NFT morreu? A ascensão e queda de mercado bilionário de bens digitais

De acordo com pesquisadores do Dapp Radar, o valor das transações NFT atingiu seu ponto mais baixo desde a máxima

Joe Tidy – BBC News Brasil – 10.nov.2023 

Quando Homer Simpson bola um plano para ficar rico rápido, geralmente acaba mal.

Num episódio recente do desenho animado “Os Simpsons”, o pai de família transforma seu filho Bart, e depois ele mesmo, em NFTs para ganhar milhões.

Tudo dá errado quando Homer descobre através de um gato flutuante com corpo de pizza que “a mania do NFT acabou”.

Mas o gato com corpo de pizza está certo e os NFTs estão realmente mortos?

Os dados mostram que este mercado caiu ao seu menor nível nos últimos meses.

Mas alguns acham que ainda há esperanças.

O que são NFTs e a baixa do mercado

NFT é a sigla em inglês para non-fungible token (token não fungível, em português). São tokens digitais de propriedade, geralmente comprados com criptomoeda.

Frequentemente, eles estão vinculados a imagens ou vídeos, mas possuir um NFT normalmente não significa que o comprador obtenha os direitos autorais da imagem.

Qualquer pessoa pode visualizá-lo online e até copiá-lo e salvá-lo, mas apenas o comprador tem o status de proprietário oficial de seu token. A prova está gravada no registro não editável da blockchain —uma espécie de “planilha gigante” de transações publicada online.

De acordo com pesquisadores do Dapp Radar, o valor das transações NFT atingiu seu ponto mais baixo desde a máxima.

O volume de negócios caiu 89% desde o início de 2022. No primeiro trimestre daquele ano, eram US$ 12,6 bilhões (R$ 62 bilhões) em transações e agora, no terceiro trimestre de 2023, reduziu-se a US$ 1,39 bilhão.

Macacos entediados

E o setor está encolhendo. Em outubro, a empresa Yuga Labs —criadora dos famosos NFTs de macacos entediados— anunciou demissões, sem divulgar números específicos de funcionários dispensados.

O Bored Ape Yacht Club (Iate Clube do Macaco Entediado, em tradução livre), é uma de suas séries mais famosas. A série teve NFTs vendidos por milhões de dólares, alimentados por compradores famosos, incluindo o apresentador de talk show Jimmy Fallon e a socialite Paris Hilton.

Paris Hilton não publica no X (antigo Twitter) sobre NFTs desde outubro de 2022, apesar dos tuítes quase diários em janeiro e fevereiro de 2022 para promover suas coleções.

De acordo com o site NFT Price Floor, o preço mínimo dos NFTs do Macaco Entediado (o valor dos itens mais baratos da coleção) atingiu o pico no início de maio de 2022, custando então cerca de US$ 268 mil (R$ 1,3 milhão).

Agora, esse valor caiu para US$ 56 mil. O colecionador e artista Taylor Whitley, dos EUA, sentiu-se forçado a vender seis de seus sete NFTs do Macaco Entediado, pois as ofertas que recebia estavam ficando cada vez piores.

“Eu realmente não queria vender, mas o mercado está muito ruim, então é a coisa mais inteligente a fazer. Acho que o mercado de NFT pode até cair ainda mais”, disse ele à BBC.

No mês passado, Taylor vendeu seu Macaco Entediado mais valioso por US$ 212 mil, depois de ter recusado ofertas muito maiores por ele no passado.

Ele poderia ter conseguido pelo menos 10 vezes mais por seus NFTs se tivesse vendido na máxima.

Para cada NFT de macaco entediado, existem milhões de outras marcas e artistas menores que compõem o setor.

Angie Taylor, da Escócia, chegou a vender sua arte em NFT por até US$ 8 mil por item, mas agora ela recebe cerca de US$ 600.

Ela teve que voltar ao seu trabalho pré-NFT como professora particular em meio período.

“Ainda estou vendendo algumas coisas aqui e ali, mas também tenho que trabalhar num emprego comum. Não consigo mais ganhar a vida com isso sem nada mais”, diz.

Mas ela sempre pensou que a bolha iria estourar.

“Eu meio que planejei meu orçamento para quando isso acontecesse, porque pensei, este é um tipo de situação de expansão e queda”, diz ela.

Mercado comprador

É claramente o momento dos compradores, e há muitos deles satisfeitos por aí, aproveitando ao máximo a queda de preços.

Adam (conhecido online como Little Fish) recentemente comprou o NFT de uma obra de arte criptopunk por US$ 663 mil (R$ 3,2 milhões).

O investidor em criptomoedas em tempo integral reconhece que é uma grande quantia em dinheiro, mas acha que conseguiu uma pechincha por seu CryptoPunk #3609.

Afinal, há um ano o vendedor rejeitou uma oferta de US$ 1,18 milhão (R$ 5,8 milhões).

“Foi exatamente por causa da crise que comprei. As pessoas estão desesperadas. No inverno, você pode comprar roupas de verão baratas”, diz ele.

Adam acredita que o verão voltará para os NFTs e ele “vai aproveitar” quando isso acontecer.

Inverno cripto

Sua analogia com as mudanças de estações tem paralelo com o estado atual do mercado de criptomoedas.

