Até que ponto a crise da China é assustadora?

Parece que estamos diante de crise interna chinesa, e não de um evento mundial ao estilo de 2008

Paul Krugman Prêmio Nobel de Economia Folha/NYT – 22.ago.2023

As dificuldades econômicas dos anos posteriores à pandemia levaram a intensos debates intelectuais e políticos. Uma coisa sobre a qual quase todo mundo concorda, porém, é que a crise pós-Covid tem muito pouca semelhança com a crise financeira mundial de 2008.

No entanto, a China —a maior ou segunda maior economia do planeta, a depender do critério de avaliação que você adote— certamente parece estar oscilando à beira de uma crise que se parece muito com o que o resto do mundo enfrentou em 2008.

Não tenho confiança suficiente em minha compreensão da China para julgar se ela conseguirá conter seu momento Minsky, o ponto em que todos subitamente percebem que uma dívida insustentável é, de fato, insustentável. Na verdade, não estou certo de que qualquer pessoa —incluindo as autoridades chinesas— saiba a resposta a essa pergunta.

Mas acho que é possível responder a uma pergunta mais condicional: Se a China tiver uma crise ao estilo de 2008, esta vazará de forma significativa para o resto do mundo, especialmente os Estados Unidos? E quanto a isso a resposta é claramente não. Por maior que seja a economia chinesa, os Estados Unidos têm pouquíssima exposição financeira ou comercial aos problemas da China.

Antes que eu trate desse assunto, vamos falar sobre os motivos para que a China em 2023 se assemelha às economias do Atlântico Norte, tanto os Estados Unidos quanto a Europa, em 2008.

A crise de 2008 foi provocada pelo estouro de uma enorme bolha imobiliária transatlântica. Os efeitos do estouro da bolha foram ampliados pelo desordenamento financeiro, especialmente pelo colapso dos “bancos paralelos” —instituições que agiam como bancos, criavam o risco do equivalente a uma corrida aos bancos, mas em geral não eram regulamentadas e não contavam com a rede de segurança oferecida aos bancos convencionais.

Agora é a vez da China, cujo setor imobiliário parece ainda mais inchado do que o das nações ocidentais no período que antecedeu 2008. A China também tem um setor bancário paralelo grande e altamente problemático. Além disso, tem alguns problemas específicos, principalmente as enormes dívidas dos governos locais.

A boa notícia é que a China não é como a Argentina ou a Grécia, nações que devem grandes somas a credores estrangeiros. A dívida em questão aqui é, em essência, dinheiro que a China deve a si mesma. E, em princípio, deveria ser possível para o governo nacional resolver a crise por meio de alguma combinação de resgate de devedores e redução no saldo a receber pelos credores.

Mas será que o governo da China é competente o suficiente para gerenciar o tipo de reestruturação financeira de que a economia do país precisa? Será que as autoridades têm determinação ou clareza intelectual suficientes para fazer o que precisa ser feito?

Preocupo-me especialmente com esse último ponto. A China precisa substituir o investimento imobiliário insustentável por uma maior demanda de consumo. Mas algumas reportagens sugerem que as principais autoridades continuam a desconfiar dos gastos “supérfluos” dos consumidores e tampouco aceitam a ideia de “capacitar as pessoas a tomar mais decisões sobre como gastam seu dinheiro”. E o fato de que as autoridades chinesas estejam respondendo à possível crise pressionando os bancos a emprestar mais não é tranquilizador, já que isso significa basicamente seguir o mesmo caminho que levou a China à situação atual.

Portanto, é possível que a China tenha uma crise. Se isso acontecer, como nos afetará?

A resposta, até onde posso dizer, é que a exposição dos EUA a uma possível crise na China é surpreendentemente baixa.

Quanto os Estados Unidos têm investido na China? O investimento direto —que envolve controle— na China e em Hong Kong é de cerca de US$ 215 bilhões. O investimento em portfólio —basicamente ações e títulos— é de um pouco mais de US$ 300 bilhões. Portanto, estamos falando de cerca de US$ 515 bilhões no total.

O número pode não parecer pequeno, mas, para uma economia tão grande como a nossa, na verdade é. Basta um dado para comparação. No momento, há muitas preocupações sobre os imóveis comerciais nos Estados Unidos, especialmente os edifícios de escritórios, que provavelmente enfrentarão uma redução permanente na demanda devido ao crescimento do trabalho remoto. Bem, os edifícios de escritórios dos Estados Unidos valem atualmente cerca de US$ 2,6 trilhões, ou cerca de cinco vezes o nosso investimento total na China.

Por que uma economia enorme atraiu tão pouco investimento americano? Basicamente, eu diria que é porque, dada a arbitrariedade da política chinesa, muitos investidores em potencial temem que o país seja uma espécie de armadilha para insetos: Você pode entrar, mas talvez não seja capaz de sair.

E quanto à China como mercado? A China é um grande protagonista do comércio mundial, mas não compra muito dos Estados Unidos —apenas cerca de US$ 150 bilhões em 2022, menos de 1% do nosso Produto Interno Bruto (PIB). O efeito seria maior para países que vendem mais para a China, como Alemanha e Japão, e haveria algum efeito de ricochete nos Estados Unidos em termos de nossas vendas para esses países. Mas o efeito geral ainda assim seria pequeno.

Uma crise econômica na China pode até ter um pequeno efeito positivo sobre os Estados Unidos, pois reduziria a demanda por matérias-primas, especialmente petróleo, e, como resultado, possivelmente reduziria a inflação.

Nada disso significa que devamos acolher a possibilidade de uma desaceleração na economia chinesa ou nos vangloriarmos dos problemas de outra nação. Mesmo que por motivos puramente egoístas, devemos nos preocupar com o que o regime chinês pode fazer para distrair seus cidadãos dos problemas internos que enfrenta.

Porém, em termos econômicos, parece que estamos diante de uma possível crise interna da China, e não de um evento mundial ao estilo de 2008.

Tradução de Paulo Migliacci

https://www1.folha.uol.com.br/colunas/paulkrugman/2023/08/ate-que-ponto-a-crise-da-china-e-assustadora.shtml

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Como o gaslighting pode afetar a vida profissional

Forma de manipulação psicológica traz danos não só ao funcionário afetado, mas também aos seus colegas e à própria empresa

Por Juliana Steil, para o Valor 11/08/2023

Ao entregar uma tarefa exatamente como foi pedida, o funcionário ouve do chefe que “parece que ele não o entendeu” ou que “não foi isso que ele disse”; tem seu desempenho colocado à prova constantemente, mesmo executando tudo o que lhe é pedido; ao reclamar de ter suas habilidades questionadas, ouve que “está exagerando” e que as coisas “não aconteceram assim”.

Pode parecer apenas uma falha comunicação entre funcionário e chefia, mas situações recorrentes do tipo, em alguns casos, podem indicar que está ocorrendo o chamado “gaslighting”.

No gaslighting, uma pessoa tenta fazer com que a outra duvide de sua própria realidade — em uma manipulação psicológica para chegar aos seus objetivos, sejam eles quais forem. Associado mais comumente a relacionamentos amorosos, o gaslighting pode acontecer dentro do ambiente corporativo e causar danos à saúde da vítima e de seus colegas de trabalho, segundo especialistas.

Porém, não precisa ter relação hierárquica — basta que seja uma relação considerada importante para a vítima, quando ela se torna vulnerável à manipulação por diversas razões. “Se não for, a vítima consegue reconhecer e passa a contestar, se posicionando e indo contra a manipulação”, explica Regiane Ribeiro de Aquino Serralheiro, professora de psicologia da Universidade Cruzeiro do Sul.

O perigo mora quando a vítima não encontra meios para ser ouvida e validada. Ao ter seu desempenho contestado consecutivamente — mesmo que tenha executado exatamente o que lhe foi solicitado — a “falha de comunicação” pode se tornar um infortúnio e um grande prejuízo à saúde mental do funcionário.

“A pessoa vai fazendo mais para atender às solicitações, vai se sentindo culpada, incapaz, questiona sua própria capacidade no trabalho. Isso afeta a autoestima, promove um sofrimento psicológico que pode avançar para casos mais graves quadro de Burnout, queda de produtividade e até depressão”, explica Regiane.

E não é só a vítima que sofre: colegas de trabalho também estão fadados a lidar com as consequências da violência. “Testemunhar violência, seja psicológica ou física, também afeta nossa saúde mental. Ele pode temer essas situações e isso o leva ao sofrimento. Muitas vezes, passamos muito mais tempo com os colegas do que com nossas famílias”, explica.

