Autoridades chinesas criam lista de tendências de desenvolvimento em IA generativa

A lista de 41 itens inclui algoritmos para inovações como geração e identificação de voz, atendimento ao cliente inteligente e fusão facial

Exame/China2Brazil – 21 de junho de 2023 

A autoridade de ciberespaço da China divulgou uma lista de 41 algoritmos de serviços de síntese profunda desenvolvidos por empresas de internet chinesas. Esse movimento está ajudando a estabelecer um arcabouço legal para a inteligência artificial generativa (IA), um setor de elevada tecnologia altamente competitivo que está experimentando um rápido desenvolvimento na China.

A lista de 41 itens inclui algoritmos para inovações em IA, como big data, geração e identificação de gráficos, geração de vídeo, geração e identificação de voz, atendimento ao cliente inteligente e fusão facial. Isso destaca os avanços das empresas de tecnologia chinesas em diferentes áreas de IA.

Os gigantes da tecnologia chinesa, como Baidu, Tencent, Alibaba, ByteDance, iFlyTek e Meitu, estão entre as empresas que desenvolveram essas tecnologias, de acordo com o Global Times.

Utilização de IA para voz e rosto

Essas inovações tecnológicas especificam os cenários de aplicação para cada algoritmo individual. Por exemplo, a tecnologia de identificação de voz desenvolvida pela iFlyTek pode ser aplicada em cenários de geração de voz, permitindo que os desenvolvedores extraiam os caracteres da voz a partir de gravações e os combinem com algoritmos para identificar pequenos trechos de voz e gerar informações em texto.

Outro exemplo é o algoritmo de fusão facial desenvolvido pela Bighead Bros, com sede em Shenzhen, que possui o aplicativo de vídeo Doupai. Esse algoritmo permite a fusão da imagem enviada pelos usuários com uma imagem humana específica, gerando uma imagem facial e um vídeo que exibem as características faciais dos usuários.

A tecnologia de síntese profunda envolve aprendizado profundo, aprendizado de máquina e outros sistemas de processamento algorítmico e é conhecida tecnicamente como “deepfake”. Ela utiliza conjuntos de dados mistos e algoritmos de IA para produzir conteúdo sintético, porém “falso”. Essa tecnologia ganhou popularidade rapidamente na China, especialmente após o sucesso mundial do ChatGPT, um chatbot gerado por IA que também é considerado uma aplicação avançada da tecnologia deepfake.

“A lista é uma resposta oportuna aos novos desenvolvimentos no mercado de IA. Ela esclarece quais aplicações de algoritmos são legítimas, quem pode usá-las e em quais casos. Isso é importante para o crescimento regulamentado dessa tecnologia de duplo sentido”, afirmou Wang Peng, pesquisador da Academia de Ciências Sociais de Pequim, ao Global Times.

Em meio à acirrada competição global e ao bloqueio liderado pelos EUA contra o avanço tecnológico da China, o arcabouço legal estabelecido fornece uma base para que as empresas de tecnologia chinesas possam aplicar modelos de big data e aprimorar seus algoritmos de IA. Isso impulsionará a ampla aplicação das tecnologias relevantes, conforme observado por Wang.

Regulação de algoritmos fortalece segurança de dados

Os especialistas destacam que a regulação da aplicação desses algoritmos é fundamental para fortalecer a segurança dos dados. A publicação desses 41 algoritmos, juntamente com outras regulamentações emitidas nos últimos meses sobre conteúdo gerado por IA, tem o objetivo de evitar potenciais abusos da tecnologia deepfake, que já apresentou desafios de supervisão, como violação de direitos autorais, práticas ilegais como fraude e até mesmo ameaças à segurança nacional e estabilidade social.

Essa iniciativa está em conformidade com o regulamento de gerenciamento da síntese profunda de serviços de informações da internet, que entrou em vigor em janeiro de 2023. Segundo o regulamento, os provedores de serviços de síntese profunda com características de opinião pública ou capacidades de mobilização social devem registrar seus serviços. Qualquer alteração ou cancelamento desses serviços de síntese profunda deve seguir os procedimentos estabelecidos.

Mais sobre:ChinaInteligência artificial

China2Brazil

AgênciaChina2Brazil é uma plataforma de informações sobre economia, tecnologia, empreendedorismo e cultura da China

https://exame.com/inteligencia-artificial/autoridades-chinesas-criam-lista-de-tendencias-de-desenvolvimento-em-ia-generativa/

Se você tiver interesse e ainda não estiver inscrito para receber diariamente as postagens de O Novo Normal, basta clicar no link: https://chat.whatsapp.com/BrKMDzP2KP52ExU8rOIB3s(14) para WhatsApp ou https://t.me/joinchat/SS-ZohzFUUv10nopMVTs-w  para Telegram. Este é um grupo restrito para postagens diárias de Evandro Milet. Além dos artigos neste blog, outros artigos de Evandro Milet com outras temáticas, publicados nos fins de semana no Portal ES360, encontram-se em http://evandromilet.com.br/

O bonde da IA generativa está passando e convida ao embarque

A capacidade da inteligência artificial generativa de aumentar a produtividade é o cerne da questão e o motivo pelo qual é tão significativa. O Brasil não pode perder o bonde dessa vez

Colunista Eduardo Peixoto

Eduardo Peixoto – MIT Sloan Review – 07 de Junho

Artigo O bonde da IA generativa está passando e convida ao embarque

Olha o bonde…

Aquela locomotiva global do surgimento e expansão da internet, no final dos anos 1990, perdemos. Entre os emergentes, o cenário foi capturado pela Índia, como destino-chave para prestação de serviços de TI nas áreas de desenvolvimento de software, suporte técnico, terceirização de processos de negócios e consultoria. O país adotou medidas para impulsionar sua indústria, com implementação de políticas favoráveis e investimentos em infraestrutura e educação em tecnologia, e ganhou reconhecimento internacional. O Brasil demorou para embarcar.

Passou outro…

O bonde da transformação digital, durante os anos mais críticos da pandemia de covid-19, passou veloz. Mas faltou gente preparada e muitos não conseguiram subir. Empresas foram forçadas a se adaptar rapidamente à digitalização para sobreviver. As pequenas e médias enfrentaram dificuldades e ainda lidam com desafios na implementação de soluções digitais, sem falar das que ficaram para trás na estação, por não se manterem competitivas.

Lá vem mais um…

E o bonde, hoje, tem motorneiro automático, múltiplos sensores de movimento, comandos de voz e um sem-fim de funcionalidades integradas a uma inteligência artificial. O bonde, hoje, é um “Tesla” – com todos os seus avanços e falhas – copilotos quase tão bons quanto nós, os pilotos.

O mundo tem testemunhado avanços significativos no campo da inteligência artificial (IA) nos últimos anos e, mais recentemente, da IA generativa. Esta subcategoria da IA se concentra na capacidade de criar, simular e gerar novos conteúdos, como imagens, músicas, textos e até mesmo interações humanas. Ao contrário da tradicional, programada para seguir regras e padrões predefinidos, a gerativa tem a capacidade de aprender com grandes quantidades de dados e criar algo novo e original.

Quando aplicada à produtividade, a IA generativa pode desempenhar papel fundamental na automação de tarefas repetitivas e na geração de ideias inovadoras. Imagine um cenário onde os profissionais possam contar com assistentes virtuais inteligentes capazes de realizar pesquisas complexas, analisar dados extensos e apresentar insights acionáveis. Isso permitiria às equipes se concentrarem em atividades de maior valor agregado, impulsionando a produtividade e a eficiência.

A capacidade inerente da inteligência artificial generativa de aumentar a nossa produtividade é o cerne da questão e o motivo pelo qual é tão significativa. Precisamos concentrar esforços, estudos e investimentos nesta área, porque a era da IA generativa chegou – e transformará tudo. Este é o título do position paper recém-publicado pelo CESAR – explico mais ao fim do artigo.

É uma revolução na forma como produzimos e consumimos informações. Haverá uma rápida evolução de como as pessoas irão se encaixar nessa nova maneira de trabalhar e criar coisas com apoio da IA, incluindo a ascensão de novas funções de trabalho, como engenheiros de prompt, analistas de ética voltada para IA, designers, artistas, entre outros. Para Andrew White, do Gartner Group, “a IA generativa pode ser o gatilho para a onda de produtividade de que precisamos, e é o suficiente para mudar nosso foco da tecnologia de uso geral, para a tecnologia de uso específico”.

Estamos indo, rapidamente, em direção a uma nova realidade, onde nenhuma empresa em quase nenhum setor poderá competir e sobreviver sem ter, em seu time, pessoas capazes de programar com ferramentas low code/no code apoiadas por IA. Além disso, com os algoritmos avançados e modelos de aprendizado profundo, poderemos explorar novas possibilidades em campos como design, arte e música. Uma tecnologia para ajudar a criar soluções inovadoras e rupturas, impulsionando o crescimento e a competitividade das empresas brasileiras.

Protagonismo

O paper A era da IA generativa chegou – e transformará tudo reúne opiniões de desenvolvedores, engenheiros de software e designers do centro de inovação e educação pernambucano e professores da CESAR School. O material também traz o posicionamento da instituição em relação às mudanças causadas pela IA generativa, em tecnologias como ChatGPT e Dall-E 2, nas áreas de design, educação e tecnologia, especialmente desenvolvimento de software. O objetivo do CESAR é ser modelo no desenvolvimento de metodologias capazes de contribuir para o mercado direcionar seus negócios com mais assertividade.

O CESAR investirá R$ 1,6 milhão em estudos aplicados ao tema e promoverá eventos para instigar debates sobre IA generativa, workshops para o ecossistema e o Prêmio de Criatividade com IA. Cursos de extensão e de especialização na área também serão criados, assim como o desenvolvimento de experimentos internos e a produção de white papers e artigos científicos. O Centro pretende ainda liderar a educação de uma nova geração para os empregos do futuro, formando estudantes e requalificando profissionais para otimizar suas perspectivas para novos papéis resultantes do progresso tecnológico.

Aproveitar todo o potencial da IA generativa requer visão de longo prazo e compromisso contínuo com a inovação. Com investimentos adequados em educação, capacitação e parcerias estratégicas e sem perder de vista as questões éticas e de segurança associadas a essa tecnologia, com regulamentações claras e mecanismos de controle, poderemos posicionar o Brasil como protagonista nesta era. Poderemos, enfim, pegar o bonde da história.

Colunista

Colunista Eduardo Peixoto

Eduardo Peixoto

Eduardo Peixoto é CEO do CESAR Centro de Inovação e professor da CESAR School. Mestre em comunicação de dados pela Technical University of Eindhoven-Holanda, com MBA na Kellogg School of Management e na Columbia Business School, atua há 30 anos na área de tecnologias da informação e comunicação (TICs). Trabalhou como executivo no exterior, na Philips da Holanda e na Ascom Business System AG (Suíça).

https://mitsloanreview.com.br/post/o-bonde-da-ia-generativa-esta-passando-e-convida-ao-embarque

Se você tiver interesse e ainda não estiver inscrito para receber diariamente as postagens de O Novo Normal, basta clicar no link: https://chat.whatsapp.com/BrKMDzP2KP52ExU8rOIB3s(14) para WhatsApp ou https://t.me/joinchat/SS-ZohzFUUv10nopMVTs-w  para Telegram. Este é um grupo restrito para postagens diárias de Evandro Milet. Além dos artigos neste blog, outros artigos de Evandro Milet com outras temáticas, publicados nos fins de semana no Portal ES360, encontram-se em http://evandromilet.com.br/

FT: Noruega prepara mineração de metais para baterias no leito oceânico

Agência ambiental do país se opõe totalmente; governo norueguês corre para apresentar ao Parlamento nas próximas duas semanas uma proposta para abrir a área oceânica quase do tamanho da Alemanha

Por Kenza Bryan e Richard Milne – Valor/Financial Times 09/06/2023

A Noruega planeja abrir uma área oceânica quase do tamanho da Alemanha à mineração de águas profundas, tentando tornar-se o primeiro país a extrair metais para baterias de seu leito oceânico.

O ministro da Energia do país corre para apresentar ao Parlamento nas próximas duas semanas uma proposta para abrir a enorme área para a exploração e extração. Depois, o plano seria submetido a votação no Parlamento no quarto trimestre.

— Foto: Arte/Valor

No entanto, Oslo terá pela frente uma batalha contra ambientalistas e empresas pesqueiras quanto às propostas, além de correr o risco de também entrar em disputa com outros países enquanto tenta viabilizar a mineração perto de Svalbard, um arquipélago norueguês no Ártico. A Noruega argumenta ter direitos exclusivos de mineração em uma área oceânica maior do que a reconhecida pela Rússia, Reino Unido e União Europeia.

