O futuro do trabalho tem cabelos brancos (e isso é uma boa notícia)

Mudança na pirâmide etária brasileira forçará as empresas e a sociedade a lidar com o etarismo


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Camila de Lira – Fast Company Brasil – 17-07-2023 

O futuro do trabalho no Brasil terá cabelos brancos. E, sim, isso significa inovação. Significa que empresas terão horários flexíveis, ambientes diversos, modelos diferentes de liderança e ênfase em soft skills. Para destravar esse potencial, no entanto, o mercado brasileiro precisa encarar um tema complexo: a discriminação por conta da idade, o etarismo.

Dados iniciais do Censo de 2022 mostram que a taxa brasileira de crescimento populacional caiu pela metade nos últimos 10 anos. Já a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD) mais recente, feita em 2021, mostra que o país já tem 56,1% da população com mais de 30 anos.

Fonte: IBGE

Antes da divulgação dos dados do Censo de 2022, as projeções mostravam que, até 2040, 57% da força de trabalho terá mais de 45 anos. As informações apenas aceleram o ritmo de chegada dessa transformação.

“Os números são um chamado à realidade. Temos que mudar o conceito que diz que a juventude é o grande motor de desenvolvimento da economia”, afirma Sérgio Serapião, CEO da Labora, consultoria focada na reinserção de pessoas com mais de 50 anos no mundo profissional.

Outro dado que precisa entrar na conta: a expectativa de vida do brasileiro segue crescendo. Nos anos 2000, a esperança de vida ao nascer era de 69,8 anos. Hoje em dia, é de 77 anos.

A transformação digital levou a uma percepção de que é preciso ter jovens para ser uma empresa moderna. O melhor é ter diversidade geracional.

De acordo com Morris Litvak, CEO e fundador da Maturi, maior empresa brasileira focada em recolocação e desenvolvimento profissional dos 50+, a ideia de uma pessoa de cabelos brancos “parada no tempo” não condiz com a realidade.

“O etarismo é embasado em um estereótipo de realidade que não é mais a nossa. Em 30 anos, a sociedade brasileira mudou muito, mas a cultura ainda valoriza os jovens”, aponta Litvak.

Dentro das companhias, o etarismo aparece de uma forma mais silenciosa, difícil até mesmo de ser captada em pesquisas e censos internos. Afinal, muitas grandes empresas têm, de fato, diretores e executivos com mais de 50 anos de idade. Na sua maioria, são profissionais que amadureceram dentro da empresa, subiram de cargos e seguem ali.

“A contratação de profissionais acima dos 50 anos ainda é um tabu. Porque o mercado parte de um olhar muito voltado para os jovens”, fala Litvak.

Programas de aposentadoria compulsória, que forçam a saída de profissionais com mais de 50 anos, são mais comuns no dia a dia das companhias do que os de contratação. Pesquisa feita pela Maturi em parceria com a EY mostrou que 80% das empresas brasileiras não têm políticas especificas e intencionais de combate à discriminação etária em processos seletivos.

Crédito: Freepik

SEM DATA DE VALIDADE

“A palavra envelhecimento assusta muita gente. As pessoas não se sentem muito confortáveis em tratar desse tema”, aponta o fundador da SeniorLab, Martin Henkel. A consultoria é focada em pesquisas de mercado do segmento 60+ e vem captando mudanças no comportamento de quem antes era considerado “apenas uma avó”.

Entender que envelhecer trará experiências e habilidades novas faz parte da quebra do etarismo. No mundo corporativo, um profissional 50+ costuma ser mais resiliente em momentos de crise.

Em 30 anos, a sociedade brasileira mudou muito, mas a cultura ainda valoriza os jovens.

“É um profissional que tem o domínio, tem um plano B, não se desespera na hora que acontece algo ruim, tem mais capacidade de planejar”, afirma Juliana Ramalho, CEO da Talent Senior. Além disso, ele já teve tempo para treinar e aprimorar a comunicação e a empatia, duas das principais soft skills procuradas no mercado.

A criatividade também está presente, mas em uma forma que o mercado, principalmente de tecnologia, acaba deixando de lado. No lugar das mil ideias disruptivas dos profissionais jovens, há aquela única ideia com aplicabilidade prática.

“A criatividade sênior não é aquela que fica dando palpites no brainstorm. Ela é mais assertiva, direta, porque é baseada em uma série de experiências anteriores”, analisa Serapião. Além disso, quando contratados, os profissionais reduzem a taxa de rotatividade da empresa, já que tendem a se estabelecer no local.

“A transformação digital levou a liderança a ter uma percepção errada de que precisa ter jovens para ser uma empresa moderna. Na verdade, o melhor é ter um mix, ter diversidade geracional”, diz Litvak.

“O mercado está desperdiçando talentos que poderiam aumentar a produtividade por um mero desconhecimento e preconceito”, aponta Henkel. “As pessoas não têm data de validade.”

FLEXIBILIDADE PELA FRENTE

Quando combinadas, a longevidade e a aceleração da tecnologia vão exigir uma transformação sobre o que significa uma carreira de sucesso.

No lugar do caminho linear e ascendente, a vida profissional acontecerá em ciclos. O que significa que nem sempre o movimento será para um cargo mais alto, mas para uma posição que se encaixe no momento de vida da pessoa.

Litvak, da Maturi, explica que os 50+ puxam novas formas de um profissional colaborar e de agregar valor para as empresas. No lugar de aposentar aquela executiva experiente ou aquele líder sênior, as companhias poderiam optar por torná-los mentores de jovens ou abrir espaço para consultoria.

Um exemplo que pode ser visto hoje é com relação à carga horária. Muitos dos executivos que se aposentam acabam optando por trabalhos que exigem menos horas por dia, em uma dedicação não exclusiva. O que já criou um novo formato de trabalho: o Talent as a Service.

A partir deste modelo uma empresa pode contratar alguém pela experiência que tem na área. É como se fosse uma consultoria especializada. Assim, a pessoa pode optar por trabalhar para três empresas, em um tempo reduzido para cada uma. Juliana, que aposta nesse modelo na Talent Senior, conta que existe até a opção de o profissional colaborar para uma empresa apenas um dia da semana.

O profissional sênior já teve tempo para treinar e aprimorar a comunicação e a empatia, duas das principais soft skills procuradas no mercado.

A combinação traz resultados positivos para companhias que precisam do apoio técnico e da experiência de quem já é especializado no ramo. “Valorizar a experiência é mostrar que o profissional sênior não é aquela mão de obra barata, o que evita que o modelo se transforme no que aconteceu com a gig economy [modelo de trabalhadores autônomos como do Uber]”, afirma Juliana.

Além da flexibilidade, o mercado de trabalho 50+ é mais aberto à transição de carreira. A busca pelo lifelong learning, ou seja, o aprendizado de longo prazo, é uma característica desses profissionais. No Brasil, o número de universitários com mais de 40 anos em cursos de graduação passou de 28 mil para 600 mil entre 2012 e 2021.

