Chief Happiness Officer: o que faz esse profissional?

Heineken e Chilli Beans anunciaram recentemente a criação do cargo. Entenda o que faz quem assumiu essa nova função

Por Adriana Fonseca, Para o Valor 11/07/2023

Chief Happiness Officer (CHO) ou, em português, diretor de felicidade. O cargo está nos holofotes, desde que passou a se falar mais sobre a importância de cuidar do bem-estar e saúde mental dos funcionários. Mas, afinal, o que faz esse profissional?

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“Sou responsável por definir a estratégia, preparar as lideranças e acompanhar as ações e indicadores internos, incluindo a pesquisa da felicidade”, resume Lívia Azevedo, recém-empossada como diretora de felicidade do grupo Heineken. Antes, ela ocupava o cargo de diretora de pessoas na companhia.

Lívia Azevedo, diretora de felicidade do grupo Heineken, lidera área responsável por acompanhar e agir para aumentar o sentimento de bem-estar dos 14 mil funcionários da empresa no país — Foto: Divulgação

A Heineken afirma ter começado a medir a felicidade de seus empregados em meados de 2022 e, como continuidade desse trabalho, criou a diretoria de felicidade, que Azevedo comanda. Segundo a companhia, a nova área será responsável por “acompanhar e agir para aumentar o sentimento de bem-estar dos 14 mil colaboradores espalhados pelo Brasil”. Ainda de acordo com a empresa, a iniciativa “representa um novo pilar estratégico da companhia para sustentar o crescimento previsto nos próximos anos”.

A nova área é formada por profissionais de recursos humanos e de saúde, como psicólogos e médicos, na intenção de fazer um cuidado integrado entre saúde física e mental. Dessa forma, Azevedo se reporta à vice-presidência de pessoas da companhia.

A diretora de felicidade explica que a área, sozinha, não é capaz de alcançar o resultado esperado. “Esse é um trabalho que conduzimos, orientamos e acompanhamos, mas faz parte da agenda de todas as áreas e lideranças da companhia”, diz. “Para aplicação da pesquisa da felicidade, por exemplo, utilizamos a ciência da felicidade como base teórica. O modelo PERMA, da psicologia positiva, traz cinco pilares (emoções positivas, engajamento, relacionamentos positivos, propósito e realizações) que, se trabalhados intencionalmente, podem contribuir para o aumento da felicidade das pessoas.”

Além disso, ela continua, “os laboratórios de felicidade contribuem para experimentarmos ações voltadas ao desenvolvimento desses pilares e têm nos ajudado a compreender quais caminhos podemos seguir e quais ações são mais efetivas para cada time”.

O envolvimento dos gestores é parte essencial. “Focamos também no desenvolvimento da nossa liderança por meio do programa Be Leader, compartilhando conhecimento sobre a ciência da felicidade e segurança psicológica e proporcionando um ambiente aberto para trocas, dúvidas e conversas verdadeiras entre líderes.”

Também como estratégia, a empresa tem o que chama de embaixadores da felicidade, colaboradores voluntários, que iniciaram uma formação em felicidade corporativa para que possam influenciar e atuar na sua localidade alinhados à agenda da “jornada da felicidade”.

Quando questionada sobre como define felicidade, Azevedo comenta que “a felicidade é única e exclusivamente individual, por mais que trabalhemos no coletivo, sabemos que cada indivíduo é um universo e isso importa”.

Nesse sentido, ela diz que no grupo Heineken as pessoas podem ser quem são, o que contribui para o bem-estar e a tal felicidade. “Cada pessoa na sua individualidade pode ser quem ela é”, afirma. “Criar esse ambiente onde as pessoas possam ser quem são, onde elas se sintam seguras em expor seus sentimentos e emoções é o que faz com que elas se sintam pertencentes e reconhecidas, e isso traz mais felicidade.”

A executiva diz, ainda, que pessoas felizes consigo e com o local em que trabalham ficam mais tempo nas empresas, são mais produtivas e mais saudáveis, além de terem mais emoções positivas, maior engajamento, melhores relações e mais propósito naquilo que fazem. “Existem estudos que comprovam os benefícios para o negócio, financeiramente falando, quando investimos na felicidade do time. É uma agenda em que todos podem sair ganhando e isso é ótimo.”

Outra empresa que anunciou recentemente um chief happinnes officer foi a Chilli Beans, rede especializada em óculos escuros. Segundo a marca, “o trabalho do CHO vai bem além do happy hour”, sendo esse especialista “o grande incentivador e influenciador do tema da felicidade nas companhias”.

Denize Savi, CHO da Chilli Beans: “Está sob minha responsabilidade promover um ambiente com empatia, respeito e autonomia.” — Foto: Divulgação

Denize Savi, CHO da Chilli Beans, diz que não existe um modelo ideal de planejamento para trabalhar a felicidade dentro das organizações porque o assunto ainda é muito novo. “Há algumas linhas a serem escolhidas”, afirma.

Ela, que vai atuar como CHO em tempo parcial para a empresa, adotou a estratégia de introduzir o tema através de um programa de felicidade que começou a rodar em janeiro e está sendo conduzido pelo consultor em felicidade corporativa Vinícius Kitahara.

“Uma vez por semana reunimos colaboradores de diferentes setores para apresentar a iniciativa e desenvolver as ferramentas com eles”, comenta. “O programa tem duração de um ano, mas ele é a porta de entrada de uma estratégia mais ampla de olhar para o bem-estar e a saúde mental do colaborador de forma permanente.”

Segundo Savi, depois de finalizada essa primeira etapa, a empresa dará sequência implementando outras iniciativas. “Basicamente, minha atribuição é ser a pessoa dentro da empresa que responde pela divisão de bem-estar do colaborador”, explica. “Está sob minha responsabilidade promover um ambiente com empatia, respeito e autonomia.”

Isso é possível, diz Savi, transformando o clima organizacional, desenvolvendo um ambiente com segurança psicológica, abrindo espaço para que os funcionários falem o que pensam sem preocupações, sem medo de serem invalidados. “Onde eles possam compartilhar suas opiniões e ideias abertamente, mostrar todas as suas habilidades, assumir riscos, admitir falhas, aprender com as falhas, estimular a inovação e terem discussões honestas e abertas.”

Savi, que estuda a ciência da felicidade há cinco anos, comenta, ainda, que ao contrário do que muitas pessoas pensam, felicidade corporativa não é ser uma empresa descolada, que abraça a diversidade, onde pode levar o pet, não tem dress code, pode fazer home office, etc. “Isso tudo já existe na Chilli Beans, mas não é isso que faz uma empresa feliz”, afirma. “O que faz uma empresa feliz vem antes de tudo isso. É investir na saúde mental dos trabalhadores e, consequentemente, na satisfação com a vida profissional. Uma empresa não é feita de processos, é feita de pessoas. É preciso criar uma cultura humanizada.”

https://valor.globo.com/carreira/noticia/2023/07/11/chief-happiness-officer-o-que-faz-esse-profissional.ghtml

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Na era da IA, vale a pena incentivar as pessoas a continuar estudando?

É preciso aproveitar a IA para transformar a abordagem educacional em experiências de aprendizado dinâmicas, personalizadas e baseadas na prática


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Tigran Sloyan – Fast Company Brasil – 08-06-2023

Se perguntássemos a alunos do quarto ano se eles gostariam que o ChatGPT fizesse suas tarefas de casa, certamente ouviríamos um “sim” unânime. Afinal, se a inteligência artificial pode dar conta do trabalho, por que gastar tempo fazendo redações ou resolvendo problemas de matemática?

Essa não é a primeira vez que nos deparamos com essa questão. Com calculadoras, computadores e acesso ilimitado à informação, há muito tempo debatemos quais habilidades realmente precisamos aprender. Alguns argumentam que, à medida que a IA avança e automatiza cada vez mais tarefas, não precisaremos mais adquirir habilidades ou conhecimento por conta própria.

No entanto, essa linha de pensamento está equivocada e pode ser perigosa. A história nos mostra que o surgimento de novas tecnologias aumenta a demanda por profissionais qualificados.

Na verdade, à medida que a IA e outras tecnologias avançam, a complexidade das habilidades necessárias para ter sucesso no mercado de trabalho também aumenta. Em vez de abandonar o aprendizado, devemos abraçá-lo e adaptar nossos sistemas educacionais para preparar as pessoas para os desafios e oportunidades que estão por vir.

