Plataforma não é mais só entretenimento e precisa ser levada a sério
Ronaldo Lemos – Folha – 27.mar.2022
O TikTok consolidou seu espaço como ferramenta de comunicação tanto no Brasil como em outros países. Durante o período da pandemia, foi dos aplicativos mais baixados do planeta, tendo superado a marca de 1,2 bilhão de usuários globalmente. No Brasil, há mais de 70 milhões de usuários.
Em outras palavras, é uma plataforma que precisa ser levada a sério além da questão do entretenimento e das dancinhas. Consegue hoje formar opinião, ecoar debates do momento e, sobretudo, gerar tendências próprias que depois se espalham por toda a sociedade.
Quem tenta migrar para o TikTok esbarra em uma questão interessante. É muito fácil tornar-se consumidor de conteúdo no TikTok, mas muito mais difícil tornar-se produtor. No lado do consumo, o algoritmo rapidamente identifica os gostos pessoais dos novos usuários. Não é preciso criar conta para assistir aos vídeos. É possível compartilhar qualquer conteúdo em redes concorrentes (fazendo propaganda da plataforma). O resultado é uma alta capacidade capturar atenção.
Logos do TikTok – Dado Ruvic – 15.fev.2022/Reuters
Já o lado de produção de conteúdo é bem mais complicado. Não é todo o mundo que se aventura a produzir vídeos curtos, na maioria dos casos até um ou dois minutos, que se valem de ferramentas de edição, remix, filtros, colagens e outros dispositivos para comunicar algo ou provocar experiências sensoriais.
Aprender a produzir conteúdo para o TikTok é aprender a falar essa nova linguagem. Sobre isso há elementos importantes. Por exemplo, é preciso capturar a atenção de possíveis espectadores nos primeiros três segundos do vídeo.
O processo de consumo do TikTok é selvagem. O usuário geralmente decide de forma inconsciente se vai dedicar mais tempo de atenção a um vídeo em menos de três segundos. Se o vídeo não provoca interesse, o dedo desliza sobre a tela e outro vídeo é mostrado, competindo novamente por atenção.
Tal como em um aplicativo de paquera, eventuais “candidatos” a serem assistidos desfilam pela tela sob o comando do polegar. Muitas vezes são dezenas de vídeos analisados por minuto, todos dispensados nos primeiros três segundos.
Outro componente do sucesso no TikTok é gerar trends (“tendências”). O algoritmo costuma premiar com mais visualizações quem produz conteúdo que se encaixa nas tendências da semana. Isso tem o poder de fazer viralizar músicas, pessoas, conceitos e ideias.
Aliás, um ponto importante é que o número de seguidores não é determinante para a distribuição dos conteúdos. Um vídeo que produz “engajamento” pode ser distribuído para milhões de pessoas, mesmo se o autor tiver apenas alguns poucos seguidores.
Por fim, o TikTok terá um impacto político no próximo ciclo eleitoral. Haverá “candidatos do TikTok”, alavancando-se a partir do poder de persuasão da plataforma.
Já para as eleições presidenciais a plataforma segue praticamente ignorada. Exceto pelo atual ocupante do Palácio do Planalto, que já amealhou 1,2 milhão de seguidores na plataforma na sua conta oficial. O segundo lugar pertence a Ciro Gomes, com 80 mil seguidores, único outro presidenciável que se aventurou a também publicar vídeos curtos dentro da plataforma.
Se você tiver interesse e ainda não estiver inscrito para receber diariamente as postagens de O Novo Normal, basta clicar no link: https://chat.whatsapp.com/KDxyGtiRel41XOZDxvZZkI (12) para WhatsApp ou https://t.me/joinchat/SS-ZohzFUUv10nopMVTs-w para Telegram. Este é um grupo restrito para postagens diárias de Evandro Milet. Além dos artigos neste blog, outros artigos de Evandro Milet com outras temáticas, publicados nos fins de semana em A Gazeta, encontram-se em http://evandromilet.com.br/
Alemão de 19 anos descobriu vulnerabilidade em veículos autônomos
Roberto Dias – Folha – 30.mar.2022 às 11h07
DUBAI
“Foi muito interessante fazer isso a partir do meu quarto na Alemanha”, conta David Colombo, 19 anos e status de neocelebridade.
Pudera, o “isso” que ele fez dentro de sua casa foi tomar o controle de várias funções de pelo menos 25 carros da Tesla em 13 países, expondo uma falha de segurança importantíssima para a indústria de veículos com piloto automático.
David Colombo, 19, conta sua história no World Government Summit, em Dubai – Roberto Dias/Folhapress
O episódio ocorreu no início deste ano e, diz o hacker, teve início acidental. Dono de uma empresa de cibersegurança, ele prestava serviços para uma companhia francesa quando precisou estudar um determinado software. Nesse processo, acabou encontrando a falha que lhe dava acesso aos veículos.
E o que ele poderia fazer, se quisesse? Abrir portas e janelas, descobrir a localização do veículo, saber se havia ou não alguém dentro, mexer no rádio e piscar luzes. Coisas que afirma não ter feito sem permissão dos donos. Não tinha como dirigi-los remotamente, mas poderia destravá-los e sair guiando os carros se estivesse próximo deles. Além, claro, de conseguir atrapalhar bastante a vida de um motorista que os conduzisse naquele momento.
Detectada a falha, ele avisou a empresa, que respondeu rapidamente, consertando o problema. Só depois disso é que ele tornou pública a história.
Cinco anos atrás, o CEO da Tesla, Elon Musk, fazia piadas com os perigos da segurança digital. “Em tese, se alguém pudesse hackear todos os Teslas autônomos, a pessoa poderia mandá-los todos para Rhode Island [o menor estado dos EUA]”, dizia. “Seria o fim da Tesla e haveria um monte de gente brava em Rhode Island.”
O ocorrido agora mostra que o tempo da piada ficou para trás.
“Estamos ficando cada vez mais vulneráveis, sem dúvida”, afirmou Colombo durante o World Government Summit, evento anual que acontece em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos. “Não estamos falando de ciberataques que podem acontecer, mas sim de ataques que já estão acontecendo.”
O hacker precisou convencer a família e a escola de que sua vida profissional passava justamente por esse problema real.
Modelo piloto de carro que funciona sem motorista da Uber; iniciativa causa preocupação devido às escolhas “morais” que a máquina teria de fazer em situações extremas. Estudiosos têm se debruçado sobre a questão. Angelo Merendino/AFP
“Fiquei interessado em tecnologia com 9 anos, quando ganhei meu primeiro smartphone”, diz ele. Um ano depois, veio o primeiro laptop. “Isso abriu um mundo novo para mim. Queria saber como ele funciona.”
Começou a programar e descobriu vulnerabilidades no código que escrevia. Nasceu aí o interesse por cibersegurança. “Gastei todo o meu tempo aprendendo. Três da manhã eu estava sentado na frente do meu laptop.”
Naturalmente, faltou tempo para escola. Conseguiu uma permissão especial para ir ao colégio no máximo duas vezes por semana e passou a se dedicar a sua nova empresa.
“Você não precisa ir para a universidade para aprender sobre cibersegurança. Não é como se tornar médico. Pode usar a internet para aprender sobre a internet”, diz ele. “O que está por trás disso não é mágica.”