Fontes hidrotermais vulcânicas, localizadas a até 4 mil metros de profundidade e que surgem da crosta terrestre em falhas entre placas tectônicas na área proposta, contêm uma quantidade estimada de cerca de 38 milhões de toneladas de cobre, mais do que é extraído em todo o mundo a cada ano. Amund Vik, secretário de Estado do Ministério de Petróleo e Energia da Noruega, disse ao “Financial Times” que a mineração de águas profundas ajudaria a Europa a atender à “necessidade desesperada de mais minerais e materiais de terras-raras para viabilizar a transição”. Ele acrescentou que o governo adotaria uma “abordagem preventiva” em relação a questões ambientais.

Os fluidos que saem das fontes hidrotermais, como as encontradas nas águas norueguesas, também contêm outros metais utilizados em baterias de carros elétricos, como o cobalto. As crostas metálicas que se formam no leito marinho também podem ser mineradas em busca de metais de terras-raras, como o neodímio e o disprósio. Esses metais são utilizados na produção dos ímãs que equipam turbinas eólicas e motores de veículos elétricos, mas sua cadeia de suprimentos é dominada em grande parte pela China.

Da região imaginada para possível mineração, a área mais controversa seria a próxima a Svalbard. O Tratado de Svalbard, que dá à Noruega soberania sobre as ilhas, também permite que outros países façam mineração em terra e nas águas territoriais ao redor do arquipélago. Rússia, UE e Reino Unido divergem da Noruega quanto à extensão dessa área coberta pelo tratado.

Por sua vez, empresas pesqueiras temem que a possibilidade de poluição decorrente da mineração prejudique a pesca. Jane Sandell, executiva-chefe da UK Fisheries – cujo superbarco de arrastão Kirkella é um dos últimos navios de pesca do Reino Unido a operar tão ao norte – disse estar “profundamente preocupada” com a possibilidade de liberação de partículas tóxicas de metais.

O secretário-geral da Associação de Pescadores Norueguesa, Sverre Johansen, disse que o setor pesqueiro norueguês não ficou “nem um pouco impressionado” com a proposta. O governo sustenta que o “potencial de conflito” é pequeno, uma vez que existe pouco tráfego marítimo e pouca atividade pesqueira na área.

A agência ambiental da Noruega se opõe totalmente ao plano. Argumentou, em resposta às consultas neste ano, que a proposta viola a estrutura legal da Noruega para a exploração do leito marinho ao não fornecer dados suficientes sobre sua sustentabilidade.

Alertou para as “consequências significativas e irreversíveis [da mineração] para o ambiente marinho” destacou que as “chaminés” vulcânicas, como também são chamadas as fissuras hidrotermais, deveriam permanecer intocadas e que apenas pequenas áreas deveriam ser abertas para a mineração.

Um problema para o Ministério de Energia é a reivindicação da Noruega, na esfera internacional, de que o país é um protetor de seus oceanos e uma fonte de peixes obtidos de forma sustentável. Kaja Loenne Fjaertoft, bióloga marinha da unidade norueguesa do grupo ativista WWF, disse que “o governo está falando com duas vozes” ao defender a conservação marinha enquanto “avança a todo vapor” com os planos de mineração.

Em março, o premiê da Noruega, Jonas Gahr Støre, atualmente também copresidente da Ocean Panel, uma rede de líderes mundiais comprometidos com a proteção dos oceanos, afirmou a um jornal local que a mineração em águas profundas poderia ser feita sem prejudicar a biodiversidade.

Mineradoras que operam em outros países, como China, Papua Nova Guiné, Ilhas Cook, Japão e Nova Zelândia, têm estudado como extrair metais das águas costeiras. Acredita-se que órgão regulador da Organização das Nações Unidas (ONU) que supervisiona as propostas para mineração em águas internacionais, principalmente no Oceano Pacífico, chegará ao momento crucial das negociações em julho.

Egil Tjaland, secretário-geral do Fórum Norueguês para Minerais Marítimos, uma associação setorial, afirmou que águas profundas são uma “especialidade” da Noruega graças à forte base de operações marítimas do país na exploração petróleo e gás. Recentemente, a associação realizou uma oficina em Berlim para discutir parcerias entre a indústria norueguesa e a alemã na mineração de águas profundas.

“Se alguém chegar lá primeiro, deveríamos ser nós”, disse Walter Sognnes, executivo-chefe da Loke Marine Minerals, que planeja minerar as crostas metálicas da Noruega e recentemente assumiu dois contratos de exploração financiados pelo Reino Unido no Pacífico. “Somos uma grande nação pesqueira, vivemos pelo mar, o oceano é nosso maior recurso. Não estaríamos reinventando a roda.”

https://valor.globo.com/mundo/noticia/2023/06/09/ft-noruega-prepara-minerao-de-metais-para-baterias-no-leito-ocenico.ghtml#

Se você tiver interesse e ainda não estiver inscrito para receber diariamente as postagens de O Novo Normal, basta clicar no link: https://chat.whatsapp.com/BrKMDzP2KP52ExU8rOIB3s(14) para WhatsApp ou https://t.me/joinchat/SS-ZohzFUUv10nopMVTs-w  para Telegram. Este é um grupo restrito para postagens diárias de Evandro Milet. Além dos artigos neste blog, outros artigos de Evandro Milet com outras temáticas, publicados nos fins de semana no Portal ES360, encontram-se em http://evandromilet.com.br/

Brasil cai 3 posições em ranking global de soft power e deixa grupo dos 30 mais influentes

País é visto no mundo como líder em Esportes e Diversão, mas ficou em 86º em Governança

Luciana Gurgel Luciana Gurgel – mediatalks – 02.03.2023

Londres – O Brasil manteve a posição de país da América Latina mais bem colocado na edição 2023 do ranking de soft power, divulgado nesta quarta-feira (2) em Londres pela consultoria Brand Finance – mas recuou três posições, passando de 28º para 31º na lista de 121 nações analisadas. 

Mesmo marcando 2,4 pontos a mais do que em 2022, o Brasil deixou de integrar o grupo dos 30 países que mais influenciam os demais sem uso de armas ou poder econômico, que é o conceito de soft power. 

A posição brasileira em 2022 havia sido a melhor desde que o ranking passou a ser feito.

A liderança no Global Soft Power Index continuou com os EUA, que em 2021 haviam perdido o posto para a Alemanha. Este ano, melhoraram ainda mais o resultado em relação a 2022, marcando 74,8 pontos.

O novo estudo da consultoria britânica consolida o resultado de pesquisas de opinião entre mais de 100 mil pessoas em 100 países, sem distinção entre público geral e audiências especializadas (políticos, acadêmicos, jornalistas) como nos anos anteriores.

“Apesar de um pequeno aumento em sua pontuação de soft power de 43,4 para 46,2, o resultado do Brasil indica que outros países estão tendo o valor de suas marcas reconhecido em uma velocidade maior para a geração de negócios, turismo e relações internacionais”, avalia Eduardo Chaves, diretor da Brand Finance para o Brasil. 

Na elaboração do ranking, as “marcas nacionais” são classificadas com base em 35 atributos agrupados em oito pilares. Os três principais são Familiaridade (pessoas que sabem algo sobre o país), Reputação e Influência. 

Entre os 35 atributos, o Brasil lidera em Esportes e Diversão, mas aparece mal colocado aos olhos do mundo em aspectos importantes como diplomacia e comércio exterior, incluindo governança, padrões éticos, corrupção, estabilidade política e segurança. 

Os principais países no ranking de soft power 

Os EUA, que lideram o ranking, conquistaram o primeiro lugar em 12 dos 35 atributos e estão entre os três primeiros em outros quatro, conquistando a melhor performance entre todas as marcas nacionais analisadas no ranking. 

Com o fortalecimento do dólar e projetos de investimento de grande escala amplamente divulgados pelo governo federal, as percepções sobre a economia dos EUA são favoráveis, segundo a Brand Finance, salientando que o país tomou da China o primeiro lugar no atributo Negócios e Comércio. 

O país está está em primeiro  lugar em doze e entre os 3 primeiros em quatro categorias, conquistando 16 medalhas de soft power – mais do que qualquer outra marca nacional no Índice.

No entanto, problemas crescentes com tiroteios, crimes com armas de fogo e violência policial continuam a corroer a percepção do país como “seguro e protegido” (caiu de 21º em 2020 para 62º este ano) e de seu povo como “amigável” (caiu de 5º em 2020 a 103º este ano).

Único país a perder pontos este ano, a Rússia foi a grande derrotada, saindo do bloco dos 10 principais em soft power para ocupar o 13º lugar.

Já a Ucrânia ganhou 10,1 pontos (mais do que qualquer outro país), saltando 14 posições e figurando em 37º na lista. A popularidade do presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelenskyy fez com que a nação subisse 36 posições na avaliação de países com “líderes internacionalmente admirados”, indo para o 12º lugar.

Leia também | Ucrânia sobe, Rússia cai: ranking de soft power revela efeitos da guerra sobre imagem dos países

Reino Unido e Alemanha mantiveram respectivamente o segundo e o terceiro lugares no ranking de soft power, com ganhos de pontos em relação a 2022.

A China cedeu o quarto lugar para o Japão e ficou em quinto.

Em seguida aparecem França, Canadá e Suíça, ocupando as mesmas posições de 2022. Itália e Emirados Árabes Unidos passaram a integrar o bloco dos 10 mais fortes em soft power. 

Paul Temporal, professor da Said Business School da Universidade de Oxford, observou que apesar das controvérsias em torno do país árabe, a Expo 2020 Dubai, a escolha para sediar a COP 28  e a Copa do Mundo no Catar contribuíram para melhorar a percepção de familiaridade, reputação e influência.

Na América Latina, o país mais forte em soft power depois do Brasil é a Argentina, em 42º lugar.

Depois aparecem México (44º), Chile (54º) Colômbia (58º), Cuba (66º), Paraguai (75º), Peru (76º), Bolívia (82º), Equador (90º), Honduras (104º), Venezuela (106º) e Guatemala (12oº, penúltimo lugar na lista. 

Na lanterna do ranking de 121 países está o Zimbabue. 

Brasil: covid-19 e política afetaram soft power 

Na análise sobre o desempenho do Brasil no índice anual de soft power, a Brand Finance destaca os anos difíceis enfrentados pelo país devido à alta incidência de covid-9 e situação política tumultuada, citando a invasão dos prédios dos Três Poderes na posse do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. 

“O ambiente político volátil do Brasil ganhou cobertura da imprensa mundial e claramente afetou sua posição em soft power”, diz o relatório. 

O Brasil pontuou significativamente abaixo da média global no pilar Governança, caindo 28 posições e figurando em 86º lugar globalmente.  

O pais teve baixa pontuação em “altos padrões éticos e baixa corrupção” (115º), “lugar seguro e protegido” (108º) , “nação politicamente estável e bem governada” (88º).

Atributos tradicionalmente associados ao Brasil, no entanto, não foram afetados. 

O índice de familiaridade é alto, com a 12ª melhor pontuação do ranking de 121 nações, posição inalterada desde 2021.

Eduardo Chaves associa o resultado às dimensões do país. 

“Devido ao seu tamanho, o Brasil tem mais facilidade de alavancar a familiaridade do que países menores, mas ainda há potencial para melhorar a marca Brasil no exterior.

O logotipo do país passou por uma reformulação em 2018 e depois foi revertido para o design anterior. Essas mudanças em pouco tempo, possivelmente por pressão política, podem reduzir a eficácia dos esforços de comunicação do Brasil.

Ainda assim, Brasil, México e Argentina são as únicas marcas latino-americanas entre as 30 primeiras no índice de familiaridade.”

No “quadro de medalhas” dos 35 atributos que compõem a percepção de soft power, o Brasil lidera em dois, mas não está entre os três primeiros em nenhum outro. 

O país é visto como mais divertido do que qualquer outra nação e líder em Esportes. 

No pilar Influência, a marca Brasil caiu para o 26º lugar, perdendo sete posições desde a avaliação de 2022, resultado associado pela Brand Finance ao foco nas eleições presidenciais e política interna. 

Embora a pontuação do índice de influência da marca Brasil tenha aumentado em 0,1 pontos, outros países tiveram melhor desempenho, levando ao declínio da posição relativa no ranking. 

 No atributo Negócios e Comércio, o Brasil caiu nove posições, para a 38ª colocação. 

A exposição a notícias positivas ou negativas molda a imagem de um país, afetando sua familiaridade, observa Chaves, e o Brasil sofreu em 2022:

O país foi noticiado de forma predominantemente negativa no ano passado, com más notícias sobre a gestão da saúde pública durante a pandemia, violações de direitos humanos, desmatamento da Amazônia e questões de política externa.” 

Isolamento do mundo 

No atributo Governança, embora a pontuação tenha sido ligeiramente superior à de 2022 (+ 0,7 pontos), a Brand Finance avalia que o país ainda tem um longo caminho a percorrer para alcançar
as primeiras posições.

“O governo do Brasil assumiu uma postura política severa, resultando em um país cada vez mais fechado em anos recentes.

Isso levou a problemas nas relações internacionais, falta de flexibilidade nas negociações e isolamento do mundo.”