DA REVOLUÇÃO INDUSTRIAL À ERA DA INFORMAÇÃO

Ao longo da história, a evolução tecnológica tem levado a uma maior demanda por profissionais qualificados, acompanhada de um aumento na complexidade dessas habilidades. Esse fenômeno pode ser observado em diversos momentos da história, desde a Revolução Industrial até a Era da Informação.Conforme a tecnologia avança, o tempo necessário para aprender e dominar essas habilidades também aumenta.

A história nos mostra que o surgimento de novas tecnologias aumenta a demanda por profissionais qualificados.

Consideremos a Revolução Industrial, quando o trabalho agrícola começou a ser substituído por atividades em fábricas, que exigiam treinamento especializado de pelo menos alguns meses. Com o surgimento de máquinas a vapor e de novos processos de fabricação, os trabalhadores precisaram aprender a operar esses equipamentos. Essa mudança levou à criação de escolas técnicas e programas de aprendizagem para formar indivíduos com as habilidades necessárias.

À medida que avançamos para os séculos 20 e 21, com a introdução dos computadores e a ascensão da internet, testemunhamos uma transformação significativa na forma como trabalhamos e vivemos. Esse novo cenário aumentou a demanda por profissionais altamente qualificados em áreas como programação e análise de dados.

A complexidade dessas habilidades muitas vezes requer anos de formação e treinamento especializado, começando com o aprendizado básico de leitura e escrita aos cinco anos, seguido por ciências, matemática e outras competências, até alcançar uma posição profissional aos 25 anos – quase 20 anos de preparação. Além disso, os profissionais precisam se manter constantemente atualizados para acompanhar as rápidas mudanças tecnológicas.

A principal lição desses exemplos históricos é que quanto mais avançada a tecnologia se torna, maior é a necessidade de pessoas altamente qualificadas e mais tempo é necessário para aprender e dominar essas habilidades. É improvável que essa tendência mude com a IA.

O NÍVEL DE EXIGÊNCIA ESTÁ PRESTES A AUMENTAR

A integração da IA em diversas indústrias certamente automatizará muitas tarefas, mas também criará novas funções mais complexas e especializadas. Esses empregos exigirão um profundo entendimento dos princípios da IA, considerações éticas e a capacidade de trabalhar harmoniosamente com máquinas inteligentes.

Além disso, o ritmo acelerado dos avanços desta tecnologia significa que as habilidades necessárias para se destacar nessas novas funções estão em constante evolução, tornando a aprendizagem ao longo da vida mais importante do que nunca.

quanto mais avançada a tecnologia se torna, maior é a necessidade de pessoas altamente qualificadas.

Devemos também ter em mente que, com a automação impulsionada pela IA e a substituição de empregos existentes, haverá dezenas de milhares de pessoas cujos meios de subsistência serão ameaçados.

Como disse John Maynard Keynes em 1930, cada avanço tecnológico causa uma “fase temporária de desajuste” – mesmo que traga benefícios à humanidade no longo prazo. Muitos dos profissionais de hoje precisarão aprender novas habilidades para encontrar novas oportunidades de emprego.

Isso ressalta ainda mais a importância do aprendizado e a necessidade de sistemas educacionais sólidos que possam ajudar as pessoas a se adaptar e prosperar em um mundo impulsionado pela IA. É fundamental que aprendamos com a história e abordemos proativamente os potenciais impactos sociais e econômicos da substituição de empregos por meio da educação e do desenvolvimento de habilidades.

COMO SOBREVIVER E PROSPERAR

Pesquisadores do MIT conversaram com educadores ao redor do mundo para compreender o impacto de tecnologias como o ChatGPT no ensino e no aprendizado. Eles constataram que o pensamento crítico é agora mais importante do que nunca para os estudantes – enquanto habilidades como memorização estão se tornando obsoletas.

Ao reconhecermos a crescente importância da aprendizagem humana na era da IA, é essencial também compreender como ela pode revolucionar os sistemas educacionais e as abordagens para o desenvolvimento de habilidades.

Os métodos tradicionais de ensino, baseados em salas de aula, com conteúdos densos e padronizados, não são adequados para preparar indivíduos para as habilidades complexas e dinâmicas necessárias nas indústrias em rápida evolução.

A integração da IA em diversas indústrias automatizará muitas tarefas, mas também criará novas funções mais complexas e especializadas.

Para prosperar nesta nova realidade, precisamos aproveitar a inteligência artificial para transformar nossa abordagem educacional em experiências de aprendizado dinâmicas, personalizadas e baseadas na prática. As plataformas de IA podem facilitar a aprendizagem adaptativa, ajustada às necessidades de cada um, fornecendo feedback em tempo real e acelerando o processo de aprendizado.

Além disso, podem nos ajudar a identificar e prever as habilidades futuras com alta demanda, capacitando educadores e formuladores de políticas a projetar currículos acadêmicos e programas de treinamento que promovam o sucesso na economia emergente liderada pela IA.

A colaboração entre instituições educacionais, empresas e legisladores é essencial para garantir que os currículos e os programas de treinamento estejam alinhados com as necessidades em constante evolução do mercado de trabalho. Trabalhando juntos, podemos promover uma cultura de aprendizado contínuo e de adaptabilidade, preparando as pessoas para se destacarem em meio a essa nova realidade.

Ao transformar os sistemas educacionais, promover uma cultura de aprendizado contínuo e usar a IA como uma ferramenta para o desenvolvimento de habilidades, podemos garantir que a humanidade não apenas sobreviva, mas prospere na era da inteligência artificial.


SOBRE O AUTOR

Tigran Sloyan é cofundador e CEO da CodeSignal.


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Cadê o porco?

O caminho é promissor. Diversas empresas estão apostando na carne cultivada como alternativa viável e sustentável

Por Natalia Pasternak – O Globo – A Hora da Ciência 10/07/2023

Médicos e cientistas abordam diferentes aspectos da saúde. 

Um prato de frango feito a partir de carne cultivada em laboratório da Upside Foods na Califórnia Um prato de frango feito a partir de carne cultivada em laboratório da Upside Foods na Califórnia Gabriela Hasbun/The New York Times

Carnes artificiais, derivadas de plantas ou cultivadas a partir de células animais, já fazem parte do debate de produção sustentável de alimentos. Segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO), a demanda por alimentos deve aumentar em 50% até 2050, se as projeções populacionais se concretizarem. Produzir proteína animal para alimentar 10 bilhões de pessoas será um desafio para a sustentabilidade do planeta. Aumentar a criação animal implica maior uso de terra e de água — não somente para os animais, mas também para o cultivo necessário para ração — aumento do aquecimento global e aumento do uso de antibióticos. O uso de antibióticos na pecuária é uma das principais causas do surgimento de bactérias multirresistentes.

Não faltam, pois, justificativas para investir em alternativas para o mercado de carnes. Os benefícios vão além da sustentabilidade: consumidores preocupados com o bem-estar animal poderão desfrutar do sabor da carne sem ter em sua consciência o abate do animal. Mas é preciso ficar de olho na origem do produto: carnes feitas à base de proteína vegetal são consideradas vegetarianas ou veganas, e até mesmo como kosher e halal, pois são apenas imitações de produtos de origem animal. Algumas contam com leveduras geneticamente modificadas para imitar a textura e o sabor da carne, mas ainda assim, são produtos de origem vegetal.

Já as carnes cultivadas, feitas a partir de células, têm origem animal. A diferença é que são células multiplicadas em laboratório, a partir de uma biópsia do animal: ou seja, nenhum animal foi morto, mas apenas “doou” as células que depois crescem e se reproduzem com ajuda da tecnologia. O tempo de cultivo também é bem diferente. Leva em média de dois a três anos para criar bois e porcos para o abate, mas um bife feito em laboratório pode estar pronto para a frigideira em poucas semanas.

Claro que nem tudo são flores: para escalar a produção (e assim ter, em semanas, tantos bifes quanto os que viriam de um boi inteiro), é necessário também avaliar o impacto ambiental do uso de biorreatores e do consumo de energia necessários para o cultivo artificial. Mas o caminho é promissor. Diversas empresas estão apostando na carne cultivada como alternativa viável e sustentável. Sadia e Perdigão apostaram na israelense AlephFarms. Swift e Seara já anunciaram investimento em empresa de biotecnologia em Florianópolis.

