No varejo de moda, uma corrida contra o tempo por isonomia tributária

Setor amplia frentes com Executivo e Congresso e quer urgência para estancar perdas com a concorrência internacional, diz Abvtex

Raquel Brandão – Exame –   18 de novembro de 2023 

Edmundo Lima, presidente da Abvtex, associação que reúne 100 marcas de varejo de moda, saiu animado de uma reunião com o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, e o secretário da Receita Federal, Robinson Barreirinhas, há duas semanas.  

“Houve a promessa de que até o fim do ano haverá uma solução que traga isonomia tributária para o setor”, diz Lima em entrevista ao Exame IN

Mas, conforme o fim do ano se aproxima, a sensação do setor é de uma corrida contra o tempo. “A forma como chegamos no governo é de desespero, porque já são onze meses de perdas”, afirma o executivo, que tem sido uma das vozes mais ativas no debate sobre o avanço das vendas de plataformas internacionais à la Shein no país.

De janeiro até setembro, período mais recente de dados do IBGE, a produção de vestuário acumula perda de 10,1% em relação ao mesmo período do ano passado. 

Em paralelo com a agenda no Ministério da Fazenda e a Receita, a Abvtex, tem uma outra frente aberta no Congresso, em parceria com a Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit).

A expectativa da associação é de que até o fim de novembro o deputado Paulo Guedes (PT-MG) apresente à Comissão de Finanças e Tributação da Câmara relatório sobre o projeto de lei 2339/22, que prevê o fim da isenção das compras internacionais até US$ 50.   

Pela proposta, o vendedor deverá recolher o imposto de tributação até o dia da entrada da mercadoria no Brasil. Se isso não acontecer, o consumidor terá de pagar o tributo.  

A principal reclamação dos varejistas é a de que a carga tributária entre as empresas nacionais e as plataformas estrangeiras é muito discrepante. De acordo com os cálculos da Abvtex, para produzir no país, as empresas pagam uma alíquota total na casa de 80% – Em outras palavras, sem impostos, uma camiseta de R$ 180 poderia custar R$ 100.  

Até agosto, apenas encomendas entre pessoas físicas até US$ 50 eram isentas do imposto de importação, o que gerava uma série de distorções. A Receita já tinha identificado, por exemplo, um emissor da China que enviou, como pessoa física, mais de 16 milhões de pacotes.  

Com a instituição do programa Remessa Conforme há pouco mais de três meses, as compras internacionais enviadas a partir de pessoas jurídicas também estão isentas até US$ 50 – mas com cobrança de ICMS, de origem estadual, numa tarifa abaixo de 20%. 

Para isso, as empresas precisam preencher formulário de requerimento de certificação no programa, aderir ao modelo de etiqueta para identificação da mercadoria e firmar contrato logístico com os Correios ou outra empresa de entrega expressa e última milha. 

O programa é um tema que a Abvtex vinha discutindo desde a gestão Bolsonaro, como uma forma de intensificar a fiscalização diante das denúncias de fraudes nos registros das encomendas. Segundo Lima, a Receita Federal sinalizou que chegou a um índice de 80% de fiscalização dos pacotes que chegam. 

Mas ainda que tenha representado algum avanço, o Remessa Conforme começa a gerar novos tipos de problemas. Recentemente empresas de porte relevante, como Mercado Livre e Magazine Luiza, aderiram ao programa, e começam a trazer mercadorias da China. “As grandes varejistas começaram a perceber que as regras mudaram e isso vira uma alternativa”, diz Lima. 

Hoje, os sites que importam de outros países dentro das regras do Remessa Conforme pagam apenas a alíquota de ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços), de origem estadual e abaixo de 20%.  

“Isso pode fazer com que o e-commerce de moda migre para outros países, colocando a produção local e empregos em risco”, diz o executivo.  

Hoje, no varejo de moda nacional, o tíquete médio de compra varia de R$ 140 a R$ 190, bem abaixo dos US$ 50 estabelecidos para isenção do Remessa Conforme.  

Ou seja, as empresas têm incentivos para migrar sua produção para fora do país. Ou para parar de importar em grandes lotes (sujeitos a imposto de importação de 60%) e mantendo operações no exterior para vender de fora para clientes brasileiros. “Isso coloca empregos em risco”, destaca Lima. Atualmente, indústria e varejo de moda empregam 2 milhões de pessoas. 

Citando Haddad e o vice-presidente e ministro da Indústria, Geraldo Alckmin, Lima diz que o governo tem se mostrado “sensível à demanda do setor” e em busca de uma solução. Mas alerta que é preciso senso de urgência, especialmente com o Natal (principal data de vendas do setor) se aproximando. “Precisamos achar uma condição de igualdade tributária agora.” 

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Raquel Brandão

Repórter Exame IN

Jornalista há mais de uma década, foi do Estadão, passando pela coluna do comentarista Celso Ming. Também foi repórter de empresas e bens de consumo no Valor Econômico. Na Exame desde 2022, cobre companhias abertas e bastidores do mercado

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‘A economia de mercado está sob ataque no mundo’, diz ex-presidente do Banco do Brics

Para Marcos Troyjo, o aumento do protecionismo deverá levar a um ‘subdesempenho’ da economia global nos próximos anos, mas a nova fase da globalização oferece ao Brasil a oportunidade de se tornar ‘a Arábia Saudita dos alimentos’

Por José Fucs – Estadão 28/08/2023 

Desde que deixou a presidência do Novo Banco de Desenvolvimento (NBD), mais conhecido como Banco do Brics, em março, o economista, sociólogo e diplomata Marcos Troyjo, de 57 anos, tem rodado o Brasil e o mundo, para falar sobre a economia do País e o futuro da globalização, a convite de instituições financeiras, entidades empresariais, escolas de negócios e organizações não governamentais.

Com uma trajetória acadêmica e profissional notável, Troyjo – que participou da equipe de Paulo Guedes no Ministério da Economia, como secretário especial de Comércio Exterior e Assuntos Internacionais, antes de assumir o comando do NBD, em julho de 2020 – tem atraído a atenção de uma audiência especializada, interessada em conhecer melhor sua visão sobre os acontecimentos e o que deve vir pela frente. Só nos últimos cinco meses, ele conta que deu palestras e aulas na Inglaterra, na França, na Suíça, na Itália, nos Estados Unidos, em Cingapura, nos Emirados Árabes Unidos, em Israel e em várias cidades do País.

Ex-professor da Universidade Columbia, em Nova York, onde criou o BricLab, em 2011, dedicado ao estudo do grupo composto inicialmente por Brasil, Rússia, Índia e China e depois também pela África do Sul, ele deverá retornar à academia de forma regular agora em setembro. Vai iniciar um período de um ano como acadêmico visitante na área de liderança transformacional na Blavatnik School of Government, ligada à Universidade de Oxford, na Inglaterra, em paralelo com as atividades que deverá exercer em posto semelhante no Hoffmann Global Institute for Business and Society, vinculado ao Insead, sediado em Fontainebleau, na França. Sua intenção é passar duas semanas por mês no exterior, uma em cada escola, e ficar as outras duas em São Paulo, onde está morando com a família.

Nesta entrevista ao Estadão, ele analisa a “desglobalização” e o aumento do protecionismo no mundo. Segundo ele, a multiplicação das restrições comerciais deve levar ao “subdesempenho” da economia global nos próximos anos. “A economia de mercado está sob ataque”, diz. “Os Estados Unidos, que sempre foram um grande proponente da liberalização econômica, também passaram a ser uma economia muito restritiva e isso acaba tendo um efeito multiplicador em todo o mundo.”

Troyjo fala também na entrevista sobre as consequências da desaceleração da China e o protagonismo que caberá nas próximas décadas aos sete países emergentes de maior contingente populacional, que ele chama de E7, em contraposição ao G7 (grupo dos países mais desenvolvidos), além de abordar as incertezas dos investidores estrangeiros em relação ao governo Lula e as novas oportunidades existentes para o Brasil na produção de alimentos e nos campos da transição energética e da economia verde.

A economia global está impactada por uma política monetária e fiscal que foi a mais expansiva desde os anos 1970

Como o sr. avalia o atual momento da economia global, em meio à guerra na Ucrânia e ao acirramento da disputa comercial e geopolítica entre Estados Unidos e China? Como isso está moldando a economia mundial no momento?

A economia global ainda está impactada pela covid-19, que foi o maior desafio relacionado à saúde pública desde a gripe espanhola. Está impactada também por aquele que é o maior risco geopolítico no coração da Europa desde o fim da 2ª Guerra Mundial, que é o conflito na Ucrânia. E está impactada por uma política monetária e fiscal que foi a mais expansiva desde os anos 1970, como resultado do combate aos efeitos da covid, que gerou um passivo importante até agora não revertido. Neste ano, no Fórum Econômico Mundial, em Davos, falou-se muito no termo “policrises”. Agora, além dessas questões conjunturais, a economia global está impactada por questões mais estruturais. A primeira delas vem dos países emergentes e de grande contingente populacional, que eu chamo de E7. A gente tem o G7, que abriga os países mais desenvolvidos, e o E7, que reúne China, Índia, Brasil, Indonésia, Turquia, México e Arábia Saudita. Hoje, do ponto de vista do PIB (Produto Interno Bruto) medido pela paridade do poder de compra, o E7 já é maior do que o G7. Isso tem uma implicação para países como o Brasil, porque realça as características do País como produtor de alimentos, como fornecedor de energia e como protagonista da economia verde. Outra grande questão é a mudança no DNA da economia da China, que deixou de ser um país de baixo custo.

Em sua avaliação, como essa mudança no DNA da China está afetando a economia global?