Moedas digitais como o Bitcoin e o Ethereum (ETH) não se recuperaram de várias quedas abruptas em 2022, que fizeram o valor desses ativos despencar e depois estagnar no que muitos chamam de “inverno cripto”.

Há sinais recentes de melhora, com o Bitcoin subindo para US$ 34 mil por moeda, mas o avanço estagnou e não está nem perto dos US$ 70 mil do final de 2022.

Embora os NFTs sejam um produto diferente, eles têm como base a mesma tecnologia blockchain das criptomoedas, e a riqueza de muitos dos maiores compradores de NFT está ligada às criptomoedas.

Quando os criptoativos valem mais, eles têm mais dinheiro para gastar em NFTs.

O maior investidor de NFT de todos os tempos é Vignesh Sundaresan —conhecido como MetaKovan.

Seu gasto recorde de US$ 69 milhões (R$ 340 milhões) em um NFT do artista americano Beeple foi um dos grandes catalisadores que fizeram o mercado disparar em março de 2021.

“Ainda há um longo caminho a percorrer antes de podermos olhar para trás e ver se foi uma boa compra ou não”, diz Sundaresan. “Era definitivamente muito dinheiro, mas não era uma quantia significativa da minha riqueza.”

Sundaresan ainda acredita que os NFTs têm um futuro brilhante como itens de arte colecionáveis, mas acha que os dias de boom acabaram.

“Tudo nos criptoativos acontece muito rápido e acho que a próxima fase dos NFTs não será sobre preço. As pessoas que estão especulando estão assumindo um risco enorme porque nem é como se a oferta fosse finita”, diz ele.

Sundaresan critica o setor que capitalizou a mania especulativa e deixou muitas pessoas sem dinheiro.

“Não vi nenhum bom negócio sustentável em torno dos NFTs”, afirma.

Pinguins fofinhos

Um negócio NFT que parece estar contrariando a tendência são os Pudgy Penguins —uma marca que recentemente começou a vender pelúcias baseadas em seus personagens NFT.

Cada brinquedo vendido gera royalties ao detentor do NFT do Pudgy Penguin correspondente.

Permitir que os proprietários de NFT ganhem dinheiro através da propriedade intelectual parece ser uma tendência que está potencialmente reavivando o interesse pelos produtos.

Os Pudgy Penguins mantiveram um preço mínimo semelhante a seu pico em janeiro de 2023, de acordo com o site NFT Floor Price.

Pudgy Penguin à venda no site britânico do Walmart – Reprodução/Walmart via BBC

Outra nova forma de oferecer incentivos aos compradores é por meio da adesão a eventos exclusivos, versões físicas de NFTs e compartilhamento dos royalties de artistas.

O empresário britânico de NFTs conhecido como Pranksy acredita que a experimentação é a chave para a retomada do mercado.

“Prevejo que um pequeno número de indivíduos e marcas inovadores serão capazes de liderar a adoção entre pessoas comuns”, diz ele.

Ele avalia que o mercado vai se valorizar novamente, mas admite que é improvável que atinja os níveis de “pandemônio” vistos anteriormente.

Reportagem adicional de Liv McMahon

https://www.bbc.com/portuguese/articles/clepn290n63o

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Estrutura metálica: a construção civil ainda na idade do tijolo empilhado

Evandro Milet – Portal ES360 – 19/11/2023

Em 1931 foi inaugurado em Nova York o então edifício mais alto do mundo, o Empire State Building, construído em apenas um ano e 45 dias com 50.000 vigas de aço na estrutura. A construção em estrutura metálica permite uma arquitetura mais leve, com redução do peso total, e também das cargas na fundação, colunas mais estreitas e vãos maiores, maior limpeza no canteiro de obras e redução de ruídos. 

A utilização do aço facilita a industrialização do processo com partes montadas fora do canteiro e encaixadas como um grande lego, reduzindo o tempo da obra com todos os reflexos financeiros positivos que se possa imaginar. Com o aço, o entulho da obra deixa de existir ou é reciclado. Por serem mais leves, as estruturas metálicas podem reduzir em até 30% o custo das fundações.

E por que então, depois de tanto tempo,  se usa muito pouco ainda a estrutura metálica no Brasil? O manicômio tributário é uma das causas. Se tudo for feito no canteiro paga-se menos imposto do que um processo industrial inteligente. Se for no canteiro paga ISS, e se quiser ser mais inteligente tem que pagar ICMS. Segundo o CBCA, 148% a mais de imposto, o que torna a construção metálica 48% mais cara que a de alvenaria. Cálculos feitos mostram que uma equalização dos impostos traria essa diferença de custo para 20%, compensados pela velocidade da obra, menos barulho e sujeira, além do aço ser infinitamente reciclável. Há esperança que a reforma tributária em processo de aprovação no Congresso venha resolver o problema, facilitando o uso geral de pré-moldados na construção e reduzindo o retrabalho. 

Outra causa da pouca utilização do aço é o desconhecimento e pouca familiaridade em geral de engenheiros e arquitetos com essa alternativa. Das universidades federais apenas duas, no Espírito Santo e Minas Gerais, têm tempo equivalente da utilização de aço e concreto armado nos cursos de engenharia e arquitetura. A ArcelorMittal tem patrocinado cursos para arquitetos e pretende estendê-los para outros estados.