Enquanto o mundo olha para o cultivo tecnológico de proteína animal, uma empresa brasileira adotou a gordura de porco. A banha suína é um ingrediente comum em frituras, e também é usada como conservante de alimentos. Com biotecnologia o consumidor pode ter o sabor da gordura animal, sem a questão da crueldade animal, e até mesmo com uma gordura programada para ser menos saturada e mais saudável. Essa é a aposta da Cellva, fundada por Sergio Pinto e Bibiana Matte, combinando a experiência de um alto executivo da indústria de alimentos e a formação cientifica qualificada de uma pesquisadora acadêmica.

A Cellva é um exemplo tanto na área de biotecnologia como na do empreendedorismo. Fugindo da moda das carnes e focando em um ingrediente auxiliar, a empresa pretende fornecer não diretamente para o consumidor, mas para a indústria. O protótipo teve “test-drive” numa degustação, num restaurante paulista, Green Kitchen, de linguiça vegetal feita com a gordura da Cellva. Por enquanto, a produção ainda é de laboratório: a empresa consegue fazer 20g de gordura a cada três semanas. Ampliar será um desafio, e requer investimento. Mas dá orgulho saber que temos uma startup brasileira que pode ajudar a resolver problemas de segurança alimentar, meio ambiente, e colocar o Brasil como protagonista da biotecnologia de alimentos.

https://oglobo.globo.com/blogs/a-hora-da-ciencia/post/2023/07/cade-o-porco.ghtml

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Reforma Tributária: veja histórias de bizarrices do sistema de impostos brasileiro que atrapalham os negócios

O atual “manicômio” do modelo nacional introduz uma série de distorções e ineficiências nas empresas, do ‘planejamento químico-tributário’ ao dilema se software é produto ou serviço

Por Vinicius Neder, Ivan Martínez-Vargas, Juliana Causin e João Sorima Neto — O Globo 09/07/2023 

A Reforma Tributária é uma das prioridades do governo. Aprovada na Câmara, ainda vai ser analisada pelo Senado A Reforma Tributária é uma das prioridades do governo. Aprovada na Câmara, ainda vai ser analisada pelo Senado Editoria de Arte

A aprovação da Reforma Tributária na Câmara dos Deputados na semana passada é apontada por líderes empresariais como uma oportunidade inédita para o país combater distorções provocadas pelo caos do sistema de impostos brasileiro.

A complexidade do atual sistema de cobrança de impostos introduz nos negócios uma série de ineficiências com decisões influenciadas por estratégias para reduzir o impacto da carga tributária nos custos de produtos e serviços.

Isso significa que, se confirmada pelo Senado, a Reforma Tributária tem grande potencial positivo sobre o dia a dia e na produtividade de muitas empresas.

Veja a seguir quatro áreas em que a retirada da sopa de letrinhas de tributos distintos e o fim da cobrança de impostos “em cascata” poderá fazer diferença a partir da reforma.

Obra rápida e eficiente? Imposto não deixa

Na construção civil, a cobrança “em cascata” de tributos gera ineficiência, dizem agentes do setor. Por causa da tributação, as empresas são incentivadas a verticalizarem operações, como fazer no próprio canteiro de obras peças de concreto como tijolos, blocos, lajes e pilares, com vigas de aço ou não, em vez de comprá-las de fornecedores especializados.

Segundo Felipe Cassol, presidente da Cassol, fabricante desses produtos, os pré-moldados tornam obras mais rápidas e eficientes, com menos rejeitos. O resultado seria mais produtivo: a construtora conseguiria gerar mais valor com menos desperdício e maior foco, além de impulsionar a demanda de um outro setor.

— A obra vira um sistema de Lego. Teoricamente, é possível subir um pavimento a cada um ou dois dias, enquanto, numa construção convencional, demora-se uma ou duas semanas — diz Cassol.

A tributação acaba influenciando no custo dos pré-moldados, limitando esse segmento da indústria da construção. Segundo Cassol, somente entre 8% e 10% das obras no Brasil usam peças feitas fora da obra.

Em países ricos, como a Finlândia, essa participação é de 60% – em lugares frios, a prática é ainda mais eficiente. Na China, a perspectiva é chegar a 2030 com 30% das obras usando pré-moldados, segundo Cassol.

— O edifício industrializado é mais caro que o arcaico de 20 a 25% — diz Luiz Henrique Ceotto, presidente da construtora Urbic, que usa estruturas metálicas e fachadas industrializadas em seus projetos habitacionais mesmo com o custo maior, fugindo à regra. — Construir com alta produtividade, com estruturas de metal e pré-fabricados, só fica mais caro por causa do ICMS e do IPI, que desincentivam. O edifício industrializado

Segundo Ceotto, a maior parte do custo é concentrada no início das obras, quando as peças são encomendadas e produzidas.

Cassol conta que sua empresa acaba tomando decisões menos eficientes por causa da tributação. Para conquistar clientes, a companhia oferece serviços de montagem nas obras. Num cenário com um sistema tributário mais racional, o serviço poderia ficar a cargo de empresas especializadas, enquanto a Cassol focaria na produção, expandindo fábricas, ampliando investimentos e contratando funcionários.

A demanda de pré-moldados é geralmente concentrada em projetos de centros de distribuição, indústrias e shoppings, nos quais a rapidez é decisiva e se paga. O setor imobiliário costuma ficar de fora.

Carlos Bianconi, presidente da RNI, construtora do Grupo Rodobens, confirma o diagnóstico. Segundo ele, o uso de pré-moldados pode elevar em até 25% o custo do projeto, apesar de dar mais velocidade à obra. A companhia, que tem empreendimentos imobiliários em 12 estados e atua no segmento de habitação de médio padrão, quase não usa pré-moldados devido ao custo majorado por impostos:

— Trabalhamos com formas de alumínio no canteiro, nas quais é injetado o concreto. É mais econômico, mas, obviamente, se eu trouxesse as partes da casa pré-montadas, seria fantástico. Só que é totalmente inviável porque o tributo é pesado.

Paulo Mingione, do Sindicato da Construção Civil do Estado de São Paulo (Sinduscon-SP), identifica o imbróglio: a produção no canteiro é considerada um serviço e paga apenas ISS, tributo municipal que tem alíquotas menores que a dos impostos sobre a venda de produtos. O tributo incentiva uma prática menos eficiente, que reduz a velocidade da obra e, em consequência, a produtividade.

— Sempre que o construtor quer comprar viga, pilar ou laje pré-moldados, tem de pagar ICMS e IPI em alíquotas elevadas e isso faz com que essas opções sejam mais caras. O custo pode aumentar na ordem de 30%. Quando se faz moldado no canteiro da própria obra, o imposto é menor. Essa opção é muito menos eficiente e demorada, praticamente artesanal, mas é mais escolhida por questões tributárias — explica. — A gente tem uma máxima que diz que se tiver de atravessar a rua, o material fica mais caro devido aos impostos.

Nos cosméticos, impõe-se o ‘planejamento químico-tributário’

Na indústria de cosméticos, o sistema tributário nacional criou o “planejamento químico-tributário”, conta um advogado especializado na área, que pediu para não ser identificado. Tudo por causa da disparidade entre as tarifas cobradas no setor conforme cada produto.

Considerando apenas o IPI, a taxa é de 42% para perfumes e 12% para água de colônia, por exemplo. É ainda menor ainda para desodorantes, que são considerados itens essenciais.

— Várias indústrias tiram concentração aromática do produto e adicionam um antibactericida, mexem na fórmula, para classificar como desodorante. No Brasil, surgem figuras que não existem no resto do mundo, como “deo-colônia”, “deo-perfume” e até o “deo-hidratante” — diz o advogado.

Com o alto IPI, não é vantajoso produzir perfumes no país. Na Touti, marca para consumidores de renda intermediária, eles representam menos de 5% das vendas. Segundo Diogo Costa, fundador da empresa sediada em Jaboatão dos Guararapes (PE), o preço do perfume, para o consumidor final, é 80% maior do que o da “duo colônia”, carro-chefe da marca:

— Visto que a população brasileira tem baixo poder de compra, os perfumes acabam sendo menos competitivos. A diferença brutal de alíquota gera uma discrepância nos preços. Na prática o que muda é a concentração de cada produto.

O executivo espera que a reforma tributária contribua para a redução de distorções como essa no mercado em que atua, mas alerta que é importante que a implementação não eleve a carga tributária sobre produtos, que já considera alta no Brasil.

