Grigori Perelman, o gênio que resolveu um dos maiores problemas matemáticos do milênio e ‘sumiu do mapa’

Dalia Ventura – Da BBC News Mundo – 9 junho 2019

Grigori Perelman

Legenda da foto,

Grigori Perelman, em foto antiga; matemático russo é considerado tão brilhante quanto recluso

Há uma década, Grigori Perelman, um dos grandes cérebros do século 21, deu adeus à profissão e à vida pública.

Na época, ele já era mundialmente famoso por resolver um dos mais difíceis enigmas matemáticos do milênio, cuja origem remete ao século 18 e se materializa na antiga cidade prussiana de Königsberg (hoje Kaliningrado, na Rússia).

A cidade tinha sete pontes sobre o rio Pregel, para conectar não só os dois lados da cidade, mas também duas ilhotas dentro do curso do rio. Reza a lenda que as pessoas da época formularam um questionamento, que se converteu em um célebre problema:

Será possível sair de casa em uma das quatro regiões de Königsberg, cruzar todas as pontes uma única vez e voltar ao mesmo ponto de partida?

A solução não só é mais difícil do que parece, como levou à criação de novos ramos da matemática, incluindo a topologia.

Antigo mapa de Königsberg

Legenda da foto,

Pontes de Königsberg deram origem a dilema matemático….

Desenho das pontes de Königsberg

Crédito, Creative Commons

Legenda da foto,

…seria possível sair de casa em uma das quatro regiões de Königsberg, cruzar todas as pontes uma única vez e voltar ao mesmo ponto de partida?

Em 1735, o grande matemático Leonhard Euler deu a resposta: não era possível. Mas o mais curioso é que, na resolução do problema, deu um salto conceitual.

Euler se deu conta de que as distâncias entre as pontes eram irrelevantes. O que realmente importava era como as construções estavam conectadas entre si, o que faz com que a teoria não se limite unicamente à cidade de Königsberg, mas sim a todas as configurações topologicamente iguais.

Eis o início dos conceitos de topologia, que hoje embasam praticamente todos os trajetos de mapas de metrô do mundo, para comunicar claramente aos usuários o que eles necessitam saber: como chegar aonde querem ir.

Embora as origens da topologia remetam às pontes de Königsberg, foi só nas mãos do mais famoso e respeitado matemático do final do século 19, o francês Henri Poincaré, que o tema se converteu em uma nova e poderosa maneira de enxergar a forma.

A topologia

A principal ideia atrás da topologia é que, quando se estuda um objeto, o mais importante são as suas propriedades, e não o objeto em si. E, se dois objetos compartilham as mesmas propriedades, devem ser estudados, porque os resultados disso poderão ser escalonados a todos os objetos que compartilhem das mesmas propriedades – ou seja, os objetos homeoformos.

Algumas pessoas se referem a esse importante campo da matemática como “geometria flexível”, porque, segundo ele, duas formas são a mesma se for possível transformar uma em outra sem quebrá-la.

Então, por exemplo, topologicamente uma bola de futebol e uma bola de rúgbi são equivalentes, porque uma pode ser moldada para se transformar na outra.

Bolas

Legenda da foto,

Na topologia, uma bola de futebol e uma bola de rúgbi são equivalentes, porque uma pode ser moldada para se transformar na outra

É por isso que se brinca que um topologista não consegue distinguir entre uma xícara de café e uma rosquinha de donut.

É que, embora soe estranho, topologicamente uma xícara e o donut são iguais.

Donut e xícara

Crédito, Science Photo Library

Legenda da foto,

Um donut se converte em xícara (e vice-versa) sem ser quebrado

Mas, se é possível deformar um donut para transformá-lo em uma xícara e vice-versa, não há como deformar uma bola a ponto de transformá-la em um donut, porque não podemos criar o buraco em seu meio sem mudar as propriedades da esfera.

O problema

Poincaré chegou a conhecer todas as possíveis superfícies topológicas bidimensionais. Além disso, desenvolveu todas as formas possíveis nas quais poderia envolver esse universo bidimensional plano.

Mas o fato é que vivemos em um universo tridimensional. O que levou o matemático a se perguntar em 1904: quais são as formas possíveis que nosso Universo pode ter?

Ele morreu em 1912 sem conseguir encontrar as respostas. O problema se converteu na “conjectura (ou hipótese) de Poincaré” e ficou como legado para futuras gerações de matemáticos, que por décadas não conseguiram resolver o problema para superfícies 3D.

Henri Poincaré

Crédito, Science Photo Library

Legenda da foto,

Henri Poincaré (1854-1912) levou o problema adiante, mas não conseguiu resolvê-lo para superfícies em 3D

Assim, a hipótese de Poincaré foi incluída na lista dos sete problemas matemáticos do milênio, cuja resolução seria premiada com US$ 1 milhão pelo Instituto Clay de Matemáticas de Massachusetts, nos EUA.

Até que, em 2002, o site de internet arXiv publicou a primeira de três partes de um artigo com o intrincado título “A fórmula de entropia para o fluxo de Ricci e suas aplicações geométricas”.

O texto tinha 39 páginas e era assinado por Grisha Perelman.

Pouco ortodoxo

Grigori “Grisha” Perelman vinha se debruçando sobre o tema em sua cidade natal, São Petersburgo, à qual havia regressado depois de viver alguns anos nos EUA. Segundo um colega, Perelman voltou porque percebeu que seu trabalho fluía melhor na Rússia.

Grigori Perelman em foto de 2006

Crédito, Getty Images

Legenda da foto,

Grigori Perelman resolveu o problema por conta própria, mas recusou qualquer tipo de reconhecimento por isso

Ele não era um desconhecido na comunidade matemática: em 1994, já havia provado a “conjectura da alma”, segundo a qual pode-se deduzir as propriedades de um objeto matemático a partir de pequenas regiões desses objetos, chamados alma.

Depois disso, ele recebeu ofertas de cargos em algumas das principais universidades do mundo, como Stanford e Princeton, mas preferiu tornar-se pesquisador do Instituto Steklov, em São Petersburgo, um cargo que pagava menos de US$ 100 por mês.

Em sua temporada nos EUA havia conseguido, disse, dinheiro suficiente para viver bem.

Mas também conseguira avançar em uma dúvida levantada por um matemático americano que ele admirava: Richard Hamilton.

Fluxos que não fluíam

Em 1982, Hamilton havia publicado um artigo sobre uma equação chamada “fluxo de Ricci”, com a qual se suspeitava ser possível comprovar a conjectura de Poincaré.

Mas a tarefa era extremamente técnica e sua execução, complicada.

Fluxo de Ricci

Crédito, CBM

Legenda da foto,

Fluxo de Ricci, acima em 2D, foi usado por Perelman para encontrar suas respostas

Em 1993, Perelman havia aceitado uma bolsa de pesquisa na Universidade da Califórnia, em Berkeley, onde assistiu a várias conferências de Hamilton.

No final de uma delas, Hamilton explicou a Perelman os obstáculos que havia encontrado na tentativa de provar a conjectura; o russo respondeu que havia feito um estudo que poderia ajudá-lo nesses obstáculos. Hamilton, porém, não lhe deu muita atenção.

Dois anos mais tarde, Perelman voltou a escrever para Hamilton explicando suas ideias, mas o americano nunca respondeu.

Perelman acabou trabalhando sozinho, e em 2002 publicou na internet o resultado de seus esforços. Essa publicação acabou despertando um enorme interesse entre matemáticos.

A resolução

Embora o artigo sequer citasse Poincaré, quatro anos mais tarde emergiu o consenso de que Perelman havia, de fato, solucionado a conjectura.

E se quatro anos parecem ser um período longo, é bom lembrar que estamos falando da matemática.

À diferença de outros campos do conhecimento, em que as teorias sempre podem ser revisadas, a prova de um teorema é definitiva. No caso de Perelman, ao menos duas equipes de especialistas se debruçaram sobre seu artigo para confirmar que não havia brechas ou erros, e a partir disso produziram estudos de centenas de páginas (enquanto que o artigo original tinha meras 39 páginas).

Além disso, a proposta de Perelman era tão complexa que até especialistas tiveram dificuldade em entendê-la.

O silêncio do gênio

Depois de mais de um século de tentativas frustradas, a hipótese de um matemático brilhante havia sido comprovada por outro também genial, embora mais excêntrico.