Outra causa ainda é a alta informalidade e pouca capacitação da mão de obra no setor, onde a estatística aponta para 55% dos 10 milhões de trabalhadores na construção civil nessa situação.

A utilização do aço fica um pouco escondida para leigos que acabam não sabendo que a belíssima nova Ciclovia da Vida, na Terceira Ponte,  ligando Vitória e Vila Velha, foi feita com 2.700 toneladas de aço capixaba com grande agilidade no processo de construção. Devido à proximidade ao mar, foram levantadas preocupações em relação à utilização do aço nesse ambiente agressivo. Porém, a proteção do aço é garantida com aplicação de revestimento adequado com pintura, o que promove maior vida útil para a estrutura. Afinal, navios não são construídos em concreto armado. O problema da corrosão é resolvido com tecnologia adequada. Aliás, o vão central da Terceira Ponte, em 1989, foi feito em aço.

A construção civil tem avançado na utilização de softwares BIM – Building Information Modelling, equipamentos com tecnologia e certificações sustentáveis, mas permanece na idade do tijolo empilhado na estrutura, principalmente para edifícios. Segundo uma pesquisa da McKinsey em 2019, a construção civil só fica na frente da pesca em desenvolvimento tecnológico em um comparativo entre setores. E não só no Brasil.

O Espírito Santo poderia ser um grande centro irradiador dessa tecnologia para o país, unindo empresas construtoras, fornecedoras, escritórios de engenharia e arquitetura e  academia. Fica a ideia.

https://es360.com.br/coluna-inovacao/post/estrutura-metalica-a-construcao-civil-ainda-na-idade-do-tijolo-empilhado/

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A beleza das histórias

A mente engajada por alguma emoção e curiosidade encontra prazer e sentido na leitura de ficção ou não ficção

Por Isabel Clemente – Valor –  26/10/2023

Carioca, é formada em Jornalismo pela PUC-Rio e mestre em Escrita Criativa pela Royal Holloway, University of London

Costumo dizer que as crianças editam histórias como ninguém. Pergunte a uma criança pequena o que ela mais gostou durante as férias e você vai ouvir uma narrativa – um tanto fora de ordem talvez – pautada por momentos marcantes.

Nunca esqueci como, a caminho do aeroporto, a minha filha mais velha resumiu uns dias na Bahia. “Eu gostei daquela parte do sapo parado na porta do nosso quarto; eu gostei também daquela parte que o papai cavou um buraco bem fundo na areia e eu entrei; eu gostei do sorvete na fazenda de cacau e daquela parte do jacaré perto da gente.”

Surpresas (sapo na porta), desafio (buraco na areia), sentidos apurados (sorvete gostoso) e medo (jacaré) compunham as cenas que ficaram depois da nossa pequena aventura na praia, uma história comum mas repleta de cenas que valeram a pena pela ótica da menina. Um reparo: o medo do jacaré vai pra conta da mãe que não desgrudou os olhos do animal e do pai que tratou de segurar a filha menorzinha bem no alto para não ser confundida com presa.

A mente engajada por alguma emoção e curiosidade – e também estimulada intelectualmente – encontra prazer e sentido na leitura, seja ela de ficção ou não ficção. É tão forte essa relação que eu ainda não entendi como a IA poderá substituir esse lado humano da escrita. Mas vou deixar a polêmica para depois.

As histórias nos ajudam a ligar os pontos. Conectam ideias aparentemente distantes.

Foi numa segunda-feira que a notícia triste chegou. Dois dias antes, eu havia comprado o livro “Escute as feras”, de Nastassja Martin (Editora 34, 2021), depois de o livreiro ter me entregado um exemplar com a recomendação: “esse também é muito bom”. Fisgada pelas primeiras linhas – “O urso, a essa altura, já se foi há muitas horas, e eu espero, espero a bruma se dissipar” – levei o livro para casa.

No livro, Nastassja Martin, uma antropóloga francesa que sobreviveu ao ataque de um urso, narra o antes, o durante e o depois desse acontecimento que transformou seu corpo e sua alma. Uma mulher espantou o urso. Espantoso.

Em busca de sentido para a notícia triste, pensei, “meu amigo está lutando com um urso e, como ela, irá vencer”. Eu me engajei na leitura traçando o paralelo enquanto pude. Ele sairá meio humano e meio fera, como aquela tribo da Sibéria acredita ser o caso das pessoas que sobrevivem a ataques de ursos. A batalha dele será árdua, imaginei, igual à dela, porque feras silenciosas, como a doença que se espalhava pelo corpo sem ser notada – não dão muita chance de reação.

Eu estava errada.

A fera que ele encarou – e que agora todos que o amamos enfrentamos por tabela – é a eternidade, essa inconcebível noção do tempo que espreita dali de onde a vida terrena termina.

Não se trata mais de brigar pela vida. O desafio agora é aceitar que entendemos tanto da eternidade quanto a humanidade dos ursos. Por mais que seus hábitos sejam estudados, ninguém jamais viveu o mistério de ser urso – muito menos o mistério de ser eterno.

A história de Nastassja oferece passagens com belas metáforas (“Observo os barcos e suas correntes enferrujadas que desaparecem sob a superfície da água. Penso que mais vale aceitar minha inadequação, me atracar a meu mistério.”) e trechos que nos convidam a refletir sobre o inesperado (“Penso no urso. Se ele está vivo, pelo menos está levando sua vida de urso sem toda essa violência simbólica e concreta cujas consequências estou sofrendo.)