A empresa também sai perdendo, segundo aponta Laís Mascarenhas, psicóloga que atua na empresa de treinamento e liderança Crescimentum. Isso porque, quando o funcionário é repreendido por tarefas mais básicas, ele tende a optar por não se desafiar e abraçar tarefas mais complexas, impactando o desenvolvimento da equipe, em muitos casos. “Se a pessoa está em tese “penando” nas necessidades mais básicas, ela tem baixo engajamento. Se decresce o potencial de uma pessoa, decresce o de todos. As melhores equipes performam juntas”, argumenta.

O que fazer?

Dentre as soluções apontadas pelas especialistas, está em procurar ajuda profissional psicológica para lidar com os danos causados e, também, para se fortalecer de novos “ataques”.

Mas não é só isso. Dependendo da situação, o funcionário pode passar a registrar todas as ordens dadas por e-mails e atas de reunião, por exemplo. Desta forma, ele se resguarda de contestações futuras — se houver espaço para réplica.

No entanto, se a situação piorar ao ponto de se tornar assédio moral, a melhor saída é procurar o núcleo de compliance da empresa para fazer uma denúncia sobre a situação.

“A linha entre o gaslighting e o assédio moral é tênue. Por isso, sempre indico o diálogo. Essa precisa ser a primeira alternativa mas, se não der certo, é preciso procurar o compliance”, diz Laís.

Renata também reforça a importância das empresas contarem com um canal de denúncias de más condutas. “É muito importante que o setor de Recursos Humanos tenha canais ou setor de denúncias que garantam que essa pessoa possa se expressar e que isso seja investigado por uma sindicância interna”, argumenta.

De onde vem a palavra “gaslighting”?

O termo veio do clássico “Gaslight”, filme 1944. No longa de Hollywood, um homem manipula sua esposa para que ela acredite que perdeu a sanidade, com o objetivo de roubar a fortuna dela. Para isso, ele esconde objetos como quadros e joias e faz com que ela acredite que é a responsável pelo desaparecimento dos bens, mesmo que não se lembre.

O Dicionário de Oxford nomeou “gaslighting” como uma das palavras mais populares do ano em 2018. A popularidade continuou alta, já que no final do ano passado, o dicionário Merriam-Webster nomeou o termo como a palavra do ano por causa do forte aumento nas buscas — cerca de 1.740% em relação ao ano anterior.

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Brasil conta com amplo potencial na bioeconomia

Atividade agropecuária profissional dá grande vantagem competitiva ao País

Por Roberto Rodrigues – Estadão – 12/08/2023 

Nas últimas décadas, a questão ambiental se transformou em um desafio econômico para o planeta. O marco que evidenciou essa mudança foi o Acordo de Paris, no qual todos os países signatários se comprometeram a reorientar suas economias para reduzir as emissões de gases de efeito estufa. Uma das principais preocupações de governos e lideranças é como incorporar o meio ambiente como uma nova variável econômica e desenvolver a bioeconomia.

Com o propósito de auxiliar líderes nacionais na formulação de políticas e ações para impulsionar a agenda ambiental e valorar (mensurar) o “verde”, o Observatório de Bioeconomia da Fundação Getulio Vargas acaba de publicar o documento A Transição Verde: Bioeconomia e a Transformação do Verde em Valor.

O documento mostra que coexistem globalmente diversas definições da bioeconomia. Uma característica comum entre todas é a necessidade de harmonizar natureza e economia. Nessa busca, a literatura científica destaca três “perspectivas” predominantes da bioeconomia: bioecologia, biotecnologia e biorrecursos.

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Essas perspectivas orientam dezenas de países em direção a uma transformação da economia tradicional na economia verde, com a forte participação da bioeconomia. Na Europa, os esforços concentram-se em biorrecursos. Na China, a ênfase recai na biotecnologia. Os Estados Unidos oscilam entre os projetos europeu e chinês.

Com mais de 60% de seu território preservado, tecnologias tropicais sustentáveis e notável avanço produtivo agrícola, o Brasil conta com grande vantagem competitiva, principalmente em sua atividade agropecuária profissional, com amplo potencial na bioeconomia.

O avanço da bioeconomia brasileira exigirá esforços, como o desenvolvimento de métricas e parâmetros de mensuração da pegada ambiental ajustados à própria realidade, para não termos de aceitar parâmetros de fora. A valoração de ativos ambientais e a regulação dos novos mercados de serviços ambientais no Brasil são importantes desafios a serem superados.

É também fundamental avançar no campo da bioenergia e agregar valor ao extrativismo, de modo a monetizar a bioeconomia para a sociedade regional, caso típico da Amazônia.

A compreensão exata da realidade bioeconômica brasileira demanda a valoração de seus ativos ambientais. A estratégia para isso, segundo o estudo do Observatório, seria o desenvolvimento da Conta Nacional de Bioeconomia – CNBio, construída com a integração de contas econômicas e ambientais. A CNBio possibilitaria avaliar as reais dimensões ambientais, econômicas e sociais do ativo “verde” nacional e transformar a vantagem “tropical” em fonte de crescimento sustentável para o País. l

https://www.estadao.com.br/economia/roberto-rodrigues/bioeconomia-crescimento-agropecuaria/

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Starlink se espalha na Amazônia

Chegada da conectividade por satélites de baixa órbita à região é fenômeno complexo

Ronaldo Lemos – Folha – 20.ago.2023 Advogado, diretor do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro.

Há um fator de mudança se espalhando pela região amazônica. Trata-se da chegada da conexão à internet com banda larga trazida por satélites de órbita baixa. A principal empresa em expansão na região é a Starlink, projeto de Elon Musk. Curiosamente, a imprensa brasileira (e internacional) tem destacado só o lado problemático dessa conexão, que é o fato de ela estar sendo utilizada nos garimpos ilegais.

No entanto, visitando a região (para gravar a 7ª temporada do “Expresso Futuro”), dá para ver que o impacto é muito mais amplo. A nova tecnologia está sendo utilizada em regiões remotas por comunidades e povos indígenas, inclusive por escolas. Iniciativas de comunicação local usadas por diversos povos originários estão migrando do rádio para internet, como me relatou Juliana Albuquerque, do povo baré, que atua na rede de comunicação Wayuri.

O uso chegou até os barcos. Por exemplo, para ir de Manaus a São Gabriel da Cachoeira, a rota de barco “expressa” dura cerca de 24 horas. O trajeto pode ser feito hoje em embarcações que oferecem conexão de alta velocidade aos passageiros via wi-fi, usando para isso o serviço da Starlink.

A conexão se expande tão rápido que as lideranças locais já começam a debater seu impacto cultural, especialmente com relação às crianças. Há líderes preocupados se as crianças poderão perder o contato com modos de vida local por causa disso. Esse debate é importante. As decisões sobre o que cada povo originário vai fazer com a chegada da internet podem trazer lições para todos nós.

Conectar a região amazônica à rede não é um objetivo recente. Muitos projetos vinham ocorrendo nesse sentido. A conexão por satélite já existe há algum tempo, através do projeto Gesac, mas com velocidades muito baixas. O exército também possui o projeto Amazônia Conectada, com 1.900 quilômetros de fibra óptica subfluvial conectando Manaus a nove municípios.

Conectar a região amazônica é o santo graal do desenvolvimento da região. Pode trazer oportunidades, expandir a economia do conhecimento (inclusive local) e propelir projetos de educação.

No entanto, a conexão provida pela Starlink (e outras empresas que usam satélites de baixa órbita) pode trazer problemas. O primeiro deles é de dependência. A região amazônica é estratégica e essencial para o país. Não é desejável que uma de suas infraestruturas mais cruciais seja provida por um fornecedor dominante, cujos serviços terão impacto profundo nas atividades da região.

A outra questão estratégica envolve dados. O site da Starlink possui uma ampla e detalhada política de dados, em que a empresa descreve as informações que coleta, que podem incluir identidade, localização e até hábitos de navegação.

Até agora os dados estratégicos sobre a região amazônica eram detidos pelo Brasil. Pela primeira vez, organizações privadas que operam satélites poderão ter dados mais detalhados da região do que o próprio país.

Outra questão é o cumprimento de leis locais. O Brasil tem não só a Lei de Proteção de Dados mas também o Marco Civil da Internet, que veda que provedores de conexão possam “monitorar ou analisar o conteúdo” dos dados trafegados.

Em outras palavras, a chegada da conectividade por satélites de baixa órbita à Amazônia é um fenômeno complexo, cujas repercussões estamos só começando a entender.

Já era – Amazônia desconectada

Já é – Amazônia conectada pelo Gesac, fibra e outras iniciativas locais

Já vem – Amazônia conectada por satélites de baixa órbita operados por empresas privadas globais

https://www1.folha.uol.com.br/colunas/ronaldolemos/2023/08/starlink-se-espalha-na-amazonia.shtml

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Como ter foco em um mundo distraído e sobrecarregado?