Além dos efeitos geopolíticos e da diversificação das fontes de suprimento que estavam alocadas na China, você tem uma espécie de diáspora dos ativos manufatureiros para outros países. Muitos países estão aproveitando essa onda para desenvolver suas próprias estratégias industriais. Veja o caso do Vietnã. O Vietnã tem hoje uma empresa de carros elétricos, a VietFast, que tem um valor de mercado maior que o da GM e o da Ford. Há cerca de oito anos, a Índia elaborou uma das estratégias industriais mais inteligentes que eu conheço, com a administração do primeiro-ministro Narendra Modri, que é o projeto “make in India”. Não é “made in India”, é “make in India”. O objetivo é absorver capitais que estão saindo da China com a criação de condições especiais para a produção manufatureira na Índia. Então, como resultado da desindustrialização da China, o que está ocorrendo é um redesenho das redes globais de valor e uma reindustrialização potencial — ou uma neoindustrialização, como eu gosto de dizer – em outros lugares. Usa-se muito hoje o termo friend shoring, que é a realocação da produção que estava baseada na China em um país considerado mais amistoso.

O que o sr. quer dizer exatamente quando fala em “país mais amistoso”?

No limite, para o investimento privado, isso significa oferecer condições de alcançar um balanço patrimonial saudável. E um balanço patrimonial saudável é resultado de muitas coisas, entre elas a facilidade para fazer negócios, com segurança jurídica e regimes de propriedade intelectual e de remessas de lucro que sejam atraentes para os investidores internacionais.

Fala-se muito hoje nesse processo de ‘desindustrialização’ da China. Como isso está ocorrendo na prática? Que processo de “desindustrialização” é esse?

Nós nos acostumamos a uma maneira de classificar a atividade econômica, talvez até de uma forma superada, que inclui o setor primário, formado pela agricultura e pela mineração, o secundário, que é indústria, e o setor terciário, que são os serviços. O termo desindustrialização, que eu mencionei em relação à China, diz respeito a esse tipo de classificação, à diminuição progressiva do peso relativo da manufatura no PIB chinês e à multiplicação de valor agregado por diferentes setores da economia, inclusive aqueles intensivos em tecnologia. Outra coisa muito interessante que está acontecendo na China é que a participação do comércio exterior no PIB passou de 65% em 2006 para 37% hoje. Isso não significa que o comércio exterior da China está diminuindo nominalmente. Continua a crescer. A China é a principal potência comerciante do mundo. Mas, como percentual do PIB, sua fatia diminuiu. A participação do setor manufatureiro no PIB chinês também era muito maior vinte anos atrás do que é hoje.

O mundo está caminhando para uma economia dirigista. Acho isso muito preocupante

Agora, com a pandemia, houve um aumento do protecionismo no mundo e um questionamento da globalização, que vinha crescendo de forma contínua até então. Muita gente fala até em “desglobalização”. Como o sr. analisa esse movimento, essa reconfiguração da economia mundial? De que maneira isso deverá influenciar o comércio e as relações econômicas globais nos próximos anos?

Eu publiquei um livro em 2016 chamado Desglobalização e a minha hipótese é que, quando houve aquele fenômeno gêmeo da queda do Muro de Berlim em 1989, e do fim da União Soviética em 1991, teve início um processo de globalização profunda, que foi mais ou menos até a quebra do (banco de investimento americano) Lehman Brothers em 2008, com a crise no mercado de hipotecas dos Estados Unidos. Aí, veio um período de transição, entre 2008 e 2011, e depois uma nova fase, que eu chamo de desglobalização. Mas o termo desglobalização aqui deve ser entendido como desaceleração. Um veículo que está desacelerando não significa que ele parou. Significa apenas que a progressão dele passou a se dar num ritmo menor. Houve uma diminuição da liberalização econômica e comercial em várias praças. Agora, é curioso que, ao mesmo tempo, novas geometrias de comércio e investimento estão surgindo. Houve uma proliferação dos centros internacionais de irradiação de investimentos. Isso significa também uma outra globalização. Por isso, acredito que a gente está começando uma fase de neoglobalização. Agora, dito isso, o que está acontecendo hoje no mundo é que a economia de mercado no mundo está sob ataque. Os princípios da economia de mercado estão sob ataque. O mundo está caminhando para uma economia dirigista. Acho isso muito preocupante.

O que o leva a dizer que a economia de mercado está sob ataque?

Ao analisar os discursos do Jake Sullivan, que é o conselheiro de Segurança Nacional dos Estados Unidos, o que a gente vê é a defesa do protecionismo comercial, com o alastramento dos subsídios por muitos setores da economia, e de uma legislação que permite expandir o conceito de conteúdo nacional. Ou seja, é uma combinação de características que, em vários países do mundo, não deu certo. Quando isso ocorre com a economia americana, quando você tem princípios de economia dirigista tão fortes nos Estados Unidos, isso gera efeitos multiplicadores em todo o mundo. Os europeus, os japoneses e os chineses acabam fazendo a mesma coisa e isso se transforma numa bola de neve. É um fenômeno que o Robert Zoellick, que foi presidente do Banco Mundial, está chamando de Washington Oriented Economy, que quer dizer uma economia dirigida por Washington, em vez de ser dirigida pelos grandes atores privados, que fizeram a grandeza da economia dos Estados Unidos. Recentemente, eles aprovaram uma legislação lá que restringe a participação de investimentos americanos em certos mercados, entre eles o chinês, o que acaba levando à criação de atravessadores. Como os americanos não podem mais investir na China ou comprar da China, eles vão comprar do Vietnã. Só que, como os vietnamitas compram dos chineses, o que ocorre é que o número de atravessadores acaba aumentando. É algo que a gente conhece muito bem na América Latina e que não deu certo.

Que efeito esse aumento do protecionismo deve provocar na economia global?

Subdesempenho. Toda a importantíssima expansão econômica do mundo emergente que nós testemunhamos nos últimos trinta anos está muito associada a uma economia mais aberta do que fechada. O período de maior expansão da economia chinesa foi quando ela esteve mais aberta do que fechada. Nós temos a experiência concreta do Brasil, que já teve o maior parque industrial do hemisfério sul, permaneceu com uma economia fechada e não conseguiu alcançar o desempenho que se esperava. Na América Latina, nós temos muitas experiências de nacional-desenvolvimentismo que levaram ao protecionismo e a economias ineficientes. A Índia foi assim durante muito tempo. O Egito também. A China foi assim de 1949 até 1978 e a performance econômica chinesa não foi nada impressionante. De 1978 para cá, quando a China começou a se abrir, é que as coisas mudaram. Agora, os Estados Unidos, que sempre foram um grande proponente de liberalização econômica, passaram a ser uma economia também muito restritiva. E isso provoca um efeito multiplicador, com a propagação da ineficiência. Nos oito anos de governo Clinton e nos oito anos de governo Obama, que também eram do Partido Democrata, como o presidente Joe Biden, foram períodos de negociação de grandes acordos internacionais e de maior responsabilidade fiscal. Não é o momento que a gente está vivendo agora, em que o governo pode tudo, pode fazer o que quiser do ponto de vista fiscal, pode fazer o que quiser com a moeda.

O Brasil pode ser a Arábia Saudita dos alimentos no mundo

Como o sr. vê as perspectivas do Brasil nos próximos anos nesse cenário de ataque à economia de mercado?

O Brasil tem atrativos e características que fazem com que a sua performance possa ser mais positiva do que a que é impactada pelos ciclos políticos eleitorais. O Brasil vai ter um fluxo comercial muito grande no setor de alimentação. Eu tenho participado de diferentes conferências no mundo todo e o termo “segurança alimentar”, que é a capacidade de equilibrar o fornecimento de alimentos com o tamanho da população, tornou-se onipresente, mesmo em fóruns que falavam só de dívida de mercados emergentes e projeções de inflação. Quais são os quatro maiores produtores de alimentos no mundo hoje? Os Estados Unidos, que são o maior produtor mundial, mas são deficitários na balança comercial, a China, que é importadora líquida de alimentos, por causa do tamanho da população, a Índia, que é uma grande produtora, mas ainda tem muita ineficiência, muita propriedade baseada apenas na agricultura de subsistência, e o Brasil, que é o país onde você tem realmente o que eu gosto de chamar de “teto retrátil” para a produção agrícola, por conta de nossos “rios voadores”, de nossos índices pluviométricos e do nosso acesso a recursos hídricos. O Brasil é o grande ator dessa coisa toda, é uma superpotência do agronegócio. O Brasil pode ser a Arábia Saudita dos alimentos no mundo.

Agora, há muitos gargalos de infraestrutura para escoar toda essa produção, que acabam aumentando o chamado “custo Brasil”. Até que ponto isso pode prejudicar o País nesse processo?

Nós nos acostumamos a dizer que o Brasil é muito competente da porteira para dentro, mas tem dificuldade de escoar a produção porque tem estradas em más condições, poucas ferrovias e portos que não funcionam. Num contexto em que você tem uma gigantesca atenção voltada para segurança alimentar, isso passa a ser um problema global. E problemas globais geram possibilidades de solução global. Então, o estoque de investimento disponível para o Brasil hoje, para ajudar a resolver nosso déficit de infraestrutura, é muito grande.

O sr. está dizendo que o Brasil poderá, enfim, deixar de ser o país do futuro para ser o país do presente, mesmo num cenário complicado para a economia global?

