Mundo digital, que já era acelerado, deu um salto

por Evandro Milet

Em 1965, Gordon Moore, um dos fundadores da Intel, fez uma das maiores sacadas do mundo digital. Ele previu que a capacidade de processamento e armazenamento dos chips dobraria a cada 18 meses. Isso tem acontecido sistematicamente há mais de 50 anos( os computadores quânticos prometem agora quebrar essa tradição, com sua computação não binária). 

Desde 1965 vivemos então um normal no mundo digital: a convivência com uma exponencial que coloca no nosso bolso a capacidade de processamento dos supercomputadores do final do século passado, leva o custo de armazenamento de informações para quase zero e permite comunicações quase instantâneas como estamos presenciando com o 5G.

Essa infraestrutura criou coisas fantásticas que surpreendem mesmo aqueles que convivem desde sempre como eu, quase junto com o Gordon Moore, com novidades surpreendentes todas as semanas.

Verdade que durante anos, aqueles que tentaram prever o futuro costumavam subestimar o que acontecia com o hardware e superestimar o que acontecia com o software. Parece que isso foi superado pela dinâmica do capitalismo de startups que colocou milhões de empreendedores, em todo o mundo, a disponibilizar no mercado soluções digitais para todos os problemas e todas as dores do mundo. O espírito animal dos empresários, na forma digital, acelerou tudo, inclusive a destruição criativa de Schumpeter, talvez mais para hecatombe criativa.

Grandes empresas ou pelo menos grandes promessas, mesmo digitais recentes, algumas inclusive que costumavam ficar nas listas das maiores durante dezenas de anos agora sucumbem ou balançam seriamente uma atrás da outra. Já foram engolidas Kodak, Xerox, Motorola, Nokia, Blockbuster, Macy’s, Sears, Yahoo, Blackberry, Orkut, Compaq, DEC, Sun, Sega, HP, Atari, muitas de aviação, muitos bancos e muitas do varejo.

Em 1970, completando agora 50 anos, foi lançado o grande best seller do futurismo, o livro “O Choque do futuro” do visionário Alvin Toffler. Ali, em paralelo com a exponencial de Gordon Moore, ele anteviu o correio eletrônico, a mídia interativa, os chats, as videoconferências, o trabalho em casa e criou a figura do prosumidor, mistura de consumidor com produtor, popularizada nos auto serviços e até no mundo maker atual. Toffler inclusive afirmou a verdade repetida sem paternidade hoje que “ o analfabeto do século 21 não será aquele que não souber ler e escrever, mas aquele que não souber aprender, desaprender e reaprender”

Ele previu o trabalho em casa, a economia compartilhada para usar em vez de possuir, a sobrecarga de informações propiciada pela proliferação de computadores pessoais e redes, os assistentes pessoais digitais e a adhocracia, uma maneira de organização de empresas sem estrutura formal como aliás funcionam muitas startups hoje.

Duas de suas previsões, contestadas por críticos durantes tempos, caem como bomba em tempos de pandemia: ele previu que as cidades perderiam importância com a migração do trabalho dos escritórios e fábricas para as casas e que a sobrecarga de informações e dados provocariam isolamento social. Pode não ser definitivo, mas está acontecendo com muita gente querendo morar em lugares mais ecológicos e trancados em casa.

O fato é que o nosso normal, de viver a exponencial do mundo digital, foi disruptado(existe isso?) e a curva acentuada virou vertical de repente, com a pandemia provocando uma antecipação de futuros. Coisas que a exponencial digital traria em 5 ou 10 anos foram jogadas na necessidade do presente e aceleradas na educação, saúde, trabalho, lazer, justiça, governo, comércio e todo o resto.

Muita gente considera a expressão “O Novo Normal” como algo estanque ou acomodado. Nada mais equivocado. Não tem sido assim por 50 anos e continuará não sendo. Mas queremos nossa curva exponencial de volta, já acostumamos com ela. Esse será o nosso novo normal, já incorporado das descontinuidades da pandemia, isto é, provavelmente.

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Empresas abandonam reconhecimento facial por identificações equivocadas

IBM, Amazon e Microsoft deixam de lado a tecnologia depois de estudos comprovarem que ela reforça preconceitos raciais

Por André Lopes – Publicado em VEJA de 24 de junho de 2020, edição nº 2692 

O assassinato do americano George Floyd em uma abordagem policial despertou a urgência do combate a toda e qualquer forma de racismo. Nesse contexto, uma tecnologia que nasceu com a promessa de tornar as cidades mais seguras passou a ser amplamente contestada. Trata-se do sistema de reconhecimento facial, método de identificação de rostos que tem sido acusado não apenas de devassar a privacidade das pessoas como também de reforçar o preconceito racial. 

Estudos recentes mostram que negros estão mais expostos a erros cometidos por essas máquinas, correndo o risco concreto de ser submetidos à violência de certas autoridades graças a leituras equivocadas feitas pelas câmeras. Em um estudo recente, pesquisadores do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) comprovaram que rostos mais escuros são pouco representados nos conjuntos de dados usados para “treinar” os equipamentos. A mesma pesquisa concluiu que os algoritmos classificaram as mulheres de pele escura como sendo homens em 34,7% dos casos, enquanto o índice de falhas na aferição de homens caucasianos foi inferior a 1%.