Perelman recebeu nova chuva de ofertas – de prêmios, cargos, honras, pagamentos em dinheiro, convites para conferências e fundos de pesquisa -, as quais considerou, segundo relatos, profundamente ofensivas.

“A monetização do êxito é o máximo insulto à matemática”, afirmou.

Grigori Perelman

Legenda da foto,

“Se a teoria está correta, não necessita de outro tipo de reconhecimento”, afirmou Perelman

Consequentemente, rejeitou até mesmo a medalha Fields, equivalente matemático a um prêmio Nobel, por “suas contribuições à geometria e suas ideias revolucionárias”; um prêmio da Sociedade Matemática Europeia e o milhão de dólares que o Instituto Clay queria entregá-lo por solucionar um dos problemas do milênio.

“Se a teoria está correta, não necessita de outro tipo de reconhecimento”, afirmou Perelman.

Ele logo deixou de falar com a imprensa, anunciou que pretendia abandonar a profissão e se aposentou, para viver com sua mãe como um semirrecluso em um modesto apartamento. Há relatos de que ele só sai de casa para comprar itens básicos ou para assistir à ópera e a concertos de música clássica.

“Não me interessa o dinheiro ou a fama. Não quero estar em exibição como um animal em um zoológico”, disse certa vez.

Alguns conhecidos afirmam que ele se interessa simplesmente por demonstrar teoremas, e não por ganhar prêmios.

No mundo científico, muitos lamentaram que ele tenha abandonado a matemática por completo. A não ser que, em algum momento, ele surpreenda a comunidade com alguma outra publicação brilhante na internet.

https://www.bbc.com/portuguese/geral-48521904

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O exército dos R$ 20

Avaliações pagas fazem da internet uma mídia em que a espontaneidade está à venda

Ronaldo Lemos – Folha – 23.jul.2023 às 8h00

A esta altura, muita gente já deve ter recebido alguma mensagem do tipo: “Trabalhe de casa e ganhe R$ 2.000 por mês”. Muitas dessas mensagens são golpes. Outras fazem parte de um sistema de contratação de trabalhadores avulsos para postar reviews positivos de produtos online, criando a impressão de que são genuinamente bem avaliados. Cada uma dessas avaliações pagas, feitas muitas vezes na forma de vídeos de um minuto de duração, gera até R$ 20 para a pessoa que é contratada. O jornalista Gabriel Daros publicou na semana passada uma investigação sobre esse fenômeno no Brasil, na interessante plataforma chamada Rest of the World, que tem por objetivo justamente cobrir em inglês situações que ocorrem em países pouco visíveis nas mídias dos EUA e da Europa. 

Fazendas de cliques – Catarina Pignato Daros relatou que, através de plataformas como Vintepila, 99freelas e Vinteconto, é possível tanto ofertar como contratar serviços de “freelancers” para escrever avaliações pagas de produtos. De fato, essas plataformas estão cheias de pessoas se oferecendo para “gravar vídeos e outros tipos de depoimento para o seu produto”. O grande valor desse tipo de marketing é justamente dar a impressão de autenticidade. Quem fala do produto não é uma celebridade. É gente “como a gente”. 

Quanto mais espontâneo e natural for o depoimento ou vídeo, melhor. Só que a espontaneidade tem limites. Daros relata que boa parte dessas ações é feita através de roteiros pré-elaborados pelo contratante. Muitas das pessoas que gravam vídeos ou escrevem depoimentos nem sequer tiveram contato ou usaram o produto. Outro problema é que esses reviews são publicados sem nenhum tipo de aviso de que se trata de conteúdo pago. Exatamente para não desfazer a impressão de espontaneidade. Esse fenômeno é a ponta de uma transformação mais profunda. 

Na internet de hoje, é cada vez mais importante ocupar o espaço destinado aos “comentários”. Não basta para empresas (nem para campanhas políticas) apenas produzir e postar conteúdos maravilhosos. Existe hoje a ambição de controlar o que se fala sobre o conteúdo postado. De nada adianta fazer um grande post de um produto ou serviço se logo abaixo dele há uma infinidade de pessoas falando mal. 

É aí que entra esse “exército dos R$ 20”. Pessoas e perfis fakes são recrutados por agências para ocupar os espaços abertos nas principais plataformas. Quando alguém coloca um comentário sobre alguma dessas marcas “gerenciadas”, logo a pessoa é cercada por um exército de fãs fakes que se juntam para contestar a má avaliação e até mesmo atacar quem profanou a marca “gerenciada”. Se, para o comércio e os serviços, isso já é nocivo, para temas de interesse público, é pior ainda. 

Assim como um espelho de parque de diversões pode fazer alguém parecer mais alto ou mais magro, essas avaliações distorcem a verdadeira imagem dos produtos e serviços, moldando nossa percepção de acordo com a narrativa que os contratantes desejam que vejamos. Isso torna a internet uma mídia em que a espontaneidade está à venda. Converte a utópica “rede global” descentralizada que a internet deveria ser em uma mídia em que praticamente todos os espaços estão à venda. Tornando a confiança um bem escasso na rede hoje. 

Já era Marketing focado apenas em campanhas de massa

Já é Marketing digital baseado em dados e comportamentos

Já vem Marketing social, que explora as dinâmicas sociais na internet

Ronaldo Lemos

Advogado, diretor do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro

https://www1.folha.uol.com.br/colunas/ronaldolemos/2023/07/o-exercito-dos-r-20.shtml

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A Opep do lítio

A corrida para o lítio foi acelerada pela produção de carros elétricos

Por Geoberto Espírito Santo – Valor – 21/07/2023

A estratégia econômica mundial do aquecimento global, segurança climática, transição energética e segurança energética chegou aos minerais estratégicos. Já vinham sendo utilizados nos celulares, tablets, laptops e agora, em maiores proporções, nas bicicletas, carros e ônibus elétricos e no armazenamento de energia. Temos lítio e cobalto nos computadores, celulares e baterias, onde também o níquel e o grafite melhoram o desempenho e a longevidade. Nos painéis solares, o telúrio e o silício. Numa eólica, aço, zinco, alumínio, carbono, vidro, níquel e ferro. Terras raras são utilizadas em semicondutores, catalizadores e lâmpadas LED.

Se o gás natural foi considerado o combustível da segurança energética, o lítio agora é a matéria-prima essencial para o armazenamento da transição energética. Basicamente, um carro convencional usa o cobre e o manganês, por causa do aço. Num carro elétrico, além do cobre e do manganês, são utilizados lítio, níquel, zinco, grafite, cobalto e terras raras. Relatório da Agência Internacional de Energia (IEA, sigla em inglês) diz que, em 2022, as vendas de carros elétricos ultrapassaram 10 milhões de unidades, registrando um aumento de 60% em relação a 2021. O lítio também está presente nos grandes armazenamentos de energia elétrica, que servem, dentre outras finalidades operacionais, de base para o despacho de renováveis.

A quantidade de carbonato de lítio num celular é de 3g, tablet 20g, laptop 30g, bicicletas elétricas 300g, nos carros elétricos 50 kg e num ônibus elétrico 200 kg. O consumo de lítio, que em 2021 era de 95 mil toneladas passou em 2022 para 134 mil. Seu preço nos EUA em 2021 era de US$ 14.000 por tonelada, passando para US$ 37.000 em 2022. Segundo projeções do Serviço Geológico dos EUA e Secretaria de Mineração da Argentina, a demanda por milhares de toneladas de carbonato de lítio, que no ano passado era 427, passará para 1.793 em 2030.

Esses materiais, principalmente o lítio, cobalto, níquel e cobre estão sendo vistos pelos investidores como matéria crítica e estratégica para a chama da energia limpa das próximas décadas. China e Estados Unidos claramente já duelam por esses minerais essenciais

No período 2017 a 2022, o setor de energia fez a demanda por lítio aumentar 300%, a de cobalto 70% e a do níquel em 40%. A corrida para o lítio foi acelerada pela produção de veículos elétricos, motivada pelo tamanho médio das baterias nos principais mercados. Em 2022, esse mercado de minerais de transição energética tem recebido da indústria global de mineração uma maior atenção, tendo atingido US$ 320 bilhões. Esses materiais, principalmente o lítio, cobalto, níquel e cobre estão sendo vistos pelos investidores como matéria crítica e estratégica para a chamada energia limpa das próximas décadas. China e Estados Unidos, as duas grandes superpotências mundiais do momento, claramente já duelam por esses minerais essenciais, mas a Europa está se posicionando.