Eu adoro aquela frase do filósofo espanhol José Ortega y Gasset: “Yo sou yo e mis circunstancias”. O Brasil é o Brasil e suas circunstâncias. E quais são as circunstâncias? Olha que dado fenomenal: o mundo hoje tem oito bilhões de pessoas. Até 1º de janeiro de 2050, haverá mais dois bilhões de pessoas no planeta. Ou seja, o crescimento populacional líquido nos próximos 27 anos será de dois bilhões de pessoas. Sabe quanto tempo levou para a humanidade ter dois bilhões de pessoas? 1927 anos. Agora, o mundo tem hoje pouco mais de 190 países e nos próximos 27 anos só haverá crescimento populacional líquido em nove: Índia, Paquistão, Nigéria, Uganda, Etiópia, Quênia, República Democrática do Congo e um crescimento marginal nos Estados Unidos. Nós crescemos com noção de que o Brasil tinha a quinta maior população do mundo, abaixo de China, Índia, Estados Unidos e Indonésia. Mas hoje já fomos ultrapassados pela Nigéria e pelo Paquistão. Se você fizer uma geografia do crescimento populacional no mundo, com exceção dos Estados Unidos, ele vem todo do mundo emergente e muito da África.

Hoje, há uma certa polifonia por parte do governo brasileiro que confunde os investidores estrangeiros

O sr. fala dessas circunstâncias favoráveis ao Brasil, mas a gente observa hoje um quadro preocupante, com a desaceleração da economia chinesa e o “subdesempenho” da economia global, que o sr. mesmo mencionou. Isso não tem de entrar na conta também?

Nós estamos vivendo agora uma conjuntura difícil para alguns mercados emergentes, inclusive a China, que é o mais importante deles. Mas a Índia, por exemplo, que ultrapassou a China como país mais populoso do mundo há quatro meses, vai crescer 6% este ano. A Indonésia, mais de 4%. Isso quer dizer que, no próximo quarto de século, o crescimento da população e da economia virá do E7, aquele grupo de países emergentes de grande contingente populacional do qual eu falei no início da nossa conversa. Os países do E7 vão crescer muito e a experiência internacional mostra que, quando você tem crescimento tão vertiginoso a partir de uma renda per capita razoavelmente baixa, a demanda por alimentos aumenta. Se a Índia, que tem renda per capita de US$ 3.000, continuar a crescer 6% ao ano, como está ocorrendo, a renda per capita vai dobrar em 12 anos. O que acontece quando você sai de uma renda per capita de US$ 3 mil para US$ 6 mil? Você come mais. Isso vai levar a uma mudança estrutural no mapa de demanda por alimentos no mundo. Se você associar essa mudança ao redesenho das cadeias globais de valor e ao potencial do Brasil na produção de alimentos e nos campos de energia e da economia verde, o cenário é muito favorável ao País.

Em que medida o Brasil já está se beneficiando com esse novo quadro?

Essa é uma das razões pelas quais o Brasil está caminhando para ter uma corrente comercial de US$ 1 trilhão. Mesmo num ano difícil como 2022, a corrente comercial do País chegou a US$ 600 bilhões, a maior da história. Em 2022, o Brasil teve o maior superávit comercial da sua história. Em 2022, o Brasil teve o maior nível de exportações da sua história. De 2019 a 2022, o comércio brasileiro cresceu com todas as regiões do mundo. Em 2022, o Brasil também foi o principal destino de investimento estrangeiro direto como proporção do PIB, dentre as economias do G20 (grupo que reúne as 19 maiores economias do mundo mais a União Europeia). Em termos nominais, o Brasil oscilava entre o 5º e o 6º lugar na lista dos países que mais atraem investimentos diretos do exterior. Foi para o 3º lugar e o montante de capital que entrou como percentual do PIB nominal é o maior da história. Isso tem muito que ver com essa mudança no cenário internacional, no qual o Brasil tende a ser um jogador muito importante.

O (banco de investimento) Goldman Sachs lançou há cerca de 2 meses um paper chamado The rise of geopolitcal swing states (a ascensão dos países oscilantes na geopolítica), em referência aos swing states da política americana, que de vez em quando pendem para o lado democrata e de vez em quando para o lado republicano. Nesse estudo, eles analisam por que o Brasil se tornou um ator indispensável na produção mundial de alimentos e de energia e eventualmente na transição para a economia verde. É um diagnóstico que reforça a visão sobre o papel relevante que caberá ao Brasil nesse novo quadro global.

Desde que deixou o comando do Banco do Brics, o sr. tem circulado bastante pelo mundo e conversado com muitos investidores estrangeiros. Como eles estão vendo o novo governo e o que mudou até agora em relação ao que ocorreu em 2021 e em 2022? Como está a imagem do Brasil lá fora?

Eu estou muito impressionado. Os números que mencionei há pouco falam por si mesmos e mostram que os investidores estrangeiros diretos tinham noção clara de que estava acontecendo algo na economia brasileira naquele período. Há algumas semanas fiz a palestra de abertura num congresso internacional de hidrogênio verde e o montante de recursos que você tem na Europa, particularmente na Alemanha, para investir na produção de hidrogênio verde no Brasil, é enorme. O Brasil tem uma experiência longa em bicombustíveis e um horizonte promissor pela frente. Eu também estive este ano numa reunião em Cingapura e muita gente queria saber de investimentos no Brasil. Ouvi de um investidor de infraestrutura de Cingapura uma coisa interessante, que em 2022 o Brasil estava no sexto ano e meio de reformas estruturais. Em 2019, eu me lembro de estar conversando com um analista de mercados emergentes de um grande banco europeu e ele dizer o seguinte: “Hoje, o Brasil é o epicentro do processo de reformas estruturais no mundo emergente”. E ele tinha razão. Nós fizemos as reformas da Previdência e trabalhista, privatizamos a Eletrobras, realizamos diversas concessões, vendemos diversas empresas controladas por estatais, mudamos os marcos regulatórios do saneamento, da navegação de cabotagem, das ferrovias e do gás natural e melhoramos o ambiente de negócios. Concluímos também o maior acordo comercial entre blocos da história, que é o acordo do Mercosul com a União Europeia. Não foi pouca coisa.

Agora, você pode desperdiçar essa oportunidade ou subaproveitá-la, estancando o processo de reformas estruturais e não indo adiante no tema das concessões e privatizações, criando instabilidade jurídica. Hoje, o que está acontecendo é que você tem lado a lado esse quadro favorável ao País e uma certa polifonia por parte do governo brasileiro, com a tentativa de reversão de privatização da Eletrobras e do marco do saneamento, que confunde os investidores. Havia mais unidade quando o (ex-ministro da Economia) Paulo Guedes era a grande voz internacional da economia brasileira. Uma característica da gestão econômica do Paulo Guedes é que havia muita coordenação entre os diferentes atores. Se você pegar o (Gustavo) Montezano (ex-presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), o Adolfo Sachsida (ex-ministro de Minas e Energia e ex-secretário de Política Econômica), o Caio (Paes de Andrade, ex-presidente da Petrobras e ex-secretário de Desburocratização do Ministério da Economia) e eu, entre outros da equipe econômica na época, a gente tem uma visão de mundo baseada em economia de mercado, na concorrência, na liberalização comercial. Por meio dessa mesma visão de mundo, você cria um consenso que tem força.

Os investidores estrangeiros percebem claramente que, apesar dessa polifonia mais central, há muitos governadores bons no Brasil

Como essa “polifonia” do atual governo está afetando a percepção dos investidores diretos estrangeiros?

É como se houvesse duas forças magnéticas operando ao mesmo tempo. Há uma força que demanda mais cuidado, na linha do “vamos ver o que esta nova administração vai fazer”. Isso desacelera ou modula o interesse dos investidores. Ao mesmo tempo, os países precisam comer. Você precisa criar alternativas energéticas, tem de promover a transição verde. A minha impressão é de que, entre esse polo mais atraente do Brasil e o outro, que sugere mais cautela, o polo mais atraente acaba se sobrepondo. Tudo isso, como eu falei há pouco, é mais forte do que os ciclos políticos eleitorais. É como se o Brasil tivesse uma espécie de rede protetora, que muitos países não têm, para evitar os piores cenários possíveis. É um privilégio, mas por vezes serve também para desencorajar a realização de reformas mais ambiciosas. Agora, os investidores percebem claramente que, apesar dessa polifonia mais central, há muitos governadores bons no Brasil, como os do Paraná, de Goiás, do Mato Grosso, do Rio Grande do Sul, de São Paulo, de Minas. Tem gente que está percebendo o que está acontecendo no mundo e está ajustando, no que lhes cabe, os seus discursos e as estruturas de políticas públicas para fazer frente a essa oportunidade.

O curioso é que, durante o governo Bolsonaro, a narrativa predominante dizia que a imagem do Brasil lá fora era a pior possível, que o Brasil estava isolado e era um pária no cenário global. No entanto, houve esse desempenho que o sr. mencionou há pouco, com números espetaculares no setor externo. E agora, quando prospera a narrativa de que teria chegado um “redentor”, que vai colocar o Brasil de volta no centro dos acontecimentos e atrair bilhões e bilhões de dólares ao Brasil, os investimentos estrangeiros diretos no País caíram 40% nos primeiros seis meses do governo Lula, segundo os dados do Banco Central, e há incertezas em relação ao que pode acontecer na economia. Como o sr. avalia essa dicotomia entre a realidade dos números e as narrativas?

Eu me lembro muito de uma entrevista do Carlos Alberto Parreira, quando o Brasil disputou a semifinal da Copa de 1994 contra a Suécia e ganhou de 1 a 0, com gol de cabeça do Romário. Na coletiva de imprensa, um repórter disse para ele: “Professor Parreira, o Brasil jogou feio, jogou mal, e a imagem do futebol brasileiro é sempre da alegria.” Aí o Parreira falou o seguinte: “Olha, eu aprendi a ver o jogo pelos números. Quantas vezes o meu goleiro foi vazado? Quantas vezes o time adversário fez uma jogada de linha de fundo e cruzou para a nossa área? Quantas vezes a gente agrediu o gol adversário? Quantas vezes a gente chutou de meia distância com perigo?” Então, por meio dos números, o Parreira mostrou que a performance do Brasil tinha sido boa. O Brasil foi para a final com a Itália e ganhou o título nos pênaltis. Essas coisas também valem agora, para a economia. Se você pensar em qualquer Nação hoje, na ótica do que a gente chama no Brasil de uma forma bem ampla de “imagem do País no exterior”, vai ver que todos os países têm seus problemas. Se a gente olhar a França, tem gente que verá ali elementos de decadência. Se olhar a Inglaterra, idem. Se olhar a China, vão fazer críticas à política econômica e ao regime de governo. Se olhar os Estados Unidos, vão dizer “poxa, esse é um país que tem a crise dos opioides, está muito polarizado”.

