1,50 (R$ 8,80).

A imagem mostra um saco de plástico amarelo, com alças em forma de U na parte superior. O saco contém instruções e símbolos impressos, incluindo ícones que indicam o que pode e não pode ser colocado dentro dele. Há também informações sobre o material e o descarte adequado. O fundo da imagem é um piso claro, de madeira.

Sacola amarela usada para descarta resíduos de alimentos na Coreia; uma sacola de três litros custa 300 won sul-coreanos, que equivalem a aproximadamente US$ 0,20 – Yuna Ku

2. Usar adesivos

Comércios e restaurantes geralmente usam adesivos que devem ser comprados com antecedência e colados em cada recipiente de lixo, indicando o peso do conteúdo.

Na Coreia do Sul, os restos de comida nesses locais podem ter um volume bastante significativo devido a uma tradição culinária do país chamada de banchan, em que vários pratos são servidos como acompanhamento dos pratos principais.

A imagem mostra uma mão segurando uma etiqueta enquanto a outra mão está prestes a colocá-la em uma caixa vermelha. A caixa parece ser um recipiente de descarte, e há várias etiquetas brancas já coladas na parte superior. O fundo é um ambiente de cozinha, com alguns objetos visíveis, como um recipiente branco e outros utensílios.

Alguns restaurantes usam adesivos, que são colados nos recipientes de lixo de acordo com o peso – BBC

3. Usar máquinas com tecnologia RFID

Até junho de 2024, Yuna comprava sacolas, mas seu condomínio passou a usar um sistema automatizado.

Hoje, ela deposita os restos de comida em máquinas equipadas com RFID (identificação por radiofrequência), que transmite os dados por ondas de rádio para um centro remoto.

“Todo dia coloco os restos de alimentos em um recipiente de aço. E, de tempos em tempos, levo esse recipiente até a máquina, que fica trancada. Para abrir, eu preciso digitar meu endereço ou aproximar um dos cartões que eu recebi quando me mudei para cá, e que identifica cada apartamento”, explica.

A imagem mostra uma mulher se inclinando para dentro de um ponto de coleta de recicláveis. Ao lado dela, há duas máquinas de coleta, uma com uma tela e botões visíveis. As máquinas estão posicionadas em uma área urbana, com lixeiras e sacos de lixo ao fundo. As máquinas possuem ícones que indicam o tipo de material que pode ser reciclado, como papel e plástico.

No condomínio de Yuna há várias máquinas com sensores que pesam os resíduos e calculam o valor a ser pago – Yuna Ku

A máquina automaticamente pesa os desperdícios. Em alguns casos, o valor é cobrado na hora no cartão de crédito. Em outros, como no caso de Yuna, a máquina registra cada uso feito e o valor final é cobrado em uma conta mensal que inclui outros serviços públicos, como água.

“O que você paga por mês depende da quantidade de comida que você joga fora.”

A jovem, que mora sozinha, paga menos de US$ 5 por mês (cerca de R$ 30) pelos resíduos de alimentos.

“Eu acho as máquinas mais intuitivas que as sacolas”, diz Yuna. “Na minha opinião, esse sistema faz com que a gente fique mais consciente dos nossos desperdícios, porque você vê o peso dos restos de comida na máquina toda vez que joga fora.”

Além das máquinas que ficam nos condomínios, alguns distritos contam com caminhões equipados com RFID, que pesam os recipientes de lixo no momento da coleta, calculando o custo.

As multas

Yuna comenta que, no geral, a população usa corretamente o sistema de reciclagem, que além de regular o desperdício, tem regras específicas para o descarte de alumínio, plástico, papel e outros materiais.

Se alguém descarta restos de comida no lugar errado, pode levar uma multa. No caso de estabelecimentos comerciais, a infração pode ser detectada tanto pela quantidade reduzida de lixo registrada quanto por câmeras de segurança.

“No meu prédio teve um caso de advertência, e apareceu um aviso: ‘recentemente, alguém descartou resíduos de alimentos de forma errada. Temos câmeras de segurança e estamos observando tudo. Se continuar fazendo isso, será multado’.”

No caso das residências, as multas podem superar US$ 70 (R$ 400), a depender da frequência da infração.

Já para empresas, Jang diz que as multas podem superar 10 milhões de wons sul-coreanos, que equivalem a mais de US$ 7 mil (R$ 41 mil).

