Faltam talentos, qualificação e diversidade no setor de tecnologia

Startups acreditam que o brasileiro não desenvolve o número de profissionais seniores necessários para ocupar vagas


Redação Fast Company Brasil 14-06-2023 

Profissionais de tecnologia e startups têm encarado um cenário complexo nos últimos anos. A transformação digital e a adoção acelerada de novas tecnologias exigem qualificação e capacitação contínua. Ainda assim, em geral, os profissionais – estejam eles em formação ou já trabalhando – não conseguem acompanhar essa evolução. Assim, falta gente para ocupar esses espaços.

Nove em cada 10 startups concordam que faltam profissionais de tecnologia no Brasil, como mostra a pesquisa Panorama de Talentos em Tecnologia, feita pelo Google for Startups em conjunto com a Associação Brasileira de Startups (Abstartups) e a Box 1824. Foram ouvidas 250 dessas empresas, em levantamento qualitativo e quantitativo.

Fontes: Future of Work: The Global Talent Crunch, Spring, 2018/ Korn Ferry/ Demanda de Talentos em TIC e Estratégia/ Brasscom, 2021

“Um estudo realizado pela McKinsey, que considera a opinião das corporações, confirma isso: 87% das organizações de todo o mundo acreditam que, em poucos anos, o déficit no número de pessoas qualificadas para trabalhar com tecnologia e o de vagas a serem preenchidas vão gerar impacto negativo no setor de tecnologia”, afirma André Barrence, diretor do Google for Startups para a América Latina.

Fonte: Panorama de Talentos em Tecnologia 2023/ Google

A pesquisa revelou alguns dos desafios relacionados a essa aparente escassez, e que ela é uma questão de longo prazo. “Enfrentamos um problema estrutural na educação no Brasil que vai muito além da qualificação em tecnologia na graduação. Só é possível endereçar esse problema de maneira conjunta, entendendo que ações de médio e longo prazo são essenciais”, diz Barrence.

Entre as startups que participaram do estudo, 84% afirmaram que o mercado de tecnologia nacional não desenvolve o número de profissionais seniores necessários para ocupar vagas que exigem mais experiência.

Fonte: Panorama de Talentos em Tecnologia 2023/ Google

Em contrapartida, 55% dos potenciais talentos acham que existem poucas condições para estudar tecnologia e 46% das startups veem que esses profissionais têm dificuldade de conseguir o primeiro emprego em tecnologia, por isso buscam outras alternativas. As startups não se eximem da responsabilidade de tentar melhorar esse cenário.

“O relatório traz uma série de citações dos representantes das empresas que tratam de propostas de melhorias para o setor e o que tem sido feito para agir frente aos problemas que podem ser solucionados, como a busca por um quadro de profissionais mais diverso”, diz Barrence.

Fonte: Panorama de Talentos em Tecnologia 2023/ Google

Dentro do tema diversidade, o estudo indica ainda que as oportunidades para profissionais de tecnologia estão concentradas no Sudeste do país. 62% das vagas estão nesta região, sendo 43% delas apenas no estado de São Paulo. Além da barreira regional, há ainda os obstáculos de gênero e raça: 57% das startups enxergam o mercado de tecnologia atual como excludente para mulheres e 55% o veem como excludente para pessoas negras.

Mesmo o número de demissões em massa em diversas startups, incluindo nos times de tecnologia, parece não ter aumentado a disponibilidade de profissionais qualificados.

“O número de vagas disponíveis, já há algum tempo, é diretamente proporcional ao de pessoas desempregadas no país”, explica Barrence. “Isso sugere que, se tivéssemos profissionais com a qualificação necessária no setor, seria possível diminuir significativamente o desemprego.”

Outro grande desafio é da fuga de talentos, com os profissionais qualificados buscando e sendo alvos constantes de melhores ofertas, principalmente fora do país. 73% das startups concordam que existem condições mais atrativas para talentos em tecnologia lá fora e 60% dizem que a remuneração no mercado brasileiro não é competitiva quando comparada a mercados internacionais.

Fonte: Panorama de Talentos em Tecnologia 2023/ Google

Além disso, as startups, normalmente com estruturas mais enxutas, precisam de profissionais mais experientes e maduros, justamente os mais valiosos e disputados. “Essas empresas normalmente têm dificuldade de competir, seja em âmbito nacional ou internacional, por benefícios, salários e, além disso, têm maior dificuldade em construir marcas empregadoras”, explica o executivo.

Para tentar enfrentar esse panorama, o Google, em parceria com o Bettha.com, criou uma plataforma para aprimorar os conhecimentos de quem consegue os certificados profissionais do Google. A plataforma vai oferecer uma trilha de conteúdo de soft skills, acesso prioritário a vagas de emprego anunciadas pelo Grupo Cia. de Talentos, além de vagas ofertadas pelo próprio Bettha, pela Cia. de Talentos e pelo Instituto SerMais.


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Conteúdo produzido pela Redação da Fast Company Brasil.


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Santos-Dumont foi muito mais do que o ‘pai da aviação’: novas gerações precisam saber disso

Aviador cujo nascimento faz 150 anos em julho foi cientista, designer e atuava de maneira parecida à das startups de hoje

Por Luciana Garbin – Estadão – 14/06/2023 

Alberto Santos-Dumont (1873-1932) foi o brasileiro de maior prestígio internacional de sua época. Quando o País vivia apenas de agricultura, ele foi para Paris, a capital cultural da Belle Époque, e se destacou pela ciência. Hoje, num mundo cada vez mais tecnológico, poderia servir como uma inspiração valiosíssima para as novas gerações. Mas, em vez disso, vem sendo a cada dia mais esquecido.

Santos-Dumont durante testes com o 14-Bis

Santos-Dumont durante testes com o 14-Bis Foto: Itaú Cultural

Boa parte dos brasileiros o conhece como “o pai da aviação”, termo cunhado no Estado Novo que o tornou um herói distante e empoeirado. Mas ele foi muito mais do que isso. Cientista autodidata, Santos-Dumont não só provou que era possível decolar com o 14-Bis, um aparelho mais pesado que o ar – sem auxílio de catapulta ou trilho, como fizeram os irmãos Wright – como criou outros 20 projetos, incluindo balões, dirigíveis, helicóptero e a Demoiselle, sua obra-prima. Pioneiro do design, ditou moda com seus colarinhos altos, cabelo dividido ao meio, chapéu panamá amassado e o relógio de pulso encomendado ao amigo Louis Cartier.

Santos-Dumont ganhou prêmios importantes com seu trabalho, foi tema de milhares de reportagens, em jornais e revistas do mundo inteiro, conviveu com nobres, artistas e grandes inventores. Criador da lâmpada, Thomas Edison lhe deu uma foto com a dedicatória: “To Santos-Dumont, Pioneer of Aerial Navigation (Para Santos-Dumont, pioneiro da aeronavegação)”. Com Graham Bell, o inventor do telefone, jantou em 10 de janeiro de 1902. Um ano depois, o escultor francês Auguste Rodin lhe dedicou um busto de gesso com o molde original da cabeça de Victor Hugo. O prestígio do aviador era tão grande que, em viagem aos Estados Unidos, foi recebido por ninguém menos que o presidente Theodore Roosevelt na Casa Branca. E chegou a prometer uma viagem em seu novo dirigível à filha dele, Alice.

O hangar de Santos-Dumont em Paris era ponto de encontro de amigos, curiosos e personalidades. Biógrafos listam entre as visitas as do rei da Bélgica Leopoldo II e do príncipe Alberto I, de Mônaco. Mas a considerada de maior importância para a França foi a da imperatriz Eugênia, viúva de Napoleão III. Em 11 de fevereiro de 1902, o New York Journal publicou uma foto do encontro e disse que era a primeira vez em 30 anos que Sua Majestade era fotografada num evento. “Lembro-me do rei da Espanha atravessar a rua para vir cumprimentá-lo e, assim, todas as personalidades de Paris”, escreveu Yolanda Penteado, amiga do inventor.

No auge da carreira, tudo o que “petit Santôs” fazia ou dizia tinha destaque. A ponto de as padarias parisienses batizarem com esse nome um biscoito de gengibre com seu perfil que se tornou disputadíssimo. Caixas de chocolate da época traziam miniaturas de seus dirigíveis, peças de teatro falavam dele e até concursos de brinquedos tinham categoria relacionada a Santos-Dumont. O jornal americano New York Herald publicou em 2 de março de 1902 que a miniatura do dirigível número 6, com o qual o aviador contornou a Torre Eiffel, havia se tornado o brinquedo favorito de crianças francesas.

Em vida, o inventor batizou avenidas e praças. Após sua morte, virou nome de aeroporto, escolas e até cratera na Lua. O “presente” nos Montes Apeninos lunares foi sugerido pelo Museu do Ar e do Espaço da Smithsonian Institution, dos Estados Unidos, e concedido em 1973 pela União Astronômica Internacional. Coube ao astronauta Michael Collins, tripulante da nave Apollo 11, que viajou à Lua em 1969, dizer que se tratava do “reconhecimento do mundo à contribuição do gênio inventivo de Santos-Dumont ao desenvolvimento e progresso aeroespacial contemporâneo”.

Em terras brasileiras, deve-se a Santos-Dumont um outro feito ainda hoje desconhecido de boa parte da população. Em 1916, o inventor “descobriu” as Cataratas do Iguaçu. Ao cruzar do lado argentino para o brasileiro e ser informado de que as cataratas eram propriedade particular de um uruguaio, resolveu ir a Curitiba propor a desapropriação da área para criação de um parque. Como não havia estrada em mais da metade do caminho, foi a cavalo até Guarapuava. Saiu de Foz do Iguaçu e enfrentou mais de 300 quilômetros de mata virgem. A chamada Cavalgada Patriótica durou seis dias e continuou de carro e trem até Curitiba, onde em 8 de maio foi recebido pelo então presidente do Estado, Affonso Alves de Camargo, e o convenceu a desapropriar as terras. O Parque Nacional do Iguaçu só seria criado em 19 de janeiro de 1939, por decreto do então presidente da República Getúlio Vargas. Em 17 de novembro de 1986, as Cataratas do Iguaçu receberam da Unesco o título de Patrimônio Natural da Humanidade e até hoje são um dos locais mais visitados do País.

Apesar da riqueza de sua história, Santos-Dumont tem sofrido com a mesma sina de outros brasileiros importantes num País que pouco cuida de sua memória: o desconhecimento. Boa parte de seu acervo está encaixotada, longe das vistas do público, e não há nenhuma orientação oficial sobre como falar de Santos-Dumont nas salas de aula. Pouco também tem se falado sobre os 150 anos de seu nascimento, que serão comemorados daqui a poucos dias, em 20 de julho. Na Encantada, casa que o inventor construiu em Petrópolis e hoje funciona como museu, as perguntas que as monitoras mais costumam ouvir são se Santos-Dumont se matou mesmo, se era gay e se voou depois dos irmãos Wright. 