Renata Rivetti Fast Company Brasil 18-08-2023 

Segundo relatório da Deloitte, 41% dos colaboradores estão se sentindo esgotados. Passamos 288% mais tempo em reuniões do que antes da pandemia. Porém, ao olharmos os dados de produtividade, há pouco crescimento nas últimas décadas.

Trabalhamos muito, mas nem sempre bem. Temos um excesso de informações e também de distrações. Estudos mostram que passamos somente 40 segundos na frente do computador sem nos distrairmos com outras atividades ou sermos interrompidos.

Vivemos a cultura hustle (agitada), que nos mantém conectados 24h, acreditando que somos multitarefas e produtivos. Entretanto, os estudos mostram o oposto disso. Quando tentamos dar conta de sermos multitarefas, fazemos tudo com 10 pontos a menos no QI.

Como tudo na vida, é preciso querer, se conhecer e estar disposto a se esforçar para mudar de hábitos e atitudes.

Além disso, há um estudo de Harvard que mostra que passamos 47% do tempo com a mente divagando, ou seja, estamos fazendo algo e pensando em outra situação, vivendo em um pingue-pongue mental entre passado e futuro e pouca atenção no presente.

Explicamos esses desafios pelo mito de que nossos cérebros são dispersos, porém, a verdade é que nós os sobrecarregamos e super estimulamos. Acordamos e dormimos com o celular, passamos tempo em reuniões respondendo outras mensagens, estamos em casa resolvendo algo do trabalho e no trabalho resolvendo algo de casa.

E, principalmente, passamos horas e horas nas redes sociais. Nos viciamos na dopamina que recebemos ao acessar as redes sociais. Vivemos numa sociedade distraída e sem foco.

Como, então, encontramos foco neste mundo distraído?

PRIMEIRO PASSO: A INTENÇÃO

Como tudo na vida, é preciso querer, se conhecer e estar disposto a se esforçar para mudar de hábitos e atitudes. É preciso rever suas distrações e sobrecargas e estar dispostos a olhar para elas e transformá-las.

Mas, antes de tudo, precisamos acabar com a crença de que não podemos parar e que devemos estar o tempo todo produzindo. Essa mentalidade tem nos levado ao esgotamento e não à alta performance e produtividade – muito menos, à felicidade.

SEGUNDO: ESCOLHER NO QUE FOCAR

Temos que aceitar que não dá para fazer tudo ao mesmo tempo e que será muito mais produtivo um hiperfoco em cada atividade. Porém, para isso, é preciso abrir mão de fazer tudo ao mesmo tempo. Não somos multitarefas.

Está participando de uma reunião? Desligue as notificações. Está com sua família? Dê atenção e deixe seu celular de lado. Está fazendo uma análise ou uma apresentação? Avise que não poderá ser interrompido.

O celular pode ser o maior ofensor da produtividade e também da felicidade e da saúde mental.

É preciso que haja comunicação para essas mudanças, pois hoje nossa cultura não aceita esperar um minuto por respostas. Se recebemos um email e não o respondemos na hora, provavelmente vamos receber a mesma mensagem em diferentes canais.

Esse excesso de comunicação traz mais distrações e nos tira do estado de flow, sendo que isso trará ainda mais improdutividade. Para voltar ao estado de engajamento (flow), demoramos 25 minutos depois que somos interrompidos ou distraídos. Veja o que é mais importante para o seu dia, o que te traz mais significado, é mais urgente ou tem maior impacto. 

TERCEIRO: ELIMINAR OU REDUZIR AS DISTRAÇÕES

Sobre algumas distrações não temos controle, como barulhos externos, por exemplo. Mesmo assim, podemos pensar de que forma reduzir seu impacto: posso colocar um fone antirruído?

No entanto, a maioria das distrações não ocorre por acaso, e sim por nossas escolhas. Nos viciamos na dopamina que recebemos pelo excesso de estímulos das redes sociais, dos likes, do engajamento, e passamos mais horas em frente às telas, sem foco, sem atenção e com pouquíssima presença.

É preciso conhecer o que te distrai e lidar com essas distrações de forma intencional. Acreditamos que não podemos ficar um minuto sem o celular, mas a grande verdade é que ele pode ser o maior ofensor da produtividade e também da felicidade e da saúde mental. Precisamos usar a tecnologia a nosso favor e não o oposto.

Quanto mais soubermos quem somos, o que amamos fazer, o que fazemos bem, mais fácil termos foco.

Passei uma semana em um retiro de meditação e de silêncio e confesso que, nos dois primeiros dias, senti muita ansiedade em não ter contato com o mundo externo. Mas, no final da semana, estava conectada comigo, cheia de ideias, planos, com clareza mental e consciência – talvez algo que nunca mais tenha experimentado tão vivamente.

Percebi, em uma semana sem celular, que a maioria das notificações e mensagens são inúteis, mas tomam grande tempo do nosso dia. Não precisamos ir para um retiro de silêncio e nem nos desconectar do celular. Podemos passar momentos do dia focados, sem notificações ou entrando de story em story sem nem pensar.

É PRECISO TRANSFORMAR O HIPERFOCO EM HÁBITO

Encontrar atenção plena no dia a dia nos traz felicidade e, assim, produtividade. Mas, para isso, é importante encontrar suas forças, o que te traz sentido, o que te gera flow.

Quanto mais soubermos quem somos, o que amamos fazer, o que fazemos bem, mais fácil termos foco. Mas, acima de tudo, é preciso intencionalidade e disciplina. Ninguém fará por nós.

Não é fácil viver atento e focado neste mundo distraído. Somos estimulados o tempo todo e nós mesmos superestimulamos nossos cérebros e nem percebemos. Como tudo na vida, é preciso autoconhecimento, autorresponsabilidade e disciplina. A mudança para uma vida mais consciente e atenta é possível, mas exige esforço. No final, vale a pena.

“A vida é uma manifestação de onde você investe sua energia.”

Dandapani


SOBRE A AUTORA

Renata Rivetti é fundadora da Reconnect Happiness At Work, empresa especializada em Felicidade Corporativa e Liderança Positiva

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China triplica investimentos em energia renovável na América Latina

Brasil, Chile, México, Colômbia e Argentina receberam projetos

Publicado em 28/07/2023 Por Lucas Pordeus León – Repórter da Agência Brasil – Brasília

Líder mundial em investimentos no exterior em energia renovável, a China tem expandido seus negócios na América Latina e no Caribe nos últimos anos, em especial, a partir de 2019. A região tornou-se destino de um terço dos investimentos do país asiático em energia eólica e solar. Com isso, em termos relativos, a região concentra “a maior porcentagem de projetos de geração a partir de fontes limpas” com origem chinesa. 

A conclusão é de estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) assinado por quatro pesquisadores e publicado nesta semana.  

“O acumulado de Investimentos Externos Diretos (IED) de empresas chinesas em energias alternativas triplicou desde o final de 2018, subindo de US$ 960 milhões para US$ 3,8 bilhões, registrados ao final de 2022. Desse total, é importante sublinhar que 55% ocorreu na modalidade de IED greenfield”. Os investimentos chamados greenfield são aqueles destinados a exploração de um novo projeto, diferente, portanto, dos investimentos feitos em ativos e operações já existentes.  

A capacidade instalada de usinas solares controladas por empresas chinesas na América Latina e Caribe quadruplicou no intervalo de três anos, entre 2019 e 2022, “subindo de 363 Megawatts (MW) para cerca de 1,4 Gigawatt (GW). Desse total, contudo, cerca de 1 GW correspondeu à aquisição de ativos existentes”. Apesar de terem crescido menos, as usinas eólicas da América Latina e Caribe controladas pelas firmas do país asiático duplicaram a capacidade de geração de energia no mesmo período, passando de 1,6 GW para 3,2 GWs.  

Os mercados que receberam investimentos chineses em projetos de energia eólica e solar são: Brasil, Chile, México, Colômbia e Argentina. 

Um dos autores do estudo, o pesquisador do Ipea Marco Aurélio Alves de Mendonça, explicou que a China tem expandido seus negócios em energia renovável desde o início dos anos 2000, tendo assumindo um papel de liderança global durante a década de 2010, sendo guiada pelo ideário de “civilização ecológica”, concepção que se tornou central na retórica do Partido Comunista Chinês.  

Segundo o estudo, em setembro de 2021, o presidente Xi Jinping anunciou que “a China apoiaria outros países no desenvolvimento de sistemas de energia verde e de baixo carbono, assumindo também o compromisso de não financiar novos projetos de carvão no exterior”.  