Na sua opinião, então, a imagem do País lá fora não tem tanto impacto nas decisões dos investidores estrangeiros?

A imagem de um país no exterior é importante. Não estou dizendo que não seja. Mas ela precisa ser contrastada com uma realidade mais concreta, que é a realidade dos números. Se o Brasil chegou a esses números em 2021 e em 2022, todos relacionados ao exterior, e se a imagem do Brasil era tão ruim quanto se dizia, a gente pode chegar mesmo à conclusão de que a imagem não é tão importante assim — e isso não é verdade. Acho que imagem é uma coisa muito importante. Então, se a imagem do Brasil nesse período foi ruim, quando o Brasil aumentou a sua fatia no comércio internacional, aumentou a sua fatia como destino de investimentos estrangeiros diretos e concluiu o maior acordo comercial entre blocos da história, que é o acordo do Mercosul com a União Europeia, há algo estranho aí, que merece uma reflexão mais profunda.

Sustentabilidade não significa necessariamente intocabilidade ou ‘museificação’ dos recursos naturais

O acordo do Mercosul com a União Europeia pode até ter sido concluído, como o sr. diz, mas não foi implementado, “subiu no telhado”, como se diz por aí.

Ele precisa ser assinado.

Houve restrições de parte da Europa, em decorrência de posições adotadas pelo governo Bolsonaro, em especial na área ambiental, que acabaram retardando a formalização do acordo.

Mas o acordo estava fechado. Era uma questão de insistir na percepção de que as metas de comércio, de meio ambiente, de formação de parcerias e joint ventures são mais fáceis de alcançar com o acordo do que sem o acordo. A gente fez também o acordo com o Efta (Associação de Livre Comércio Europeia), que reúne aqueles europeus muito ricos que não adotam o euro (Islândia, Liechtenstein, Noruega e Suíça) e começou o processo de adesão formal à OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico). Ou seja, tudo isso se deu nesse período do qual a gente está falando.

Como o sr., que participou da negociação do acordo do Mercosul com a União Europeia, vê a perspectiva de sua assinatura agora e as restrições do atual governo à liberalização das compras governamentais, que estava incluída na versão original?

Eu tenho uma visão econômica de mundo mais liberal. Por meio de compras governamentais liberalizadas, com mais concorrência, a tendência é de que haja um aumento da eficiência e a diminuição dos custos. Agora, para prosseguir com a dinâmica do acordo Mercosul-União Europeia, acredito que é importante que as conversas não fiquem só centralizadas na questão ambiental e nas compras governamentais, mas que ambos os blocos entendam com muita clareza que, se de fato haverá uma fase agora de subdesempenho da economia internacional, por conta do protecionismo de alguns dos principais atores globais, como os Estados Unidos e a China, as oportunidades vão minguar. No momento em que você tem a perspectiva de implementar um processo de liberalização progressivo no comércio entre o Mercosul e a União Europeia durante os próximos 15 anos, isso automaticamente vai estimular a formação de parcerias econômicas e dos fluxos comerciais de parte a parte. O Brasil ganha mais um grande mercado e facilita as regras para investimento europeu e para que eles usem o País como uma importante plataforma para alcançar outros mercados na América Latina. Os grandes acordos de comércio na realidade são acordos de investimento. Veja o caso dos Estados Unidos, do México e do Canadá, em que há um fluxo de investimentos industriais, manufatureiros para o México, cujo principal destino é o próprio mercado americano.

Como a política ambiental na Amazônia, a eventual exploração de petróleo no que chamam de Foz do Amazonas, pode influenciar o investimento estrangeiro e a percepção do Brasil no exterior?

O Brasil tem uma responsabilidade primordial com o seu próprio desenvolvimento e o seu próprio interesse nacional. Dito isso, nós fazemos parte de diferentes convenções internacionais de proteção do meio ambiente, inclusive da Amazônia. A questão sustentabilidade não significa necessariamente a intocabilidade ou da “museificação” dos recursos naturais. Nós precisamos tomar cuidado com a utilização de discursos protecionistas que se valem desse verniz ambiental para fechar mercados, subsidiar produtores e discriminar o Brasil. Outro elemento que a gente tem que levar em conta é que cada vez mais caem no gosto do consumidor internacional os produtos que têm selo verde, que tem uma boa relação entre emissão de carbono e produção, processos de produção que são sustentáveis. Essa não é apenas uma característica de proteção comercial, mas também de preferência do consumidor. Precisamos estar atentos a isso.

Para finalizar, uma palavra sobre a candidatura do Brasil à OCDE, chamada pelo presidente Lula de “clube de países ricos”, que não será “prioridade” para o atual governo. Como o sr. avalia essa decisão?

Todos os países que tiveram um aumento de renda considerável, uma prosperidade considerável, por meio de atividades de comércio exterior e atração de investimentos, fizeram isso em parceria com países ricos. Acredito que não existem exemplos mais eloquentes que os da China e da Coreia do Sul. Não há nada contra países ricos. E na OCDE há países de menor desenvolvimento relativo, como Costa Rica, Chile e México. A importância da OCDE vai muito além disso. Por que a adesão à OCDE é importante? Porque daria uma característica única ao Brasil. O Brasil seria o único país a ser membro do Brics, com a Rússia, a China, a Índia e a África do Sul, do G20 e da OCDE.

Os acordos comerciais e de investimentos do presente e do futuro não são mais os velhos tratados de tarifas e cotas. Eles são também entendimentos sobre padrões: trabalhistas, de propriedade intelectual, de compras governamentais. Se a gente está na OCDE, tem mais capacidade de influir no desenho disso, para beneficiar a nossa economia, do que se ficar de fora. Caso contrário, você deixa de ter uma mão na modelagem dos grandes marcos jurídicos dos tratados. Ao participar desse grupo, a gente fica também mais habilitado para outras geometrias de acordos comerciais. Se a gente for negociar um acordo comercial com Cingapura, com os Estados Unidos ou com o Japão, muito daquilo que foi trabalhado e ensaiado no âmbito da OCDE vai ser também aplicado. Além disso, depois da crise de 2008, muitos investidores, sobretudo aqueles de característica internacional, passaram a abraçar critérios de governança abraçados pela OCDE. Para entrar na OCDE, você tem de fazer uma série de lições de casa prévias. Então, se isso tiver continuidade, o Brasil vai se credenciar também a girar a chave do cofre para receber esses recursos, porque os próprios estatutos desses fundos de investimento facilitam a alocação de recursos em um país que abraça os parâmetros adotados pela OCDE. O Brasil criaria uma camada adicional de investimento para sua economia.

https://www.estadao.com.br/amp/economia/a-economia-de-mercado-esta-sob-ataque-no-mundo-diz-ex-presidente-do-banco-do-brics/

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4 qualidades fundamentais para quem atua no papel de um CEO

Além dessas características, colunistas também destacam que o bom executivo deve apreciar a solitude, entendida como um estado individual positivo e criativo de reflexão sobre sua vida interior e seus compromissos com o mundo que o envolve

Por Guilherme Laager e Jose Luiz Alqueres

Há alguns anos a E.I.U., Economist Intelligence Unit, órgão de estudos e pesquisas da conhecida revista internacional de negócios “The Economist”, realizou uma pesquisa sobre os modos de aferir a qualidade da performance de grandes empresas e seus diretores. No tocante ao CEO, ou presidente, o critério recomendado surpreendeu a todos, pois ele constava apenas de verificar se aquele executivo, ao final do ano, havia cumprido o programado, independente do resultado para a empresa ter sido bom ou não.

O que o estudo enfatizava é que os executivos e, por conseguinte, as empresas que comandam, muito dificilmente cumprem o que planejam no início de um exercício. Por diferentes razões, perdem algo da objetividade e capacidade de executar o proposto ao longo do caminho – e isso é muito nocivo para as equipes que trabalham a ele subordinadas e, por extensão, para a empresa.

A pequena lembrança acima ressalta a maior qualidade que o executivo líder de uma organização, seja ela uma empresa ou um órgão público, deva a ela imprimir: a capacidade de conduzir ao longo do tempo os esforços de equipes compostas por pessoas diferenciadas em prol de objetivos pré-definidos, evidentemente ajustados às circunstâncias, mas implementados no tempo proposto. Sem isso, até a aferição de resultados fica comprometida.

Vale citar o exemplo do grande maestro Herbert Von Karajan, que tocava apenas piano, mas dominava todos os outros instrumentos pelos sons – em uma busca constante pela execução impecável de movimentos ousados de sua orquestra e na definição de suas sequências de execução.

O grande desafio de um executivo-líder é conciliar a entrega de resultados para os stakeholders e, ao mesmo tempo, garantir o máximo comprometimento de seus liderados nesse mesmo esforço. Para ele é imprescindível saber estar presente no dia a dia da organização, onde cabe conciliar uma visão prospectiva simultaneamente à compreensão das múltiplas tarefas que a empresa efetua.

O mundo é cheio de incertezas. Isso obriga ao executivo a frequentes intervalos para ouvir sua equipe, compreender seus desafios e, com eles, desenvolver as melhores soluções, ou seja, eliminando as pendências da agenda negativa de forma a concentrar a atenção da equipe no cumprimento da execução planejada.