A China é líder em terras raras, detém 60% das reservas de grafite e possui relevante reserva de lítio, produzindo cerca de 75% das baterias de íon-lítio no mundo. No Plano Nacional de Recursos Minerais da China, além dos recursos energéticos tradicionais como o carvão, petróleo, gás natural e gás de xisto, estão incluídos 24 minerais estratégicos, dentre eles o alumínio, cobre, cobalto, ferro, lítio, níquel, ouro e terras raras. Mas, no caso do lítio, poderá ficar com um alto grau de dependência externa desse mineral indispensável porque é lá que está a maior concentração do seu processamento.

Os Estados Unidos planejam recuperar parte da sua independência energética e o lítio aparece como elemento chave para essa competição tecnológica e geopolítica com a China. Atualmente, os chineses estão levando vantagem porque seu governo está investindo na América Latina na produção de baterias, em mineração e montando fábricas. Os Estados Unidos estão mais focados na aquisição das matérias-primas para as empresas americanas construírem suas próprias tecnologias ecológicas. Um olhar geopolítico nos leva a República Democrática do Congo, um país com conflitos internos onde se concentram as jazidas de cobalto. Certamente os norte-americanos vão recuperar esse atraso e o Brasil vai estar incluído nessa disputa.

Temos no mundo 98 milhões de toneladas de lítio identificadas, sendo 21 milhões de toneladas na Bolívia, 20 milhões na Argentina e 20 milhões no Chile. Temos ainda 12 milhões nos EUA, 8 milhões na Austrália, 7 milhões na China, um milhão no Brasil e 11 milhões no restante dos países. Na América do Sul, está o Triângulo do Lítio, com 62% de suas reservas mundiais, localizada em Salar de Uyuni, na Bolívia, Salinas Grandes, Salar Hombre Muerto e Salinas Arizaro, na Argentina e Salar Atacama, no Chile. Apesar das maiores reservas estarem na América do Sul, não fomos os maiores produtores mundiais de carbonato de lítio em 2022: na Austrália foram produzidas 52%, no Chile 25%, na China 13%, na Argentina 6%, no Brasil, EUA, Portugal e Zimbábue 1% cada e 0,1% nos demais países.

A empresa canadense Sigma Lithium, já tem licença para iniciar suas operações em Minas Gerais, numa mina chamada Grota do Cirilo, projeto de R$ 3 bilhões com a produção do lítio endereçada à exportação. Nossa demanda de carbonato de lítio em 2020 era de 327 quilotoneladas (kt) e espera-se que seja de 2.114 kt em 2030, portanto, um crescimento anual de 2,1%. A meta do Brasil para 2026 é estar produzindo 5% do lítio do mundo e, segundo o Serviço Geológico do Brasil (SGB), nossas reservas de lítio estão no Ceará, no eixo Rio Grande do Norte/Paraíba, no sul de Tocantins com o nordeste de Goiás, na Bahia e em Minas Gerais, no conhecido médio Jequitinhonha, região leste e São João del Rei. É claro que a exportação é um bom caminho, mas precisamos mesmo é fazer a transformação da matéria-prima.

Os desafios nessa cadeia de produção são muitos, desde a concentração em poucos países até os impactos ambientais da mineração e o consumo de energia, visualizando que, após a vida útil, as baterias poderão se tornar um lixo perigoso. Hoje é feita reciclagem na China, EUA e Europa, mas deve mudar na próxima década porque as baterias dos veículos elétricos vão chegar aos 10-15 anos de vida útil.

Geoberto Espírito Santo GES Consultoria, Engenharia e Serviços

https://valor.globo.com/opiniao/coluna/a-opep-do-litio.ghtml

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A briga silenciosa: felicidade ou estresse?

A colunista Betânia Tanure fala sobre como as relações afetivas em crise se conectam com a realização profissional e o propósito

Betania Tanure – Valor – 13/07/2023

Nunca se viu tanto estresse no ambiente corporativo. Nossas pesquisas revelam que o uso de medicamentos prescritos por psiquiatras mais que quadriplicou nos últimos tempos. Há uma insatisfação difusa, uma briga silenciosa com a própria alma, uma tentativa comum de achar “culpados”. Culpa-se a empresa por tensões de origem pessoal e debita-se na “conta” das pessoas as incompetências organizacionais. Por mais que as duas esferas se sobreponham, deve-se dar a César o que é de César…

Foram divulgados no Brasil os dados de um estudo liderado pelo professor de Harvard Robert Waldinger que teve como tema relações afetivas significativas, variável fundamental no índice de “felicidade” dos participantes, essencialmente americanos. Considerando a nossa amostra brasileira, me junto ao Robert neste finding e vou abordar aqui outros dois pontos, ou contrapontos, sempre considerando que “felicidade” não é um estado, é uma viagem.

Nossas pesquisas também mostram que as relações afetivas são ponto-chave da (“in)felicidade” e estão em crise: 42% dos casamentos desmoronaram durante a pandemia e suas repercussões persistem. Nesse pantanoso terreno também se observaram diferenças relevantes de sentimentos, ou de conflitos, entre mães e pais.

Particularmente mulheres executivas expressam um sentimento ambíguo, recheado de culpa por essa escolha e pela consequente terceirização doméstica – tema, aliás, em parte ressignificado nos tempos de pandemia. É frequente o relato de que passaram a ter a “posse” da sua casa, a estabelecer a sua dinâmica nesse ambiente e do prazer inesperado que isso gerou. Tal sentimento também se mostrou mal equilibrado: para algumas, a maior convivência com o parceiro revelou problemas. E filhos em período de homeschooling são um capítulo à parte: prazer por estar perto, mas incômodo com a falta de espaço individual, o que é impublicável. Por sua vez, muitos pais passaram a conhecer o prazer em ver peripécias cotidianas dos filhos em crescimento.

O fato é que só se constroem momentos de “felicidade” com relações afetivas significativas, realização profissional e o propósito que guia a vida das pessoas como Cidadãs, com C maiúsculo. Ou seja, nada simples.

Em países emergentes, o cidadão é ainda mais responsável por contribuir para a construção de um país melhor. Há, porém, certa angústia: se por um lado isso é fonte de prazer, de realização, por outro é mais uma demanda e desafia a competência de influenciar e realizar. A alma Estadista, teoria nossa, está cada vez mais presente entre eles: já se tem, de forma crescente, especialmente entre os que me leem, a consciência da responsabilidade de cada pessoa de impactar os rumos do seu país.

Em 95% dos casos, porém, essa consciência ainda não se reflete na prática. Medo? Falta de competência? Dificuldade de mergulhar em um novo papel? Talvez um pouco de cada coisa.

Agir, impactar o meio, articular de modo saudável e republicano por uma sociedade mais justa: você que faz isso também usufrui do benefício da satisfação e da “felicidade” de ter uma vida com propósito. Afinal, não permanece na História quem acumulou riquezas, e sim quem ajudou a construir um país. É com você! É conosco!

Betania Tanure é doutora, professora e consultora da BTA. Atua na área de gestão, cultura empresarial e formação de equipes de alta performance.

https://valor.globo.com/carreira/coluna/a-briga-silenciosa-felicidade-ou-estresse.ghtml

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Bill Gates: ‘O que gostaria de ter ouvido na formatura’

Cinco conselhos do empresário fundador da Microsoft a formandos numa universidade nos Estados Unidos

Por Roberto Macedo – Estadão – 20/07/2023 

Ele afirmou isso em inglês num texto que publicou no seu site (www.gatesnotes.com), que ele também chama de seu blog e tem muitas publicações interessantes. Gates começou um curso de graduação na famosa Universidade Harvard, nos EUA, no início dos anos 1970, mas abandonou o curso no terceiro semestre, ao se envolver de corpo e alma com a criação da Microsoft e ficar sem condições e interesse de continuar seguindo o curso. É muito famoso por ser um empresário de sucesso, muito rico, e por seu papel na criação dessa empresa. Eu fui apresentado a ele numa visita que fez a São Paulo. É uma pessoa muito simples, de fácil comunicação e muito sabido.