No final das contas, a nova pirâmide etária brasileira exigirá empresas mais atentas e processos humanizados, flexíveis e diversos. Uma transformação que trará benefício para todas as gerações que ingressarem no mercado de trabalho.


SOBRE A AUTORA

Jornalista formada pela ECA-USP, early adopter de tecnologias (e curiosa nata) e especializada em storytelling para negócios.


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Acesso a artes na escola impacta desempenho de modo indireto, dizem estudos

Estudos americanos indicam que o acesso às artes na escola tem impacto indireto no desempenho dos alunos. Embora não necessariamente melhore as notas em disciplinas básicas, como matemática e leitura, a exposição às artes parece beneficiar habilidades cognitivas, emocionais e sociais.

O foco em testes padronizados na avaliação da educação, como o Saeb e o Pisa, levou a uma redução de recursos destinados às artes nas escolas, especialmente nos EUA. Estudantes de grupos marginalizados, como dança e estudantes não brancos, foram os mais prejudicados.

Pesquisas apontam que a participação em atividades artísticas pode reduzir advertências, melhorar o desempenho em redação, aumentar a compaixão e o empenho escolar, mas não necessariamente o desempenho em testes padronizados.

Outros estudos exploram a integração das artes no ensino, com efeitos modestos na melhoria das notas em comparação com outras intervenções. O envolvimento em artes também parece beneficiar o desempenho acadêmico em matemática, leitura, motivação e empatia.

Embora os resultados variem, as artes desempenham um papel relevante no desenvolvimento das habilidades necessárias para a inovação, incluindo habilidades técnicas, de pensamento criativo e habilidades comportamentais e sociais. Portanto, a presença das artes nos currículos escolares é justificada, independentemente de transferências diretas de competências em outras disciplinas.

Leia a matéria completa de Vinicius Torres Freire na Folha de 07/09/2023 em:

https://www1.folha.uol.com.br/seminariosfolha/2023/09/acesso-a-artes-na-escola-impacta-desempenho-de-modo-indireto-dizem-estudos.shtml

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Café brasileiro luxuoso é extraído de excrementos do pássaro jacu

Produto é vendido por 1.118 reais o quilo no Brasil, e ainda mais caro no exterior, em lojas de luxo como a britânica Harrods

Por AFP – O Globo – 08/09/2023

Excrementos de pássaro Jacu são fotografados na plantação de café Camocim, em Domingos Martins, Espírito Santo Excrementos de pássaro Jacu são fotografados na plantação de café Camocim, em Domingos Martins, Espírito Santo — Foto: CARL DE SOUZA / AFP

Antes considerado uma praga nas plantações de café do sudeste do Brasil, o pássaro selvagem jacu – e seu prodigioso sistema digestivo — tornou-se o principal aliado na produção de um dos cafés mais caros do mundo.

O jacu – jacuaçu – parece um faisão e tem paladar fino: “Geralmente ele escolhe as melhores frutas, as mais maduras”, explica Agnael Costa, de 23 anos, à AFP, enquanto coleta delicadamente os valiosos excrementos entre duas árvores.

Na fazenda Camocim, situada em um vale bucólico da comunidade de Domingos Martins, no Espírito Santo, os pés de café crescem em meio a uma floresta exuberante.

Pássaro Jacu voa na plantação de café Camocim, em Domingos Martins, Espírito Santo — Foto: CARL DE SOUZA / AFP Pássaro Jacu voa na plantação de café Camocim, em Domingos Martins, Espírito Santo — Foto: CARL DE SOUZA / AFP

— Foi esse sistema agroflorestal que criou as condições necessárias para existir esse café exótico aqui —, explica o proprietário Henrique Sloper, adepto da agricultura biodinâmica, sem produtos químicos.

O produto é vendido por 1.118 reais o quilo no Brasil, e ainda mais caro no exterior, em lojas de luxo como a britânica Harrods.

De inimigo a aliado

Mas o jacu, espécie de plumagem preta e garganta escarlate, nativa de outras regiões da América do Sul, nem sempre foi bem-vindo na propriedade Camocim. No início, era visto como uma praga que ameaçava as colheitas e causava problemas.

Foi ao conhecer o café “Kopi Luwak” na Indonésia, feito com excrementos de civeta (mamífero asiático semelhante a um mangusto), que Henrique Sloper teve a ideia de transformar o jacu de inimigo a aliado. Enquanto a reputação do “Kopi Luwak” – também vendido a preço de ouro – é prejudicada por denúncias de maus-tratos a civetas em cativeiro, o jacu brasileiro cresce em liberdade.

— É 100% natural. O jacu está dentro do habitat natural dele mesmo , a floresta atlântica do litoral brasileiro —, diz o supervisor de produção, Rogério Lemke.

— É uma região muito protegida (…) e não usamos químicos, produtos transgênicos, nada” na plantação de café — , acrescenta.

Os excrementos do jacu lembram a aparência de um pé de moleque, com grãos de café incrustados em uma pasta enegrecida.

Depois de colhidas, as fezes são colocadas para secar em uma estufa. Em seguida, os grãos de café são classificados e descascados cuidadosamente, antes de serem colocados em uma câmara fria. São retirados de lá apenas mediante solicitação do cliente, para evitar desperdícios.

— Em função do trabalho que a gente tem para fazer esse produto, ele é naturalmente caro. Não tem como fazer um café de jacu com custo baixo… É um produto escasso e a produção é incerta, porque depende do apetite do jacu — afirma Henrique Sloper.

O café extraído dos excrementos destas aves representa menos de 2% da produção da fazenda.

— Serve não só como selecionador, como também alarme de colheita. Onde ele come, o café está maduro —, explica.

Luxo e sustentabilidade

— Os pássaros têm um trânsito intestinal extremamente curto. Praticamente entrou, e depois de alguns segundos já está saindo. Então não existe propriamente qualquer tipo de processo bioquímico, não dá tempo — explica o analista de café, Ensei Neto.

É muito mais lento em civetas ou elefantes, cujos excrementos também são usados para produzir esse tipo de café na Tailândia.

— Basicamente, o que você tem como diferencial, que o pássaro promove, é essa seleção dos grãos maduros. Ele não adiciona nada a mais. Mas a história é boa —, diz Neto.

Os grãos bem maduros conferem ao café “notas doces, com boa acidez”.

— É um café delicioso e a história por trás da sua produção é muito original. É uma experiência nova para nós —, diz a turista Poliana Cristiana Prego, de 37 anos, que veio até a fazenda provar o café do jacu.

— Nossos clientes são os amantes de produtos exóticos, mas também aqueles que valorizam a ideia de desenvolvimento sustentável — afirma Henrique Sloper.