As dúvidas a respeito do uso da tecnologia estão levando inúmeras empresas a abandoná-la, congelando um mercado com potencial para movimentar 7 bilhões de dólares até 2024. A IBM foi a primeira. No início de junho, a companhia americana informou que não vai mais desenvolver ferramentas de vigilância em massa em contextos que violem os direitos e liberdades humanas — é exatamente o que ocorre agora. Na sequência, foi a vez da Amazon, empresa do bilionário Jeff Bezos, que proibiu a polícia de usar o seu software Rekognition por um ano. Na quinta-feira 11 de junho, a Microsoft se uniu às rivais e decidiu limitar o acesso das suas ferramentas ao avisar que não venderá a tecnologia até que haja uma lei federal de regulamentação.

O sistema da Amazon era alvo de dúvidas desde o ano passado. Em um levantamento inédito, a União Americana para as Liberdades Civis testou a assertividade do algoritmo cruzando as fotos de todos os 535 senadores e deputados federais com as imagens de 25 000 criminosos arquivadas num banco de dados. A falha foi discrepante: 28 dos legisladores foram reconhecidos como bandidos, mas nenhum dos parlamentares era foragido da Justiça. 

Outras pesquisas recentes constataram que máscaras de proteção como as usadas para evitar o contágio pela Covid-19 são capazes de ludibriar os sensores e suspeita-se até que lentes de contato possam fazer o mesmo. O ocaso da tecnologia de reconhecimento facial mostra que a fé cega que em geral se deposita nas inovações — supostamente desenvolvidas a partir de rigorosos preceitos técnicos — pode muitas vezes ser um grande equívoco. 

https://veja.abril.com.br/tecnologia/empresas-abandonam-reconhecimento-facial-por-identificacoes-equivocadas/

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Igual diferente – assim serão as coisas depois da pandemia

Como vai ser após a pandemia? Misturamos o que já existe para criar novidades

29.jun.2020 

Muita gente me pergunta como vão ser as coisas depois da pandemia. Respondo que o ser humano é péssimo para prever o futuro. Quando insistem, digo que o futuro será igual diferente.

Como vou trabalhar, vender meus produtos? Igual diferente. Como vou viajar? Igual diferente. Isso pode tranquilizar as pessoas porque, mesmo quando o mundo muda, e a tradição do mundo é mudar, essências permanecem.

Os carros da Ford mantiveram as rodas e os bancos das charretes. E os motores dos carros até hoje são medidos em cavalos de potência.

À esquerda, o piloto João Santos, 41, e à direita, o copiloto Lucas Favarin, 32, em 

Não jogamos tudo fora para parir o novo. Misturamos o que já existe para criar as novidades.

A mercearia aqui no condomínio começou a usar o zap para vender seus produtos e vai muito bem. Todo mundo que pode foi ou está indo para o digital. Milhões de serviços se digitalizaram na marra. O que levaria anos levou semanas. E esses novos entrantes estão renovando as novas plataformas.

Por que a loja de rua não pode se juntar com a loja do lado para criarem um shopping virtual, pelas redes, naquela vizinhança que conhecem tão bem? Isso já está acontecendo.

Esses inputs de quem ainda não era ligado em tecnologia, mas teve que se conectar, serão vitais para forjar esse igual diferente.

Marketplaces digitais aceleram ainda mais sua expansão apresentando uma saída espetacular para negócios sem negócios e perspectivas. Aliás, o Alibaba explodiu depois da epidemia de Sars na China no começo do século, que fez o país e a Ásia darem um salto na digitalização.

O Brasil só vai sair dessa crise cuidando dos pequenos e médios empresários que agora estão ameaçados pela pandemia. São eles que põem a mão na massa, geram os empregos e fazem a economia do país rodar. Para essas pequenas empresas, os marketplaces e a nova comunicação podem ser redentores. Eles são mais acessíveis e mais baratos do que os modelos e serviços que os precederam.

As empresas e os indivíduos vão ter de se transformar para seguirem entregando o que seguiremos desejando, como viajar, sair para jantar, encontrar os amigos.

A baixa estação pode ser a que terá os preços mais caros. A nova companhia aérea pode ser aquela que conseguir solução de ar fresco e saudável, tanto que se chamará Fresh Air. A melhor mesa do restaurante será ao ar livre. Isso tudo é chute, mas a inteligência humana adora dificuldade, desafio e risco. E já está criando o igual diferente.

Estou morando a 100 km de São Paulo e quero passar mais tempo aqui depois que isso tudo passar. O zoom me deixou mais perto dos meus clientes. Consigo mais qualidade de vida e foco no trabalho porque descobri que não trabalhava só na comunicação. Eu era também motorista, passava horas por dia no trânsito, mas essa nobre profissão não era a minha profissão.

E o home office é mais sadio que o office home daquelas pessoas que moravam no trabalho. Aquilo, que eu também pratiquei, não era sadio. Não acredito também no home office pleno. Daqui a pouco a minha mulher vai me matar…

Vou mudar da minha casa em São Paulo para um apartamento porque percebi que não precisava de tanta coisa. Por que quis tudo isso? Porque você me vendeu isso como publicitário, respondo a mim mesmo. Assim como estou conversando comigo mesmo, o mundo está conversando consigo mesmo.

O que vamos querer? Minha aposta é que vamos gastar mais em serviços do que em produtos, mais em experiências do que em consumo. O século 21 é o século do aprendizado permanente e das profissões que serão mais arquitetura do que construção. Este doloroso freio de arrumação está nos preparando para isso.