A afirmação citada veio no seu discurso como paraninfo dos formandos em Engenharia e Administração Florestal na Universidade do Nordeste do Arizona, nos EUA. Foi a terceira vez que ele falou como paraninfo de estudantes de curso de graduação. Passemos às cinco coisas nas palavras dele, em tradução livre e em resumo.

Primeira: “Sua vida não é uma peça de um ato. Provavelmente vocês estão sob pressão para tomar decisões certas sobre suas carreiras. Pode parecer que essas decisões são permanentes, mas não são. O que vocês vão fazer amanhã – ou pelos próximos dez anos – não tem de ser o que vocês farão para sempre. Quando deixei a universidade, pensei que trabalharia na Microsoft pelo resto da vida. Hoje, continuo amando meu trabalho com software, mas filantropia é o que eu faço em tempo integral, focado em inovações para lutar contra mudanças climáticas e reduzir desigualdades pelo mundo, inclusive em saúde e educação. Eu me sinto feliz porque nossa fundação apoia instituições muito interessantes, mesmo se não é algo que eu imaginava quando eu tinha 22 anos. Não é o.k. apenas por mudar sua cabeça ou ter uma segunda carreira. Pode ser uma coisa muito boa.”

Segunda: “Você nunca é tão inteligente a ponto de não se confundir. Eu pensei que sabia tudo de que precisava saber quando deixei a faculdade. Mas o primeiro degrau para aprender algo novo é abraçar o que você não sabe, em lugar de focar no que você sabe. Em algum ponto de sua carreira, você se verá diante de um problema que você não pode resolver por si mesmo. Quando isso ocorrer, não entre em pânico. Respire. Procure se esforçar para pensar sobre o que está diante de si. E, então, procure pessoas inteligentes para aprender com elas. Poderá ser um colega com mais experiência ou que tenha uma boa perspectiva e que o levará a pensar diferentemente. Ou um especialista no campo de interesse e que se disponha a responder suas questões. Quase tudo o que consegui veio porque eu procurei outras pessoas que sabiam mais. As pessoas querem ajudar. A chave é não ter medo de perguntar.”

Terceira: “Gravite em torno de um trabalho que resolve um grande problema. A boa notícia é que vocês estão se formando num tempo em que há muitos problemas importantes por resolver. Novas atividades e empresas estão surgindo todo dia e isso permitirá a você ganhar a vida e fazer uma diferença, e avanços em ciência e tecnologia facilitaram mais do que nunca alcançar um grande impacto. Por exemplo, muitos de vocês irão lidar com florestas. Seus professores ensinaram a usar tecnologias de ponta como drones que produzem mapas precisos do piso florestal. Vocês poderiam buscar novas formas de usar essa tecnologia para lutar contra mudanças climáticas. Quando você gasta seus dias fazendo alguma coisa que resolve um grande problema, isso lhe dará energia para fazer o seu melhor trabalho.”

Quarta: “Não subestime o poder da amizade. Quando estava na faculdade, eu e Paul Allen ficamos amigos e compartilhamos muitos interesses, como ficção científica, livros sobre personagens imaginários e eventos, e revistas sobre computadores. Começamos a Microsoft juntos. Eu pouco sabia quão importante essa amizade seria. A única coisa mais importante do que com quem você desce do palco é com quem você sobe nele.”

Quinta: “Esta me tomou muito tempo para aprender. Você não é um folgado se deixar de trabalhar um pouco. Quando estava na idade de vocês, não acreditava em férias nem em fins de semana. Trazia todo mundo perto de mim para trabalhar longas horas. Nos primeiros dias da Microsoft, meu escritório tinha vista para o estacionamento do prédio e eu observava quem estava saindo cedo ou ficando até tarde. Mas, quando fiquei mais velho – e especialmente quando me tornei um pai –, percebi que há algo mais na vida além do trabalho. Não tome tanto tempo, como eu, para aprender essa lição. Separe tempo para avançar nos seus relacionamentos, para celebrar seus sucessos e para se recuperar de suas perdas. Tire uma folga quando precisar. E relaxe com as pessoas que o rodeiam quando elas também precisarem de uma folga. E antes de começar a próxima etapa de sua vida, tire um momento e divirta-se. Esta noite, no próximo fim de semana, neste verão ou a qualquer tempo. Você merece.”

*

ECONOMISTA (UFMG, USP E HARVARD), É CONSULTOR ECONÔMICO E DE ENSINO SUPERIOR

https://www.estadao.com.br/opiniao/roberto-macedo/bill-gates-o-que-gostaria-de-ter-ouvido-na-formatura/

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IA movimenta mercado de trabalho, e empresas buscam profissionais capazes de aplicar tecnologia

Ferramentas como ChatGPT mudam rotina das companhias. Investimento em inteligência artificial deve somar R$ 69 bi em três anos

Por Juliana Causin — O Globo 16/07/2023 

No Hospital Albert Einstein, em São Paulo, uma equipe de 80 cientistas e especialistas foi formada para trabalhar especialmente com algoritmos e IA. O grupo de saúde vem há alguns anos aplicando a tecnologia para diagnósticos, administração de leitos e pesquisas No Hospital Albert Einstein, em São Paulo, uma equipe de 80 cientistas e especialistas foi formada para trabalhar especialmente com algoritmos e IA. O grupo de saúde vem há alguns anos aplicando a tecnologia para diagnósticos, administração de leitos e pesquisas Divulgação

Quando prestou vestibular pela primeira vez, há mais de dez anos, Luiza Del Negro não imaginava que um dia poderia exercer uma profissão na área de tecnologia. Parecia coisa “daqueles gênios da matemática”, diz. Depois de mudar radicalmente de área, trocando a veterinária pela programação, a carioca, de 29 anos, agora faz parte de um grupo de profissionais cada vez mais procurados pelas empresas no Brasil: os habilitados para aplicar a inteligência artificial (IA) nos negócios.

Há um mês, ela trabalha no desenvolvimento de sistemas de IA no escritório brasileiro de uma das maiores consultorias do mundo, a Bain & Company. A empresa tem uma parceria com a OpenAI, criadora do ChatGPT, para o uso da tecnologia por trás do chatbot. A ideia é que o cérebro eletrônico possa ser integrado a serviços e sistemas de clientes.

— A tecnologia cresceu muito, mas como profissional dessa área, vejo que ainda há espaço (de expansão), e a IA ainda vai participar mais das nossas vidas — diz Luiza, que atua na equipe de Análise Avançada da Bain & Company.

A expectativa da Associação das Empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação e de Tecnologias Digitais (Brasscom) é que a IA puxe 20% de todo o investimento da indústria de tecnologia local até 2026, com um montante de R$ 69,1 bilhões.

Globalmente, a aplicação da IA do tipo generativa, como a do ChatGPT, poderá injetar até US$ 4,4 trilhões por ano em produtividade na economia mundial, projeta um estudo da McKinsey. E os reflexos já aparecem no mercado de trabalho. A estimativa é que a IA generativa poderá automatizar tarefas que consomem entre 60% e 70% do tempo dos trabalhadores. Se há o temor de perda de vagas, por outro lado cresce a demanda por profissionais que saibam lidar com a inovação.

O mais recente relatório do Fórum Econômico Mundial sobre o futuro do trabalho aponta que 75% das empresas no mundo devem abraçar a IA nos próximos quatro anos, com 2,6 milhões de postos de trabalho criados especificamente para atuar com ela, como cientistas, programadores e engenheiros de dados.

No Brasil, especialistas em recursos humanos (RH) apontam sinais de que o apetite das empresas por mão de obra para essa área deve se intensificar nos próximos meses.

No primeiro trimestre deste ano, a plataforma Vagas.com registrou 52,6 mil ofertas de trabalho que mencionaram o termo “inteligência artificial” no Brasil. Um levantamento do Linkedin, feito a pedido do GLOBO, identificou crescimento de 94% no número de pessoas que adicionaram habilidades relacionadas a IA em seus perfis desde maio do ano passado. Segundo relatório do Google Trends, a busca por vagas na área de IA cresceu 90% no país nos últimos seis meses.

Novas rotinas

Nos EUA, berço das big techs que lideram a corrida global pela IA, as vagas na área cresceram 20% em junho, segundo a plataforma Indeed. Além de especialistas na tecnologia, as companhias buscam pessoas que têm condições de trabalhar com soluções de IA.