Importante ressaltar: mais do que uma trilha de carreira, o que leva um executivo a galgar esta posição cobiçada por muitos são as circunstâncias e desafios que ele experimentou, sem muitas vezes saber onde ia chegar, mas confiando em sua experiência, maturidade e, não poucas vezes, em sua intuição.

Não faltam matérias sobre este tema, mas acredito que, apesar dos tempos serem outros, a melhor inspiração está em saber combinar qualidades que se vê nas biografias de diferentes líderes: os “soft”, como Gandhi; os “bélicos”, como Júlio César; os “arrojados”, como Churchill; “meritocráticas” como Napoleão e os “sábios”, como Jesus. Uma vez processadas internamente essas várias qualidades, este líder saberá dar um direcionamento claro e transparente para que todos andem na mesma direção.

Nesse afã, vale destacar algumas qualidades que o líder da organização deve cultivar.

  1. A primeira é a combinação da qualidade de coragem com a de perseverança. Coragem para enfrentar desafios por maiores que eles possam parecer, caso se interponham entre a meta que lhe compete alcançar e os meios que lhe são disponíveis. A perseverança implica em não desistir e não abandonar esforços a meio caminho, e sim retomar tantas vezes quanto necessário, o curso da sua navegação para alcançar o porto desejado.
  1. A segunda qualidade é o domínio do tempo. Saber organizar as tarefas e a elas imprimir uma velocidade – sem confundir com pressa – compatível com as suas complexidades relativas, de tal maneira que se elimine imperfeições, retrabalhos e outros problemas decorrentes, seja de uma pressa excessiva em executá-lo ou a perda do próprio senso de oportunidade, em termos de sua conclusão.
  1. A terceira qualidade repousa na criação de um ambiente disciplinado, onde respeite-se a autoridade, o que inclui o respeito ao próprio sequenciamento dos processos com a aplicação correta das tecnologias, verificação da qualidade do que está se efetuando e adequada conexão com etapas precedentes e subsequentes de cada tarefa dentro da cadeia de produção que lhe compete efetuar. Em qualquer atividade se estará sempre realizando um elo de uma longa cadeia entre uma matéria prima original e um produto final acabado – e isso requer a extrema capacidade de coordenação e zelo pela qualidade de cada componente desta cadeia.
  1. A quarta qualidade é fazer de um processo de trabalho uma grande escola de aprendizados, onde haja estímulos para se reconhecer e desenvolver os talentos humanos envolvidos, pois as máquinas sozinhas não são suficientes para garantir uma grande produtividade, caso não estejam sendo comandadas por intelectos competentes e comprometidos, dispostos a um contínuo aperfeiçoamento pessoal.

Um ponto final a destacar no bom executivo é a sua apreciação da solitude, entendida como um estado individual positivo e criativo de reflexão sobre sua vida interior e seus compromissos com o mundo que o envolve. Nesta solitude podemos minimizar pressões, evitar subjetividades e, principalmente, deiixar nosso coração nos aconselhar para que a intuição, o saber sentir o que funciona e o que não, possa complementar o que a lógica e a razão nos sugere.

Nesse estado de espírito, carregado de energia, o líder contagia todos os que o cerca na direção de um propósito único da empresa, valorizando a realização integral de seus companheiros de trabalho nos planos pessoal, familiar e profissional.

Guilherme Laager é membro de conselhos de administração e consultor de empresas

Jose Luiz Alqueres é membro de conselhos de administração e consultor de empresas

https://valor.globo.com/carreira/artigo/4-qualidades-fundamentais-para-quem-atua-no-papel-de-um-ceo.ghtml

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Os shoppings e o e-commerce

Com o formato atual, templos do consumo caminham para a derrocada

Luiz Guilherme Piva – Folha – 29.out.2023 

Economista, mestre (UFMG) e doutor (USP) em ciência política e autor de “Ladrilhadores e Semeadores” (Editora 34) e “A Miséria da Economia e da Política” (Manole)

O comércio de rua não desapareceu, mas diminuiu enormemente (em muitos locais, houve mesmo desertificação) com o advento dos shoppings, cujas segurança e concentração de produtos, serviços, lazer e interação social impactaram hábitos de consumo e muitas outras esferas.

Ruas e bairros perderam e ganharam valor, trânsito e vias públicas foram alterados, o perfil dos comerciários mudou, produtos de investimento imobiliário se sofisticaram, a construção civil abriu nichos, maquininhas de cartão proliferaram. Os elevados custos dos lojistas com despesas fixas foram, é óbvio, repassados para os consumidores, processo facilitado pela arquitetura, que os cativa (nos dois sentidos) e excita. Pensem no preço do café, o mesmo praticado nos aeroportos, por motivos parecidos.

Hoje está em curso um grande crescimento do e-commerce. Houve impulso com a pandemia, mas o incremento é alto desde 2018 no mundo todo. No Brasil, em 2022 o salto anual foi de 24% em número de consumidores, com faturamento de R$ 262 bilhões, ante R$ 53,4 bilhões em 2018, conforme a Nielsen|Ebit. No mesmo período, o faturamento dos shoppings ficou praticamente estável e fechou 2022 em R$ 191,8 bilhões, segundo a SBVC (Sociedade Brasileira de Varejo e Consumo). As projeções são de crescimento anual nesse mesmo patamar nos próximos anos, acima da média mundial (11,35%) e do previsto para países como Japão (14,7%) e EUA (14,5%).

A julgar pelo que se deu com a digitalização dos bancos, cujos templos arquitetônicos hoje se resumem —fora os totalmente virtuais— a poucas lojinhas (um vigia, dois terminais sem cédulas e três agentes de consignado), e cujos ganhos se multiplicaram porque a tecnologia fez de todos nós, usuários, sua mão de obra gratuita (assim como nos casos de viagens, comida, ingressos etc.), os shoppings estão caminhando para a derrocada no seu formato 

O e-commerce, com as facilidades que oferece para o consumidor —aqui também trabalhando de graça no lugar do comerciário—, se espalha como uma barragem ruindo sobre os futuros elefantes brancos em que hoje compramos, nos encontramos, frequentamos (pouco) cinema e tomamos café caro.

Como manter os aluguéis, os funcionários, o condomínio, o estoque, a decoração das lojas e vitrines, os equipamentos de exposição, de venda e de pagamento e tudo o mais que está alojado nesses monumentos se é possível cativar (quase sem porta de saída) os compradores (de produtos do mundo todo!) e excitar sua compulsão com a rapidez dos polegares opositores (que nos trouxeram das cavernas até aqui) no celular? Em alguns casos, já é possível até simular o uso de produtos e provar roupas em cenários virtuais.

Comércio de rua paulistano faz demissões e perde lojas na pandemia

Imaginem, nesse horizonte, o que será de ruas e bairros, de produtos financeiros imobiliários, da construção civil, do trânsito, das vias, das maquininhas, dos cinemas (Tudum!), do lazer, dos empregos —enfim, deverá ser o mesmo que já ocorre em várias áreas, só que com o peso sísmico de mastodontes indo para seus cemitérios.

Claro, outras atividades econômicas crescem e crescerão: armazéns, logística, transporte, combustíveis, entrega, embalagens etc. Outras riquezas e pobrezas, lazeres, costumes e valores vão surgir. Talvez até inventemos novas formas de interação social. Agora, tomar café caro, só indo ao aeroporto.

https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2023/10/os-shoppings-e-o-e-commerce.shtml

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NFT morreu? A ascensão e queda de mercado bilionário de bens digitais

De acordo com pesquisadores do Dapp Radar, o valor das transações NFT atingiu seu ponto mais baixo desde a máxima

Joe Tidy – BBC News Brasil – 10.nov.2023 

Quando Homer Simpson bola um plano para ficar rico rápido, geralmente acaba mal.

Num episódio recente do desenho animado “Os Simpsons”, o pai de família transforma seu filho Bart, e depois ele mesmo, em NFTs para ganhar milhões.

Tudo dá errado quando Homer descobre através de um gato flutuante com corpo de pizza que “a mania do NFT acabou”.

Mas o gato com corpo de pizza está certo e os NFTs estão realmente mortos?

Os dados mostram que este mercado caiu ao seu menor nível nos últimos meses.

Mas alguns acham que ainda há esperanças.

O que são NFTs e a baixa do mercado

NFT é a sigla em inglês para non-fungible token (token não fungível, em português). São tokens digitais de propriedade, geralmente comprados com criptomoeda.

Frequentemente, eles estão vinculados a imagens ou vídeos, mas possuir um NFT normalmente não significa que o comprador obtenha os direitos autorais da imagem.

Qualquer pessoa pode visualizá-lo online e até copiá-lo e salvá-lo, mas apenas o comprador tem o status de proprietário oficial de seu token. A prova está gravada no registro não editável da blockchain —uma espécie de “planilha gigante” de transações publicada online.

De acordo com pesquisadores do Dapp Radar, o valor das transações NFT atingiu seu ponto mais baixo desde a máxima.

O volume de negócios caiu 89% desde o início de 2022. No primeiro trimestre daquele ano, eram US$ 12,6 bilhões (R$ 62 bilhões) em transações e agora, no terceiro trimestre de 2023, reduziu-se a US$ 1,39 bilhão.

Macacos entediados

E o setor está encolhendo. Em outubro, a empresa Yuga Labs —criadora dos famosos NFTs de macacos entediados— anunciou demissões, sem divulgar números específicos de funcionários dispensados.

O Bored Ape Yacht Club (Iate Clube do Macaco Entediado, em tradução livre), é uma de suas séries mais famosas. A série teve NFTs vendidos por milhões de dólares, alimentados por compradores famosos, incluindo o apresentador de talk show Jimmy Fallon e a socialite Paris Hilton.