Nizan Guanaes

​Empreendedor, criador da N Ideias​.

https://www1.folha.uol.com.br/colunas/nizanguanaes/2020/06/igual-diferente.shtml

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Investidores de startups revelam setores que podem se destacar em breve

Entre janeiro e maio, ecossistema de startups teve números de aportes superiores aos de 2019; para investidores, oportunidades no segundo semestre devem surgir em áreas como saúde, educação, agronegócio e e-commerce

01/07/2020 Por Bruno Capelas – O Estado de S. Paulo

Passados mais de 100 dias desde o início do período de isolamento social no Brasil, é difícil destacar um setor da economia que possa dizer que esteja bem. Mas há aqueles que são capazes de vislumbrar uma luz no fim do túnel – caso dos investimentos em startups. Depois de um tropeço em março, com o mercado sentindo bastante insegurança em novos aportes e uma queda de 85% nos valores de cheques na comparação com o ano anterior, o ecossistema dá mostras de que pode seguir em frente. 

Segundo estatísticas da empresa de inovação Distrito, os investimentos realizados no Brasil entre janeiro e maio são até superiores aos de temporadas anteriores: foram aportados em startups daqui US$ 516 milhões, em 116 rodadas diferentes. No ano passado, tinham sido 113 cheques, num valor total de US$ 431 milhões. 

É válido salutar que talvez não haja fôlego para que o primeiro semestre de 2020 supere o do ano passado – em junho de 2019, rodadas milionárias que totalizaram US$ 681 milhões foram realizadas em empresas como Gympass, Loggi e Creditas, a partir dos aportes polpudos feitos pelo grupo japonês SoftBank. Na visão do mercado, porém, a sensação que se tem é que o ano passado foi que fugiu fora da curva – e não este. 

Considerados os números entre janeiro e maio, porém, é possível dizer que, apesar da situação complicada em que o País se encontra em diversos ramos, oportunidades seguem surgindo para as empresas de base tecnológica. 

E, na visão de investidores ouvidos pelo Estadão, elas são diversificadas: estão em áreas como saúde e educação à distância, mas também no e-commerce, no agronegócio, no varejo e até em tecnologias para o governo. Abaixo, confira as perspectivas e apostas de seis investidores – Romero Rodrigues (Redpoint eventures), Mate Pencz (Canary), Renato Ramalho (KPTL), Scott Sobel (Valor Capital), Flávio Dias (500 Startups) e Renato Mendes (Organica) – para os próximos meses. 

Tem setores que claramente foram catalisados pela pandemia, como a área de biotecnologia e de saúde, a tecnologia remota, como apps de produtividade e e-commerce. São áreas que vão se aproveitar da mudança de comportamento das pessoas, estão numa crescente que não retornará mais ao patamar pré-quarentena. Mas essas áreas trazem um desdobramento muito interessante em outros setores, na infraestrutura: isso vale tanto para soluções de logística e de entrega, que usam tecnologia para serem mais eficientes, quanto a infraestrutura da própria tecnologia, como nuvem e cibersegurança. Afinal, não basta só colocar um site no ar e sair vendendo: é preciso fazer o produto chegar, com uma boa experiência de cliente e cuidando bem dos seus dados. 

Acredito que a grande novidade é que o e-commerce vai voltar a ser sexy. É uma área que eu gosto bastante, até pela minha história. Foi um setor que teve um primeiro ciclo forte na primeira era da internet, as grandes histórias daquela época estavam relacionadas a isso, como a Buscapé e a Netshoes. E aí o e-commerce não estava tão atraente nos últimos anos, mas agora vai voltar em uma série de áreas, especialmente em soluções para marketplaces, como a Olist tem feito. E acho que há espaço para crescimento em novos setores no e-commerce, como a área de casa e decoração – que demanda um investimento maior. Não dá para entregar dois caminhões de piso usando os correios, tem que ter infraestrutura, mas agora há mais maturidade para isso. 

E tem alguns setores que nós já estávamos olhando e continuam atraentes. Saúde e bem estar são dois deles, fizemos investimentos em empresas como Vittude (terapia online) e Sami. Na pandemia, também investimos em mobilidade, na Tembici, que é uma empresa bacana. E temos visto muita coisa bacana na área de economia circular, em área de reciclagem. Acho também que as pessoas vão cobrar mais impacto positivo pelo que recebe investimentos, o que ajuda áreas como reciclagem e mobilidade

Hoje, estamos de olho em oportunidades de eficiência e produtividade em diferentes setores da economia, mas especialmente em verticais focadas no consumo da classe média. Acredito que a pandemia vai reforçar a transformação digital em todas as indústrias, com muitas oportunidades para quem quiser fazer a tradução do “físico para o digital”, em varejo e e-commerce. Saúde tem ido bem, fizemos alguns investimentos nessa área. Mobilidade também. Outro destaque são as as fintechs, que chamaram a atenção nos últimos anos e terão ainda mais inovação. Será um movimento de inovação contínua, puxado pelo que o Banco Central tem promovido na regulação, em áreas como o open banking e os pagamentos instantâneos.