Questionamentos até legítimos, mas muito limitados diante da grandeza de um homem que há mais de um século pôs em prática nos céus de Paris o que hoje as startups fazem num mundo cada vez mais digital: desenvolver uma ideia inovadora que provoque impacto na sociedade e possa ser escalável e repetível. Santos-Dumont fez isso com a aeronavegação e depois com a aviação, sempre se autofinanciando e testando os próprios experimentos, que ajudaram a mudar o mundo. De quebra, também criou coisas que ainda hoje existem – como o check list e o hangar. Mas quase ninguém sabe disso. É preciso compartilhar sua história. As novas gerações precisam conhecê-la!

A questão da assinatura foi um tema importante para Santos-Dumont. Ele alcançou a fama em Paris, mas sempre fez questão de ressaltar sua origem brasileira. Para tanto, primeiro adotou o hífen para unir o Santos ao Dumont e, anos mais tarde, o substituiu por um sinal de igual. Passou a ser então Santos=Dumont, numa representação do Brasil igual à França

A questão da assinatura foi um tema importante para Santos-Dumont. Ele alcançou a fama em Paris, mas sempre fez questão de ressaltar sua origem brasileira. Para tanto, primeiro adotou o hífen para unir o Santos ao Dumont e, anos mais tarde, o substituiu por um sinal de igual. Passou a ser então Santos=Dumont, numa representação do Brasil igual à França Foto: Wilton Junior/Estadão

PS: Ah, e para quem ficou curioso sobre as respostas aos questionamentos mais feitos na Encantada:

Sim, Santos-Dumont se matou em 1932, a exemplo do que sua mãe havia feito 30 anos antes. Ele já havia tentado o suicídio outras duas vezes, passado temporadas em clínicas europeias e buscado ajuda de psiquiatras no Brasil e fora. Como a Psiquiatria ainda engatinhava na época, era tratado geralmente apenas com calmantes. Especialistas não arriscam um diagnóstico definitivo, mas concordam que ele padecia de um transtorno mental.

Sobre sua sexualidade, jornais da época lhe atribuíam muitos affairs, sempre com mulheres. Fotos e cartas de seu acervo pessoal indicam o interesse por moças jovens, em relacionamentos geralmente platônicos. Como na época ter família grande era norma, sua escolha por ficar solteiro e não ter filhos deu margem a um patrulhamento social que chegou a incomodá-lo. Em desenho feito em 8 de janeiro de 1929, três anos antes de sua morte, Santos-Dumont escreveu que sua família eram o dirigível, o biplano e o monoplano.

Hangar de Santos-Dumont era ponto de visitação em Paris

Hangar de Santos-Dumont era ponto de visitação em Paris Foto: Wikimedia Commons

Em relação à polêmica se voou antes ou depois dos irmãos Wright, a história mostra que, enquanto o brasileiro decolou sem auxílio externo em 1906 diante de centenas de pessoas e de uma comissão do Aeroclube da França previamente convocada para atestar a legitimidade do voo, os americanos dizem ter voado em 1903, mas sem testemunhas credenciadas e com auxílio de trilhos, ventos e catapulta. Preocupados em serem copiados antes de ganharem dinheiro com sua máquina, eles se recusavam a mostrá-la à imprensa, ao contrário de Santos-Dumont, que sempre teve seus inventos divulgados. 

Portanto, dentro dos critérios da época (decolar por meios próprios, sem ajuda externa, em voo agendado com antecedência, diante de comissão idônea), o inventor brasileiro voou primeiro. Foi em 23 de outubro de 1906, com o 14-Bis. Percorreu 60 metros. Em 12 de novembro do mesmo ano, voou outros 220 metros. O primeiro recorde de aviação foi reconhecido pela Federação Aeronáutica Internacional, entidade com representantes de vários países, incluindo os Estados Unidos. 

Especialistas dizem que até o fim da 2.ª Guerra Mundial as literaturas francesa, inglesa e americana falavam de um jeito de Santos-Dumont. Depois, a conversa mudou: americanos passaram a dizer que ele foi o primeiro a voar na Europa, “com uma máquina feia e estranha”. Aí se começou a mudar a história e os brasileiros pouco – ou nada – fizeram diante do mundo para resgatá-la.

Desenho em que Santos-Dumont disse que dirigível, biplano e monoplano eram sua família

Desenho em que Santos-Dumont disse que dirigível, biplano e monoplano eram sua família Foto: Imagem da coleção Pedro Corrêa do Lago

*Autora do livro infantil ‘Albertinho e suas incríveis máquinas voadoras’ (Editora Letras do Brasil), Luciana Garbin foi curadora da exposição ‘Santos-Dumont na Coleção Brasiliana Itaú’

https://www.estadao.com.br/cultura/luciana-garbin/santos-dumont-foi-muito-mais-do-que-o-pai-da-aviacao-novas-geracoes-precisam-saber-disso/

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O mundo é muito Black Mirror: veja os acertos nas previsões tecnológicas da série

O futuro mostrado pela série está mais perto do que parece

Por Bruno Romani e Alice Labate – Estadão – 15/06/2023 

Filme (ou série) futurista que se preza precisa gerar identificação com o presente para causar impacto. Black Mirror, série da Netflix criada por Charlie Brooker, tem isso de sobra. Ao posicionar futuros tecnológicos nem tão longe do presente, a produção, que ganha nova temporada a partir desta quinta, 15, consegue fazer pensar sobre o papel da tecnologia na sociedade e no comportamento humano.

Ainda que muitos dispositivos mostrados nos episódios não sejam reais, as reviravoltas e usos causados pela tecnologia geraram até uma expressão – já cansada, é verdade – fora das telas. “Isso é muito Black Mirror!” virou sinônimo de uma situação tecnológica com ares distópicos, o que nos tempos atuais se aplica a quase tudo.

Desde que estreou em 2011, Black Mirror conseguiu prever muitos dos temas, e alguns dos dispositivos e tecnologias, que dominaram a última década – e que devem aparecer nos próximos anos. Entre eles estão o peso das redes sociais, a mediação dos relacionamentos por gadgets, a gamificação das atividades e a busca constante por preservação de memória e consciência diante da morte. Se serve de janela para o futuro, vale ficar atento ao que deve aparecer na nova temporada – e abaixo, você vê os acertos e erros nas previsões tecnológicas da série ao longo dos anos.

Poder e influência das mídias sociais

Primeiro episódio da série mostra o efeito da mídia na vida real

Primeiro episódio da série mostra o efeito da mídia na vida real Foto: Black Mirror/Reprodução

Lançado em 2011, o primeiro episódio na história de Black Mirror é quase uma profecia sobre o poder e alcance das mídias sociais em decisões políticas. Em “National Anthem”, um grupo terrorista chantageia o primeiro-ministro britânico a fazer sexo com um porco em uma live em troca da vida da princesa inglesa. A mensagem do grupo é disseminada no YouTube e a pressão para que o primeiro-ministro se sacrifique pela monarca cresce no Twitter e no Facebook até que ele se rende à demanda grotesca.

Quando a série saiu, nenhuma dessas plataformas tinham o poder exibido nos anos seguintes – foi só em 2011, por exemplo, que o Facebook tomou o lugar do Orkut como a rede social mais acessada no Brasil. Ao longo da década de 2010, foi possível ver como posts em redes sociais passaram a balançar as estruturas do poder em diferentes países, o que beneficiou grupos políticos que dominavam essas ferramentas – especialistas apontam as eleições de Donald Trump e Jair Bolsonaro como exemplos disso.

Hoje, é impossível não pensar em alcançar qualquer demanda que não force algum tipo de movimento nas redes sociais – mesmo que no mundo real não exista tanto ruído sobre o assunto.

Neste ponto, “National Anthem” também foi cirúrgico: a princesa é libertada meia hora antes da transmissão do primeiro-ministro, mas ninguém percebe porque todos estão colados nas telas dos dispositivos acompanhando a live. É um pouco a história de tempos atuais, onde a realidade do ambiente digital parece distrair em relação ao mundo real.

Obsessão por reputação na internet

Em "Nosedive" as pessoas são constantemente avaliadas em uma escala de cinco estrelas

Em “Nosedive” as pessoas são constantemente avaliadas em uma escala de cinco estrelas Foto: Black Mirror/Reprodução

A busca incessante pela construção de reputação na internet é algo muito comum atualmente. Claro, que Black Mirror já conseguia prever os caminhos que tomaríamos.

O episódio Nosedive, da terceira temporada, mostra uma sociedade na qual as pessoas, por meio de implantes oculares e uma espécie de celular, classificam umas às outras em uma escala de cinco estrelas com base em suas interações pessoais. Quanto menor a avaliação, mais baixa a classe socioeconômica.

Lançado em 2016, a produção certamente se inspirou nas avaliações de produtos do comércio eletrônico, que àquela altura já tinham papel importante nas compras online. Desde então, diversas interações pessoais passaram a ser moderadas por sistemas de pontuação: a entrega de comida pelo iFood, a viagem no Uber, a hospedagem no Airbnb, a obtenção de crédito junto a instituições financeiras e até a procura de parceiros em apps de namoro.

Dois anos antes de Nosedive ir ao ar, em 2014, a China passou a implementar o “Sistema de Crédito Social”, o que trouxe Black Mirror para ainda mais perto da realidade. Criado pelo Partido Comunista Chinês, o sistema monitora o comportamento da sua população, tanto de pessoas físicas quanto de empresas e organizações. Assim como na série, a pontuação pode aumentar ou diminuir dependendo do comportamento, segundo veículos internacionais, como o Insider.

Não é confirmada a metodologia exata usada para as avaliações, mas dirigir mal, publicar notícias falsas, fumar em áreas indevidas, passear com cachorro sem coleira e até jogar muito videogame são exemplos de “infrações comportamentais” levadas para análise.

Para empresas, as avaliações negativas podem ocorrer, por exemplo, caso haja evasão de dívidas bancárias, arrecadação ilegal de fundos, desinformação e fraudes financeiras.

Como parte das punições, pessoas com baixas avaliações podem ser impedidas de comprar passagens aéreas, de conseguir emprego ou de se matricular em escolas ou faculdades. Além disso, é possível até ter internet de casa reduzida e mais lenta. Para aqueles com pontuações altas, é possível conseguir descontos em contas de energia, além de obter melhores taxas de juros no banco e vagas nos melhores empregos e instituições de ensino.

Mortos ‘ressuscitados’ com ajuda de IA

Já existem IAs capazes de recriar o comportamento digital de pessoas falecidas

Já existem IAs capazes de recriar o comportamento digital de pessoas falecidas Foto: Black Mirror/Reprodução

A tentativa de contornar a morte com ajuda de tecnologia é um tema recorrente em Black Mirror. O primeiro episódio da segunda temporada, chamado “Be Right Back”, é um exemplo disso. Nele, uma viúva decide testar uma nova tecnologia capaz de simular a voz e a personalidade do falecido marido com base em seus perfis nas redes sociais.

Lançado em 2013, o episódio foi bastante preciso sobre o que viria nos anos seguintes. Desde 2016, quando avanços em IA se tornaram mais robustos, surgiram diversas iniciativas parecidas com aquilo que propunha a série. Em 2021, um brasileiro criou o aplicativo Legathum que tem como objetivo recolher dados e memórias de pessoas já falecidas para que o algoritmo do sistema consiga detectar seus traços de personalidade e padrões de comportamento a fim de simular chamadas de vídeo e conversas de voz ou texto.

