Tudo sobre o grafeno, material que está revolucionando a tecnologia

Jorge Marin via nexperts JANUARY 28, 2021

De repente, um material começou a ser citado em todas as mídias, sendo tão revolucionário quanto o plástico e o silício. O grafeno, material mais fino do mundo, promete revolucionar a indústria tecnológica graças às suas características, como resistência, leveza, transparência, flexibilidade, e condutividade elétrica.

O grafeno é formado a partir de uma camada bidimensional de átomos de carbono organizados em estruturas hexagonais da altura de um único átomo. O material pode ser obtido por meio da extração de camadas superficiais de grafite, um mineral maleável abundante na Terra.

Imagem de: Tudo sobre o grafeno, material que está revolucionando a tecnologia

As aplicações do grafeno são imensas, podendo ser usado em novos modelos de comunicações ópticas, circuitos e dispositivos transparentes que podem ser dobrados e torcidos (como celulares, por exemplo), implantes neurais, adesivos rastreadores de saúde e sensores impressos para qualquer tipo de aplicativo da Internet das Coisas.

A descoberta do grafeno

Geim e Novoselov, ganhadores do Nobel de Física 2010 (Fonte: SlidePlayer/Reprodução)

O grafeno já era teorizado desde 1947 pelo canadense Philip Russel Wallace, mas foi somente em 2004 que os físicos Kostya Novoselov e Andre Geim conseguiram provar a sua existência autônoma, sem estar ligado quimicamente a outros elementos. Também foram esses dois cientistas os primeiros a experimentar algumas das propriedades excepcionais do material.

O métodos utilizado para isolar o grafeno foi extremamente simples: os russos Novoselov e Geim foram colando e descolando uma fita adesiva grudada em uma lâmina de grafite, o mesmo usado em lápis, até que restou uma camada única de átomos de carbono. Seis anos depois disso, essa “colagem” rendeu a ambos o Prêmio Nobel de Física.

Surpreendentemente, aquela finíssima camada de grafeno, usada pelos físicos no desenvolvimento de um transistor, manteve a sua estrutura e a sua condutividade inalteradas. A partir desse transistor de grafeno, os testes com a substância prosseguiram e, até 2010, pelo menos 3 mil estudos haviam sido publicados comprovando recursos do novo componente.

Afinal, o que é o grafeno?

Fonte: E&T Engineering and Technology/Reprodução

Quimicamente falando, o grafeno é um dos mais simples alótropos do carbono, ou seja, uma das muitas formas desse elemento químico que incluem o diamante e o grafite. Atualmente, considera-se que o grafeno seja o material mais resistente já conhecido, cerca de 200 vezes mais forte do que o aço.

Essa resistência se deve às fortes ligações químicas formadas entre os átomos de carbono do grafeno. Apesar disso, o material é tão fino, que 3 milhões de camadas de grafeno empilhadas umas sobre as outras têm a altura de 1 milímetro. Sem contar que ele é transparente, elástico e pode ser mergulhado em líquidos sem enferrujar, além de conduzir eletricidade e calor melhor do que qualquer outro componente.

Finalmente, o que torna o grafeno mais atraente são os seus baixos custos de produção. O Brasil, que detém as maiores reservas de grafeno do mundo, já se encontra na corrida tecnológica, pesquisando métodos mais baratos e eficientes para produzir o material.

Viabilidade econômica e preço

Fábrica de grafeno em Belo Horizonte, MG (Fonte: MGgrafeno/Divulgação)

Com todas as inúmeras propriedades do grafeno, era de se esperar que a pesquisa do material estivesse bem avançada. Porém, as empresas que estão apostando na tecnologia têm o desafio de tornar a produção do material comercialmente viável e em larga escala, pois hoje a maioria dos testes é feita apenas em laboratórios.

Porém, os pesquisadores estão otimistas e lembram que, quando o silício foi descoberto como grande solução tecnológica em transistores, demorou 7 anos para ser implantado. E, no caso dos primeiros circuitos integrados, o silício só foi utilizado cerca de 20 anos depois.

Por enquanto, o preço do grafeno ainda é elevado: atualmente uma folha do material de 5,08 centímetros por 2,54 centímetros (12,9 cm²) custa até US$ 275, cerca de R$ 1,5 mil. O Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM) fez um relatório em 2012, no qual estimou que o mercado do grafeno tem potencial para atingir até 1 trilhão de dólares em 10 anos.

https://www.tecmundo.com.br/produto/210846-tudo-grafeno-material-revolucionando-tecnologia.htm

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Não há evidência de que machos são melhores líderes entre humanos ou animais, diz primatólogo

Primatólogo Frans de Waal pergunta-se se o ser humano tem a cabeça aberta para admitir que outras espécies têm vida mental

Por Cristina Aby-Azar — Para o Valor – 05/02/2022 

Neste ano de eleições no Brasil, vão abundar aquelas imagens de políticos pegando bebês no colo, beijando e brincando com eles. O que esses candidatos a cargos públicos podem não saber é que estão adotando um comportamento semelhante ao de grandes primatas como chimpanzés, gorilas e orangotangos quando estão em busca do apoio para tornarem-se líderes de seus bandos.

Normalmente, os chimpanzés machos demonstram pouco interesse pelos filhotes, mas, quando estão de olho no poder e rivalizam com outros machos, desenvolvem um interesse repentino por bebês para impressionar as fêmeas e, assim, conquistar o respaldo delas.

Seres humanos e animais têm em comum muitas características psicológicas e morais, e a evolução da informação nas últimas décadas desmoronou pouco a pouco teorias sobre a singularidade do homem.

A pergunta que o primatólogo holandês-americano Frans de Waal, 73 anos, faz é se o ser humano tem a cabeça aberta o suficiente para presumir que outras espécies têm vida mental. “Não existe algo exclusivamente humano”, diz o acadêmico, que é professor no departamento de psicologia da Universidade Emory e diretor do Living Links, um centro para o estudo avançado da evolução humana e dos primatas grandes, em Atlanta, nos Estados Unidos.

Segundo De Waal, a chave para o reconhecimento da inteligência dos animais está no conceito Umwelt, criado pelo biólogo alemão Jakob von Uexküll, e que significa “ambiente” ou “arredores”. “Cada organismo percebe o ambiente de maneira própria”, disse Uexküll, num mundo coerente de experiência sensorial que pode ou não se sobrepor ao dos seres humanos.

“Parece muito injusto e parcial perguntar se um esquilo sabe contar até dez”, diz De Waal, uma vez que a habilidade de contar não tem nada a ver com a vida desse animal. No entanto, acrescenta, o esquilo é muito bom em achar nozes escondidas.

Frans de Waal: “Animais, como humanos, precisam de emoções para viver” — Foto: Catherine Marin/Divulgação

Em seu livro “Somos inteligentes o bastante para saber quão inteligentes são os animais?”, que acaba de ser lançado em português no Brasil pela editora Zahar, De Waal descreve de modo cativante experimentos que evidenciam a inteligência dos animais e demonstram a habilidade deles de confeccionar e usar ferramentas, cooperar uns com os outros, demonstrar empatia, planejar o futuro, reconhecer pessoas e outros animais e fazer as pazes após conflitos. Assim como o homem, os primatas bocejam quando outro boceja, retornam favores, ficam descontentes se consideram uma distribuição de bens injusta e até mimam filhotes em busca daquela posição de poder.

Para o acadêmico, que em 2007 foi escolhido pela revista americana “Time” como umas das 100 pessoas mais influentes do mundo, os animais têm todas as emoções que os humanos têm. Talvez, ele argumenta, os homens tenham emoções mais complexas como culpa e vergonha, mas também é possível notar sinais de culpa e de vergonha, o que está perto de subordinação, em outras espécies.

“Eu vejo as emoções um pouco como os órgãos”, diz. “No meu corpo, todos os órgãos são iguais aos de um cachorro. Todos os mamíferos têm esses mesmos órgãos – cérebro, fígado, coração, rins e assim por diante. Até um sapo tem esses órgãos. Você precisa deles para viver, e eu acredito que o mesmo acontece com as emoções. Os humanos precisam de emoções como apego, medo e raiva para viver, e os animais também”, diz o acadêmico de sua residência em Atlanta, onde passa a maior parte do ano.

Um dos exemplos que De Waal usa em seu livro para descrever evidências da inteligência dos seres não humanos é o da chimpanzé Franje. Numa manhã de novembro no zoológico Burgers, na cidade holandesa de Arnhem, onde as temperaturas começavam a cair algumas semanas antes do início do inverno, o primatólogo notou que a chimpanzé juntava toda a palha de sua jaula, que era aquecida, e a levava debaixo do braço para uma ilha na parte externa do recinto onde vivia, algo que nunca tinha feito antes. Por ter passado frio na véspera, Franje estava se preparando para mais um dia de temperaturas baixas. Queria ficar aquecida quando estivesse ao ar livre com seu filhote Fons num ninho de palha recém-construído.

“Sempre me pergunto em que nível mental os animais operam, mesmo sabendo, sem sombra de dúvida, que uma única história não basta para tirarmos conclusões. Mas essas histórias inspiram observações e experimentos que nos ajudam a distinguir o que está acontecendo”, escreveu De Waal.