A pandemia é uma oportunidade enorme de negócios porque surgiram novas dores para os consumidores, ninguém as resolveu ainda. Algumas respostas já estão óbvias, como telemedicina, ensino à distância e soluções para trabalho remoto. Mas outras ainda são difíceis de precisar, porque passa por entender mudanças de comportamento. Muita gente perdeu o medo de fazer coisas online, comprar, tem muita oportunidade aí – até porque é um medo que se perdeu e não volta mais. Vejo com bons olhos quem apostar em novidades em alimentos e bebidas, ou no setor de limpeza. Por outro lado, também há setores que vão ter problemas justamente por conta do medo – em especial, aqueles que envolvem contato físico, especialmente, como turismo e restaurantes. 

O agronegócio tem sido, consistentemente nas últimas décadas, se provado como um setor com DNA brasileiro. Acho que há muito espaço para tecnologia nessa área. Todas as nossas empresas do portfólio desse setor estão indo muito bem, mesmo com toda a crise e a dificuldade logística. O choque de curto prazo (por conta da pandemia) não mudou a tese de investimentos e estratégia que a gente já tinha. Outro setor que tem bastante oportunidade é o de govtechs, startups que prestam serviço para o governo. Vimos agora que há muito espaço, muita demanda na digitalização para qualquer ponto de contato do governo com a população. Além disso, as empresas de saúde também tem passado por um momento interessante. 

Não vejo uma divisão tão grande por setores, mas vejo que algumas coisas terão uma importância maior na pandemia. Fico feliz de ver que há uma quantidade relevante de empreendedores indo atrás de oportunidades de usar tecnologia no agronegócio e também na luta contra mudanças climáticas, na discussão de créditos de carbono, por exemplo. Acho que o Brasil é um ótimo espaço de testes para isso, até por conta do patrimônio natural como a Amazônia. Nós não tínhamos quase nenhuma empresa de agro no portfólio, agora estamos estudando várias. Mas o resto também vai continuar em alta: fintechs seguem acelerando, setor imobiliário também, eram tendências que já estavam acontecendo. 

https://link.estadao.com.br/noticias/inovacao,investidores-de-startups-revelam-setores-que-podem-se-destacar-em-breve,70003349845

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Conferência no Zoom é invadida com imagens de apologia ao nazismo e atentado ao pudor

Apesar das novas medidas de segurança, invasores foram capazes de habilitar funções bloqueadas pelos hosts do evento para realizar ataque

por Karina Pizzini, especial para Computerworld Brasil – 29/06/2020

À medida que a plataforma de videoconferência Zoom ganhava popularidade no mundo, e também no Brasil, ela virou foco de hackers que caçam suas vulnerabilidades para criar novas formas de ataque. O número de reclamações subiu junto com as medidas de isolamento social, sendo proibida por várias organizações que temem a segurança dos seus dados durante reuniões e conferências. Embora a maioria das violações tenha esse propósito, no dia 10 de junho, uma conferência realizada pelo Instituto Comunitário Grande Florianópolis (Icom), a qual discutia práticas antirracistas, foi invadida com imagens obscenas, suásticas, decapitação e músicas misóginas. Foram localizados quatro invasores, dos quais, mesmo sendo constantemente bloqueados, conseguiam retomar o controle do áudio e do compartilhamento de telas sem autorização dos hosts do evento.

Após um período conturbado para a plataforma de videoconferências no início da pandemia, no final de abril a plataforma anunciou várias atualizações e mudanças para reforçar sua segurança, que, segundo o comunicado, seria implementada em todo o sistema nos dois meses seguintes.

Em seu blog, a última atualização da plataforma foi anunciada em post do dia 22, após anúncio das medidas em uma webinar no dia 20 de maio. Desde então, Fernando de Falchi, Gerente de Engenharia de Segurança da Check Point Brasil, disse que nenhuma violação como as detectadas anteriormente foram localizadas depois das novas medidas de segurança. “Tirando o início da pandemia, que o Zoom teve aquele boom de usuários – depois das novas medidas – não tiveram reclamações de invasões como essa”, diz em relação às características do ataque sofrido pelo Icom.

Antes, a plataforma dava um ID de reunião e gerava um código do Zoom, com uma sequência de letras. “O pessoal descobriu como esse código era montado e viu que era só trocar umas letras e números e assim conseguiam entrar em qualquer reunião, de qualquer lugar do mundo, sem ser convidado”, explica.

“Eles [Zoom] mudaram a maneira como criavam esse ID da reunião e, além de tudo, colocaram uma senha – é possível compartilhar o link da reunião com essa senha ou pedir para a pessoa digitar a senha para entrar na reunião. Hoje, a pessoa não consegue mais sair chutando números de letras de ID para entrar na reunião”, complementa.

Conforme postagem no blog da Zoom algumas mudanças de segurança incluíam: controle de compartilhamento de tela definido, “para contas únicas do Zoom Pro, o compartilhamento de tela é definido como ‘somente host’, por padrão. Hosts e co-hosts podem conceder acesso a outros participantes no ícone Segurança”; e consentimento para ativação de som, “quando um organizador da reunião silencia um participante, ele não pode mais ativar o som dessa pessoa sem o seu consentimento”.

O link de acesso à web conferência do Icom foi compartilhado publicamente antes do evento, deixando-o mais exposto a ataques direcionados e facilitando a entrada de um ouvinte mal intencionado. Entretanto, segundo a comunicação do Icom, somente Lia Vainer Schucman, doutora em Psicologia Social, professora e ativista antirracista, após solicitação à host, teve a permissão concedida para compartilhamento de tela. Além disso, somente ela e a mediadora, Mariana Assis, guardiã de relacionamento com a sociedade civil organizada do Icom, tinham os microfones habilitados sob autorização dos hosts.