— Poderíamos entregar produtos de melhor qualidade e maior concentração de essência na fórmula, com considerável benefício para o consumidor, se não tivéssemos que optar (pela qualidade do produto) em função de classificação fiscal — diz Olindo Junior, diretor geral da Água de Cheiro, sediada em Belo Horizonte, que tem 150 lojas espalhadas pelo país.

Para o executivo, isso prejudica a percepção do produto nacional junto ao consumidor:

— Há sempre a percepção do consumidor que o produto nacional tem “menos poder de fixação” do que o importado, já que, por opção de custos, temos que usar a nomenclatura de “água de colônia” ao invés de “perfume”. O Brasil é o único país do mundo que classifica produtos por concentração de essência na fórmula, algo esdrúxulo e com origens na década de 1960. O imposto deveria ser igual para toda a categoria de perfumaria, permitindo que o consumidor tivesse acesso a diferentes propostas de produto em função de qualidade e não tributação.

A L’Oréal considera que as diferenças de classificação na tributação, que mudam em cada estado, não têm “nenhum fundamento mercadológico”. Segundo a francesa, no Brasil, alguns protetores solares têm ICMS reduzido, considerados bem essencial, mas outros, não.

Maior exportador de soja, mas só se for em grão

A complexidade da tributação atrapalha a vida dos exportadores, por causa da dificuldade para pegar de volta os impostos pagos na cadeia de produção. Isso ocorre em vários setores, mas chama a atenção nos derivados da soja. O Brasil é o maior produtor mundial do grão, principal cultura agrícola do país. É também o maior exportador global, mas 60% da produção deixam o país na forma bruta.

A Brejeiro, que começou como produtor de arroz, fabrica farelo de soja, mistura proteica, óleo de soja e biodiesel, mas exporta de 20% a 25% da matéria-prima bruta que compra dos produtores agrícolas ou das comercializadoras (tradings) que atuam no país.

Segundo Rodrigo Ruiz, gerente de controladoria da Brejeiro, a decisão de exportar é financeira e está relacionada à tributação. Se fosse fácil pegar os tributos de volta, a empresa “esmagaria” mais soja e poderia até ampliar suas exportações do óleo, que equivalem a menos de 5% da produção.

— Se estivéssemos esmagando com a capacidade total das fábricas, e existisse incentivo para a ampliação dessas fábricas, geraríamos mais empregos e mais investimentos no negócio, consumiríamos mais combustíveis e energia elétrica. Essa movimentação é representativa na economia do país. Geramos uma riqueza muito maior esmagando a soja, em vez de simplesmente exportar in natura — afirma Ruiz.

O polêmico dilema do software: é produto ou serviço?

Em 2021, o Supremo Tribunal Federal concluiu uma discussão de anos, digna do surrealismo do sistema de impostos nacional. Decidiu que os softwares que rodam nos computadores são um serviço, não produtos.

A Reforma Tributária resolve esse tipo de dilema com a CBS e o IBS, um tipo de imposto mais adequado a uma economia em que bens e serviços se misturam cada vez mais porque incide sobre ambos. Hoje há muitas variações.

— Quando começamos, em 1989, tínhamos duas fontes de receita. Vendíamos o software e cobrávamos manutenção mensal. Ao longo do tempo, ficamos puramente com a manutenção. O que a gente cobra hoje não é produto — diz Ladmir Carvalho, fundador da desenvolvedora de softwares fluminense Alterdata, lembrando que, antes da disseminação da internet, a empresa tinha que pagar ICMS sobre os CD-ROMs que levavam os programas.

Isso não é novidade no setor de tecnologia da informação (TI). No jargão do setor, o software as a service define o modelo em que a empresa desenvolvedora não vende simplesmente o programa de computador para o cliente, mas oferece manutenção e suporte na utilização.

Empresas de TI, que usam a tecnologia para otimizar processos em outras organizações, não escapam da burocracia do sistema tributário nacional. A Stefanini, multinacional brasileira que faturou R$ 6,2 bilhões no ano passado, gasta três vezes mais para desenrolar a contabilidade aqui do que nos outros 41 países em que atua.

— O custo a mais da burocracia não é o principal problema. Considero a insegurança jurídica e a alta carga tributária problemas maiores — diz Marco Stefanini, líder da empresa.

https://oglobo.globo.com/economia/negocios/noticia/2023/07/09/reforma-tributaria-veja-historias-de-bizarrices-do-sistema-de-impostos-brasileiro-que-atrapalham-os-negocios.ghtml

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Economia do cuidado gera oportunidades

Há um caminho promissor a ser trilhado, através de políticas públicas guiadas pela equidade

Ricardo Henriques – O Globo 03/07/2023 


Para que adultos possam se dedicar a atividades remuneradas, alguém precisa cuidar de crianças, idosos com limitações ou pessoas com deficiência limitantes. Sabemos, porém, que esse alguém, em geral, é uma mulher. São, desproporcionalmente, elas que assumem tal responsabilidade na vida privada, prejudicando sua inserção no mercado laboral. Junto com os demais afazeres domésticos – também majoritariamente femininos –, trata-se de um trabalho árduo, sempre invisibilizado e não remunerado.

O relatório “Tempo de cuidar”, de 2020, produzido pela organização internacional Oxfam, calcula que todas as horas de trabalho com a economia do cuidado correspondem a uma quantia de aproximadamente 10,8 trilhões de dólares por ano, cerca de três vezes mais do que o valor gerado pela indústria, apenas para citar um exemplo.

No mundo todo, há um esforço ainda incipiente, porém crescente, de reconhecer sua importância para a economia e de construção de políticas públicas que garantam o atendimento a esses grupos, sem recorrer à sobrecarga do trabalho feminino.

É nessa direção que caminham, por exemplo, as discussões do grupo de trabalho criado em maio pelo governo para propor uma Política Nacional de Cuidados. Essa agenda ganha ainda mais relevância a partir da constatação, pelo Censo Demográfico do IBGE, que o processo de envelhecimento populacional está acontecendo mais rápido do que prevíamos.

A negligência histórica dessa pauta gerou um problema hoje conhecido como a crise do cuidado. A redução da fecundidade e a urbanização facilitaram o processo de escolarização e participação feminina no mercado de trabalho.

Só que essa transição demográfica é também marcada pelo crescimento de uma população idosa que, assim como as crianças e algumas pessoas com deficiência, necessitam de atendimento humanizado. As mulheres têm lutado e conquistado cada vez mais seu espaço fora de casa, mas os homens não quiseram assumir os afazeres domésticos, relativos à casa ou às pessoas que nela vivem.

Como resume a economista Hildete Pereira de Melo, as mulheres saíram, mas os homens não entraram. Isso resulta em jornadas exaustivas para elas ou na precarização da mão-de-obra remunerada – também majoritariamente feminina – que assumiu essas tarefas.

Não podemos resolver esse problema apenas na esfera doméstica ou individual. Precisamos, citando a escritora Rosiska Darcy de Oliveira, de uma reengenharia do tempo, com ações que competem à sociedade, do poder público às empresas. Isso inclui licenças parentais remuneradas, acesso a serviços de cuidado acessíveis e de qualidade, programas de educação e conscientização sobre a igualdade de gênero, além de incentivos para promover uma maior participação dos homens no setor.

Por outro lado, há formas positivas de explorar esta agenda. O investimento em licença igualitária de gênero, creche universal e serviços de cuidado de longo prazo pode gerar cerca de 300 milhões de empregos até 2035 e criar um atendimento contínuo que reduziria a pobreza, incentivaria a igualdade de gênero e apoiaria o cuidado de crianças e idosos, segundo relatório de 2022 da OIT.

De acordo com os autores, lidar com tais desafios exigiria um investimento anual de US$ 5,4 trilhões (4,2% do PIB anual total) até 2035, parte do qual poderia ser compensado por um aumento na receita tributária dos rendimentos e empregos adicionais.

No Brasil, não é diferente. Segundo pesquisa de 2018 da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo, o número de postos de trabalho neste campo cresceu 547% entre 2007 e 2017. De acordo com relatório do BID, de 2021, o setor financeiro já está absorvendo uma ampla gama de demandas deste público, oferecendo serviços de gerenciamento de propriedades, além de pensões e poupanças.

O setor educacional está desenvolvendo soluções para o envelhecimento ativo e a participação contínua dos idosos na vida econômica e social. Serviços de entretenimento, por sua vez, estão em expansão, com o surgimento de vários serviços focados em cultura, lazer, culinária, esporte, saúde, turismo e bem-estar etc.