Gosto de acreditar que o livro me preparou de alguma forma para a mais triste das notícias, aquela que a psicanálise diz não ter representação no inconsciente, a morte.

Retomei com voracidade a leitura do livro. Na página 58, a autora reflete sobre o “acontecimento urso”. Penso no acontecimento morte. “No encontro entre mim e o urso, em seu maxilar contra o meu maxilar, existe uma violência inaudita, que exprime a violência que trago em mim.”

Que violência é essa que a morte exprime?

“Pensando no urso daqui onde me encontro, desse quarto na casa da minha mãe na França, não consigo escapar do jogo de analogias”, escreve Nastassja na página 58. Eu, da minha casa no Rio de Janeiro, não consigo escapar da analogia entre o livro dela e o que se passa ao meu redor. “Cansada, eu me sinto incapaz de ir além por enquanto”, diz a autora, duas páginas adiante. “Se eu não mandar notícias por aqui ou demorar é porque tenho andado cansado”, me escreveu meu amigo, alguns dias antes de partir.

Encontrei na história da antropóloga francesa razões para encarar minhas tristezas. A morte do meu amigo é o terceiro luto que enfrento este ano. O primeiro foi de um primo, o segundo, o da minha mãe. São acontecimentos em série que fazem a gente cair na real. Como diz a escritora Nora McInerny num TED Talk sobre luto, com quase 7 milhões de visualizações no YouTube: “A pesquisa que eu vi vai chocar vocês mas todo mundo que você ama tem 100% de chance de morrer”. E todo mundo ri na plateia. Talvez por falta de opção.

Se eu falar mais do livro, vou estragar o fim. Foi a desculpa que arrumei hoje para te lembrar que histórias são insubstituíveis. Elas nos movem, emocionam, encorajam, informam, inspiram, fazem pensar.

Por isso, até histórias sobre a natureza funcionam como uma rede inesperada de amparo, nos lembrando que há beleza no caos, delicadeza em meio à violência, medos enfrentados e fé na escuridão. A gente começa a editar a própria história e encontra um enredo cheio de partes que valeram muito a pena na vida do amigo e que continuam valendo na vida de quem ficou.

https://valor.globo.com/opiniao/isabel-clemente/coluna/a-beleza-das-historias.ghtml

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Por que precisamos da matemática na tecnologia e inovação

Gêmeos virtuais são exemplo da aplicação prática da matemática e da computação

Marcelo Viana – Folha – 14.nov.2023
Diretor-geral do Instituto de Matemática Pura e Aplicada, ganhador do Prêmio Louis D., do Institut de France.

São chamados “gêmeos digitais”: representações matemáticas e computacionais de sistemas e equipamentos complexos, que usam inteligência artificial alimentada por dados reais para reproduzir o comportamento do equipamento de modo virtual. Na vanguarda da tecnologia, eles estão começando a se espalhar por toda parte.

O gêmeo virtual de uma central nuclear permite prever como as suas componentes vão envelhecer e até testar novas componentes em segurança dentro de um computador. Também já existem gêmeos virtuais de pessoas (para as que podem pagar…): eles permitem testar antecipadamente terapias e suas dosagens, com base nos dados clínicos.

Usinas nucleares ao lado do mar

Usinas Angra 2 (à esquerda) e Angra 1 (à direita), em Angra dos Reis (RJ) – Divulgação/Eletronuclear

É só um exemplo de como as aplicações da matemática e da computação estão invadindo novas áreas da atividade humana. São aplicações sofisticadas e instigantes, que requerem alto nível de qualificação nas ciências matemáticas e que têm potencial para revolucionar diferentes áreas da economia.

Simulação em computador de ônibus espacial pronto para tentativa de vôo a Marte, em 2010 – Reprodução

Que a matemática pode contribuir muito para a produção de riqueza é fato conhecido. Estudos técnicos realizados a partir de 2010 no Reino Unido, Holanda, França, Austrália e Espanha constataram que a atividade econômica baseada na matemática gera cerca de 15% do Produto Interno Bruto desses países. Além disso, empregos com uso intensivo da matemática auferem melhores salários e são mais resilientes perante crises, como aconteceu na pandemia.

No Brasil, um estudo análogo está sendo finalizado neste momento pelo Itaú Social. Brevemente, ele permitirá avaliar a nossa inserção no cenário global e o potencial inexplorado da matemática para contribuir para o desenvolvimento do país. E sabemos que a realização desse potencial exige profissionais altamente qualificados no uso das ferramentas matemáticas na resolução de problemas reais, outra de nossas carências.

É nesse contexto que o Instituto de Matemática Pura e Aplicada está criando o ImpaTech, programa de graduação em matemática da tecnologia e inovação que irá funcionar, a partir de 2024, dentro do Hub de Inovação do Rio de Janeiro. É uma parceria com a prefeitura da cidade, com o apoio do Governo Federal.