Ainda assim, um dos invasores conseguiu compartilhar os vídeos, enquanto outros dois invadiram o áudio. Uma quarta pessoa aparecia se masturbando ao vivo. Após alguns vazamentos de áudio ao longo da conferência e algumas intervenções de bloqueio do áudio da professora, sem razões identificadas até o momento da invasão. Cerca de uma hora depois do início do evento, os quatro hackers iniciaram, de fato, o ataque criminoso de apologia ao nazismo, racismo e atentado ao pudor.

“A plataforma Zoom, que utilizamos para o encontro que contava com cerca de 70 pessoas, foi invadida, e ocorreu a exibição de um vídeo com imagens violentas, propagando mensagem de ódio, apologia ao nazismo e atentado ao pudor. Racismo e a apologia ao nazismo são crimes. Rapidamente, a equipe do ICOM conseguiu remover perfis envolvidos na ação e retomar o evento, que foi gravado. A invasão com propagação de mensagem criminosa será denunciada formalmente às autoridades responsáveis pela investigação destes casos, assim como à plataforma Zoom”, disse o Icom em nota.

O Zoom, em nota emitida pela sua assessoria de imprensa disse que “condena veementemente esse comportamento” e que, recentemente, atualizou as configurações padrão e adicionaram recursos para ajudar os hosts nos controles de segurança nas reuniões, incluindo: “controle do compartilhamento de tela, a remoção e a geração de relatórios de participantes e o bloqueio de reuniões, entre outras ações”.

“Também instruímos os usuários sobre as práticas recomendadas de segurança para a organização de suas reuniões, incluindo a recomendação de que os usuários evitem compartilhar links e senhas privadas de reuniões publicamente em sites, mídias sociais ou outros fóruns públicos, além de incentivar qualquer pessoa que apresente eventos públicos utilize a solução de webinar da Zoom. Temos o compromisso de manter um ambiente on-line igual, respeitoso e inclusivo para todos os nossos usuários. Levamos as interrupções das reuniões extremamente a sério e, quando apropriado, trabalhamos em estreita colaboração com as autoridades policiais. Incentivamos os usuários a denunciar qualquer incidente desse tipo ao Zoom e às autoridades policiais para que as ações apropriadas possam ser tomadas contra os infratores”, diz a nota.

Falchi lembra que, embora tenhamos uma polícia capacitada para investigações de ciberataques, é muito difícil localizar os criminosos. “Existiu o crime, mas identificar quem fez é realmente é difícil. […] Quando é recorrente fica mais fácil porque a polícia o acompanha até que ele cometa um erro e a seja identificado. A pessoa tem que cometer um erro para ser pego. Levando para o mundo que estamos discutindo, quando ele quer [invadir para] colocar informações para difamar alguém [por exemplo], ele está com aquilo na cabeça e faz a toda hora, e assim vai acabar cometendo um erro”, comenta.

Segurança

Durante o ataque muitas pessoas saíram rapidamente da sala de conferência com medo do que aquela violência significaria para a privacidade de seus dados. Falchi lembra que como toda ferramenta ligada à internet, nunca estamos cem por cento seguros. “Para ele [invasor] conseguir informação de alguém através de uma reunião do Zoom, só se as pessoas abrirem um link compartilhado. Ele teria que fazer a pessoa ir para algum lugar onde fosse possível ele ter controle”, explica. Embora afirme que não tenha ligação direta – com invasão motivada para roubo de dados – a recomendação serve para todas as situações: troque as senhas por precaução.

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A saída da pandemia precisa de um ambiente de negócios favorável

por Evandro Milet

com alguns dados da matéria da revista Veja no link https://veja.abril.com.br/economia/por-que-as-exportacoes-da-industria-sofrem-mesmo-com-o-dolar-nas-alturas/

Mesmo com a forte desvalorização do real de 32,3% em relação ao dólar desde o começo do ano, passando de 4,02 reais em 2/1/2020 para 5,4 reais hoje, as exportações brasileiras caíram 7,2% de janeiro a maio em relação ao mesmo período do ano anterior. Os produtos manufaturados caíram 25% e os semimanufaturados caíram 7,5%.

A pandemia influenciou, mas não só. Dados do Iedi – Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial mostram que a queda da participação da indústria nas exportações brasileiras vem ocorrendo desde 1993.

A instabilidade macroeconômica é um dos principais entraves. Desde 2014, a dívida pública brasileira vem crescendo em relação ao PIB, o que encarece o crédito e aumenta o risco país. Nesse contexto os investidores partem para países mais seguros e a modernização da indústria fica estagnada.

A insegurança normativa e jurídica também atrapalha o país e prejudica as exportações. A insegurança se dá por um fator cultural: a falta de confiança e cumprimento de acordos entre as partes aumentam a judicialização das relações. O sistema judiciário brasileiro também é complexo. Um estudo de 2018 do Instituto Brasileiro de Planejamento e Tributação(IBPT) mostrou que desde a Constituição Federal de 1988, mais de 5,8 milhões de normas foram editadas, ou seja, 774 por dia útil. Sem uma jurisprudência única, as ações são passíveis às mais diferentes interpretações, conforme o entendimento de cada juiz. A instabilidade e a complexidade das decisões das agências regulatórias também tornam os ambientes de negócios complexos e de difícil entendimento.