A profissionalização será pré-condição para o Brasil aproveitar essas oportunidades. Isso envolve o reconhecimento e regulamentação das ocupações, criação de programas de capacitação e formação, promoção de cursos e certificações específicas, estímulo à pesquisa e inovação, proteção trabalhista e benefícios adequados, além do estabelecimento de parcerias público-privadas.

Há, portanto, um caminho promissor a ser trilhado, através de políticas públicas guiadas pela equidade e que garantam um atendimento profissional e humanizado aos mais vulneráveis, sem recorrer à sobrecarga de trabalho das mulheres.

*Ricardo Henriques, economista, é superintendente-executivo do Instituto Unibanco e professor associado da Fundação Dom Cabral

https://oglobo.globo.com/economia/ricardo-henriques/coluna/2023/07/economia-do-cuidado-gera-oportunidades.ghtml

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Como rápida ascensão do Brasil pode desbancar EUA como maior exportador de milho do mundo

Economistas dizem, porém, que a ascensão do Brasil não deve ter grande impacto no dia a dia dos americanos – a agricultura não tem o mesmo peso econômico de décadas atrás

Folha/BBC – 8.jul.2023 

Nas planícies dos Estados Unidos conhecidas como Cinturão do Milho, os agricultores passam seus dias e noites nutrindo, cuidando e rezando pelo bem-estar desse alimento comum, mas globalmente significativo. Scott Haerr, que colhe mais de 1,6 mil hectares todos os anos (uma área que corresponde mais de 1,5 mil campos de futebol), é um deles. Dentro de um enorme silo em sua fazenda no oeste de Ohio, o agricultor de terceira geração examina os grãos de milho da colheita do ano passado. “É um milho muito bom”, diz ele, peneirando um punhado. Pessoa segura punhado de grãos de milho com as duas mãos Brasil pode despontar na exportação de milho em meio a desafios dos EUA no setor – BBC 

Mas, embora a qualidade da colheita do ano passado possa ter sido boa, a quantidade produzida pelos agricultores americanos não foi. PUBLICIDADE O aumento dos preços de fertilizantes e combustíveis fez com que o número de hectares plantados caísse significativamente em relação a 2021. Além disso, uma seca nas planícies ocidentais alimentou um aumento no preço do milho americano no mercado internacional. “Tivemos uma safra reduzida por causa do clima e o rio Mississippi secando no outono passado e no início do inverno, o que retardou muito nossas exportações”, diz Haerr. “Por causa disso, o preço do milho subiu, o que nos tornou menos competitivos.” 

O trabalho árduo e a experiência tecnológica dos agricultores americanos cimentaram seu lugar no topo das exportações de milho. Todos os anos, dezenas de milhões de toneladas são enviadas dos EUA para mais de 60 países em todo o mundo. Mas seu status de superpotência do milho pode estar chegando ao fim. Os compradores na China —que é o maior importador mundial de milho— estão cancelando pedidos dos Estados Unidos, em grande parte porque existem alternativas mais baratas em outros lugares. 

 Em janeiro, as vendas de milho dos Estados Unidos para a China ficaram 70% abaixo dos níveis dos anos anteriores. E em maio, a China começou a comprar milho sul-africano pela primeira vez. É uma tendência preocupante para os agricultores dos EUA. De fato, depois de décadas no topo, está prestes a ser ultrapassado como o maior exportador mundial da safra —e o Brasil está na briga para tomar sua posição. A ascensão do Brasil Em análise divulgada no site do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada da Universidade de São Paulo (Cepea/USP), o professor Lucílio Alves aponta que o Brasil deve embarcar volume de milho equivalente ao dos Estados Unidos na safra de 2022/23. Serão 51 milhões de toneladas entre outubro de 2022 e setembro de 2023, segundo estimativas do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos divulgadas em fevereiro. “Esse cenário pode ser verificado pela primeira vez para os exportadores brasileiros”, apontou Alves. 

Nos Estados Unidos, não é apenas a China que está se distanciando do milho produzido no país. As exportações para todos os países, exceto a China, estavam em seu segundo menor nível em duas décadas, conforme noticiou a agência Reuters. O México, que compra cerca de US$ 5 bilhões (R$ 24,6 bilhões) em milho dos Estados Unidos todos os anos, está se preparando para limitar as importações da variedade geneticamente modificada, uma grande quantidade da qual vem de seu vizinho do norte. Enquanto isso, no Brasil, agricultores têm convertido faixas de terra agrícola de pastagens para campos de milho nos últimos anos, dizem especialistas. 

A vantagem adicional do Brasil é que seus agricultores podem colher não só uma, mas duas safras de milho por ano. “No ano passado, em particular, eles tinham muito mais estoques exportáveis do que nós aqui nos Estados Unidos”, diz Frayne Olson, economista agrícola da North Dakota State University. “A tendência de longo prazo é que o Brasil está aumentando sua produção de milho, está se tornando um ator muito mais dominante.” A análise de Lucílio Alves, do Cepea/USP, aponta que o Brasil pode superar os Estados Unidos como maior exportador de milho do mundo. No Brasil, o aumento das exportações resultam de um superávit interno da produção estimado em cerca de 55 milhões de toneladas tanto para as safras 2021/22 quanto para 2022/23, segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). 

A China vem aumentando significativamente suas encomendas de milho brasileiro. Os dois países também firmaram uma série de acordos que permitirão que mais milho seja embarcado do Brasil para a China. O movimento da China para diversificar as importações de alimentos provavelmente é estimulado por uma combinação de fatores, de acordo com Harry Murphy Cruise, economista da Moody’s Analytics focado no país asiático. China x EUA Além da questão do preço, o aumento das tensões entre os Estados Unidos e a China está levando Pequim a diversificar rapidamente caso a situação se deteriore ainda mais. 

“O comércio é uma ferramenta fundamental no arsenal de todos os formuladores de políticas”, disse ele. “Existe a possibilidade de que a China esteja usando o comércio como uma forma de coerção econômica.” Cruise disse que batalhas sobre produtos como semicondutores, eletrônicos e baterias não são os únicos exemplos de como a China mudou sua relação comercial com os Estados Unidos. “É mais amplo do que isso”, diz Cruise, observando que a China está procurando mitigar riscos e fortalecer as cadeias de suprimentos de bens essenciais. “Alimentos e rações para o gado são críticos.” 

Nos Estados Unidos, os preços do milho estão altos por muitos dos mesmos motivos pelos quais a maioria dos outros produtos e serviços são caros hoje: inflação. Para os agricultores, os custos crescentes de maquinário, sementes e terras agrícolas prejudicaram seus resultados. “Quando você olha para o maior diferencial no custo de produção de milho nos EUA em relação ao Brasil, África do Sul ou Argentina, provavelmente é a terra”, diz Frayne Olson. O preço por acre de terra em Iowa, o maior estado produtor de milho dos EUA, aumentou 29% em 2021 e mais 17% em 2022, o maior já registrado. Em Illinois, o segundo maior produtor de milho, o aluguel da terra atingiu preços recordes no ano passado. 

Economistas dizem, porém, que a ascensão do Brasil não deve ter grande impacto no dia a dia dos americanos —a agricultura não tem o mesmo peso econômico de décadas atrás. “A agricultura é importante —o abastecimento de alimentos é crítico— mas não é uma grande parte de toda a economia”, diz Olson. O agricultor Scott Haerr, por sua vez, diz que não planeja reduzir o número de hectares de milho que planta, já que o custo de fertilizantes e combustível diminuiu em relação às altas do ano passado. Os custos crescentes de máquinas, sementes e terras agrícolas tiveram um grande impacto em agricultores como Scott Haerr – BBC “Mas estamos prontos para pivotar, se precisarmos”, diz ele. Ele acredita que há pouco a ser feito para impedir a rápida ascensão do Brasil, mas isso não significa que os agricultores americanos estejam fora do jogo de exportação. 

“A Indonésia não está importando milho no momento, mas seu potencial de crescimento para o etanol (produzido a partir do milho) é enorme”, diz ele. No início deste ano, ele e outros produtores de milho de Ohio visitaram os países do Sudeste Asiático para ouvir em primeira mão o que os compradores querem. “Precisamos ter certeza de que estamos tentando desenvolver novos mercados”, diz ele. *Com reportagem de Stephen Starr em Clark County, Ohio, e Derek Cai, da BBC, em Cingapura. 

*Com reportagem de Stephen Starr em Clark County, Ohio, e Derek Cai, da BBC, em Cingapura.