Selecionando candidatos prioritariamente a partir das olimpíadas de conhecimento, para alcançar os jovens mais talentosos de que o Brasil dispõe, e prestando apoio financeiro aos estudantes durante o curso, o ImpaTech oferecerá formação com ênfases em matemática, ciência da computação, ciência de dados e física. O objetivo é formar profissionais habilitados a mudar o mundo por meio das ciências matemáticas.

https://www1.folha.uol.com.br/colunas/marceloviana/2023/11/porque-precisamos-da-matematica-na-tecnologia-e-inovacao.shtml

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Tecnologia dos carros flex, “a jabuticaba brasileira”

O consumo de etanol pelos veículos flex em substituição à gasolina reduz as emissões de gases de efeito estufa (GEE) em até 90%

Por Giovana Araújo*- O GloboRural – 15/11/2023 


Frequentemente utilizada, a expressão “jabuticaba brasileira” descreve algo que é exclusivo do Brasil e que não existe em nenhum outro lugar do mundo. Na chamada “Era de Ouro da Globalização”, que ficou definitivamente para trás, caracterizada pela ambição de economias nacionais abertas e desreguladas, as nossas “jabuticabas” muitas vezes eram vistas como indesejadas.

Com a emergência da “nova economia”, marcada pela priorização de interesses nacionais e pela emergência da agenda climática, é preciso construir um outro olhar sobre as nossas peculiaridades, particularmente no que tange as estratégias de descarbonização da matriz de transportes do país.

Neste contexto, uma das jabuticabas que merece destaque é a tecnologia dos carros flex, surgida em 2003, no Brasil, com o lançamento do Gol 1.6 Total Flex. De forma pioneira e disruptiva, a tecnologia trouxe a possibilidade de escolha entre gasolina, etanol ou a mistura desses dois combustíveis em qualquer proporção para abastecimento dos veículos.

O carro flex foi uma inovação da indústria automotiva no país, que abriu relevante avenida de crescimento do etanol para fins combustíveis e geração de valor pelo setor sucroenergético.

Naquele ano, o setor produzia 14,7 bilhões de litros de etanol. Desde então, a agroindústria mais que duplicou a produção de etanol para os atuais 31,0 bilhões de litros, considerando o etanol de cana-de-açúcar e o etanol de milho. Passados 20 anos, a cadeia sucroenergética movimenta hoje um valor bruto superior a US$ 100 bilhões e registra um PIB de, aproximadamente, US$ 40 bilhões, além de gerar US$ 13,4 bilhões em divisas externas com as exportações de açúcar e de etanol.

Para além do valor econômico gerado no país, existem também as externalidades socioambientais da produção sucroenergética, amplamente conhecidas. O consumo de etanol pelos veículos flex em substituição à gasolina reduz as emissões de gases de efeito estufa (GEE) em até 90%. Desde o lançamento dos veículos flex no Brasil, o consumo de etanol para fins combustíveis no país reduziu a emissão de gases de efeito estufa (GEE) em mais de 630 milhões de toneladas de CO2eq12, o equivalente ao plantio de 4,5 bilhões de árvores.

A contribuição da geração de bioeletricidade, a partir da biomassa de cana, para a rede é relevante – 18,4 TWh em 2022, o equivalente a 15,4% de todo consumo residencial do Brasil no ano – o que traz uma série de benefícios, entre os quais, a poupança nos níveis de água nos reservatórios das hidrelétricas do subsistema Sudeste e Centro-Oeste. E não menos importante, a cadeia de valor sucroenergética emprega 2,1 milhões de pessoas, considerando diretos e indiretos.

Olhando para frente, o potencial de geração de valor econômico e socioambiental da cadeia sucroenergética é ainda mais promissor, com destaque para novos produtos – como biogás, nosso “pré-sal caipira”, e o biometano – e novos usos, como a produção de insumo para combustíveis renováveis na aviação e fertilizantes.

Leia mais análises e opiniões de especialistas e lideranças do agro

A vocação tripartite do setor sucroenergético como provedor de energia renovável, alimentos e rações, incentiva a inovação a ser inerentemente circular, integrando, inclusive, outras cadeias produtivas, ao mesmo tempo que diversifica a renda e maximiza o retorno dos produtores.

Vivemos um ponto de inflexão da mobilidade globalmente e novas tecnologias estão sendo importadas pelo Brasil, entre as quais, os veículos híbridos e os veículos elétricos a bateria, que podem ser alimentados com biocombustíveis ou recarregados com eletricidade.

O estudo “Vigor híbrido: por que os híbridos com biocombustíveis sustentáveis são melhores que os veículos elétricos puros”, conduzido por pesquisadores da USP/UNICAMP/UNESP, mostra que as emissões calculadas de gases de efeito estufa (por quilômetro) para veículos híbridos que utilizam etanol são 26% inferiores às observadas para veículos elétricos a bateria no Brasil.

Além disso, são 47% inferiores para veículos elétricos a bateria na Europa, onde a intensidade de carbono da matriz elétrica é alta comparativamente à brasileira. Os resultados para o biometano para fins combustíveis são ainda mais impressionantes. As emissões por quilômetro para um veículo híbrido com biometano são 43% inferiores às observadas para veículos elétricos a bateria no Brasil e 59% inferiores para veículos elétricos a bateria na Europa.

Os caminhos para a descarbonização da matriz de transportes e da economia brasileira são múltiplos. É preciso, entretanto, priorizar e valorizar as alternativas em que temos diferenciais competitivos na produção e que gerem valor ambiental, social e econômico no país.