No quesito Relações Internacionais, a marca Brasil caiu 10 posições, passando para 41ª no ranking deste ano. 

O pilar em que a marca Brasil é mais forte diante da opinião pública global, incluindo público geral e audiências especializadas, é Cultura e Patrimônio, mantendo a 9ª posição na avaliação de 2022.

Já no pilar Pessoas e Valores,  o país migrou da 19ª para a 25ª posição, perdendo seis posições, apesar de ter crescido 0,7 pontos.

Outras marcas-país têm apresentado crescimento ainda maior nessa dimensão, resultando na queda relativa do Brasil, explica o relatório. 

Em Comunicação, a marca Brasil também sofreu internacionalmente, descendo 17 degraus na escala para ocupar o 43º lugar. 

A Brand Finance atribui essa percepção negativa ao ” conflito contínuo entre o governo e a mídia, juntamente com o aumento de notícias falsas”.

No entanto, a consultoria destaca a existência de uma indústria de mídia livre e independente como aspecto positivo. 

Leia também | Em 20 anos, mais de 1,6 mil jornalistas foram assassinados no mundo; Brasil é o nono país com mais mortes

Em Educação e Ciência, o Brasil também não figurou bem, passando de 35º para 73º no ranking de soft power em 2023, movimento explicado pela Brand Finance: 

“Embora o Brasil tenha um grande potencial para iniciativas de educação, houve falta de investimento nessa área no último ano.

Apesar de ter a melhor universidade da América Latina, a Universidade de São Paulo, a educação no Brasil continua concentrada em uma pequena parcela da população.

Incentivos governamentais são necessários para melhorar a educação básica no país e apoiar o desenvolvimento do Brasil.”

No pilar Sustentabilidade, a marca Brasil ocupa a 55ª posição, com 4,3 pontos.

Os países do topo do ranking alcançaram 7 pontos, deixando o Brasil com espaço significativo para melhorias nesta categoria. 

O que é soft power 

O soft power, conceito criado na década de 90, representa a capacidade de cada país de influenciar os demais por meio da atração ou persuasão em vez da força.

O primeiro a formulá-lo foi Joseph Nye, em 1990. Ele argumentou existir um método alternativo de política externa para as nações ganharem o apoio de outras.

Essa alternativa é baseada em reputação e valores, em vez do método tradicional de coerção baseada na força militar ou econômica.

Isso ocorre porque as nações, como os humanos, são mais propensos a confiar e colaborar com aquelas com quem compartilham ideais comuns.

David Haigh, CEO da Brand Finance, na apresentação do Global Soft Power Index 2023, em Londres (divulgação)

O Soft Power Global Index O Global Soft Power Index incorpora uma ampla gama de medidas que, combinadas, fornecem uma avaliação equilibrada da presença, reputação e impacto das nações no cenário mundial.

Um total de 121 marcas nacionais, como os países são denominados no estudo,  foram incluídas na pesquisa, incluindo o Zimbábue pela primeira vez.

As principais nações cujas reputações globais são de maior interesse para usuários e assinantes do Índice (por exemplo, China, EUA, Brasil) foram priorizados como ‘Nível 1’ Uma pesquisa online foi realizada entre uma amostra de 111.364 adultos de 18 a 75 anos, em 101 países. Assim, a  amostra
é representativa da população online de cada país, segundo a consultoria.

Luciana Gurgel

Jornalista baseada em Londres, é co-fundadora e Editora-chefe do MediaTalks. É também colunista de mídia e comunicação no J&Cia/Portal dos Jornalistas. Faz parte da FPA London (Foreign Press Association).

https://mediatalks.uol.com.br/2023/03/02/brasil-cai-3-posicoes-em-ranking-de-soft-power-global-e-deixa-bloco-dos-30-mais-influentes/

Se você tiver interesse e ainda não estiver inscrito para receber diariamente as postagens de O Novo Normal, basta clicar no link: https://chat.whatsapp.com/BrKMDzP2KP52ExU8rOIB3s(14) para WhatsApp ou https://t.me/joinchat/SS-ZohzFUUv10nopMVTs-w  para Telegram. Este é um grupo restrito para postagens diárias de Evandro Milet. Além dos artigos neste blog, outros artigos de Evandro Milet com outras temáticas, publicados nos fins de semana no Portal ES360, encontram-se em http://evandromilet.com.br/

Brasil lidera avanço da produtividade agrícola

Valor – 02/06/2022

Mesmo que a um ritmo menor do que gostariam as cadeias produtivas do agronegócio no País, os avanços observados sobretudo nas áreas de pesquisa e financiamento nas últimas décadas permitiram que o Brasil ampliasse a oferta de alimentos e se tornasse um dos maiores exportadores do setor no mundo. E não apenas com a expansão das áreas de plantio, mas também com ganhos expressivos de produtividade.

O estudo “Produtividade total dos fatores na agricultura: Brasil e países selecionados”, assinado por José Garcia Gasques, coordenador-geral de Políticas e Informações do Ministério da Agricultura, e José Eustáquio Ribeiro Vieira Filho, pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e professor do Ibmec e da Universidade Federal de Viçosa (UFV), mostra que, em um grupo de 13 dos mais importantes países agrícolas do mundo, nenhum cresceu mais que o Brasil em produtividade no setor a partir de 2000.

De 2000 a 2020, a produtividade total dos fatores (PTF), que mede a diferença entre o crescimento do produto e dos insumos, registrou aumento de 3,18% ao ano no País.

Apenas um pouco abaixo da média registrada entre 1975 e 2020 (3,79%), intervalo maior que inclui o início da conquista do Cerrado e no qual a produção brasileira de grãos se multiplicou por quatro (alta de 3,79% ao ano), e acima de “concorrentes” como Índia (2,93%), China (2,03%), Chile (1,82%), Canadá (1,8%), EUA (0,5%), Austrália (0,47%) e Argentina (0,05%). Os dados desses países são de 2000 a 2019, quando o aumento médio global foi de 1,66% ao ano.

Contexto histórico

As pesquisas agropecuárias transformaram o Cerrado e expandiram as fronteiras produtivas. Além disso, a adoção de insumos modernos (mecanização e biotecnologia), aliada ao empreendedorismo dos nossos agricultores, também influenciou o crescimento produtivo. Após o Plano Real, em 1994, as políticas econômicas de maior abertura de mercado potencializaram a dinâmica produtiva agropecuária, dizem os autores do estudo.

Eles lembram que o fator terra continuou em expansão depois de 2020 no Brasil, principalmente com a consolidação de novas áreas de produção de grãos no “Matopiba”, confluência entre Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, mas que a maior parte dos ganhos de produtividade observados veio de uma dinâmica tecnológica mais intensa, com mais capital e menos trabalho.

“O aumento da produtividade agrícola permitiu a expansão da oferta em nível maior do que o crescimento da demanda, o que reduziu o preço da cesta básica”, escreveram os autores do estudo, sem esquecer da forte alta registrada desde o ano passado, nos mercados doméstico e internacional.

Inflação dos alimentos

“Recentemente, a inflação de alimentos vem trazendo preocupações, mas esse aumento dos preços está relacionado a fatores externos (reabertura das economias pós-pandemia, preço elevado do petróleo, conflito Rússia e Ucrânia, bem como escassez de insumos importados da China) e internos (problemas climáticos, incerteza política e aumento dos gastos públicos).

Contudo, manter o crescimento da produtividade é essencial para evitar o desabastecimento interno e contribuir, no médio e longo prazo, com o controle inflacionário”, indicam Gasques e José Eustáquio.

Ganhos

Entre 2000 e 2020, mostra o estudo que será divulgado nesta quinta-feira pelo Ipea, a taxa média de crescimento do produto na agricultura brasileira atingiu 3,76% ao ano, enquanto o avanço dos insumos foi de 0,56% ao ano. No caso dos insumos, houve aumentos médios de 0,18% em terra e de 1,22% em capital, mas recuo de 0,84% ao ano no fator trabalho.

“Houve aumento do crédito de investimento, com a criação de linhas de financiamento que atendessem aos diferentes portes produtivos”, indicam os autores do trabalho.

“Pesquisas foram realizadas na tropicalização dos cultivos, na expansão do plantio direto, na integração produtiva lavoura-pecuária-floresta, assim como na maior mecanização do campo. Esses arranjos trouxeram acentuados ganhos de produtividade na agricultura brasileira”.

Fonte: Valor

Se você tiver interesse e ainda não estiver inscrito para receber diariamente as postagens de O Novo Normal, basta clicar no link: https://chat.whatsapp.com/BrKMDzP2KP52ExU8rOIB3s(14) para WhatsApp ou https://t.me/joinchat/SS-ZohzFUUv10nopMVTs-w  para Telegram. Este é um grupo restrito para postagens diárias de Evandro Milet. Além dos artigos neste blog, outros artigos de Evandro Milet com outras temáticas, publicados nos fins de semana no Portal ES360, encontram-se em http://evandromilet.com.br/

Como a falta de redes elétricas vai atrasar a era da energia renovável

Acúmulo de projetos eólicos e solares aguardando conexão coloca em risco planos de carbono zero

Attracta Mooney – Folha/Financial Times 16.jun.2023

O parque eólico Couture, em Poitou-Charentes, no sudoeste da França, se encontra num limbo. Apesar de ter permissão de planejamento, a construção do parque de 33,3 megawatts, que pode alimentar 30 mil casas com energia, está parada. O problema: gargalo na rede elétrica.

A BayWa RE, responsável pelo projeto, diz que o parque eólico terá que esperar oito anos até poder se conectado à rede elétrica –a rede de cabos, subestações e transformadores que transmite eletricidade pelas regiões e os países e atravessa fronteiras para levar energia a nossas casas, fábricas e escritórios.

É uma espera longa, mas não excepcional. Em todo o mundo, desenvolvedores de infraestrutura de energia renovável estão ouvindo que terão que esperar algo entre dois anos, em partes dos Estados Unidos, a até 15 anos no Reino Unido para poderem ligar projetos a redes que estão tendo dificuldade em acompanhar as mudanças na geração de eletricidade.

Há uma consciência crescente de que essas esperas longas para conexão podem ter um impacto calamitoso sobre os esforços globais para reduzir as emissões de gases estufa.

Cientistas dizem que o mundo precisa transformar rapidamente o sistema energético global, abandonando os combustíveis fósseis em favor de fontes energéticas mais limpas, como a eólica e solar, para limitar o aquecimento global e evitar os efeitos catastróficos da mudança climática.

Mas essa mudança só pode ser realizada se os projetos renováveis puderem ser conectados às redes elétricas, que pertencem ao Estado em alguns países mas são privatizadas em outros.

Duas décadas atrás, a rede elétrica era apenas uma das maneiras de se obter energia. Havia também opções como petróleo e gás. “Mas agora a rede elétrica está se tornando a principal forma de obter energia”, diz Frédéric Godemel, vice-presidente executivo de sistemas e serviços elétricos da empresa francesa Schneider Electric. “A rede precisa ser modernizada completamente.”

Matthias Taft, executivo-chefe da BayWa RE, que tem operações em mais de 30 países, diz que os atrasos de conexão com a rede hoje representam o principal obstáculo à operacionalização de projetos renováveis, não apenas na Europa mas também nos EUA e Austrália, entre outros países.

“Estamos enfrentando uma situação muito real de termos que aguardar cinco ou dez anos [para conexão com a rede]. Temos a autorização [para construir projetos], mas a rede física de conexão não está disponível.”

Isso representa uma ameaça real à transição energética, ele alertou.

Gargalos pela frente

Políticos em todo o mundo querem apoiar projetos de energia renovável, tanto para melhorar a segurança energética, reduzindo a dependência de combustíveis fósseis que em muitos casos são importados, quanto como parte dos esforços para cortar emissões, na esteira do acordo de Paris. As partes acordaram limitar a elevação da temperatura global para menos de 2ºC acima dos níveis pré-industriais, e idealmente para no máximo 1,5ºC.

Para manter viva a meta de 1,5ºC, a energia renovável gerada precisa mais que triplicar, dos 3.000GW atuais para mais de 10 mil GW em 2030, segundo a Agência Internacional para as Energias Renováveis (Irena).

Os países vêm definindo metas ambiciosas de energia verde. Em março a UE fechou um acordo provisório para exigir que até 2030 pelo menos 42,5% da eletricidade venha de fontes renováveis. Então em abril o grupo G7 dos países mais ricos assumiu o compromisso de elevar a capacidade eólica no mar em 150 GW até 2030 e a capacidade solar em mais de 1 terawatt. Uma meta global para renováveis pode ser formalizada este ano na cúpula climática da ONU COP 28 em Dubai.

Longe dos discursos, porém, poucos políticos estão falando da rede de transmissão, a infraestrutura vital para alcançar as metas ambiciosas e os planos de carbono zero.