Este texto foi originalmente publicado aqui

https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2023/07/como-rapida-ascensao-do-brasil-pode-desbancar-eua-como-maior-exportador-de-milho-do-mundo.shtml

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IA generativa chegou em Hollywood e na indústria do entretenimento. E agora?

As opiniões dos especialistas sobre o uso da tecnologia na TV e no cinema divergem, mas eles podem estar corretos em relação aos impactos. Alguns setores da indústria tendem a adotar essas novas ferramentas, o que levará a mudanças dramáticas na produção e pós-produção, distribuição e propriedade intelectual

Thomas Davenport e Randy Bean – MIT Sloan Management Review – 04 de Julho 2023

Artigo IA generativa chegou em Hollywood e na indústria do entretenimento. E agora?

Um dos muitos temas envolvendo a inteligência artificial (IA) generativa que vem sendo muito comentado é o efeito que esta pode ter sobre Hollywood e sobre a indústria do entretenimento em geral. É uma preocupação óbvia porque a IA generativa é capaz de produzir os insumos dessa indústria: texto (na forma de histórias, scripts, anúncios e resenhas), campanhas de marketing e imagens, sejam móveis ou estáticas. Muitos dentro desse segmento estão enfrentando pressões econômicas, o que aumenta a demanda por produtividade e por “produtos” mais baratos. E atualmente uma grande parcela do entretenimento é derivada de conteúdo passado, o que o torna adequado para tecnologias generativas que são treinadas em conteúdo passado.

Ainda é cedo para que o entretenimento seja realmente criado por IA, mas está claro que algo grande está acontecendo. Um artigo recente no Wall Street Journal publicou sobre ferramentas de IA disponíveis que podem sugerir histórias, arcos de personagens e diálogos. O texto ainda traz um módulo interativo que permite que os leitores vejam por si mesmos como o ChatGPT pode escrever um script básico quando damos algumas indicações. O artigo também levanta questões sobre propriedade intelectual de imagem: “Se um usuário pede a uma ferramenta de IA para construir um novo personagem influenciado por, digamos, Bob Esponja, os criadores originais devem conceder permissão? Quem é o dono? A nova obra em si pode ser protegida por direitos autorais?”.

A IA generativa foi usada como parte da produção de Tudo em todo o lugar ao mesmo tempo, filme vencedor do Oscar de 2023, e isso foi divulgado. Tom escreveu recentemente sobre o uso de IA generativa para geração de imagens de fundo em cinema e TV. Já existem sistemas desse tipo que podem criar vídeos, ainda que curtos e relativamente simples. IA já está sendo usada para dar previsões baseadas em dados sobre como a audiência reagirá a enredos incomuns.

Então, o que isso significa para o setor? Há muitos componentes diferentes nessa questão, como sugere um novo relatório da Variety Intelligence Platform. Em maio, o sindicato dos roteiristas (writers guild of america, ou WGA) entrou em greve contra serviços de streaming pela remuneração dos roteiristas de cinema e TV, mas também exigiu que as produtoras “regulamentem o uso de material produzido a partir de IA ou tecnologias afins”. Como há muitas incertezas sobre o quê, quando e como acontecerá com a tecnologia, conversamos com dois especialistas no tema. Ambos estão baseados em Los Angeles, o que não chega a surpreender, e estão envolvidos com centros da University of Southern California (USC), na Califórnia, Estados Unidos. No entanto, eles não trabalham juntos e têm visões muito diferentes em relação à tecnologia.

Definitivamente contra a IA generativa

Jonathan Taplin é diretor emérito do Annenberg Innovation Lab da USC. Ele teve uma longa carreira na indústria do entretenimento e já geriu turnês de músicos, incluindo Bob Dylan e The Band. Além disso, foi produtor de cinema, banqueiro e escritor. Seu último livro, The end of reality: How four billionaires are selling a fantasy future of the metaverse, Mars and crypto, será lançado em setembro. Como se pode observar sobre o título, ele não é um fã de como as ferramentas de IA generativa das grandes empresas de tecnologia estão sendo desenvolvidas ou apresentadas.

“A maneira como os modelos são treinados é devorando tudo na internet, sem preocupação com direitos autorais”, disse Taplin. “O Google tem uma IA de geração de música treinada em cada arquivo de áudio no YouTube. Você pode pedir algo como ‘faça para mim uma música que soe como Taylor Swift, final triste, compasso como o dela’, e o resultado soa um pouco como ela. Alguém poderia incluí-lo em um videogame ou fazer uma cena de bar como parte de um filme sem gastar nada.” Da mesma forma, a IA generativa poderia reutilizar o conteúdo de vídeo de propriedade dos estúdios, acrescentou.

A principal preocupação de Taplin é que a IA generativa substitua parte do trabalho que hoje é feito por escritores, artistas, fotógrafos e outros profissionais criativos na indústria das artes e do entretenimento. Ele também acredita que isso agravará problemas que já estão prejudicando a indústria de cinema e TV. “O maior problema nos filmes é o excesso de fórmulas. Falta originalidade e é por isso que essa indústria tem tido resultados piores”, disse. A IA generativa, acrescentou, só é capaz de produzir ainda mais conteúdo estereotipado e intensificará a previsibilidade. “O entretenimento depende de novas ideias, e essa tecnologia não pode produzi-las”, acrescentou Taplin.

Ele disse que está preocupado que a IA generativa continue a reduzir o número de artistas que podem ganhar a vida no segmento. A maior parte da receita do entretenimento já vai para um número muito pequeno de artistas. Essa é a realidade dos músicos, em particular nos streamings, e se confirma em Hollywood nas enormes receitas de bilheteria geradas por alguns de atores importantes em filmes de grande sucesso. Quando você tem uma “economia algorítmica”, disse Taplin, “os algoritmos estreitam o funil, com pagamentos descomunais para poucos”. Ele está esperançoso de que um regime de licenciamento coletivo – semelhante ao que está em vigor para amostragem de música – surja para proteger os artistas quando seu conteúdo for usado para treinar IA generativa.

Encarando a IA generativa, mas com algumas preocupações

Yves Bergquist é diretor do AI & Neuroscience in Media Project no Entertainment Technology Center da USC, que é financiado por estúdios de Hollywood. Você pode imaginar que a opinião dele sobre IA generativa é provavelmente muito mais favorável do que a de Taplin. E é, apesar de ele ter dito que tem algumas preocupações sobre os potenciais efeitos da tecnologia sobre a indústria de mídia e entretenimento: “É uma tecnologia completamente revolucionária”, caracterizada por desinformação e “alguma insanidade”.

Perguntamos a Bergquist se os estúdios de cinema adotariam a IA generativa. Parte deles já está fazendo isso, disse ele. “Alguns grupos dentro dos estúdios são muito experientes desse ponto de vista, como os diretores de tecnologia e todos os artistas e técnicos de efeitos visuais. Eles são muito sofisticados e já estão trabalhando com recursos de IA generativa. Os estúdios fazem muito do trabalho de pós-produção em filmes – especialmente em animação – e há muita pressão para reduzir os custos. As empresas de pós-produção têm uma cultura de desenvolvimento de software, então tenderão a adotar a IA generativa.”

Ele também acredita que muitas produtoras adotarão a tecnologia porque já estão fotografando em grandes telas baseadas em LED e precisarão de imagens generativas para elas. Bergquist disse esperar que as ferramentas que oferecem atores virtuais e síntese de voz sejam adotadas de forma mais agressiva por criadores de formato curto que distribuem seu trabalho no TikTok ou YouTube e por produtores de videogames. “Canais de streaming, anúncios digitais, jogos, é isso que as crianças assistem hoje em dia”, observou. “A indústria de mídia não tem mais o monopólio do entretenimento.” Os fabricantes de hardware (como câmeras) também estão experimentando efeitos visuais generativos na câmera.

O lado comercial dos estúdios de cinema tradicionais às vezes é mais relutante em adotar a IA, observou Bergquist, simplesmente porque eles não têm o mesmo tipo de cultura de dados ou software. “A IA está sendo introduzida em organizações e pessoas que não estão prontas”, disse ele. Mesmo os novos estúdios de streaming, como Netflix e Prime Video, vivenciaram muitas dores de crescimento em suas jornadas de IA.