Quando é considerado o inventário das emissões de GEE associadas ao ciclo de vida do combustível – desde o “poço até rodas” e as emissões associadas à fabricação de veículos, geração de eletricidade e infraestrutura de recarga – a eficácia ambiental dos biocombustíveis está comprovada. Neste contexto, o etanol precisa se transformar em uma paixão nacional. Afinal de contas, jabuticaba como essa só existe aqui no Brasil.

* Giovana Araújo é sócia líder de agronegócio da KPMG no Brasil.

Obs: As ideias e opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva de seu autor e não representam, necessariamente, o posicionamento editorial da revista Globo Rural

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Como a IA ajudou a “reunir” os Beatles para gravar uma nova canção

A nova música, que conta com vocais de John Lennon, levou 50 anos para ser finalizada – e só foi possível com a ajuda da inteligência artificial

David Salazar – Fast Company Brasil – 08-11-2023 

Toda vez que ouvimos Beatles é difícil não ficar imaginando “e se?”. E se eles nunca tivessem se separado? E se John Lennon nunca tivesse sido assassinado? Quantas outras canções poderiam ter sido criadas?

Agora, temos um vislumbre interessante de qual seria a resposta para algumas dessas perguntas com “Now and Then”, a nova faixa que está sendo anunciada como a última música dos Beatles.

Coproduzida por Paul McCartney e Giles Martin, a canção incorpora elementos dos quatro rapazes de Liverpool – incluindo os vocais de John Lennon, que foram originalmente gravados em uma fita na década de 1970.

Now and Then” esteve em desenvolvimento por décadas, e sua existência pode ser atribuída, em parte, aos membros remanescentes da banda, a Yoko Ono, ao produtor e diretor de cinema Peter Jackson e ao machine learning.

Antes de trabalhar no projeto “The Beatles Anthology”, de 1995, que incluiu um documentário para a televisão, três álbuns duplos e um livro, a viúva de Lennon enviou quatro fitas demo a McCartney, George Harrison e Ringo Starr.

Quando os três Beatles se reuniram em estúdio, eles conseguiram transformar duas dessas demos em canções completas, “Free as a Bird” e “Real Love”. Também gravaram algumas partes de guitarra e bateria para acompanhar a faixa “Now and Then” de Lennon. Mas a produção se mostrou inviável: a qualidade da gravação era muito ruim e a voz estava abafada pelo som do piano e de uma televisão ao fundo.

A demo permaneceu nos arquivos de McCartney até recentemente, quando o trabalho de Jackson no documentário “The Beatles: Get Back”, lançado em 2021, abriu as portas para a mixagem de áudio com inteligência artificial.

Jackson e sua equipe desenvolveram a tecnologia para a série, usando-a para isolar e melhorar vozes e instrumentos de gravações mono feitas na década de 1970, como parte de um documentário chamado “Let it Be”, lançado simultaneamente ao álbum.

McCartney pediu que aplicassem a tecnologia ao registro de “Now and Then”, e eles finalmente conseguiram isolar adequadamente os vocais de Lennon do som de fundo. Com ajuda da tecnologia, o artista se dedicou a transformar a demo em uma música completa dos Beatles.

Além de gravar suas próprias partes de baixo e harmonias, McCartney recuperou rifes de guitarra que Harrison havia gravado em 1995, convocou Starr para tocar bateria e pediu a Martin que escrevesse acordes para os instrumentos de cordas. Também criou um solo de guitarra inspirado em Harrison. O resultado é uma canção surpreendentemente coesa, apesar de ser montada com elementos de diferentes décadas.

Martin enfatiza que os fãs não devem se preocupar com a tecnologia usada para criar a música. A indústria vem trabalhando nesse sentido há muito tempo. Ele tentou usar uma versão mais rudimentar para revisitar o catálogo dos Beatles alguns anos atrás, “mas não era suficiente”. A tecnologia usada em “The Beatles: Get Back” foi um divisor de águas.

O produtor também destaca a importância de as pessoas compreenderem que a criatividade humana ainda está no centro da música. Mesmo que a IA estivesse envolvida, ela não foi usada para criar vocais sintéticos de Lennon.

“Era fundamental para nós garantir que os vocais fossem de John, e não uma versão gerada por machine learning”, afirma Martin, cujo pai, George Martin, foi por muito tempo produtor da banda.

Embora esse esforço esteja sendo usado, em parte, para promover o relançamento dos álbuns da antologia 1962-1966 e 1967-1970 (conhecidos como “álbum vermelho” e “álbum azul”), Martin deixa claro que não se trata de uma jogada de marketing.

Ele diz que foi um projeto movido pelo amor, principalmente por parte de McCartney. “As pessoas podem achar difícil acreditar, mas não foi ideia de algum executivo de marketing”, diz ele. “Paul fez isso por conta própria e depois me chamou para ajudar.”

Na verdade, a música soa exatamente como o que é: uma oportunidade para voltar a um período em que faziam música juntos, com letras de Lennon que parecem ser premonitoriamente nostálgicas. É uma despedida, sem dúvida, mas por quatro minutos e oito segundos, os Beatles estão de volta à vanguarda da música.