Para o pesquisador Marco Aurélio, o Brasil deve aproveitar, ao máximo, os investimentos chineses nesses setores de energia renovável. “Existe uma dinamização muito interessante do setor de (energias) renováveis que é bastante interessante para o Brasil. O principal ativo de ser reconhecido internacionalmente é nessa esfera ambiental e isso a gente tem vocação. A China pode contribuir com esse nosso papel (de protagonismo internacional)”, opinou.  

Líder Mundial 

A China é a liderança mundial em investimentos em manufatura, tecnologia e geração de energia a partir de fontes renováveis. “Entre 2016 e 2020, o país asiático investiu US$ 800 bilhões em energias renováveis, ficando à frente dos Estados Unidos, segundo colocado, que investiram US$ 540 bilhões”, afirma a pesquisa do Ipea.  

A China também é liderança mundial em capacidade de geração elétrica renovável, com 1.020 GWs de potência instalada, contra 511s GW do conjunto da União Europeia e 292 GWs dos Estados Unidos. Os chineses ainda abrigavam, em 2022, os dez principais fornecedores globais de equipamentos de energia solar. Além disso, os seis dos dez maiores fabricantes globais de turbinas eólicas, por capacidade encomendada, ficavam no país asiático em 2019.  

“A China, portanto, ao reduzir o uso de fontes fósseis e ao expandir a geração a partir de energias renováveis, ampliou sua capacidade de ofertar essas tecnologias para outros países”, conclui o estudo.  

Edição: Maria Claudia

https://agenciabrasil.ebc.com.br/internacional/noticia/2023-07/china-triplica-investimentos-em-energia-renovavel-na-america-latina

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Massificação das cirurgias à distância?

Por José Otero – Canaltech – 16 de Agosto de 2023 

Uma das cenas mais memoráveis ​​do primeiro filme de Star Wars é a raiva de Chewbacca após perder uma partida de dejarik contra R2 D2. Como esquecer o movimento das peças tridimensionais que pareciam batalhar em um tabuleiro de xadrez. Para muitos, aquela cena de 1977 trouxe pela primeira vez os hologramas, embora hoje certamente estaríamos usando o conceito de realidade aumentada para descrever este jogo.

O curioso é que, enquanto para milhões de pessoas a raiva do Wookiee parecia mostrar uma interpretação de como seria o futuro, eles realmente vislumbravam uma tecnologia que na época estava perto de 30 anos de existência. Os hologramas foram criados em 1948 pelo físico húngaro Dennis Gabor, que recebeu o Prêmio Nobel de Física em 1971 por esta invenção.

Por que uma tecnologia tão útil não teve mais adoção em seus 75 anos de vida? A resposta é muito simples, os altos custos envolvidos em usá-lo para indivíduos ou pequenas empresas. Mesmo com a queda de custos nas últimas sete décadas, produções holográficas simples ultrapassam US$ 100 enquanto as de uso profissional, por exemplo, mostrando um ser humano em detalhes ultrapassam facilmente US$ 50 mil e, dependendo de sua complexidade, podem ultrapassar facilmente a casa dos milhões de dólares.

Vimos outro caso em que a tecnologia existe há algumas décadas no mundo da medicina, precisamente desde 7 de setembro de 2001. No que mais tarde seria conhecido como Operação Lindbergh, um grupo de cirurgiões franceses localizados em Nova York operou um paciente localizado na cidade francesa de Strasbourg usando o robô cirúrgico ZEUS. O custo desse robô em 2003 foi de US$ 975 mil, enquanto um sistema cirúrgico concorrente chamado Da Vinci custava cerca de US$ 1 milhão na época.

A operação sem fio demorou menos de uma década para chegar, sendo um experimento da agência espacial norte-americana Nasa, que em maio de 2007 mediu a capacidade de seus equipamentos para realizar cirurgias remotas em gravidade zero. O objetivo era usar a tecnologia em uma emergência em missões espaciais. A conexão de 30 Mbps neste teste foi obtida usando uma ponte sem fio Spectra operando na banda de 5,4 GHz e atingindo uma latência média de 70 ms.

Obviamente, a tecnologia continua avançando dentro e fora dos Estados Unidos. Em março de 2015, foi realizada uma cirurgia na China onde os protagonistas ficaram separados por 328 km já que alguns estavam na cidade de Jinhua e os outros em Zhejiang, ambos na província de Xangai. Nesta ocasião a tecnologia utilizada foi a 4G. Ou seja, as cirurgias remotas em redes móveis antecedem o lançamento comercial das redes 5G.

A chegada da 5G foi acompanhada por um maior número de anúncios sobre procedimentos cirúrgicos remotos utilizando as vantagens oferecidas por esta geração wireless. Felizmente, os anúncios vêm de lugares diferentes, o que indica um crescimento na execução desse tipo de processo, algo que sem dúvida trará melhorias. Entre os países que utilizam redes 5G para pelo menos um processo cirúrgico estão Alemanha, China, Estados Unidos, Itália e Espanha, entre outros.

A menor latência da 5G aliada às suas maiores velocidades de transmissão de dados o tornam uma boa alternativa sem fio para processos que antes eram suportados por fibra ótica. As características da 5G são tão propícias que em 2021 foi realizada uma cirurgia cerebral na China, onde os protagonistas estavam a 3.000 km de distância um do outro. Um marco importante no avanço da medicina a distância, tanto pela complexidade do processo cirúrgico quanto pela distância entre o cirurgião e o paciente.

Porém, assim como os hologramas demoraram décadas para baixar de preço, o principal fator que impede uma maior aceitação das cirurgias à distância é o preço do robô que deve ser usado para realizá-las, que varia de US$ 500 mil até cerca de 2,5 milhões de dólares. Obviamente, o número de hospitais na América Latina que poderiam acessar esses tipos de serviços seria muito limitado. E, provavelmente, os hospitais que pudessem adquirir os robôs necessários seriam em sua maioria privados, o que põe de lado o sonho de que graças à 5G, procedimentos cirúrgicos avançados pudessem se generalizar, democratizando o acesso a eles.

Vamos imaginar que os governos latino-americanos se esforcem e decidam adotar esse tipo de tecnologia em seus hospitais rurais. Graças às economias de escala, o preço dos robôs é reduzido para US$ 250 mil por hospital. Se considerássemos que em um país eles só estivessem disponíveis em aproximadamente mil hospitais rurais, isso implicaria um custo de US$ 250 milhões só para comprar os robôs. E então é preciso adicionar o transporte dos equipamentos, impostos, instalação, manutenção e capacidade dos médicos.

Além disso, deve-se considerar que, cada um destes hospitais rurais precisa de implantação da 5G e contratação de um linha de redundância, fibra ou satelital para assegurar a conectividade no caso de uma queda da rede 5G. Um elemento necessário é a infraestrutura civil, sobretudo a energética que garante o uso adequado dos equipamentos. É simples, o sistema não funciona sem eletricidade. Outro fator a ser considerado é a segurança contra furtos, já que estamos lidando com equipamentos de alto custo.

Considerando estes elementos, e sendo convervador, estimamos 10% do custo que teria cada cirurgia remota na região (US$ 5 mil adicionais ao custo de uma cirurgia normal). Se considerarmos uma cirurgia por semana, temos 52 anuais para um total de 52.000 a nível nacional, um total de US$ 26 milhões anuais a serem assumidos pelo Estado, pois os pacientes de áreas rurais não poderiam pagar por estes serviços. Os avanços das cirurgias remotas por meio de fibra e redes sem fio da 5G são uma boa notícia para todos. Assim como esta tecnologia vai avançando e obtendo melhores economias de escala, a mesma torna realidade em hospitais latinoamericanos.

Enquanto isso, o Estado não deve esquecer sua responsabilidade de melhorar os serviços já oferecidos, muitos deles não têm pessoal adequado para atender às necessidades locais, faltam medicamentos e outros insumos básicos para tratar doenças ou ferimentos leves. Isso sem falar nas centenas de cidades rurais que não possuem um hospital a uma distância acessível para as pessoas em caso de emergência médica. Vivemos em uma região onde muitas vezes o ibuprofeno ou o paracetamol servem como placebo ou panacéia para qualquer doença, já que não há outra alternativa. Sobretudo naqueles centros de saúde onde nem sequer há médicos, mas sim profissionais universitários que não concluíram os seus estudos.