A pesada e complicada carga tributária também prejudica a produtividade do país. O mesmo estudo do IBPT mostrou que em matéria tributária, foram mais de 1,92 normas editadas por hora em 30 anos. No período foram criadas 16 emendas constitucionais tributárias e novos impostos ou contribuições como CPMF, Cofins, Cide, Cip(ou Cosip), CSLL. E cada norma possui em média 3.000 palavras. A consequência é que muitas empresas que querem vender para o mercado brasileiro estão se instalando no Uruguai ou Paraguai.

A educação também é fator prejudicial. A mais recente edição do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb), de 2017, mostrou que 60,5% dos alunos saíram do ensino fundamental sem aprender o suficiente em português e 63,1% em matemática. 

Considerando ainda a baixa qualidade de estradas e a subutilização das hidrovias, o desafio para aumentar a competitividade brasileira é enorme.  

Não à toa, o País está em 124º lugar na lista de 190 países no índice de facilidade para fazer negócios do relatório “Doing Business 2020”, do Banco Mundial. No subitem pagamento de impostos o Brasil fica na 184ª posição, na abertura de empresas 138ª, na obtenção de alvarás de construção 170ª e no registro de propriedades 133ª.

O Brasil é de longe o campeão mundial no tempo gastos pelas empresas na preparação de documentos para o pagamento de impostos e contribuições: 1.958 horas ao ano, seis vezes a média de 332 horas registrada nos países da América Latina e Caribe, de acordo com o mesmo relatório do Banco Mundial.

É urgente a retomada da reforma tributária. A elevação prevista da dívida pública para próximo de 100% do PIB vai exigir um grande esforço para a retomada da economia. O aumento da produtividade é crucial e, para isso, é necessário um ambiente de negócios que facilite a vida dos empreendedores e atraia novos investimentos.

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Einstein, eclipse e a educação no interior do Ceará: exemplo para o Brasil

por Evandro Milet (publicado no jornal A Gazeta em 27/06/2020)

Em 29/5/1919, a população de Sobral, no Ceará, presenciou um eclipse total do Sol. Mas não um eclipse qualquer. O fenômeno, cujo melhor ângulo, no mundo, para sua observação seria ali, trouxe uma equipe de cientistas ingleses que comprovaram, pela primeira vez, a Teoria da Relatividade Geral de Albert Einstein, consolidando uma das maiores revoluções da história da ciência. 

Sobral, modestamente, propiciou que Einstein, até então pouco conhecido, ganhasse fama mundial. Ele comemorou comprando um violino novo(tinha preferência por tocar Mozart) e, compreendendo o impacto histórico de que as leis de sir Isaac Newton já não governavam todo o universo, escreveu: “Newton, perdoe-me”, registrando o momento.

Agora em que há uma nova ênfase na educação científica e matemática com a competição globalizada, devemos prestar atenção na sua opinião sobre a escola: “Comentários críticos de estudantes devem ser recebidos amigavelmente. A vantagem competitiva de uma sociedade não virá da eficiência com que a escola ensina multiplicação e tabela periódica, mas do modo como estimula a imaginação e a criatividade. A imaginação é mais importante que o conhecimento”.

Após 101 anos de um dos maiores momentos da ciência, com certa inspiração cósmica, Sobral desponta como o maior sucesso em resultados para educação no Brasil. Com 208 mil habitantes, a cidade ganhou projeção nacional pelo rápido crescimento no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), indicador de desempenho da educação brasileira. Em dez anos, a nota da cidade nos anos iniciais do ensino fundamental passou de 4,9 para 9,1, a mais alta de todo o Brasil.

Os resultados motivaram outros 18 estados(inclusive o Espírito Santo), apoiados pela ONG Todos Pela Educação, nesse modelo fortemente estruturado na alfabetização na idade certa, na valorização do profissional da educação, na gestão eficiente da escola(diretores são escolhidos por mérito, sem indicação política ou eleição) e na formação continuada dos professores. O Ceará criou inclusive um sistema inédito de distribuir parte do ICMS de acordo com os indicadores de educação dos municípios.

O sucesso demonstrou, na prática, que poucos recursos não é desculpa para educação ruim. Uma boa gestão, com persistência, faz uma enorme diferença. Einstein certamente aplaudiria.

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Perigos digitais – nem tudo é positivo no mundo digital

por Evandro Milet

Quando o Google fez um acordo com o jornal New York Post para publicar anúncios laterais, associados às matérias publicadas, não imaginou a trapalhada que poderia acontecer. Ao lado de uma reportagem sobre um assassino que esquartejava as vítimas e colocava os pedaços em sacos de lixo apareceu uma propaganda de … sacos de lixo. O algoritmo sem noção teve de ser trocado rapidamente.

Grandes empresas anunciantes no YouTube ou redes sociais já retiraram seus anúncios porque foram colocados ao lado de vídeos terroristas ou racistas ou fake news, comprometendo sua imagem.

O mundo digital promete maravilhas para a humanidade em saúde, mobilidade, entretenimento, informação, produtividade, segurança e conforto, mas nos prepara também algumas armadilhas. Carros sem motorista podem aumentar a nossa segurança nas estradas, considerando que não bebem, não dormem, não se distraem e nem falam ao celular dirigindo. Mas podem ser sequestrados por um hacker e nos levar para longe, com pedidos de resgate. Clonagem dos nossos números de WhatsApp para pedir dinheiro para nossos amigos virou rotina. 