Outro relato é o da gorila Leah. Depois de elefantes terem cavado um buraco grande para armazenar água em uma floresta da República do Congo – feito que mostra que os paquidermes também têm a capacidade de olhar para o futuro -, a gorila foi observada tentando atravessá-lo. Ela parou quando estava com a água pela cintura, já que primatas grandes detestam nadar. Leah voltou então para a margem para pegar um galho comprido que usou para medir a profundidade da água. Tateando com a vara, ela caminhou sobre os dois pés até bem longe dentro da lagoa antes de voltar para a margem, onde seu filhote chorava.

Mas, segundo De Waal, a versatilidade no uso de ferramentas não é exclusiva dos seres humanos e primatas grandes. Ele conta como uma equipe internacional de cientistas notou que pequenos macacos-prego, cujos cérebros são bem grandes proporcionalmente a seus corpos, usavam rochas para quebrar nozes no Parque Ecológico do Tietê, em São Paulo.

Esses macaquinhos, que hoje até são treinados para ajudar pessoas tetraplégicas em tarefas diárias como abrir correspondências ou acender a luz, comem a polpa de uma fruta e deixam as sementes caírem no solo para retornarem alguns dias mais tarde, quando elas já estão infestadas de larvas, uma de suas refeições favoritas. De Waal não fez parte desse estudo em particular, mas estuda esses macacos há anos e já esteve no Brasil os observando em regiões ao norte do Rio de Janeiro.

O primatólogo afirma que houve um tempo em que cientistas acreditavam que o comportamento humano era derivado do aprendizado e o animal da biologia, e que havia pouca coisa entre os dois. Uma crença que se provou falsa, já que em toda espécie o comportamento é um produto de ambos.

Depois, diz, foi necessário acrescentar a cognição, que se refere à informação que um organismo reúne e ao modo como a processa e aplica. Por exemplo, o pássaro quebra-nozes-de-Clark lembra onde guardou milhares de nozes e as vespas lobos-das-abelhas fazem voo de orientação antes de deixar sua toca. Sem qualquer recompensa ou punição, animais de diversas espécies acumulam conhecimento que lhes será útil no futuro.

Muitos animais têm realizações cognitivas em comum. Quanto mais os cientistas descobrem com suas pesquisas e experimentos, mais se confirma que habilidades supostamente exclusivas aos humanos – ou ao menos aos hominídeos (grupo que reúne humanos e primatas grandes) – estão disseminadas entre outras espécies. Ou seja, segundo De Waal, as aptidões cognitivas se estenderam de grandes primatas para macacos, golfinhos, elefantes e cães, e então para aves, répteis, peixes e até invertebrados, como o polvo.

Nos mares da Indonésia, por exemplo, o polvo-do-coco foi observado recolhendo cascas de coco que transporta desajeitadamente pelo fundo do oceano até uma toca segura onde as usa para se ocultar de predadores. Um feito impressionante para um molusco. “Isso parece ser simples, mas demonstra quão longe chegamos desde o tempo em que se pensava que a tecnologia era uma característica que definia a nossa espécie”, escreveu De Waal.

Autor de uma série de outros best-sellers, como “A era da empatia”, “O último abraço da matriarca” e “A política dos chimpanzés”, De Waal está agora voltando sua atenção para o tema do gênero. Seu novo livro, “Diferente – gênero pelos olhos de um primatólogo”, que será publicado nos EUA em abril e ainda sem data de lançamento no Brasil, trata das diferenças e similaridades entre os gêneros de humanos e primatas.

“Há muitas semelhanças nas questões de gênero dos homens e dos animais. Certamente os machos são mais violentos do que as fêmeas tanto entre humanos como entre primatas. Mas não encontrei nenhuma evidência, por exemplo, que confirme a impressão de que os machos são naturalmente melhores líderes tanto entre os humanos como entre os animais”, diz De Waal.

https://valor.globo.com/eu-e/noticia/2022/02/05/nao-ha-evidencia-de-que-machos-sao-melhores-lideres-entre-humanos-ou-animais-diz-primatologo.ghtml

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Como a inteligência artificial revelou os segredos dos Beatles

No documentário ‘Get Back’, algoritmos de ‘desmixagem’ foram fundamentais para revelar conversas privadas que ficaram escondidas por 50 anos; teste a tecnologia usada para desmembrar músicas 

Texto: Bruno Romani  Estadão 04 de fevereiro de 2022 

Em 1968, John Lennon cantava no disco branco dos Beatles que todos tinham algo a esconder, exceto ele e o seu macaco.  É quase uma verdade: assim como os seus três companheiros de banda, o vocalista também tinha coisas a esconder – principalmente dos fãs. Mas, agora, segredos que permaneceram guardados por 50 anos foram expostos por sofisticados algoritmos de inteligência artificial (IA).

No documentário Get Back, disponível no Disney+, o diretor Peter Jackson restaurou o material captado em 1969 por Michael Lindsay-Hogg para o documentário Let It Be. As melhorias nas imagens trazem aos olhos cores vibrantes e causam impacto imediato. Mas é no novo áudio que partes das personalidades dos integrantes dos Beatles se descortinam, o que ajuda a construir a narrativa do filme.

O desafio era grande: quando Lindsay-Hogg registrou os ensaios dos Beatles nos estúdios Twickenham, ele espalhou alguns microfones pelo espaço, que captavam em uma única massa sonora tudo o que acontecia: conversas, ruídos e sons de instrumentos – era como uma gravação de show feita pelo celular nos dias atuais. Assim, era impossível controlar todas essas fontes para trazer o que havia de melhor e mais interessante. O formato é a antítese da gravação de um disco, em que cada elemento é gravado separadamente e é possível ter domínio sobre aquilo que se planeja mostrar.

Fizemos grandes avanços em áudio no documentário. Desenvolvemos um sistema de aprendizado de máquina para o qual ensinamos o som de uma guitarra, o som de um baixo e o som da voz

Peter Jackson, diretor de Get Back à revista ‘Variety’

Era hora de recorrer à tecnologia. “Fizemos grandes avanços em áudio no documentário. Desenvolvemos um sistema de aprendizado de máquina (uma técnica de inteligência artificial) para o qual ensinamos o som de uma guitarra, o som de um baixo e o som da voz. Assim, pudemos pegar a faixa em mono (com todos os sons gravados) e separar todos os instrumentos”, contou Jackson à revista Variety.

Ensaio dos Beatles registrado no documentário Get Back

Ensaio dos Beatles registrado no documentário Get BackDISNEY+/DIVULGAÇÃO

A técnica se chama “unmixing”, algo como “desmixagem”. Ao contrário da “mixagem”, que tenta acomodar da melhor forma os vários elementos sonoros de uma gravação em uma única faixa, a desmixagem tenta desmembrar os vários componentes de uma gravação. “É como se fosse possível pegar uma vitamina de frutas e isolar a banana, a maçã e o mamão”, explica Geraldo Ramos, fundador da startup Moises, especializada em algoritmos do tipo.

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O esforço para isolar instrumentos não é assunto novo para produtores e engenheiros de som. No passado, os profissionais usavam equalizadores para tentar eliminar as frequências de determinados instrumentos – as tentativas eram feitas principalmente para apagar os vocais e, como resultado, ter versões instrumentais de músicas. Dificilmente funcionava. Foi só a partir da metade da década de 2000, quando a onda de digitalização se consolidou e transformou estúdios em todo o mundo, que os experimentos com desmixagem aumentaram.

Empresas de software, como a AudioSourceRE e a Audionamix, estão entre as primeiras a lançarem programas de computador dedicados à desmixagem. Um dos principais nomes da área, porém, está indiretamente ligado também aos Beatles.

Na desmixagem, é como se fosse possível pegar uma vitamina de frutas e isolar a banana, a maçã e o mamão”

Geraldo Ramos, fundador da startup Moises

A partir dos anos 2010, James Clarke, principal engenheiro de software de Abbey Road, o estúdio onde a banda gravou vários dos seus discos, começou a experimentar com programas de controle de frequências, o que permitiu que ele remasterizasse o disco “Live at the Hollywood Bowl”, único disco ao vivo dos Beatles lançado oficialmente – a versão retrabalhada saiu em 2016. Nele, Clarke tratou o ruído da plateia, captado por diversos microfones, como um único instrumento e foi capaz de reduzi-lo, dando destaque à banda. Ainda havia limites, mas uma revolução estava a caminho.

Na mesma época do lançamento da versão retrabalhada de “Live at the Hollywood Bowl”, acontecia o alvorecer da nova era da inteligência artificial (IA). Era natural que empresas de software, engenheiros de som e produtores buscassem nos algoritmos formas de aprimorar a desmixagem.

A IA costuma ser boa para detectar padrões, o que, de certa forma, é parte do processo de desmixagem. Em tese, um engenheiro de som com “ouvido absoluto”, olhos superatentos para espectrogramas (as representações visuais de frequências), altíssima habilidade para lidar com equalizadores e programas de computadores tradicionais seria um bom candidato para identificar o comportamento de frequências e timbres de instrumentos e fazer as manipulações necessárias para fazer a separação. Seria um tipo raríssimo de profissional, quase um robô – e mesmo assim, ele estaria atrás da IA.

Para que uma máquina faça a desmixagem, ela precisa treinar com muitos exemplos dos sons que ela deve procurar dentro de uma gravação. Por isso, os algoritmos são expostos aos instrumentos isoladamente. No caso de análise focada em um artista específico, como dos Beatles, o ideal é que a máquina seja exposta aos mesmos modelos de amplificadores, guitarras, contrabaixos e peças de bateria usados pela banda.