Para ele, “o futuro do café vai vir do Brasil”. Maior produtor mundial, o gigante sul-americano começa a melhorar a parte do branding, do marketing do café. É mostrar para o mundo que realmente temos condições de fazer o que ninguém tem”.

https://oglobo.globo.com/brasil/noticia/2023/09/08/cafe-brasileiro-luxuoso-e-extraido-de-excrementos-do-passaro-jacu.ghtml

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Pentágono pretende colocar frota com inteligência artificial para conter ameaça da China

Uma estratégia poderia ser aproveitar as capacidades demonstradas pela Task Force 59, a rede de drones e sensores da Marinha dos Estados Unidos

Os EUA procuram acompanhar o ritmo da rápida expansão militar da China (U.S. Air Force/Getty Images/Getty Images)

Estadão Conteúdo – Exame – Publicado em 6 de setembro de 2023 

O Pentágono pretende colocar em campo uma vasta rede de tecnologia municiada por inteligência artificial, drones e sistemas autônomos nos próximos dois anos para combater as ameaças da China e de outros países. A vice-secretária do Departamento de Defesa dos Estados Unidos, Kathleen Hicks, detalhou, em um discurso nesta quarta-feira, os planos da área de gastar centenas de milhões de dólares para produzir sistemas de inteligência artificial para uso no espaço aéreo, terra e mar e que sejam “pequenos, inteligentes e baratos”.

Os EUA procuram acompanhar o ritmo da rápida expansão militar da China, devido a preocupações de que a burocracia do Pentágono leve um período demasiadamente demorado para desenvolver e implementar sistemas de ponta. “Não estamos em guerra. Não pretendemos estar em guerra, mas temos de ser capazes de fazer com que este departamento avance com o mesmo tipo de urgência porque a RPC não está esperando”, disse Hicks durante uma entrevista, referindo-se à República Popular da China.

Tecnologia na corrida armamentista

Uma estratégia poderia ser aproveitar as capacidades demonstradas pela Task Force 59, a rede de drones e sensores da Marinha dos Estados Unidos concebida para monitorar as atividades militares do Irã no Oriente Médio.

“Imagine conjuntos distribuídos de sistemas com propulsão própria autônomos à tona, movidos pelo sol e outros recursos virtualmente ilimitados, repletos de sensores abundantes e suficientes para nos fornecer fontes novas e confiáveis de informações quase em tempo real”, disse Hicks durante o discurso para uma conferência organizada pelo Defense News em Arlington, Virgínia.

Outras capacidades que estão em estudo são sistemas autônomos baseados em terra para fornecer logística, sistemas independentes no espaço que seriam tão numerosos a ponto de se tornarem difíceis de serem destruídos por um adversário, além de equipamentos com autonomia que poderiam se defender de mísseis que se aproximassem.

Inteligência artificial

Os sistemas autônomos usam inteligência artificial para detectar e atacar alvos inimigos e podem incluir drones pilotados de maneira autônoma no ar e no mar. O Departamento de Defesa investe há muito tempo em tais sistemas — incluindo navios sem pilotos e aeronaves sem tripulação.

O discurso de Hicks aprofundou os detalhes sobre a iniciativa “Replicador” que o Pentágono anunciou na semana passada para compensar o crescimento militar chinês. Na ocasião, o Departamento de Defesa disse que esperava implantar milhares de sistemas, mas sem explicar como eles poderiam ser usados.

Sistemas autônomos são coisas que podemos usar por três, cinco anos antes de avançarmos para outros produtos, já que é uma necessidade dada a dinâmica e o ritmo acelerado e inovador de nossos adversários, disse.

https://exame.com/inteligencia-artificial/pentagono-pretende-colocar-frota-com-inteligencia-artificial-para-conter-ameaca-da-china/

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Pesquisadores testaram a criatividade da IA. E ela passou com louvor

A inteligência artificial ficou entre os melhores no teste de originalidade de ideias, superando 99% dos participantes

Erik Guzik – Fast Company Brasil – 05/09/2023

Das várias facetas do intelecto humano que se poderia esperar que a inteligência artificial emulasse, poucas pessoas colocariam a criatividade no topo da lista. Esta é uma habilidade incrivelmente misteriosa – e frustrantemente efêmera. Ela nos define como seres humanos e, aparentemente, desafia a lógica fria por trás da artificialidade das máquinas.

No entanto, a IA está sendo cada vez mais utilizada em tarefas que envolvem criatividade. Novas ferramentas como DALL-E e Midjourney estão se tornando parte da produção criativa. E o impacto disso é tanto social quanto econômico – para citar um exemplo, este é um ponto central na greve dos roteiristas de Hollywood.

modelos de IA como o GPT-4 são capazes de gerar ideias que as pessoas consideram inesperadas, novas e únicas.

Se o nosso recente estudo sobre a surpreendente originalidade da IA servir de indicativo, sua aplicação para a criatividade – junto com todas as promessas e perigos envolvidos – está apenas começando.

Ao lado dos pesquisadores Christian Byrge e Christian Gilde, decidimos avaliar as habilidades criativas da IA, submetendo-a ao Teste de Pensamento Criativo de Torrance (TTCT, na sigla em inglês). Além de aplicá-lo ao GPT-4 oito vezes, 24 dos nossos alunos de graduação também participaram do teste.

O TTCT exige que os participantes usem sua criatividade para realizar tarefas da vida real: fazer perguntas, ser mais eficiente, adivinhar a causa e o efeito de algo ou melhorar um produto. O teste pode pedir que sugiram formas de melhorar um brinquedo ou imaginem as consequências de uma situação hipotética.

Todos os resultados foram avaliados por revisores treinados da Scholastic Testing Service, empresa que aplica o TTCT. Eles não sabiam de antemão que alguns dos testes haviam sido realizados por IA.

Por ser uma empresa privada, ela não compartilha provas passadas. Isso garantiu que o GPT-4 não pudesse buscar na internet avaliações anteriores. A organização possui um banco de dados com milhares de testes realizados por estudantes universitários e adultos, que serviu como um grupo de controle extra com o qual pudemos comparar as pontuações da IA.

até agora, poucos currículos visando o desenvolvimento da criatividade foram implementados no sistema educacional.

O resultado? O GPT-4 ficou entre os melhores no teste de originalidade de ideias, superando 99% dos participantes. Com base na nossa pesquisa, acreditamos que este é um dos primeiros exemplos em que IA alcança ou ultrapassa a capacidade humana de pensar de forma original.

Concluímos que modelos de IA como o GPT-4 são capazes de gerar ideias que as pessoas consideram inesperadas, novas e únicas. E outros pesquisadores estão chegando a conclusões semelhantes.

HABILIDADES CRIATIVAS DA IA

Independentemente do debate sobre as definições do que é criatividade e do processo criativo, os resultados gerados pelas versões mais recentes da IA são novos e úteis. Acreditamos que atendem à definição adotada na psicologia e na ciência de forma mais ampla.Além disso, as habilidades criativas das atuais iterações da IA não são totalmente inesperadas.

Em sua agora famosa proposta para o projeto de pesquisa de verão da Dartmouth College, realizada em 1956, os fundadores da inteligência artificial destacaram seu desejo de simular “todos os aspectos da aprendizagem ou qualquer outra característica da inteligência” – incluindo a criatividade.

os fundadores da IA acreditavam que a criatividade estava entre as manifestações da inteligência humana que as máquinas poderiam emular.