Algoritmos sofisticados podem não apenas reconhecer nossos rostos mas também perceber as nossas emoções e aproveitar para nos empurrar produtos para os quais estamos vulneráveis emocionalmente. Podem saber tudo que compramos, todos os nossos roteiros, as consultas e diagnósticos médicos, as nossas consultas no Google, as postagens no Facebook e Instagram. Empregadores usam frequentemente as informações pessoais de candidatos levantadas na rede. Postagens comprometedoras de anos atrás podem custar um emprego. 

Estas são as tais informações não estruturadas que o big data analytics vai processar. Até as nossas escolhas em eleições podem ser manipuladas, não pelas urnas eletrônicas, mas pelos algoritmos que nos induzem escolhas. Estão não só adivinhando como também influenciando os nossos próximos passos. Perigo!

Logo depois da Maratona de Boston em 2013, quando, em um atentado, explodiu uma bomba preparada em uma panela de pressão colocada em uma mochila, uma casa de família foi cercada pela polícia. O que tinha acontecido? Por acaso o marido fez uma consulta no Google sobre mochilas no mesmo dia que a mulher consultara sobre panelas de pressão. A polícia juntou as pontas, o que significa que têm acesso a tudo.

A diretora de comunicação de uma empresa inglesa partindo de Londres para a África do Sul postou no Twitter: “Indo para a África. Espero não contrair Aids. Brincadeira. Sou branca!”. Durante o voo, o comentário racista se espalhou e ela chegou ao destino demitida. Postagens na rede são definitivas e podem acabar com carreiras ou impedir o início delas.

Os assistentes pessoais como o Siri da Apple estão ficando cada vez mais inteligentes e podem responder qualquer pergunta com razoável articulação. Bom, talvez não todas. Um amigo, em um dia nervoso, mandou o Siri para aquele lugar. Essa não é uma palavra bonita, respondeu a geringonça, educadamente.

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Coronavírus expõe avanço extraordinário da medicina da China

Criticada, com razão, por tratar o novo coronavírus como problema menor e demorar a tomar providências para contê-lo, a China, quando enfim resolveu agir, causou espanto pela eficiência com que montou hospitais da noite para o dia, fechou totalmente cidades inteiras e dividiu draconianamente a população entre infectados e sãos.

Menos evidentes, mas até mais impactantes, foram as inovações na medicina que fizeram sua estreia para o público em geral no combate à pandemia – muitas delas ancoradas na robótica em rede 5G, que ainda engatinha no resto do mundo, mas já é amplamente usada na China.

Enquanto o vírus se espalhava, impressoras 3D foram ativamente utilizadas na construção de unidades de atendimento e robôs eram vistos cruzando avenidas para reabastecer os postos com material hospitalar.

Nas UTIs, pacientes graves eram conectados à “membrana de respiração extracorpórea”, aparelho com ares de ficção científica que aspira o sangue e o oxigena antes de devolvê-lo ao corpo quando os pulmões estão falhando. Agora, com o relaxamento das restrições, vê-se nas ruas robôs capazes de escanear a temperatura de até trinta pessoas ao mesmo tempo.

Em pontos de aglomeração, como metrôs, câmeras de extrema sensibilidade, capazes de detectar a temperatura corporal num raio de 30 metros, varrem a multidão.

Tudo isso faz parte de um tremendo esforço do governo chinês para passar à frente de todos – Estados Unidos, principalmente – na área científica em geral, uma estratégia que tem tido efeito de contágio pandêmico no setor de saúde.

Segundo levantamento realizado pelo Peterson Institute for International Economics, de Washington, no mundo, hoje, metade dos óculos cirúrgicos e 60% dos artigos de proteção individual, máscaras e respiradores vêm da China(no Brasil são 70%).

Dois em cada três centros médicos americanos usam produtos da Mindray, maior empresa de tecnologia hospitalar chinesa.

“ A transformação. da qual só agora o planeta se dá conta, é resultado de investimentos pesados desde metade dos anos 2000, que incluíram a contratação de profissionais de ponta na Europa e Estados Unidos” , diz Luiz Augusto de Castro Neves, presidente do Conselho Empresarial Brasil-China e x-embaixador brasileiro em Pequim.

Não é de hoje que China e medicina caminham entrelaçados. A habilidade chinesa de curar com infusões de ingredientes exóticos tem 2000 anos de história e segue vívida e poderosa no país, onde enche os olhos entrar em uma farmácia com sua infinidade de pequenas gavetas e mostruário de exóticas substâncias perfeitamente arrumadas.

Mas a difusão do 5G, rede de internet de altíssima velocidade com 126.000 torres instaladas no pa´s, alçou a capacidade tecnológica da China no setor médico a um patamar acima do resto do mundo.

Em 2019, um cirurgião realizou a primeira operação remota de cérebro utilizando a rede, ele na cidade de Sanya, a 3000 quilômetros de seu paciente, em Pequim. Outra equipe, da capital, realizou três cirurgias ortopédicas simultâneas em cidades diferentes.

É também o 5G que permite o controle remoto dos robôs que esterilizam hospitais irradiando luz ultravioleta, um dos pilares dos baixos índices de infecção que a China exibe atualmente.

A revolução na medicina faz parte do programa Made in China, idealizado pelo governo do primeiro-ministro Xi Jinping com objetivo de alcançar até 2015 a liderança em setores de alta qualificação, como robótica, nanociência e aviação.