Mesmo no caso da banda inglesa, que teoricamente tem fartos registros de instrumentos tocando separadamente nas gravações dos álbuns, o volume de informações pode ser insuficiente para treinar a IA. Nesses casos, é possível fazer algo chamado de data augmentation (aumento de dados, em português), que significa fazer pequenas alterações no pacote de dados original para retreinar o sistema. “Você pode pegar os mesmos instrumentos e alterar artificialmente em 10 semitons para cima e para baixo”, explica Ramos.

Outra saída para engordar o pacote de dados da IA é fazer gravações atuais com instrumentos da época – pode parecer uma saída cara, afinal, poucos lugares têm vastos acervos de equipamentos antigos, sempre os mais caros do mercado. Isso, porém, pode ser contornado digitalmente por meio de plugins (programas de computador) que emulam os timbres de instrumentos e amplificadores.

Apesar do cuidado com timbres e equipamentos, no princípio, o som era imagem. Os primeiros algoritmos usados na análise do aúdio eram redes neurais convolucionais (CNN, na sigla em inglês). “As CNNs são muito boas para analisar imagens”, explica Anderson Soares, coordenador do Centro de Excelência em Inteligência Artificial da Universidade Federal de Goiás (UFG).

Isso significa que os sistemas analisavam o comportamento dos sons por meio de espectrogramas, representações visuais do que acontece nas frequências quando um som é emitido. A análise sonora de verdade só passou a ser feita mais recentemente por meio de outros tipos de algoritmos como LSTM (long short-term memory) e Transformers – essa última considerada a técnica mais avançada de IA. Atualmente, os algoritmos mais sofisticados de desmixagem combinam análise visual e sonora.

Após entender isoladamente o comportamento de cada fonte sonora, a máquina é capaz de identificar com alto grau de precisão esses padrões mesmo que estejam todos misturados em uma grande massa sonora. E, parte quase impossível para um humano fazer, é capaz de extrair com precisão cada uma dessas fontes.

A explosão da desmixagem aconteceu a partir de novembro de 2019, quando o serviço de streaming Deezer publicou o Spleeter, um algoritmo de código aberto para a separação de áudio. Com a publicação, startups especializadas na tarefa surgiram, como a Lalal.ai e a Moises – com o gás inicial do projeto da Deezer, cada startup passou a desenvolver os próprios algoritmos e, mais importante, a trabalhar com as próprias bases de dados.

Além da Deezer, algumas das principais pesquisas em desmixagem são feitas por gigantes da tecnologia: Spotify, Facebook e ByteDance (dona do TikTok). Faz sentido: o ramo de atuação dessas companhias é analisar áudio para recomendação. Não é possível saber como a desmixagem é usada dentro das plataformas dessas empresas, mas Deezer e Spotify já experimentaram com o recurso de karaokê, no qual algoritmos eliminavam os vocais para os usuários cantarem – a possibilidade de enroscos jurídicos relacionados a direitos autorais frearam os projetos.

Eu já desmixei uma música dos anos 1960 para um comercial. A ideia era trabalhar nas pistas separadas e fazer uma mixagem atualizada”

Felipe Vassão, produtor musical

O produtor Felipe Vassão, que tem trabalhos com o rapper Emicida, conta que a desmixagem virou uma ferramenta importante para DJs e beat makers, pois a técnica permite aprofundar a maneira como elementos musicais são sampleados e usados em novas canções. “Funciona muito para publicidade também. Eu já desmixei uma música dos anos 1960 para um comercial. A ideia era trabalhar nas pistas separadas e fazer uma mixagem atualizada”, diz ele, sem revelar o nome da canção.

Já Ramos, da Moises, conta que o principal filão da tecnologia é a prática musical: pessoas que querem aprender partes instrumentais e cantar e tocar junto com seus artistas favoritos – muitas dessas performances acabam virando vídeos no YouTube. “Por causa disso, estamos fazendo parcerias com escolas musicais e igrejas”, conta o pernambucano de 36 anos radicado nos EUA. A Moises, que começou 2021 com 240 mil usuários, tem atualmente 10 milhões de pessoas cadastradas no serviço.

Por fim, a desmixagem é usada na recuperação e na preservação de áudio. Ramos conta que seu sistema de IA ajudou o produtor Kassin a isolar a voz de Beth Carvalho na música Visual. Lançada em 1978, as pistas separadas da gravação original foram perdidas e o produtor precisou recorrer a IA para criar uma versão da música lançada em 2020 na qual Luana Carvalho, filha da cantora, divide os vocais com a mãe, falecida em 2019.

Em Get Back, a equipe de Peter Jackson foi além de recuperar os instrumentos. “Percebemos que o John e o George ficavam bastante conscientes de que suas conversas privadas estavam sendo filmadas o tempo todo”, disse o diretor ao site Guitar.com.

“Quando eles estavam conversando, eles aumentavam bastante os amplificadores e ficavam fazendo barulho. Eles não estavam tocando, nem afinando. Então os microfones do Michael Lindsay-Hogg captavam só barulho de guitarra, mas você via os Beatles tendo conversas privadas”, diz ele. Jackson, então, disse que sua equipe treinou algoritmos não apenas para identificar instrumentos – ele capacitou a máquina para reconhecer as vozes dos quatro integrantes da banda, o que permitiu manipulação total do que foi exibido.

Nos estúdios Twickenham, os Beatles tentavam esconder conversas atrás de barulho e microfoniaNos estúdios Twickenham, os Beatles tentavam esconder conversas atrás de barulho e microfoniaDISNEY+/DIVULGAÇÃO

O avanço é exemplo de um novo momento para a IA, não apenas para os fãs dos Beatles. “A IA sempre foi boa para consumir dados, mas agora ela está gerando dados. Teremos muitas informações entre 1930 e 1980, que é um período de registros fracos. Será uma era de realidade mista, na qual as informações não são virtuais, mas também não são reais”, afirma Soares, da UFG.

É o que reafirmou Jackson à Guitar.com: “Algumas partes chave do filme trazem conversas privadas que eles tentaram esconder, mas conseguimos remover as guitarras”.

Ramos lembra que os algoritmos de desmixagem estão apenas no início de uma curva evolutiva e que o céu é o limite para a tecnologia. Não é algo para se duvidar: se a máquina transformou lendas em humanos, o que mais ela poderá fazer?

https://www.estadao.com.br/infograficos/link,como-a-inteligencia-artificial-revelou-os-segredos-dos-beatles,1224102

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Países desenvolvidos investem cada vez mais em ciência, engenharia e matemática

Trabalhadores dessas áreas foram pouco impactados durante a pandemia

Cecilia Machado –  Economista-chefe do Banco BOCOM BBM e professora da EPGE (Escola Brasileira de Economia e Finanças) da FGV

Folha 31.jan.2022 

Trabalhadores nas áreas de ciência, tecnologia, engenharia e matemática –CTEM em português, STEM em inglês– contribuem para a criação e difusão de novas ideias e processos produtivos.

Mesmo quando não participam diretamente na geração de pesquisas ou no desenvolvimento de produtos, estão envolvidos na adoção de inovação tecnológica em seus ambientes de trabalho, ampliando as perspectivas de crescimento de longo prazo da economia.

Nos países desenvolvidos, políticas de subsídios educacionais e imigratórias estão sendo direcionadas para este importante setor, que vem se tornando cada vez mais estratégico, a exemplo do que se vê nos Estados Unidos.

Equipes de engenharia do centro de operação do Telescópio Espacial James Webb Space Telescope, da NASA, monitoram progresso, em Baltimore, Maryland – Bill Ingalls – 8.jan.2022/AFP

Na economia americana, são cerca de 10 milhões empregos STEM em 2019, ou seja, quase 7% da força de trabalho desempenha funções nesta área (US Census Bureau). O número preciso de trabalhadores STEM está sujeito a alguma arbitrariedade de classificação, podendo alcançar até 30 milhões de empregos, quando se considera definição mais ampla que inclui funções correlatas ou mesmo atividades realizadas por trabalhadores sem diploma universitário.

Independente da métrica, o aumento da relevância do trabalho STEM é inequívoco. Para a próxima década, a projeção de crescimento para empregos no setor STEM é 40% maior em comparação ao setor não STEM (Bureau of Labor Statistics, BLS).

Espera-se um crescimento maior em computação, nas funções de analistas de segurança da informação, de desenvolvedores de softwares, e de pesquisadores em computação e informação. O crescimento da economia digital, acelerado pela Internet das Coisas, coloca cada vez mais valor no uso e na análise da enorme quantidade de dados que vem se tornando disponíveis, assim como na segurança e proteção destas informações. Fica claro que por trás do aumento observado no emprego STEM está a maior demanda por este tipo de trabalho, e o salário de trabalhadores STEM é mais do que o dobro das demais ocupações (BLS).

E no Brasil, o que se pode dizer do setor STEM? Em estudo que realizei em parceria com Rachter, Schanaider e Stussi estabelecemos uma classificação das ocupações STEM em diferentes bases de dados considerando códigos das ocupações brasileira. Empregando-a nos dados da PNADC, calculamos que 1,5 milhão de trabalhadores estão ocupados no setor STEM em 2019. Comparado aos Estados Unidos, o tamanho do setor é menor não apenas em números absolutos como em proporção da população ocupada: 2% dos empregos são STEM.