No mesmo ano, houve a concretização de ideia parecida, quando foi disponibilizado na internet um site chamado “Projeto Dezembro”, que permitia que os usuários treinassem chatbots para emular humanos – o serviço era turbinado pelo GPT-3 (o primeiro “cérebro” do ChatGPT). No Canadá, um homem, chamado Joshua Barbeau, acabou alimentando o sistema com informações e posts de redes sociais de sua noiva, morta 8 anos antes. A relação entre Barbeau e a máquina alarmou a OpenAI, dona do GPT-3, que acabou forçando o desligamento do Projeto Dezembro.

Com a recente popularização do ChatGPT, o desenvolvedor Enias Cailliau usou diferentes ferramentas de IA para criar uma plataforma onde qualquer pessoa pode inventar uma namorada digital – para o experimento, ele usou a personalidade da própria namorada. O projeto, chamado GirlfriendGPT, manda mensagens no Telegram, envia áudios e até faz selfies – tudo sintetizado. Com potencial para recriar até a personalidade de quem já morreu, o código foi disponibilizado na internet, que já foi baixado por mais de 500 pessoas.

Na China, há relatos de diferentes bots voltados para “trazer a vida” pessoas já mortas, categoria já conhecida como “griefGPT” (algo como “lutoGPT”).

A única diferença entre Be Right Back e a realidade é que ainda não é possível transferir a recriação digital de personalidades para robôs humanoides. Embora existam experimentos como o robô Ameca e o CyberOne, da Xiaomi, eles ainda estão anos luz de parecerem humanos – e estão mais distantes ainda de reproduzirem a aparência física de alguém.

Memória de tudo

Lentes oculares capazes de gravar ainda não existem

Lentes oculares capazes de gravar ainda não existem Foto: Black Mirror/Reprodução

Dispositivos ou serviços que registram memórias de forma constante estão no centro de vários episódios de Black Mirror.

Logo na primeira temporada, “The Entire History of You” tenta prever como seria se as pessoas usassem um chip e lentes de contato futuristas capazes de gravar todos os momentos da vida. Em “Crocodile”, de 2017, uma investigadora tenta desvendar um assassinato a partir de um dispositivo capaz de ver as memórias de testemunhas.

Lentes futuristas não viraram realidade ainda, mas houve tentativas. Em 2008, Babak Parviz, da Universidade de Washington, chegou a testar em coelhos dispositivos do tipo. Posteriormente, ele comandou o desenvolvimento do Google Glass, eletrônico que tinha potencial para ser o equipamento de registro constante de memória da nossa sociedade. Os óculos, porém, foram rejeitados pelas pessoas por, entre outras coisas, serem considerados invasivos – ninguém estava disposto a ser filmado o tempo todo.

Isso, porém, não significa que a ideia de registro constante de memória morreu. Embora a Snap tenha lançado o Spectacles, óculos que lembram o Google Glass, o smartphone virou o aparelho que, de fato, grava tudo – tem gente que faz até selfie em velório! A presença constante das câmeras de celular em shows, eventos e outras passagens mais prosaicas da vida, turbinou redes sociais focadas em imagem, como o Instagram e o TikTok.

O acumulo de informações deu origem até a startup americana Rewind, que criou um software capaz de armazenar os dados de todas as atividades feitas por um usuário em seu computador, desde videochamadas a mensagens de texto. Com todas as informações armazenadas, o serviço oferece um chat com inteligência artificial permitindo que o usuário pergunte sobre qualquer dos registros, podendo consultar suas “memórias”.

Cultura do cancelamento

Lançado em 2016, o episódio “Hated in the Nation” não precisou de grande esforço para imaginar um tema que continua bem atual: a cultura do cancelamento.

Nele, abelhas-robôs, “ADIs”, são desenvolvidas para suprir a queda na população de abelhas no Reino Unido. Porém, esses robozinhos viram máquinas de matar após serem hackeadas. Ao longo da trama, é revelado que as vítimas das ADIs são escolhidas por meio da hashtag #MortePara nas redes sociais – aquele que lidera os índices da hashtag vira alvo.

É uma analogia clara do que acontece em redes sociais, onde posts sobre assuntos diversos podem descambar para ataques em hordas tanto no ambiente digital como no mundo real.

São diversos os exemplos de pessoas (públicas ou não) que foram canceladas nas redes. Vale lembrar, por exemplo, o caso da cantora Karol Conká, que virou alvo após sua participação no BBB 21, o que resultou em ameaças, perda patrocinadores e cancelamento de shows e projetos.

Robôs assassinos

"Cães-robôs" militares já são uma realidade fora da série

“Cães-robôs” militares já são uma realidade fora da série Foto: Black Mirror/Reprodução

Em 2017, “Metalhead”,da quarta temporada, mostra “cachorros-robô” programados para matar humanos – e quem sobreviveu vive em constante fuga das máquinas. A produção é um exemplo clássico de futuro que caiu perto demais do presente.

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Um ano antes a Boston Dynamics lançou o Spot, cachorro-robô usado para mapear terrenos e passar por obstáculos. No ano seguinte, na esteira do lançamento de Metalhead, um vídeo com o equipamento viralizou, deixando muita gente de cabelo em pé pela semelhança física entre ficção e realidade.

Desde o lançamento, a Boston dizia que o objetivo da criação não era o uso militar, mas o robô inspirou outras companhias a desenvolver versões de guerra. Em 2021, a americana Ghost Robotics apresentou, durante uma conferência do exército americano, o seu próprio “cão-robô” equipado com rifles de 6,5 mm, feitos para fins militares.

Pouco tempo depois, em 2022, em uma feira militar na Rússia, um protótipo chinês de um “cão-robô” bem parecido com o Spot chocou por estar equipado com uma bazuca.

Monitoramento parental tecnológico

"Arkangel" mostra as vantagens e desvantagens do controle parental para o desenvolvimento de uma criança

“Arkangel” mostra as vantagens e desvantagens do controle parental para o desenvolvimento de uma criança Foto: Black Mirror/Reprodução

Na quarta temporada, o episódio “Arkangel” conta a história de uma mãe que decide implantar um chip em sua filha com um sistema chamado Arkangel, que permite monitorar a criança usando um tablet. Com ele, a mulher pode rastrear a filha, verificar sua saúde física e emocional, além de censurar coisas. Como sempre, a trama se desenrola de maneira perturbadora, com a mãe acompanhando tudo o que a filha faz já na vida adulta.

A produção não é uma previsão, mas uma visão extrema sobre o uso de tecnologia. Atualmente, os pais podem monitorar muitas atividades de suas crias. Em 2019, por exemplo, uma brasileira decidiu criar o app de monitoramento AppGuardian por ter receio em deixar a filha usar a internet sem supervisão.

Além disso, os próprios smartphones e redes sociais permitem isso. O TikTok e a Netflix, por exemplo, aumentaram as ferramentas de controle parental que oferecem em seus apps em 2020, permitindo que os pais escolham o que os filhos podem ver e com quem podem interagir online.

Em março deste ano, o estado americano de Utah foi além: sancionou uma lei capaz de restringir o acesso de menores de idade a redes sociais, exigindo o consentimento explícito dos pais ou responsáveis. A lei também faz com que empresas forneçam aos pais acesso às interações digitais de seus filhos.

Arkangel escancara um debate que os pais de hoje em dia precisam encarar diariamente: como monitorar os filhos sem violar a privacidade ou exercer controle excessivo?

Upload de consciência

No universo de San Junipero as pessoas podem escolher se querem transferir suas consciências para a cidade virtual permanentemente após a morte

No universo de San Junipero as pessoas podem escolher se querem transferir suas consciências para a cidade virtual permanentemente após a morte  Foto: Black Mirror/Reprodução

Ao longo das temporadas, Black Mirror demonstrou obsessão por algumas previsões, como a transferência de consciência para ambientes digitais. A ideia aparece em pelo menos três episódios: San Junipero (2016), Black Museum (2017) e Rachel, Jack And Ashley Too (2019).

Se depender dos avanços na área, essa será uma profecia não realizada. Os avanços para transferir o cérebro para o ambiente digital praticamente não existem, embora nomes como Elon Musk afirmem acreditar que isso seja possível. Por outro lado, cientistas da área, como o brasileiro Miguel Nicolelis, dizem ser impossível transferir o cérebro para o ambiente digital.

Em 2018, uma startup chamada Nectome fez barulho ao anunciar uma técnica de preservação cerebral (batizada de “vitrificação”), que almejava preparar o órgão para uma eventual digitalização. Detalhe: a técnica causa a morte de quem deseja preservar o cérebro – e mesmo assim tinha uma fila de interessados, que iriam pagar US$ 10 mil pelo serviço. Sam Altman, fundador da OpenAI, era uma dessas pessoas.

Desde então, a Nectome não divulgou mais avanços significativos e mais dúvidas surgiram sobre a possibilidade de digitalização cerebral. A vida eterna na nuvem ainda é uma promessa.

Evolução dos apps de paquera

O episódio trata sobre uma evolução dos apps de relacionamento

O episódio trata sobre uma evolução dos apps de relacionamento Foto: Black Mirror/Reprodução

Desde as salas de bate-papo, a internet é um espaço de paquera e namoro. Porém, “Hang the DJ”, de 2017, imagina o avanço dos apps de namoro ao extremo, que passam a contar com algoritmos minuciosos para entregar “casais mais precisos”. Novamente, Black Mirror foi precisa.

Apps como Tinder, Bumble, Happn, Grindr e OKCupid explodiram na pandemia – nos EUA, o Pew Research Center detectou aumento de 215% por esses serviços. E o algoritmo de sugestão passou a ser a fórmula secreta de cada um deles: para a frustração dos usuários, nenhuma das empresas revela como seus sistemas funcionam.

Isso, porém, não significa que as pessoas não estejam se encontrando como resultado da ação de algoritmos. Em 2016, o Tinder confirmou que usava o “ranking Elo”, um sistema de ranqueamento de jogadores de xadrez. Três anos depois, a companhia passou a afirmar que tinha substituído o Elo por outro sistema – não revelado, claro. Já o OKCupid, que usa um sistema complexo de perguntas, deixa óbvio que trabalha com muitos dados para afinar a recomendação.

Em um mercado que se tornou altamente competitivo, parte da confidencialidade do algoritmo é uma decisão de negócio. Mas a decisão vai além: entregar a fórmula de montar casais poderia ensinar as pessoas a “hackear” o sistema, o que colocaria fim à magia da sedução.

Desta forma, como em Black Mirror, seria frustrante perceber que o amor de uma vida é o resultado de uma análise probabilística.

O desafio pelo par perfeito continua.

Sexualidade em ambiente digital

O metaverso é um tema muito discutido da tecnologia no mundo real, principalmente com as apostas de Zuckerberg

O metaverso é um tema muito discutido da tecnologia no mundo real, principalmente com as apostas de Zuckerberg Foto: Black Mirror/Reprodução

Há muitos anos, o espaço online é também um local onde pessoas conseguem exercer mais livremente suas sexualidades. “Striking Vipers” mostra dois homens que se apaixonam dentro de um jogo realista – e as dificuldades de trazer o relacionamento para o mundo real.