“A rede elétrica não está na consciência pública”, diz Stephanie Batjer, da Renewables Grid Initiative, entidade sem fins lucrativos que promove o desenvolvimento de redes elétricas. “Todos sabemos que para nosso futuro energético precisamos de energia eólica, solar, de fontes renováveis. Mas as redes elétricas muitas vezes não são incluídas nessa discussão.”

Os problemas com a rede elétrica são tão profundos que o primeiro-ministro britânico pagou por um upgrade particular à rede local para conseguir aquecer uma piscina em sua casa. Ativistas do Greenpeace fizeram um protesto diante da residência dele em Yorkshire (norte da Inglaterra) em março. Trajando roupas de banho e agitando faixas, exortaram Rishi Sunak a modernizar a rede nacional para abastecer a população inteira de energia verde.

Batjer acrescenta que com o mundo avançando para a eletrificação crescente, por exemplo com a adoção de veículos elétricos e bombas de calor, “vamos precisar transportar mais eletricidade que no passado”.

“Não sei de nenhum país onde a rede elétrica insuficiente não esteja obstruindo a transição energética em algum nível”, diz Mark Hutchinson, diretor para a Ásia do Conselho Global de Energia Eólica. Ele diz que um dos grandes problemas é que não há infraestrutura suficiente para suprir as necessidades do sistema energético em transformação. A provedora de dados BloombergNEF estima que até 2050 serão necessários 80 milhões de quilômetros de rede nova, mais que o suficiente para substituir a rede de transmissão global inteira hoje.

Em boa parte do mundo ocidental, as redes elétricas foram desenvolvidas após a Segunda Guerra Mundial para atender às grandes usinas elétricas que queimavam um combustível fóssil como carvão ou gás. A eletricidade gerada nas usinas elétricas era então transmitida para nossas casas através de uma rede de linhas e cabos de transmissão.

A transição verde vai exigir uma reforma da estrutura atual. Em muitos casos são necessários vários parques eólicos e solares para tomar o lugar de uma grande usina elétrica, em parte devido à natureza intermitente da energia renovável: nem sempre há vento. Esses parques todos precisam de conexões com a rede, mas normalmente estão situados em áreas remotas ou no mar, onde as redes estão menos presentes.

“A rede está no lugar errado para transmitir a energia das fontes de energia renovável para os centros econômicos”, diz Peter Crossley, professor de sistemas de energia na Universidade de Exeter.

Ao lado desse obstáculo, a implantação de painéis solares em residências e locais comerciais que são conectadas à rede –sem falar na adoção de veículos elétricos e bombas de calor—vem aumentando a complexidade da administração das redes elétricas. Os operadores precisam fazer um malabarismo delicado –conservar as luzes acesas e expandir a rede sem elevar os custos para os consumidores, e ao mesmo tempo considerar cada vez mais seu papel na redução das emissões de gases estufa.

Um gargalo enorme está surgindo. Operadores de redes elétricas em todo o mundo estão sobrecarregados com o simples volume de projetos que solicitam uma conexão.

“Estamos vendo gargalos enormes no curto prazo pelo fato de as operadoras elétricas não terem profissionais suficientes para fazer os trabalhos de processamento necessários, devido a uma falta crônica de investimentos”, diz Harald Overholm, executivo-chefe da empresa sueca de energia solar Alight. “É um problema enorme. Acho que se não houvesse esses gargalos, poderíamos dobrar o ritmo de lançamento global de renováveis.”

No Reino Unido, Espanha e Itália, mais de 150 GW de projetos eólicos e solares estão parados em filas de conexão com a rede em cada país, segundo números da BloombergNEF.

O número de pedidos de ligação com a rede aumentou 40% em 2022 nos EUA, conforme estudo chefiado pelo Laboratório Nacional Lawrence Berkeley. Os pesquisadores descobriram que quase 2.000 GW de projetos solares, eólicos e de armazenagem estavam em filas para ser ligados às redes de transmissão –a rede elétrica de longa distância e alta voltagem—, muito mais que a capacidade instalada de toda a frota americana de usinas elétricas.

Muitos desses projetos nunca chegarão a ser construídos. Segundo o autor Joseph Rand, os desenvolvedores muitas vezes apresentam pedidos especulativos. Sua pesquisa analisou pedidos de ligação apresentados entre 2000 e 2017 e descobriu que de modo geral apenas um quinto dos projetos chegaram a ser construídos.

Uma das razões da diminuição da construção é que os desenvolvedores têm informações limitadas sobre a capacidade da rede –ou a capacidade dela de aceitar um projeto novo— antes de apresentar seus pedidos. Os problemas potenciais e custos adicionais só emergem quando a operadora realiza um estudo sobre a possível conexão.

Os desenvolvedores desistem dos projetos quando descobrem que sua concretização leva a uma fatura enorme para a modernização ou o reforço da rede elétrica. Nick Pincott, sócio da firma de advocacia TLT, diz que um projeto no Reino Unido foi abandonado quando o desenvolvedor soube que teria que arcar com uma “conta de reforço” de £19 milhões (cerca de R$ 100 milhões) para modernizar a rede –mais que o valor do próprio projeto.

Mesmo quando projetos conseguem uma conexão, “cada vez mais frequentemente há restrições a quando se pode utilizar a conexão”, como restrições a quando eles podem vender eletricidade, diz Pincott. Isso reduz a viabilidade comercial de alguns projetos.

Apesar de os países definirem metas legais de redução das emissões e aumento da geração de energia renovável, operadoras elétricas e políticos têm relutado em gastar dinheiro para a modernização das redes.

“A razão por que temos gente fazendo fila para conexão com a rede”, diz Nick Dunlop, co-fundador do Climate Parliament, grupo que trabalha para levar políticos a agir sobre o aquecimento global, “é que os governos ainda não estão levando a mudança climática a sério. Ainda não estão se dedicando a atrair investimentos nas redes.”

Cifras da Agência Internacional de Energia mostram que, em lugar de o investimento de capital em redes elétricas ter aumentado globalmente após o acordo de Paris, caiu entre 2017 e 2020 e só voltou ao nível de 2016 em 2022, com US$ 330 bilhões. Os investimentos na rede na Europa estagnaram entre 2015 e 2020 em cerca de US$50 bilhões por ano, subindo apenas levemente nos últimos dois anos. Na China, depois de terem caído entre 2029 e 2021, os investimentos nas redes nacionais subiram 16% no ano passado, para quase US$83 bilhões.

Mas a Irena diz que, para manter viva a meta de 1,5ºC, o investimento global anual em redes elétricas e na chamada flexibilidade, que inclui a armazenagem de energia, terá que chegar a quase US$550 bilhões até 2030. A Comissão Europeia estima que € 584 bilhões precisam ser investidos na rede europeia até 2030.

Crossley diz que tem havido relutância em investir em redes porque esse custo muitas vezes é repassado ao consumidor, pelo menos em parte, através das contas de eletricidade. Mesmo quando há planos para ampliar a rede, as operadoras se queixam de que as propostas acabam bloqueadas no sistema de planejamento, muitas vezes devido a preocupações com a construção de linhas de transmissão aéreas passando sobre campos verdes.

Keith Anderson, executivo-chefe da ScottishPower, companhia de eletricidade britânica que opera uma rede e desenvolve parques eólicos, diz que foram precisos dez anos para conseguir a autorização de planejamento para substituir e ampliar a capacidade de uma linha de transmissão existente entre Beauly e Denny, na Escócia.

Para ele, as redes são “o gigante esquecido da descarbonização e do carbono zero”.

Redes vão se globalizar?

As filas e o custo das modernizações geram o receio de que os esforços para reduzir emissões serão prejudicados não por uma falta de interesse nas energias renováveis, mas pela infraestrutura básica que sustenta o sistema.

“Serão os velhos cabos que vão literalmente nos fazer tropeçar no caminho para a descarbonização”, diz Marlon Dey, diretor de pesquisa para o Reino Unido e Irlanda na Aurora Energy Research.

“Só existe uma solução, que é fisicamente reforçar e construir mais rede”, ele fala. “E se você não puder fazer isso com rapidez suficiente, não conseguirá construir a energia renovável que necessitamos e não conseguirá deixar os combustíveis fósseis para trás com rapidez suficiente. E então não conseguiremos descarbonizar com a rapidez necessária.”

Os políticos e estrategistas estão tomando consciência dos problemas gradualmente, disse Lisa Fischer, líder de programa do think tank climático E3G. “Estão começando a entender que as redes elétricas estão virando bens estratégicos prioritários.”

Fischer diz que os países precisam considerar soluções inovadoras como construir linhas de transmissão ao lado de estradas ou gasodutos, onde a permissão de construção é mais provável. “Ainda não houve criatividade suficiente na busca por soluções”, ela disse. “É aqui que a liderança política precisa entrar em ação.”

Frank Jotzo, professor de economia ambiental na Universidade Nacional Australiana, diz que outra opção é desenvolver “zonas” de energia renovável em áreas geograficamente apropriadas e priorizar o desenvolvimento de redes elétricas nesses locais. Isso já está sendo feito em partes da Austrália, segundo ele.

Folha Mercado

Receba no seu email o que de mais importante acontece na economia; aberta para não assinantes.

Carregando…

No ano passado a Comissão Federal de Regulação Energética dos EUA apresentou propostas para diminuir as filas para conexão com a rede, incluindo a revisão do sistema “primeiro a chegar, primeiro a ser servido”, para priorizar projetos que têm mais chances de ser construídos, como os que já contam com permissão de planejamento. Ela também propôs que os desenvolvedores tenham acesso a mais informação sobre a capacidade da rede –por exemplo, sobre onde as linhas de transmissão já estão congestionadas.

No Reino Unido, a Ofgem, a agência britânica que regulamenta a energia, também está tentando resolver o problema. Em maio ela propôs uma revisão do sistema britânico de fila “primeiro a chegar, primeiro a ser servido”, juntamente com outras medidas.

Também há um interesse crescente em vários países em construir redes que ultrapassem fronteiras, com a ideia de poder usar energia de diferentes lugares em diferentes momentos. A Holanda e o Reino Unido, por exemplo, estão construindo uma linha de transmissão entre os dois países chamada LionLink.

Em março o primeiro-ministro grego Kyriakos Mitsotakis pediu que a rede da UE seja reformada e ampliada para permitir a transferência de eletricidade gerada por energia renovável entre o norte e o sul do continente. A proposta já recebeu ao apoio de metade do bloco.

“É fácil alimentar o mundo de energia, mas apenas se houver as redes corretas”, disse Dunlop, da Climate Parliament. “É preciso ter redes continentais ou até transcontinentais de grande escala.”

O chefe da Irena, Francesco La Camera, argumenta que é preciso pensar mais em desenvolver redes tanto locais quanto internacionais na África, argumentando que o continente pode ser “a mais importante fonte de energia limpa do mundo”, devido ao potencial de grandes parques solares serem construídos ali. Mas ele não possui a infraestrutura de rede necessária, desde cabos até armazenagem de baterias.

“Pensamos que os bancos de desenvolvimento multilateral deveriam enfocar a construção da estrutura física que é necessária para construir o caminho para o novo sistema energético”, ele acrescentou.

Apesar de todos os problemas, Rand, da Berkeley, diz que as filas enormes para conseguir conexão com redes mostram que existe uma disposição e um interesse em transformar o sistema energético. “Temos todos esses desenvolvedores querendo construir projetos solares, eólicos e de armazenagem de bateria. É um lado muito positivo da história.”

De volta ao parque eólico Couture, na França, a BayWa estima que o projeto levará apenas 12 meses para ser construído. Mas não faz sentido iniciar a construção de um parque eólico que não vai poder ser conectado à rede por anos.

Taft, o executivo-chefe da BayWa, se reuniu recentemente com políticos na Europa, onde pediu que o bloco e países individuais redobrem seus esforços para resolver os problemas com a infraestrutura das redes.

Sua mensagem é inequívoca. Se os governadores e as operadoras de redes não adotarem ações urgentes, “vamos fracassar com a transição energética“.

Tradução de Clara Allain

https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2023/06/como-a-falta-de-redes-eletricas-vai-atrasar-a-era-da-energia-renovavel.shtml

Se você tiver interesse e ainda não estiver inscrito para receber diariamente as postagens de O Novo Normal, basta clicar no link: https://chat.whatsapp.com/BrKMDzP2KP52ExU8rOIB3s(14) para WhatsApp ou https://t.me/joinchat/SS-ZohzFUUv10nopMVTs-w  para Telegram. Este é um grupo restrito para postagens diárias de Evandro Milet. Além dos artigos neste blog, outros artigos de Evandro Milet com outras temáticas, publicados nos fins de semana no Portal ES360, encontram-se em http://evandromilet.com.br/

Como quatro crianças sobreviveram por 40 dias na selva da Colômbia após a queda de um avião?

Quatro irmãos de 13, 9, 4 e 1 anos estavam perdidos na Amazônia colombiana após acidente em 1º de maio; ‘sabedoria indígena’ teria sido fundamental para sobrevivência

Por Redação Estadão – 10/06/2023 

“A história de sobrevivência desses menores ficará para a história”, disse o presidente da Colômbia, Gustavo Petro, ao anunciar que, depois de 40 dias de buscas, quatro crianças sobreviventes de um acidente aéreo foram encontradas com vida no meio da selva amazônica colombiana.