O desperdício na Coreia do Sul pode ser significativo por causa de uma tradição culinária chamada banchan, que serve vários acompanhamentos com um prato principal – Getty Images

O que é feito com os resíduos

Os restos de comida são reciclados com diferentes finalidades. De acordo com Jang, os principais usos, segundo dados de 2022, são para ração de animais (49%), adubo (25%) e produção de biogás (14%).

Mas o sistema de reciclagem da Coreia do Sul ainda enfrenta alguns desafios. Um deles é o possível risco para a saúde animal, já que as rações feitas com resto de comidas mal processados podem transmitir doenças.

“Atualmente, a maioria dos países industrializados proíbe ou limita o uso de restos de comidas em rações para animais”, afirma Rosa Rolle, especialista em desperdício de alimentos da Organização das Nações Unidas para Alimentos e Agricultura, a FAO (na sigla em inglês).

Em 2019, vários países asiáticos, incluindo a Coreia do Sul, enfrentaram um surto de peste suína africana, uma doença viral que causa febre hemorrágica em porcos e leva à morte.

O surto levou o governo sul-coreano a proibir o uso de rações feitas com restos de alimentos em criações de porcos.

A imagem mostra duas pessoas vestindo trajes de proteção, incluindo máscaras e luvas, em uma área externa. Elas estão apontando e gesticulando, possivelmente orientando sobre o acesso ao local. Ao fundo, há uma placa em coreano e uma barreira de segurança, indicando que a área é restrita. O céu está claro e há vegetação ao redor.

Surto de peste suína em 2019 fez com que o governo proibisse o uso de rações feitas com restos de comidas – Getty Images

Rolle esclarece, no entanto, que “há estudos que mostram que, quando são usados os métodos corretos no processamento, as rações feitas a partir de restos de animais são seguras. A indústria suína na Coreia do Sul não foi afetada negativamente pelo uso dessas rações.”

Jang afirma que a Coreia do Sul tem um sistema rigorosamente regulado para processar restos de comida usados como ração, com métodos como o aquecimento e a fermentação.

Outros desafios da reciclagem incluem a alta quantidade de sal nas comidas típicas coreanas (o excesso de sal pode fazer mal aos animais) e a necessidade de melhorar a tecnologia para tornar a produção de biogás mais eficiente.

O que a Coreia do Sul nos ensina

Um dos segredos do sucesso do sistema coreano é o fato de ter diversos pilares, como cobrança por peso de resíduos, multas, campanhas educativas frequentes, que ensinam como separar os resíduos, e conscientização do impacto ambiental do descarte inadequado.

“É uma abordagem integrada, que combina incentivos financeiros, educação pública e regulamentações rigorosas”, explica o professor Jang.

“O sistema tem se monstrado eficaz para reduzir o desperdício de alimentos e pode servir como modelo para outros países que buscam melhorar seus sistemas de gestão de resíduos.”

Outro fator chave é o engajamento por parte da população.

“No geral, os coreanos costumam seguir as regras e têm um forte senso de responsabilidade moral”, diz Yuna.

“Claro que não são todos, mas no geral, é assim. Além disso, comparado com a média salarial na Coreia do Sul, o custo mensal para reciclar os restos de comida não é tão alto.”

A imagem apresenta uma ilustração de uma máquina de alimentos. À esquerda, há uma pessoa vestindo um avental e segurando uma sacola de compras. À direita, a máquina está equipada com um visor e um slot para cartões. Abaixo da máquina, há um texto em coreano que explica como usar o dispositivo, mencionando que é fácil de usar e que a eficiência é melhorada em comparação com outros métodos.

Há várias campanhas educativas na Coreia do Sul ensinando as pessoas a usar as máquinas e conscientizando sobre o desperdício – Korea Environment Corporation

Mas será que um sistema de “pagar pelo desperdício” funcionaria em países com uma renda muito menor?

Para Rose Rolle, políticas como a sul-coreana são muito eficazes para conscientizar a população, mudar hábitos e incentivar a reciclagem.

Mas ela pontua que, em países com insegurança alimentar, como muitos da América Latina, o foco deveria ser em maximizar o aproveitamento dos alimentos por meio da redução de perdas, doações e outras medidas.