Na mesma proposta, o cientista da computação Nathaniel Rochester revelou sua motivação: “como criar uma máquina que demonstre originalidade na resolução de problemas?”

Aparentemente, os fundadores da IA acreditavam que a criatividade, incluindo a originalidade de ideias, estava entre as manifestações específicas da inteligência humana que as máquinas poderiam emular.

Na minha opinião, os resultados surpreendentes do GPT-4 e de outros modelos de inteligência artificial destacam uma preocupação mais urgente: até agora, poucos programas e currículos oficiais visando especificamente a criatividade humana e seu desenvolvimento foram implementados no sistema educacional dos EUA.

Nesse sentido, as habilidades criativas demonstradas pela IA podem servir de motivação para educadores e outros interessados em promover as habilidades criativas humanas, incluindo aqueles que veem a criatividade como uma condição essencial para o crescimento individual, social e econômico.

Este artigo foi originalmente publicado no The Conversation e reproduzido sob a licença Creative Commons. Leia o artigo original.


SOBRE O AUTOR

Erik Guzik é professor clínico assistente de administração na Universidade de Montana.

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Superar a monotonia agroalimentar

Importante é ampliar oferta e consumo de produtos frescos, e não de grãos, proteínas animais e de ultraprocessados

Por Ricardo Abramovay e Juliana Tângari – Valor – 04/09/2023

“A natureza introduziu grande variedade na paisagem, mas o homem manifesta uma paixão para simplificá-la”. A frase de Rachel Carson, na Primavera Silenciosa, publicada em 1962, ganhou atualidade maior que nunca. A denúncia concentrava-se no que Carson chamava de biocidas e que são componentes essenciais da Revolução Verde: sementes selecionadas realizam sua alta potencialidade sob o efeito de fertilizantes nitrogenados, em ambientes cuja monotonia propicia o ataque de ervas invasoras, de insetos e de fungos, que serão combatidos por meio de agrotóxicos (os biocidas). Os solos perdem sua biodiversidade, liberam carbono para a atmosfera e este conjunto responde por diferentes formas de poluição e agressões à saúde humana.

Nas criações animais, igualmente, as transformações genéticas (sobretudo nas aves e nos suínos) e a homogeneidade das raças favorecem a difusão de vírus e bactérias cuja propagação passa a ser combatida por antibióticos. Na Alemanha, durante os 200 dias da vida de um suíno, antibióticos lhes são administrados por 48,5 dias. No Brasil estes medicamentos são absorvidos durante 78% do tempo de vida das criações suínas dominantes, segundo artigo publicado na prestigiosa revista científica Animals (x.gd/TfU9q).

73% dos antibióticos hoje produzidos (93 mil toneladas em 2020 e, pelas atuais estimativas 150 mil toneladas em 2030) destinam-se aos animais destas criações concentracionárias. A consequência é o avanço da resistência aos antimicrobianos, que expõe a sociedade ao surgimento de vírus e bactérias aos quais os medicamentos conhecidos não conseguem dar combate. A discussão pública deste tema é recente. No ano 2000 apenas 5 países relatavam publicamente o consumo de produtos antimicrobianos. Este número avançou, mas ainda assim, hoje apenas 47 países expõem estes dados.

O Brasil, com quase 8% do consumo global de antibióticos animais (o segundo do mundo, bem atrás da China com 45% do total, mas à frente dos Estados Unidos, com 7%) não possui registro aberto deste uso. Segundo importante trabalho de pesquisadores da Fiocruz (x.gd/oEWtF) a supervisão estatal sobre o tema dificilmente poderia ser mais precária. Documento recente da Academia de Ciências dos EUA (www.surl.li/kowdy) pede que a reunião do G-20 a ser realizada na Índia em setembro enfrente o avanço global da resistência aos antimicrobianos

A monotonia das paisagens agrícolas e a redução na variedade genética dos animais que, a partir dos anos 1960, contribuíram, de fato, para reduzir a fome no mundo, converteram-se num dos mais cruciais desafios globais. Os relatórios do IPCC mostram que a agropecuária responde por um terço das emissões de gases de efeito estufa e a Plataforma Intergovernamental de Políticas Científicas sobre a Biodiversidade e Serviços dos Ecossistemas (IPBES) é taxativa ao colocar o setor como o mais importante vetor da erosão da biodiversidade.

Importante é ampliar oferta e consumo de produtos frescos, e não de grãos, proteínas animais e de ultraprocessados

Zerar o desmatamento é fundamental, mas não elimina as ameaças do sistema agroalimentar mundial sobre a saúde humana, o bem-estar animal e os serviços ecossistêmicos. E, uma vez que estas ameaças derivam de um sistema apoiado em cadeias produtivas longas e internacionalizadas, a discussão sobre a emergência de uma agropecuária regenerativa e de uma oferta alimentar acessível e saudável tem alcance global (e interesse para o G-20), por duas razões básicas.

A primeira é de natureza geopolítica. O mundo conhece 7.039 plantas comestíveis, das quais 417 são cultiváveis. No entanto, apenas quinze produtos respondem por 90% da alimentação humana e quatro deles (arroz, soja, milho e trigo) por cerca de 60% do total. Estes produtos estão concentrados em alguns poucos países e, nestes países, em algumas poucas regiões. Não por acaso, estas regiões são especialmente suscetíveis aos impactos dos eventos climáticos extremos, como as recentes secas no Brasil, na Argentina, na Índia, no Meio-Oeste norte-americano e em regiões produtoras da Europa. A importância do comércio agropecuário global não pode escamotear os riscos de um sistema apoiado tão fortemente em cadeias produtivas longas e concentradas como as atuais.

Esta monotonia agropecuária converteu-se na base fundamental de regimes alimentares que agridem a saúde humana e esta é a segunda razão pela qual o tema deve ser discutido globalmente. É crescente a importância dos ultraprocessados, compostos a partir de alguns poucos produtos agrícolas, aos quais são acrescentados componentes que oferecem sabores, cores, aromas e texturas que simulam diversidade e cujo conteúdo induz o organismo a consumi-los de forma compulsiva. Estes produtos estão na origem da pandemia global de obesidade e das doenças que mais matam no mundo.

Por outro lado, quase metade da oferta global de grãos destina-se ao consumo de animais, num mundo cujo consumo de proteínas é muito superior às necessidades metabólicas das pessoas, com exceção de algumas regiões da África sub-sahariana e da Ásia. O mais importante hoje no enfrentamento dos desafios alimentares globais é ampliar a quantidade de frutas, verduras, produtos frescos, e não aumentar de forma genérica a oferta de grãos, de proteínas animais e de ultraprocessados. Neste sentido, uma economia de proximidade (com o avanço, por exemplo, da agricultura urbana) é um caminho promissor.