Entre as façanhas nas buscas estão uma insólita parceria entre mais de cem indígenas que conhecem a floresta como a palma de suas mãos e o Exército da Colômbia, o uso de dez cães farejadores e a “sabedoria indígena” das crianças, que usaram de diversas artimanhas para sobreviver no meio da mata.

Onde está Wilson? Cachorro herói que ajudou a encontrar crianças na Colômbia segue desaparecido

Lesly Jacobo Bonbaire, de 13 anos, Solecni Ranoque Mucutuy, de 9 anos, Tien Noriel Ronoque Mucutuy, de 4 anos, e Cristian Neryman Ranoque Mucutuy, um bebê que completou um ano enquanto estava perdido na selva, são do povo indígena Uitoto e moram perto do rio Cahuinarí, em Caquetá. Eles foram resgatados de helicóptero, puxados por uma corda a mais de 60 metros de altura, por causa das dificuldades para pousar no meio da floresta.

O périplo das crianças começou em 1º de maio. Nessa região de difícil acesso por rio e sem estradas, os moradores costumam viajar em voos privados.

Eles embarcaram naquele avião para encontrar o pai, que havia fugido de Araraucara, onde morava toda a família. Manuel Ranoque havia recebido uma ameaça de morte de um dos grupos guerrilheiros daquela área de selva e se refugiou em outro lugar.

O avião faria o trajeto entre Caquetá e San José del Guaviare. O acidente ocorreu no meio do caminho, em uma área onde se acredita que ainda existam povos isolados. O local mais próximo do acidente foi Cachiporro, uma comunidade ribeirinha. A cidade tem uma pequena escola e uma pista de pouso para pequenos aviões.

Crianças colombianas foram encontradas com vida na selva 40 dias após acidente aéreo

Crianças colombianas foram encontradas com vida na selva 40 dias após acidente aéreo  Foto: Fuerzas Militares de Colombia/Divulgação

O piloto alertou a torre de controle sobre uma falha de motor antes de perder altitude abruptamente, momento em que tentou mergulhar no rio, mas ficou incapaz de voar e se chocou contra algumas árvores.

Nada mais foi ouvido sobre os ocupantes até 17 dias depois, quando alguns rastreadores indígenas encontraram o avião destruído. Dentro estavam os cadáveres dos três adultos, mas não havia sinal das crianças. Objetos e roupas encontrados no entorno deram esperança às autoridades.

A partir desse dia, Petro deu ordem para que um grande dispositivo militar, em cooperação com as comunidades indígenas, encontrasse as crianças. 120 soldados das forças especiais e 73 indígenas se dedicaram dia e noite para tentar localizá-los.

‘Sabedoria indígena’ para sobreviver

Para Petro, “foi a sabedoria das famílias indígenas, de viver na selva, que salvaram eles”. Segundo a Organização Indígena da Colômbia (ONIC), os huitotos, oriundos da região, vivem em “harmonia” com as condições hostis da Amazônia e mantêm tradições como a caça, a pesca e a coleta de frutos silvestres.

Carlos Peres, professor de ecologia da floresta tropical na Universidade de East Anglia, na Inglaterra, que trabalhou com oito grupos étnicos na selva amazônica, disse em entrevista por telefone ao The Washington Post que o conhecimento das crianças sobre a floresta foi fundamental para eles sobreviverem.

“Quatro crianças ocidentais da mesma idade teriam morrido” lá, disse ele, mas muitas crianças de comunidades indígenas na Amazônia “amadurecem muito cedo” e desde cedo aprendem habilidades básicas para sobreviver na floresta, incluindo como encontrar comida e como evitar predadores. Em algumas comunidades com as quais ele trabalhou, muitos podem começar a subir em árvores com 1 ano de idade.

O fato de terem sobrevivido a um acidente de avião era implausível, mas ainda mais sobreviverem por 40 dias sem a ajuda de ninguém, em uma selva onde chove 16 horas por dia e quase submersa na escuridão pela folhagem.

Não se vê nada além dos 20 metros e o barulho dificulta que duas pessoas se entendam a uma curta distância. No entanto, ser de uma comunidade indígena aumentou suas chances de sobrevivência.

Uma das hipóteses durante o desaparecimento era que as crianças teriam se deparado com uma dessas tribos nômades que não recebem notícias do exterior. “Achei que eles iam considerá-los seus filhos lá”, disse o presidente colombiano.

Mas não foi assim. As crianças, principalmente as duas mais velhas, estavam acostumadas a entrar na selva, caminhar por ela e reconhecer as plantas com as quais podem comer e não se envenenar.

O comandante das forças especiais, Pedro Sánchez, disse ao jornal colombiano El Tiempo que esse conhecimento os ajudou. “Eles conheciam o território, sabiam o que deveriam fazer e o que poderiam comer para se manter vivos”, disse.

Um exemplo dessa “sabedoria indígena”: Os menores improvisaram bandagens com restos de roupas e folhas resistens para colocar nos pés e conseguir caminhar nas difíceis condições da selva. A mais velha teria orientado os mais novos sobre o que poderiam beber e de quais frutas se alimentar.

Ainda assim, as crianças foram encontratadas desidratadas, com picadas de insetos e levemente feridas, especialmente nos pés, porque percorreram longas distâncias apenas com as bandages improvisadas.Em algum momento, também encontraram um cachorro, que os fez companhia e conseguiram se manter vivos todo esse tempo.

Conseguir água não teria sido um problema, dados os córregos e riachos da região, e os membros das comunidades indígenas podem construir abrigos improvisados rapidamente, disse Peres, como o que os socorristas encontraram no mês passado durante a busca.

Para quem está de fora, “o interior da selva amazônica parece muito mais hostil do que realmente é, principalmente se você vem desses lugares”, continuou Peres. “Naquela parte da Amazônia, há cerca de 80 espécies diferentes de cobras, mas apenas cinco delas são venenosas e eles [os indígenas] podem distinguir as venenosas das não venenosas.”

“A única coisa que lamento mais do que tudo é que todo esse conhecimento que salvou essas crianças neste caso particular está desaparecendo rapidamente na Amazônia”, acrescentou.

Operação histórica

A aliança chave entre militares e indígenas para encontrar quatro irmãos perdidos na selva foi chamada de “Operação Esperança”. A cooperação entre militares e grupos indígenas, das áreas de Siona e Araracuara, na selva amazônica, foi fundamental para encontrá-los.

“A articulação entre os militares e as forças indígenas, obviamente eles sabem muito mais sobre a selva do que nós, foi totalmente eficaz, e um exemplo do que esse tipo de aliança pode ser para o país”, acrescentou Petro.

No total, 184 pessoas estiveram envolvidas nas operações para vasculhar a selva todos os dias, 112 integrantes das Forças Especiais do Exercito da Colômbia e 72 indígenas.

“Eles entendem melhor a selva, sabem interpretar muito bem os rastros. Um deles encontrou o avião”, disse Sánchez ao jornal El País sobre seus colegas indígenas de busca. “Nesse momento encontraram os corpos de três adultos, inclusive da mãe deles, e perceberam que os quatro pequenos ainda poderiam estar vivos”.

A Força Pública, por sua vez, aportou tecnologia e diferentes estratégias para o conhecimento dos indígenas sobre a área: penduraram apitos em fitas de construção para que as crianças fizessem barulho com eles caso os encontrassem; iluminaram o céu com faróis para chamar sua atenção; colocaram alto-falantes com a voz da avó, na língua Uitoto, na qual ela pedia aos pequenos que ficassem quietos para encontrá-los.

“Do ar, com dois Blackhawks e mais nove aeronaves, lançamos 10.000 panfletos em língua indígena e kits de alimentação”, disse Sánchez. Também entre os buscadores estava um cachorro, chamado Wilson, que ajudou a encontrar pistas para as crianças no processo de busca, mas se perdeu no caminho e ainda não foi encontrado.

Pistas para encontrar

A pegada de um pezinho na lama, uma madeira, frutos comidos e um abrigo improvisado oram algumas das pistas que ajudaram as autoridades colombianas a encontrar as crianças e manter a esperança durante as buscas.

Em 15 de maio, 14 dias após o acidente, os serviços de buscas encontraram uma mamadeira que provavelmente pertencia ao bebê que estava no avião. Horas depois foi encontrada uma casca de maracujá que dava indícios de consumo por humanos.

No dia seguinte, durante as buscas, os militares localizaram um abrigo improvisado feito com paus e pedras em que as crianças teriam passado um período cuidando do bebê. Em 17 de maio foram encontradas tesouras e fitas de cabelo que os militares acreditavam ser delas. Horas depois, os enviados do exército descobriram pegadas pequenas.

Em 30 de maio, autoridades colombianas encontraram uma pegada que eles identificaram como sendo de uma das desparecidas. Os militares acreditam que a marca tinha sido deixada por Lesly Jacobombaire Mucutuy, a mais velha entre os quatro irmãos.

Durante os 40 dias, os comandos de busca percorreram 2.656 quilômetros. Isso é duas vezes a distância entre Bogotá e Quito, a capital do Equador. Há 10 dias, o comandante Sánchez chegou a dizer que uma noite estiveram muito perto dos menores, a apenas 100 metros de distância.

Segundo relatos de uma fonte militar ao jornal colombiano El Espectador, devido à imensidão do território e às suas difíceis condições os grupos de busca foram divididos entre sete a oito militares e indígenas e foram chamados de células de busca combinadas.

Isso fez a comunicação ser mais difícil, disse o oficial, porque às vezes devido à forte chuva o telefone via satélite não funcionava e a interferência de sinal estava constantemente presente.

Isso fez com que as Forças Armadas implementasse uma nova estratégia para localizá-los. Tratava-se de potentes refletores que eram acionados à noite e cabines de som e alto-falantes terrestres através dos quais as mensagens eram transmitidas no meio da mata cerrada onde eram realizados os trabalhos de busca.

Além disso, lançaram kits com água, soro, salgadinhos e doces para as crianças consumirem. Eles os amarraram com uma corda e os baixaram para áreas próximas de onde estavam as pegadas, disse a fonte.

As Forças Armadas também utilizaram dez cães treinados para as buscas. Um deles, Ulises, foi o primeiro a entrar, mas passou mal e teve que deixar o local. Havia também Shaina e, finalmente, Wilson, que ainda está perdido na selva.

Tudo isso permitiu que, após intensos dias de buscas, que começavam às 6h da manhã e muitas vezes terminavam à meia-noite, as crianças fossem encontradas. Por fim, foram encontrados a apenas cinco quilômetros do local onde o avião caiu, no povoado de Palma Rosa.

Os militares colombianos os retiraram da selva com um helicóptero que não conseguiu pousar no chão e esperou a 60 metros de altura, no ar. Eles foram elevados ao aparelho com cintos de escalada e uma polia. A altura das árvores e a escuridão dificultavam a operação. Segundo as autoridades, as crianças pareciam ‘catatônicas’, como se estivessem vivendo um momento irreal.

“Eu só quero vê-los, tocá-los”, disse à AFP Fidencio Valencia, avô das crianças que esperava notícias junto com Fátima, da cidade de Villavicencio.

As quatro crianças indígenas estão em Bogotá recebendo tratamento médico e acompanhamento psicológico. / AFP, AP, NYT, W.POST

https://www.estadao.com.br/internacional/como-4-criancas-perdidas-na-selva-da-colombia-sobreviveram-40-dias-apos-a-queda-de-um-aviao/

Se você tiver interesse e ainda não estiver inscrito para receber diariamente as postagens de O Novo Normal, basta clicar no link: https://chat.whatsapp.com/BrKMDzP2KP52ExU8rOIB3s(14) para WhatsApp ou https://t.me/joinchat/SS-ZohzFUUv10nopMVTs-w  para Telegram. Este é um grupo restrito para postagens diárias de Evandro Milet. Além dos artigos neste blog, outros artigos de Evandro Milet com outras temáticas, publicados nos fins de semana no Portal ES360, encontram-se em http://evandromilet.com.br/

Faltam talentos, qualificação e diversidade no setor de tecnologia

Startups acreditam que o brasileiro não desenvolve o número de profissionais seniores necessários para ocupar vagas


Redação Fast Company Brasil 14-06-2023 

Profissionais de tecnologia e startups têm encarado um cenário complexo nos últimos anos. A transformação digital e a adoção acelerada de novas tecnologias exigem qualificação e capacitação contínua. Ainda assim, em geral, os profissionais – estejam eles em formação ou já trabalhando – não conseguem acompanhar essa evolução. Assim, falta gente para ocupar esses espaços.