Os sistemas de cada país “devem se basear em dados sólidos e ter uma compreensão de onde, por que, e em que quantidade ocorrem os desperdícios e perda de alimentos. As soluções precisam estar fundamentadas em evidências científicas e se adaptar à realidade local.”

Para a especialista da FAO, “não existe uma única fórmula que funcione para todos.”

Reciclagem de alimentos na Coreia do Sul atinge 97,5% – 26/04/2025 – Mercado – Folha

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Exército de robôs em fábricas dão vantagem à China em guerra comercial com EUA

Fábricas altamente automatizadas podem ser arma para manter preços baixos em meio a tarifaço

Keith Bradsher – The New York Times – 24.abr.2025 

A arma secreta da China na guerra comercial é um exército de robôs de fábrica, alimentados por IA (inteligência artificial), que revolucionaram a manufatura.

As fábricas estão sendo automatizadas por toda a China em um ritmo acelerado. Com engenheiros e eletricistas cuidando de frotas de robôs, essas operações estão reduzindo o custo de fabricação e melhorando a qualidade.

Como resultado, as fábricas chinesas poderão manter o preço mais baixo de muitas de suas exportações, ganhando vantagem na luta contra a guerra comercial e as altas tarifas do presidente Donald Trump. A China também está enfrentando novas barreiras comerciais pela União Europeia e países em desenvolvimento, desde o Brasil e a Índia até a Turquia e a Tailândia.

As fábricas agora são mais automatizadas na China do que nos Estados Unidos, Alemanha ou Japão. A China tem mais robôs de fábrica para cada dez mil trabalhadores da manufatura do que qualquer outro país, exceto Coreia do Sul e Singapura, de acordo com a Federação Internacional de Robótica.

O impulso de automação da China tem sido orientado por diretrizes governamentais e apoiado por enormes investimentos. À medida que os robôs substituem os trabalhadores, a automação posiciona a China para continuar no topo da produção em massa, mesmo quando sua força de trabalho envelhece e se torna menos disposta a aceitar empregos industriais.

He Liang, fundador e CEO da Yunmu Intelligent Manufacturing, uma das principais fabricantes de robôs humanoides da China, afirma que o país está se esforçando para transformar a robótica em um setor de negócios totalmente novo.

“A expectativa para robôs humanoides é criar outra indústria de carros elétricos. Então, a partir dessa perspectiva, é uma estratégia nacional”, diz.

Os robôs estão substituindo trabalhadores não apenas em fábricas de automóveis, mas também nas milhares de oficinas de fundo de quintal da China.

A oficina de Elon Li em Guangzhou, o centro comercial do sudeste da China, tem 11 trabalhadores que cortam e soldam metal para fazer fornos baratos e equipamentos para churrasco. Ele está agora se preparando para pagar US$ 40 mil a uma empresa chinesa por um braço robótico com câmera. O dispositivo usa IA para observar como um trabalhador solda os lados de um forno e, em seguida, replica a ação com mínima intervenção humana.

Quatro anos atrás, apenas empresas estrangeiras disponibilizavam esse mesmo sistema, que custava quase US$ 140 mil. “Antes, eu nunca teria imaginado investir em automação”, conta Li, acrescentando que um funcionário humano “só pode trabalhar oito horas por dia, mas uma máquina pode trabalhar 24 horas”.

Empresas maiores apostam ainda mais na automação.

Em Ningbo, uma enorme fábrica da Zeekr, fabricante chinesa de carros elétricos, tinha 500 robôs quando foi inaugurada há quatro anos. Agora são 820, e muitos mais estão planejados.

Alegremente tocando melodias de Kenny G para avisar as pessoas de sua aproximação, carrinhos robóticos transportam lingotes de alumínio para um elevador automatizado, que eleva os blocos de metal para um forno no topo de uma máquina chinesa de 12 metros de altura. Uma vez derretido, o alumínio é moldado nas formas de vários painéis de carroceria e outros componentes. Mais carrinhos robóticos, e ocasionalmente um humano dirigindo uma empilhadeira, levam os componentes para um depósito.

Ainda mais robôs levam os painéis para a linha de montagem, onde centenas de braços robóticos, trabalhando em equipes de até 16, fazem uma dança complexa para soldá-los em carrocerias de carros. A área de soldagem é uma chamada fábrica escura, o que significa que os robôs podem operar sem trabalhadores e com as luzes apagadas.