O episódio chegou apenas dois anos antes de Mark Zuckerberg mudar o nome do Facebook para Meta, em um esforço para mostrar o foco da companhia no metaverso. Na apresentação do executivo, uma das promessas era de que as pessoas poderiam assumir e viver qualquer identidade no novo ambiente.

Embora a ideia de metaverso venha enfrentando tropeços, a proposta de Zuckerberg funciona como ponta de lança de um fenômeno com potencial de crescimento. Se o Apple Vision Pro conseguir popularizar o metaverso, relacionamentos como o visto em Black Mirror podem se tornar ainda mais corriqueiros.

Políticos criados na internet

Candidatos criados na internet é uma das profecias mais potentes de Black Mirror

Candidatos criados na internet é uma das profecias mais potentes de Black Mirror  Foto: Black Mirror/Reprodução

The Waldo Moment”, da segunda temporada, é uma das profecias mais potentes de Black Mirror. Três anos antes de Donald Trump e cinco anos antes de Jair Bolsonaro, a trama mostra um candidato que surge no meio digital e ganha força por suas frases “engraçadas” e mal-educadas.

Na série, Waldo é um urso animado de vocabulário sujo controlado por um comediante em um programa de televisão, que começa a ganhar popularidade e entra na disputa eleitoral quase por acidente. Em 2010, o Brasil já havia experimentado com a eleição de um candidato que surge como uma piada – Tiririca foi eleito Deputado Federal mais votado no País, com mais 1 milhão de votos. Mas a escalada do palhaço não foi no meio digital.

Em 2016, Donald Trump foi eleito presidente dos EUA, famoso por sua postura mal-educada frente às câmeras, agressividade nas redes e ausência de propostas concretas. A ideia de ter Trump como presidente era tão cômica e fora da realidade que, nos anos 2000, os Simpsons fizeram piada com a ideia.

Seguindo a cartilha de Trump, Jair Bolsonaro foi eleito presidente em 2018, com ajuda de falas ofensivas e discursos com palavrões de alta repercussão nas redes sociais.

Bloqueio e ‘ghosting’

Bloquear pessoas nas redes sociais é algo muito comum e parte da cultura digital

Bloquear pessoas nas redes sociais é algo muito comum e parte da cultura digital Foto: Black Mirror/Reprodução

O poder do bloqueio nas redes sociais e do ghosting (a prática de “desaparecer” sorrateiramente da vida de alguém em ambiente digital) aparece em “White Christmas”, episódio especial de Natal da série. Nele, uma das personagens usa uma tecnologia que bloqueia o namorado na vida real, transformando ele em borrões diante dos seus olhos e tornando ela incomunicável para ele.

Obviamente, bloquear alguém na vida real não é possível. Mas a prática está enraizada na cultura digital atual – tanto que avançou até para o meio político, em perfis de cargos eletivos. Durante o mandato de Jair Bolsonaro, por exemplo, os três perfis que representam a Presidência da República no Twitter, no Facebook e no Instagram bloquearam ao todo 1.075 perfis, de acordo com informações obtidas via Lei de Acesso à Informação (LAI), pelo coletivo Fiquem Sabendo.

Já o ghosting é cada vez mais comum. Um estudo da Universidade de Castilla, na Espanha, publicado em 2020, estima que 19% dos espanhóis já sofreram ghosting, enquanto esse número fica entre 13% e 23% nos EUA.

Gamificação da sociedade

Esse episódio é um reflexo da 'gamificação' da realidade

Esse episódio é um reflexo da ‘gamificação’ da realidade Foto: Black Mirror/Reprodução

O mundo de “Fifteen Million Merits” retrata uma sociedade dividida em ocupações pré-determinadas, no qual conquistas dependem de pontos virtuais, como em um videogame. Era um sinal do que viria pela frente no nosso mundo, onde estratégicas de gamificação são adotadas em diversas facetas da vida.

Hoje, somamos troféus em apps de exercícios físicos, empresas aplicam técnicas competitivas de jogos para engajar e contratar funcionários, influenciadores disputam likes e compartilhamentos, estudantes aprendem por meio de “missões” e “fases” e namoros são mediados pelas interfaces de aplicativos.

Não estamos pedalando bicicletas virtuais em busca de moedas, mas os jogos não estão mais entre nós apenas como entretenimento.

https://www.estadao.com.br/link/cultura-digital/o-mundo-e-muito-black-mirror-veja-os-acertos-nas-previsoes-tecnologicas-da-serie/

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AIE prevê pico da demanda mundial de petróleo até o fim da década

Folha/AFP 14/06/2023

A demanda mundial de petróleo pode alcançar o pico até o fim da atual década, porque a crise energética acelerou a transição para tecnologias menos poluentes, anunciou nesta quarta-feira (14) a AIE (Agência Internacional de Energia).

A AIE prevê em seu relatório anual sobre o mercado de petróleo que o crescimento da demanda de petróleo vai registrar uma desaceleração significativa nos próximos cinco anos.

“A transição para uma economia de energia limpa está acelerando, com um pico na demanda global de petróleo previsto para antes do final desta década, à medida que os veículos elétricos, a eficiência energética e outras tecnologias avançam”, afirmou o diretor-executivo da AIE, Fatih Birol, em um comunicado.

No relatório de 2023, um estudo de mercado para os próximos cinco anos, a AIE projeta que a demanda mundial de petróleo vai continuar aumentando, mas que a expansão “deve desacelerar significativamente até 2028”.

As estimativas apontam o pico da demanda para antes do que era previsto nos relatórios anteriores. No documento “Perspectivas da Energia no Mundo” de 2022, a AIE havia projetado um “avanço da demanda mundial de petróleo, apesar dos preços elevados, com um pico e a estabilização depois de 2035”.

No entanto, a crise energética iniciada durante a recuperação pós-pandemia em 2021, agravada com a Guerra da Ucrânia em 2022, afetou as previsões.

“Os preços elevados da energia e os problemas de segurança do fornecimento evidenciados pela crise energética mundial”, agravada pelo conflito na Ucrânia, aceleram a transição para tecnologias de energia mais limpas”, destacou a AIE, que tem sede em Paris e é uma agência autônoma da OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômicos).

Segundo as novas previsões, a demanda por gasolina vai cair a partir de 2023, e o “uso de petróleo com combustível de transporte deve cair depois de 2026”.

Entre os países da OCDE –grupo de 38 nações, que inclui Estados Unidos, Japão, entre outros–, o cenário pode representar uma redução da demanda de petróleo a partir de 2024.

(AFP)

https://aovivo.folha.uol.com.br/mercado/2023/06/01/6329-dolar-empresas-e-bolsas-acompanhe-ao-vivo-o-mercado.shtml#post430560

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Israel aposta em startups para combater crise climática

Instituto Weizmann de Ciências planeja transferir descobertas para criação rápida de produtos que ajudem o meio ambiente

Reinaldo José Lopes – Folha13.jun.2023 

O principal centro de pesquisa de Israel vai dedicar boa parte de seus esforços, nos próximos dez anos, a desenvolver novas tecnologias que possam ser aplicadas rapidamente para enfrentar a crise climática. A aposta do Instituto Weizmann de Ciências, cujos pesquisadores já conquistaram seis prêmios Nobel até hoje, é transferir suas descobertas para startups que consigam transformá-las em produtos logo em seguida.

Um dos líderes da iniciativa é o biofísico Ron Milo, diretor do recém-criado IES (Instituto de Sustentabilidade Ambiental, na sigla inglesa) do Weizmann.

Em visita recente ao Brasil, Milo disse à Folha que não vê contradição entre a proposta do instituto e a ideia de que tecnologias para enfrentar a emergência do clima e outros problemas ambientais com eficácia já existem, mas não são aplicadas na escala necessária por razões políticas e econômicas.

Pessoas em uma passarela de madeira em cima do oceano ao lado de corais

Corais em Eilat, em Israel; recifes são ameaçados pelas mudanças climáticas – Wang Zhuolun – 1º.jun.2023/Xinhua

“Eu diria que, nessa discussão, nós não deveríamos cair na armadilha de pensar apenas em termos de preto e branco, de escolher uma coisa ou outra. É verdade que temos muitos caminhos para soluções que exigem mais vontade política. Outros necessitam de mudanças comportamentais e outros, por fim, só exigem uma adoção e uma aceitação mais amplas”, pondera ele.

“Mas também é verdade que soluções melhores, a partir de descobertas revolucionárias, vão ajudar no que diz respeito a decisões econômicas e a alinhar os interesses de todos os envolvidos. Então, precisamos das duas coisas.”

O plano é que o IES atue em pesquisa básica e inovação tecnológica em sete frentes: energia renovável, segurança alimentar, materiais verdes, mudança climática global, ambiente e saúde, pesquisa marinha e biodiversidade.

Milo tem um pé em mais de uma dessas canoas, por assim dizer. Ele e seus colaboradores foram responsáveis por demonstrar, por exemplo, que a massa dos materiais produzidos artificialmente pela humanidade ao longo de sua história já superou a massa de todos os seres vivos da Terra (incluindo os seres humanos, suas plantações e seus animais domésticos).

Dois homens e uma mulher posam para retrato em um campo com ovelhas ao fundo

À direita, o biofísico Ron Milo, diretor do recém-criado IES (Instituto de Sustentabilidade Ambiental, na sigla inglesa) do Instituto Weizmann, de Israel; à esquerda, Eyal Krieger, e, ao centro, Lior Greenspoon, também cientistas do Weizmann – Instituto Weizmann de Ciências/Divulgação

Ao mesmo tempo, a equipe liderada por ele tem investigado aspectos fundamentais do metabolismo do carbono nas células vegetais.

Dito desse jeito, não parece muito emocionante, mas a maneira como o organismo das plantas lida com o carbono é a pedra fundamental da fotossíntese —o processo do qual quase todos os seres vivos da Terra dependem, direta ou indiretamente, para obter energia e construir seus corpos.

Compreender melhor a fotossíntese pode ser a chave para criar lavouras mais produtivas e plantas capazes de retirar mais CO2 (gás carbônico ou dióxido de carbono) da atmosfera, minimizando assim o aquecimento global causado pelo gás.

“Uma das coisas que nos intriga é saber quais são os limites da produtividade primária [a capacidade de produzir biomassa pela fotossíntese] das plantas”, conta ele.

“Parece que, pelo que indicam nossas análises e a de outros grupos mundo afora, ainda não atingimos esse limiar. Há vários tipos de esforços sobre a possibilidade de estocar mais carbono nas raízes das plantas conforme elas crescem, por exemplo.”

Outra abordagem é o estudo detalhado da enzima (molécula aceleradora de reações bioquímicas) designada pela sigla Rubisco. “É como se ela fosse uma máquina molecular que está no coração dos processos da fotossíntese que produzem nossa comida, e estamos tentando entender suas propriedades e quão rapidamente ela poderia funcionar.”