O jornalista Roberto Dias viajou a convite da Agência de Notícias dos Emirados Árabes Unidos
Se você tiver interesse e ainda não estiver inscrito para receber diariamente as postagens de O Novo Normal, basta clicar no link: https://chat.whatsapp.com/KDxyGtiRel41XOZDxvZZkI (12) para WhatsApp ou https://t.me/joinchat/SS-ZohzFUUv10nopMVTs-w para Telegram. Este é um grupo restrito para postagens diárias de Evandro Milet. Além dos artigos neste blog, outros artigos de Evandro Milet com outras temáticas, publicados nos fins de semana em A Gazeta, encontram-se em http://evandromilet.com.br/
O Brasil virou um dos lugares preferidos para os investidores estrangeiros especializados no mercado de tecnologia, graças ao sucesso de diversas startups que despontaram nos últimos anos. Além disso, o fechamento da economia chinesa, a exclusão da Rússia dos negócios internacionais e a complexidade da Índia colocam o País como opção natural entre os emergentes mundiais.
“Nesse cenário, o Brasil acaba sobrando. E esse amadurecimento do ecossistema dá certa confiança”, conta ao Estadão a empreendedora carioca Iona Szkurnik, membro do conselho do evento anual Brazil at Silicon Valley, que reúne empresários do País e grandes da tecnologia no Vale do Silício, região na Califórnia conhecida por abrigar as principais companhias do setor no mundo. “O Brasil é muito bem-visto.”
Como bons exemplos de investidores internacionais em atuação País, Iona cita o americano Kevin Efrusy, da Accel (que já desembolsou cheques milionários em QuintoAndar, Olist e Nuvemshop), e o taiwanês Hans Tung, da GGV (responsável por investir em Loggi, Daki e IDWall, por exemplo). Ambos são dois nomes já confirmados para a edição deste ano, que está planejada para ocorrer em 16 e 17 maio em Mountain View, cidade que abriga o Google e o Museu da História da Computação.
Evento Brazil at Silicon Valley retoma atividades presenciais na Califórnia em 16 e 17 de maio
Desde 2019, o evento não ocorre de forma presencial, um reflexo da pandemia. De lá para cá, o mercado de inovação no Brasil amadureceu: saímos de dez unicórnios (startups avaliadas em mais de US$ 1 bilhão) para os 23 atuais. Além disso, investimentos (nacionais e estrangeiros) em nossas startups saltaram de US$ 2,7 bilhões, em 2019, para o recorde de US$ 9,4 bilhões. Por fim, empresas como Nubank, Ebanx, Gympass, QuintoAndar e Loft tornaram-se pesos pesados do continente latinoamericano.
“Se a quantidade de investimentos e unicórnios aumentou, temos de acompanhar isso dando espaço para novos investidores e empreendedores que não existiam há três anos. Temos um olhar crítico ao ‘clube do bolinha’”, explica Iona
Abaixo, leia trechos da entrevista ao Estadão:
O que esperar da próxima edição do Brazil at Silicon Valley?
O evento tem o intuito de fomentar inovação e tecnologia no Brasil por meio dos melhores casos e das melhores mentes do planeta. O mundo da tecnologia é global, então queremos diminuir barreiras e levantar pontes. Vamos trazer nomes de altíssima excelência interessados de alguma forma no Brasil, como Kevin Efrusy, da Accel, e Hans Tung, da GGV. Queremos oxigenar nosso grupo de pessoas convidadas, trazendo mais diversidade, de olho nos novos investidores que já nasceram com muitos acertos. Esse pessoal merece estar no Brazil at Silicon Valley, porque eles fomentam os cheques-semente, nos quais fundos de primeira classe não investem.
Iona Szkurnik é membro do conselho da Brazil at Silicon Valley, evento anual que reúne nos EUA empresários e ‘startupeiros’ brasileiros
O evento está de olho nos novatos do ecossistema do Brasil?
Temos um mandato de renovar a lista de convidados dos eventos. Vamos manter a maioria dos tomadores de decisões da outra vez, porque são as pessoas que têm a caneta para investimentos. Mas tem uma parcela que temos obrigação de abrir lugar, como esses investidores de segunda ordem. Sem eles, não teríamos esse celeiro de startups e unicórnios, porque são quem faz o primeiro cheque institucional nessas empresas.
O que muda diante das edições passadas?
Hoje, o ecossistema do Brasil está muito mais maduro do que há 3 anos. E estamos acompanhando essa maturidade. Se a quantidade de investimentos e unicórnios aumentou, temos de acompanhar isso dando espaço para novos investidores e empreendedores que não existiam há 3 anos. Temos um olhar crítico ao “clube do bolinha”.
Como fugir desse “clube do bolinha”, quando só há fundadores de startups que são homens e brancos?
Sendo intencional. Ter intenção é importante. Se o presidente é homem, temos que abrir espaço para outras pessoas falarem. Temos que sair da nossa zona de conforto. Do contrário, não vai cair no nosso colo uma realidade diferente.
Falando de pandemia, o cenário mudou muito. O setor de tecnologia está muito fortalecido. O que a crise trouxe para a inovação do Brasil?
O homo sapiens se adapta. Muitos preconceitos caíram por terra. Passamos a fazer coisas que não fazíamos antes, porque tivemos de nos adaptar por obrigação. A pandemia chegou de repente e isso aqueceu o ecossistema em todas as verticais. Por exemplo, parece que o ensino à distância e a telemedicina sempre existiram. A tecnologia foi nosso remédio durante a pandemia.
O Brasil era conhecido por ser “país das fintechs”, mas agora vemos startups de outros setores despontarem. Podemos ter excelência mundial além da inovação no setor financeiro?
Não tenho a menor dúvida. O brasileiro é muito criativo. Estamos acostumados a crises e somos muito interessados e abertos. São soft skills. Costumamos ir para o exterior, bebemos daquela água, voltamos e trocamos entre a gente. O que não falta são coisas para melhorar por aqui.
O que os estrangeiros pensam do País?
O Brasil é muito bem-visto por conta desses motivos que citei. E há a mudança da política de investimentos estrangeiros da China, que é uma tendência de fechar a economia. Os dólares agora procuram outro lugar para ficar e o Brasil é um dos países mais olhados pelos fundos de investimento, ainda mais considerando que a Rússia deixou de ser uma opção (desde a guerra na Ucrânia). A Índia é muito complexa e tem proximidade com investidores da Ásia e do Oriente Médio. Nesse cenário, o Brasil acaba sobrando. E esse amadurecimento do ecossistema dá certa confiança.
Para fomentar a inovação e o empreendedorismo, o que falta ao Brasil?
Faltam políticas amigáveis para os negócios. Por exemplo, nosso sistema tributário assusta investidores. Se a gente não consegue entender, imagine para alguém de fora. Os políticos não fazem boa gestão das contas públicas e não são eficazes na aplicação das leis. Isso é algo muito nocivo para o Brasil: a falta de políticas de incentivos ao empreendedorismo. E a falta de clareza das políticas. As que existem são complicadas e nós precisávamos de outras mais incentivadoras.
Isso espanta os estrangeiros, com esse custo-Brasil?
Espanta os que não são determinados, aquele que acabou de começar e que não tem margem de erro, portanto não arrisca o Brasil. Aí é difícil não cair no clichê de que o Brasil não é para iniciantes. Porque os bons vêm para cá e fazem muito dinheiro.
Se você tiver interesse e ainda não estiver inscrito para receber diariamente as postagens de O Novo Normal, basta clicar no link: https://chat.whatsapp.com/KDxyGtiRel41XOZDxvZZkI (12) para WhatsApp ou https://t.me/joinchat/SS-ZohzFUUv10nopMVTs-w para Telegram. Este é um grupo restrito para postagens diárias de Evandro Milet. Além dos artigos neste blog, outros artigos de Evandro Milet com outras temáticas, publicados nos fins de semana em A Gazeta, encontram-se em http://evandromilet.com.br/
A população mais velha é que sente o peso claro da desumanização nas relações com os bancos
Luiz Felipe Pondé – Folha – 27.mar.2022 às 14h00
Sei que muitas empresas instituíram departamentos de diversidade. Parabéns. Sem dúvida, para grupos que têm estado fora da cadeia produtiva e de incentivos de carreira é uma boa. Alguns consideram esse fato um indício de humanização nas relações corporativas. Não creio. O que há é uma interação entre políticas de branding e ampliação no aproveitamento da população jovem antes excluída.