Ainda assim, as fábricas chinesas empregam legiões de trabalhadores. Mesmo com a automação, eles são necessários para verificar a qualidade e instalar algumas peças que exigem destreza manual, como chicotes de fiação. Há coisas que câmeras e computadores não podem fazer sozinhos. Antes que os carros sejam pintados, por exemplo, os trabalhadores ainda passam as mãos enluvadas sobre eles e lixam qualquer pequena imperfeição.

No entanto, algumas das etapas posteriores de controle de qualidade também estão sendo automatizadas com auxílio da IA.

Perto do final da linha de montagem da Zeekr, uma dúzia de câmeras de alta resolução tiram fotos de cada carro. Os computadores comparam as imagens com um extenso banco de dados de carros corretamente montados e alertam a equipe da fábrica se uma discrepância for encontrada. A tarefa leva segundos para ser concluída.

“A maioria dos trabalhos dos nossos colegas envolve sentar na frente de um monitor de computador”, diz Pinky Wu, funcionária da Zeekr.

A Zeekr e outras montadoras chinesas também estão usando IA para projetar carros e seus recursos com mais eficiência. Carrie Li, designer que trabalha no novo edifício de escritórios da Zeekr em Xangai, usa IA para analisar como diferentes superfícies interiores se cruzarão em um carro.

“Tenho mais tempo livre para abrir minha mente e explorar por mim mesma quais tipos de tendências de moda incluir no interior dos carros”, disse Li.

As fábricas de automóveis nos EUA também usam automação, mas grande parte do equipamento vem da China. A maioria das fábricas de montagem de carros construídas nos últimos 20 anos estava na China, e uma indústria de automação cresceu em torno delas.

Empresas chinesas também compraram fornecedores estrangeiros de robótica avançada, como a Kuka da Alemanha, e transferiram grande parte de suas operações para a China. Quando a Volkswagen abriu uma fábrica de carros elétricos há um ano em Hefei, tinha apenas um robô da Alemanha e 1.074 robôs fabricados em Xangai.

O rápido avanço da China em robótica de fábrica foi impulsionado de cima para baixo. A iniciativa “Made in China 2025”, que começou há uma década, estabeleceu dez indústrias nas quais a China buscava ser globalmente competitiva, e a robótica era uma delas.

Para forçar a indústria automobilística a pensar em como usar robôs humanoides com dois braços e duas pernas, por exemplo, funcionários do governo em Pequim disseram às principais montadoras no ano passado para alugar robôs e enviar vídeos deles realizando tarefas em suas fábricas de montagem.

Os robôs fizeram apenas tarefas básicas, como classificar peças de automóveis em um depósito, mas a iniciativa ajudou a impulsionar as montadoras.

Em uma demonstração do impulso de automação, o governo municipal de Pequim realizou uma meia maratona no sábado (19) para 12 mil corredores e 20 robôs humanoides. Apenas seis robôs terminaram a corrida, e o mais rápido deles levou quase três vezes mais tempo que os corredores mais rápidos. Mas o evento ajudou a chamar a atenção para a tecnologia.

No mês passado, o primeiro-ministro Li Qiang, o segundo oficial mais importante da China, disse em seu relatório anual à legislatura que os planos do país para este ano incluiriam um esforço para “desenvolver vigorosamente” robôs inteligentes. A principal agência de planejamento econômico do país anunciou um fundo nacional de capital de risco de US$ 137 bilhões para robótica, IA e outras tecnologias avançadas.

Os bancos controlados pelo governo chinês aumentaram os empréstimos para mutuários industriais nos últimos quatro anos em impressionantes US$ 1,9 trilhão. Isso pagou pela construção de fábricas e pela substituição de equipamentos nas existentes.

As universidades chinesas produzem cerca de 350 mil graduados em engenharia mecânica por ano, além de eletricistas, soldadores e outros técnicos treinados.

Em comparação, as universidades americanas formam cerca de 45 mil engenheiros mecânicos por ano.

Jonathan Hurst, diretor de robótica e cofundador da Agility Robotics, uma das principais fabricantes americanas de robôs, afirma que encontrar funcionários qualificados tem sido um de seus maiores desafios. Na pós-graduação no Instituto de Robótica da Universidade Carnegie Mellon em Pittsburgh, Hurst diz que apenas ele e mais um colega eram engenheiros mecânicos.

Por outro lado, a rápida adoção da automação pela China preocupa alguns trabalhadores chineses.