Algo importante nas menções que são feitas sobre a possibilidade da 5G permitir cirurgias remotas é que ela força a geração de um diálogo sobre esse tema e dá a oportunidade de expandir a conversa. Por exemplo, se pensarmos na 5G para a medicina, temos que nos perguntar: qual é a situação atual dos hospitais rurais, qual é o tipo de formação dada nas universidades e qual o papel que a tecnologia tem desempenhado na melhoria dos serviços ao público? Esta última questão é muito importante porque para estabelecer programas rudimentares de telemedicina não é necessário ter 5G.

A lição é clara, devemos ter muito cuidado ao avaliar as oportunidades que a tecnologia nos oferece e passá-las pelo filtro chamado “o que pode ser pago”, antes de tomar uma decisão final. Com esse filtro percebemos que a possibilidade de oferecer cirurgias remotas em hospitais rurais justifica o investimento para trazer 5G para todo o país só pode ser chamado de otimismo irracional. Sobretudo quando apenas um número limitado de hospitais da região, quase todos privados e em áreas urbanas, tem orçamento para adquirir os equipamentos necessários para realizar cirurgias à distância. Assim, pelo menos por algumas décadas, a chegada de uma nova geração móvel não implicará na chegada de cirurgias remotas em todos os hospitais da América Latina.

Sonhar é permitido e necessário para progredir, mas é perigoso quando nos esconde o presente com o qual temos de lidar diariamente. De resto, o professor Juan Luis Guerra já nos alertou para a situação com o seu “Calma, Bobby, calma”.

José F. Otero é professor adjunto da Universidade de Nova York.

https://canaltech.com.br/colunas/massificacao-das-cirurgias-a-distancia/

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The Economist: como a América Latina poderia se tornar a superpotência das commodities

Região não deve desperdiçar a oportunidade do próximo boom de commodities; América Latina tem mais de um quinto das reservas globais de cinco metais cruciais para a transição energética

Por Estadão/The Economist 15/08/2023 

Durante cinco séculos a América Latina e seus dois bilhões de hectares de terra foram uma fonte vital de alimentos, combustível e metais para o mundo. Primeiro, foi saqueada por colonizadores em busca de ouro, prata, algodão e açúcar, depois forneceu borracha e petróleo para a Europa e os Estados Unidos. Agora, a América Latina se depara com uma chance de se tornar a superpotência de commodities do século 21. Desta vez, a região deve aproveitar a oportunidade para promover seu desenvolvimento.

A transição para a energia limpa provocará décadas de demanda pelos metais necessários para multiplicar os parques solares e eólicos, fios de alta tensão e carros elétricos. A América Latina tem mais de um quinto das reservas globais de cinco metais cruciais.

A região já se sobressai na mineração de cobre, onipresente nas tecnologias verdes, e é lar de aproximadamente 60% das reservas de lítio conhecidas no mundo, usado em todos os principais tipos de baterias para veículos elétricos. Além de ser rica em prata, estanho e níquel. E a região se beneficiará até mesmo se a transição verde passar por dificuldades, graças a descobertas recentes de petróleo que poderiam saciar de 5% a 10% da demanda global até 2030.

Conforme o mundo se preocupa mais com o meio ambiente, ele também se torna mais populoso. Até 2050, o planeta talvez tenha aproximadamente dez bilhões de bocas para alimentar, ante os oito bilhões de hoje. Isso estimulará a demanda por carboidratos, proteínas e iguarias que a América Latina produz abundantemente.

A região já fornece mais de 30% do milho, da carne bovina e de aves, e do açúcar do mundo; e 60% da soja mundial. Oito em cada dez xícaras de café arábica no mundo foram preparadas com café latino-americano. Até 2032, suas exportações líquidas de alimentos podem ultrapassar US$ 100 bilhões, de longe o maior registro no mundo.

O chamariz da região como parceiro comercial será reforçado pelas rivalidades das superpotências. À medida que o Ocidente se esforça para diversificar e se afastar da China, vai querer mais acordos com a América Latina, uma região em grande parte neutra e pacífica.

Conforme os rivais endinheirados observam suas riquezas, uma nova disputa geopolítica está em curso: no mês passado, a Vale, mineradora brasileira, vendeu 13% de sua unidade de metais básicos para uma joint-venture saudita por cerca de US$ 3 bilhões; a China destinou US$ 1,4 bilhão para aumentar a produção de lítio na Bolívia; e a Europa prometeu investir € 45 bilhões nos projetos latino-americanos para reduzir as emissões de gases de efeito estufa.

O problema é que a relação da América Latina com as commodities raramente foi feliz. Os conflitos do passado sobre os lucros catalisaram golpes de Estado, desigualdade e populismo. Hugo Chávez, déspota venezuelano, desperdiçou o boom do petróleo de seu país, gastando a rodo enquanto pouco investia na indústria e a enchia de comparsas.

Os lucros inesperados com petróleo na Colômbia e no Equador levaram a uma desindustrialização prematura. À medida que as receitas com exportação dispararam, o mesmo aconteceu com as moedas nacionais, sufocando outras indústrias de exportação e sujeitando o destino da região a um mercado volátil. A América Latina enfrentou inúmeros altos e baixos. As economias locais estão desequilibradas: em média, 80% das exportações dos países são de matérias-primas.

Para se saírem melhor desta vez, os países latino-americanos devem ajustar algumas coisas. Em primeiro lugar, precisam garantir que o boom ocorra de fato. Neste momento, a política está impedindo isso. Conforme esquerdistas e populistas conquistaram o poder, muitos países na região aprovaram ou ameaçaram aprovar leis que aumentariam os impostos, nacionalizariam reservas ou impediriam o investimento estrangeiro.

É justo e apropriado que os governos queiram maximizar suas rendas, principalmente considerando a frequência com que foram roubados no passado. Mas se eles tentarem ficar com muito, ou continuarem mudando de ideia, suas reservas em breve não serão exploradas.

Compartilhar a recompensa com as comunidades que vivem próximo às minas também é crucial. Os moradores locais queixam-se de que a extração ameaça seu sustento. Neste ano, os protestos interromperam os trabalhos durante meses numa mina de cobre peruana responsável por 2% do abastecimento mundial.

Essas comunidades são frequentemente ignoradas pelos governos nacionais; as mineradoras muitas vezes estão envolvidas em escândalos ou destroem o meio-ambiente local. A não ser que ambos façam mais para aplacar as queixas, o progresso continuará precário. O dinheiro, disputado com frequência por autoridades locais, não pode resolver tudo.

E os governos devem gastar seu dinheiro com sabedoria. Enquanto os preços estão altos, deveriam guardar parte dos lucros inesperados em fundos de emergência, aos quais possam recorrer para apoiar seus orçamentos quando vierem os tempos difíceis. Em vez de torrar dinheiro tentando construir fábricas de baterias de ponta do zero, os governos deveriam investir no básico para permitir o surgimento de novas indústrias: educação, saúde, infraestrutura e pesquisa.

O Banco Mundial estima que a lacuna de financiamento de infraestrutura do Brasil até 2030 seja de quase US$ 800 bilhões; 3,7% do PIB a cada ano. A América Latina tem uma chance histórica de deixar para trás sua maldição dos recursos naturais. E deveria aproveitá-la.

https://www.estadao.com.br/economia/como-a-america-latina-poderia-se-tornar-a-superpotencia-das-commodities/

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Falsificação epidêmica: como contê-la

Uma abordagem multifuncional é a base para combater a falsificação e a venda de produtos irregulares de forma efetiva

Robert Handfield, Anand Nair e Thomas Y. Choi – MIT Sloan Review 08 de Agosto 2023

Muitas empresas sofrem prejuízos significativos pela ação de falsificadores e de revendedores inescrupulosos, estejam ou não seus executivos atentos ao fato. Qualquer um que passe os olhos por bolsas em exposição sabe o quanto existe de produtos falsos com aspecto idêntico ao original, mas sem a mesma qualidade. Em alguns casos, esses produtos podem causar danos reais aos que os consomem, como no caso de uma farmacêutica que encontrou versões piratas de seus medicamentos à venda sem o princípio ativo. Da mesma forma, um produto autêntico pode ser desviado para canais não autorizados, como descobriu um produtor global de eletrônicos, ao ver que um de seus distribuidores solicitava peças sobressalentes para serem vendidas no mercado negro.

Itens de alta demanda de qualquer indústria são alvos lucrativos para a atividade criminosa. No entanto, a contrafação é um problema que muitas empresas não querem reconhecer ou levar a questão ao seu board ou acionistas. Alguns executivos tentam minimizar o fato dizendo que os falsificadores sempre vão achar um jeito de copiar ou que a pirataria representa uma parcela muito pequena das vendas e que não vale a pena ir atrás. Isto é exatamente o que querem os falsificadores: serem ignorados.