Ainda que pareça haver espaço para o crescimento do setor em perspectiva comparada, a composição das atividades, e como estes trabalhadores serão absorvidos na economia, irão ditar o quão relevante o setor STEM se tornará no Brasil. A alta remuneração destes trabalhadores no Brasil —com salários quase 2,5 vezes maiores que os demais trabalhadores— é indicativo de que aqui também há demanda para estes profissionais.

Além disso, a formação em STEM está associada à enorme resiliência de emprego em períodos de recessão, um atrativo adicional para estas ocupações. Durante a pandemia, trabalhadores STEM foram pouco impactados, e, no último ano, o emprego nestes setores cresceu de forma expressiva tanto no Brasil e quanto nos Estados Unidos. Dados da PNADC mostram que enquanto o emprego em setores não STEM ainda não se recuperou, o emprego em setores STEM cresceu 18% no mesmo período.

A análise dos dados americanos indica que a resiliência de empregos STEM não está associada a características particulares da recessão pandêmica, como a que favorece o trabalho remoto. Ao contrário, os resultados refletem a importância de um conjunto de conhecimentos, habilidades e aprendizagem na formação em STEM, que torna estes trabalhadores adaptáveis às mudanças no mercado de trabalho.

Em uma economia fadada a enfrentar ciclos e recessões econômicas, como a brasileira, o investimento em STEM não parece má ideia. Resta ver como a oferta de cursos em ciências e tecnologia será capaz de se adaptar ao dinamismo da economia digital, atraindo e preparando nossos jovens para as profissões do futuro.

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Marcas inovam com o uso da voz e com uma pitada de inteligência artificial

A mais antiga forma de comunicação ganha um novo status com a inteligência artificial. E marcas como Domino´s e a cantora Anitta mostram como é possível inovar nessa área

Rapha Avelar – Neofeed – 02/02/2022

O impacto que a tecnologia traz para a sociedade e as empresas ajuda a solucionar e a acelerar nossos processos. Com isso, temos uma rotina muito mais eficiente e prática. Como sabemos, a inteligência artificial (IA) tem grande responsabilidade nisso e vem quebrando diversas barreiras, não só no nosso dia a dia, mas também para o futuro das marcas. É através da tecnologia que podemos elevar nossos resultados — seja qual for a sua área de atuação — a níveis inimagináveis.

Um reflexo disso é o resultado de uma pesquisa realizada pela Aberdeen University Artificial Intelligence (AUAI), que mostra que as marcas que utilizaram a IA para compreender e atender as necessidades do seu público tiveram um aumento anual da receita em 21%. Sendo assim, é nítido que todo investimento em inteligência artificial tem grande impacto no crescimento das empresas, além de maior entrega de serviço com qualidade aos seus clientes.

Consigo afirmar isso na prática pois, além de inserir a IA na minha rotina como empreendedor dentro da Adventures e do ecossistema que temos construído, acompanho também como consumidor.

São vários exemplos, que incluem desde as marcas que fazem o uso dos dados coletados por meio de softwares de qualidade, através das navegações nos sites, até aquelas que fazem indicações de produtos e serviços que são do interesse e das preferências do cliente, construindo uma relação empresa e cliente.

A inteligência artificial pode ser também aplicada em qualquer área e segmento, como as máquinas inteligentes na indústria; no setor automobilístico com o Waze; em carros autônomos, a exemplo dos veículos Tesla; em aplicativos de saúde que hoje são super práticos; e até mesmo em atendimentos onlines como os chatbots (que inclusive têm se aprimorado muito). Enfim, há uma gama de possibilidades.

Agora, você já pensou em como isso pode ser usado setor de marketing, na publicidade e na área de comunicação? E principalmente como você pode inserir isso na rotina da sua marca?

Hoje existem diversas formas de se comunicar com sua comunidade de forma muito dinâmica e, principalmente, interativa, criando uma relação humanizada e divertida através da tecnologia. Afinal, essa é a ideia que a IA quer trazer: assimilar a inteligência humana e se tornar nossa aliada em todo trabalho.

Dentre as diversas maneiras de se aplicar a IA, existe um item fortíssimo que têm ganhado o mercado e também os consumidores: o uso da tecnologia por comando de voz. Uma das maiores criações do mundo atual são ferramentas de comando por voz desenvolvidas por grandes empresas. Um exemplo é Echo Dot, da Amazon, com sua assistente virtual conhecida como Alexa.

Através da Alexa é possível saber o tempo, as notícias do dia e até mesmo realizar alguma pesquisa ou compra. Isso mesmo, uma compra. Esse foi um dos cases produzidos na Adventures, em que era possível fazer o pedido de uma pizza na Domino’s através do seu dispositivo de voz.

O processo de atendimento era realizado pela cantora e apresentadora Jojo Todynho, criando assim uma troca através da tecnologia, mas de maneira prática e intuitiva. Afinal, as pessoas buscam cada vez mais otimizar e valorizar o seu tempo. E podemos encontrar a resposta desse objetivo na IA.

Outro case, que é impossível não lembrarmos quando falamos sobre revolucionar o mercado, foi a ação de Anitta junto com a Alexa. A cantora tem sido referência não só na música, mas também no mercado devido às suas diversas estratégias e ações, inclusive incluindo a inteligência artificial.

A artista não perdeu tempo e decidiu também ficar por dentro dos benefícios da IA. Como de costume, muitas pessoas que possuem a Echo Dot gostam de se antenar logo pela manhã dizendo “Alexa, bom dia”, ouvindo as principais informações do dia.

Em 2020, o usuário, ao se comunicar dessa forma com o dispositivo, ouvia a voz da própria Anitta, que o respondia, falando sobre a grande novidade do seu novo single, chegando assim a milhões de pessoas ao mesmo tempo de uma maneira muito inteligente. É ou não é um pensamento super inovador e tecnológico no mundo do marketing e da cultura?

Exemplos como esses deixam ainda mais claro a importância de as marcas enxergarem todas as oportunidades que a IA nos oferece e como ela pode fazer o nome da sua empresa crescer a níveis exponenciais.

E isso não está distante. É algo que está nas nossas mãos e pode ser explorado de diversas formas, tendo a tecnologia como principal máquina, já que é ela que está mudando o mundo e tende a mudar ainda mais nos próximos anos.

Um fato que nos mostra essa tendência é uma pesquisa da McKinsey Global Institute, comprovando que, até 2030, as empresas que aplicarem a IA em suas operações tendem a dobrar o seu fluxo de caixa e crescer cada vez mais. Quanto mais rápido você se adaptar a essas tendências tecnológicas, melhor será o retorno na sua companhia e nos seus projetos.

Há alguns anos se alguém dissesse que poderíamos desbloquear o celular com o reconhecimento facial, fazer um pedido apenas falando com um dispositivo, e até mesmo ter nossos desejos compreendidos por empresas, você provavelmente diria que era loucura, ou até mesmo impossível.

Isso agora é a nossa realidade. Mais do que isso: é o nosso futuro. Loucura seria não embarcar nessa jornada.

Rapha Avellar é fundador da Adventures

https://neofeed.com.br/blog/home/marcas-inovam-com-o-uso-da-voz-e-com-uma-pitada-de-inteligencia-artificial/

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Apetite por startups cresce, e mais de 90% das empresas querem investir

Pesquisa da Associação Brasileira de Private Equity e Venture Capital (ABVCAP) mostra o cenário do investimento corporativo em startups no país

Por Maria Clara Dias – Exame – 02/02/2022 

Com a pandemia deixando as empresas de cabelo em pé na busca por soluções para atender o público e, ao mesmo tempo, manter a eficiência, a inovação que vem das startups tem sido mais do que bem-vinda. Nesse cenário, o investimento feito por empresas em startups, o chamado corporate venture capital (ou CVC), tem crescido a um ritmo considerável e 61% das empresas brasileiras já têm algum tipo de iniciativa. Entre as que não têm, 92% já estão de olho nisso. Os dados são da pesquisa “Corporate Venture Capital no Brasil”, elaborada pela Associação Brasileira de Private Equity e Venture Capital (ABVCAP) e seu recém-lançado comitê dedicado ao assunto.

Em 2015, o número de iniciativas de investimento corporativo ainda era incipiente, mas a reviravolta causada pela pandemia e a digitalização acelerada dos negócios reverteu esse cenário. O relatório mostra que mais da metade (55%) das iniciativas empresariais de investimento em startups surgiu nos últimos dois anos. Para chegar ao resultado, a ABVCAP analisou as respostas de mais de 30 empresas associadas.

Na esteira da digitalização dos negócios, o modelo Corporate Venture Capital é cada vez mais procurado por empresas que querem acelerar empreendedores e, em contrapartida, criar conexões com ideias e soluções que beneficiem o negócio. Muitas companhias criam novas verticais estratégicas e ambientes de testes a partir do investimento em startups. Essa decisão é o que leva 75% das empresas a declarar que possuem objetivos mistos (financeiros e estratégicos) ao criarem braços de CVC.

“Foi realmente uma surpresa”, diz Sandro Valeri, coordenador do Comitê de CVC da ABVCAP. “Imaginávamos que empresas ainda consideravam apenas o resultado financeiro como benefício do CVC, mas a situação é diferente, e já há uma visão de longo prazo”.

De acordo com Valeri, a maturidade do ecossistema de inovação brasileiro também contribui para o bom momento do CVC no país. Em 2021, o mercado de investimento de risco em startups movimentou volume recorde e o Brasil teve 11 novos unicórnios — a conjuntura inspira empresas a copiar a bem-sucedida ideia de fomentar pequenas companhias de base tecnológica.