“Eles usaram as ferramentas disponíveis de maneira inovadora – seja criando loops de partes gravadas em fita ou rifes de guitarras invertidos”, diz Martin.

A tecnologia pode ter mudado, mas o espírito inventivo que ajudou a criar “Revolver” e “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band” permanece – e está evidente na nova canção. “Adoro ver os Beatles explorando novas tecnologias, como fizeram quando meu pai trabalhava com eles”, completa.


SOBRE O AUTOR

David Salazar é editor associado da Fast Company.

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Hubs de inovação: a solução pode estar bem perto de casa

Grandes empresas investem em startups para otimizar diferentes processos, que vão da contratação de talentos à gestão de caixa

Por Guilherme Meirelles – Valor – 31/10/2023

Pequenas empresas, grandes soluções. Com o avanço das ferramentas de machine learning e inteligência artificial (IA), algumas das principais companhias têm estreitado cada vez mais o relacionamento com startups por meio de seus hubs de inovação. Seja por meio da aceleração (apoio técnico e financeiro) ou de participação no controle, as iniciativas apontam para o caminho das parcerias.

Instalado no parque tecnológico de Piracicaba (SP), o hub de inovação Pulse, criado pelo grupo Raízen em 2017, proporcionou um impacto financeiro positivo de R$ 40 milhões em redução de gastos, contratação de talentos e mapeamento de tendências de mercado, entre outros pontos.

Com foco na diversidade, a empresa fechou parceria com a edutech Soul Code para a prospecção de pessoas em situação de vulnerabilidade social e digital para preencher vagas nas áreas de tecnologia. Por meio de bootcamps (aulas imersivas) e treinamentos on-line gratuitos, que incluem aulas de inglês, a Soul Code já colocou 19 profissionais dentro da Raízen em funções como desenvolvedores e analistas de dados, sendo 35% de Estados do Nordeste. “Temos contatos com ONGs e entidades e ressignificamos a vida profissional de pessoas, independentemente de gênero e faixa etária”, afirma Carmela Borst, CEO da SoulCode, destacando a colocação de um homem negro e ex-sapateiro, acima de 40 anos, em uma posição técnica na Raízen.

Para atingir a meta zero em acidentes de trabalho, a Raízen fechou parceria com a startup carioca AlfaPlace no desenvolvimento de um sistema de supervisão remoto de câmeras, que detecta on-line desvios e falhas mecânicas e humanas em atividades de rotina como abastecimento de tanques de caminhões nos depósitos. Denominado Supervisor Ubíquo Raízen, o sistema foi ampliado para outras áreas, como análise de dados em postos da bandeira Shell, verificando a passagem de veículos nas rodovias e a entrada para abastecimento, conforme a categoria do veículo. Segundo Maria Frastrone, sócia da AlfaPlace, a presença do hub potencializa a entrada no mundo digital. “Antes, o monitoramento de entrada e saída nos postos era feito manualmente”, destaca.

Em determinados momentos, é natural que surja desconfiança quanto à capacidade de uma startup resolver as necessidades de uma corporação. “Normalmente, a Porto desenvolve suas soluções internamente, mas, em 2021, optamos por buscar startups para implantar o Pix para pagamento de boletos e seguros por meio de cartões emitidos pela Porto Seguro Cartões. Houve quem achasse que uma startup não daria conta do nosso universo de clientes, mas fomos em frente”, recorda Mauricio Martinez, gerente de pesquisa e desenvolvimento da Porto e da aceleradora Oxigênio.

Após passar por uma série de testes e entrevistas, a startup Shipay implantou o sistema de conexão entre instituições financeiras e empresas, em março de 2021, com inovações pioneiras no setor. “Além de implantarmos o pagamento instantâneo, permitimos ao cliente a opção de antecipar o pagamento da fatura via Pix e permanecer com o limite de crédito do cartão para futuras compras”, afirma Luiz Coimbra, fundador e CEO da Shipay, startup com apenas três anos de vida. No primeiro mês, foram 150 mil transações, saltando para 250 mil no terceiro mês e, hoje, na casa acima de um milhão de transações mensais.

Com 3,03 GW de capacidade instalada em energia renovável, a geradora Auren é a maior comercializadora do país no mercado livre. Porém, frequentemente, a companhia enfrentava problemas de recursos humanos em razão da elevada volatilidade dos traders no Balcão Brasileiro de Comercialização de Energia (BBCE) – plataforma on-line para negociações bilaterais de compra e venda de energia elétrica no mercado livre. “O profissional saía e levava junto o seu conhecimento de mercado. Criamos um robô alimentado por IA que atuasse como um trader no balcão na recomendação de compra e venda”, diz Marcos Santos, CEO da Aquarela, que recebeu parte do aporte de R$ 10 milhões em startups feito pela Auren em 2022.

Decisões que demoravam horas em análise saíam em segundos, o que gerou mais assertividade nas operações. “Em três semanas, o investimento foi amortizado”, conta o executivo. Batizado como Tatics Energy, o robô é abastecido com dados de 260 fontes, que vão desde informações meteorológicas até estatísticas de mercado. Segundo Eduardo Diniz, diretor de comercialização da Auren, em dois anos de projeto, a assertividade é de 65% em mais de 520 operações.