Segundo ele, não há razão para restringir esse tipo de abordagem à terra firme. Para Milo, os estudos sobre alimentos de origem microbiana, produzidos a partir de bactérias aquáticas que fazem fotossíntese, também podem ser promissores.

“Algumas estimativas mostram que os recursos necessários em termos de água e outros insumos poderiam ser muito menores do que o que gastamos com lavouras convencionais. Acho que é nossa responsabilidade não deixar de lado esse potencial.”

Aliás, entre as tecnologias contra a crise ambiental que o diretor do IES vê como mais próximas de ganharem escala comercial em breve está a produção de fontes alternativas de proteína com capacidade de alcançar públicos maiores —um ponto-chave, já que a pecuária é uma das grandes fontes de produção de gases-estufa, além de estimular o desmatamento.

“Vai ser uma combinação entre ciência, tecnologia e maneiras de conseguir uma maior aceitação por parte do público”, pondera ele.

Milo também vê avanços importantes nas tecnologias que permitem o armazenamento de energia derivada de fontes renováveis e, o que é igualmente crucial, nas técnicas que permitirão reciclar os componentes de baterias, células de energia e outros aparelhos eletrônicos que serão chave para a transição energética.

Só assim será possível minimizar os impactos ambientais do uso dessas tecnologias inovadoras numa escala muito mais ampla que a atual.

Para o pesquisador do Weizmann, a seriedade da emergência climática atual significa que não se deve descartar totalmente nenhum tipo de abordagem. Isso vale inclusive para a chamada geoengenharia, na qual a ideia seria usar meios tecnológicos para tentar diminuir a temperatura do planeta.

Os riscos dessa estratégia estão ligados a uma alta probabilidade de efeitos não pretendidos, que poderiam alterar, por exemplo, o regime de chuvas em diferentes regiões do globo.

“Infelizmente, no ritmo em que as coisas estão indo, pode ser que fiquemos desesperados para encher soluções. Por isso, creio que é importante fazer pesquisa básica sobre o que esse tipo de abordagem implicaria com muita antecedência. Isso nos ajudaria a compreender claramente tanto os perigos quanto o potencial de algo assim logo, antes que precisemos tomar uma decisão a respeito”, argumenta.

“Decidir que simplesmente não vamos pensar a respeito pode acabar criando um problema ainda maior”, completa.

O projeto Planeta em Transe é apoiado pela Open Society Foundations.

https://www1.folha.uol.com.br/ambiente/2023/06/israel-aposta-em-startups-para-combater-crise-climatica.shtml

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LinkedIn aposta que a moeda do mercado de trabalho vai mudar nos próximos anos; entenda

Rede social vê um futuro em que os empregadores estarão dispostos a olhar além dos requisitos de entrada há muito estabelecidos, como diplomas universitários e cargos anteriores

Por Valor/Bloomberg 09/06/2023

À medida que o mundo do trabalho se transforma, o LinkedIn aposta que a forma como os empregadores contratam e como as pessoas encontram empregos também mudará radicalmente nos próximos anos e décadas.

O LinkedIn Inc. o popular site de redes de emprego, vê um futuro em que os empregadores estarão dispostos a olhar além dos requisitos de entrada há muito estabelecidos, como diplomas universitários e cargos anteriores, para se concentrar nas habilidades comprovadas de um candidato, seja análise de dados, liderança ou narrativa.

Enquanto mais de 80% dos empregadores acreditam que devem contratar com base em habilidades e não em diplomas, mais da metade diz que ainda está contratando graduados porque parece menos arriscado. Isso é de acordo com uma pesquisa realizada no verão passado pelas organizações sem fins lucrativos de desenvolvimento da força de trabalho American Student Assistance e Jobs for the Future.

“A contratação baseada em habilidades é a grande baleia branca, o santo graal do mercado de trabalho”, disse Joseph Fuller, professor de administração da Harvard Business School.

Desde que emergiu do estouro das pontocom, o LinkedIn já ajudou a mover a agulha sobre o que é comportamento aceitável no mercado de trabalho. Não é mais considerado desleal, por exemplo, que um funcionário crie um perfil que permita que os recrutadores procurem – e contratem – pessoas talentosas que não estão procurando ativamente por outro emprego.

“Vinte anos atrás, ou você estava procurando trabalho ativamente ou não estava procurando trabalho”, disse Dan Shapero, diretor de operações do LinkedIn.

O site, que completou 20 anos em maio, acumulou mais de 930 milhões de membros em todo o mundo, tornando-se um lugar onde CEOs e funcionários celebram marcos, queixas e constroem redes – alterando a forma como algumas pessoas e empresas procuram empregos e candidatos a empregos. No ano passado, a plataforma respondeu por cerca de 6% da receita de quase US$ 200 bilhões da controladora Microsoft Corp., uma parte pequena, mas crescente, das vendas.

O LinkedIn lançou um recurso de correspondência de habilidades em fevereiro, permitindo que os usuários vejam como as habilidades exigidas por um trabalho podem se alinhar com seus próprios pontos fortes. Exigidas por um trabalho podem se alinhar com seus próprios pontos fortes. Existem alguns sinais iniciais positivos: mais de 45% dos recrutadores no LinkedIn agora procuram candidatos usando dados de habilidades, de acordo com a empresa. Enquanto isso, o LinkedIn está incorporando inteligência artificial à plataforma, com o objetivo de tornar a correspondência entre candidatos a emprego e empregadores mais eficiente.

A contratação de habilidades em primeiro lugar como um ideal tem uma longa história. É considerada uma forma de expandir as oportunidades econômicas, especialmente para aqueles sem diploma universitário. Mas até agora não houve muito progresso em larga escala nessa direção.

“Skills tem sido uma conversa que vem acontecendo há anos, há décadas”, disse Aneesh Raman, vice-presidente do LinkedIn. “Naquelas conversas, muitas vezes eram as mesmas pessoas: formuladores de políticas, acadêmicos, organizações sem fins lucrativos. Nessas conversas, quase todas, faltavam os patrões.”

O mercado de trabalho extremamente apertado dos últimos dois anos, no entanto, forçou as empresas a ampliar sua busca. Os empregadores agora finalmente entraram na sala, disse ele. Quando se trata de contratação baseada em habilidades, Raman disse: “Os empregadores não estão mais perguntando: ‘O que é isso?’ Eles estão perguntando: ‘Como faço isso?’”

O LinkedIn espera fornecer a resposta, mas não será fácil.

Para começar, uma coisa é dizer que você tem uma habilidade específica e outra é provar isso. “Fora de certos setores, como construção e comércio, não temos licenças que forneçam uma representação de uma habilidade adquirida com a qual os empregadores possam contar”, disse Fuller, de Harvard, que escreveu um artigo intitulado “A contratação baseada em habilidades está em ascensão” na Harvard Business Review no ano passado. Também não há um idioma compartilhado ou um sistema de classificação padrão para habilidades e isso pode causar incompatibilidades entre as formas como as diferentes habilidades são descritas em postagens de trabalho e currículos.

Embora habilidades técnicas como codificação sejam relativamente fáceis de testar, “habilidades interpessoais”, como comunicação ou trabalho em equipe, podem ser especialmente difíceis de validar. Por exemplo, você diz que é um bom ouvinte, mas é mesmo? Essa é uma das razões pelas quais os empregadores se apoiaram fortemente em diplomas universitários como substitutos, embora imperfeitos, para todos os tipos de competências sociais. Algum progresso foi feito, disse Fuller, usando entrevistas estruturadas e avaliações de psicologia comportamental, mas a capacidade das empresas nessa frente ainda é limitada.

O curinga do LinkedIn pode ser sua capacidade de aproveitar o progresso da IA da Microsoft. Isso pode ajudar o site a encontrar candidatos frequentemente negligenciados, como aqueles que não têm um diploma de quatro anos ou têm uma condenação criminal, e combiná-los com sucesso com os empregadores, disse Fuller. “Talvez o deus ex machina aqui seja IA.”

https://valor.globo.com/carreira/noticia/2023/06/09/linkedin-aposta-que-a-moeda-do-mercado-de-trabalho-vai-mudar-nos-proximos-anos-entenda.ghtml#

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Dezessete mortes e 736 acidentes: o saldo chocante do piloto automático da Tesla

Sistema de assistência ao motorista da empresa esteve envolvido em muito mais acidentes do que o relatado anteriormente

Por Faiz Siddiqui e Jeremy B. Merrill – Estadão/The Washington Post 10/06/2023 

THE WASHINGTON POST – O ônibus escolar exibia o sinal de pare e piscava luzes vermelhas de advertência quando Tillman Mitchell, de 17 anos, desceu do veículo em uma tarde de março. Em seguida, um Tesla Model Y se aproximou na North Carolina Highway 561. O carro — supostamente no modo piloto automático — não reduziu a velocidade.

Mitchell foi atingido a 70 km/h, segundo o relatório da polícia. O adolescente foi arremessado contra o para-brisa, voou no ar e caiu de cara na estrada, segundo sua tia-avó, Dorothy Lynch. O pai de Mitchell ouviu o acidente e saiu correndo da varanda para encontrar seu filho caído no meio da estrada.

“Se fosse uma criança menor”, disse Lynch, “estaria morta”.

O acidente no condado de Halifax, na Carolina do Norte, onde a tecnologia futurística desceu por uma rodovia rural com consequências devastadoras, foi um dos 736 acidentes nos Estados Unidos desde 2019 envolvendo Teslas no modo piloto automático. Os números são de uma análise do Washington Post com base nos dados da Administração Nacional de Segurança no Tráfego Rodoviário.

Esses acidentes aumentaram nos últimos quatro anos, refletindo os perigos associados ao uso cada vez mais generalizado da tecnologia futurista de assistência ao motorista da Tesla, bem como a presença crescente dos carros nas estradas do país.

O número de mortes e ferimentos graves associados ao piloto automático também cresceu significativamente. Quando as autoridades divulgaram, pela primeira vez, um relato parcial de acidentes envolvendo o piloto automático em junho de 2022, contaram apenas três mortes definitivamente ligadas à tecnologia. Os dados mais recentes incluem pelo menos 17 acidentes com morte, 11 deles desde maio, e cinco feridos graves.

Mitchell sobreviveu, mas sofreu uma fratura no pescoço, ficou com uma perna quebrada e teve que ser colocado em um ventilador. Ele ainda sofre de problemas de memória e tem dificuldade para andar. Sua tia-avó disse que o caso deveria servir de alerta sobre os perigos da tecnologia.

“Rezo para que este seja um processo de aprendizado”, disse Lynch. “As pessoas confiam demais quando se trata de uma peça de maquinário.”

O CEO da Tesla, Elon Musk, disse que os carros que operam no modo piloto automático são mais seguros do que aqueles pilotados apenas por motoristas humanos, citando taxas de acidentes quando os modos de direção são comparados.

Ele pressionou a montadora a desenvolver e implantar recursos programados para manobrar nas estradas — navegar em ônibus escolares parados, carros de bombeiros, sinais de parada e pedestres — argumentando que a tecnologia dará início a um futuro mais seguro e virtualmente livre de acidentes.