 (Richard Drury/Getty Images)

A pesquisa mostra que os valores comprometidos pelas empresas em iniciativas de Corporate Venture Capital ainda são tímidos. Cerca de metade dos CVCs têm menos de R$ 100 milhões investidos, enquanto apenas 30% afirmam possuir mais de R$ 100 milhões alocados em fundos e iniciativas para esse fim.

A justificativa, mais uma vez, está no fato dos CVCs brasileiros ainda serem recentes. A mesma lógica se aplica ao analisar a quantidade de exits concluídos (última etapa do investimento): 80% das empresas ainda não realizaram nenhuma saída. “É comum, afinal, essas empresas ainda não concluíram o ciclo de investimento”, diz Valeri. De acordo com a ABVCAP, o ciclo médio de investimento de empresas em startups dura de cinco a dez anos.

O futuro do CVC

Daqui para a frente, a tendência é que a indústria de CVC abandone o status de “nascente” para “pujante”. A expectativa é de que o número de iniciativas de Corporate Venture Capital cresça na casa “das dezenas” em 2022, segundo Rosario Cannata, coordenador do Comitê de CVC da ABVCAP. “Isso acontecerá porque as iniciativas de CVC irão equilibrar o desejo de grandes empresas por resultados imediatos e estratégias de longo prazo”.

Segundo os especialistas da ABVCAP, as quantias comprometidas para iniciativas de CVC também devem crescer, na medida em que o ritmo de expansão das startups continua acelerado e as próprias iniciativas corporativas ganham mais solidez da porta para dentro. “Hoje vemos que esse valor é pouco, mas as quantias baixas estão associadas ao risco, porque empresas não podem comprometer muito capital em iniciativas recentes”, diz Cannata. “No futuro, essa quantia será bem maior”.

Ao que tudo indica, a aversão ao risco também deixará de ser uma realidade. Hoje, a maioria das startups investidas por braços de CVC estão em estágios iniciais de desenvolvimento, em rodadas Pré-Seed, Seed, e série A e B, com valores que chegam aos R$ 10 milhões. O cenário, segundo a ABVCAP, deve mudar. “A convivência com esse modelo, o grande número de projetos e os bons resultados vão motivar a chegada do CVC a rodadas série C em diante”.

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Por que o Vale do Silício ainda está à espera da próxima grande novidade?

A indústria de tecnologia ficou cada vez mais rica com grandes ideias que foram desenvolvidas há mais de uma década

Cade Metz – THE NEW YORK TIMES/Folha  26/01/2022

No final de 2019, o Google anunciou ao mundo que tinha obtido “supremacia quântica”.

Era um marco científico significativo que alguns compararam ao primeiro voo [dos irmãos Wright em] Kitty Hawk. Ao aprender a explorar os misteriosos poderes da mecânica quântica, o Google havia construído um computador que precisava de apenas três minutos e 20 segundos para executar um cálculo que computadores convencionais não completariam em 10 mil anos.

Mas passados mais de dois anos do anúncio do Google, o mundo continua à espera de um computador quântico que de fato faça alguma coisa útil. E o provável é que a espera seja ainda muito longa. O mundo também continua à espera de carros autoguiados, carros voadores, inteligência artificial avançada e implantes cerebrais que permitirão que uma pessoa controle seus aparelhos de computação usando apenas o pensamento.

A indústria de tecnologia ficou cada vez mais rica com grandes ideias que foram desenvolvidas há mais de uma década. Coisas novas como computação quântica e carros autônomos podem demorar um pouco – Sean Dong/The New York Times

A máquina de hipérboles do Vale do Silício vem sendo acusada há muito tempo de operar muito adiante da realidade. Mas nos últimos os críticos do setor de tecnologia vêm percebendo que as maiores promessas do setor –as ideias que seriam realmente capazes de mudar o mundo– parecem cada vez mais distantes da concretização. A grande riqueza gerada pela tecnologia nos últimos após em geral se deve a ideias, como o iPhone e os apps para aparelhos portáteis, que chegaram há muito tempo.

Será que os grandes pensadores da tecnologia perderam o pique?

Absolutamente não, esses grandes pensadores se apressam a retrucar. Mas os projetos com os quais eles estão lidando agora são muito mais difíceis do que criar um novo app ou desordenar ainda outro setor econômico envelhecido. E, se você olhar ao ao seu redor, os instrumentos que nos ajudaram a lidar com quase dois anos de pandemia –os computadores domésticos, serviços de videoconferência e conexões wifi, e mesmo a tecnologia que ajudou os pesquisadores no desenvolvimento de vacinas contra a Covid-19— demonstram que o setor de tecnologia não exatamente perdeu o passo.

“Imagine o impacto econômico da pandemia se não existisse a infraestrutura –o hardware e o software– que permitiram que tantos trabalhadores de escritório trabalhassem de casa e que tantas outras partes da economia fossem conduzidas de uma forma mediada digitalmente”, dose Margaret O’Mara, professora da Universidade de Washington cuja especialidade é a história do Vale do Silício.

Margaret O’Mara, professora da Universidade de Washington especializada na história do Vale do Silício – Meron Tekie Menghistab – 10.jan.2022/New York Times

Quanto à próxima grande novidade, os grandes pensadores do setor de tecnologia dizem que é só questão de tempo. Um exemplo é a computação quântica. Jake Taylor, que comandou os esforços de computação quântica da Casa Branca e agora é vice-presidente de ciência na Riverlane, uma startup de computação quântica, disse que construir um computador quântico talvez seja a tarefa mais difícil que já foi empreendida. Trata-se de uma máquina que desafia as leis físicas da vida cotidiana.

Um computador quântico depende das formas estranhas de comportamento de alguns objetos em nível subatômico ou quando expostos a frio extremo, como no caso de metal resfriado até 270 graus negativos. Basta uma tentativa dos cientistas para extrair informações desses sistemas quânticos para fazer com que eles quebrem.

Ao construir um computador quântico, disse Taylor, “você trabalha constantemente contra a tendência fundamental da natureza”.

Jake Taylor, cientista-chefe da startup Riverlane – Lauren O’Neil – 11.jan.2022/The New York Times

Os mais importantes avanços tecnológicos das últimas décadas –o microchip, a internet, o computador operado por meio de um mouse, o smartphone– não desafiavam as leis da Física. E todos puderam passar anos em gestação, dentro de agências do governo e laboratórios empresariais de pesquisa, antes de por fim chegarem ao estágio da adoção em massa.

“A era da computação móvel e em nuvem criou muitas oportunidades de negócios novas”, disse O’Mara. “Mas agora existem problemas mais complicados”.

Ainda assim, as vozes mais ruidosas do Vale do Silício muitas vezes discutem esses problemas complicados como se eles fossem não mais que um novo app para smartphones. Isso pode resultar em expectativas exageradas.

Pessoas que não são especialistas, e portanto não têm a mesma informação quanto aos desafios, “podem ter sido enganadas pelas declarações exageradas”, disse Raquel Urtasun, professora da Universidade de Toronto que ajudou a supervisionar o desenvolvimento de carros autoguiados na Uber e agora é presidente-executiva da Waabi, uma startup de veículos autoguiados.

Tecnologias como os carros autoguiados e a inteligência artificial não enfrentam os mesmos obstáculos que a computação quântica, no campo da física. Mas da mesma maneira que os especialistas ainda não sabem como construir um computador quântico viável, eles ainda não sabem como projetar um carro que possa se autoguiar seguramente em qualquer situação, ou uma máquina com a capacidade de fazer qualquer coisa de que o cérebro humano seja capaz.

Mesmo uma tecnologia como a realidade aumentada –com o uso de óculos que podem sobrepor imagens àquilo que o usuário vê no mundo real– exigirá anos de pesquisa adicional e de trabalho de engenharia antes que ela seja aperfeiçoada.

Andrew Bosworth, vice-presidente da Meta, até recentemente conhecida como Facebook, disse que construir esses óculos de peso muito leve é um trabalho semelhante ao processo de desenvolvimento dos primeiros computadores pessoais operados por mouses, na década de 1970 (o mouse mesmo foi criado em 1964). Companhias como a Meta precisam desenvolver uma maneira inteiramente nova de usar computadores, e depois embutir todas as peças necessárias em um objeto muito pequeno.

Ao longo das duas últimas décadas, companhias como o Facebook desenvolveram novas tecnologias e as colocaram em operação em uma velocidade que nunca tinha parecido possível no passado. Mas, como disse Bosworth, essas tecnologias eram predominantemente de software, construídas exclusivamente de “bits” –pedaços de informação digital.

Construir tipos novos de hardware –trabalhar com átomos físicos– é uma tarefa muito mais difícil. “Como setor, nós quase esquecemos como isso funciona”, disse Bosworth, definindo a criação dos óculos de realidade aumentada como “um projeto que se vê uma vez na vida”.

Tecnólogos como Bosworth dizem que um dia terminarão por superar os obstáculos e se mostram mais abertos quanto ao grau de dificuldade que terão de enfrentar. Mas esse não é o caso em todas as situações. E quando um setor se infiltrou em todos os setores da vida cotidiana, pode ser difícil separar o otimismo exagerado do realismo –especialmente quando quem atrai a atenção são personalidades conhecidas como Elon Musk e companhias gigantescas como o Google.

Muita gente no Vale do Silício acredita que as declarações otimistas são uma parte importante do processo que conduzirá as novas tecnologias ao uso comum. Os exageros ajudam a atrair o dinheiro, os talentos e a fé necessários para construir a tecnologia.