A Cátedra Josué de Castro da Faculdade de Saúde Pública da USP e o Instituto Comida do Amanhã apresentaram à reunião do G-20 na Índia um trabalho expondo os riscos da monotonia do sistema agroalimentar e preconizando a diversificação tanto da oferta como do consumo, sobre a base da valorização dos diferentes territórios, da recuperação das culturas produtivas e culinárias locais e de tecnologias regenerativas (x.gd/lHQeS). Dos 300 trabalhos que o G-20 recebeu, o nosso está entre os vinte que vão compor um livro a ser lançado em novembro deste ano, no âmbito da presidência indiana do G-20.

Não há país com melhores condições de liderar este incontornável processo de transição do que o Brasil e esta deveria ser uma pauta prioritária para a presidência brasileira do G-20 que se realizará entre nós em 2024.

Ricardo Abramovay, professor titular da Cátedra Josué de Castro da Faculdade de Saúde Pública da USP e autor de Infraestrutura para o desenvolvimento sustentável da Amazônia (Ed. Elefante).

Juliana Tângari é diretora do Instituto Comida do Amanhã.

https://valor.globo.com/opiniao/coluna/superar-a-monotonia-agroalimentar.ghtml

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Como o Brasil ultrapassou os EUA como líder mundial em exportações de milho

País já ocupava o primeiro lugar na exportação de soja. Agora, compras da China, dólar alto e custo de produção americano mudam a liderança mundial histórica dos EUA no milho

Fazenda de milho em Leland, em Mississippi, nos Estados Unidos

Como o Brasil ultrapassou os EUA na liderança mundial das exportações de milho |Fazenda de milho em Leland, em Mississippi, nos Estados Unidos

Por Michael Hirtzer e Dominic Lau – Bloomberg 31 de Agosto, 2023 |

Bloomberg — Por mais de meio século, os agricultores dos Estados Unidos dominaram o mercado internacional de milho, exportando mais desse produto crucial do que qualquer outro país, seja para alimentar o gado do mundo, encher seus estoques ou fabricar alimentos processados.

Isso não ocorre mais. No ano agrícola que termina em 31 de agosto, os Estados Unidos passaram a coroa de líder de exportação de milho para o Brasil. E pode ser que nunca a recuperem.

Na safra de 2023, os EUA representarão cerca de 23% das exportações globais de milho, muito abaixo dos quase 32% do Brasil, conforme dados do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos. Espera-se que o Brasil mantenha sua liderança na safra de 2024, que começa em 1º de setembro.

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Real estate rural: como a BrasilAgro saiu da tese para 320 mil hectares de terras

Empresa que tem o fundador da Cyrela, Elie Horn, como sócio vê oportunidade para consolidar o mercado de compra e venda de propriedades agrícolas, hoje muito pulverizado

Apenas uma vez desde o governo Kennedy os Estados Unidos perderam a primeira posição antes: por um único ano em 2013, após uma seca devastadora. A indústria de exportação de milho dos Estados Unidos nunca havia passado dois anos seguidos em segundo lugar — até agora.

Perder a liderança nas exportações de milho pode parecer familiar para os agricultores americanos, que na última década também cederam o primeiro lugar nas exportações de soja e trigo. A soja foi a primeira a ser perdida, com o Brasil definitivamente assumindo a liderança em 2013.

No ano seguinte, os Estados Unidos perderam sua dominância no trigo também, com a União Europeia e depois a Rússia começando a superar os agricultores americanos no mercado global.

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Como o Brasil ultrapassou os EUA na liderança da exportação mundial de milho | Brasil se torna maior exportador mundial de milho em 2023 e 2024 (Source: Foreign Agricultural Ser)

Uma série de fatores está por trás dessa mudança: os crescentes custos do país e a falta de terras disponíveis, os efeitos persistentes da guerra comercial do ex-presidente Donald Trump com a China e o dólar americano forte.

Atualmente, os Estados Unidos representam cerca de um terço das exportações globais de soja, em uma distante segunda posição em relação ao Brasil. No trigo, agora está em quinto lugar, com uma parcela de mercado global de um único dígito.

O declínio constante e a perda de competitividade dos Estados Unidos são um golpe para um país que há muito tempo utilizava alimentos como uma força geopolítica. No auge da Guerra Fria, usou seus abundantes suprimentos como uma ferramenta para impedir que o comunismo se espalhasse em nações em desenvolvimento e até forneceu cerca de um quarto de seu trigo para a Rússia após uma falha na colheita no início dos anos 1970.

“Os Estados Unidos me lembram o sapo sendo fervido lentamente”, disse Ann Berg, consultora independente e veterana negociadora que iniciou sua carreira na Louis Dreyfus Co. em 1974. “Perdeu sua dominação, mas levou 40 anos”.

Para ser justo, a mudança nas remessas de milho não é exatamente inesperada: há anos, o governo federal tem incentivado o uso de milho cultivado domesticamente para etanol, que é adicionado à gasolina.

Cerca de 40% do milho dos EUA é destinado a abastecer moinhos domésticos que produzem etanol para uso como combustível de transporte — embora essa demanda esteja em risco à medida que mais veículos elétricos chegam às estradas. Quando os moinhos não estão comprando, a safra de milho dos EUA também pode ser armazenada em silos ou armazéns de grãos por vários anos, aguardando melhores preços.

“No caso do milho e da soja, o que estamos vendo é que estamos usando muito mais dentro do país”, disse Gregg Doud, ex-chefe de negociação agrícola dos Estados Unidos no USTr (Escritório do Representante de Comércio dos Estados) Unidos durante a administração Trump.

“Isso não é algo ruim. O que realmente está acontecendo aqui é que estamos produzindo etanol, alimentando o gado com isso, produzindo diesel renovável e estamos mais independentes energeticamente em termos de combustíveis.”

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Como o Brasil ultrapassou os EUA na liderança da exportação mundial de milho | Brasil já tinha ultrapassado Estados Unidos na produção de soja em 2013

Krista Swanson, uma produtora de Illinois e economista líder da associação de produtores de milho, disse que uma grande safra no Brasil e uma escassez nos EUA, junto com uma moeda brasileira fraca, deram à indústria de exportação de milho brasileira a vantagem nesta temporada.

Ela espera que isso seja temporário. “Estávamos meio que enfrentando alguns desafios no mercado mundial este ano”, disse ela. “É difícil competir quando ao longo de maio e junho, o preço de mercado do Brasil estava 75 centavos de dólar por bushel abaixo dos Estados Unidos.”

No entanto, alguns dos desafios da indústria de milho dos EUA em competir em âmbito global permanecerão muito depois do ano de marketing atual. Os Estados Unidos têm custos trabalhistas e de transporte mais altos, especialmente à medida que uma seca contínua no Rio Mississippi obstrui a principal artéria comercial para as safras do meio-oeste.

Enquanto isso, o Brasil tem atualizado seus portos e infraestrutura, fechando lacunas logísticas anteriores. O Brasil, com seu clima mais quente, também faz duas colheitas de milho por ano, em vez de uma, o que lhe confere uma vantagem competitiva sobre os Estados Unidos. Mesmo que o setor de milho dos Estados Unidos recupere a posição de principal exportador por um ano ou dois a curto prazo, dadas todas as suas dificuldades no mercado global em comparação com o Brasil, é improvável que recapture a coroa a longo prazo.