Pode ser que as empresas resolvam atacar o problema quando conseguirem saber o tamanho do prejuízo que sofrem, e comecem a tentar freá-lo, mas isto não é suficiente. Nossa pesquisa sugere que o combate à contrafação exige a ação de um amplo leque de funções organizacionais. Isso funciona melhor a partir de uma estratégia em diversos níveis, reunindo métodos variados e engajando toda a estrutura e seus parceiros.

Nossa recomendação é que as empresas se utilizem de um plano capaz de identificar, conter e prevenir a contrafação. Esse processo pede que se fique de olho em produtores terceirizados e se acompanhe a movimentação dos itens dentro da cadeia de fornecimento. Inclui a definição do que estará à venda, implantar marcadores ocultos, revisar acionamento de garantias, orientar os consumidores e trabalhar junto com entidades reguladoras e concorrentes.

Táticas convencionais não estão funcionando

As empresas que atentam para a falsificação em geral confiam na segurança da marca para rastrear atividades criminosas. Elas identificam produtos falsos usando táticas como aplicar marcações secretas ou ostensivas em produtos autênticos, anexar etiquetas rastreadoras e usar números de série acompanhados por blockchain para criar registros de transações resistentes a adulterações. Por exemplo, códigos de barras compatíveis com o GS1 Global Traceability Standard são usados para rastrear vacinas da covid-19. Para muitas organizações, no entanto, essas táticas não são suficientes. A falsificação e o desvio ilegal de produtos continuam em toda parte: nossa pesquisa de 2018, com 21 executivos que trabalhavam na cadeia de fornecimento, mostrou que quase metade deles tinham passado ou estavam passando por problemas na área. Mais de 70% disseram ter tido um incidente nos cinco anos anteriores e um deles nos disse que sua empresa descobriu que o equivalente à produção mensal de uma de suas fábrica fora desviado para o mercado negro, em grande parte por um de seus próprios fornecedores.

Segundo a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), a falsificação em 2019 correspondia a US$ 464 bilhões, ou 2,5% do comércio mundial. Pensava-se que ela atingisse apenas itens de luxo ou de alto valor, como medicamentos ou artigos de grife, como bolsas e perfumes. Mas agora o mercado está inundado de calçados, pesticidas, cosméticos, brinquedos, peças automotivas e equipamentos médicos. Os falsificadores têm como alvo qualquer indústria ou linha de produtos em que se possa obter um lucro fácil. 

Embora as empresas nunca eliminem completamente aqueles capazes de copiar itens ou desviar mercadorias de canais autorizados, é possível reduzir significativamente sua penetração no mercado e recuperar a receita perdida. Ações bem-sucedidas podem envolver cortar o acesso dos falsificadores aos mercados, eliminar o fornecimento de produtos não autorizados ou tornar um produto mais difícil de copiar. Aqui, vamos detalhar as três atividades que compõem um plano de ação robusto: identificação, contenção e prevenção.

Identificação: obtenha informações sobre a extensão e a natureza do problema

Construir uma linha de base sobre a dimensão do problema da contrafação é o primeiro passo crítico. À medida que o tamanho da questão se torna claro, pode-se estimar o retorno potencial sobre o investimento a ser feito para atacá-la. Serve também para estabelecer métricas de resultado para o combate à falsificação que podem ser alinhadas com os objetivos do negócio. Exemplos dessas métricas podem ser o valor em dólares ou porcentagem da receita perdida anualmente para o comércio ilegal de produtos, as receitas totais recuperadas (dólares que anteriormente foram perdidos sem saber para vendas falsificadas) e o número de incidentes confirmados de comércio ilícito, falsificação, desvio e adulteração.

Crie uma equipe multifuncional para a segurança da marca: a obtenção de números que reflitam o tamanho do prejuízo geralmente requer uma investigação intensiva que envolve a aplicação de análises de canais de mercado que exploram múltiplas fontes de dados de vendas e outras informações de dentro e fora da organização. Para ser eficaz, esta equipe deve incluir participantes de vendas, marketing, operações, compras, logística, finanças e contabilidade, bem como funções essenciais de segurança de marca. Essas equipes geralmente são lideradas por um diretor global de proteção de marca que, em muitos casos, tem experiência com legislação de propriedade industrial geralmente se reporta ao diretor de operações.

Use dados internos e de mercado para identificar atividades suspeitas: as empresas podem encontrar dificuldades para localizar, que dirá mensurar, a atividade de falsificação, já que possíveis indicadores estão misturados a dados sobre vendas, garantias, devoluções e outros. A menos que se esteja claramente procurando, uma atividade incomum pode facilmente passar despercebida. Um bom primeiro passo é começar pelo que está sendo vendido online. O comércio eletrônico surgiu como um canal perfeito para servir à indústria da falsificação. Os consumidores podem, sem querer, comprar produtos de varejistas online que não verificam a origem do que vendem e se são produtos legítimos. 

Apesar de sites falsificados serem fechados regularmente pela Amazon (e, na China, pelo Alibaba), os operadores que negociam produtos falsificados regularmente abrem um novo no dia seguinte, sob outro nome. A Amazon informou que bloqueou 10 bilhões de anúncios e destruiu 2 milhões de produtos irregulares só em 2020. Como os sites de comércio eletrônico são frequentemente o maior canal de vendas dos falsificadores, as empresas podem começar investigando onde seus produtos – genuínos ou falsos – estão sendo vendidos online. Usar características comuns de sites falsificadores contribui para restringir as buscas. Por exemplo, uma empresa pode encontrar quatro vendedores diferentes na Amazon oferecendo uma cópia exata de sua bolsa, listando os mesmos detalhes e até fotos. Um indicador de potenciais falsificadores pode incluir erros ortográficos ou gramaticais, fotos desfocadas ou outros detalhes de má qualidade.

Outra fonte de dados importante são os acionamentos de devolução em garantia. Quando um consumidor devolve um produto por estar com defeito (comum em falsificações), uma investigação pode rastrear onde ele foi comprado e como, o que pode levar à sua origem e a um ponto de partida para encontrar a sua fonte. Uma empresa global de produtos médicos que analisamos contratou um responsável global pela proteção da marca que examinou dados de garantia e devoluções, solicitações de serviço de campo e dados de vendas. Em seus primeiros 100 dias, ele encontrou 1.000 incidentes confirmados de comércio ilícito, falsificação, desvio e adulteração. Isso somou US$ 1,4 bilhão – 2% da receita – perdidos anualmente com esse comércio ilegal. 

Estimar as vendas de itens de contrafação é uma tarefa difícil, mas essencial: as empresas devem estabelecer uma linha de base para poderem medir os efeitos das medidas para combate ao produto falso. A compreensão precisa da dimensão do problema é um requisito para decidir quanto investir e qual retorno esperar das medidas antifalsificação. É comum que os tomadores de decisão de negócios não tenham ideia de até que ponto suas vendas e reputação estão em risco.

Mapeie a cadeia de fornecimento e distribuição: muitas organizações se surpreendem quando descobrem que os bandidos fazem parte de suas próprias cadeias de fornecimento. Excesso de produção, vendas no mercado negro e distribuição não autorizada facilitam que um produto, ou suas cópias, sejam vendidos por canais não conhecidos pela empresa. Assim, um bom passo inicial é conhecer os canais de fabricação e distribuição pelos quais circulam os produtos.

O dono da marca em uma grande empresa global de vestuário nos disse que ouviu através de sua rede de distribuidores que a marca estava sendo vendida no México, embora a empresa não tivesse presença autorizada no varejo de lá. Para rastrear de onde vinham esses produtos, a empresa foi atrás de conhecimentos de embarque e registros de frete marítimo que estavam indo para o país. A trilha de documentos apontou que as mercadorias haviam sido enviadas de um porto em Israel pelo mesmo fabricante autorizado que estava produzindo o produto de marca da empresa nos Estados Unidos. A organização rastreou as roupas, que eram produtos autênticos, feitos sob as mesmas especificações e com os mesmos materiais, mas que estavam sendo distribuídos ilicitamente, fora do acordo contratual entre as partes. Depois desse evento a empresa de vestuário criou uma função global de segurança da marca e mapeou toda a sua rede de fornecimento, e descobriu que outros casos de desvio de produtos estavam ocorrendo em todo o mundo.

Analisar o consumo de matéria-prima na cadeia de fornecimento é um bom lugar para começar a mapear essa base. A área de compras pode, por meio da contabilidade, rastrear todas as aquisições feitas por terceiros em nome da empresa (um documento geralmente conhecido como análise de gastos). Se um fornecedor estiver comprando mais matéria-prima e produzindo mais do o encomendado pela empresa, temos um sinal de que o produto adicional pode estar sendo destinado ao mercado negro. Para tanto é preciso uma visão completa da cadeia, além de apenas fornecedores de nível um (o que é uma necessidade cada vez maior, por diversos motivos, particularmente para gerenciar riscos relacionados a violações trabalhistas ou ambientais). Alguns fornecedores podem ser relutantes em informar quem, por sua vez, lhes fornece, por razões competitivas, mas podem receber a certeza de que é por segurança e não para cortá-los da cadeia.