Não creio que ocorra hoje um processo de humanização nas relações comerciais ou corporativas. Pelo contrário, acho que está em curso uma nova onda de desumanização radical.
No campo das relações com o consumidor, a desumanização salta aos olhos. Banking é o campeão da desumanização na relação com seus clientes. Interessante notar que o uso de uma expressão em inglês como “banking” para as relações entre os bancos e os clientes —além do tom brega de tudo que opta por termos em inglês para ficar melhor no ranço do marketing e do branding— aponta para uma desumanização gourmetizada.
Falar em banking é como se sua relação com o banco tivesse entrado numa nova era de luz, felicidade e realizações. Basta ver a dimensão solar dos comerciais de banking. O mundo nunca foi tão lindo. Meninos, meninas e menines jovens brilham sob a luz do futuro que emana dos aplicativos dos bancos nos seus celulares. Tudo funciona e todo mundo é feliz. Atendimento 36 horas por dia.
Houve de fato uma disrupção, como gostam de dizer no mundo corporativo, nas relações entre bancos e clientes. Fruto da digitalização radical dos bancos, essa disrupção transformou o cliente num elemento indesejável no cotidiano dos bancos. Um pouco como os alunos já são no cotidiano do sistema de educação: um elemento indesejável, ainda que necessário, na burocracia do MEC, da Capes e do mercado.
No caso do banking há um corte geracional significativo no processo de desumanização em curso. Os mais jovens, acostumados ao mundo digital e aos maus-tratos deste, travestidos de revolução tecnológica colorida, não sabem como era quando falávamos com seres humanos. Não gostam dessa atividade de conversar quando estão fazendo uso do setor de serviços —preferem algoritmos e mensagens.
O banking para eles é normal: não ter ninguém para falar é o melhor dos mundos possível. E se o aplicativo dá pau, tudo bem, esse é o “novo normal” —expressão idiota.
A população mais velha é que sente o peso claro da desumanização nas relações com os bancos. Gerentes que na verdade não existem, aplicativos pouco friendly para quem tem mais de dez anos de idade. A cada dia quatro novas senhas são necessárias, e se você precisar falar com alguém, uma IA meio burra lhe atenderá mal. E caso, enfim, você chegue a um humano, ele não será muito melhor do que a IA meio burra. A pessoa repetirá frases e protocolos e reenviará você para algum aplicativo a mais.
Mas tudo bem, porque além do fato de esse mal-estar não passar de chilique de gente velha, logo morrerão, o banking seguirá seu glorioso curso de rupturas tecnológicas coloridas.
Um dos maiores argumentos usados pelo banking para saturar as relações com distanciamento, indiferença e ferramentas digitais desumanizadoras é a falsa afirmação de que tudo isso é para segurança dos clientes. Mas, como tudo hoje na comunicação corporativa, esse argumento é falacioso. Uma mentira. Por quê?
Simplesmente porque os mecanismos digitais de travamento dos processos estão a serviço dos próprios bancos e suas seguradoras que valem bilhões de dólares. Os bancos, e suas seguradoras, sim querem se proteger dos riscos que são os clientes e da possibilidade de ter que ressarci-los em caso de sinistros.
A comunicação dos bancos hoje é o maior exemplo das mentiras comportamentais que o capitalismo lança mão no seu momento mais glorioso, em que tudo, mesmo a esquerda, mama em suas tetas.
Mesmo que serviços de atendimento ao consumidor existam, todos eles são uma caricatura da realidade.
Não servem para nada. A desumanização no importante setor de serviços é um sinal do futuro que nos espera. Só idiotas de mercado não veem isso.
Se você tiver interesse e ainda não estiver inscrito para receber diariamente as postagens de O Novo Normal, basta clicar no link: https://chat.whatsapp.com/KDxyGtiRel41XOZDxvZZkI (12) para WhatsApp ou https://t.me/joinchat/SS-ZohzFUUv10nopMVTs-w para Telegram. Este é um grupo restrito para postagens diárias de Evandro Milet. Além dos artigos neste blog, outros artigos de Evandro Milet com outras temáticas, publicados nos fins de semana em A Gazeta, encontram-se em http://evandromilet.com.br/
Especialistas afirmam que permitir aos funcionários ter horários flexíveis traz benefícios como uma mão de obra mais saudável, produtiva, criativa e leal
Emily Laber-Warren, The New York Times/Estadão 27 de março de 2022
Trinta por cento dos trabalhadores em todo o mundo entrevistados para uma pesquisa no ano passado disseram que considerariam procurar um novo trabalho caso o atual emprego exigisse que eles voltassem para o escritório em tempo integral. Os millennials estão especialmente relutantes. Em resposta à pandemia de covid-19, PepsiCo, Meta e General Motors, além de outras empresas, incorporaram o trabalho remoto em suas culturas corporativas.
Porém, em um local de trabalho flexível de verdade, as pessoas controlariam não apenas onde trabalham, mas também quando. A Southwest Airlines permite que os pilotos escolham voar no período da manhã ou da noite. Algumas empresas de tecnologia, entre elas a Automattic e a DuckDuckGo, têm políticas que não exigem um horário fixo e permitem aos funcionários se tornar nômades e viajar pelo mundo ou simplesmente realizar tarefas durante a semana. Mas essas oportunidades continuam raras.
“Acho realmente uma pena que mais empresas não tirem proveito disso”, afirmou Azad Abbasi-Ruby, analista sênior de pesquisa de mercado da DuckDuckGo. “Conseguimos fazer muita coisa, e acho que boa parte disso tem a ver com essa flexibilidade, deixar as pessoas trabalharem quando são mais produtivas.”
Horário flexível é uma palavra que está na moda nos manuais de funcionários, mas, na prática, ele não é muito utilizado. Embora alguns trabalhos dependam realmente de um horário fixo (professores precisam estar na escola pela manhã), muitos não têm essa necessidade. Segundo os especialistas, se mais empregadores adotassem de verdade os horários flexíveis e permitissem que os empregados trabalhassem quando é melhor para eles, os benefícios seriam uma mão de obra mais saudável, produtiva, criativa e leal.
Existem inúmeras razões para os trabalhadores talvez quererem ter mais controle sobre quando trabalham. As pessoas podem viver em um fuso horário e trabalhar em outro, por exemplo. Analistas financeiros em Seattle ou em Los Angeles talvez não queiram iniciar o expediente às 6h30 da manhã para coincidir com a abertura da Bolsa de Valores de Nova York.
Expediente das 9h às 17h nas empresas pode significar deixar muitos de nós fora de sincronia, já que para mais da metade dos adultos a hora de dormir biológica é após a meia-noite. Foto: Daniel Teixeira/Estadão
Ou talvez tenham questões em sua vida pessoal, como a responsabilidade de cuidar de alguém com uma deficiência ou de outra pessoa que requer atenção durante o horário padrão de expediente. Cerca de 700 mil pais de crianças pequenas pediram demissão de seus empregos nos Estados Unidos em 2020, muitos deles porque seus filhos de repente começaram a estudar de casa.
Pesquisas do Centro de Pesquisas Pew indicam que, mesmo antes da pandemia, muitas mães, de modo especial, sentiam que os choques de horários entre os compromissos de trabalho e os afazeres do cuidado com a família prejudicavam suas carreiras.