Isso é uma grande mudança para um país cujas músicas patrióticas exaltam as “ondas douradas de grãos” da nação. Em seu auge, os Estados Unidos exportavam 78% de sua produção anual de trigo, 54% de sua soja e 45% de seu milho. Em 2024, essas cifras deverão cair para 40%, 43% e 14%, respectivamente. Ele também está constituindo uma parcela menor das exportações globais de culturas.

Para o principal comprador agrícola, a China, o Brasil também não traz nenhuma das bagagens políticas dos EUA. No ano passado, a China assinou um acordo para comprar grãos brasileiros a fim de reduzir sua dependência dos Estados Unidos e substituir suprimentos da Ucrânia interrompidos pela invasão russa. O primeiro carregamento de milho do Brasil sob o novo acordo partiu do país em novembro.

Claro, a China ainda é um grande comprador de produtos agrícolas americanos, importando mais milho e soja dos Estados Unidos do que qualquer outro comprador nos últimos dois anos. Mas milhões de toneladas de produtos agrícolas brasileiros agora também fluem para a China a cada ano. Em julho, a China foi o principal destino das remessas de milho do Brasil, com 902.000 toneladas, em comparação com zero no mesmo período do ano anterior.

O Brasil “não é um aliado próximo dos EUA, então Pequim se sente confiante de que poderia continuar negociando com o Brasil, mesmo se a relação com os EUA piorasse repentinamente”, disse Even Pay, analista agrícola da Trivium China, uma consultoria de pesquisa de políticas.

O Brasil também precisa mais do que a China tem a oferecer, como investimentos em infraestrutura e tecnologia, fortalecendo ainda mais seus laços incipientes, disse ela. “Não parece provável que o relacionamento diplomático entre os EUA e a China melhore muito a curto prazo, o que, gostem ou não, deixará a agricultura dos EUA em uma desvantagem

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Guerra por procuração nas tecnologias de energia limpa 

As posições de China e EUA nas tecnologias de energia limpa estão hoje inversas às de semicondutores, escreve Otaviano Canuto 

Otaviano Canuto* – Poder 360 – 2.set.2023 

Em novembro de 2022, abordei neste espaço a “guerra por procuração” entre EUA e China por meio de semicondutores. Depois do sucesso das exportações chinesas nos segmentos menos tecnologicamente avançados da indústria, os EUA estabeleceram barreiras contra o acesso chinês a equipamentos e tecnologias norte-americanas para a subida na escala tecnológica –exigindo inclusive que usuários em outros países não servissem como meios de driblar a restrição. 

A progressão tecnológica na economia chinesa, nas últimas décadas, foi basicamente um processo de uso de conhecimentos e tecnologias tornadas disponíveis pela globalização. Em conjunto com investimentos locais na formação de capacidades, além de transferência forçada em alguns segmentos, firmas chinesas adquiriram, em sequência, competência em produzir, adaptar tecnologias e, em alguns casos, até fazer inovações básicas. 

 A consequência concreta no caso dos semicondutores avançados é que a China terá de construir ela própria os degraus superiores da escada tecnológica. 

Uma situação inversa à de semicondutores hoje é a que aparece no caso das tecnologias de energia limpa. Num discurso em setembro de 2022, Jake Sullivan, assessor de segurança nacional da Casa Branca, mencionou semicondutores avançados e tecnologias de computação, biotecnologia e tecnologia de energia limpa como áreas em que os EUA deveriam manter a liderança global, como “um imperativo de segurança nacional”. 

Contudo, diferentemente do caso de semicondutores, em que os EUA e aliados têm a liderança e o atual controle de pontos de estrangulamento nas cadeias de produção, a China construiu uma posição muito forte nas tecnologias de energia limpa. 

Um relatório da Gavekal, consultoria com sede em Hong Kong, divulgado na 5ª feira (31.ago.2023), aborda muito bem o tema. Observa que a transição para a energia limpa está exigindo tanto a inovação científica quanto a expansão em grande escala de tecnologias estabelecidas. 

Os EUA permanecem excelentes na primeira, incluindo-se aí o trabalho científico na captura e no armazenamento de carbono e na sua remoção. Também estão explorando fronteiras na energia geotérmica, beneficiando-se da experiência em fraturamento hidráulico na indústria de petróleo e gás de xisto. Por outro lado, nas indústrias comerciais que estão na fase de expansão, os EUA estão atrás da China nas tecnologias de descarbonização mais críticas: solar, eólica, baterias e hidrogênio. 

A dominância chinesa é patente na energia solar. Veio principalmente de lá o declínio de 90% no custo da geração de energia solar na última década, com empresas chinesas sendo responsáveis por 75-95% de cada componente da cadeia de valor. Tarifas e banimento de importações não impediram que, hoje, as importações de células fotovoltaicas pelos EUA venham majoritariamente de fabricantes chineses localizados no Sudeste da Ásia. 

Chineses também estão na dianteira no que diz respeito a baterias de veículos elétricos, ganhando espaço inclusive de firmas rivais do Japão e da Coreia do Sul que estavam na dianteira tecnológica. Nesse caso, a proximidade física a fabricantes de automóveis importa. Produtores chineses se beneficiaram da explosão na produção de carros elétricos na China, cujo consumo local foi subsidiado pelo governo. Os resultados em termos de produtividade e competitividade fizeram a China superar a Alemanha na exportação de automóveis em 2022. 

O desafio é mais complexo no caso da energia eólica. A China hoje tem a maioria dentre os 10 maiores produtores de turbinas eólicas no mundo, mas servem principalmente o mercado interno. Turbinas, com torres e lâminas grandes, demandam uma assistência e serviços nos locais de instalação e as firmas chinesas encaram dificuldades nesse caso. 

Por último, as empresas chinesas estão assumindo a dianteira na produção de produtos de hidrogênio limpo, fonte de energia que poderá crescer a partir da próxima década. Um problema com o hidrogênio é que é necessária muita energia para ser produzido, quebrando moléculas de água por meio da eletrólise. A queda acentuada do custo das energias solar e eólica poderá eventualmente alterar a relação custo-benefício na produção de hidrogênio limpo em grande escala. 

Vale notar que a tecnologia de energia limpa chinesa avançou em parte por conta dos massivos investimentos com sua aplicação. Em 2022, assim como em outros anos da década, os gastos com capacidade de energia renovável na China foram maiores que nos EUA e na Europa juntos. 

Pessoalmente, conheço um ótimo exemplo do “aprendizado reverso” via globalização e investimentos de capacitação local. Na Coreia do Sul, mas aplicável no caso chinês. Em 2007, quando era um vice-presidente no BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento), visitei um então projeto de produção de energia solar. Um engenheiro sul-coreano, depois de anos de trabalho nos EUA, juntou-se a conterrâneos para criar equipamentos e um processo de produção em escala comercial de uma patente obtida da Universidade de Delaware, nos EUA. 