Bergquist disse que, antes da greve do WGA começar em maio, muitos roteiristas lhe disseram que veem o ChatGPT como uma “grande ferramenta de assistente criativo”, mas não algo que substituirá os escritores humanos. “É bom em fazer brainstorming de ideias, mas produzirá apenas conteúdo médio”, afirmou Bergquist. “Não é nem de longe capaz da abstração simbólica necessária para o desenvolvimento do roteiro, e não consegue produzir um roteiro com estrutura narrativa e arcos de personagens.” Pelo menos não agora. Futuros modelos de linguagem com níveis mais altos de inteligência e novos paradigmas para IA podem vir a ser capazes de fazê-lo.

Bergquist acredita que a IA generativa terá enormes efeitos não apenas no entretenimento, mas também na educação. Ele acredita que as escolas, incluindo a School of Cinematic Arts da USC, precisam atualizar rapidamente seus conteúdos para acompanhar o frenesi de novas ferramentas de IA generativa que são lançadas quase todas as semanas. Bergquist está preparando cursos sobre tecnologia para a Society of motion pictures and television engineers, uma organização que representa tecnólogos em mídia.

Estarão ambos certos?

Embora Taplin e Bergquist pareçam ter visões muito diferentes sobre IA generativa, ambos podem estar certos sobre seus impactos. As pressões econômicas podem levar a indústria, ou pelo menos alguns de seus setores, a adotar essas novas ferramentas. A IA generativa levará a mudanças dramáticas na produção e pós-produção, distribuição e propriedade intelectual. A tecnologia pode não ser boa para os artistas tradicionais e as empresas que os empregam, mas é provável que leve a mudanças significativas na indústria nos próximos anos – esperamos que algumas sejam para melhor e outras para pior. Talvez a única notícia exclusivamente boa seja que nenhum especialista tem a expectativa de que os humanos sejam totalmente substituídos tão cedo.

Autoria

Thomas Davenport e Randy Bean

Thomas H. Davenport é professor de tecnologia da informação e gestão do Babson College, professor visitante na Saïd Business School de Oxford e membro da iniciativa MIT sobre economia digital. Randy Bean é CEO da NewVantage Partners e autor do livro Fail fast, learn faster: Lessons in data-driven leadership in an age of disruption, big data, and AI (Wiley, 2021).

https://mitsloanreview.com.br/post/ia-generativa-chegou-em-hollywood-e-na-industria-do-entretenimento-e-agora

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O declínio do terceiro lugar

Em crise, ele é o espaço onde as diferenças são toleradas em nome do convívio

Ronaldo Lemos – Folha – 2.jul.2023 

Uma das tragédias contemporâneas é o chamado “declínio do terceiro lugar”. A ideia é simples e poderosa. A sociedade é constituída de lugares de convívio humano. O primeiro lugar é a nossa casa. O segundo é o trabalho. Já o terceiro lugar é o conjunto de espaços privados ou públicos em que encontramos pessoas com os quais não necessariamente temos vínculos: cafés, clubes, bibliotecas, parques, livrarias, igrejas, praças e assim por diante.

O importante é que seja um lugar aberto em que as pessoas possam se conectar entre si, com situações desconhecidas ou imprevisíveis, ou ainda, unidas por interesses ou atividades compartilhadas.

O terceiro lugar é onde ocorre uma espécie de laboratório cívico acidental, onde as diferenças são toleradas em nome do convívio. A ideia apareceu no livro do sociólogo Ray Oldenburg chamado “The Great Good Place”, publicado em 1989 (Oldenburg morreu no fim de 2022). Na obra, ele enfatiza que os terceiros lugares são essenciais para a criação de um senso de comunidade, para a construção de uma sociedade civil verdadeira e, em última análise, para a democracia.

Pessoas tomam sol e descansam em gramado no parque Augusta, na zona central de São Paulo – Rubens Cavallari – 10.dez.22/Folhapress,

Só que em 1989 Oldenburg não podia prever as complexidades do declínio atual do terceiro lugar, incluindo o papel da tecnologia nas nossas vidas. Apesar de ter potencial de formação de comunidades virtuais (a ponto de ser chamada por alguns de “o quarto lugar”), a maior parte dos produtos tecnológicos acaba gerando mais individualismo. É só pensar nos óculos de realidade virtual da Apple, o Vision Pro. O aparelho tem potencial de isolar as pessoas dentro das próprias casas. Se o celular é uma força de afastamento das pessoas dentro de casa, imagine um computador colocado na cara de cada um.

Mas a tecnologia não é o único fator. Parte da crise do terceiro lugar é também de mudanças estruturais no primeiro e segundo lugares. Especialmente na pandemia a casa passou a se tornar para uma parcela da população também um lugar de trabalho, o que tirou parte das pessoas das ruas da cidade. Além disso, a facilidade de comprar online está esvaziando centros urbanos.

Uma das experiências mais aterrorizantes é assistir aos vídeos do documentarista Dan Bell no YouTube. Sua série “Dead Mall” (Shoppings Mortos) é pior que muitos filmes de horror. Mostra shoppings gigantescos fechados, muitos deles novíssimos ou recém-inaugurados. Bell passeia pelo interior desses espaços, totalmente vazios, funcionando como um mau presságio.

No Brasil, o desafio dos terceiros lugares é ainda maior. Com uma sociedade dividida por múltiplos fatores, econômicos e sociais, vivemos cheios de terceiros lugares falsos. Um terceiro lugar verdadeiro precisa ser neutro (ninguém tem a obrigação de estar lá), nivelador (status não determina a entrada), a conversa é a chave do convívio (e não o comércio), é aberto a todos, tem raízes em comunidades locais, e assim por diante.

É claro que o Brasil tem vivido mudanças nas dinâmicas sociais nos últimos anos, como o renascimento do carnaval de rua ou o crescimento das igrejas neopentecostais. Em um contexto em que o individualismo puxado pela tecnologia prevalece, o Brasil poderia assumir um papel de proteção e reinvenção dos 3º lugares contra o desaparecimento ou a cooptação. Essa me parece uma ambição (ou utopia) saudável.



Reader

Já era O mundo sem inteligência artificial

Já é Aprendizado de máquina (machine learning)

Já vem Desaprendizado de máquina (ensinar a máquina a “desaprender” ideias nocivas ou perigosas)

https://www1.folha.uol.com.br/colunas/ronaldolemos/2023/07/o-declinio-do-terceiro-lugar.shtml

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Brazilcore: Por que europeus estão ‘brincando de se vestir de brasileiros’ nas redes sociais?

Estilo verde e amarelo é tratado como novidade no hemisfério norte. Estrelas gringas como Tina Kunakey e Rosalía são exaltadas pela ‘Vogue França’ com fotos em botecos que glamourizam estética da periferia brasileira

Por Bárbara Correa – Estadão – 06/07/2023 

A moda popular brasileira parece ter sido “descoberta” pelos franceses nas últimas semanas. Em junho, a Vogue francesa publicou a reportagem “Tudo o que você precisa saber sobre a tendência Brazilcore”. A matéria explica no que consiste o estilo, que ganhou destaque no Brasil no ano passado, com a Copa do Mundo e, segundo a publicação, é tendência para o verão do hemisfério norte (que começou em junho).

O termo Brazilcore repercutiu como uma trend (termo usado nas redes sociais para se referir a tendências) no Tiktok. Trata-se de um estilo que adota roupas e acessórios com as cores do Brasil ou símbolos que remetem à bandeira brasileira. O uso dos hashtags #brazilcore, #braziliancore, #brazilcorefashion nas redes ultrapassa 500 milhões de menções.

A publicação foi questionada por internautas daqui, uma vez que não mencionou personalidades e nem marcas brasileiras. As referências citadas são a cantora espanhola Rosalía, as modelos estadunidenses Emily Ratajkowski e Hailey Bieber e a francesa Tina Kunakey.

No post da revista no Instagram, as supermodelos e estrelas estrangeiras não só vestem camisetas e acessórios verdes e amarelos simples, que parecem comprados em um camelô: elas aparecem sentadas em cadeiras de plástico em boteco de rua, comendo pururuca ou tirando selfie com uma latinha de Guaraná.

  • O que é o Brazilcore
  • Como essa tendência começou nas periferias do Brasil
  • O que essa movimentação da tendência brasileira na Europa representa

O que é e como surgiu o Brazilcore?

O termo “core”, principalmente em trends de moda nas redes sociais, é usado para designar uma estética. No Tiktok, por exemplo, algumas tendências já surgiram e, rapidamente, perderam espaço para novas, como Barbiecore (que se assemelha à boneca Barbie, com a predominância da cor rosa), Fairycore (que se inspira no visual de fadas), entre outras.