Nossos corpos também se beneficiariam com uma flexibilidade maior. Cada um de nós tem um ritmo personalizado conhecido como cronotipo – um relógio interno que controla quando adormecemos naturalmente e quando estamos mais alertas. Para mais da metade dos adultos, a hora de dormir biológica é após a meia-noite, o que significa que um expediente típico das 9h às 17h deixa muitos de nós fora de sincronia com nosso ritmo.
Nosso padrão de conduta “Deus ajuda a quem cedo madruga” costuma ser aplicado para funcionários de escritório que poderiam fazer seu trabalho com a mesma eficiência seguindo seu próprio ritmo. Um estudo de 2014 descobriu que os supervisores madrugadores veem os funcionários que chegam mais tarde como menos cuidadosos, independentemente de seu desempenho no emprego. Outras pesquisas mostram que os trabalhadores são mais criativos e os líderes mais carismáticos quando não sofrem de privação de sono e quando seus horários de trabalho e sono biológicos estão alinhados.
Adaptação rápida na pandemia
Grandes mudanças recentes durante a pandemia poderiam abrir portas para novos tipos de flexibilidade no trabalho, de acordo com Alex Soojung-Kim Pang, analista de tecnologia e autor dos livros Trabalhe menos, ganhe igual: Como a redução da jornada de trabalho pode revolucionar sua vida e sua empresa e Descansar: a razão pela qual conseguimos fazer mais quando trabalhamos menos.
“Entrevistei donos de empresas que me disseram: “Em fevereiro de 2020, trabalhar de casa era a causa pela qual eu lutava. Mas eu tinha certeza de que minha empresa não conseguiria fazer isso nunca. No entanto, meus funcionários provaram como eu estava errado em três semanas”, ele me disse. “O que isso nos diz é que não há nenhuma premissa em relação a como trabalhamos que não deva ser questionada.”
Pang sugeriu que os empregadores deveriam pensar menos no tempo gasto trabalhando e mais na qualidade do trabalho realizado. Ele identificou cerca de 130 empregadores, entre eles o Kickstarter e o governo da Islândia, que adotaram a semana de trabalho de quatro dias e expediente reduzido sem cortar salários ou sacrificar a produtividade. “A pessoa mais impressionante, mais profissional, não é aquela que precisa de 80 horas por semana para terminar o trabalho”, disse. “É aquela que consegue terminar em 30 horas.”
Com a flexibilidade de horários, os trabalhadores poderiam dedicar seu período do dia com mais energia – normalmente as manhãs para madrugadores e as tardes ou noites para pessoas notívagas – as suas tarefas que exigem mais trabalho intelectual. As pessoas poderiam assistir aos eventos esportivos de seus filhos ou preparar o almoço para um pai doente. Funcionários com doenças crônicas poderiam se ausentar por uma ou duas horas para cuidar de uma crise leve sem precisar se afastar do trabalho durante um dia inteiro.
Dawna Ballard, professora da Universidade do Texas, em Austin, que pesquisa sobre o equilíbrio entre a vida pessoal e profissional, tem uma história que gosta de contar para demonstrar a importância de deixar as pessoas fazerem seus próprios horários de trabalho. Vários anos atrás, sua família ficou viciada nos deliciosos ovos com gemas de laranja brilhante de galinhas criadas com acesso a pasto e não confinadas, que eram vendidos em um supermercado da cidade. Mas, um dia, eles foram ao local e não havia ovos porque, segundo lhe disseram, as galinhas estavam mudando de penugem.
Periodicamente, as galinhas perdem suas penas e elas crescem outras vez, um processo tão exigente do ponto de vista fisiológico, que muitas deixam de botar ovos enquanto ele não acaba. As fazendas industriais aceleram esse processo por meio da fome, mas ali havia evidências sugerindo que, quando permitidas a seguir seu ciclo natural, as galinhas podem produzir ovos excepcionais.
Dawna viu de cara uma analogia com as pessoas. Embora muitas vezes forçados a rotinas rígidas e padronizadas, somos seres vivos cuja produtividade tem altos e baixos não apenas ao longo de um único dia, mas, também, quando semanas de trabalho intenso criam a necessidade de recarregar as baterias.
Para Dawna e outros especialistas, alguns ajustes simples na rotina de trabalho da empresa fariam uma grande diferença. Cancele todas as reuniões, exceto as indispensáveis. Não espere que aqueles no regime de trabalho remoto estejam sempre disponíveis ou use softwares invasivos para mantê-los focados em uma tarefa. Concentre-se nos resultados e se acostume com aqueles que começam a trabalhar mais tarde. Para promover a colaboração entre os funcionários que trabalham em horários diferentes, as empresas podem definir uma janela de expediente comum limitada.
“As galinhas têm um ritmo que gostariam de seguir. Na verdade, todos temos isso”, disse Dawna. “Todos os dias, todos os minutos não podem ser iguais.” Ela disse que isso talvez funcione com máquinas, mas, “não é assim que funcionamos. Nós quebramos.” /TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA
Se você tiver interesse e ainda não estiver inscrito para receber diariamente as postagens de O Novo Normal, basta clicar no link: https://chat.whatsapp.com/KDxyGtiRel41XOZDxvZZkI (12) para WhatsApp ou https://t.me/joinchat/SS-ZohzFUUv10nopMVTs-w para Telegram. Este é um grupo restrito para postagens diárias de Evandro Milet. Além dos artigos neste blog, outros artigos de Evandro Milet com outras temáticas, publicados nos fins de semana em A Gazeta, encontram-se em http://evandromilet.com.br/
Para Luiz Augusto Barroso, conflito no leste europeu deve acelerar o desenvolvimento de tecnologias para substituir o uso do gás natural
Renée Pereira, O Estado de S.Paulo 26 de março de 2022
O diretor-presidente da consultoria especializada em energia PSR, Luiz Augusto Barroso, acredita que a guerra entre Rússia e Ucrânia vai acelerar o desenvolvimento de tecnologias para substituir o uso do gás natural. E uma de suas principais apostas é o hidrogênio verde. Mas ele também acredita que uma das mudanças para a transição energética resultante da guerra será a maior aceitação da energia nuclear.
A seguir, trechos da entrevista.
Luiz Augusto Barroso; ‘um preço do petróleo alto deixa algumas tecnologias verdes mais competitivas’, afirma Barroso. Foto: PSR – 4/6/2019
Qual o efeito da guerra no processo de transição energética?
A Europa já era um dos continentes mais avançados na transição energética antes de a guerra começar. Esse processo pode se acelerar ainda mais, já que o imperativo geopolítico está alinhado e o ambiente atual pressiona ainda mais a redução da dependência dos combustíveis fósseis. Isso pode dar um impulso ao desenvolvimento de novas tecnologias necessárias para substituir alguns usos do gás natural na Europa, como o hidrogênio. Há poucos dias a Comissão Europeia apresentou uma meta de importar 10 milhões de toneladas de hidrogênio em 2030. Antes da guerra, a Rússia se apresentava como um dos principais exportadores do produto para a Europa, aproveitando a proximidade geográfica e a infraestrutura física existente de gás. Agora, a Rússia fica fora do que deve se tornar o principal mercado importador de hidrogênio.
Mas alguns países já falam em reativar usinas a carvão e nucleares. Isso significa um retrocesso?
Na Europa, a reativação das usinas a carvão é uma decisão pragmática, mirando o curto prazo, num contexto de crise de energia elétrica. Por enquanto, isso não afetou os planos de redução do uso de carvão a médio e longo prazo, o que seria, sim, um retrocesso justificado apenas pela necessidade de independência energética. O caso da nuclear é diferente: é uma tecnologia praticamente sem emissões de gases de efeito estufa, que é social e politicamente aceita em alguns países, mas não em outros. Seu problema é basicamente econômico. A curto prazo, postergar o descomissionamento (retirada) das nucleares em alguns países, como a Alemanha, seria também uma decisão pragmática para reduzir a dependência do gás russo. Mas, até agora, apenas a Bélgica tomou uma decisão neste sentido. Talvez uma das grandes mudanças para a transição energética resultantes dessa guerra será a maior aceitação da energia nuclear.