Nove em cada 10 startups concordam que faltam profissionais de tecnologia no Brasil, como mostra a pesquisa Panorama de Talentos em Tecnologia, feita pelo Google for Startups em conjunto com a Associação Brasileira de Startups (Abstartups) e a Box 1824. Foram ouvidas 250 dessas empresas, em levantamento qualitativo e quantitativo.

Fontes: Future of Work: The Global Talent Crunch, Spring, 2018/ Korn Ferry/ Demanda de Talentos em TIC e Estratégia/ Brasscom, 2021

“Um estudo realizado pela McKinsey, que considera a opinião das corporações, confirma isso: 87% das organizações de todo o mundo acreditam que, em poucos anos, o déficit no número de pessoas qualificadas para trabalhar com tecnologia e o de vagas a serem preenchidas vão gerar impacto negativo no setor de tecnologia”, afirma André Barrence, diretor do Google for Startups para a América Latina.

Fonte: Panorama de Talentos em Tecnologia 2023/ Google

A pesquisa revelou alguns dos desafios relacionados a essa aparente escassez, e que ela é uma questão de longo prazo. “Enfrentamos um problema estrutural na educação no Brasil que vai muito além da qualificação em tecnologia na graduação. Só é possível endereçar esse problema de maneira conjunta, entendendo que ações de médio e longo prazo são essenciais”, diz Barrence.

Entre as startups que participaram do estudo, 84% afirmaram que o mercado de tecnologia nacional não desenvolve o número de profissionais seniores necessários para ocupar vagas que exigem mais experiência.

Fonte: Panorama de Talentos em Tecnologia 2023/ Google

Em contrapartida, 55% dos potenciais talentos acham que existem poucas condições para estudar tecnologia e 46% das startups veem que esses profissionais têm dificuldade de conseguir o primeiro emprego em tecnologia, por isso buscam outras alternativas. As startups não se eximem da responsabilidade de tentar melhorar esse cenário.

“O relatório traz uma série de citações dos representantes das empresas que tratam de propostas de melhorias para o setor e o que tem sido feito para agir frente aos problemas que podem ser solucionados, como a busca por um quadro de profissionais mais diverso”, diz Barrence.

Fonte: Panorama de Talentos em Tecnologia 2023/ Google

Dentro do tema diversidade, o estudo indica ainda que as oportunidades para profissionais de tecnologia estão concentradas no Sudeste do país. 62% das vagas estão nesta região, sendo 43% delas apenas no estado de São Paulo. Além da barreira regional, há ainda os obstáculos de gênero e raça: 57% das startups enxergam o mercado de tecnologia atual como excludente para mulheres e 55% o veem como excludente para pessoas negras.

Mesmo o número de demissões em massa em diversas startups, incluindo nos times de tecnologia, parece não ter aumentado a disponibilidade de profissionais qualificados.

“O número de vagas disponíveis, já há algum tempo, é diretamente proporcional ao de pessoas desempregadas no país”, explica Barrence. “Isso sugere que, se tivéssemos profissionais com a qualificação necessária no setor, seria possível diminuir significativamente o desemprego.”

Outro grande desafio é da fuga de talentos, com os profissionais qualificados buscando e sendo alvos constantes de melhores ofertas, principalmente fora do país. 73% das startups concordam que existem condições mais atrativas para talentos em tecnologia lá fora e 60% dizem que a remuneração no mercado brasileiro não é competitiva quando comparada a mercados internacionais.

Fonte: Panorama de Talentos em Tecnologia 2023/ Google

Além disso, as startups, normalmente com estruturas mais enxutas, precisam de profissionais mais experientes e maduros, justamente os mais valiosos e disputados. “Essas empresas normalmente têm dificuldade de competir, seja em âmbito nacional ou internacional, por benefícios, salários e, além disso, têm maior dificuldade em construir marcas empregadoras”, explica o executivo.

Para tentar enfrentar esse panorama, o Google, em parceria com o Bettha.com, criou uma plataforma para aprimorar os conhecimentos de quem consegue os certificados profissionais do Google. A plataforma vai oferecer uma trilha de conteúdo de soft skills, acesso prioritário a vagas de emprego anunciadas pelo Grupo Cia. de Talentos, além de vagas ofertadas pelo próprio Bettha, pela Cia. de Talentos e pelo Instituto SerMais.


SOBRE O(A) AUTOR(A)

Conteúdo produzido pela Redação da Fast Company Brasil.


Se você tiver interesse e ainda não estiver inscrito para receber diariamente as postagens de O Novo Normal, basta clicar no link: https://chat.whatsapp.com/BrKMDzP2KP52ExU8rOIB3s(14) para WhatsApp ou https://t.me/joinchat/SS-ZohzFUUv10nopMVTs-w  para Telegram. Este é um grupo restrito para postagens diárias de Evandro Milet. Além dos artigos neste blog, outros artigos de Evandro Milet com outras temáticas, publicados nos fins de semana no Portal ES360, encontram-se em http://evandromilet.com.br/

Santos-Dumont foi muito mais do que o ‘pai da aviação’: novas gerações precisam saber disso

Aviador cujo nascimento faz 150 anos em julho foi cientista, designer e atuava de maneira parecida à das startups de hoje

Por Luciana Garbin – Estadão – 14/06/2023 

Alberto Santos-Dumont (1873-1932) foi o brasileiro de maior prestígio internacional de sua época. Quando o País vivia apenas de agricultura, ele foi para Paris, a capital cultural da Belle Époque, e se destacou pela ciência. Hoje, num mundo cada vez mais tecnológico, poderia servir como uma inspiração valiosíssima para as novas gerações. Mas, em vez disso, vem sendo a cada dia mais esquecido.

Santos-Dumont durante testes com o 14-Bis

Santos-Dumont durante testes com o 14-Bis Foto: Itaú Cultural

Boa parte dos brasileiros o conhece como “o pai da aviação”, termo cunhado no Estado Novo que o tornou um herói distante e empoeirado. Mas ele foi muito mais do que isso. Cientista autodidata, Santos-Dumont não só provou que era possível decolar com o 14-Bis, um aparelho mais pesado que o ar – sem auxílio de catapulta ou trilho, como fizeram os irmãos Wright – como criou outros 20 projetos, incluindo balões, dirigíveis, helicóptero e a Demoiselle, sua obra-prima. Pioneiro do design, ditou moda com seus colarinhos altos, cabelo dividido ao meio, chapéu panamá amassado e o relógio de pulso encomendado ao amigo Louis Cartier.

Santos-Dumont ganhou prêmios importantes com seu trabalho, foi tema de milhares de reportagens, em jornais e revistas do mundo inteiro, conviveu com nobres, artistas e grandes inventores. Criador da lâmpada, Thomas Edison lhe deu uma foto com a dedicatória: “To Santos-Dumont, Pioneer of Aerial Navigation (Para Santos-Dumont, pioneiro da aeronavegação)”. Com Graham Bell, o inventor do telefone, jantou em 10 de janeiro de 1902. Um ano depois, o escultor francês Auguste Rodin lhe dedicou um busto de gesso com o molde original da cabeça de Victor Hugo. O prestígio do aviador era tão grande que, em viagem aos Estados Unidos, foi recebido por ninguém menos que o presidente Theodore Roosevelt na Casa Branca. E chegou a prometer uma viagem em seu novo dirigível à filha dele, Alice.

O hangar de Santos-Dumont em Paris era ponto de encontro de amigos, curiosos e personalidades. Biógrafos listam entre as visitas as do rei da Bélgica Leopoldo II e do príncipe Alberto I, de Mônaco. Mas a considerada de maior importância para a França foi a da imperatriz Eugênia, viúva de Napoleão III. Em 11 de fevereiro de 1902, o New York Journal publicou uma foto do encontro e disse que era a primeira vez em 30 anos que Sua Majestade era fotografada num evento. “Lembro-me do rei da Espanha atravessar a rua para vir cumprimentá-lo e, assim, todas as personalidades de Paris”, escreveu Yolanda Penteado, amiga do inventor.

No auge da carreira, tudo o que “petit Santôs” fazia ou dizia tinha destaque. A ponto de as padarias parisienses batizarem com esse nome um biscoito de gengibre com seu perfil que se tornou disputadíssimo. Caixas de chocolate da época traziam miniaturas de seus dirigíveis, peças de teatro falavam dele e até concursos de brinquedos tinham categoria relacionada a Santos-Dumont. O jornal americano New York Herald publicou em 2 de março de 1902 que a miniatura do dirigível número 6, com o qual o aviador contornou a Torre Eiffel, havia se tornado o brinquedo favorito de crianças francesas.

Em vida, o inventor batizou avenidas e praças. Após sua morte, virou nome de aeroporto, escolas e até cratera na Lua. O “presente” nos Montes Apeninos lunares foi sugerido pelo Museu do Ar e do Espaço da Smithsonian Institution, dos Estados Unidos, e concedido em 1973 pela União Astronômica Internacional. Coube ao astronauta Michael Collins, tripulante da nave Apollo 11, que viajou à Lua em 1969, dizer que se tratava do “reconhecimento do mundo à contribuição do gênio inventivo de Santos-Dumont ao desenvolvimento e progresso aeroespacial contemporâneo”.

Em terras brasileiras, deve-se a Santos-Dumont um outro feito ainda hoje desconhecido de boa parte da população. Em 1916, o inventor “descobriu” as Cataratas do Iguaçu. Ao cruzar do lado argentino para o brasileiro e ser informado de que as cataratas eram propriedade particular de um uruguaio, resolveu ir a Curitiba propor a desapropriação da área para criação de um parque. Como não havia estrada em mais da metade do caminho, foi a cavalo até Guarapuava. Saiu de Foz do Iguaçu e enfrentou mais de 300 quilômetros de mata virgem. A chamada Cavalgada Patriótica durou seis dias e continuou de carro e trem até Curitiba, onde em 8 de maio foi recebido pelo então presidente do Estado, Affonso Alves de Camargo, e o convenceu a desapropriar as terras. O Parque Nacional do Iguaçu só seria criado em 19 de janeiro de 1939, por decreto do então presidente da República Getúlio Vargas. Em 17 de novembro de 1986, as Cataratas do Iguaçu receberam da Unesco o título de Patrimônio Natural da Humanidade e até hoje são um dos locais mais visitados do País.

Apesar da riqueza de sua história, Santos-Dumont tem sofrido com a mesma sina de outros brasileiros importantes num País que pouco cuida de sua memória: o desconhecimento. Boa parte de seu acervo está encaixotada, longe das vistas do público, e não há nenhuma orientação oficial sobre como falar de Santos-Dumont nas salas de aula. Pouco também tem se falado sobre os 150 anos de seu nascimento, que serão comemorados daqui a poucos dias, em 20 de julho. Na Encantada, casa que o inventor construiu em Petrópolis e hoje funciona como museu, as perguntas que as monitoras mais costumam ouvir são se Santos-Dumont se matou mesmo, se era gay e se voou depois dos irmãos Wright. 

Questionamentos até legítimos, mas muito limitados diante da grandeza de um homem que há mais de um século pôs em prática nos céus de Paris o que hoje as startups fazem num mundo cada vez mais digital: desenvolver uma ideia inovadora que provoque impacto na sociedade e possa ser escalável e repetível. Santos-Dumont fez isso com a aeronavegação e depois com a aviação, sempre se autofinanciando e testando os próprios experimentos, que ajudaram a mudar o mundo. De quebra, também criou coisas que ainda hoje existem – como o check list e o hangar. Mas quase ninguém sabe disso. É preciso compartilhar sua história. As novas gerações precisam conhecê-la!

A questão da assinatura foi um tema importante para Santos-Dumont. Ele alcançou a fama em Paris, mas sempre fez questão de ressaltar sua origem brasileira. Para tanto, primeiro adotou o hífen para unir o Santos ao Dumont e, anos mais tarde, o substituiu por um sinal de igual. Passou a ser então Santos=Dumont, numa representação do Brasil igual à França

A questão da assinatura foi um tema importante para Santos-Dumont. Ele alcançou a fama em Paris, mas sempre fez questão de ressaltar sua origem brasileira. Para tanto, primeiro adotou o hífen para unir o Santos ao Dumont e, anos mais tarde, o substituiu por um sinal de igual. Passou a ser então Santos=Dumont, numa representação do Brasil igual à França Foto: Wilton Junior/Estadão

PS: Ah, e para quem ficou curioso sobre as respostas aos questionamentos mais feitos na Encantada:

Sim, Santos-Dumont se matou em 1932, a exemplo do que sua mãe havia feito 30 anos antes. Ele já havia tentado o suicídio outras duas vezes, passado temporadas em clínicas europeias e buscado ajuda de psiquiatras no Brasil e fora. Como a Psiquiatria ainda engatinhava na época, era tratado geralmente apenas com calmantes. Especialistas não arriscam um diagnóstico definitivo, mas concordam que ele padecia de um transtorno mental.