Paris Hilton não publica no X (antigo Twitter) sobre NFTs desde outubro de 2022, apesar dos tuítes quase diários em janeiro e fevereiro de 2022 para promover suas coleções.

De acordo com o site NFT Price Floor, o preço mínimo dos NFTs do Macaco Entediado (o valor dos itens mais baratos da coleção) atingiu o pico no início de maio de 2022, custando então cerca de US$ 268 mil (R$ 1,3 milhão).

Agora, esse valor caiu para US$ 56 mil. O colecionador e artista Taylor Whitley, dos EUA, sentiu-se forçado a vender seis de seus sete NFTs do Macaco Entediado, pois as ofertas que recebia estavam ficando cada vez piores.

“Eu realmente não queria vender, mas o mercado está muito ruim, então é a coisa mais inteligente a fazer. Acho que o mercado de NFT pode até cair ainda mais”, disse ele à BBC.

No mês passado, Taylor vendeu seu Macaco Entediado mais valioso por US$ 212 mil, depois de ter recusado ofertas muito maiores por ele no passado.

Ele poderia ter conseguido pelo menos 10 vezes mais por seus NFTs se tivesse vendido na máxima.

Para cada NFT de macaco entediado, existem milhões de outras marcas e artistas menores que compõem o setor.

Angie Taylor, da Escócia, chegou a vender sua arte em NFT por até US$ 8 mil por item, mas agora ela recebe cerca de US$ 600.

Ela teve que voltar ao seu trabalho pré-NFT como professora particular em meio período.

“Ainda estou vendendo algumas coisas aqui e ali, mas também tenho que trabalhar num emprego comum. Não consigo mais ganhar a vida com isso sem nada mais”, diz.

Mas ela sempre pensou que a bolha iria estourar.

“Eu meio que planejei meu orçamento para quando isso acontecesse, porque pensei, este é um tipo de situação de expansão e queda”, diz ela.

Mercado comprador

É claramente o momento dos compradores, e há muitos deles satisfeitos por aí, aproveitando ao máximo a queda de preços.

Adam (conhecido online como Little Fish) recentemente comprou o NFT de uma obra de arte criptopunk por US$ 663 mil (R$ 3,2 milhões).

O investidor em criptomoedas em tempo integral reconhece que é uma grande quantia em dinheiro, mas acha que conseguiu uma pechincha por seu CryptoPunk #3609.

Afinal, há um ano o vendedor rejeitou uma oferta de US$ 1,18 milhão (R$ 5,8 milhões).

“Foi exatamente por causa da crise que comprei. As pessoas estão desesperadas. No inverno, você pode comprar roupas de verão baratas”, diz ele.

Adam acredita que o verão voltará para os NFTs e ele “vai aproveitar” quando isso acontecer.

Inverno cripto

Sua analogia com as mudanças de estações tem paralelo com o estado atual do mercado de criptomoedas.

Moedas digitais como o Bitcoin e o Ethereum (ETH) não se recuperaram de várias quedas abruptas em 2022, que fizeram o valor desses ativos despencar e depois estagnar no que muitos chamam de “inverno cripto”.

Há sinais recentes de melhora, com o Bitcoin subindo para US$ 34 mil por moeda, mas o avanço estagnou e não está nem perto dos US$ 70 mil do final de 2022.

Embora os NFTs sejam um produto diferente, eles têm como base a mesma tecnologia blockchain das criptomoedas, e a riqueza de muitos dos maiores compradores de NFT está ligada às criptomoedas.

Quando os criptoativos valem mais, eles têm mais dinheiro para gastar em NFTs.

O maior investidor de NFT de todos os tempos é Vignesh Sundaresan —conhecido como MetaKovan.

Seu gasto recorde de US$ 69 milhões (R$ 340 milhões) em um NFT do artista americano Beeple foi um dos grandes catalisadores que fizeram o mercado disparar em março de 2021.

“Ainda há um longo caminho a percorrer antes de podermos olhar para trás e ver se foi uma boa compra ou não”, diz Sundaresan. “Era definitivamente muito dinheiro, mas não era uma quantia significativa da minha riqueza.”

Sundaresan ainda acredita que os NFTs têm um futuro brilhante como itens de arte colecionáveis, mas acha que os dias de boom acabaram.

“Tudo nos criptoativos acontece muito rápido e acho que a próxima fase dos NFTs não será sobre preço. As pessoas que estão especulando estão assumindo um risco enorme porque nem é como se a oferta fosse finita”, diz ele.

Sundaresan critica o setor que capitalizou a mania especulativa e deixou muitas pessoas sem dinheiro.

“Não vi nenhum bom negócio sustentável em torno dos NFTs”, afirma.

Pinguins fofinhos

Um negócio NFT que parece estar contrariando a tendência são os Pudgy Penguins —uma marca que recentemente começou a vender pelúcias baseadas em seus personagens NFT.

Cada brinquedo vendido gera royalties ao detentor do NFT do Pudgy Penguin correspondente.

Permitir que os proprietários de NFT ganhem dinheiro através da propriedade intelectual parece ser uma tendência que está potencialmente reavivando o interesse pelos produtos.

Os Pudgy Penguins mantiveram um preço mínimo semelhante a seu pico em janeiro de 2023, de acordo com o site NFT Floor Price.

Pudgy Penguin à venda no site britânico do Walmart – Reprodução/Walmart via BBC

Outra nova forma de oferecer incentivos aos compradores é por meio da adesão a eventos exclusivos, versões físicas de NFTs e compartilhamento dos royalties de artistas.

O empresário britânico de NFTs conhecido como Pranksy acredita que a experimentação é a chave para a retomada do mercado.

“Prevejo que um pequeno número de indivíduos e marcas inovadores serão capazes de liderar a adoção entre pessoas comuns”, diz ele.

Ele avalia que o mercado vai se valorizar novamente, mas admite que é improvável que atinja os níveis de “pandemônio” vistos anteriormente.

Reportagem adicional de Liv McMahon

https://www.bbc.com/portuguese/articles/clepn290n63o

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Estrutura metálica: a construção civil ainda na idade do tijolo empilhado

Evandro Milet – Portal ES360 – 19/11/2023

Em 1931 foi inaugurado em Nova York o então edifício mais alto do mundo, o Empire State Building, construído em apenas um ano e 45 dias com 50.000 vigas de aço na estrutura. A construção em estrutura metálica permite uma arquitetura mais leve, com redução do peso total, e também das cargas na fundação, colunas mais estreitas e vãos maiores, maior limpeza no canteiro de obras e redução de ruídos. 

A utilização do aço facilita a industrialização do processo com partes montadas fora do canteiro e encaixadas como um grande lego, reduzindo o tempo da obra com todos os reflexos financeiros positivos que se possa imaginar. Com o aço, o entulho da obra deixa de existir ou é reciclado. Por serem mais leves, as estruturas metálicas podem reduzir em até 30% o custo das fundações.

E por que então, depois de tanto tempo,  se usa muito pouco ainda a estrutura metálica no Brasil? O manicômio tributário é uma das causas. Se tudo for feito no canteiro paga-se menos imposto do que um processo industrial inteligente. Se for no canteiro paga ISS, e se quiser ser mais inteligente tem que pagar ICMS. Segundo o CBCA, 148% a mais de imposto, o que torna a construção metálica 48% mais cara que a de alvenaria. Cálculos feitos mostram que uma equalização dos impostos traria essa diferença de custo para 20%, compensados pela velocidade da obra, menos barulho e sujeira, além do aço ser infinitamente reciclável. Há esperança que a reforma tributária em processo de aprovação no Congresso venha resolver o problema, facilitando o uso geral de pré-moldados na construção e reduzindo o retrabalho. 

Outra causa da pouca utilização do aço é o desconhecimento e pouca familiaridade em geral de engenheiros e arquitetos com essa alternativa. Das universidades federais apenas duas, no Espírito Santo e Minas Gerais, têm tempo equivalente da utilização de aço e concreto armado nos cursos de engenharia e arquitetura. A ArcelorMittal tem patrocinado cursos para arquitetos e pretende estendê-los para outros estados.

Outra causa ainda é a alta informalidade e pouca capacitação da mão de obra no setor, onde a estatística aponta para 55% dos 10 milhões de trabalhadores na construção civil nessa situação.

A utilização do aço fica um pouco escondida para leigos que acabam não sabendo que a belíssima nova Ciclovia da Vida, na Terceira Ponte,  ligando Vitória e Vila Velha, foi feita com 2.700 toneladas de aço capixaba com grande agilidade no processo de construção. Devido à proximidade ao mar, foram levantadas preocupações em relação à utilização do aço nesse ambiente agressivo. Porém, a proteção do aço é garantida com aplicação de revestimento adequado com pintura, o que promove maior vida útil para a estrutura. Afinal, navios não são construídos em concreto armado. O problema da corrosão é resolvido com tecnologia adequada. Aliás, o vão central da Terceira Ponte, em 1989, foi feito em aço.

A construção civil tem avançado na utilização de softwares BIM – Building Information Modelling, equipamentos com tecnologia e certificações sustentáveis, mas permanece na idade do tijolo empilhado na estrutura, principalmente para edifícios. Segundo uma pesquisa da McKinsey em 2019, a construção civil só fica na frente da pesca em desenvolvimento tecnológico em um comparativo entre setores. E não só no Brasil.

O Espírito Santo poderia ser um grande centro irradiador dessa tecnologia para o país, unindo empresas construtoras, fornecedoras, escritórios de engenharia e arquitetura e  academia. Fica a ideia.

https://es360.com.br/coluna-inovacao/post/estrutura-metalica-a-construcao-civil-ainda-na-idade-do-tijolo-empilhado/

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A beleza das histórias

A mente engajada por alguma emoção e curiosidade encontra prazer e sentido na leitura de ficção ou não ficção

Por Isabel Clemente – Valor –  26/10/2023

Carioca, é formada em Jornalismo pela PUC-Rio e mestre em Escrita Criativa pela Royal Holloway, University of London

Costumo dizer que as crianças editam histórias como ninguém. Pergunte a uma criança pequena o que ela mais gostou durante as férias e você vai ouvir uma narrativa – um tanto fora de ordem talvez – pautada por momentos marcantes.