Contenção: controle a expansão do problema

Com uma equipe dedicada, um dimensionamento inicial do problema e uma clareza dos impactos da falsificação e desvio aos quais a empresa é mais vulnerável, pode-se começar a gerenciar o problema sistematicamente para contê-lo.

Analise os segmentos de produtos: uma das primeiras tarefas da equipe de investigação é segmentar os produtos por canal, margem, volume e risco da falsificação. Isso permite que a equipe seja direcionada primeiro para os canais de mercado mais vulneráveis. Em muitos casos, uma análise dos processos de fornecimento e distribuição de uma empresa ajuda a revelar um conjunto de segmentos de produtos mais visados pelos falsificadores. 

Em particular, nossa pesquisa identificou as linhas de produtos com alta complexidade pela variedade de produtos finais, grau de personalização do produto acabado, abrangência geográfica dos fornecedores, número de níveis na cadeia de fornecimento, previsibilidade da demanda e variação nos volumes de fabricação. Exemplos incluem peças de reposição de aeronaves e automóveis, brinquedos, vestuário de alta qualidade, produtos farmacêuticos de marca e eletrônicos de consumo. Os falsificadores são mais propensos a tirar vantagem dos segmentos de produtos caracterizados por um maior nível de complexidade e explorar essa complexidade a seu favor.

Entrevistamos executivos de uma empresa de biotecnologia que sabiam que produtos falsificados estavam aparecendo no mercado, mas desconheciam a origem. A equipe de proteção da marca começou segmentando os produtos que eram grandes alvos de falsificadores pela alta margem, analisando os dados para estimar o número de incidentes por item. A equipe, formada por uma estreita colaboração entre licenciados, proprietários de marcas e gerentes regionais de vendas, lançou então um plano para parceiros de franquia e unidades de negócios do país. Isso estabeleceu prioridades de proteção da marca por linha de produto e criou um sistema para rastrear incidentes relatados pelo cliente por marca e fazer revisões de dados semestralmente. Ao mesmo tempo, os analistas começaram a coletar informações de mercado sobre vulnerabilidades da cadeia de fornecimento, incluindo possíveis quebras na logística e a ameaça de intervenção regulatória, que representavam riscos significativos para planos de negócios e metas de crescimento por região. 

A soma dessas ações ajudou o fabricante a priorizar os negócios e regiões onde a proteção da marca teria um melhor efeito sobre a receita. No processo, a equipe identificou uma atividade significativa de falsificação e desvio que afetava um medicamento de infusão de sucesso que estava colocando muitos pacientes em risco. A empresa disse ter conseguido reduzir o número de incidentes anuais de 100 para zero. Claro que isso exigiu esforços persistentes para encontrar a origem e implantar medidas de controle, incluindo o envio de uma mensagem de alerta aos falsificadores, na expectativa de convencê-los a procurar um alvo mais fácil.

A análise que acabamos de descrever começa com a identificação de uma pista inicial e segue o fio da atividade. O problema pode começar parecendo pequeno, como algo com a garantia de um cliente, um revendedor que parece estar encomendando muitas peças de reposição ou uma série de devoluções de clientes de um determinado item. Qualquer um desses problemas, no entanto, pode ser um indício que leva a uma atividade de falsificação.

Comece pelos sites de comércio eletrônico e entre em contato com a alfândega e outras autoridades: uma equipe de análise deve caçar aberta e continuamente indícios de falsificação em sites de comércio eletrônico e reportá-los ao operador da plataforma, como a Amazon, e às autoridades policiais. No mínimo, isso gera complicações aos contraventores e irá retardá-los. Os produtos falsificados quase sempre têm de atravessar fronteiras e passar por inspeções de entidades de vigilância. Esses são atores críticos na cadeia de produção e distribuição e as organizações devem pensá-los como parceiros na batalha contra a perda de receita e o roubo de propriedade intelectual. Essas relações são particularmente importantes em setores altamente regulamentados, como produtos farmacêuticos, alimentos, aeroespacial e fabricação automotiva, nos quais falsificações podem colocar em risco seus usuários.

Um funcionário da alfândega e proteção de fronteiras dos Estados Unidos nos disse que às vezes é difícil para as empresas entenderem o trabalho de sua agência, indicando que seria importante que essas empresas assumissem seu papel de contribuição ao combate à contrafação. “Estamos em campo, inspecionando contêineres”, disse. “Se um de nossos oficiais abrir um contêiner e vir algo que pareça suspeito, ele primeiro procurará em nosso banco de dados interno de marcas registradas. Se ele não encontrar nada, não há nada que ele possa fazer.” Registrar marcas junto às agências regulatórias é uma etapa crítica para conter a falsificação.

Eduque (e alerte) os clientes: é imperativo que os consumidores sejam informados sobre a possibilidade e os riscos de comprar produtos falsificados. As empresas devem conscientizar os clientes, por meio do marketing da marca, de que, se comprarem de um vendedor online não verificado, correm o risco de não ter o produto coberto pela garantia — ou, pior ainda, de tê-lo sem qualidade e com consequências nem sempre previsíveis. Uma empresa que conhecemos começou a adicionar um comunicado em seu site da Amazon avisando que os produtos devolvidos adquiridos de vendedores não licenciados não seriam cobertos pela garantia. As empresas também devem enfatizar a importância de registrar o número de série do produto para fins de garantia, o que os protege se um produto legítimo que eles compraram se revelar falho ou defeituoso. Se um cliente tentar registrar o número de série de um produto falsificado, ele aparecerá como um erro e alertará a equipe de segurança da marca sobre o problema.

Prevenção: bloqueie futuras operações de falsificação antes de começarem

Uma vez que uma organização descobre como funciona a disseminação de produtos falsificados em seus canais e tomou as medidas iniciais para conter o problema, ela deve continuar monitorando a atividade criminosa e estabelecer fortes medidas preventivas. Nesta fase existem importantes papéis a serem desempenhados por diversas funções na organização.

Especialistas em embalagens de produtos devem explorar a tecnologia de rastreamento digital: os recursos atuais das tecnologias de rastreamento oferecem autenticação positiva do produto, podem indicar adulteração, podem aumentar a dificuldade de replicação e permitem o rastreamento do produto e da rota percorrida. As marcações seguras, que usam uma variedade de tecnologias de embalagem, blockchain e marcação serial, são métodos para rastrear itens. Muitas indústrias estão trabalhando com organizações de padrões como ASTM International ou GS1 para desenvolver métodos comuns de verificação. Isso pode ajudar a evitar o problema em que os falsificadores tentam copiar não apenas o produto, mas também a marcação digital.

Na empresa de biotecnologia que já mencionamos, a equipe de proteção da marca trabalhou para identificar recursos de autenticação secreta e ostensiva, que criavam alertas automáticos quando produtos falsificados estavam sendo vendidos no mercado. A equipe também criou um plano abrangente de comunicação com os clientes usando anúncios na web, campanhas direcionadas de e-mail e Twitter e alertas de varejistas sobre os perigos de comprar de fontes não autorizadas. A campanha conscientizou a rede de parceiros de vendas da empresa e preparou o terreno para identificar onde novas vendas falsificadas estavam ocorrendo. Garantia de qualidade deve revisar os dados para rastrear problemas e devoluções de produtos: o controle de qualidade pode criar sinalizações em seus processos de coleta de dados que indicam possíveis atividades ilegítimas. Sabemos de uma empresa que notou um aumento nas devoluções de seus produtos, descobriu que estes não eram legítimos e os rastreou até o ponto de venda, o que revelou a origem da falsificação.

A gestão de fornecimento deve intensificar a auditoria de fornecedores: pode ser particularmente frutífero rastrear o excesso da produção por parte dos fornecedores, assim como verificar a forma de descarte de produtos que não estejam em conformidade com os padrões de qualidade – produtos que podem acabar nos canais do mercado negro, que driblam as políticas de conformidade comercial. Uma grande empresa de vestuário começou a monitorar os níveis de estoque dentro das instalações de seu fornecedor e notou que os estoques de matéria-prima de entrada do fornecedor eram muito maiores do que o volume de produtos acabados que estava enviando para a empresa. Isso era um indício de que o item estava sendo produzido e vendido em outros lugares por outros canais.