“Se o resultado é desejável —e tecnicamente possível—, então não é problema que estejamos três ou cinco anos, ou seja lá quanto for, fora do prazo”, disse Aaron Levie, presidente-executivo da Box, uma empresa do Vale do Silício. “É bom que os empreendedores da tecnologia sejam otimistas –que tenham um pouquinho daquele campo de distorção que caracterizava Steve Jobs”, e ajuda a persuadir pessoas a aderir às suas grandes ideias.

O exagero também é uma maneira de os empreendedores despertarem o interesse do público. Mesmo que as novas tecnologias possam ser construídas, não há garantia de que as pessoas e as empresas venham a desejá-las, adotá-las e pagar por elas. É preciso estimular o interesse. E talvez um pouco mais de paciência do que a maioria das pessoas, dentro e fora do setor de tecnologia, admite.

“Quando ouvimos falar de uma nova tecnologia, em menos de dez minutos nossos cérebros são capazes de imaginar o que ela poderia fazer. E instantaneamente comprimimos toda a infraestrutura e inovação necessárias para chegar àquele ponto”, disse Levie. “Essa é a dissonância cognitiva com que temos de lidar”.

The New York Times, tradução de Paulo Migliacci

https://www1.folha.uol.com.br/tec/2022/01/por-que-o-vale-do-silicio-ainda-esta-a-espera-da-proxima-grande-novidade.shtml?origin=folha

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A indústria do futuro e o futuro da indústria

O Brasil tem imenso potencial de transformar-se no grande supridor mundial de produtos com baixa pegada de carbono

Por Horacio Piva, Pedro Passos e Pedro Wongtschowski – Valor – 26/01/2022 

A indústria é muito importante para o Brasil e dela não se pode abrir mão se o país almeja recuperar uma sólida e longa trajetória de desenvolvimento. Mesmo hoje respondendo por apenas 11% do PIB, ela é responsável por 24% da receita tributária federal e por 67% da atividade privada de pesquisa e desenvolvimento. 

O emprego com carteira assinada chega a 63% de todas as ocupações no setor ante 40% nos serviços e 16% na agropecuária. Além disso, paga salários médios cerca de 10% maiores do que o restante da economia.

A indústria é essencial para um agronegócio moderno e competitivo. Não há agricultura rentável sem equipamentos de todo o tipo – de tratores a colheitadeiras, de material para irrigação a sensores, drones, computadores, silos, máquinas de beneficiamento e transformação, de caminhões a vagões. Não há agricultura competitiva sem defensivos agrícolas e sem fertilizantes, produtos da indústria química.

— Foto: Julio Bittencourt/Valor

Futuro depende de duas transições para um novo cenário: a economia digital e a economia de baixo carbono

Também não há setor de serviços dinâmico sem equipamentos, cada vez mais sofisticados, com o avanço da informática e dos meios de comunicação. Novos meios de pagamento estão transformando o sistema financeiro; o comércio online já é uma realidade incontornável; no transporte, sensores e satélites asseguram rastreabilidade e apontam para maior automação; na educação e na saúde dispositivos eletrônicos ampliam acesso remoto e abrem novas possibilidades de ensino e tratamento.

Apesar disso tudo, há quem ponha em dúvida a capacidade de recuperação da indústria no Brasil. De fato, seu futuro não está garantido, já que depende de uma série de mudanças urgentes de três naturezas.

Primeiro, em tudo o que a cerca, incluindo o sistema tributário, a logística, a regulação, a educação e o esforço público e privado em ciência e tecnologia.

Segundo, na capacidade de se posicionar diante de duas transições que determinam o novo cenário – a economia digital e a economia de baixo carbono. O que vem pela frente quebra paradigmas e impõe escolher novas avenidas para o desenvolvimento que priorizem a especialidade competitiva em detrimento da diversificação protegida.

Terceiro, a indústria brasileira tem que se integrar ao mundo, importando e exportando insumos e produtos sem limitações ou barreiras tarifárias e não tarifárias, enfrentando de forma extrovertida a competição, fator determinante para o aumento da produtividade.

Por serem mudanças transversais e com a ênfase das novas tecnologias nas formas de produzir, estes três vetores de revitalização industrial não apenas permitiriam o surgimento de novos segmentos e atividades industriais como também viabilizariam a atualização do parque existente de acordo com as melhores referências globais.

Fala-se muito na desindustrialização brasileira. O termo pode não ser adequado, mas o que as estatísticas deixam claro é que nos últimos 15 anos o PIB industrial brasileiro estagnou. Estava em 2019 nos mesmos níveis de 2004. 

Ou seja, o Brasil cresceu, mas a sua indústria ficou parada, perdendo espaço tanto no mercado interno e, de forma mais significativa, no mercado internacional. O aumento do consumo interno advindo do crescimento e da sofisticação da demanda brasileira foi atendido por importações.

O Brasil tem imenso potencial de transformar-se no grande supridor mundial de produtos com baixa pegada de carbono. Nossa matriz energética, cada vez mais renovável, nossas matérias primas de origem agrícola e a exploração econômica e responsável de nossa biodiversidade são oportunidades que nenhum outro país do mundo tem. O que falta para seguirmos este caminho?

A discussão sobre as perspectivas da indústria brasileira, tem, portanto, que mudar radicalmente. Temos que sair da fase de lamúrias e virar a página das antigas políticas industriais que adotamos no passado para perseguirmos mudanças em temas que irão viabilizar a indústria do futuro. 

Questões conjunturais são sim importantes, mas precisamos atentar que a sua solução — desde logo, muito desejada – tão somente nos permitirão migrar de uma situação industrial atualmente muito precária para uma condição menos ruim, mas de qualquer forma insustentável no longo prazo.

As três questões essenciais são, portanto:

  1. a solução dos problemas que afetam a competitividade da indústria brasileira;
  2. a modernização da indústria pela adoção das técnicas de gestão e de tratamento de dados que exigem novos conhecimentos e outros tipos de máquinas e equipamentos, e
  3. a busca de alternativas de processos e produtos que respondam efetivamente a uma demanda por produtos com menor pegada de carbono.

Essas são as discussões substantivas nas quais devemos nos concentrar, se há mesmo desejo que a indústria cumpra o seu papel no crescimento econômico, na criação de empregos, na arrecadação de impostos e na geração de divisas. 

Uma indústria integrada internacionalmente, orientada para produzir o que o mundo deseja e atendendo ao que cada vez mais é exigido em termos da proteção ambiental. Aí sim, haverá futuro para a indústria brasileira.

Ao perseguir estas questões não estaríamos fazendo nada muito diferente do restante do mundo, a exemplo dos Estados Unidos, da União Europeia e da China, entre tantos outros, que, por meio de estratégias industriais e tecnológicas e de planos de infraestrutura, estão buscando ganhar mais competitividade e expandir, em bases modernas e sustentáveis, sua capacidade manufatureira.

Este necessário debate nos afastará das questões conjunturais e nos aproximará das grandes questões do futuro, tais como:

  1. a formação dos profissionais brasileiros e o investimento público e privado em pesquisa, desenvolvimento e inovação;

2. a rápida digitalização e modernização do parque industrial brasileiro;

3. a internacionalização da indústria brasileira, com uma acelerada e incondicional liberalização das importações e rápida integração da indústria local às cadeias internacionais de valor e

4. a mudança da forma de operar da indústria visando atender às crescentes demandas ambientais e de sustentabilidade em consonância com a agenda global.

Este é o nosso sonho: ver o Brasil liderar a construção de uma nova fronteira, a que o mundo deseja e precisa. Uma indústria moderna, limpa, inovadora e referência na transição para a economia de baixo carbono. É a única forma de chegarmos – vivos e competitivos – ao futuro.

Horacio Lafer Piva, Pedro Passos e Pedro Wongtschowski são empresários

https://valor.globo.com/opiniao/coluna/a-industria-do-futuro-e-o-futuro-da-industria.ghtml

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Brasil entra na disputa por nômades digitais, profissionais que podem trabalhar de qualquer lugar

Levantamento aponta que há 35 milhões de trabalhadores com esse perfil no mundo, com renda superior a R$ 34 mil por mês. País já tem visto especial para atrair essa mão de obra

João Sorima Neto e Raphaela Ribas – O Globo – 30/01/2022 

SÃO PAULO E RIO – O Brasil entrou na disputa para atrair trabalhadores qualificados de alta renda que podem trabalhar de qualquer lugar, um estilo de vida que ganhou força com a digitalização acelerada pela pandemia.

O Conselho Nacional de Imigração, do Ministério da Justiça, regulamentou na semana passada a criação de um visto para os chamados nômades digitais, executivos, especialistas, gestores de investimentos, criadores de conteúdo e outros profissionais que só precisam de um laptop e uma boa conexão para produzir.

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A ideia é permitir que estrangeiros possam ficar por um ano (com possibilidade de prorrogação) aqui, mesmo vinculados a empresas do exterior. A mudança abre oportunidades para setores como os de hospedagem e escritórios compartilhados.

O Relatório Global de Tendências Migratórias 2022 da Fragomen, empresa especializada em serviços de imigração mundial, estima que 35 milhões  de profissionais tenham esse perfil no mundo e prevê que o número pode chegar a um bilhão em 2035.

Cerca de 40% deles têm renda superior a R$ 34 mil por mês e chegam a gastar em torno de R$ 4,2 milhões por ano.