Nunca esqueci como, a caminho do aeroporto, a minha filha mais velha resumiu uns dias na Bahia. “Eu gostei daquela parte do sapo parado na porta do nosso quarto; eu gostei também daquela parte que o papai cavou um buraco bem fundo na areia e eu entrei; eu gostei do sorvete na fazenda de cacau e daquela parte do jacaré perto da gente.”

Surpresas (sapo na porta), desafio (buraco na areia), sentidos apurados (sorvete gostoso) e medo (jacaré) compunham as cenas que ficaram depois da nossa pequena aventura na praia, uma história comum mas repleta de cenas que valeram a pena pela ótica da menina. Um reparo: o medo do jacaré vai pra conta da mãe que não desgrudou os olhos do animal e do pai que tratou de segurar a filha menorzinha bem no alto para não ser confundida com presa.

A mente engajada por alguma emoção e curiosidade – e também estimulada intelectualmente – encontra prazer e sentido na leitura, seja ela de ficção ou não ficção. É tão forte essa relação que eu ainda não entendi como a IA poderá substituir esse lado humano da escrita. Mas vou deixar a polêmica para depois.

As histórias nos ajudam a ligar os pontos. Conectam ideias aparentemente distantes.

Foi numa segunda-feira que a notícia triste chegou. Dois dias antes, eu havia comprado o livro “Escute as feras”, de Nastassja Martin (Editora 34, 2021), depois de o livreiro ter me entregado um exemplar com a recomendação: “esse também é muito bom”. Fisgada pelas primeiras linhas – “O urso, a essa altura, já se foi há muitas horas, e eu espero, espero a bruma se dissipar” – levei o livro para casa.

No livro, Nastassja Martin, uma antropóloga francesa que sobreviveu ao ataque de um urso, narra o antes, o durante e o depois desse acontecimento que transformou seu corpo e sua alma. Uma mulher espantou o urso. Espantoso.

Em busca de sentido para a notícia triste, pensei, “meu amigo está lutando com um urso e, como ela, irá vencer”. Eu me engajei na leitura traçando o paralelo enquanto pude. Ele sairá meio humano e meio fera, como aquela tribo da Sibéria acredita ser o caso das pessoas que sobrevivem a ataques de ursos. A batalha dele será árdua, imaginei, igual à dela, porque feras silenciosas, como a doença que se espalhava pelo corpo sem ser notada – não dão muita chance de reação.

Eu estava errada.

A fera que ele encarou – e que agora todos que o amamos enfrentamos por tabela – é a eternidade, essa inconcebível noção do tempo que espreita dali de onde a vida terrena termina.

Não se trata mais de brigar pela vida. O desafio agora é aceitar que entendemos tanto da eternidade quanto a humanidade dos ursos. Por mais que seus hábitos sejam estudados, ninguém jamais viveu o mistério de ser urso – muito menos o mistério de ser eterno.

A história de Nastassja oferece passagens com belas metáforas (“Observo os barcos e suas correntes enferrujadas que desaparecem sob a superfície da água. Penso que mais vale aceitar minha inadequação, me atracar a meu mistério.”) e trechos que nos convidam a refletir sobre o inesperado (“Penso no urso. Se ele está vivo, pelo menos está levando sua vida de urso sem toda essa violência simbólica e concreta cujas consequências estou sofrendo.)

Gosto de acreditar que o livro me preparou de alguma forma para a mais triste das notícias, aquela que a psicanálise diz não ter representação no inconsciente, a morte.

Retomei com voracidade a leitura do livro. Na página 58, a autora reflete sobre o “acontecimento urso”. Penso no acontecimento morte. “No encontro entre mim e o urso, em seu maxilar contra o meu maxilar, existe uma violência inaudita, que exprime a violência que trago em mim.”

Que violência é essa que a morte exprime?

“Pensando no urso daqui onde me encontro, desse quarto na casa da minha mãe na França, não consigo escapar do jogo de analogias”, escreve Nastassja na página 58. Eu, da minha casa no Rio de Janeiro, não consigo escapar da analogia entre o livro dela e o que se passa ao meu redor. “Cansada, eu me sinto incapaz de ir além por enquanto”, diz a autora, duas páginas adiante. “Se eu não mandar notícias por aqui ou demorar é porque tenho andado cansado”, me escreveu meu amigo, alguns dias antes de partir.

Encontrei na história da antropóloga francesa razões para encarar minhas tristezas. A morte do meu amigo é o terceiro luto que enfrento este ano. O primeiro foi de um primo, o segundo, o da minha mãe. São acontecimentos em série que fazem a gente cair na real. Como diz a escritora Nora McInerny num TED Talk sobre luto, com quase 7 milhões de visualizações no YouTube: “A pesquisa que eu vi vai chocar vocês mas todo mundo que você ama tem 100% de chance de morrer”. E todo mundo ri na plateia. Talvez por falta de opção.

Se eu falar mais do livro, vou estragar o fim. Foi a desculpa que arrumei hoje para te lembrar que histórias são insubstituíveis. Elas nos movem, emocionam, encorajam, informam, inspiram, fazem pensar.

Por isso, até histórias sobre a natureza funcionam como uma rede inesperada de amparo, nos lembrando que há beleza no caos, delicadeza em meio à violência, medos enfrentados e fé na escuridão. A gente começa a editar a própria história e encontra um enredo cheio de partes que valeram muito a pena na vida do amigo e que continuam valendo na vida de quem ficou.

https://valor.globo.com/opiniao/isabel-clemente/coluna/a-beleza-das-historias.ghtml

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Por que precisamos da matemática na tecnologia e inovação

Gêmeos virtuais são exemplo da aplicação prática da matemática e da computação

Marcelo Viana – Folha – 14.nov.2023
Diretor-geral do Instituto de Matemática Pura e Aplicada, ganhador do Prêmio Louis D., do Institut de France.

São chamados “gêmeos digitais”: representações matemáticas e computacionais de sistemas e equipamentos complexos, que usam inteligência artificial alimentada por dados reais para reproduzir o comportamento do equipamento de modo virtual. Na vanguarda da tecnologia, eles estão começando a se espalhar por toda parte.

O gêmeo virtual de uma central nuclear permite prever como as suas componentes vão envelhecer e até testar novas componentes em segurança dentro de um computador. Também já existem gêmeos virtuais de pessoas (para as que podem pagar…): eles permitem testar antecipadamente terapias e suas dosagens, com base nos dados clínicos.

Usinas nucleares ao lado do mar

Usinas Angra 2 (à esquerda) e Angra 1 (à direita), em Angra dos Reis (RJ) – Divulgação/Eletronuclear

É só um exemplo de como as aplicações da matemática e da computação estão invadindo novas áreas da atividade humana. São aplicações sofisticadas e instigantes, que requerem alto nível de qualificação nas ciências matemáticas e que têm potencial para revolucionar diferentes áreas da economia.

Simulação em computador de ônibus espacial pronto para tentativa de vôo a Marte, em 2010 – Reprodução

Que a matemática pode contribuir muito para a produção de riqueza é fato conhecido. Estudos técnicos realizados a partir de 2010 no Reino Unido, Holanda, França, Austrália e Espanha constataram que a atividade econômica baseada na matemática gera cerca de 15% do Produto Interno Bruto desses países. Além disso, empregos com uso intensivo da matemática auferem melhores salários e são mais resilientes perante crises, como aconteceu na pandemia.

No Brasil, um estudo análogo está sendo finalizado neste momento pelo Itaú Social. Brevemente, ele permitirá avaliar a nossa inserção no cenário global e o potencial inexplorado da matemática para contribuir para o desenvolvimento do país. E sabemos que a realização desse potencial exige profissionais altamente qualificados no uso das ferramentas matemáticas na resolução de problemas reais, outra de nossas carências.

É nesse contexto que o Instituto de Matemática Pura e Aplicada está criando o ImpaTech, programa de graduação em matemática da tecnologia e inovação que irá funcionar, a partir de 2024, dentro do Hub de Inovação do Rio de Janeiro. É uma parceria com a prefeitura da cidade, com o apoio do Governo Federal.

Selecionando candidatos prioritariamente a partir das olimpíadas de conhecimento, para alcançar os jovens mais talentosos de que o Brasil dispõe, e prestando apoio financeiro aos estudantes durante o curso, o ImpaTech oferecerá formação com ênfases em matemática, ciência da computação, ciência de dados e física. O objetivo é formar profissionais habilitados a mudar o mundo por meio das ciências matemáticas.

https://www1.folha.uol.com.br/colunas/marceloviana/2023/11/porque-precisamos-da-matematica-na-tecnologia-e-inovacao.shtml

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Tecnologia dos carros flex, “a jabuticaba brasileira”

O consumo de etanol pelos veículos flex em substituição à gasolina reduz as emissões de gases de efeito estufa (GEE) em até 90%

Por Giovana Araújo*- O GloboRural – 15/11/2023 


Frequentemente utilizada, a expressão “jabuticaba brasileira” descreve algo que é exclusivo do Brasil e que não existe em nenhum outro lugar do mundo. Na chamada “Era de Ouro da Globalização”, que ficou definitivamente para trás, caracterizada pela ambição de economias nacionais abertas e desreguladas, as nossas “jabuticabas” muitas vezes eram vistas como indesejadas.