Qual a sua aposta em termos de novas tecnologias?
Um preço do petróleo alto deixa algumas tecnologias verdes mais competitivas. Por exemplo, quem dirige carro elétrico está menos exposto ao preço do petróleo, o que pode acelerar a entrada da mobilidade elétrica e a implantação da infraestrutura necessária. Em outros casos, onde as tecnologias não estão maduras ainda, um preço do petróleo mais alto pode acelerar o desenvolvimento e a demonstração de novas tecnologias, como o uso de combustíveis sintéticos para a aviação ou transporte marítimo. O negócio do hidrogênio como commodity de exportação ficou mais concreto. E, nesse contexto, o hidrogênio verde pode ganhar espaço. É também razoável apostar em um renascimento das nucleares e uma aceleração em tecnologias de captura e sequestro de carbono. O cenário atual também traz a importância das ações pelo lado da demanda, abrindo uma oportunidade para organizar a agenda da eficiência energética, onde há espaço para muito ganho no comércio e indústria. Devemos ter ações de transformação da forma como se consome a energia, desde a adoção da eletrificação até o estímulo pelo uso de outros energéticos. De nada adianta termos oferta de hidrogênio e eletricidade abundante, se a maior parte da demanda não funcionar a hidrogênio e eletricidade.
Como fica o Brasil nesse processo?
O Brasil tem uma posição privilegiada nesse processo. Apesar de importar GNL (Gás Natural Liquefeito), que deve ficar mais caro, o País exporta petróleo e pode se beneficiar da alta conjuntural dos preços. O Brasil tem a matriz de geração elétrica com mais renováveis entre as grandes economias mundiais, e o segundo maior uso de renováveis no transporte, vantagens estratégicas que o País pode aproveitar. As fontes limpas de produção de eletricidade já são as mais econômicas. O aumento da ambição nessa área faz sentido, trazendo novamente as hidrelétricas com reservatórios para o planejamento. A aceleração da transição europeia, que vai requerer combustíveis limpos importados, abre oportunidades para o Brasil exportar produtos energéticos e industriais verdes. A meta de importação de hidrogênio da Europa cria grandes oportunidades para o Brasil com o hidrogênio verde, quando o combustível entrar na equação. O valor do hidrogênio para o País pode ser alavancado pela produção de fertilizantes a partir da amônia.
Como a alta de preços de energia vem afetando os ambientes de mercado?
Na Europa o aumento dos preços de eletricidade e gás já vinha ocorrendo antes da guerra. Todos os governos buscaram maneiras de proteger, pelo menos em partes, os consumidores do repasse dos aumentos. Foram criadas operações de financiamento de aumentos tarifários muito parecidas com as que o Brasil fez na pandemia e na crise hídrica. A guerra na Ucrânia trouxe uma nova e maior escalada de preços e que pode se estender por mais de um ano. A Comissão Europeia discute interferir, em caráter emergencial, nos mercados de energia elétrica e gás. Várias são as medidas discutidas como subsídios para alívio nas contas de energia/gás e parcelamentos/postergação de prazos para pagar as faturas. Para financiar esses auxílios, estão na mesa propostas de uma taxa sobre lucros excessivos (“windfall profits”) de empresas do setor de energia, especialmente grupos com geração de energia, além do uso de fundos governamentais, como os obtidos com a taxação do carbono. Outra medida vislumbrada pela Comissão, e que tem ganhado apoio, é a adoção de preços-teto para o gás e para a geração de energia elétrica neste contexto de guerra.
Se você tiver interesse e ainda não estiver inscrito para receber diariamente as postagens de O Novo Normal, basta clicar no link: https://chat.whatsapp.com/KDxyGtiRel41XOZDxvZZkI (12) para WhatsApp ou https://t.me/joinchat/SS-ZohzFUUv10nopMVTs-w para Telegram. Este é um grupo restrito para postagens diárias de Evandro Milet. Além dos artigos neste blog, outros artigos de Evandro Milet com outras temáticas, publicados nos fins de semana em A Gazeta, encontram-se em http://evandromilet.com.br/
Executivo disse enxergar, como consequência do conflito, um movimento em que “companhias e governos estarão reavaliando suas dependências [de outros países] e reanalisando a manufatura e as plantas de fabricação”
Por Sérgio Tauhata, Valor – 24/03/2022
“A invasão da Ucrânia pela Rússia colocou um fim na globalização que experimentamos nas últimas três décadas”, afirmou o CEO da BlackRock, Larry Fink em sua tradicional carta anual aos acionistas. No documento divulgado hoje, o executivo da maior gestora do mundo em ativos, com US$ 10 trilhões sob o guarda-chuva, disse enxergar, como consequência do conflito, um movimento em que “companhias e governos estarão reavaliando suas dependências [de outros países] e reanalisando a manufatura e as plantas de fabricação — algo que a covid já estava levando muitos a começar a fazer”.
Fink apontou ainda que esse cenário pode levar as companhias a trazer a maior parte de suas operações para os próprios países ou muito perto, “resultando em uma rápida reversão para alguns países”. No entanto, o CEO da BlackRock indica que algumas regiões podem até se beneficiar desse movimento e cita o Brasil dentro desse grupo. “Outros, como México, Brasil e Estados Unidos ou os ‘hubs’ manufatureiros no sudeste da Ásia, podem se beneficiar”.
Para Fink, “essa dissociação vai, inevitavelmente, criar desafios para as companhias, incluindo custo mais elevado e pressões sobre as margens”. Uma reorientação em larga escala das cadeias de suprimentos, continuou o executivo, “será inerentemente inflacionária”.
De acordo com o executivo, após o fim da guerra fria no início dos anos 1990, “o mundo se beneficiou dos dividendos de uma paz global e da expansão da globalização”. Conforme Fink, “foram tendências poderosas que aceleraram o comércio internacional, expandiram o mercado de capitais global, elevaram o crescimento econômico e ajudaram a reduzir a pobreza em nações ao redor do globo”.
O CEO da BackRock reafirmou permanecer “um apoiador de longo prazo dos benefícios da globalização e do poder do mercado de capitais global”. Para o gestor, “o acesso ao capital global permite às companhias financiar o crescimento, aos países se desenvolver economicamente e a mais pessoas experimentarem um bem-estar financeiro”. A guerra, no entanto, pôs em cheque os avanços desse sistema, na medida em que, vai impulsionar uma reorientação das cadeias de suprimentos e fazer governos reavaliarem suas relações de dependência com outras nações.
O CEO da BlackRock também chamou a atenção para o dilema dos bancos centrais, exacerbado pela tensão geopolítica. “Os BCs estão ponderando difíceis decisões sobre o quão rápido elevar as taxas. Eles enfrentam um dilema que não tinham há décadas, que piorou pelo conflito geopolítico e como resultado dos choques de energia. Os bancos centrais devem escolher se vamos viver com uma inflação mais alta ou se vão desacelerar a atividade econômica e emprego para derrubar a inflação mais rapidamente.”
Um trecho da carta de Fink traz ainda uma análise sobre os impactos do conflito sobre os ativos digitais e sinaliza um potencial impacto de aceleração das moedas virtuais. “A guerra vai levar os países a reavaliar sua dependência cambial. Mesmo antes da guerra, vários governos estavam buscando ter um papel mais ativo nas moedas digitais e definir matrizes regulatórias sob a qual essas moedas vão operar.