O contador Vincenzo Villamena em suas duas versões no Brasil: o americano que experimenta a vida carioca e o executivo de finanças que dá expediente em um coworking Foto: Leo Martins / Agência O Globo

O contador Vincenzo Villamena em suas duas versões no Brasil: o americano que experimenta a vida carioca e o executivo de finanças que dá expediente em um coworking Foto: Leo Martins / Agência O Globo

24 países já têm visto

De olho nesse potencial de consumo em meio à crise do turismo, 24 países já criaram vistos sob medida para nômades na pandemia. A Estônia foi a primeira, seguida de outros países como Grécia, Costa Rica, Croácia e Islândia.

Muito antes dos nômades digitais virarem tendência, o contador nova-iorquino Vincenzo Villamena, de 39 anos, decidiu tentar a vida fora do estresse da Big Apple.

Em 2010, passou uma temporada em Buenos Aires para aprender espanhol e viu que poderia trabalhar à distância sem abandonar a carreira nos EUA.

Já viveu na Colômbia e agora divide a rotina entre a vida típica de carioca e um espaço da Hub Coworking, no Leblon, na Zona Sul do Rio. Dali ele comanda a Online Taxman, que é baseada nos EUA e tem outros 40 funcionários remotos.

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— Queria muito este visto de nômade digital, mas não tinha. Vai ser muito bom. Muitas pessoas querem vir para cá e ficar mais de seis meses — diz Villamena, referindo-se ao prazo do visto de turismo.

Empresa 100% virtual

Embora registrada nos EUA, a empresa do engenheiro de software espanhol Momo Gonzalo, de 39 anos, é 100% virtual. Ele chegou ao Rio neste mês depois de temporadas em Portugal e Dinamarca sem se desligar do negócio. O próximo destino é Florianópolis.

— Conheci vários países e pessoas morando em locais onde talvez eu não iria nem de férias. No escritório, eu me reunia com colegas para comer ou discutir um problema. No remoto, isso não acontece. Todo mundo trabalha de forma muito independente.

O designer Pedro Segreto vive em Portugal, mas mantém o trabalho do Brasil graças à tecnologia Foto: Arquivo pessoalO designer Pedro Segreto vive em Portugal, mas mantém o trabalho do Brasil graças à tecnologia Foto: Arquivo pessoal

O polonês Kamil Tyliszczak, desenvolvedor de software, mora há 12 anos no Brasil e trabalha desde outubro para uma empresa australiana. Ele é casado uma brasileira, com quem tem um filho de 2 anos, o que lhe garante visto permanente, mas atua como um nômade digital.

Sem precisar bater ponto num escritório, ele conseguiu trocar Marília, no interior de São Paulo, por São Bernardo do Campo, no ABC. A melhora de vida estava nos planos quando decidiu buscar emprego somente em agências internacionais.

— Não queria mais receber em reais — resume.

O interesse dos países nos nômades digitais é a alta renda. Ainda que ele siga produzindo para a economia de outro país, seus gastos pessoais podem fazer diferença aqui. Muitos homens ou mulheres nessa situação trazem a família e ampliam o consumo, movimentando vários negócios, observa Diana Quintas, sócia da Fragomen no Brasil:

— Além de fazer turismo, ele vai alugar um imóvel, pode comprar um carro, matricular o filho numa escola, ir à academia, utilizar serviço de salão de beleza, por exemplo. E não são vistos como ameaça concorrente à mão de obra local.

A Riotur, empresa de turismo da prefeitura carioca, criou uma comunidade para os nômades na internet, que reúne parceiros como hostels e espaços de coworking e até descontos para estimular a vinda deles para o Rio.

— Estamos agora à altura de países como Alemanha, Noruega, Bahamas — comemora a presidente da Riotur, Daniela Maia, sobre o novo visto.

Aposta em novo nicho

A Hub Coworking, que tem dez escritórios compartilhados no Rio, atribui parte do aumento de 15% no faturamento em 2021 à chegada de estrangeiros. O perfil que mais busca salas privativas por ali, que são as mais caras, é o de europeus com permanência média de um a três meses no país, diz Bruno Beloch, um dos sócios:

— É uma tendência, sem dúvidas.

Outro setor que investe nesse nicho é o de hospedagem. Para marcar sua aposta no novo estilo de vida, o CEO global do Airbnb, Brian Chesky, anunciou recentemente que vai trabalhar nos próximos meses saltando entre diferentes imóveis da plataforma de aluguéis temporários.

No Brasil, a start-up do ramo Tabas redirecionou seu negócio  enxergar este potencial. Com 400 imóveis mobiliados em São Paulo e no Rio, quer chegar a 1.200 até o fim do ano, incluindo Brasília e Cidade do México.

Capital:Onde moram os nômades digitais? A Tabas levantou R$ 80 milhões para responder a essa pergunta

Para a expansão, levantou cerca de R$ 76 milhões numa rodada de investimentos e firmou parcerias na Europa e nos EUA para oferecer uma espécie de plano sob medida para nômades.

— Com a visão de tornar a experiência do nômade global, a ideia é ter produtos globais. A pessoa aluga com a gente e consegue ficar em qualquer lugar do mundo — diz o CEO Leonardo Morgatto.

Chance de retenção

Para as empresas, o home office virou uma ferramenta para atrair talentos de qualquer lugar do mundo, principalmente na área de tecnologia. Das empresas consultadas pela Fragomen no mundo, 87% têm lacunas de habilidades na sua força de trabalho.

Atualmente, 43% das empresas já contratam globalmente com teletrabalho. Nos próximos dois anos, outros 22% passarão a contratar

Nessa disputa, o Brasil tem perdido profissionais para empresas estrangeiras sem necessidade de imigração. Mas o novo estilo de vida pode ajudar na retenção de talentos. Profissionais interessados em experiências no exterior podem viajar sem cortar laços com o empregador brasileiro.

Depois de viver a experiência de nômade digital, Patrícia Corrêa agora quer investir neste nicho Foto: Acervo pessoalDepois de viver a experiência de nômade digital, Patrícia Corrêa agora quer investir neste nicho Foto: Acervo pessoal

Depois de se adaptar ao home office imposto abruptamente na pandemia, o designer carioca Pedro Segreto, de 46 anos, viu que poderia aplicá-lo em qualquer lugar. Uns dias na Serra fluminense, outros em Angra e então, com visto europeu, foi parar em Lisboa. Mas não abandonou a empresa brasileira.

O maior desafio foi o dia a dia porque o seu trabalho consiste em processos de cocriação e design thinking com grandes equipes.

— Antes, montava uma sala criativa com um time. A gente passava o dia inteiro nas atividades. Na pandemia, tive que ajustar e testei ferramentas para fazer isso remotamente — diz o especialista, que continua atendendo seus clientes, grandes empresas brasileiras, à distância e pensa em explorar outros países europeus em home office.

Da experiência ao empreendedorismo

Esse estilo de vida também conquistou brasileiros que resolveram rodar o país sem deixar de lado o trabalho. Na pandemia, a gerente bancária Patrícia Corrêa, de 35 anos, passou a trabalhar numa espécie de home office itinerante.

Passava cada duas semanas por um lugar diferente, como Caraíva e a ilha de Boipeba, ambas na Bahia, combinando turismo com trabalho. Nesses destinos ela começou a encontrar outras pessoas na mesma situação.

Observando as delícias e agruras de uma vida sem endereço fixo, veio a ideia para concretizar o velho sonho de empreender. Ela pensa em criar um hostel especializado na recepção de nômades digitais. Tirou uma licença não remunerada do trabalho para continuar a viajar fazendo pesquisa de campo, dessa vez no exterior, para se preparar antes de investir.

— Eu já tinha vontade de abrir um hostel e nestas andanças, pela quantidade de pessoas fazendo isso, vi que a tendência é aumentar. Fui pesquisando e observando o que é importante para criar um ambiente para quem trabalha e viaja, como conforto, boa conexão e uma sala para reuniões, que alguns não tem, por exemplo — relata Patrícia, que também começou a trabalhar com fotografia.

Disputa por talentos em dólar

A área de inteligência global da Fragomen identifica que novas modalidades de vistos de trabalho serão a grande tendência migratória para 2022, devido à alta demanda por profissionais especializados, principalmente na área de tecnologia, e que foi agravada pela pandemia. Com isso, flexibilidade é uma arma para tentar reter os melhores funcionários.

— As empresas têm que cobrir as ofertas de empresas de fora, em dólar, e o mercado fica inflacionado. No setor de TI é muito mais, mas também vemos isso em áreas comerciais na América Latina e setores mais analíticos de finanças — explica Paulo Dias, diretor da consultoria de recrutamento Page Group, que atua em 50 países e compartilha entre eles vagas remotas.

Kamil Tyliszczak, desenvolvedor de software, mora há 12 anos no Brasil e trabalha para uma empresa australiana Foto: Acervo pessoalKamil Tyliszczak, desenvolvedor de software, mora há 12 anos no Brasil e trabalha para uma empresa australiana Foto: Acervo pessoal

Segundo Dias, o fluxo de brasileiros saindo é maior do que o de estrangeiros vindo trabalhar aqui. Para reter os brasileiros, o jeito é oferecer benefícios. E em 2022, o que vale mais que salário é tempo, diz ele: 

— A empresa pode entender a real demanda do profissional e oferecer benefícios, não necessariamente monetizáveis, como horários adaptáveis, participação nos lucros ou sociedade. As empresas estão cedendo, senão acabam ficando para trás. Os melhores profissionais querem flexibilidade. Este é o principal atrativo.