Com a emergência da “nova economia”, marcada pela priorização de interesses nacionais e pela emergência da agenda climática, é preciso construir um outro olhar sobre as nossas peculiaridades, particularmente no que tange as estratégias de descarbonização da matriz de transportes do país.

Neste contexto, uma das jabuticabas que merece destaque é a tecnologia dos carros flex, surgida em 2003, no Brasil, com o lançamento do Gol 1.6 Total Flex. De forma pioneira e disruptiva, a tecnologia trouxe a possibilidade de escolha entre gasolina, etanol ou a mistura desses dois combustíveis em qualquer proporção para abastecimento dos veículos.

O carro flex foi uma inovação da indústria automotiva no país, que abriu relevante avenida de crescimento do etanol para fins combustíveis e geração de valor pelo setor sucroenergético.

Naquele ano, o setor produzia 14,7 bilhões de litros de etanol. Desde então, a agroindústria mais que duplicou a produção de etanol para os atuais 31,0 bilhões de litros, considerando o etanol de cana-de-açúcar e o etanol de milho. Passados 20 anos, a cadeia sucroenergética movimenta hoje um valor bruto superior a US$ 100 bilhões e registra um PIB de, aproximadamente, US$ 40 bilhões, além de gerar US$ 13,4 bilhões em divisas externas com as exportações de açúcar e de etanol.

Para além do valor econômico gerado no país, existem também as externalidades socioambientais da produção sucroenergética, amplamente conhecidas. O consumo de etanol pelos veículos flex em substituição à gasolina reduz as emissões de gases de efeito estufa (GEE) em até 90%. Desde o lançamento dos veículos flex no Brasil, o consumo de etanol para fins combustíveis no país reduziu a emissão de gases de efeito estufa (GEE) em mais de 630 milhões de toneladas de CO2eq12, o equivalente ao plantio de 4,5 bilhões de árvores.

A contribuição da geração de bioeletricidade, a partir da biomassa de cana, para a rede é relevante – 18,4 TWh em 2022, o equivalente a 15,4% de todo consumo residencial do Brasil no ano – o que traz uma série de benefícios, entre os quais, a poupança nos níveis de água nos reservatórios das hidrelétricas do subsistema Sudeste e Centro-Oeste. E não menos importante, a cadeia de valor sucroenergética emprega 2,1 milhões de pessoas, considerando diretos e indiretos.

Olhando para frente, o potencial de geração de valor econômico e socioambiental da cadeia sucroenergética é ainda mais promissor, com destaque para novos produtos – como biogás, nosso “pré-sal caipira”, e o biometano – e novos usos, como a produção de insumo para combustíveis renováveis na aviação e fertilizantes.

Leia mais análises e opiniões de especialistas e lideranças do agro

A vocação tripartite do setor sucroenergético como provedor de energia renovável, alimentos e rações, incentiva a inovação a ser inerentemente circular, integrando, inclusive, outras cadeias produtivas, ao mesmo tempo que diversifica a renda e maximiza o retorno dos produtores.

Vivemos um ponto de inflexão da mobilidade globalmente e novas tecnologias estão sendo importadas pelo Brasil, entre as quais, os veículos híbridos e os veículos elétricos a bateria, que podem ser alimentados com biocombustíveis ou recarregados com eletricidade.

O estudo “Vigor híbrido: por que os híbridos com biocombustíveis sustentáveis são melhores que os veículos elétricos puros”, conduzido por pesquisadores da USP/UNICAMP/UNESP, mostra que as emissões calculadas de gases de efeito estufa (por quilômetro) para veículos híbridos que utilizam etanol são 26% inferiores às observadas para veículos elétricos a bateria no Brasil.

Além disso, são 47% inferiores para veículos elétricos a bateria na Europa, onde a intensidade de carbono da matriz elétrica é alta comparativamente à brasileira. Os resultados para o biometano para fins combustíveis são ainda mais impressionantes. As emissões por quilômetro para um veículo híbrido com biometano são 43% inferiores às observadas para veículos elétricos a bateria no Brasil e 59% inferiores para veículos elétricos a bateria na Europa.

Os caminhos para a descarbonização da matriz de transportes e da economia brasileira são múltiplos. É preciso, entretanto, priorizar e valorizar as alternativas em que temos diferenciais competitivos na produção e que gerem valor ambiental, social e econômico no país.

Quando é considerado o inventário das emissões de GEE associadas ao ciclo de vida do combustível – desde o “poço até rodas” e as emissões associadas à fabricação de veículos, geração de eletricidade e infraestrutura de recarga – a eficácia ambiental dos biocombustíveis está comprovada. Neste contexto, o etanol precisa se transformar em uma paixão nacional. Afinal de contas, jabuticaba como essa só existe aqui no Brasil.

* Giovana Araújo é sócia líder de agronegócio da KPMG no Brasil.

Obs: As ideias e opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva de seu autor e não representam, necessariamente, o posicionamento editorial da revista Globo Rural

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Como a IA ajudou a “reunir” os Beatles para gravar uma nova canção

A nova música, que conta com vocais de John Lennon, levou 50 anos para ser finalizada – e só foi possível com a ajuda da inteligência artificial

David Salazar – Fast Company Brasil – 08-11-2023 

Toda vez que ouvimos Beatles é difícil não ficar imaginando “e se?”. E se eles nunca tivessem se separado? E se John Lennon nunca tivesse sido assassinado? Quantas outras canções poderiam ter sido criadas?

Agora, temos um vislumbre interessante de qual seria a resposta para algumas dessas perguntas com “Now and Then”, a nova faixa que está sendo anunciada como a última música dos Beatles.

Coproduzida por Paul McCartney e Giles Martin, a canção incorpora elementos dos quatro rapazes de Liverpool – incluindo os vocais de John Lennon, que foram originalmente gravados em uma fita na década de 1970.

Now and Then” esteve em desenvolvimento por décadas, e sua existência pode ser atribuída, em parte, aos membros remanescentes da banda, a Yoko Ono, ao produtor e diretor de cinema Peter Jackson e ao machine learning.

Antes de trabalhar no projeto “The Beatles Anthology”, de 1995, que incluiu um documentário para a televisão, três álbuns duplos e um livro, a viúva de Lennon enviou quatro fitas demo a McCartney, George Harrison e Ringo Starr.

Quando os três Beatles se reuniram em estúdio, eles conseguiram transformar duas dessas demos em canções completas, “Free as a Bird” e “Real Love”. Também gravaram algumas partes de guitarra e bateria para acompanhar a faixa “Now and Then” de Lennon. Mas a produção se mostrou inviável: a qualidade da gravação era muito ruim e a voz estava abafada pelo som do piano e de uma televisão ao fundo.

A demo permaneceu nos arquivos de McCartney até recentemente, quando o trabalho de Jackson no documentário “The Beatles: Get Back”, lançado em 2021, abriu as portas para a mixagem de áudio com inteligência artificial.

Jackson e sua equipe desenvolveram a tecnologia para a série, usando-a para isolar e melhorar vozes e instrumentos de gravações mono feitas na década de 1970, como parte de um documentário chamado “Let it Be”, lançado simultaneamente ao álbum.

McCartney pediu que aplicassem a tecnologia ao registro de “Now and Then”, e eles finalmente conseguiram isolar adequadamente os vocais de Lennon do som de fundo. Com ajuda da tecnologia, o artista se dedicou a transformar a demo em uma música completa dos Beatles.

Além de gravar suas próprias partes de baixo e harmonias, McCartney recuperou rifes de guitarra que Harrison havia gravado em 1995, convocou Starr para tocar bateria e pediu a Martin que escrevesse acordes para os instrumentos de cordas. Também criou um solo de guitarra inspirado em Harrison. O resultado é uma canção surpreendentemente coesa, apesar de ser montada com elementos de diferentes décadas.

Martin enfatiza que os fãs não devem se preocupar com a tecnologia usada para criar a música. A indústria vem trabalhando nesse sentido há muito tempo. Ele tentou usar uma versão mais rudimentar para revisitar o catálogo dos Beatles alguns anos atrás, “mas não era suficiente”. A tecnologia usada em “The Beatles: Get Back” foi um divisor de águas.

O produtor também destaca a importância de as pessoas compreenderem que a criatividade humana ainda está no centro da música. Mesmo que a IA estivesse envolvida, ela não foi usada para criar vocais sintéticos de Lennon.

“Era fundamental para nós garantir que os vocais fossem de John, e não uma versão gerada por machine learning”, afirma Martin, cujo pai, George Martin, foi por muito tempo produtor da banda.

Embora esse esforço esteja sendo usado, em parte, para promover o relançamento dos álbuns da antologia 1962-1966 e 1967-1970 (conhecidos como “álbum vermelho” e “álbum azul”), Martin deixa claro que não se trata de uma jogada de marketing.

Ele diz que foi um projeto movido pelo amor, principalmente por parte de McCartney. “As pessoas podem achar difícil acreditar, mas não foi ideia de algum executivo de marketing”, diz ele. “Paul fez isso por conta própria e depois me chamou para ajudar.”

Na verdade, a música soa exatamente como o que é: uma oportunidade para voltar a um período em que faziam música juntos, com letras de Lennon que parecem ser premonitoriamente nostálgicas. É uma despedida, sem dúvida, mas por quatro minutos e oito segundos, os Beatles estão de volta à vanguarda da música.

“Eles usaram as ferramentas disponíveis de maneira inovadora – seja criando loops de partes gravadas em fita ou rifes de guitarras invertidos”, diz Martin.

A tecnologia pode ter mudado, mas o espírito inventivo que ajudou a criar “Revolver” e “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band” permanece – e está evidente na nova canção. “Adoro ver os Beatles explorando novas tecnologias, como fizeram quando meu pai trabalhava com eles”, completa.


SOBRE O AUTOR

David Salazar é editor associado da Fast Company.

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