O Brazilcore já foi questionado por pesquisadores e produtores de conteúdo de moda da periferia no segundo semestre de 2022, quando a mídia brasileira passou a atribuir o surgimento dessa tendência a influenciadoras de moda no Tiktok, como Malu Borges e Livia Nunes, que possuem mais de um milhão de seguidores nas redes sociais.

Na prática, o estilo surgiu nas periferias do Brasil. É o que explica o pesquisador especialista em hábitos de consumos periféricos Wes Xavier, morador do Grajaú, São Paulo:

“O assunto vai para além de apropriação. Existe um processo de desumanização das narrativas periféricas, onde quem as criou conta outras histórias sem levar em consideração o começo e meio, ou o fim delas.”

Wesley explica que, nos primeiros meses do segundo semestre de 2022, muitos influenciadores brasileiros alegaram que usar essa camiseta era uma forma de ressignificar o que, em 2018, foi visto apenas como símbolo de apoio ao ex-presidente Jair Bolsonaro.

“Porém, a periferia nunca deixou de utilizar essas roupas. Diferentemente de uma visão nacionalista, ela representava a possibilidade de sonhar, de se imaginar e vislumbrar locais de protagonismo diferentes dos pré-determinados aos favelados. Pensar futebol e cultura nas periferias brasileiras é pensar caminhos possíveis para uma vida melhor”, explica.

Ele acrescenta: “Esse movimento sempre esteve ao alcance dos meus olhos. Diante da minha janela, do meu espaço de trabalho, vislumbro a periferia. Nela, diversos corpos carregados dessa essência transitam no cotidiano, e não em passarelas ou veículos de comunicação. Eles estão nas ruas”.

Mayra Souza, modelo, designer e produtora de conteúdo sobre moda periférica concorda. “Muito antes de ter esse nome eu já via no meu bairro, nas ruas da favela, e nunca foi considerado fashion. Mas, desde que pessoas de fora começaram a usar, aí virou trend”, afirma.

Mayra, que mora no Capão Redondo, em São Paulo, sempre quis trabalhar com moda, mas, por não se ver representada na área, acreditava que essa era uma realidade muito distante da sua.

Foi a partir da faculdade de Design Gráfico, onde ela fez um TCC sobre tipografia vernacular (tipos de letras muito populares nas periferias) que ela percebeu a potência de produzir conteúdos sobre cultura periférica. Ela analisa o impacto da trend Brazilcore na moda da seguinte forma:

“Alguns artistas internacionais como a Hailey Bieber e a Dua Lipa, em suas passagens pelo Brasil, utilizaram a camisa verde e amarela (…) Nas últimas semanas de moda, as cores estavam também presentes e isso é algo bom, trazer a visibilidade para o Brasil, enquanto potência que somos. Só que, quando esvaziam o significado real por trás, acaba invisibilizando os verdadeiros percursores, pois os corpos modelos, quando buscamos por essa estética, não são os pretos e periféricos”.

Moda brasileira na Europa

“O protagonismo precisa estar direcionado para a gente, como foi o caso do Je M’appelle Brasil”, reitera a designer, mencionando um projeto desenvolvido pelo estilista Samir Bertoli.

No mesmo mês da publicação da revista francesa, as ruas de Paris receberam o projeto brasileiro de streetwear (termo que se refere a moda urbana, de rua) Je M’appelle Brasil. Samir reuniu seis marcas nacionais, Carnan, Mad Enlatados, Class, Pace, Sufgang e Quadro Creations, para apresentá-las ao mercado europeu entre os dias 22 e 24 de junho.

Samir, que vive em Pirituba, São Paulo, reflete que, apesar do notório interesse dos franceses que frequentaram o showrom, a matéria de revista francesa é, para ele, um reflexo da percepção que os europeus ainda têm do Brasil. Para ele, a trend Brazilcore é, na verdade, uma “caricatura do que os gringos acham que é ser brasileiro”.

O evento contou com a apresentação do trapper paulista Kyan, o que também atraiu a visitação de brasileiros em Paris e repercutiu na imprensa daqui. O estilista teve essa ideia no ano passado, quando percebeu a falta de conhecimento de muitos franceses em torno da cultura brasileira.

“Para minha surpresa, eles não conheciam nada. Conheciam Neymar, futebol, Rio de Janeiro e Carnaval. Meu objetivo foi dar o pontapé inicial, para inserir a moda e subcultura brasileira, de forma humilde. O projeto foi desenvolvido em três meses. Então, apesar de ter sido muito corrido, eu sabia que queria que isso fosse um marco na história da moda, do streetwear brasileiro, como primeiro pontapé global para começar mostrar o que produzimos por aqui”, explicou.

“É preciso entender que esse estilo do ‘core’ é um arquétipo, um estereótipo. O verde e amarelo é bem caricato. Olhei isso no Tiktok e pensei: ‘Estão brincando de se vestir de brasileiro’. A estética, de verdade, surgiu na periferia, com roupas de time. Mas, camisa de time nunca foi artefato de moda para elite, era atrelado a uma falta de entendimento estético, de não saber se vestir”, reitera.

“De modo geral, eles [franceses] enxergam a moda no Brasil nessa mesma superficialidade, do estereótipo das cores, não imaginam que existam culturas profundas em casa estado. Enxergam aqui como moda de praia, chinelo, no arquétipo de um país tropical”, analisa.

https://www.estadao.com.br/cultura/moda/brazilcore-por-que-europeus-estao-brincando-de-se-vestir-de-brasileiros-nas-redes-sociais/

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Conhece a ideia de ‘venture client’? Veja como método pode ser atalho para inovação

Em vez de grandes empresas aportarem investimentos em startups, elas se tornam clientes iniciais

Por Camila Farani – Estadão – 04/07/2023 

Você certamente já ouviu a frase “o cliente tem sempre razão”. Ela é tão conhecida e repetida pois parte do pressuposto de que, quando você tem clientes, você tem um negócio bem sucedido. A partir dessa lógica surgiu o Venture Client:

  • Em vez de grandes empresas aportarem investimentos em startups, elas se tornam clientes iniciais.
  • As corporações não vão adquirir equity, e sim, comprar o produto ou contratar o serviço.
  • O risco está em obter uma solução que pode não estar finalizada, nem ter um modelo de negócios bem estabelecido.
  • No entanto, é uma opção para acelerar o processo de inovação das companhias.

Gregor Gimmy institucionalizou o modelo quando trabalhava na BMW e surgiu a demanda de uma ferramenta específica, para complementar a tecnologia de outra empresa. Ele entendeu que, mesmo com investimento milionário, a startup teria limitações financeiras para desenvolver uma solução complementar e que não valeria a pena investir e ter uma parte do negócio. No entanto, ser pioneira no uso de uma tecnologia do ecossistema automotivo, replicando o serviço aos fornecedores, poderia colocar a montadora alemã em uma posição de liderança.

O Venture Client se destaca por ser uma alternativa win x win.

  • Corporações têm acesso às soluções que precisam antes dos concorrentes;
  • Podem alinhar o produto ou o serviço às suas necessidades;
  • Startups terão o recurso necessário para desenvolver sua tecnologia ao máximo do potencial;
  • Se torna escalável, já que será possível vender para outras organizações do mesmo ramo e para os fornecedores.

Essa forma de investimento existe há muito tempo – em 1985, a Apple contratou serviços de uma pequena startup… a Adobe! Porém, se tornou popular 30 anos depois, quando Gimmy cunhou o termo. Hoje, ele tem uma consultoria e implementa o modelo em grandes companhias, como:

  • Bosch: as unidades de negócios se beneficiam estrategicamente de startups como clientes de risco.
  • Holcim: Implantou a Venture Client Unit para conectar startups às necessidades de toda a cadeia – da pedreira ao cliente final.
  • Siemens Energy AG: Concentra a estratégia em projetos-piloto para transformar sistemas de energia e ajudar a combater as mudanças climáticas.

Venture Client caiu no gosto de 97% dos líderes de inovação, segundo o relatório “Open Innovation Outlook 2023 – Macrotendências para 2023 no engajamento corporativo-startup”. Nesse formato, uma companhia pode aumentar em até 10x o acesso à tecnologia. E assim, cliente e empresa, juntos, têm a razão!

https://www.estadao.com.br/link/camila-farani/conhece-a-ideia-de-venture-client-veja-como-metodo-pode-ser-atalho-para-inovacao/

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