Com o passar do tempo, acompanhei o sucesso competitivo do projeto e sua reprodução com aprimoramentos. O nível relativamente inferior de investimentos em energia renovável nos EUA e na Europa, em relação à China, em parte explicam a dianteira desta. 

E os EUA? A “Lei de Redução da Inflação” (Inflation Reduction Act), aprovada pelo Congresso em 2022, colocará de US$ 400 bilhões a US$ 1 trilhão em apoio a energia solar, baterias de alta capacidade, equipamentos de produção de hidrogênio e outras formas de energia renovável. Em seu discurso, Jake Sullivan se referiu a essa e outras peças legais do governo Biden como pilares de uma estratégia industrial e de inovação moderna do país. 

Caso os EUA busquem alavancar sua tecnologia limpa tentando fazê-lo de modo inteiramente autossuficiente, em parte incluindo países “amigos” e excluindo inteiramente a China, será mais árduo subir a escada de produtividade e competitividade. Se tentarem o caminho simetricamente ao que buscam fazer aos chineses nos semicondutores avançados, no mínimo sua transição energética sairá muito mais cara. 

Para finalizar, cabe mencionar um outro ponto: mineração e refino de minerais críticos a montante da cadeia de abastecimento de energias renováveis. As empresas chinesas têm feito aquisições no exterior, comprando grande parte da oferta de cobalto e lítio. Os minerais estão distribuídos no globo, mas a maior parte do refino está na China. Recentes ameaças pela China de restringir exportações de gálio e germânio representam uma escalada na competição global por minerais e metais críticos, ou seja, mais um campo para “guerras por procuração”.

*Otaviano Canuto, 67 anos, é membro-sênior do Policy Center for the New South, membro-sênior não-residente do Brookings Institute e diretor do Center for Macroeconomics and Development em Washington. Foi vice-presidente e diretor-executivo no Banco Mundial, diretor-executivo no FMI e vice-presidente no BID. Também foi secretário de Assuntos Internacionais no Ministério da Fazenda e professor da USP e da Unicamp. Escreve para o Poder360 mensalmente, com publicação sempre aos sábados. 

Leia também: https://es360.com.br/coluna-inovacao/post/horizontes-da-inovacao-ambidestria-em-tres-bracos/ por Evandro Milet

Consumo fígital: tendências para o varejo físico no pós-pandemia

Os consumidores querem que a experiência na compra física seja facilitada e melhorada pela tecnologia, com experiências presenciais e digitais integradas

*Anita Scal e Isabela Perez – Exame – Publicado em 8 de agosto de 2023 

É inegável que a pandemia da COVID trouxe novos hábitos. Alguns, passageiros. Outros, verdadeiras mudanças comportamentais que vieram para ficar. Mudanças comportamentais no consumo são uma das muitas faces dessas mutações. As pessoas – mais precisamente, os consumidores – passaram a buscar experiências e dar mais atenção ao autocuidado e ao conforto. Cuidados com o corpo e a mente elevaram a procura por mais qualidade de vida, e um novo estilo de vida mais livre e mais natural trouxe preocupação maior com a própria saúde, conforto e bem-estar. Houve aumento da expectativa dos consumidores em relação às experiências presenciais, e a praticidade do mundo digital deu ferramentas e ensinou o consumidor a pesquisar pelas melhores oportunidades. Segundo pesquisa recente da ABRASCE, 75% dos consumidores pesquisam o preço online antes de ir a uma loja física.

E como isso se reflete no comportamento do consumidor?

É bastante claro que houve ampla adoção das compras online durante os períodos de isolamento. O estudo global sobre consumo da PWC acompanha há alguns anos o comportamento do consumidor e as tendências do consumo. Em 2016, compras pelo celular representavam 12% do canal utilizado para fazer compras, bastante atrás dos 40% que as lojas físicas representavam. Em 2023, o canal físico segue sendo o preferido dos consumidores, com 43%, mas o consumo pelo celular chegou a quase 40% em 2022. No Brasil, 70% dos entrevistados dizem ter aumentado suas compras online durante a pandemia. Os atributos elencados como mais importantes para as compras online são a velocidade e confiança da compra, conveniência e praticidade de navegar pelos sites de compras e a disponibilidade de produtos nos pontos físicos.

Com a ampla adoção das compras online durante os períodos de isolamento, os consumidores se tornaram mais exigentes: buscam mais experiência nas lojas físicas e ampliaram o consumo “fígital”. Além disso, após o uso crescente do meio digital, algumas dores foram sentidas pelos consumidores: os custos de entrega, a garantia de qualidade dos itens adquiridos, o tempo de espera e a qualidade ruim das entregas dos produtos são pontos que levam o consumidor a querer comprar em lojas físicas. Não é por acaso que 40% dos consumidores que pretendem aumentar o consumo em lojas físicas e diminuir as compras online atribuem essa decisão ao alto custo das entregas.

Mas, então, o que é o consumo “fígital”?

Os consumidores querem que a experiência na compra física seja facilitada e melhorada pela tecnologia, com experiências presenciais e digitais integradas dentro das lojas, ou com compras online sendo concluídas de forma presencial, levando o consumidor aos pontos físicos, sempre sem perder de vista a exigência dos que estão em busca de experiência e qualidade.

Pergunta: quais os seguintes atributos de compra nas lojas físicas você considera atrativos?

– (Rio Bravo/Divulgação)

 No Brasil e no mundo, segundo dados recentes da pesquisa global da PwC, 1/3 dos entrevistados espera ampliar suas compras em lojas físicas. Ainda de acordo com o mesmo levantamento, 81% dos entrevistados dizem que compraram em três ou quatro canais diferentes nos últimos seis meses. Essa migração facilitada entre os meios de compra mostra que os consumidores estão dispostos a trocá-los ou intercalá-los quando se trata de satisfazer suas expectativas de entrega e qualidade. O estudo mostrou que a probabilidade de os consumidores alternarem entre os diversos canais de compra é a mesma em qualquer a direção. Ou seja, a multicanalidade é flagrante e demanda dos varejistas que estejam prontos para ter pontos de contato eficientes com os seus consumidores tanto no online quanto no físico.

E como isso pode criar oportunidades para o mercado imobiliário?

Na era fígital, as marcas estão de olho em ampliar seus pontos de contato de forma inteligente, justamente de olho nesse novo comportamento de consumo. Muitas vezes, não basta ter uma loja física para vender, no sentido mais tradicional da coisa. É preciso agregar presença física com marketing, um processo de encantamento do cliente. Um exemplo disso é o Méqui 1000, unidade do McDonald’s inaugurado em 2019 na Av. Paulista, em São Paulo. A loja flagship da marca tem a missão clara de criar quase um parque de diversão, uma experiência que vai muito além de uma simples refeição – e que tem como pano de fundo um mercado competitivo e a busca por market share.