Geng Yuanjie, 27, dirige uma empilhadeira na fábrica da Zeekr, onde trabalha há dois anos. Ele diz que havia consideravelmente menos robôs na fábrica da Volkswagen, onde trabalhava anteriormente. Cercado agora por robôs, ele tem poucos colegas de trabalho para conversar durante seus turnos de 12 horas.

“Posso sentir a tendência à automação”, afirma Geng enquanto observava um carrinho robótico puxar uma prateleira de peças de carro passando por sua empilhadeira. Ele diz que sua educação de ensino médio pode não ser suficiente para que ele se qualifique para aulas de programação de robôs, e que está preocupado que possa perder seu emprego algum dia para um robô.

“Não é apenas minha preocupação —todos se preocupam com isso”, alerta Geng.

A automação tem ameaçado e até eliminado empregos em todo o mundo por mais de um século, muitas vezes desacelerando o crescimento da tecnologia. Na China, há menos obstáculos do que praticamente em qualquer outro lugar. A China não tem sindicatos independentes, e o controle do Partido Comunista não deixa quase nenhum espaço para dissidência.

Outro fator por trás do impulso de automação da China é a crise demográfica do país.

O número de bebês nascidos a cada ano caiu quase dois terços desde 1987. Ao mesmo tempo, dois terços das pessoas que completam 18 anos agora se matriculam em uma universidade ou faculdade, uma trajetória educacional que permitiu que a nova geração aspire carreiras fora do trabalho fabril.

“O dividendo demográfico da China acabou. Eles estão agora em um déficit demográfico, e a única saída disso é a produtividade”, disse Stephen Dyer, chefe da prática industrial da Ásia na consultoria AlixPartners.

Robôs dão vantagem à China em guerra comercial com EUA – 24/04/2025 – Mercado – Folha

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Eu nasci há 10.000 anos atrás

Evandro Milet – Portal ES360 – 12 de outubro de 2024  

Essa é a sensação de quem nasceu e cresceu no século passado, ao constatar as mudanças rápidas que ocorreram no seu dia a dia, talvez principalmente depois da internet na década de 1990, mas não só por causa dela. Mudou tudo. Quem escrevia à mão, pedia à secretária para digitar – não -, bater na máquina, corrigia e escrevia novamente até acertar já sentiu um grande alívio com o ControlC/ControlV do Word. 

Fazer transparências à caneta e usar retroprojetor para uma apresentação só não é mais antigo que quadro negro com giz. Fazer e refazer planilhas era um suplício até aparecer o Visicalc, pioneiro antecessor do Excel. O Apple II é de 1977, inaugurando o computador pessoal, avô de notebooks e laptops. Quem conviveu com enciclopédias(a Barsa estava em muitas casas) ou com pesquisa na biblioteca do colégio ficou espantado com o Google em 1998 e endoidou agora com o ChatGPT. Bem mais revolucionário que trocar a régua de cálculo, que pouca gente lembra, pela calculadora. 

E o alívio de quem fazia ligações interurbanas(quem usa essa expressão mais?) com telefonista quando chegaram o DDD, o DDI, o orelhão(cadê eles?)e finalmente o celular em 1990? E olha que nessa época era só para falar, o iPhone com acesso aos dados só veio em 2007 com sua lista interminável de apps. Aí a coisa tomou velocidade vertiginosa. Tudo virou app para resolver as dores do mundo. Há quanto tempo você não para o carro na rua para pedir indicação de um local? Com o Google Maps e o Waze, não se precisa mais nem ter senso de direção. 

Se os táxis ficavam nos pontos, sumiam na chuva ou passavam batido, inventaram o Uber. Se as casas tinham tinham quartos vagos ou se os hotéis nos davam uma experiência enlatada nas cidades, o Airbnb monetiza os quartos e oferece uma experiência de não turistas nas viagens. Um dos primeiros a perceber o potencial imenso da internet para facilitar a vida foi Jeff Bezos com a Amazon, ainda em 1994, primeiro para vender livros, depois para vender tudo. Foi praticamente o inventor do ecommerce, um bálsamo na pandemia. 