O BC americano, por exemplo, lançou recentemente um estudo para examinar as potenciais implicações do dólar digital. Um sistema digital global de pagamentos pode consolidar uma melhora nas transações internacionais, enquanto reduz o risco de lavagem de dinheiro e corrupção. As moedas digitais também podem ajudar a baixar os custos de pagamentos transfronteiriços, por exemplo, quando profissionais expatriados enviam recursos para suas famílias”.
Se você tiver interesse e ainda não estiver inscrito para receber diariamente as postagens de O Novo Normal, basta clicar no link: https://chat.whatsapp.com/KDxyGtiRel41XOZDxvZZkI (12) para WhatsApp ou https://t.me/joinchat/SS-ZohzFUUv10nopMVTs-w para Telegram. Este é um grupo restrito para postagens diárias de Evandro Milet. Além dos artigos neste blog, outros artigos de Evandro Milet com outras temáticas, publicados nos fins de semana em A Gazeta, encontram-se em http://evandromilet.com.br/
O assunto é antigo, mas o problema ainda persiste. A grande dificuldade de empresas brasileiras em recrutar profissionais de tecnologia de alto nível só piora. De acordo com um levantamento da Robert Ralph, 63% dos CIOs (Chief Information Officer) têm dificuldade em encontrar profissionais de TI de alto nível, e 49% estão muito preocupados com a capacidade da empresa em reter profissionais de TI.
E os números não mentem: o Brasil é o 10º maior mercado do mundo no setor, e a transformação digital acelerou o déficit de profissionais de tecnologia. Atualmente, o país tem o maior déficit de profissionais de TI do mundo, com 408 mil vagas que precisam ser ocupadas imediatamente.
Tantas discussões atribuem o problema ao assédio de empresas internacionais que recrutam profissionais com salários atraentes atrelados à possibilidade de trabalhar remotamente. No entanto, o problema não é tão simples assim.
“Não dá para descartar a possibilidade de que receber cinco vezes o que o mercado brasileiro paga é tentador. Estamos em uma fase de ascensão de muitas empresas de tecnologia. Se o salário fosse o único problema, já teria sido resolvido”, afirma Pedro Luiz Pezoa, CEO da Pointer, HR Tech especializada em contratação de profissionais de tecnologia de alto nível.
O executivo alerta que o problema tem diversas camadas além do salário — o trabalho remoto, por exemplo é um grande fator decisório para o profissional migrar para o mercado gringo. A pandemia intensificou o modelo já muito usado por empresas de tecnologia, e quem adota o anywhere office já sai na frente para reter os melhores talentos do mercado.
Ainda de acordo com a Robert Half, 76% dos profissionais vêem o trabalho à distância como um modelo de operação e não como um benefício. Além disso, 38% afirmam estar dispostos a procurar um novo emprego caso a empresa na qual trabalham não esteja disposta a permitir, ao menos de forma parcial, o trabalho remoto.
Outro gargalo encontrado no setor são os modelos de recrutamento, que são longos e contraproducentes. “O profissional de tecnologia, que está em um mercado borbulhando, não vai querer participar de um processo seletivo demorado, com provas densas, complexas e entrevistas com diversos gestores”, diz Pezoa.
Dessa forma, a Pointer vem tentando mudar este cenário de recrutamento de profissionais de tecnologia, tornando o processo mais rápido e com qualidade.
Para o executivo, para resolver o problema, a primeira fase do processo seletivo não deve passar de sete dias. “É dentro deste prazo que encontramos quatro profissionais de alto nível para que os decisores concluam o processo. Além disso, alinhados com o desejo dos profissionais fora da curva, trabalhamos apenas com vagas remotas, pois percebemos que não há negociação quando o assunto é voltar para o escritório”, afirma.
A Pointer começou a operar no ano passado e já coleciona grandes players do mercado de inovação em seu portfólio: iFood, Tok&Stok, Cora, Jusbrasil, Rede ampm, bxblue, Pipefy, Gama Academy, Eureka, Pier Seguros e Promobit buscaram ajuda na RH Tech para recrutar pessoal de alta performance e agilizar o crescimento das empresas.
A startup já possui clientes internacionais que apostam no modelo de recrutamento assertivo, sinal de que o mercado norte-americano continua de olho nos profissionais brasileiros – a plataforma de ensino novaiorquina Branching Minds e a startup de aluguel de trailers Rvezy contaram com apoio da Pointer para recrutar profissionais de tecnologia.
Déficit
O mercado de startups, especialmente, sente o déficit com mais intensidade: após rodadas de investimento — principalmente aquelas que entram após a aprovação do pitch —, o crescimento precisa ser acelerado. Para isso, é preciso reter um time que faça isso acontecer.
É nesse momento que a agilidade no processo faz toda a diferença: além de não ser uma “perda de tempo” para o candidato e para a empresa, entregar um colaborador de excelência em pouco tempo é fundamental para o desenvolvimento da startup, que precisa ser exponencial aos olhos dos investidores.
De acordo com Amure Pinho, fundador do Investidores.vc, no momento de receber um aporte, uma startup apresentar um time comprometido, ágil e fora da curva é um fator importante na avaliação dos investidores.
“Ter um bom time, com habilidades e a expertise necessária para o negócio é fundamental aos olhos de investidores, e isso inclui ter profissionais de tecnologia no time”, declara Pinho.
A primeira marmoraria online do Brasil tem sentido isso na pele. A Nanoprice, startup que nasceu com o propósito de conectar arquitetos, decoradores, construtores e clientes finais, com marmorarias, vive a dificuldade em encontrar desenvolvedores e programadores.
“Quem está em fase de crescimento não consegue avançar com rapidez e competir com grandes empresas quando não possui um quadro de colaboradores completo e eficiente. O desafio, então, é reter um bom time de forma rápida para que consigamos avançar com projetos e não sobrecarregar a equipe atual”, diz Gustavo Belizário, CEO da startup.
Como resolver?
Para muitos executivos, a resposta do problema está na qualidade dos profissionais. 70% dos executivos entrevistados na pesquisa afirmaram que neste ano terão mais dificuldade para encontrar talentos no mercado e 49% deles temem perder seus profissionais de destaque.
Em 2020, já notando sinais de que esse apagão tecnológico ainda seria um problema por um bom tempo, a Sambatech, edtech que leva conhecimento a todos os cantos do país, criou a Samba Digital, unidade de negócios focada em transformação digital e que tem como objetivo ajudar outras empresas a transformar seus negócios por meio da inovação.
“Nosso foco principal é proporcionar mais agilidade e gerar resultados qualificados para os nossos clientes. Para isso, disponibilizamos times de desenvolvimento altamente capacitados que podem ser alocados em empresas de qualquer segmento de atuação, para que consigam resolver questões pontuais e que necessitam de rapidez e muito conhecimento tecnológico”, diz Mateus Magno, Co-CEO da companhia.
Nadando contra a corrente de empresas que já querem profissionais prontos, a Group Software, empresa especializada em sistemas de gestão para condomínios, shoppings e imobiliárias, tem solucionado o superaquecimento do mercado de TI com treinamento interno. Com o projeto Dev Academy, a organização contrata profissionais juniores e trabalha a evolução deles dentro de casa.
Segundo Erika Parreiras, analista de Gente e Gestão da empresa, procurar por quem ainda não é sênior reduz drasticamente o tempo de busca. Longos períodos com baixa na equipe prejudicam a produtividade do time e, em decorrência de alta sobrecarga, podem causar cancelamento de contrato com clientes e turnover com os colaboradores.
Além disso, para a analista, é missão da empresa educar o mercado e formar bons profissionais, fato que valoriza a cultura institucional e atrai trabalhadores engajados para as vagas, “pois percebem que na Group Software terão oportunidades de ascensão de cargo e um ambiente com constantes trocas de conhecimento”, diz.