Logística deve mapear as rotas de abastecimento para documentar a conformidade por parte dos provedores de transporte: isso pode ajudar a garantir a cadeia de custódia ao longo das cadeias globais, especialmente em pontos de transferência como portos, armazéns e centros de distribuição. As empresas com canais de distribuição complexos devem documentar cada transferência logística e realizar auditorias aleatórias para determinar se há pessoal de segurança adequado e portões trancados em todos os centros de distribuição.

O RH pode monitorar funcionários que estão lidando diretamente com produtos que são alvo de falsificadores: isso pode incluir verificações de antecedentes, bem como o aumento do treinamento para aumentar a conscientização do pessoal. Se houver uma falta de estoque significativa ou um aumento ou queda repentina nas vendas de produtos, cabem investigações.

O pós-venda deve rastrear reclamações de garantia e vendas de peças para identificar problemas de qualidade do produto: tanto quanto a equipe de garantia de qualidade, aqueles que estão na linha de frente do pós-venda estão posicionados com vantagem para saber se os produtos não estão tendo o desempenho esperado, o que, novamente, pode indicar que as falsificações estão entrando no mercado. Por exemplo, um grande varejista tomou a decisão de limitar seus canais de distribuição e revendedores autorizados, reconhecendo o alto potencial de produtos falsificados nesses canais de vendas específicos, especialmente o e-commerce. 

A falsificação e o desvio de produtos não são crimes que uma única instância possa combater. São crimes que demandam a diligência de marcas, varejistas, empresas de embalagem e toda sorte de provedores logísticos. Este é um caso raro em que a união com concorrentes pode render insights importantes. As empresas devem considerar a possibilidade de aderir a um consórcio e fazer parcerias com outros membros do setor. 

Grupos específicos do setor nos Estados Unidos incluem o Automotive Anti-Counterfeiting Council para fabricantes de veículos e peças e o Rx-360 para empresas farmacêuticas. Os membros da React, uma grande rede antifalsificação, incluem Marvel Entertainment, Mattel, Pfizer, Philips, Prada e Timberland. A contrafação também não é apenas um problema da cadeia de abastecimento do setor privado. Entidades de proteção de trabalhadores e dos direitos humanos, agências de proteção do consumidor, agentes alfandegários, entidades federais, estaduais e municipais de aplicação da lei, instâncias policiais e consumidores de produtos falsificados têm interesse e papel na prevenção de atividades ilícitas. Embora a falsificação e o desvio de produtos não possam ser totalmente eliminados, é possível reduzi-los significativamente.

Autoria

Robert Handfield, Anand Nair e Thomas Y. Choi

Robert Handfield é professor de gestão da cadeia de fornecimento do Poole College of Management na North Carolina State University. Anand Nair é professor da área de suprimentos e gestão da informação na D’Amore-McKim School of Business da Northeastern University. Thomas Y. Choi é professor de gestão da cadeia de suprimentos na W.P. Carey School of Business da Arizona State University.

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Produção de petróleo em alta consolida Brasil entre grandes exportadores e turbina balança comercial

Impulsionado pelo pré-sal, produção nacional alcançou 3 milhões de barris por dia no ano passado, e tendência é continuar em alta nos próximos anos

Por Luiz Guilherme Gerbelli – Estadão – 13/08/2023 

O aumento da produção do petróleo tem feito com que o produto ganhe cada vez mais destaque na pauta de exportação brasileira. E esse movimento não deve mudar tão cedo. Daqui em diante, o que se espera é que esse crescimento continue e seja capaz de contribuir com resultados robustos para o comércio exterior do País.

Na prática, se esse cenário positivo se confirmar, o petróleo vai representar mais entradas de dólares no País e recursos para Estados produtores por meio dos royalties.

No ano passado, as exportações de óleos brutos de petróleo alcançaram US$ 42,5 bilhões – um valor recorde – e representaram 12,7% de tudo o que o Brasil negociou para o exterior. Foi o segundo principal item vendido pelo País, atrás somente da soja (US$ 46,5 bilhões).

“Nos últimos anos, o Brasil tem aumentado a produção de petróleo e esse movimento deve continuar”, afirma José Augusto de Castro, presidente-executivo da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB). “À medida que a quantidade (produzida) sobe, e o preço não cai muito, a tendência é ampliar essa participação (na pauta exportadora).”

Em volume, a exportação de petróleo cresceu 1,7% em 2022 na comparação com o ano anterior, para 68,7 milhões de toneladas.

“Eu diria que o setor de petróleo é um dos que mais vão contribuir daqui para frente para o saldo da balança comercial brasileira”, afirma Adriano Pires, diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE).

Entre janeiro e julho deste ano, as exportações somaram US$ 22,3 bilhões, um pouco abaixo do apurado no mesmo período de 2022 (US$ 23,1 bilhões). “Essa queda já era esperada por causa do menor preço do petróleo”, afirma Castro.

Mudança de patamar

Para um país que sempre politizou a sua relação com o petróleo – a campanha, por exemplo, com o lema “o petróleo é nosso” na era Vargas – e sofreu com os choques nos anos 1970, os números do setor mostram que o País mudou de patamar nos últimos anos.

Em 2022, o Brasil se consolidou como o nono maior produtor de petróleo do mundo e apareceu entre os dez principais exportadores.

O cenário de crescimento da produção pode ser explicado, em parte, pelo desempenho do pré-sal e pelo aumento de preços do petróleo observado ao longo das últimas décadas, o que torna viável e interessante a exploração. Nas décadas de 80 e 90, o valor do barril chegou a US$ 20. Hoje, tem oscilado num patamar acima de US$ 85.

“A valorização do barril do petróleo foi crucial para que novas fronteiras (de exploração) ganhassem economicidade”, diz João Victor Marques, pesquisador da FGV Energia

O pré-sal responde por cerca de 75% da produção e tem uma grande vantagem adicional: o custo de operação é baixo e deixa a produção atrativa, mesmo quando há uma queda nos preços. “As empresas priorizam investir naquelas áreas em que aguentam a volatilidade do preço. Quando está alto, está ótimo. Quando está baixo, ainda é rentável”, afirma Walter de Vitto, economista e sócio da Tendências Consultoria.

Entre 2002 e 2022, a produção de petróleo saltou de quase 1,5 milhão de barris diários para 3,1 milhões no ano passado, de acordo com a consultoria Tendências. Em 2027, deve subir para 3,9 milhões barris. A expectativa é que continue crescendo até o fim desta década, quando a extração do pré-sal deve começar a perder força.

O caminho via exportação também se tornou natural, porque o País viu a sua capacidade de refino estagnada em pouco mais de 2 milhões de barris por dia nos últimos dez anos. Hoje, tecnicamente, o Brasil é autossuficiente na produção de petróleo e, portanto, todo aumento de produção acaba sendo exportado.

“O País tem contratado um aumento da produção de petróleo e, tudo mais constante, deve ter um aumento das exportações”, diz de Vitto. “O que pode fazer com que isso não ocorra, eventualmente, é o aumento da capacidade de refino, porque você não exportaria petróleo e usaria ele aqui.”

Novas fronteiras

A projeção de que a produção do pré-sal deve atingir o seu pico até o fim da década abre uma discussão importante sobre novas fronteiras de exploração num contexto em que transição energética ganha força.

O debate mais recente tem a ver com a Margem Equatorial, que fica entre o Amapá e o Rio Grande do Norte, e é formada por cinco bacias – Foz do Amazonas, Potiguar, Pará-Maranhão, Barreirinhas e Ceará.

“A busca por novas fronteiras exploratórias está relacionada em dar continuidade a esse crescimento da produção do pré-sal”, diz Marques, da FGV Energia.

A exploração da Margem Equatorial virou um tabu dentro do governo Luiz Inácio Lula da Silva. O Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) negou um pedido da Petrobras de exploração de petróleo próximo à Foz do Amazonas. O tema também opôs a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, e o de Minas e Energia, Alexandre Silveira.

No início deste mês, Lula disse que a decisão do Ibama não é definitiva e que uma decisão deve ser tomada em breve. Na declaração da Cúpula da Amazônia, assinada pelos oito países que abrigam a floresta em seu território, não houve menção de eliminar planos de explorar petróleo na região.

“Adotando como premissa de que o mundo continuará precisando do petróleo por algumas décadas, será preciso entregar um petróleo de menor intensidade de carbono, e o Brasil tem condição de fazer isso”, diz o pesquisador da FGV Energia.

No novo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), foram incluídos 47 projetos da Petrobras, entre eles novos poços exploratórios na Margem Equatorial.

https://www.estadao.com.br/economia/producao-de-petroleo-em-alta-consolida-brasil-entre-grandes-exportadores-e-turbina-balanca-comercial/

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