Sobre sua sexualidade, jornais da época lhe atribuíam muitos affairs, sempre com mulheres. Fotos e cartas de seu acervo pessoal indicam o interesse por moças jovens, em relacionamentos geralmente platônicos. Como na época ter família grande era norma, sua escolha por ficar solteiro e não ter filhos deu margem a um patrulhamento social que chegou a incomodá-lo. Em desenho feito em 8 de janeiro de 1929, três anos antes de sua morte, Santos-Dumont escreveu que sua família eram o dirigível, o biplano e o monoplano.

Hangar de Santos-Dumont era ponto de visitação em Paris

Hangar de Santos-Dumont era ponto de visitação em Paris Foto: Wikimedia Commons

Em relação à polêmica se voou antes ou depois dos irmãos Wright, a história mostra que, enquanto o brasileiro decolou sem auxílio externo em 1906 diante de centenas de pessoas e de uma comissão do Aeroclube da França previamente convocada para atestar a legitimidade do voo, os americanos dizem ter voado em 1903, mas sem testemunhas credenciadas e com auxílio de trilhos, ventos e catapulta. Preocupados em serem copiados antes de ganharem dinheiro com sua máquina, eles se recusavam a mostrá-la à imprensa, ao contrário de Santos-Dumont, que sempre teve seus inventos divulgados. 

Portanto, dentro dos critérios da época (decolar por meios próprios, sem ajuda externa, em voo agendado com antecedência, diante de comissão idônea), o inventor brasileiro voou primeiro. Foi em 23 de outubro de 1906, com o 14-Bis. Percorreu 60 metros. Em 12 de novembro do mesmo ano, voou outros 220 metros. O primeiro recorde de aviação foi reconhecido pela Federação Aeronáutica Internacional, entidade com representantes de vários países, incluindo os Estados Unidos. 

Especialistas dizem que até o fim da 2.ª Guerra Mundial as literaturas francesa, inglesa e americana falavam de um jeito de Santos-Dumont. Depois, a conversa mudou: americanos passaram a dizer que ele foi o primeiro a voar na Europa, “com uma máquina feia e estranha”. Aí se começou a mudar a história e os brasileiros pouco – ou nada – fizeram diante do mundo para resgatá-la.

Desenho em que Santos-Dumont disse que dirigível, biplano e monoplano eram sua família

Desenho em que Santos-Dumont disse que dirigível, biplano e monoplano eram sua família Foto: Imagem da coleção Pedro Corrêa do Lago

*Autora do livro infantil ‘Albertinho e suas incríveis máquinas voadoras’ (Editora Letras do Brasil), Luciana Garbin foi curadora da exposição ‘Santos-Dumont na Coleção Brasiliana Itaú’

https://www.estadao.com.br/cultura/luciana-garbin/santos-dumont-foi-muito-mais-do-que-o-pai-da-aviacao-novas-geracoes-precisam-saber-disso/

Se você tiver interesse e ainda não estiver inscrito para receber diariamente as postagens de O Novo Normal, basta clicar no link: https://chat.whatsapp.com/BrKMDzP2KP52ExU8rOIB3s(14) para WhatsApp ou https://t.me/joinchat/SS-ZohzFUUv10nopMVTs-w  para Telegram. Este é um grupo restrito para postagens diárias de Evandro Milet. Além dos artigos neste blog, outros artigos de Evandro Milet com outras temáticas, publicados nos fins de semana no Portal ES360, encontram-se em http://evandromilet.com.br/

O mundo é muito Black Mirror: veja os acertos nas previsões tecnológicas da série

O futuro mostrado pela série está mais perto do que parece

Por Bruno Romani e Alice Labate – Estadão – 15/06/2023 

Filme (ou série) futurista que se preza precisa gerar identificação com o presente para causar impacto. Black Mirror, série da Netflix criada por Charlie Brooker, tem isso de sobra. Ao posicionar futuros tecnológicos nem tão longe do presente, a produção, que ganha nova temporada a partir desta quinta, 15, consegue fazer pensar sobre o papel da tecnologia na sociedade e no comportamento humano.

Ainda que muitos dispositivos mostrados nos episódios não sejam reais, as reviravoltas e usos causados pela tecnologia geraram até uma expressão – já cansada, é verdade – fora das telas. “Isso é muito Black Mirror!” virou sinônimo de uma situação tecnológica com ares distópicos, o que nos tempos atuais se aplica a quase tudo.

Desde que estreou em 2011, Black Mirror conseguiu prever muitos dos temas, e alguns dos dispositivos e tecnologias, que dominaram a última década – e que devem aparecer nos próximos anos. Entre eles estão o peso das redes sociais, a mediação dos relacionamentos por gadgets, a gamificação das atividades e a busca constante por preservação de memória e consciência diante da morte. Se serve de janela para o futuro, vale ficar atento ao que deve aparecer na nova temporada – e abaixo, você vê os acertos e erros nas previsões tecnológicas da série ao longo dos anos.

Poder e influência das mídias sociais

Primeiro episódio da série mostra o efeito da mídia na vida real

Primeiro episódio da série mostra o efeito da mídia na vida real Foto: Black Mirror/Reprodução

Lançado em 2011, o primeiro episódio na história de Black Mirror é quase uma profecia sobre o poder e alcance das mídias sociais em decisões políticas. Em “National Anthem”, um grupo terrorista chantageia o primeiro-ministro britânico a fazer sexo com um porco em uma live em troca da vida da princesa inglesa. A mensagem do grupo é disseminada no YouTube e a pressão para que o primeiro-ministro se sacrifique pela monarca cresce no Twitter e no Facebook até que ele se rende à demanda grotesca.

Quando a série saiu, nenhuma dessas plataformas tinham o poder exibido nos anos seguintes – foi só em 2011, por exemplo, que o Facebook tomou o lugar do Orkut como a rede social mais acessada no Brasil. Ao longo da década de 2010, foi possível ver como posts em redes sociais passaram a balançar as estruturas do poder em diferentes países, o que beneficiou grupos políticos que dominavam essas ferramentas – especialistas apontam as eleições de Donald Trump e Jair Bolsonaro como exemplos disso.

Hoje, é impossível não pensar em alcançar qualquer demanda que não force algum tipo de movimento nas redes sociais – mesmo que no mundo real não exista tanto ruído sobre o assunto.

Neste ponto, “National Anthem” também foi cirúrgico: a princesa é libertada meia hora antes da transmissão do primeiro-ministro, mas ninguém percebe porque todos estão colados nas telas dos dispositivos acompanhando a live. É um pouco a história de tempos atuais, onde a realidade do ambiente digital parece distrair em relação ao mundo real.

Obsessão por reputação na internet

Em "Nosedive" as pessoas são constantemente avaliadas em uma escala de cinco estrelas

Em “Nosedive” as pessoas são constantemente avaliadas em uma escala de cinco estrelas Foto: Black Mirror/Reprodução

A busca incessante pela construção de reputação na internet é algo muito comum atualmente. Claro, que Black Mirror já conseguia prever os caminhos que tomaríamos.

O episódio Nosedive, da terceira temporada, mostra uma sociedade na qual as pessoas, por meio de implantes oculares e uma espécie de celular, classificam umas às outras em uma escala de cinco estrelas com base em suas interações pessoais. Quanto menor a avaliação, mais baixa a classe socioeconômica.

Lançado em 2016, a produção certamente se inspirou nas avaliações de produtos do comércio eletrônico, que àquela altura já tinham papel importante nas compras online. Desde então, diversas interações pessoais passaram a ser moderadas por sistemas de pontuação: a entrega de comida pelo iFood, a viagem no Uber, a hospedagem no Airbnb, a obtenção de crédito junto a instituições financeiras e até a procura de parceiros em apps de namoro.

Dois anos antes de Nosedive ir ao ar, em 2014, a China passou a implementar o “Sistema de Crédito Social”, o que trouxe Black Mirror para ainda mais perto da realidade. Criado pelo Partido Comunista Chinês, o sistema monitora o comportamento da sua população, tanto de pessoas físicas quanto de empresas e organizações. Assim como na série, a pontuação pode aumentar ou diminuir dependendo do comportamento, segundo veículos internacionais, como o Insider.

Não é confirmada a metodologia exata usada para as avaliações, mas dirigir mal, publicar notícias falsas, fumar em áreas indevidas, passear com cachorro sem coleira e até jogar muito videogame são exemplos de “infrações comportamentais” levadas para análise.

Para empresas, as avaliações negativas podem ocorrer, por exemplo, caso haja evasão de dívidas bancárias, arrecadação ilegal de fundos, desinformação e fraudes financeiras.

Como parte das punições, pessoas com baixas avaliações podem ser impedidas de comprar passagens aéreas, de conseguir emprego ou de se matricular em escolas ou faculdades. Além disso, é possível até ter internet de casa reduzida e mais lenta. Para aqueles com pontuações altas, é possível conseguir descontos em contas de energia, além de obter melhores taxas de juros no banco e vagas nos melhores empregos e instituições de ensino.

Mortos ‘ressuscitados’ com ajuda de IA

Já existem IAs capazes de recriar o comportamento digital de pessoas falecidas

Já existem IAs capazes de recriar o comportamento digital de pessoas falecidas Foto: Black Mirror/Reprodução

A tentativa de contornar a morte com ajuda de tecnologia é um tema recorrente em Black Mirror. O primeiro episódio da segunda temporada, chamado “Be Right Back”, é um exemplo disso. Nele, uma viúva decide testar uma nova tecnologia capaz de simular a voz e a personalidade do falecido marido com base em seus perfis nas redes sociais.

Lançado em 2013, o episódio foi bastante preciso sobre o que viria nos anos seguintes. Desde 2016, quando avanços em IA se tornaram mais robustos, surgiram diversas iniciativas parecidas com aquilo que propunha a série. Em 2021, um brasileiro criou o aplicativo Legathum que tem como objetivo recolher dados e memórias de pessoas já falecidas para que o algoritmo do sistema consiga detectar seus traços de personalidade e padrões de comportamento a fim de simular chamadas de vídeo e conversas de voz ou texto.

No mesmo ano, houve a concretização de ideia parecida, quando foi disponibilizado na internet um site chamado “Projeto Dezembro”, que permitia que os usuários treinassem chatbots para emular humanos – o serviço era turbinado pelo GPT-3 (o primeiro “cérebro” do ChatGPT). No Canadá, um homem, chamado Joshua Barbeau, acabou alimentando o sistema com informações e posts de redes sociais de sua noiva, morta 8 anos antes. A relação entre Barbeau e a máquina alarmou a OpenAI, dona do GPT-3, que acabou forçando o desligamento do Projeto Dezembro.

Com a recente popularização do ChatGPT, o desenvolvedor Enias Cailliau usou diferentes ferramentas de IA para criar uma plataforma onde qualquer pessoa pode inventar uma namorada digital – para o experimento, ele usou a personalidade da própria namorada. O projeto, chamado GirlfriendGPT, manda mensagens no Telegram, envia áudios e até faz selfies – tudo sintetizado. Com potencial para recriar até a personalidade de quem já morreu, o código foi disponibilizado na internet, que já foi baixado por mais de 500 pessoas.

Na China, há relatos de diferentes bots voltados para “trazer a vida” pessoas já mortas, categoria já conhecida como “griefGPT” (algo como “lutoGPT”).

A única diferença entre Be Right Back e a realidade é que ainda não é possível transferir a recriação digital de personalidades para robôs humanoides. Embora existam experimentos como o robô Ameca e o CyberOne, da Xiaomi, eles ainda estão anos luz de parecerem humanos – e estão mais distantes ainda de reproduzirem a aparência física de alguém.

Memória de tudo

Lentes oculares capazes de gravar ainda não existem

Lentes oculares capazes de gravar ainda não existem Foto: Black Mirror/Reprodução

Dispositivos ou serviços que registram memórias de forma constante estão no centro de vários episódios de Black Mirror.

Logo na primeira temporada, “The Entire History of You” tenta prever como seria se as pessoas usassem um chip e lentes de contato futuristas capazes de gravar todos os momentos da vida. Em “Crocodile”, de 2017, uma investigadora tenta desvendar um assassinato a partir de um dispositivo capaz de ver as memórias de testemunhas.

Lentes futuristas não viraram realidade ainda, mas houve tentativas. Em 2008, Babak Parviz, da Universidade de Washington, chegou a testar em coelhos dispositivos do tipo. Posteriormente, ele comandou o desenvolvimento do Google Glass, eletrônico que tinha potencial para ser o equipamento de registro constante de memória da nossa sociedade. Os óculos, porém, foram rejeitados pelas pessoas por, entre outras coisas, serem considerados invasivos – ninguém estava disposto a ser filmado o tempo todo.

Isso, porém, não significa que a ideia de registro constante de memória morreu. Embora a Snap tenha lançado o Spectacles, óculos que lembram o Google Glass, o smartphone virou o aparelho que, de fato, grava tudo – tem gente que faz até selfie em velório! A presença constante das câmeras de celular em shows, eventos e outras passagens mais prosaicas da vida, turbinou redes sociais focadas em imagem, como o Instagram e o TikTok.