O advogado Manoel Monteiro, sócio da área de direito societário do escritório Viseu Advogados, é um deles. No escritório, a IA se tornou uma auxiliar para traduções, pesquisas iniciais, formulações de textos-base e outras funções.

— É muito mais fácil revisar um texto que criá-lo do zero. Temos usado o ChatGPT como ferramenta de apoio — diz Monteiro, que tem uma pessoa na equipe dedicada a acompanhar novas soluções de IA que são lançadas.

A popularização desses sistemas tem mudado a rotina até de profissionais fora dos grandes centros urbanos. Na região de Nova Olímpia, no interior do Mato Grosso, 2,5 mil trabalhadores rurais estão conectados a um software de IA que reporta em tempo real as condições do plantio de cana-de-açúcar e as necessidades de manejo do campo.

Os comandos vêm por uma assistente de voz. A IA é conectada também ao WhatsApp, que leva alertas para os funcionários sobre a lavoura. O mecanismo vem sendo implantado pela biorrefinaria Uisa, que treinou a equipe para usar os dispositivos.

— Os funcionários recebem todos os avisos por uma IA que chamamos de Sugar. Ela avisa quando uma máquina precisa ser reabastecida, quando um local precisa de mais adubo ou quando há necessidade de manutenção — diz Rodrigo Gonçalves, diretor de Tecnologia e Inovação da biorrefinaria.

Na Bain, além da vaga preenchida por Luiza, outras dez posições estão abertas para profissionais que atuam com IA, especialmente engenheiros especializados em aprendizado de máquina. Pesquisa da consultoria com 600 empresas de vários países indica que IA é prioridade para 85% nos próximos anos.

— O que a gente tem visto é um apetite das empresas por ao menos experimentar e ver como a tecnologia funciona — diz Lucas Brossi, sócio e head de Análise Avançada na América do Sul da consultoria.

Onda crescente

Quem já trabalha há algum tempo com esses sistemas intensifica o uso com a chegada das inovações generativas. No Hospital Albert Einstein, em São Paulo, uma equipe de 80 cientistas e especialistas foi formada para trabalhar especialmente com algoritmos e IA. O grupo vem há alguns anos aplicando tecnologia em diagnósticos, administração de leitos e pesquisas.

— Temos uma área que constrói a interface e realiza a implementação das tecnologias para todo o corpo clínico. Simplificamos para que a IA sirva de apoio. Hoje, temos 70 aplicações diferentes desse tipo — conta Igohr Schultz, diretor executivo digital do Einstein.

As startups também aceleram as aplicações de IA, ampliando áreas de atuação. Na WeClever, empresa de base tecnológica mineira que cria robôs de atendimento, a maior parte do quadro de 75 funcionários está focada em IA. A empresa, que contratou cinco pessoas nos primeiros meses deste ano, espera ampliar ainda mais a equipe até dezembro, conta Ana Abreu, diretora operacional da startup.

A IA também está criando novas posições na cúpula das empresas para reger as transformações com a tecnologia. Há um mês, o físico Weslley Patrocinio passou a gerenciar os esforços da plataforma de RH Gupy para expandir o uso da IA em ferramentas de ranqueamento de currículos, recomendação de perfis e descrição de vagas.

— Pensamos em como mudar a experiência de determinado produto com a IA, melhorar a experiência. Ajudamos os times de produtos, pessoas e vendas a considerar a IA — diz Patrocinio, que se tornou head de IA da Gupy e lidera uma equipe de 20 pessoas dedicadas ao assunto.

Desafio de todos

O interesse pelo tema explodiu depois do lançamento do ChatGPT, no fim do ano passado, iniciando uma onda que teve como último lançamento o Bard, do Google, na semana passada. Mas especialistas avaliam que a demanda por profissionais com foco em IA ainda é incipiente e mais concentrada no setor de tecnologia.

Segundo Lucas Oggiam, diretor-executivo do PageGroup, do grupo Michael Page, as empresas “ainda estão descobrindo como lidar com ela”. No entanto, Lucas Nogueira, diretor regional da Robert Half, avalia que os profissionais em geral devem buscar entender as mudanças que a inteligência artificial traz para o trabalho:

— O que a gente indica é que os profissionais se preparem para esse tipo de linguagem e esse tipo de desafio, sejam eles de varejo, marketing ou contabilidade. No longo prazo, o uso será muito mais amplo que somente o da área de tecnologia.

Como trabalhadores podem começar a se familiarizar com o universo da IA

Médico, engenheiro, designer ou administrador também precisam entender de IA? Tudo indica que essa tecnologia estará presente na vida de diferentes profissionais daqui para frente. Para quem quiser começar a entender esse novo mundo, já existem cursos sobre o tema, on-line ou presenciais, mas não são o único caminho.

Tatear as ferramentas de IA que já existem pode ser uma forma de se familiarizar aos poucos. A habilidade de fazer isso já tem até um nome: “AI Fluency” ou fluência em IA.

Andrea Janér, fundadora e CEO da Oxygen, plataforma de conteúdo sobre inovação, sugere passos iniciais. Ter a compreensão mínima do que é um sistema de IA é o primeiro. Isso passa por conhecer termos como aprendizado de máquina e processamento de linguagem natural, que caracterizam o processamento de dados por ferramentas de IA. O próprio ChatGPT ou o Bard podem dar essas respostas.

Procure entre as soluções disponíveis de IA as que podem ajudar a resolver problemas específicos. Os sistemas mais conhecidos podem criar modelos de e-mail, resumir informações de textos longos, criar listas e até revisar ortografia. Também existem apps específicos para o mundo corporativo que podem acelerar processos repetitivos.

É importante atentar para os desafios e preocupações éticas associadas à IA. Estamos falando de aplicativos novos, tecnologias ainda em uso experimental e que carecem de regulações. Robôs virtuais podem apresentar informações incorretas ou com viés preconceituoso. Ter consciência das limitações é importante, assim como entender que o que pode ser uma mão na roda tem implicações sociais mais amplas. Um dos riscos é a ampliação da exclusão digital e a eliminação de empregos. Para as empresas, é importante cuidar para que o uso da tecnologia não seja excludente.

https://oglobo.globo.com/economia/tecnologia/noticia/2023/07/16/ia-movimenta-mercado-de-trabalho-e-empresas-buscam-profissionais-capazes-de-aplicar-tecnologia.ghtml

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O ChatGPT não é bom para ‘colar’ na escola, mas ajuda muito a estudar; saiba como

Ferramentas gerativas de IA podem anotar documentos longos, fazer flashcards e produzir questionários práticos

Por Brian X. Chen – Estadão/NYT – 03/07/2023 

THE NEW YORK TIMES – A especialidade da inteligência artificial (IA) gerativa é a linguagem – adivinhando qual palavra vem a seguir – e os estudantes rapidamente perceberam que poderiam usar o ChatGPT e outros chatbots para escrever redações. Isso criou uma situação complicada em muitas salas de aula. Acontece que é fácil ser pego “colando” com IA gerativa porque ela tende a inventar coisas, um fenômeno conhecido como “alucinação”.

Mas a IA gerativa também pode ser usada como assistente de estudo – e isso não precisa ser feito apenas com o ChatGPT. Algumas ferramentas destacam trechos em longos trabalhos de pesquisa e até respondem a perguntas sobre o material. Outras podem ajudar criando materiais de estudo, como quizzes e flashcards.

Geração Z já está alfabetizada em IA e quer mudar o mercado de trabalho

Vale reforçar: para estudar, é essencial que as informações estejam corretas e, para obter os resultados mais precisos, você deve direcionar as ferramentas de IA para focar em informações de fontes confiáveis.

Como usar IA para resumir informações

Primeiro, vamos explorar uma das tarefas de estudo mais desafiadoras: ler e anotar documentos longos. Algumas ferramentas de IA, como Humata.AI, Wordtune Read e vários plug-ins dentro do ChatGPT, atuam como assistentes de pesquisa que irão resumir documentos para você.

Eu prefiro o Humata.AI porque ele responde às suas perguntas e mostra destaques diretamente no material de origem, permitindo que você verifique a precisão.