Comprar um livro técnico em inglês, 10.000 anos atrás ou há 10.000 anos(Raul, você errou no português no título), era uma aventura, com livrarias especializadas e prazos intermináveis. Uma maravilha ler um no dia do lançamento pelo Kindle. Você esperava o lançamento do disco, um LP com várias músicas, ou o compacto com duas? Algumas músicas você ouvia e outras descartava? Só quando estava em casa perto da vitrola? Você está velho, cara. 

Faça sua playlist no Spotify, só com o que você curte. Cinema? No Netflix. Novela? Melhor as séries. Câmera no celular, selfie, Instagram, os álbuns de família saíram das salas para a nuvem, multiplicadas às centenas, mas ninguém mais vê. Dá para trabalhar de casa ou de qualquer lugar e todo mundo aceita reunião virtual para fazer negócios. Para desespero nosso dá para fazer oito reuniões por dia. Falar de graça pelo Zap é um conforto, falar com amigos antigos nas redes sociais não tem preço, até descobrir que alguém controla os algoritmos, o vilão do século. Eles cantariam com Raul Seixas: E não tem nada nesse mundo que eu não saiba demais.

Eu nasci há 10.000 anos atrás – ES360

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Trump e mudanças na Europa derrubam entusiasmo com produção de hidrogênio verde no Brasil

Empolgação com combustível do futuro foi afetada por lentidão dos europeus e priorização de projetos no norte da África

Pedro Lovisi – Folha – 21.abr.2025 

Há alguns meses, tanto governo brasileiro quanto empresários estavam empolgados com a possibilidade de o Brasil ser o vanguardista na produção em escala de hidrogênio verde no mundo. O pioneirismo, apontavam, abriria portas de mercados avançados para a indústria nacional e permitiria o desenvolvimento do Nordeste, região que abriga os principais projetos do combustível no país.

Esse entusiasmo, no entanto, dissipou-se e os brasileiros caíram na real, nas palavras de alguns executivos do setor. A chegada de Donald Trump à presidência dos EUA só aumentou as incertezas preexistentes com o combustível do futuro, e até a Europa –que abrigará a primeira demanda desse mercado– deu alguns passos atrás nas últimas semanas.

O próximo primeiro-ministro da Alemanha, Friedrich Merz, por exemplo, é reticente quanto às metas ambiciosas do atual governo e já questionou a viabilidade de substituir o uso de gás na produção de aço por hidrogênio verde. A narrativa pode ganhar força em caso de um cessar-fogo na guerra na Ucrânia e uma retomada de exportação de gás russo para a Europa.

Sem uma meta ambiciosa dos alemães, que lideram a pauta ambiental na Europa, dificilmente o mercado deve caminhar com a velocidade que se esperava.

“A Europa tinha uma missão publicada de 10 milhões de toneladas de importação, o que equivale a 60 gigawatts de eletrolisadores. Mas eles estão passando por conflitos e por uma série de coisas, o que faz com que a gente entenda que a demanda atual seja bem menor”, diz Luis Viga, responsável pelo projeto da Fortescue no Brasil e presidente do conselho da ABHIV (Associação Brasileira da Indústria de Hidrogênio Verde). “Com isso, muitos projetos no mundo foram cancelados.”

Especialistas também apontam que as pesquisas relacionadas à produção de hidrogênio verde avançaram menos do que o planejado e é difícil estimar quando o combustível terá o mesmo preço do hidrogênio cinza, feito a partir de combustível fóssil.

A Bnef, braço da Bloomberg responsável por pesquisas sobre transição energética, apontou neste mês que dificilmente o quilo do hidrogênio verde custará, em algum momento, US$ 1, valor necessário para que se equipare ao hidrogênio cinza. Hoje, nas contas da consultoria, no melhor cenário possível, o combustível limpo custa US$ 3,2 por quilo na China.

Fora do gigante asiático e com tecnologias menos avançadas, no entanto, esse valor sobe para US$ 4 na Arábia Saudita, US$ 6,3 na Índia, US$ 6,7 na Espanha e US$ 7 no Brasil. As análises levam em conta projetos desconectados da rede elétrica, mas no caso do Brasil os projetos devem estar conectados, o que reduziria o atual preço para cerca de US$ 3,5, segundo executivo do setor.

Ainda assim, o avanço de alguns projetos fora do Brasil a partir de subsídios públicos e as dificuldades físicas para transportar o hidrogênio para a Europa colocaram alguns países mais próximos dos europeus na dianteira da corrida pelo primeiro fornecimento. No ano passado, um projeto de hidrogênio verde no Egito foi o campeão de um leilão organizado com o governo alemão para abastecer o país a partir de 2027.