O pagamento de impostos é um ponto importante. A sócia de Tributário do Tauil & Chequer Advogados, Carolina Bottino, explica que as regras tributárias dependem de cada visto e país.

Em geral, nos vistos de trabalho, o profissional paga impostos onde mora e trabalha. Brasileiros que vão trabalhar fora têm que declarar a saída para não pagar impostos duplamente. No caso do nômade digital, diz a advogada, ela entende que, na dúvida, o imposto deve ser pago aqui, mas isso vai depender de regulamentação da Receita para o novo visto.

— A Receita Federal vai precisar regulamentar este novo visto para que, depois de seis meses, que é o prazo de turista, o estrangeiro não seja tributado aqui. Se ele foi criado para incentivar a vinda ao Brasil, deve haver cooperação, senão fica numa zona cinzenta e traz riscos ao profissional.

Site para visto só está disponível em português

O anúncio do novo visto para nômades digitais agradou a estrangeiros interessados em usá-lo e setores que consideram o estímulo à vinda deles importante para a economia. No entanto, o sistema Migranteweb, que recebe os pedidos de visto, virou alvo de críticas nas redes sociais.

A principal delas foi a falta de uma versão em inglês. Alguns internautas questionaram o fato de o site do Portal de Imigração ser todo em português, quando há interesse em atrair profissionais de fora. Além disso, alguns relataram dificuldades para acessar o sistema.

O Ministério da Justiça, ao qual o Conselho Nacional de Imigração (CNIG) está vinculado, reconhece a restrição ao português, mas informa que este “tema contará com folders em idiomas estrangeiros, que serão disponibilizados no site.”

Quanto às queixas sobre o acesso ao Migranteweb, a pasta diz não ter registrado nenhum erro. Quem tiver problemas para acessar a plataforma deve escrever para migranteweb@mj.gov.br.

https://oglobo.globo.com/economia/emprego/brasil-entra-na-disputa-por-nomades-digitais-profissionais-que-podem-trabalhar-de-qualquer-lugar-25372827

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O lado manual da inteligência artificial

Cezar Taurion – Neofeed – 26/01/2022

É preciso treinar os dados para que eles se tornem “inteligentes”. E isso é feito ainda de forma “manual”. Novas técnicas tentam driblar essa limitação. O problema? O custo econômico é enorme

A evolução do machine learning (ML) tem sido rápida. Estamos saindo da fase do hype, em que de forma entusiasmada imaginávamos que as coisas seriam meio mágicas e estamos entrando no mundo real, descobrindo o que pode e o que não pode (ou não deve) ser feito.

A jornada tem sido bem mais longa e tortuosa que pensávamos no início. Questões como ética, vieses e a amplitude de uso aplicações de reconhecimento facial começaram a ser discutidos com intensidade. Sinal claro de maturidade.

Mas, na verdade, estamos engatinhando no uso dos algoritmos de ML. Provavelmente, daqui a cinco ou dez anos, o cenário ​​será muito diferente do que é hoje. Métodos que atualmente consideramos no estado-da-arte ficarão desatualizados e outros, que são incipientes ou simples protótipos, poderão ser o novo mainstream.

Difícil fazer previsões, mas analisando as publicações e pesquisas, alguns sinais começam a aparecer aqui e ali, nos permitindo fazer algumas observações.

O modelo atual de aprendizado supervisionado, com demanda de massivos volumes de dados, acaba gerando uma concentração excessiva e indesejável em poucas empresas, as Big Techs, que dispõem capital financeiro para “treinar” algoritmos cada vez mais sofisticados e complexos.

No aprendizado supervisionado, os modelos de ML aprendem a partir de conjuntos de dados que os humanos organizam e rotulam de acordo com categorias predefinidas. O termo “aprendizagem supervisionada” vem do fato de que “supervisores” humanos preparam os dados com antecedência.

É assim que treinamos sistemas de reconhecimento facial ou de análise de imagens médicas. Indiscutivelmente que o processo de rotular manualmente milhões de imagens é extremamente caro, demorado e complicado. A necessidade de que os humanos devem rotular os dados manualmente antes que os modelos de ML possam analisá-los tornou-se um grande gargalo para os projetos.

Além disso, esses modelos orientam-se apenas pelos conceitos e categorias que os pesquisadores identificaram com antecedência, não conseguindo explorar e absorver as informações latentes, relacionamentos e implicações existentes nos conjuntos de dados, que não tenham sido previamente rotulados ou classificados.

Observamos também que existem diversas aplicações em setores de negócio que não dispõem de grandes volumes de dados. O aprendizado supervisionado tem seu espaço, mas precisamos de alternativas.

Assim, vemos o crescimento dos modelos de aprendizado não supervisionado. O aprendizado não supervisionado é uma técnica de ML ​​em que, de forma simplificada, os algoritmos aprendem a partir dos dados sem rótulos ou orientação prévias fornecidos por humanos.

O próprio Yann LeCun, um dos “pais” do ML. já disse que “a próxima revolução da inteligência artificial não será supervisionada”. Na verdade, ele usa o termo “aprendizagem auto-supervisionada”.

Como funciona o modelo de aprendizagem não supervisionada? Em tese é simples: o sistema aprende sobre algumas partes do mundo com base em outras partes do mundo.

Ao observar o comportamento, os padrões e os relacionamentos entre entidades, por exemplo, palavras em um texto ou pessoas em um vídeo, o sistema inicia um processo de compreensão geral de seu ambiente.

Esse modelo reflete mais de perto a maneira como nós, humanos, aprendemos sobre o mundo: por meio de exploração e inferências abertas, sem a necessidade dos volumes imensos de dados necessários na aprendizagem supervisionada.

Uma criança reconhece um cachorro, mesmo de cor e raça diferentes, sem necessidade de ver previamente milhares de cachorros. Uns poucos que ele vê já é suficiente para reconhecer os demais. Uma das vantagens desse modelo é que sempre haverá muito mais dados não rotulados do que dados rotulados no mundo.

Já vemos casos concretos de uso desse modelo. O AlphaZero, da DeepMind, é um exemplo. O paper “AlphaZero: Shedding new light on chess, shogi, and Go” nos dá uma boa ideia do como ele faz.

Mais recentemente vimos essa abordagem causando grande impacto no processamento de linguagem natural. A NLP tem mostrado grandes progressos graças a uma nova arquitetura de aprendizagem não supervisionada conhecida como Transformer, que se originou no BERT do Google há poucos anos. O artigo “Transformers from Scratch” dá uma boa explicação sobre o conceito desses modelos.

O lançamento do GPT-3 pela OpenAI estabeleceu um novo padrão no NLP: pode escrever poesia, gerar código de computação, redigir memorandos de negócios, escrever artigos sobre si mesmo e por aí.

O questionamento que faço é que construir uma plataforma dessas é muito cara e quem vai ser provedor delas serão também as Big Techs.

Recentemente, a Microsoft e a Nvidia anunciaram que treinaram um dos maiores e mais sofisticados modelos de linguagem de IA até hoje: o Megatron-Turing Natural Language Generation (MT-NLP). O MT-NLP contém 530 bilhões de parâmetros e consegue uma alta precisão em um amplo conjunto de tarefas, incluindo compreensão de leitura e inferências de linguagem natural.

Construir um modelo desse não sai barato. O treinamento ocorreu em 560 servidores Nvidia DGX A100, cada um contendo 8 GPUs Nvidia A100 80GB. Estima-se seu custo em vários milhões de dólares.

No início de outubro do ano passado, os pesquisadores da Alibaba colocaram no ar o M6-10T, um modelo de linguagem contendo 10 trilhões de parâmetros (cerca de 57 vezes o tamanho da GPT-3 da OpenAI) treinado em 512 GPUs Nvidia V100 por 10 dias.

O custo do uso do V100 mais barato disponível por meio do Google Cloud Platform era de US $ 2,28 por hora, o que equivaleria a mais de US$ 300 mil (US$ 2,28 por hora multiplicado por 24 horas em 10 dias) – mais do que a maioria das equipes de pesquisas e principalmente startups podem dispor.

Estima-se que a DeepMind, subsidiária do Google, gastou US$ 35 milhões treinando seu sistema para aprender o jogo de tabuleiro Go. Devido aos altos custos de treinamento, a OpenAI decidiu não corrigir um bug que foi detectado ao implementar o seu GPT-3, porque o custo do retreinamento simplesmente era inviável. O custo inicial já tinha sido de mais de US$ 4 milhões.

Claramente estamos diante de um desafio. Com o crescente do aumento dos custos econômicos e ambientais, a evolução do ML precisará encontrar novas maneiras de aumentar o desempenho, sem continuar no ritmo atual de mais e mais demandas crescentes de computação e custos.

No rumo atual vai se tornar sua evolução vai praticamente ficar limitado as Big Techs, as únicas que têm capacidade financeira e computacional para criar e treinar esses modelos.

Cezar Taurion é VP de Inovação da CiaTécnica Consulting, e Partner/Head de Digital Transformation da Kick Corporate Ventures. Membro do conselho de inovação de diversas empresas e mentor e investidor em startups de IA. É autor de nove livros que abordam assuntos como Transformação Digital, Inovação, Big Data e Tecnologias Emergentes. Professor convidado da Fundação Dom Cabral, PUC-RJ e PUC-RS

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