No site Humata.AI, enviei um PDF de um artigo científico sobre a precisão de smartwatches no monitoramento dos batimentos cardíacos. Depois cliquei no botão Ask (Perguntar) e perguntei como os relógios Garmin se saíram no estudo. Ele rolou até a parte relevante do documento que mencionava a Garmin, fez destaques e respondeu à minha pergunta.

Humata.AI responde a perguntas e faz destaques relevantes dentro de documentos

Humata.AI responde a perguntas e faz destaques relevantes dentro de documentos Foto: Brian X. Chen/The New York Times

O mais interessante para mim foi quando perguntei ao robô se minha compreensão do artigo estava correta – que, em média, dispositivos vestíveis como Garmins e Fitbits monitoravam a aptidão cardíaca com bastante precisão, mas que há eletrônicos cujos resultados estavam muito errados. “Sim, você está correto”, o robô respondeu. Ele seguiu com um resumo do estudo e listou os números das páginas onde esta conclusão foi mencionada.

Como usar IA com memorização

A IA gerativa também pode ajudar com memorização. Embora qualquer chatbot possa gerar flashcards ou quizzes se você fornecer as informações que está estudando, decidi usar o ChatGPT porque ele inclui plug-ins que geram materiais de estudo a partir de artigos ou documentos específicos da web. Detalhe: apenas assinantes que pagam US$20 por mês pelo ChatGPT Plus podem usar plug-ins.

Eu queria que o ChatGPT criasse flashcards para me ajudar a aprender palavras em chinês. Para fazer isso, instalei dois plug-ins: Link Reader, que me permite dizer ao robô para usar dados de um site específico, e MetaMentor, um plug-in que gera flashcards automaticamente.

No painel do ChatGPT, selecionei ambos os plug-ins. Então, escrevi este prompt:

Aja como um tutor. Sou um falante nativo de inglês aprendendo chinês. Pegue as palavras e frases de vocabulário deste link e crie um conjunto de flashcards para cada um: https://preply.com/en/blog/basic-chinese-words/

Cerca de cinco minutos depois, o robô respondeu com um link onde eu poderia baixar os flashcards. Eram exatamente o que eu havia pedido.

Como usar o ChatGPT para gerar testes

Em seguida, eu queria que meu tutor me fizesse um teste. Eu disse ao ChatGPT que estava estudando para o exame escrito para obter minha habilitação de motocicleta na Califórnia, EUA. Novamente, usando o plug-in Link Reader, colei um link para o último manual de motocicleta do DMV da Califórnia (um passo importante porque as leis de trânsito variam entre os estados americanos e as regras são ocasionalmente atualizadas) e pedi um quiz de múltipla escolha.

O robô processou as informações dentro do manual e produziu um quiz, fazendo-me cinco perguntas de cada vez.

Finalmente, para testar meu entendimento do assunto, pedi ao ChatGPT para me fazer perguntas sem apresentar opções de múltipla escolha. O bot se adaptou de acordo, e eu acertei todas as perguntas no quiz.

Eu teria adorado ter essas ferramentas quando estava na escola e provavelmente teria tirado notas melhores com elas como companheiras de estudo./TRADUZIDO POR ALICE LABATE

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De hijab gaúcho a mahjong carioca: empreendedores brasileiros ‘ganham o mundo’ nas lojas de apps

Na economia dos aplicativos, shoppings virtuais abrem caminho para a exportação de serviços sem burocracia

Por Bruno Rosa — O Globo – 17/07/2023 

A equipe do aplicativo de moda do RS que que conquistou muçulmanas A equipe do aplicativo de moda do RS que que conquistou muçulmanas Divulgação

Pode parecer improvável, mas sai da capital do Rio Grande do Sul o desenho de alguns hijabs, véus para mulheres muçulmanas, consumidos em países do Oriente Médio. Diretamente da Barra da Tijuca, na Zona Oeste do Rio, uma sessão de relaxamento alivia o estresse de alguém que vive no México. Também da Barra saem jogos eletrônicos que entretêm aficionados no Japão. A exportação de serviços brasileiros como estes é possível, sem nenhuma burocracia, por meio de aplicativos, que ganham a chance de competir em praticamente todos os mercados do mundo por meio das lojas de apps dos sistemas operacionais para smartphones das gigantes de tecnologia Apple e Google.

Pesquisa da consultoria Analysis Group constatou que 40% dos downloads de aplicativos somente na App Store, da Apple para o sistema operacional iOS, são feitos fora dos países de origem do desenvolvedor. Na empresa dona do iPhone, são mais de 1,76 milhões de aplicativos disponíveis, 123 vezes o que havia em 2008. Somando o portfólio da Play Store, do Google para o Android, são outros 2,6 milhões de títulos. É mercado em potencial de mais de 8 bilhões de aparelhos móveis em quase 180 países e mais de 40 idiomas.

US$ 1, 1 trilhão em vendas

O avanço da economia dos apps, que acelerou na pandemia, se mantém. A Analysis Group estima que tenham sido gerados negócios de US$ 1,1 trilhão (R$ 5,27 trilhões) em vendas no ano passado, alta de 29% em relação a 2021. Em busca de um naco desse bolo é que empreendedores digitais brasileiros investem em apps que possam atrair consumidores estrangeiros.

Em Porto Alegre, Roberta Weiand decidiu criar um aplicativo que pudesse dar às pessoas ferramentas simples para desenhar roupas com um toque no celular, usando moldes prontos. Com a ideia na cabeça, ela desenvolveu o app Prêt-à-Template, e disponibilizou versões em 14 idiomas. Conta com 8 milhões de downloads em mais de cem países, parte muito pequena no Brasil.

— A lógica foi começar olhando o exterior para crescer e usar a musculatura das lojas de aplicativos. Já comecei com o app funcionando em inglês e português. E fui crescendo. E passei a personalizar o aplicativo estudando os diferentes mercados, como o árabe, oferecendo moldes para desenhar os hijabs. Esse foi o planejamento e o desafio.

‘Não há barreiras on-line’

Com o sucesso do app de roupas, Roberta iniciou outra aventura: o Prêt-à-Makeup, de maquiagem. Eleito recentemente pela Apple um dos melhores do segmento para iPad, simula as texturas dos produtos e reage à luz exposta na tela do celular com uma tecnologia já patenteada. O app tem 90 mil usuários mensais em 12 línguas. A empreendedora espera que os dois apps tenham crescimento de 40% este ano:

— Não há barreiras no mundo on-line. Tenho pacotes de assinatura anual e trimestral em dólar, convertidos para as moedas locais. Hoje, 45% da receita vêm dos EUA, seguidos de Europa (UE), com 11%, e Reino Unido, com 10%. A China representa 6%, e o Brasil tem 3% — diz ela, que comanda a empresa ao lado de Bruno Werberich.

Outro segmento popular no Brasil que vem ganhando espaço é o da culinária. O paulista Diego Zambrano percebeu o potencial digital do setor durante a pandemia. Decidiu colocar em um aplicativo, chamado Creme, diferentes chefs ao redor do mundo ensinando suas receitas. Para isso, padronizou as dicas e as diferentes unidades de medida de forma a serem compatíveis com diversos países em inglês. Agora, diz ele, trabalha em uma versão em português e pretende usar inteligência artificial para oferecer o conteúdo em outros idiomas, inclusive com a substituição de ingredientes por similares locais.

— Já temos 800 chefs e mil receitas que são acessados em 50 países, como Japão, Dinamarca e Albânia. Na economia digital, se você focar sua atuação, fica moldado a uma cultura ou região. Isso restringe a tecnologia — diz Zambrano, que pretende usar a localização dos usuários para oferecer mais serviços. —Vamos adicionar o comércio eletrônico gerando uma lista de compras. Vamos começar com parceiros nos EUA, nosso maior mercado. Estamos montando a estratégia global.

Segundo a Analysis Group, além de Europa e EUA, a maior parte dos desenvolvedores de apps está em Brasil, China, Japão, Coreia do Sul e Índia. A consultoria estima que 80% deles têm apps listados em várias lojas virtuais. É o caso da Gazeus, sediada na Barra, no Rio, que atua num ramo em que o Brasil se destaca: o de games. Ela tem 15 jogos em apps individuais, como dominó, buraco, poker e mahjong.