Embora seja impossível dizer quantos acidentes podem ter sido evitados, os dados mostram falhas claras na tecnologia que está sendo testada em tempo real nas rodovias americanas.

Os 17 acidentes fatais de Tesla revelam padrões distintos, descobriu o Post: quatro envolveram uma motocicleta. Outro envolveu um veículo de emergência.

Enquanto isso, algumas das decisões de Musk — como expandir amplamente a disponibilidade dos recursos e remover os sensores de radar dos veículos — parecem ter contribuído para o aumento relatado de casos, de acordo com especialistas que conversaram com o jornal.

Tesla e Elon Musk não responderam a um pedido de comentário.

A NHTSA (sigla em inglês para Administração Nacional de Segurança no Tráfego Rodoviário) disse que um relatório de um acidente envolvendo assistência ao motorista não implica que a tecnologia tenha sido a causa.

“A NHTSA tem uma investigação ativa sobre o piloto automático da Tesla, incluindo a direção totalmente autônoma”, disse a porta-voz Veronica Morales, observando que a agência não comenta investigações em aberto.

“A NHTSA lembra ao público que todos os sistemas avançados de assistência ao motorista exigem que o motorista humano esteja no controle e totalmente envolvido na tarefa de dirigir o tempo todo. Consequentemente, todas as leis estaduais responsabilizam o motorista humano pela operação de seus veículos”, afirma o órgão.

Musk defendeu repetidamente sua decisão de levar tecnologias de assistência ao motorista aos proprietários da Tesla, argumentando que o benefício supera o dano.

“Na medida em que você acredita que adicionar autonomia reduz lesões e mortes, acho que você tem uma obrigação moral de implantá-la, mesmo que seja processado e culpado por muitas pessoas”, disse ele no ano passado. “Porque as pessoas cujas vidas você salvou não sabem que suas vidas foram salvas. E as pessoas que ocasionalmente morrem ou se machucam, elas definitivamente sabem.”

A ex-consultora sênior de segurança da NHTSA, Missy Cummings, professora da Faculdade de Engenharia e Computação da Universidade George Mason, disse que o aumento de acidentes com Tesla é preocupante.

“A Tesla está tendo acidentes mais graves — e fatais — do que as pessoas em um conjunto de dados normal”, disse ela em resposta aos números analisados pelo Post. Uma causa provável, afirma, é o lançamento ampliado ao longo do último ano e meio da função full self-driving, que traz assistência ao motorista para cidades e ruas residenciais. “É razoável esperar que isso esteja levando ao aumento das taxas de acidentes com o fato de que qualquer pessoa pode ter acesso à função? Claro, com certeza”, afirma.

Cummings disse que o número de mortes em comparação com os acidentes, em geral, também é uma preocupação.

Não está claro se os dados capturam todos os acidentes envolvendo os sistemas de assistência ao motorista da Tesla. Os dados da NHTSA incluem alguns incidentes em que não se sabe se o piloto automático ou a direção totalmente autônoma estava em uso. Isso inclui três mortes, incluindo uma no ano passado.

A NHTSA, principal reguladora de segurança automotiva do país, começou a coletar os dados depois que uma ordem federal em 2021 exigiu que as montadoras divulgassem acidentes envolvendo tecnologia de assistência ao motorista. O número total de acidentes envolvendo a tecnologia é minúsculo em comparação com todos os incidentes rodoviários (a NHTSA estima que mais de 40 mil pessoas morreram em naufrágios de todos os tipos no ano passado).

Desde que os requisitos dos relatórios foram introduzidos, a grande maioria das “falhas 807″, relacionadas à automação, envolveu a Tesla, mostram os dados. A empresa, que experimentou a automação de forma mais agressiva do que outras montadoras, também está ligada a quase todas as mortes.

A Subaru ocupa o segundo lugar com 23 acidentes relatados desde 2019. O enorme abismo provavelmente reflete uma implantação e uso mais amplos de automação na frota de veículos da Tesla, bem como a ampla gama de circunstâncias em que os motoristas da Tesla são incentivados a usar o piloto automático.

O piloto automático, que a Tesla introduziu em 2014, é um conjunto de recursos que permitem que o carro se mova da rampa de entrada para a de saída da rodovia, mantendo a velocidade e a distância atrás de outros veículos e seguindo as linhas da pista. A companhia o oferece como um recurso padrão em seus veículos, dos quais mais de 800 mil estão equipados com piloto automático nas estradas dos EUA.

O full self-driving, um recurso experimental que os clientes devem adquirir, permite que os Teslas manobrem do ponto A ao B seguindo as instruções passo a passo ao longo de uma rota, parando para sinais de parada e semáforos, fazendo curvas e mudanças de faixa e respondendo aos perigos ao longo do caminho. Com qualquer um dos sistemas, a Tesla diz que os motoristas devem monitorar a estrada e intervir quando necessário.

O aumento nas colisões coincide com o lançamento agressivo do full self-driving, que se expandiu de cerca de 12 mil usuários para quase 400 mil em pouco mais de um ano. Quase dois terços de todas as falhas de assistência ao motorista que a Tesla relatou à NHTSA ocorreram no ano passado.

Philip Koopman, professor da Carnegie Mellon University que conduziu pesquisas sobre segurança de veículos autônomos por 25 anos, disse que a prevalência de Teslas nos dados levanta questões cruciais.

“Um número significativamente maior certamente é motivo de preocupação”, disse ele. “Precisamos entender se é devido a acidentes realmente piores ou se há algum outro fator, como um número dramaticamente maior de milhas percorridas com o piloto automático ativado.”

Em fevereiro, a Tesla emitiu um recall de mais de 360 mil veículos equipados com full self-driving devido a preocupações de que o software levasse seus veículos a desobedecer semáforos, sinais de parada e limites de velocidade.

O descumprimento das leis de trânsito, segundo documentos publicados pela agência de segurança, “pode aumentar o risco de colisão se o motorista não intervir”. A Tesla disse que corrigiu os problemas com uma atualização de software sem fio, abordando remotamente o risco.

Enquanto a Tesla aprimorava constantemente seu software de assistência ao motorista, ela também tomou a medida sem precedentes de eliminar seus sensores de radar de carros novos e desativá-los de veículos já na estrada — privando-os de um sensor crítico enquanto Musk impulsionou um conjunto de hardware mais simples em meio à falta global de chips de computador. “Somente radares de alta resolução são relevantes”, disse Musk no ano passado.

Recentemente, a empresa tomou medidas para reintroduzir sensores de radar, de acordo com registros do governo relatados pela primeira vez pela Electrek.

Em uma apresentação em março, a Tesla alegou que a condução autônoma total trava a uma taxa pelo menos cinco vezes menor do que os veículos em direção normal, em uma comparação de quilômetros percorridos por colisão. Essa afirmação e a caracterização de Musk do piloto automático como “inequivocamente mais seguro” são impossíveis de testar sem acesso aos dados detalhados que a Tesla possui.

O piloto automático, em grande parte um sistema rodoviário, opera em um ambiente menos complexo do que a variedade de situações vivenciadas por um usuário típico da estrada.

Não está claro qual dos sistemas estava em uso nos acidentes fatais: a Tesla pediu à NHTSA que não divulgasse essa informação. Na seção dos dados da NHTSA especificando a versão do software, os incidentes da Tesla são lidos, em letras maiúsculas: “pode conter informações comerciais confidenciais”.

Tanto o piloto automático quanto a direção totalmente autônoma estão sob escrutínio nos últimos anos. O secretário de transporte Pete Buttigieg disse à Associated Press no mês passado que o piloto automático não é um nome apropriado “quando as letras miúdas dizem que você precisa ter as mãos no volante e os olhos na estrada o tempo todo”.

A NHTSA abriu várias investigações sobre as falhas da Tesla e outros problemas com seu software de assistência ao motorista. Um deles se concentrou na “frenagem fantasma”, um fenômeno no qual os veículos desaceleram abruptamente devido a perigos imaginários.

Em um caso no ano passado, detalhado pelo The Intercept, um Tesla Model S supostamente usando assistência ao motorista freou repentinamente no trânsito na ponte São Francisco-Baía de Oakland, resultando em um engavetamento de oito veículos que deixou nove pessoas feridas, incluindo uma criança de 2 anos.

Em outras reclamações apresentadas à NHTSA, os proprietários dizem que os carros pisaram no freio ao encontrar caminhões nas pistas que se aproximavam.

Muitas falhas envolvem configurações e condições semelhantes. A NHTSA recebeu mais de uma dúzia de relatórios de Teslas batendo em veículos de emergência estacionados enquanto estavam no piloto automático. No ano passado, a NHTSA atualizou sua investigação desses incidentes para uma “análise de engenharia”.

Também no ano passado, a NHTSA abriu duas investigações especiais consecutivas sobre acidentes fatais envolvendo veículos e motociclistas da Tesla. Um deles ocorreu em Utah, quando um motociclista em uma Harley-Davidson viajava em uma pista na Interestadual 15, fora de Salt Lake City, pouco depois da 1h, quando foi atingida por trás por um Tesla no piloto automático, segundo as autoridades.

“O motorista do Tesla não viu o motociclista e colidiu com a traseira da motocicleta, que jogou o motociclista para fora da moto”, disse o Departamento de Segurança Pública de Utah. O motociclista morreu no local, disseram as autoridades.

“É muito perigoso para as motocicletas estar perto de Teslas”, disse Cummings.

Das centenas de acidentes de assistência ao motorista da Tesla, a NHTSA concentrou-se em cerca de 40 incidentes para uma análise mais aprofundada, na esperança de obter uma visão mais profunda de como a tecnologia opera. Entre eles estava o acidente na Carolina do Norte envolvendo Mitchell, o aluno que desembarcava do ônibus escolar.

Depois disso, Mitchell acordou no hospital sem se lembrar do que aconteceu. Ele ainda não entendeu a seriedade disso, disse sua tia. Seus problemas de memória o estão atrapalhando enquanto ele tenta voltar à escola. A agência local WRAL informou que o impacto do acidente quebrou o para-brisa do Tesla.

O motorista do Tesla, Howard G. Yee, foi acusado de vários delitos no acidente, incluindo direção imprudente, ultrapassar um ônibus escolar parado e bater em uma pessoa, um crime de classe I, segundo o sargento da Patrulha Rodoviária Estadual da Carolina do Norte, Marcus Bethea.

As autoridades disseram que Yee prendeu pesos no volante para induzir o piloto automático a registrar a presença das mãos do motorista: o piloto automático desativa as funções se a pressão na direção não for aplicada após um longo período. Yee não respondeu a um pedido de comentário.

A NHTSA continua investigando o acidente e uma porta-voz da agência se recusou a oferecer mais detalhes, citando a investigação em andamento. A Tesla pediu à agência que excluísse o resumo da empresa sobre o incidente, dizendo que “pode conter informações comerciais confidenciais”.

Lynch disse que sua família mantém Yee em seus pensamentos e considera suas ações como um erro motivado pela confiança excessiva na tecnologia, o que os especialistas chamam de “complacência de automação”.