Para Eduardo Menegatti, CEO da Vivalisto, primeira e maior plataforma de gestão transacional para compra e venda de imóveis, que facilita o trabalho das imobiliárias, clientes e corretores, o cenário tende a mudar somente a médio prazo, mas em uma perspectiva diferente do que o mercado tem dito.
“A solução do problema não está no aumento de profissionais treinados, o que já está acontecendo, mas em uma velocidade inferior à demanda. A tendência é a percepção de que os milhões investidos no desenvolvimento de tecnologia proprietária não trouxeram os resultados esperados”, afirma Menegatti.
Segundo ele, isso acontecerá quando surgirem cada vez mais ferramentas de desenvolvimento no code — aqueles que não demandam codificação e desenvolvimento interno. Dessa forma, as empresas poderão reduzir investimentos em tecnologia e terão soluções prontas em um prazo menor, com menos custo e mais eficiência.
Se você tiver interesse e ainda não estiver inscrito para receber diariamente as postagens de O Novo Normal, basta clicar no link: https://chat.whatsapp.com/KDxyGtiRel41XOZDxvZZkI (12) para WhatsApp ou https://t.me/joinchat/SS-ZohzFUUv10nopMVTs-w para Telegram. Este é um grupo restrito para postagens diárias de Evandro Milet. Além dos artigos neste blog, outros artigos de Evandro Milet com outras temáticas, publicados nos fins de semana em A Gazeta, encontram-se em http://evandromilet.com.br/
Enquanto o sinal do 5G é ativado mundo afora, a indústria de telecomunicações já começa a dar os primeiros passos nas pesquisas que abrirão as portas para a nova geração de internet móvel: o 6G. A expectativa é que essa nova tecnologia seja uma realidade no fim da década.
Cada geração de internet tem proporcionado mudanças na maneira como as pessoas (e as máquinas) se conectam. As eras do 2G e 3G deslancharam a comunicação móvel por voz e texto. Já o 4G será lembrado como a era do consumo massivo de dados, sem os quais não existiriam mapas de trânsito em tempo real, nem bancos digitais, por exemplo.
A chegada do 5G promete uma velocidade de tráfego de dados até 100 vezes maior à do 4G, associado a um tempo de resposta entre os dispositivos praticamente instantâneo. Isso será aplicado principalmente na automação de processos produtivos, o que interessa muito a setores como indústria, mineração, logística e agricultura, entre outros. Logo, logo será comum ver um caminhão sem motorista ou um drone pulverizando lavouras com precisão.
Estande da Nokia no MWC simula holograma gerado por sensores 6G/Foto: Diana Koll/Nokia
E o 6G? Por enquanto, o que existe é um rascunho. Mas as pesquisas apontam para uma integração ainda maior entre o mundo físico e digital, com experiências sensoriais dignas de filmes de ficção científica.
‘Gêmeo digital’
Empresas como Ericsson, Nokia e Huawei estão trabalhando para desenvolver redes com sensores capazes de “escanear” as características dos objetos – como a dimensão, a temperatura, a densidade e até sons e odores emitidos – e a partir daí gerar cópias fiéis em hologramas (o chamado “gêmeo digital”, no jargão dos pesquisadores).
“Eu poderia estar aqui conversando com uma projeção sua, sentada na cadeira bem na minha frente, independentemente de onde você esteja de verdade”, exemplificou o presidente da Ericsson para o Brasil, Rodrigo Dienstmann, em entrevista ao Broadcast. “Vai ser possível ver, tocar, ouvir e sentir o cheiro das pessoas, como se elas estivessem de verdade na minha frente”.
A multinacional sueca Ericsson é uma das líderes em patentes de 6G no mundo e fechou recentemente parceria com o Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), nos Estados Unidos, para pesquisas na área. A telepresença é justamente uma das potenciais aplicações do 6G que fazem parte dos estudos da companhia e que foram exibidos em seu estande na World Mobile Congress (MWC), maior feira de telecomunicações do mundo, na cidade de Barcelona. A previsão é que a telepresença sirva para reuniões de trabalho, tratamentos médicos, construção e manutenção de equipamentos e, claro, para matar a saudade de pessoas queridas que estão distantes.
A finlandesa Nokia também reservou um espaço importante de seu estande no MWC para esboçar casos de uso do 6G. Ali, um visitante pode experimentar um scanner que projeta seu corpo em um telão, simulando o tal do “gêmeo digital”. “Com o 6G, as antenas não vão só transmitir dados, mas também vão funcionar como sensores. A rede poderá ‘sentir’”, disse à reportagem o presidente da multinacional na América Latina, Osvaldo di Campli. “É algo que devemos esperar para em torno de 2030.”
Movimento global
Outras entidades também estão se movimentando ao redor do mundo. As empresas AT&T, Samsung, Qualcomm, Nvidia e InterDigital se uniram à Universidade do Texas para criar um centro de pesquisas em 6G. Há outro grupo nos Estados Unidos denominado “Next G Alliance” (Aliança do Próximo G), que está investigando como ativar essa futura infraestrutura de antenas e sensores dentro de níveis sustentáveis de consumo de energia.
A China, líder em cobertura 5G no mundo, também já colocou entre suas metas desenvolver a tecnologia 6G até 2025 e começar logo em seguida a implementação das novas redes.
A Huawei começou a investir em pesquisas sobre o 5G em 2009 para ativação da primeira rede em 2018. “Nos últimos 10 anos, foram mais de US$ 100 bilhões em investimentos em pesquisa”, afirmou o Head de Soluções e Cibersegurança da Huawei América Latina, Marcelo Motta. Cerca de 105 mil profissionais da multinacional chinesa (mais da metade do total) estão ligados à área de pesquisa e desenvolvimento, com boa parte do time já dedicado à nova geração de internet. “O 5G ainda tem muito espaço para se transformar em realidade. Já a chegada do 6G depende do sucesso do 5G, e se vai ser uma transformação completa ou uma continuidade natural.”
*O jornalista viajou ao Mobile World Congress (MWC) em Barcelona a convite da Huawei
Esta reportagem foi publicada no Broadcast no dia 03/03/22, às 11h39.
Se você tiver interesse e ainda não estiver inscrito para receber diariamente as postagens de O Novo Normal, basta clicar no link: https://chat.whatsapp.com/KDxyGtiRel41XOZDxvZZkI (12) para WhatsApp ou https://t.me/joinchat/SS-ZohzFUUv10nopMVTs-w para Telegram. Este é um grupo restrito para postagens diárias de Evandro Milet. Além dos artigos neste blog, outros artigos de Evandro Milet com outras temáticas, publicados nos fins de semana em A Gazeta, encontram-se em http://evandromilet.com.br/
Por Amy Qin e Amy Chang Chien NYT/Estadão 17/03/2022
Em Taiwan, a melodia clássica “Für Elise” é um apelo pavloviano a jogar seu lixo no caminhão de coleta e ficar por dentro das fofocas do bairro
THE NEW YORK TIMES – LIFE/STYLE -TAIPEI, Taiwan – O caminhão de lixo amarelo-canário roncou pela rua estreita, passando por lojas de chá de bolhas e prédios de apartamentos atarracados, soltando no ar frio da noite uma versão metálica de “Für Elise”, de Beethoven.
Para grande parte do mundo, a melodia clássica é a música (muito) onipresente das lições de piano dos jovens e dos brinquedos das crianças. Mas para os moradores de Taiwan, o jingle é um chamado à ação, o início de um ritual noturno, um sinal para amarrar as sacolas plásticas e descer: é hora da coleta de lixo.”Gosto de tirar o lixo porque é uma chance de conversar com meus amigos”, disse Kusmi, de 52 anos, que é da Indonésia e agora mora em Taipei, capital da ilha, onde trabalha como cuidadora de idosos.