Dario Souza, CEO e fundador da empresa, diz que a estratégia desde o começo foi estar presente nas principais plataformas digitais globais, como App Store, Play Store e no Instant Games, do Facebook. Contabiliza mais de 20 milhões de downloads em países como Itália, México, Egito, Argélia e Japão, entre outros.

— Estar listado nas lojas de apps abre um mar de oportunidades, pois as pessoas acessam o celular o tempo todo. O desafio é entender como o público joga e entender as especificidades locais — diz Souza, que estima em 60% a parcela da receita que vem do exterior.

Taxas incomodam

Otimista, Souza prevê um crescimento nos negócios, já que vários países estão estudando medidas para que as lojas de aplicativos abram seus ecossistemas a concorrentes em meio à disputa acirrada entre Microsoft, Epic, Apple e Google no setor.

— Isso vai aumentar as possibilidades de distribuição. Hoje, em geral, as gigantes cobram uma taxa de 30% (do valor do download para listar o app na loja) no primeiro ano, patamar que cai para 15% no segundo ano, embora em alguns casos não sejam cobradas taxas — diz Souza.

Para o especialista em tecnologia João Neto Fernandes, os aplicativos são um dos pilares de crescimento das big techs, impulsionando também os pequenos empreendedores:

— Isso gerou debates sobre criar ambiente mais justo do ponto de vista concorrencial.

Matheus Veloza, sócio do Zen App, um aplicativo de meditação, diz que negócios desse tipo têm a seu favor o fato de o usuário já ter assimilado o modelo de pagar para acessar um conteúdo fechado, algo impensável há alguns anos. Com mais de 7 milhões de downloads e 40 mil usuários ativos por mês, a empresa tem, além do Brasil, EUA e México entre os países com maior audiência, diz:

— A pandemia fez surgir mais apps, o que aumentou a concorrência. As lojas de aplicativos conseguem distribuir o app globalmente, o que ajuda nessa expansão. É preciso entender os usuários. A economia digital mudou tudo.

Segundo Veloza, a demanda é um pouco diferente entre os países. Se no Brasil o maior interesse é combater o burnout, nos EUA a busca é por serviços para amenizar a insônia:

— Para crescer ainda mais, estamos nos associando a apps com foco no mercado corporativo e, assim, embarcar nossos serviços de forma a atingir mais pessoas em países como a Romênia, por exemplo.

Para Oscar Nascimento, consultor de marketing, a maior velocidade do 5G, o surgimento de mais aparelhos conectados, como os relógios, e o desenvolvimento de óculos de realidade aumentada, expandem as oportunidades na economia dos aplicativos:

— Estamos apenas no início dessa nova corrida

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ChatGPT vive à sombra de um grande escândalo de dados; entenda

Origem incerta de informações que alimentam grandes sistemas de inteligência artificial causam preocupações em especialistas e autoridades

Por Bruno Romani – Estadão – 16/07/2023 

A inteligência artificial (IA) conquistou o mundo nos últimos meses graças aos avanços dos grandes modelos de linguagem (LLM), que abastecem serviços populares como o ChatGPT. À primeira vista, a tecnologia pode parecer mágica, mas, por trás dela, estão imensos volumes de informações que turbinam as respostas espertas e eloquentes. No entanto, esse modelo pode estar à sombra de um grande escândalo de dados.

Sistemas de IA generativa, como o ChatGPT, são grandes máquinas probabilísticas: eles analisam quantidades gigantes de texto e fazem conexões entre termos (algo conhecido como parâmetros) para gerar texto inédito quando solicitados – quanto maior a quantidade de parâmetros, mais sofisticada tende a ser a IA. A primeira versão do ChatGPT, lançada em novembro passado, tinha 175 bilhões de parâmetros.

O que começa a assombrar autoridades e especialistas é a natureza dos dados que estão sendo usados para treinar esses sistemas – é difícil saber a origem das informações e o que exatamente está alimentando as máquinas. O artigo científico do GPT-3, primeira versão do “cérebro” do ChatGPT, dá uma ideia do que foi usado. Foram usados os pacotes Common Crawl e WebText2 (pacotes de textos filtrados de internet e redes sociais), Books1 e Books2 (pacotes de livros disponíveis na web) e a versão em inglês da Wikipédia.

Ainda que os pacotes tenham sido revelados, não se sabe exatamente o que os compõe – ninguém sabe dizer se há um post de um blog pessoal qualquer ou de uma rede social alimentando o modelo, por exemplo. O jornal Washington Post analisou um pacote chamado C4, usado para treinar os LLMs T5, do Google, e o LLaMA, do Facebook. Encontrou 15 milhões de sites, que incluem veículos jornalísticos, fóruns de jogos, repositórios piratas de livros e dois bancos de dados que hospedavam informações estaduais de eleitores nos EUA.

Com a intensa competição no mercado de IA generativa, a transparência sobre o uso de dados piorou. A OpenAI não revelou quais bases de dados usou para treinar o GPT-4, o atual cérebro do ChatGPT. Ao falar sobre o Bard, chatbot que chegou recentemente ao Brasil, o Google também adotou um discurso vago de que treina seus modelos com “informações disponibilizadas publicamente na internet”.

Movimentação de autoridades

Isso vem gerando movimentação de reguladores em diferentes países. Em março, a Itália suspendeu o ChatGPT por preocupações de violação das leis de proteção de dados. Em maio, reguladores canadenses iniciaram uma investigação contra a OpenAI sobre a coleta e uso de dados. Nesta semana, a Federal Trade Comission (FTC) dos EUA passou a investigar se o serviço causou danos a consumidores e se a OpenAI realizou práticas “injustas ou enganosas” em termos de privacidade e segurança de dados. Segundo o órgão, essas práticas podem ter causado “dano reputacional” às pessoas.

A Rede Iberoamericana de proteção de Dados (RIPD), que reúne 16 autoridades de dados de 12 países, incluindo o Brasil, também decidiu investigar as práticas da OpenAI. Por aqui, o Estadão procurou a Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD), que afirmou em nota que está “realizando um estudo preliminar que, embora não dedicado exclusivamente ao ChatGPT, tem por objetivo fundamentar os conceitos relacionados aos modelos generativos de inteligência artificial, bem como identificar potenciais riscos à privacidade e proteção de dados”. Anteriormente, a ANPD havia publicado um documento no qual ela indica querer ser a autoridade fiscalizatória e regulatória sobre IA.

As coisas só mudam quando há um escândalo. Começa a ficar visível que não aprendemos com os erros do passado. O ChatGPT é muito opaco sobre as bases de dados utilizadas

Luã Cruz, especialista em telecomunicações no Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec)

Luca Belli, professor de Direito e coordenador do centro de tecnologia e sociedade da Fundação Getulio Vargas (FGV) do Rio, peticionou a ANPD sobre o uso de dados por grandes modelos de IA. “Como titular de dados pessoais, eu tenho direito de saber como a OpenAI gera respostas sobre mim. É evidente que o ChatGPT criou resultados a partir de um enorme banco de dados que incluem também minhas informações pessoais”, diz ele ao Estadão. “Existe consentimento para que usem meus dados pessoais? Não. Existe uma base legal para que usem os meus dados para treinar modelos de IA? Não.”

Belli afirma que não teve resposta da ANPD. Perguntado sobre o assunto pela reportagem, o órgão não respondeu – também não indicou se está trabalhando com o RIPD a respeito do tema.

A agitação lembra o período que antecedeu o escândalo Cambridge Analytica, no qual os dados de 87 milhões de pessoas no Facebook foram usados indevidamente. Especialistas em privacidade e proteção de dados apontavam para o uso problemático de dados em grandes plataformas, mas a ação de autoridades não deu conta do problema.

“As coisas só mudam quando há um escândalo. Começa a ficar visível que não aprendemos com os erros do passado. O ChatGPT é muito opaco sobre as bases de dados utilizadas”, afirma Luã Cruz, especialista em telecomunicações no Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec).

Não é só privacidade

Ao contrário, porém, do caso do Facebook, o uso indevido de dados por LLMs pode gerar não apenas um escândalo de privacidade, mas também de direitos autorais. Nos EUA, os escritores Mona Awad e Paul Tremblay entraram com um processo contra a OpenAI por acreditarem que seus livros foram usados para treinar o ChatGPT.