O acumulo de informações deu origem até a startup americana Rewind, que criou um software capaz de armazenar os dados de todas as atividades feitas por um usuário em seu computador, desde videochamadas a mensagens de texto. Com todas as informações armazenadas, o serviço oferece um chat com inteligência artificial permitindo que o usuário pergunte sobre qualquer dos registros, podendo consultar suas “memórias”.

Cultura do cancelamento

Lançado em 2016, o episódio “Hated in the Nation” não precisou de grande esforço para imaginar um tema que continua bem atual: a cultura do cancelamento.

Nele, abelhas-robôs, “ADIs”, são desenvolvidas para suprir a queda na população de abelhas no Reino Unido. Porém, esses robozinhos viram máquinas de matar após serem hackeadas. Ao longo da trama, é revelado que as vítimas das ADIs são escolhidas por meio da hashtag #MortePara nas redes sociais – aquele que lidera os índices da hashtag vira alvo.

É uma analogia clara do que acontece em redes sociais, onde posts sobre assuntos diversos podem descambar para ataques em hordas tanto no ambiente digital como no mundo real.

São diversos os exemplos de pessoas (públicas ou não) que foram canceladas nas redes. Vale lembrar, por exemplo, o caso da cantora Karol Conká, que virou alvo após sua participação no BBB 21, o que resultou em ameaças, perda patrocinadores e cancelamento de shows e projetos.

Robôs assassinos

"Cães-robôs" militares já são uma realidade fora da série

“Cães-robôs” militares já são uma realidade fora da série Foto: Black Mirror/Reprodução

Em 2017, “Metalhead”,da quarta temporada, mostra “cachorros-robô” programados para matar humanos – e quem sobreviveu vive em constante fuga das máquinas. A produção é um exemplo clássico de futuro que caiu perto demais do presente.

Continua após a publicidade

Um ano antes a Boston Dynamics lançou o Spot, cachorro-robô usado para mapear terrenos e passar por obstáculos. No ano seguinte, na esteira do lançamento de Metalhead, um vídeo com o equipamento viralizou, deixando muita gente de cabelo em pé pela semelhança física entre ficção e realidade.

Desde o lançamento, a Boston dizia que o objetivo da criação não era o uso militar, mas o robô inspirou outras companhias a desenvolver versões de guerra. Em 2021, a americana Ghost Robotics apresentou, durante uma conferência do exército americano, o seu próprio “cão-robô” equipado com rifles de 6,5 mm, feitos para fins militares.

Pouco tempo depois, em 2022, em uma feira militar na Rússia, um protótipo chinês de um “cão-robô” bem parecido com o Spot chocou por estar equipado com uma bazuca.

Monitoramento parental tecnológico

"Arkangel" mostra as vantagens e desvantagens do controle parental para o desenvolvimento de uma criança

“Arkangel” mostra as vantagens e desvantagens do controle parental para o desenvolvimento de uma criança Foto: Black Mirror/Reprodução

Na quarta temporada, o episódio “Arkangel” conta a história de uma mãe que decide implantar um chip em sua filha com um sistema chamado Arkangel, que permite monitorar a criança usando um tablet. Com ele, a mulher pode rastrear a filha, verificar sua saúde física e emocional, além de censurar coisas. Como sempre, a trama se desenrola de maneira perturbadora, com a mãe acompanhando tudo o que a filha faz já na vida adulta.

A produção não é uma previsão, mas uma visão extrema sobre o uso de tecnologia. Atualmente, os pais podem monitorar muitas atividades de suas crias. Em 2019, por exemplo, uma brasileira decidiu criar o app de monitoramento AppGuardian por ter receio em deixar a filha usar a internet sem supervisão.

Além disso, os próprios smartphones e redes sociais permitem isso. O TikTok e a Netflix, por exemplo, aumentaram as ferramentas de controle parental que oferecem em seus apps em 2020, permitindo que os pais escolham o que os filhos podem ver e com quem podem interagir online.

Em março deste ano, o estado americano de Utah foi além: sancionou uma lei capaz de restringir o acesso de menores de idade a redes sociais, exigindo o consentimento explícito dos pais ou responsáveis. A lei também faz com que empresas forneçam aos pais acesso às interações digitais de seus filhos.

Arkangel escancara um debate que os pais de hoje em dia precisam encarar diariamente: como monitorar os filhos sem violar a privacidade ou exercer controle excessivo?

Upload de consciência

No universo de San Junipero as pessoas podem escolher se querem transferir suas consciências para a cidade virtual permanentemente após a morte

No universo de San Junipero as pessoas podem escolher se querem transferir suas consciências para a cidade virtual permanentemente após a morte  Foto: Black Mirror/Reprodução

Ao longo das temporadas, Black Mirror demonstrou obsessão por algumas previsões, como a transferência de consciência para ambientes digitais. A ideia aparece em pelo menos três episódios: San Junipero (2016), Black Museum (2017) e Rachel, Jack And Ashley Too (2019).

Se depender dos avanços na área, essa será uma profecia não realizada. Os avanços para transferir o cérebro para o ambiente digital praticamente não existem, embora nomes como Elon Musk afirmem acreditar que isso seja possível. Por outro lado, cientistas da área, como o brasileiro Miguel Nicolelis, dizem ser impossível transferir o cérebro para o ambiente digital.

Em 2018, uma startup chamada Nectome fez barulho ao anunciar uma técnica de preservação cerebral (batizada de “vitrificação”), que almejava preparar o órgão para uma eventual digitalização. Detalhe: a técnica causa a morte de quem deseja preservar o cérebro – e mesmo assim tinha uma fila de interessados, que iriam pagar US$ 10 mil pelo serviço. Sam Altman, fundador da OpenAI, era uma dessas pessoas.

Desde então, a Nectome não divulgou mais avanços significativos e mais dúvidas surgiram sobre a possibilidade de digitalização cerebral. A vida eterna na nuvem ainda é uma promessa.

Evolução dos apps de paquera

O episódio trata sobre uma evolução dos apps de relacionamento

O episódio trata sobre uma evolução dos apps de relacionamento Foto: Black Mirror/Reprodução

Desde as salas de bate-papo, a internet é um espaço de paquera e namoro. Porém, “Hang the DJ”, de 2017, imagina o avanço dos apps de namoro ao extremo, que passam a contar com algoritmos minuciosos para entregar “casais mais precisos”. Novamente, Black Mirror foi precisa.

Apps como Tinder, Bumble, Happn, Grindr e OKCupid explodiram na pandemia – nos EUA, o Pew Research Center detectou aumento de 215% por esses serviços. E o algoritmo de sugestão passou a ser a fórmula secreta de cada um deles: para a frustração dos usuários, nenhuma das empresas revela como seus sistemas funcionam.

Isso, porém, não significa que as pessoas não estejam se encontrando como resultado da ação de algoritmos. Em 2016, o Tinder confirmou que usava o “ranking Elo”, um sistema de ranqueamento de jogadores de xadrez. Três anos depois, a companhia passou a afirmar que tinha substituído o Elo por outro sistema – não revelado, claro. Já o OKCupid, que usa um sistema complexo de perguntas, deixa óbvio que trabalha com muitos dados para afinar a recomendação.

Em um mercado que se tornou altamente competitivo, parte da confidencialidade do algoritmo é uma decisão de negócio. Mas a decisão vai além: entregar a fórmula de montar casais poderia ensinar as pessoas a “hackear” o sistema, o que colocaria fim à magia da sedução.

Desta forma, como em Black Mirror, seria frustrante perceber que o amor de uma vida é o resultado de uma análise probabilística.

O desafio pelo par perfeito continua.

Sexualidade em ambiente digital

O metaverso é um tema muito discutido da tecnologia no mundo real, principalmente com as apostas de Zuckerberg

O metaverso é um tema muito discutido da tecnologia no mundo real, principalmente com as apostas de Zuckerberg Foto: Black Mirror/Reprodução

Há muitos anos, o espaço online é também um local onde pessoas conseguem exercer mais livremente suas sexualidades. “Striking Vipers” mostra dois homens que se apaixonam dentro de um jogo realista – e as dificuldades de trazer o relacionamento para o mundo real.

O episódio chegou apenas dois anos antes de Mark Zuckerberg mudar o nome do Facebook para Meta, em um esforço para mostrar o foco da companhia no metaverso. Na apresentação do executivo, uma das promessas era de que as pessoas poderiam assumir e viver qualquer identidade no novo ambiente.

Embora a ideia de metaverso venha enfrentando tropeços, a proposta de Zuckerberg funciona como ponta de lança de um fenômeno com potencial de crescimento. Se o Apple Vision Pro conseguir popularizar o metaverso, relacionamentos como o visto em Black Mirror podem se tornar ainda mais corriqueiros.

Políticos criados na internet

Candidatos criados na internet é uma das profecias mais potentes de Black Mirror

Candidatos criados na internet é uma das profecias mais potentes de Black Mirror  Foto: Black Mirror/Reprodução

The Waldo Moment”, da segunda temporada, é uma das profecias mais potentes de Black Mirror. Três anos antes de Donald Trump e cinco anos antes de Jair Bolsonaro, a trama mostra um candidato que surge no meio digital e ganha força por suas frases “engraçadas” e mal-educadas.

Na série, Waldo é um urso animado de vocabulário sujo controlado por um comediante em um programa de televisão, que começa a ganhar popularidade e entra na disputa eleitoral quase por acidente. Em 2010, o Brasil já havia experimentado com a eleição de um candidato que surge como uma piada – Tiririca foi eleito Deputado Federal mais votado no País, com mais 1 milhão de votos. Mas a escalada do palhaço não foi no meio digital.

Em 2016, Donald Trump foi eleito presidente dos EUA, famoso por sua postura mal-educada frente às câmeras, agressividade nas redes e ausência de propostas concretas. A ideia de ter Trump como presidente era tão cômica e fora da realidade que, nos anos 2000, os Simpsons fizeram piada com a ideia.

Seguindo a cartilha de Trump, Jair Bolsonaro foi eleito presidente em 2018, com ajuda de falas ofensivas e discursos com palavrões de alta repercussão nas redes sociais.

Bloqueio e ‘ghosting’

Bloquear pessoas nas redes sociais é algo muito comum e parte da cultura digital

Bloquear pessoas nas redes sociais é algo muito comum e parte da cultura digital Foto: Black Mirror/Reprodução

O poder do bloqueio nas redes sociais e do ghosting (a prática de “desaparecer” sorrateiramente da vida de alguém em ambiente digital) aparece em “White Christmas”, episódio especial de Natal da série. Nele, uma das personagens usa uma tecnologia que bloqueia o namorado na vida real, transformando ele em borrões diante dos seus olhos e tornando ela incomunicável para ele.

Obviamente, bloquear alguém na vida real não é possível. Mas a prática está enraizada na cultura digital atual – tanto que avançou até para o meio político, em perfis de cargos eletivos. Durante o mandato de Jair Bolsonaro, por exemplo, os três perfis que representam a Presidência da República no Twitter, no Facebook e no Instagram bloquearam ao todo 1.075 perfis, de acordo com informações obtidas via Lei de Acesso à Informação (LAI), pelo coletivo Fiquem Sabendo.

Já o ghosting é cada vez mais comum. Um estudo da Universidade de Castilla, na Espanha, publicado em 2020, estima que 19% dos espanhóis já sofreram ghosting, enquanto esse número fica entre 13% e 23% nos EUA.

Gamificação da sociedade

Esse episódio é um reflexo da 'gamificação' da realidade

Esse episódio é um reflexo da ‘gamificação’ da realidade Foto: Black Mirror/Reprodução

O mundo de “Fifteen Million Merits” retrata uma sociedade dividida em ocupações pré-determinadas, no qual conquistas dependem de pontos virtuais, como em um videogame. Era um sinal do que viria pela frente no nosso mundo, onde estratégicas de gamificação são adotadas em diversas facetas da vida.

Hoje, somamos troféus em apps de exercícios físicos, empresas aplicam técnicas competitivas de jogos para engajar e contratar funcionários, influenciadores disputam likes e compartilhamentos, estudantes aprendem por meio de “missões” e “fases” e namoros são mediados pelas interfaces de aplicativos.

Não estamos pedalando bicicletas virtuais em busca de moedas, mas os jogos não estão mais entre nós apenas como entretenimento.

https://www.estadao.com.br/link/cultura-digital/o-mundo-e-muito-black-mirror-veja-os-acertos-nas-previsoes-tecnologicas-da-serie/

Se você tiver interesse e ainda não estiver inscrito para receber diariamente as postagens de O Novo Normal, basta clicar no link: https://chat.whatsapp.com/BrKMDzP2KP52ExU8rOIB3s(14) para WhatsApp ou https://t.me/joinchat/SS-ZohzFUUv10nopMVTs-w  para Telegram. Este é um grupo restrito para postagens diárias de Evandro Milet. Além dos artigos neste blog, outros artigos de Evandro Milet com outras temáticas, publicados nos fins de semana no Portal ES360, encontram-se em http://evandromilet.com.br/