“Não queremos que a vida dele seja arruinada por causa desse estúpido acidente”, disse ela.

Mas quando questionado sobre Musk, Lynch teve palavras mais duras: “Acho que eles precisam proibir a direção automatizada”, disse. “Acho que deveria ser proibido.

https://www.estadao.com.br/economia/acidentes-saldo-piloto-automatico-tesla/

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O que médico britânico aprendeu em posto de saúde de Pernambuco e levou para Londres

O pesquisador e clínico geral Matthew Harris passou quatro anos num posto de saúde de uma cidade pernambucana. Ao voltar para casa, resolveu replicar a Estratégia Saúde da Família no sistema público britânico.

Folha/BBC News Brasil – 8.jun.2023 

O médico inglês Matthew Harris hoje trabalha, em Londres, em um projeto inspirado no que aprendeu com o SUS (Sistema Único de Saúde) brasileiro há mais de 20 anos.

Um ano depois de se formar em medicina no Reino Unido, ele se mudou para Pernambuco em 1999 e, após passar pelas provas para revalidar o diploma no país, começou a atuar como clínico geral de uma unidade de saúde no município de Camaragibe, na região metropolitana de Recife.

Harris permaneceu na clínica por quatro anos. À época, ele não tinha ideia de que a experiência mudaria a carreira –e até provocaria transformações no Serviço Nacional de Saúde (NHS, na sigla em inglês) do Reino Unido duas décadas depois.

O médico Matthew Harris passou quatro anos trabalhando em Camaragibe (PE) – Giovanni Bello/BBC News Brasil

Atualmente, ele é pesquisador da Escola de Saúde Pública do Imperial College de Londres e lidera um projeto que pretende implementar os agentes comunitários de saúde, algo que existe no SUS há décadas, em território britânico.

O médico não faz cerimônia para dizer que essa iniciativa é 100% inspirada na Estratégia Saúde da Família (ESF), um programa criado pelo Ministério da Saúde do Brasil nos anos 1990 que segue ativo até hoje – e traz resultados muito celebrados por especialistas da área.

Harris recebeu a equipe da BBC News Brasil numa sala do Departamento de Atenção Primária e Saúde Pública da universidade, localizada no oeste da capital da Inglaterra, para compartilhar um pouco de sua história profissional e da iniciativa britânica inspirada no SUS.

Os primeiros passos

O clínico geral conta que as condições de Camaragibe não eram as melhores lá em 1999. “Eu trabalhava numa área rural com cerca de 5.000 residentes”, contextualiza.

Harris classifica as primeiras experiências práticas que teve na Medicina como “desafiadoras”.

“Eu acabara de sair da universidade, não possuía confiança absoluta para falar português e tinha que fazer meu trabalho numa comunidade muito pobre do Nordeste brasileiro”, lembra ele.

“A clínica possuía apenas alguns poucos medicamentos enviados pela prefeitura. Era uma situação muito diferente da que estava acostumado no Reino Unido.”

Apesar de todas as dificuldades, Harris rapidamente percebeu algo primordial. “Apesar de todos os desafios e da falta de recursos, ainda assim podemos fazer coisas extraordinárias na atenção básica de saúde”, diz.

E, na visão dele, quem faz o elo dessa cadeia da saúde pública brasileira é um profissional chamado agente comunitário.

Esses indivíduos representam a pedra fundamental da ESF (Estratégia Saúde da Família). Criado nos anos 1990, o programa se baseia na premissa de os tais agentes visitarem a casa das pessoas de uma determinada região, de um bairro ou de uma cidade.

O objetivo é entender e acompanhar os principais problemas de saúde que afligem aqueles indivíduos –e, claro, levar essas informações para os enfermeiros, auxiliares de enfermagem, médicos da família e clínicos gerais que estão na Unidade Básica de Saúde responsável por aquela localidade.

Procurado pela reportagem, o Ministério da Saúde informou que o país conta atualmente com 49.172 equipes de Saúde da Família, que são responsáveis por atender 167 milhões de cidadãos cadastrados (ou 79% da população total) nos serviços de atenção primária, que são considerados pelo governo como “a porta de entrada para o SUS”.

“Quando cheguei, não tinha a mínima noção de como o sistema de saúde pública do Brasil estava baseado nesses agentes comunitários”, confessa Harris.

O médico inglês notou aos poucos como as informações obtidas por esses profissionais eram úteis no dia a dia. “Eles conhecem e compreendem o local onde atuam profundamente, nos mínimos detalhes”, chama a atenção.

“Os agentes comunitários são os primeiros a saber sobre qualquer mudança que acontece. E essas informações são usadas de forma inteligente, antes que os problemas se tornem grandes demais”, complementa.

Os agentes comunitários passam por cursos técnicos de formação organizados por prefeituras e outros órgãos em que aprendem sobre promoção de saúde e prevenção de doenças.

Eles vão usar essas informações durante as entrevistas e conversas feitas nas visitas domiciliares. Se possuírem formação e tiverem a supervisão de um enfermeiro ou médico, eles também podem realizar exames simples, como medir a temperatura corporal, a glicemia e a pressão arterial das pessoas, ou averiguar se tratamentos medicamentosos contra doenças crônicas, como hipertensão e diabetes, estão sendo tomados.

Vidas salvas pela informação

Questionado pela BBC News Brasil sobre episódios específicos que marcaram sua carreira, Harris lembra da história de um menino de 11 anos que foi parar no pronto-socorro.

“Ele se queixava de dor de cabeça há vários dias. Infelizmente, o serviço de emergência só podia oferecer paracetamol e ‘torcer’ para que ele melhorasse”, relata.

Mas o trabalho de um agente comunitário mudou essa história. “Durante uma visita de rotina, o profissional notou que o menino continuava mal e nos alertou. Os olhos incharam e ele parecia cada vez pior”, conta.

Quando o garoto foi trazido para uma consulta, Harris notou duas coisas: a pressão arterial estava alterada e a criança apresentava um ferimento no pé.

“Ao juntar todas essas peças, pude fazer o diagnóstico de glomerulonefrite pós-estreptocócica”, completa Harris.

Essa doença de nome esquisito é uma complicação que acomete os rins de pacientes que tiveram uma infecção pela bactéria Streptococcus.

No caso desse episódio em Pernambuco, o médico suspeitou da condição ao somar as pistas do corte no pé (um indício de infecção bacteriana) com a pressão baixa e a dor de cabeça (que sugerem algo de errado nos rins).

“Se ele não fosse diagnosticado a tempo, provavelmente teria falência renal e acabaria morrendo”, diz Harris. “Mas a detecção rápida a partir do trabalho do agente comunitário literalmente salvou a vida daquele garoto.”

De volta à casa

Após quatro anos em terras pernambucanas, Harris retornou ao Reino Unido em 2003 com pelo menos uma certeza na bagagem: era necessário replicar a ESF no serviço de saúde pública britânico.

E uma tarefa dessa magnitude carrega uma série de simbolismos e significados.

Um dos principais deles é o fato de a criação do SUS no Brasil lá no final dos anos 1980 ter sido inspirada no NHS do Reino Unido –e, agora, esses papéis se inverterem.

“Mesmo antes de voltar, eu já sabia imediatamente que aprendera algo com os brasileiros e precisava compartilhar isso. Eu necessitava dividir e abrir os olhos dos especialistas sobre os agentes comunitários”, pontua.

“Todos precisam conhecer o modelo de sucesso do Brasil”, recomenda o pesquisador.

Mas a missão mostrou-se mais árdua do que ele imaginava.

“Infelizmente, levei entre 10 e 15 anos para explicar a importância de um sistema como o ESF porque as pessoas daqui não estão acostumadas com a realidade brasileira e têm representações erradas sobre o país”, lamenta ele.

“Mas a verdade é que as realidades de Brasil e Reino Unido estão mais próximas do que se imagina. Há mais coisas que nos unem do que elementos que nos separam”, acredita o médico.

“É claro que não temos aqui doenças como leptospirose, esquistossomose e dengue. Mas também sofremos com diabetes, tuberculose, hipertensão, depressão, asma, diarreia…”, compara.

Harris avalia que um dos fatores que ajudou a acelerar processos e permitiu a instalação de uma ESF britânica preliminar foi a pandemia de Covid-19.

“Nós argumentamos que precisávamos de um sistema de agentes comunitários de saúde como o do Brasil para acompanhar as pessoas de perto”, destaca.

E assim a iniciativa ganhou vida: o projeto-piloto começou em Churchill Gardens Estate, um conjunto habitacional em Westminster, no centro de Londres.

Os primeiros resultados

Segundo Harris, a ideia inicial era checar se as pessoas estariam dispostas a abrir as portas de suas casas para conversar com os agentes de saúde.

“E logo nos seis primeiros meses nós percebemos que isso não apenas era possível, como também os moradores aceitavam muito bem a abordagem”, informa.

O médico calcula que, no primeiro ano e meio do projeto, cerca de 70% das moradias do bairro receberam ao menos uma visita dos profissionais da saúde.

“Os agentes conseguem estabelecer uma relação com as pessoas e entender realmente quais são as necessidades dela. O ponto importante é que eles próprios moram ali, então se veem como parte daquela comunidade”, destaca.

Harris diz que a equipe fez alguns estudos para medir os resultados práticos da experiência.

“Quando comparamos os lares que receberam as visitas com aqueles que não fazem parte do projeto-piloto, percebemos que o primeiro grupo participou mais de campanhas de vacinação e fez exames de rotina com maior frequência”, conta.

“Claro, não podemos provar que essa mudança está totalmente relacionada aos agentes de saúde. Mas é no mínimo sugestivo que isso tenha ocorrido a partir do início de trabalho desses profissionais”, complementa.

De acordo com o especialista, os funcionários do programa são capacitados para identificar e até resolver os principais problemas de saúde que estão acometendo cada família.

A partir disso, os indivíduos se veem mais livres e empoderados para cuidar de outros aspectos importantes, mas que estavam negligenciados, como atualizar a carteirinha de vacinação ou fazer os exames que detectam um câncer em estágio precoce.

Aliás, o treinamento oferecido aos agentes comunitários britânicos foi basicamente o mesmo dado aos profissionais brasileiros.

Mas Harris acredita que os efeitos práticos de um projeto como o ESF vão além do aumento na taxa de imunizações ou de checkups.

“Em Churchill Gardens Estate, por exemplo, nós observamos que as pessoas moravam nas mesmas casas há muitos anos, mas não conheciam os vizinhos e nem se falavam. Porém, com as visitas dos agentes comunitários de porta em porta, houve uma mudança de atmosfera. Os moradores passaram a conversar mais e a marcar programas em conjunto, como um café”, acrescenta.

O médico entende que a estratégia criou uma espécie de “coesão social” – algo muito parecido ao que ocorreu no próprio Brasil nas regiões atendidas há décadas pelo ESF.

O projeto-piloto já foi expandido para outras áreas de Londres e deve começar a ser aplicado em bairros de locais como Yorkshire e Liverpool.

Baixo custo, alto valor

Harris aponta que os países mais desenvolvidos, como o próprio Reino Unido, não prestam muita atenção ao que é feito em nações em desenvolvimento.