Além disso, artistas visuais também temem que suas obras alimentem geradores de imagens, como o DALL-E 2, Midjourney e Stable Diffusion. Nesta semana, a OpenAI fechou um acordo com a agência Associated Press para usar seus textos jornalísticos no treinamento de seus modelos. É um passo ainda tímido diante do que a companhia já construiu.

“Veremos no futuro uma enxurrada de ações coletivas disputando os limites de uso de dados. Privacidade e direito autoral são ideias muito próximas”, afirma Rafael Zanatta, diretor da Associação Data Privacy Brasil. Para ele, a pauta de direito autoral tem mais apelo e deverá pressionar mais as gigantes da tecnologia.

Zanatta argumenta que os grandes modelos de IA colocam em xeque a ideia de que dados públicos na internet são recursos disponíveis para uso independentemente do contexto em que são aplicados. “É preciso respeitar a integridade contextual. Por exemplo, quem postou uma foto no Fotolog anos atrás não imaginava e nem permitiu que a sua imagem fosse usada para treinar um banco de IA”, afirma.

Para tentar ganhar alguma segurança jurídica, o Google, por exemplo, alterou os seus termos de uso no dia 1.º de julho para indicar que dados “disponíveis na web” poderão ser usados para treinar sistemas de IA.

O documento diz: “Podemos, por exemplo, coletar informações disponíveis publicamente online ou de outras fontes públicas para ajudar a treinar os modelos de IA do Google e criar recursos como o Google Tradutor, o Bard e recursos de IA na nuvem. Ou, caso as informações sobre sua empresa apareçam em um site, podemos indexá-las e exibi-las nos Serviços do Google.” Procurada pelo Estadão, a gigante não comenta o assunto.

Até aqui, os gigantes da IA tratam seus bancos de dados quase como a “receita da Coca-Cola” – ou seja, um segredo industrial. No entanto, para quem acompanha o tema, isso não pode ser desculpa para ausência de salvaguardas e transparência.

“A Anvisa não precisa saber a fórmula específica da Coca-Cola. Ela precisa saber se, na construção e regulação do produto, foram seguidas regras básicas e se o produto causa algum dano ou não à população. Se causa dano, precisa ter um alerta. Há níveis de transparência que podem ser respeitados e que não entregam o ouro das tecnologias”, afirma Cruz.

Leia também: Coluna Evandro Milet no Portal ES360

https://es360.com.br/coluna-inovacao/post/trabalhar-junto-ainda-importa-para-inovar/

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Fundos de venture capital do Vale do Silício trocam investimento em cripto por inteligência artificial

Novos desenvolvimentos em inteligência artificial tornaram-na altamente atraente para os investidores, ao mesmo tempo em que uma enxurrada de escândalos, novas tentativas de regulação e preços em queda tornaram as criptomoedas tóxicas

Por Hannah Miller, Bloomberg 11/07/2023

Investidores de venture capital (VCs) do Vale do Silício estão correndo para entrar em empresas de inteligência artificial (IA) – incluindo gestores que antes apostavam alto em criptoativos.

No trimestre mais recente, os VCs assinaram menos cheques para empresas de criptomoedas e ativos digitais do que em qualquer momento desde 2020, de acordo com dados da empresa de pesquisa PitchBook. Ao mesmo tempo, o valor global total dos investimentos em inteligência artificial para o período de abril a junho foi maior do que no segmento cripto, mesmo em seu pico.

Os números refletem a tendência recente de muitos investidores em tecnologia – mesmo aqueles que já apoiaram cripto – de se afastar da indústria de ativos digitais atormentada por escândalos em direção aos mais recentes avanços em IA, disse Robert Le, analista de cripto da PitchBook.

Novos desenvolvimentos em inteligência artificial tornaram-na altamente atraente para os investidores, ao mesmo tempo em que uma enxurrada de escândalos, novas tentativas de regulação e preços em queda tornaram as criptomoedas tóxicas.

Joe Zhao, sócio-gerente da Millennia Capital, disse que está pronto para deixar os ativos digitais para trás. Zhao e Millennia já financiaram empresas de criptoativos como Blockstream e Lumida; agora eles estão mergulhando ainda mais na inteligência artificial. A Millennia já investiu em startups acompanhadas de perto, incluindo Stability AI.

“A IA está oferecendo muito mais casos de uso do que o blockchain”, disse Zhao.

Alguns investidores em cripto foram criticados por mostrar interesse em inteligência artificial. A Paradigm, gestora de cripto venture capital fundada pelo cofundador da Coinbase Fred Ehrsam e pelo ex-sócio da Sequoia Capital, Matt Huang, removeu as menções a criptoativos de seu site e demonstrou interesse em inteligência artificial, informou o canal de notícias cripto the Block em maio.

Huang tuitou este mês que a atualização do site foi “um erro” e direcionou os usuários para uma nova versão da página inicial da empresa que inclui banners em verde neon e preto com a palavra “crypto”.

Huang disse em um tuíte em junho que as indústrias de criptoativos e inteligência artificial “são interessantes e terão muita sobreposição” e que a Paradigm está “animada para continuar explorando” oportunidades no segmento.

Enquanto isso, a investidora da Sequoia Capital, Michelle Fradin, que ajudou a liderar a decisão da empresa de investir na agora falida exchange cripto FTX, tuitou recentemente mais sobre inteligência artificial do que cripto. Ela também foi coautora de um artigo para a empresa intitulado “The New Language Model Stack: How companies are making AI applications to life”. A Sequoia não respondeu a

Alguns investidores acreditam que existem maneiras de investir em inteligência artificial e ativos digitais. “Há muito interesse na interseção de IA e cripto”, disse Le. Ele observou que duas startups que abrangem esses setores – Tools For Humanity, desenvolvedora do Worldcoin e Gensyn – levantaram rodadas de financiamento significativas durante o segundo trimestre.

Inteligência artificial e criptoativos são “contrapesos naturais um para o outro”, disse Ali Yahya, sócio geral da Andreessen Horowitz, que financiou a Tools for Humanity e a Gensyn.

“O segmento cripto aprimorará a inteligência artificial, fornecendo parte da descentralização de que a IA talvez precise”, disse ele, observando que empresas como OpenAI, Google da Alphabet Inc. e Microsoft Corp. já acumularam controle significativo sobre esse setor.

Os cofundadores da Gensyn, Ben Fielding e Harry Grieve, disseram que estavam mais interessados em aprendizado de máquina do que em cripto antes de fundar a startup. E agora, apesar de ser financiada principalmente por investidores em criptomoedas, a Gensyn se vê mais como uma startup de infraestrutura de tecnologia.

“Não nos consideramos um projeto cripto, por assim dizer”, disse Grieve.

A Gensyn está construindo um protocolo blockchain que sustentará um mercado descentralizado para compra e venda de poder de computação que pode ser usado para modelos de aprendizado de máquina. Fielding disse que a plataforma pode tornar o mercado de computação mais competitivo, “já que os únicos fornecedores são organizações muito, muito grandes que acumularam enormes centros de dados e depois os alugam”.

O financiamento global de empreendimentos de inteligência artificial ficou praticamente estável no segundo trimestre em relação ao ano anterior, embora tenha havido um aumento substancial nos investimentos no mercado dos EUA. Por outro lado, no mesmo período, o investimento global em startups de ativos digitais caiu 76% em comparação com o mesmo período do ano passado, disse a PitchBook.

Apesar da queda, porém, negócios envolvendo cripto ainda estão acontecendo. Le observou que os mercados cripto na Europa, Dubai, Hong Kong e Cingapura estão mostrando mais força do que nos EUA, onde a regulamentação afetou fortemente o setor. Ele também disse que espera ver o investimento em empreendimentos cripto continuar nos EUA e no exterior, já que muitos fundos do segmento têm mandatos que exigem que apoiem o espaço de ativos digitais.

A Andreessen Horowitz, que levantou o maior fundo cripto de todos os tempos de US$ 4,5 bilhões, anunciou recentemente que estava abrindo um escritório em Londres por causa do ambiente cripto amigável do Reino Unido. Yahya disse que a empresa está ainda comprometida em investir em startups de criptoativos, inclusive por meio de rodadas de investimento em token.

“Não temos planos de desacelerar”, disse ele.

https://valor.globo.com/financas/criptomoedas/noticia/2023/07/11/fundos-de-venture-capital-do-vale-do-silicio-trocam-investimento-em-cripto-por-inteligencia-artificial.ghtml

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