Para chegar lá, a china investe 2,5% d PIB,ou 500 bilhões de dólares, por ano em pesquisa, quase alcançando o maior investidor, Estados Unidos, com 550 bilhões.

Em cinco anos, 7000 cientistas foram “importados” de outros países, com remuneração que passa dos 160.000 dólares por ano e todas as despesas pagas. No mesmo período, 370.000 estudantes chineses receberam incentivos especiais para ingressar em universidades americanas e, depois de formados, aplicar o que aprenderam na China.

 No ano passado, a Organização Mundial de Propriedade Intelectual, órgão ligado à ONU, anunciou que a China passou pela primeira vez os Estados Unidos em número de patentes – 58.900 contra 57.800. Gigante das telecomunicações, a Huawei é a maior patenteadora corporativa do mundo há três anos seguidos.

Os chineses também são recordistas em publicação de artigos científicos, com 20% do total, ficando os americanos com 16%. A saber: na corrida pelo primeiro lugar, a ciência privilegia a quantidade sobre a qualidade, patenteando e publicando invenções efetivamente inovadoras ao lado de espécimes da conhecida linha de baixa qualidade que tornou o país famoso. Nem tudo que brilha é ouro no Império do Meio.

https://veja.abril.com.br/mundo/coronavirus-expoe-avanco-extraordinario-da-medicina-da-china

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A pandemia criou a Economia Descompartilhada

por Evandro Milet

O conceito de economia compartilhada original sofreu transformações, pelas distorções que o mercado foi criando, por plataformas que mudaram a ideia original de aproveitamento de capacidade excedente. Ideias iniciais de compartilhamento de caronas ou assentos vagos em automóveis viraram grandes negócios concorrentes de táxis, com algumas ótimas vantagens como serviço avaliado pelo cliente e consequentemente com melhor qualidade, facilidade de pagamento e disponibilidade rápida por aplicativo. 

Mas foram além. Vários concorrentes surgiram e a novidade criou até novos hábitos, com muita gente desistindo de comprar carros para andar de aplicativo, inclusive pelas penalidades da nova lei seca. Até especulações urbanísticas surgiram com a possibilidade de redução do número de veículos circulando e vagas de estacionamento e o sonho de ampliação de ciclovias.

Da mesma maneira, as plataformas de aproveitamento de quartos, casas e apartamentos ociosos viraram um negócio que compete com hotéis com enorme sucesso. Para isso se transformaram em facilidade mundial de aluguel por temporada, com inúmeras opções e imagens dos ambientes, confiabilidade, avaliação dos usuários e a possibilidade de realizar o sonho de todo turista de desfrutar o novo ambiente como um habitante local.

Mas também foram além. Imobiliárias e pessoas físicas enxergaram nova forma de investimento, adquirindo imóveis e colocando na plataforma para renda. O Airbnb tem 7 milhões de imóveis no mundo, mais do que as dez maiores cadeias de hotel combinadas, que têm 5,48 milhões de apartamentos.

De repente, a pandemia mudou as tendências até segunda ordem. As pessoas sumiram das ruas e não usam nem automóveis próprios e nem aplicativos. Os turistas a passeio ou a negócio também sumiram de hotéis e de plataformas. E unicórnios como Uber e AirbnB perderam a maior parte do valor. Proprietários de imóveis correm para o aluguel tradicional por períodos longos, fugindo da temporada. Agora que muitos países começam a se liberar de lockdowns rigorosos como fica o negócio dessas plataformas? 

Surge um novo problema: a desconfiança com a higienização de ambientes. Você não sabe quem usou aquele automóvel ou aquele imóvel antes de você. Não sabe se a limpeza foi feita com o rigoroso cuidado devido. O medo de contágio está fazendo voltar os velhos hábitos de querer o seu carro próprio até para fugir de transportes públicos, para praticar a nova tendência do turismo em locais próximos que dispensem aviões ou mesmo para se mudar para regiões com menor aglomeração e vida mais saudável, medida facilitada pela explosão do home office. Também o uso generalizado de plataformas de reuniões remotas está criando o hábito de prescindir de muitas viagens de trabalho.

Pesquisa realizada pelo instituto Capgemini com 11.000 pessoas em 11 países constatou que 35% dos entrevistados consideram comprar um veículo ainda neste ano. Na China, onde o novo coronavírus surgiu, o índice é ainda maior: 61%. Na Índia, 57% pretendem adquirir um automóvel e na Itália, 43%. O instituto constatou que 75% dos que pretendem comprar carro este ano tomaram a decisão para ter melhor controle sobre a higiene.

Entre os dados da pesquisa que mais chamam a atenção está o alto interesse dos jovens pelo carro próprio, o que é uma reversão histórica. Dos entrevistados com idade entre 18 e 24 anos que manifestaram intenção em comprar um automóvel, 85% pretendem comprar um carro pela primeira vez. Estranhamente, as pessoas que não queriam ter, mas apenas acessar bens, voltam a querer ter as suas coisas, com medo de compartilhar.

Como os aplicativos citados, também outros modelos de negócio que usam algum compartilhamento físico sofrem com a desconfiança da higienização ou com o home office, como os coworkings, aluguéis de escritórios compartilhados, as estações de bikes, restaurantes self-service e até varejo de roupas com seus provadores.

Ninguém sabe ainda o que acontecerá com isso tudo depois que uma vacina eficaz finalmente tranquilizar as pessoas. Voltará tudo ao que era? Certamente que não.

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