“O que houve, na verdade, foi um choque de realidade de qual é o tamanho desse mercado e no que ele pode ser usado”, diz Vinicius Nunes, chefe de pesquisa do mercado brasileiro de transição energética na Bnef. “Mas, ao mesmo tempo, não necessariamente o Brasil vai ser o fornecedor; o país pode até ser competitivo, mas há subsídios e regulações [que afetam a corrida].”

A proximidade dos projetos com a Europa é um dos pontos mais levados a sério nas análises de viabilidade feitas pelas grandes empresas do setor, segundo Hanane El Hamraoui, vice-presidente da HDF, empresa francesa com vários projetos de H2 verde no mundo.

O custo logístico do hidrogênio é alto e, em caso de transporte por navios, é necessário transformá-lo em amônia no país exportador e reconvertê-lo em hidrogênio no país importador. Uma das soluções mais viáveis encontradas pelos europeus é o transporte via gasodutos –em janeiro, Itália, Alemanha, Áustria, Argélia e Tunísia anunciaram um plano de avançar na construção da infraestrutura.

“Se quisermos evitar uma infraestrutura muito grande a ser instalada, projetos próximos ao mercado é melhor. O Egito, por exemplo, está próximo do mercado, assim como Marrocos e Tunísia”, diz El Hamraoui.

O cenário desfavorável aos projetos brasileiros prejudica a assinatura de contratos com empresas interessadas em comprar antecipadamente a produção. Essas negociações são responsáveis por injetar investimentos nas instalações ou por facilitar a interlocução com bancos privados.

“Aqui no Brasil ninguém ainda tem contratos de offtake [fornecimento antecipado]. E todos os projetos grandes têm que ser financiados, porque o banco só vai emprestar se tiver offtake”, diz Viga, da Fortescue. Executivos acreditam que esses contratos só serão assinados quando os projetos tiverem concluído suas engenharias.

Mas o primeiro grande contrato de offtake pode estar prestes a acontecer. No final de abril, a Hintco, organização responsável por gerir o leilão que consagrou o projeto no Egito, visitará São Paulo para apresentar seu novo leilão –desta vez com um lote dedicado apenas a projetos na América Latina e Oceania.

A Hintco garante o pagamento de 484 milhões de euros (R$ 3 bilhões) ao projeto vencedor em troca de fornecimento do hidrogênio verde para empresas europeias de 2028 a 2036 —em comparação, o projeto da Fortescue exige R$ 20 bilhões.

Vence o projeto com o menor preço, sendo que a diferença entre o valor vendido e o pago pelas empresas será bancado pelo governo da Alemanha. A quantia só será entregue ao projeto após o fornecimento, mas uma garantia antecipada de demanda pode facilitar a interlocução com bancos privados.

“Nós oferecemos acordos de compra de longo prazo, com preços fixos, e isso permite que os projetos tomem a decisão final de investimento e tenham um caso de negócio viável. Com isso, eles têm um comprador que está além de qualquer risco de crédito, já que o leilão é apoiado pelo governo alemão”, diz Timo Bollerhey, CEO da Hintco. O vencedor deve ser anunciado no início do ano que vem.

A expectativa é que, caso o vencedor seja um projeto brasileiro, o andamento da primeira produção possa alavancar a demanda interna do país, o que desprenderia os interesses do Brasil das políticas europeias. “Uma vez que você comece a produzir e a aumentar a escala, o seu custo de produção diminuirá. E então isso chegará a um ponto onde também será interessante para o consumo local”, diz Bollerhey.

A demanda local, aliás, é vista por alguns especialistas como a origem da real viabilidade dos projetos brasileiros de hidrogênio verde, hoje ainda muito voltados para exportação.

“O Brasil tem que olhar principalmente para o mercado doméstico, porque o maior uso hoje de hidrogênio no país é a Petrobras, então você já tem um uso que poderia ser descarbonizado. Se a possibilidade de exportação acontecer, acho que é ótimo, mas o Brasil tem que focar também projetos domésticos”, diz Nunes, da BloombergNEF.

O jornalista viajou a convite do Ministério de Relações Exteriores da Alemanha

Cai entusiasmo com produção de hidrogênio verde no Brasil – 21/04/2025 – Mercado – Folha

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