Em Taiwan, a melodia clássica “Für Elise” é um apelo pavloviano a jogar seu lixo no caminhão de coleta e ficar por dentro das fofocas do bairro Foto: LAM YIK FEI
O caminhão de lixo amarelo – e um caminhão de reciclagem branco menor atrás dele – parou em frente a uma loja de conveniência bem iluminada em um bairro residencial de classe média no distrito de Xinyi, o centro financeiro de Taipei.
Uma equipe de coletores de lixo desceu e começou a colocar uma série de latas, incluindo recipientes separados para papel, plástico, vidro, metal, comida crua (para adubo) e comida cozida (para ração de porco).
Nos 20 minutos seguintes, o que havia sido uma cena de rua desanimada se transformou em algo semelhante a uma festa de bairro, enquanto moradores, velhos e jovens, convergiam para o caminhão de lixo de todas as direções. Eles vinham a pé, de bicicleta e de scooter, carregando o lixo já separado em carrinhos e sacolas plásticas.
Eles usavam jeans, uniformes de loja e calças de moletom. Alguns traziam seus animais de estimação.E sim, havia Crocs, aqueles sapatos universais para tirar o lixo. ”Às vezes, eu trago o lixo sozinho, às vezes saímos juntos”, disse Xiang Zhong, de 18 anos, um estudante do ensino médio que estava lá com um grupo de amigos. O cheiro vago de lixo inundou o ar. ”Acho que é um bom sistema”, disse Xiang.
“Isso ajuda a manter Taiwan limpa. ”Os sistemas de coleta de lixo variam em todo o mundo, mas nenhum lugar faz isso como Taiwan. Visite qualquer cidade ou vila rural e cinco dias por semana, faça chuva ou faça sol, você encontrará pessoas paradas na beira da estrada com sacolas ao lado, esperando os caminhões de lixo. Alguns passam o tempo olhando para seus telefones. Outros atualizam as fofocas.
Vizinhos conversam enquanto esperam pelo caminhão de lixo em Taipei, Taiwan. Foto: LAM YIK FEI
Todos estão com os ouvidos abertos para os primeiros compassos de “Für Elise” ou “Oração da virgem”, uma melodia fluente de piano da compositora polonesa do século XIX Tekla Bądarzewska-Baranowska, a outra música escolhida para os caminhões de lixo de Taiwan. Tudo isso faz parte de uma política de gestão de resíduos de décadas em Taiwan, segundo a qual “o lixo não pode tocar o chão”.
As autoridades insistem que forçar as pessoas a entregar o lixo em mãos nos caminhões – em vez de retirar seu lixo para uma coleta posterior ou jogá-lo em uma lixeira – foi essencial para a transformação de um lugar antes apelidado de “ilha do lixo” em uma sociedade limpa, em grande parte livre do lixo.
”Através desse sistema, podemos evitar o acúmulo de lixo e manter nosso meio ambiente limpo”, disse Yang Chou-mou, funcionário do departamento de proteção ambiental encarregado do trabalho de saneamento no distrito de Xinyi. Claro, ainda existem os tipos antissociais que só querem despejar seu lixo e ir embora. E alguns que moram em apartamentos de luxo têm a administração do prédio cuidando de seu lixo. As preocupações com o coronavírus também significam que as pessoas estão mais cautelosas em interagir nos horários de coleta.
Ainda assim, as pessoas disseram que apenas poder ver rostos familiares – mesmo que parcialmente obscurecidos por máscaras – tem sido uma fonte de consolo em um momento em que a pandemia deixou muitos se sentindo isolados. Vislumbres dessa humanidade foram exibidos em uma recente noite de inverno em Taipei.
Kusmi, a cuidadora, foi puxada de lado por uma amiga que lhe deu uma tupperware com espaguete e algumas laranjas. Em outro lugar, Lin Yu-wen, de 78 anos, se inclinou para ajudar sua vizinha e amiga de longa data, Yu Tzu-tsu, de 91 anos, a jogar fora uma pilha de jornais velhos.
”Somos aposentados, não temos nada para fazer o dia todo, então é bom sair e ver os amigos”, disse Lin, uma governanta aposentada. Lin e Yu têm idade suficiente para se lembrar dos dias em que as ruas de Taipei ficavam cheias de lixo e os aterros da ilha transbordavam. A situação tornou-se tão terrível e os moradores ficaram tão irritados que, a partir da década de 1990, o governo iniciou uma reforma na gestão de resíduos.
Em Taipei, os moradores foram obrigados a comprar sacos de lixo azuis emitidos pelo governo como parte de um sistema “Pay as You Throw”, criando efetivamente um imposto sobre a produção de lixo como um incentivo para jogar menos lixo fora.
Ao redor da cidade, mais de quatro mil pontos de coleta de lixo foram instalados e a maioria das lixeiras públicas foi removida para dificultar o despejo ilegal. Multas foram aplicadas aos que eram pegos jogando lixo.
As medidas funcionaram. Em 2017, Taiwan teve uma taxa de reciclagem doméstica de mais de 50%, perdendo apenas para a Alemanha, de acordo com a Eunomia, uma empresa de consultoria ambiental na Grã-Bretanha. Também está entre os líderes mundiais em menos resíduos produzidos por pessoa. O papel que os caminhões de lixo desempenharam no sucesso de Taiwan não deve ser ignorado, disse Nate Maynard, especialista em gestão de resíduos de Taiwan e apresentador do podcast “Waste Not, Why Not”.
”Isso força você a ficar cara a cara com sua própria produção de lixo”, disse Maynard. “Você tem que lidar com isso, carregá-lo, enquanto nos EUA e, em muitas outras partes do mundo, o lixo é algo que simplesmente desaparece.
”Permanece um mistério como “Für Elise” e “Oração da virgem” foram escolhidas. Alguns dizem que um oficial de saúde escolheu a música de Beethoven depois de ouvir sua filha tocando no piano. Outros dizem que os caminhões vieram pré-programados com as melodias.
Uma coisa é clara: os dois jingles tornaram-se parte integrante da trilha sonora de Taiwan, atraindo uma multidão de forma confiável da mesma forma que o jingle do Mister Softee faz em outros lugares. Quando a cidade de Tainan, no sul, se atreveu mudar tocando aulas de inglês nos alto-falantes, ninguém apareceu.
Huang Yan-wen, um coletor de lixo no distrito de Xinyi, ouviu “Für Elise” tocada em loop cinco dias por semana, quase todas as semanas do ano, nos últimos 25 anos. Ele insiste que não está cansado da música.
”Estou tão acostumado com ela”, Huang, de 55 anos, deu de ombros, enquanto se preparava para sair para suas rondas noturnas.Para outros, as músicas podem desencadear uma resposta quase pavloviana. Maynard, o especialista em resíduos, lembrou-se de caminhar em um parque em Londres há vários anos, quando ouviu “Oração da virgem” tocando em um carrossel. ”Fiquei ansioso”, disse Maynard, “e queria pegar meu saco de lixo”. /TRADUÇÃO LÍVIA BUELONI GONÇALVES
Se você tiver interesse e ainda não estiver inscrito para receber diariamente as postagens de O Novo Normal, basta clicar no link: https://chat.whatsapp.com/KDxyGtiRel41XOZDxvZZkI (12) para WhatsApp ou https://t.me/joinchat/SS-ZohzFUUv10nopMVTs-w para Telegram. Este é um grupo restrito para postagens diárias de Evandro Milet. Além dos artigos neste blog, outros artigos de Evandro Milet com outras temáticas, publicados nos fins de semana em A Gazeta, encontram-se em http://evandromilet.com.br/