Também em 2019, na mesma Av. Paulista, foi inaugurada a flagship da Centauro, varejista esportiva, a primeira loja de rua da marca. A loja é feita para garantir a experiência do usuário e promover um relacionamento com seus consumidores, os amantes do esporte e os frequentadores da avenida. O espaço conta, inclusive, com uma arena para o público assistir partidas esportivas nas arquibancadas, além de ser um espaço que conta com algumas práticas de atividades físicas, como yoga, ao longo da semana. Os clientes podem não somente testar bicicletas, raquetes de tênis e calçados, mas, também, customizar as peças. Afora isso, com os provadores inteligentes da loja, que identificam os produtos, existe a possibilidade de buscar peças similares e pedir outros tamanhos ou cores sem precisar sair das cabines. Os caixas são móveis e o cliente pode finalizar a compra em qualquer lugar na loja, além de haver lockers para a entrega de produtos adquiridos no online. O fundo imobiliário Rio Bravo Renda Varejo (RBVA11), gerido pela Rio Bravo, é o proprietário do imóvel ocupado pela varejista.

A varejista Petlove, por exemplo, decidiu entrar no varejo físico depois de mais de 23 anos de atuação exclusivamente no online. A loja conceito foi pensada para entregar uma experiência completa para os clientes, tanto de compra quanto de relação com a marca. A integração do online com o digital cria uma “prateleira infinita”, e o espaço físico traz um Pet Place para que os pets e seus tutores possam brincar livremente em um local dedicado. Essa é mais uma forma de aproximar os clientes da marca, ampliar os pontos de contato e garantir uma experiência que vai desde a compra em si até o look and feel do espaço físico.

O setor de investimento também busca essa proximidade com seus clientes, como é o caso do Investment Center do Itaú. Um serviço cada vez mais prestado de forma digital, com redução da capilaridade nas ruas dos grandes bancos, traz um conceito na contramão, que busca abrir espaços-conceito para atendimento presencial do público de alta renda. Mais uma vez, a qualidade da entrega (neste caso, do serviço), a confiança e a experiência são pontos cruciais para o cliente. O RBVA11 também é o proprietário do mais novo Investment Center do Itaú localizado no Leblon, no Rio de Janeiro, que deverá ser inaugurado no segundo semestre deste ano.

Para o locador, estar bem-posicionado, com espaços onde as marcas querem estar para entregar justamente essa experiência aos clientes, pode ser sinônimo de oportunidades, deixando distante a ideia de que o varejo digital deve aniquilar o varejo físico no futuro. Mais do que isso, para os varejistas, virou fator determinante construir um verdadeiro omnichannel, em que o físico e digital de fato se integrem, gerando o valor esperado pelos consumidores.

Fonte:  “Global Consumer Insights Pulse Survey”, da PwC (edição junho/2022, fevereiro/2023 e junho/2023)

“O comportamento dos Frequentadores de Shopping Centers”, da ABRASCE, edição de 2023.

*Anita Scal, sócia e diretora de Investimentos Imobiliários da Rio Bravo e Isabela Perez de Relações com Investidores da Rio Bravo

https://exame.com/colunistas/genoma-imobiliario/consumo-figital-tendencias-para-o-varejo-fisico-no-pos-pandemia/

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Por que Taubaté vai receber a primeira fábrica do ‘carro voador’ da Embraer

Empresa prevê que São Paulo possa receber 400 eVTOLs e Rio, 245

Por Luciana Dyniewicz – Estadão – 20/07/2023

A escolha de Taubaté, no interior de São Paulo, como cidade para receber a primeira fábrica do “carro voador” da Eve (subsidiária da Embraer) se deu principalmente devido aos custos de instalação e à proximidade com São José dos Campos, onde fica a equipe de engenharia e desenvolvimento das duas empresas, segundo André Stein, co-CEO da Eve. As cidades ficam a cerca de 40 quilômetros uma da outra.

Hoje, a Embraer tem um centro logístico em Taubaté. De acordo com Stein, todas as unidades da empresa foram estudadas para receber a planta, mas Taubaté apresentou também a necessidade de investimentos menores.

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Já a sede administrativa da Eve ficará nos escritórios da Embraer no distrito de Eugênio de Melo, em São José dos Campos. Essa unidade foi reformada, em 2019, ao custo de R$ 120 milhões, para receber os funcionários da companhia brasileira quando a venda de seu braço de aviação comercial para a Boeing fosse concluída. A empresa americana, porém, desistiu do negócio em 2020.

Ao Estadão, Stein afirmou que a estratégia da Eve é “modular”, isto é, novas plantas podem ser anunciadas conforme o mercado de eVTOL (sigla em inglês para veículo elétrico de pouso e decolagem vertical, como é chamado oficialmente o “carro voador”) for crescendo.

Em Taubaté, a empresa deve montar o veículo, testar e desmontá-lo antes de enviá-lo ao país comprador. Próximo ao mercado de destino, ele será remontado. O executivo disse que o eVTOL poderá ser remontado em alguma outra unidade da Embraer, mas que ainda está em discussão a possibilidade de esse trabalho ser feito por terceiros.

Stein não revelou o investimento que será feito nem a capacidade de produção, mas disse que a planta deve operar em um modelo intermediário entre o de uma fábrica de aviões e o de uma montadora de carros. “Serão algumas poucas milhares de entregas de eVTOLs por ano, não necessariamente a partir de uma única fábrica.”

A Eve calcula que o mundo terá 50 mil eVTOLs em operação em 2030, e a intenção da empresa é ter uma participação de cerca de 30% nesse mercado. “Esperamos ter participação bem relevante. A Embraer, em outros segmentos em que atua, tem um pouco mais de um terço de market share. Esperamos ter números similares.”

Dessas 50 mil unidades, 245 podem operar no Rio Janeiro, segundo cálculos da companhia. Para São Paulo, a empresa estima uma capacidade de 400 eVTOLs quando o mercado estiver maduro.

Por ora, o desenvolvimento de um ecossistema (que envolve rotas e pontos para as aeronaves serem abastecidas) está mais avançado no Rio e em São Francisco, nos Estados Unidos. Para o Rio, a empresa calcula que haverá a demanda de 4,5 milhões de passageiros por ano e a necessidade de implantação de 37 “vertiportos” (os locais onde a bateria dos veículos será recerregada e onde os passageiros embarcarão).

O projeto da Eve também prevê que a certificação do “carro voador” ocorra primeiro no Brasil, junto à Agência Nacional de Aviação Civil (Anac). Posteriormente, a certificação deverá ser validada pela Federal Aviation Administration (FAA), o órgão regulador dos EUA.

Apesar de ainda estar desenvolvendo o veículo, a Eve já recebeu encomenda para 2.850 aeronaves. O cronograma da empresa prevê a apresentação do protótipo ao mercado em 2024 e o início das operações em 2026.

https://www.estadao.com.br/economia/negocios/por-que-taubate-vai-receber-a-primeira-fabrica-do-carro-voador-da-embraer/

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