“Nossa tendência é acompanhar de perto o que acontece em lugares como Estados Unidos, Alemanha, Austrália ou Nova Zelândia e praticamente ignorar as políticas dos países da América Latina, da África e do Sudeste Asiático. Mas não há nenhuma boa razão para que isso seja assim”, protesta.

Para ele, o trabalho dos agentes comunitários de saúde é um exemplo desse cenário.

“A ESF do Brasil é um programa altamente custo-efetivo e ajuda a resolver os problemas mais comuns ao acompanhar as famílias de uma forma holística no lugar mais importante de todos: a casa delas”, afirma Harris.

O especialista calcula que cerca de 40% das necessidades de saúde das pessoas podem ser atendidas pelos agentes comunitários durante as conversas e as visitas domiciliares.

“Eles podem falar das vacinas, ficar atentos a sintomas de doenças crônicas [como hipertensão e diabetes], lidar com feridas, sugerir a realização de exames de rotina ou simplesmente checar se a pessoa está tomando os remédios corretamente”, exemplifica.

Por fim, o pesquisador do Imperial College destaca como, em determinadas situações, soluções simples e baratas em saúde podem trazer resultados extraordinários.

“É claro que temos espaço para tecnologias sofisticadas, que expandem as fronteiras da Medicina”, opina.

“Mas algumas vezes eu sinto que vamos além do necessário e nos esquecemos que as intervenções mais básicas podem fazer toda a diferença”, conclui ele.

https://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2023/06/o-que-medico-britanico-aprendeu-em-posto-de-saude-de-pernambuco-e-levou-para-londres.shtml

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Apple reinventa o computador de novo com seus óculos de realidade virtual

Vision Pro indica que computador do futuro estará onde pousa o olhar.

Pedro Doria – Estadão -08/06/2023

O Apple Vision Pro, óculos de realidade mista que o CEO Tim Cook anunciou na segunda-feira, 5, a uma plateia na sede da empresa, não é novo. A Microsoft tem já há vários anos seu HoloLens, a Meta também já cumpriu alguns ciclos com os Oculus Quest. É mais um. Só que não. O novo aparelho da Apple é algo completamente distinto do que oferece a concorrência. Ele reinventa radicalmente como usamos, como pensamos computador. Ele mostra que, mais de dez anos após sua morte, o espírito de Steve Jobs segue presente na companhia de Cupertino.

Porque é isto que a Apple faz. A Xerox já tinha computadores com ícones e mouse — eram um fracasso comercial. Jobs visitou os laboratórios da empresa, reempacotou tudo no Macintosh, lançado em 1984. Era caro, mas foi um sucesso imediato. Poucos anos depois, ninguém mais usava computadores escrevendo códigos na tela. Já existiam players de música digital — mas quando o iPod saiu, todo mundo entendeu que queria um. Explodiram. Nokias e Blackberries já se insinuavam como celulares capazes de usar a internet, mas foi o iPhone que mostrou como é um smartphone — reinventando o computador como um aparelho de mão.

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O método Apple é este. Na empresa, não inventam nada novo. Fazem algo bastante mais difícil: dão sentido ao que ainda é novo. A Microsoft sugeriu que seu HoloLens poderia servir para videogames. Terminou encontrando mercado em técnicos que consertam maquinário delicado em grandes plataformas de petróleo e estruturas do tipo. É útil ter informação sobre o que estão fazendo na tela enquanto as duas mãos seguem ocupadas. Na Meta, Mark Zuckerberg ainda tenta convencer alguém a entrar no metaverso. Fora dos departamentos de marketing endinheirados, ninguém comprou a ideia.

Os óculos da Apple têm ambições muito mais simples e, ao mesmo tempo, transformadoras. Filmar as crianças em 3D e depois assistir num ambiente de realidade virtual a cena que capturamos. Poder trabalhar com a tela do tamanho que quisermos, não importa onde. Uma tela pequena e central para bater textos, uma ampla e detalhada para editar imagens. Bote os óculos e crie à sua frente, na sala mesmo, a tela que deseja. E, claro, cinema. Cinema de verdade em casa, cinema imersivo, o Cinemascope de volta, abraçando a gente para rever Lawrence da Arábia ou 2001 ou até mesmo Avatar. Deslumbres visuais.

A Apple batizou sua nova ideia de “computação espacial”. Termos como realidade virtual ou aumentada são pouco práticos. A capacidade de usar o espaço em que estamos para que toda a área possa ser tela, em que mexemos os dedos no ar qual maestros enquanto manipulamos objetos digitais, tudo faz sentido. Após o computador se tornar portátil, daí ir para a palma da mão, o caminho natural estava dado. O computador estará onde pousa o olhar.

Os óculos podem ser, tecnicamente, a mesma tecnologia que os de Microsoft e Meta. Mas a Apple entendeu para que servem.

https://www.estadao.com.br/link/pedro-doria/apple-reinventa-o-computador-de-novo-com-seus-oculos-de-realidade-virtual/

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Custo Brasil chega a R$ 1,7 trilhão, diz novo estudo do MBC e MDIC

De acordo com o levantamento, os entraves para a produção no país chegam a 19,5% do PIB

Luciano Pádua – Exame – 17 de maio de 2023 .

Burocracia, infraestrutura deficiente, dificuldade de pagar impostos, falta de pessoal qualificado… Somadas, essas ineficiências custam anualmente R$ 1,7 trilhão ao país. É o Custo Brasil, medido pelo Movimento Brasil Competitivo (MBC) em parceria com o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio (MDIC). Os números serão apresentados nesta quarta-feira, 17, no Fórum da Competitividade, do MBC, que conta com a parceria de mídia da EXAME.

A cifra se aproxima de um quinto do PIB nacional – 19,5% – e mostra que a economia brasileira precisa trabalhar em questões crônicas para facilitar o ambiente de negócios e criar um ciclo virtuoso de mais oportunidades, empregos e renda.

A mandala, criada pelo MBC em 2020, busca medir os impactos da burocracia em 12 dimensões, que representam o ciclo de vida de uma empresa. Os pesquisadores pegam o desempenho da média dos países da OCDE nesses tópicos e comparam os resultados com o Brasil. A diferença negativa compõe o Custo Brasil.

Decompondo a mandala, chamam a atenção três dimensões que, somadas, correspondem a mais da metade do Custo Brasil:

  • Empregar capital humano
  • Honrar tributos
  • Dispor da infraestrutura

Rogério Caiuby, conselheiro executivo do MBC, diz que o dado deste ano é ambíguo: houve aumento de R$ 200 bilhões no Custo Brasil, e ao mesmo tempo a proporção desse custo na relação com o PIB brasileiro caiu de 22% para 19,5%.

“Custo Brasil são todos aqueles fatores que tiram a competitividade de uma empresa”, afirma Caiuby. “Quando tenho uma logística ruim para transportar meu produto, gasto mais dinheiro do que precisaria. Quando tenho dificuldade de honrar meus tributos tenho que ter uma estrutura administrativa que não adiciona valor ao produto.”

Andando de lado

De mais a mais, ele avalia que o país “andou de lado”. Um destaque positivo no comparativo com 2020 foi o aumento de acesso à banda larga. “Avançamos bem. Não estamos no mesmo patamar da OCDE, mas reduzimos em 30% o gap”, afirma o conselheiro-executivo do MBC.

Por outro lado, o Brasil, embora tenha avançado, teve queda nas métricas de custo logístico na comparação com a OCDE. “A beleza do estudo é que não compara a gente conosco, mas com nossos concorrentes”, diz Cauiby. “O Plano Nacional de Logística está bem estruturado, faz reequilíbrio da matriz logística. O que precisamos é tirar do papel.”

Segundo Caiuby, o enfrentamento aos custos que diminuem a competitividade das empresas brasileiras terá de ser feito por meio da parceria dos setores público – incluídos aqui o Executivo e o Legislativo — e privado e a capacidade de avaliação sobre o que funcionou ou não.

“A lei do gás, por exemplo, não saiu do papel, apesar de ter sido aprovada. Ela precisa ser aprovada também em nível estadual”, afirma. “Mesmo reformas estruturantes têm um tempo para ser implementadas. O importante é manter o observatório.”

No projeto inicial, de 2020, o MBC já havia identificado projetos que poderiam diminuir o Custo Brasil em R$ 500 bilhões. Agora, em maio, assinará um novo acordo de cooperação com o MDIC para mapear outras propostas que possam reduzir em R$ 300 bilhões adicionais.

‘One in, one out’

Segundo a Secretaria de Competitividade e Regulação do MDIC, Andrea Macera, com os novos dados do estudo, a ideia é combater de forma estratégica e dentro do escopo da pasta o Custo Brasil.

“É essencial ter um indicador. Só podemos mudar o que medimos e monitoramos. A mandala do custo Brasil tem 12 indicadores, que representam o ciclo de vida de uma empresa”, diz Macera.

Segundo ela, o primeiro passo é monitorar e diagnosticar o problema — que se encerra com o lançamento do novo estudo. A segunda etapa vai até meados de junho: o governo recebe indicações de setores da economia e da sociedade civil em uma consulta pública desde abril (veja aqui). Finalizadas as contribuições, a ideia é incorporar as sugestões e montar um observatório do Custo Brasil junto com o MBC no segundo semestre.

A partir da consulta pública, a secretária prevê criar uma metodologia de combate à burocracia com metas anuais até 2026. Ela divide a tarefa em três dimensões:

  • Dialogar com diferentes órgãos os atos normativos que podem derrubar barreiras ao mercado
  • Guilhotina regulatória para eliminar os atos que trazem custo excessivo
  • One in, one out: a construção de regras para racionalizar o custo regulatório

“A lógica do one in, one out é que cada real de custo o órgão em questão tem de eliminar outro real de custo das normas antigas”, afirma Macera.

Segundo a secretária, desde 2006 as agências reguladoras receberam capacitação e evoluíram para dar conta dos desafios regulatórios. “Em nosso mapeamento interno, há mais de 130 órgãos reguladores no Executivo federal”, diz Macera. Ela lembra do Pro-Reg, programa que de 2007 a 2013 tentou melhorar a qualidade regulatória no Brasil em uma parceria com o Banco Interamericano de Desenvolvimento. “Agora queremos um novo Pro-Reg”, afirma a secretária.

A referência diz respeito a secretarias do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), do Ibama ou do Ministério de Meio Ambiente, dentre tantas outras com poder regulatório — e cuja racionalização do estoque de normativos pode auxiliar em novos negócios e diminuir as tensões entre o público e o privado.

A ideia é introduzir ainda mais na gestão as boas práticas regulatórias. Alguns instrumentos – velhos conhecidos das agências reguladoras – como a análise de impacto regulatório e revisão do estoque regulatório são vistos como essenciais nessa jornada. 

Luciano Pádua

Editor de Macroeconomia. Formado pela UFRJ e mestre em administração pública pela Harvard Kennedy School. Tem passagens pelo JOTA, revista VEJA, Jornal do Brasil e O Antagonista. Atualmente, é responsável pelas editorias EXAME Agro, Brasil, Economia e Mundo.

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