Há quatro anos no mercado, a Beegol, startup desenvolvedora de softwares para conexão de internet, atua em parceria com a operadora Vivo desde 2021. O contato veio pela aceleradora Wayra, hub de inovação da Vivo. “A Vivo tinha dificuldades em lidar com sua enorme quantidade de dados e transformá-los em oportunidades de negócios”, afirma Andre Monlevade, sócio da Beegol.

Por meio de ferramentas de IA e dados coletados junto ao Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e à Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), a Beegol desenvolveu modelos estatísticos em todas as regiões cobertas por fibra óptica, o que permitiu um diagnóstico mais preciso em questões mercadológicas, como a relação entre reparos frequentes na rede e a perda de clientes ou cancelamentos devido ao preço. “Nossa ferramenta é mais cirúrgica”, diz. Segundo Monlevade, o sistema está presente nas mais de 400 cidades cobertas por fibra óptica. “O ganho veio em escalabilidade. Antes, a detecção de um problema em um município exigia a ida de duas pessoas.”

No caso do Hospital Albert Einstein, a preocupação do hub Eretz.bio foi buscar uma inovação que melhorasse a experiência do paciente no leito e a eficiência da equipe de enfermagem, que muitas vezes era sobrecarregada por solicitações que não eram de sua competência. A solução veio com o apoio à startup Hoobox, que desenvolveu um sistema no qual o paciente usa um tablet ou celular para suas solicitações cotidianas. “Havia uma dependência de 65% do tempo da enfermagem em pedidos como lanche ou limpeza do quarto”, diz Claudio Pinheiro, diretor de operações da Hoobox. No momento, o sistema está em operação apenas na área de ortopedia da unidade do bairro do Morumbi, na zona sul de São Paulo.

https://valor.globo.com/publicacoes/especiais/revista-inovacao/noticia/2023/10/31/hubs-de-inovacao-a-solucao-pode-estar-bem-perto-de-casa.ghtml

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O Ceará nem começou a produzir hidrogênio verde, e já vendeu tudo

Em evento da FIEC, o CEO da siderúrgica Arcelor Mittal se compromete a comprar todo o combustível que sair do Complexo de Pecém. Setor deve movimentar US$ 30 bilhões no Brasil

Rodrigo Caetano – Exame – 27 de outubro de 2023 

De Fortaleza

Parece uma cena de filme. No auditório lotado, o presidente da grande corporação anuncia, para a incredulidade de todos, uma mudança radical de posicionamento, que vem acompanhada de uma grande injeção de capital na comunidade. O final feliz se dá graças a uma inovação há pouco tempo considerada inviável, uma utopia. Só não é ficção: aconteceu no Ceará.

A grande corporação, no caso, é a Arcelor Mittal, uma das maiores siderúrgicas do mundo. A inovação é o hidrogênio verde (H2V). Nesta quarta-feira, 25, durante o FIEC Summit, evento promovido pela Federação das Indústrias do Estado do Ceará (FIEC), Erick Torres, CEO da Arcelor Pecém, anunciou que a empresa “não vai abrir mão de utilizar o H2V produzido no pólo de Pecém”. A afirmação foi compreendida como uma espécie de compromisso de compra, uma vez que a demanda da siderúrgica compreende praticamente toda a capacidade futura do complexo. Ainda que falte assinar o contrato e cumprir as etapas dos estudos de viabilidade técnica, como ressaltou a siderúrgica em e-mail enviado à EXAME, é um compromisso que muda o jogo. “Isso significa que o consumo será interno”, afirma Ricardo Cavalcante, presidente da FIEC.

Mas, e o porto de Rotterdam, na Holanda, sócio do Complexo de Pecém e que espera receber parte desse hidrogênio para abastecer a Europa, questiona a EXAME. “Vamos ter de produzir mais”, conclui Cavalcante, com um sorriso no rosto.

O polo cearense de produção de H2V está sendo gestado há alguns anos. Na visão do empresariado local, e do atual governo do estado, trata-se de uma oportunidade histórica de colocar o Ceará na liderança de um processo de reindustrialização do país a partir de uma fonte de energia limpa. Além da injeção financeira, o movimento da Arcelor Mittal foi comemorado por trazer, justamente, essa dimensão à indústria, setor que vem perdendo espaço no PIB ano a ano. “O objetivo é a descarbonização”, explicou o CEO da siderúrgica, em conversa reservada com a reportagem.

A Arábia Saudita do hidrogênio verde

A economia do Ceará é uma história muito mais de escassez do que de abundância. A falta de chuva, o sol escaldante e os ventos de arrancar guarda-sol pareciam condenar o cearense a uma vida de resiliência. A caatinga, bioma predominante no estado, não por acaso, é tido pelos cientistas como um dos mais resilientes do planeta, o que dá a dimensão dos desafios de se produzir qualquer coisa por lá. O que era fraqueza, no entanto, hoje é fortaleza.  O sol e o vento impulsionam a produção de energia limpa, a base da transição para uma economia de baixo carbono.

Idealizado nos anos 90, o Complexo de Pecém tinha como âncora econômica a instalação de uma refinaria de petróleo, que nunca veio. Por décadas, os governos do estado lutaram para convencer a Petrobras a tirar do papel o projeto, sem sucesso. Apesar do fracasso, o plano inicial deixou como legado as fundações de uma zona industrial, que hoje se volta para o hidrogênio verde, combustível com enorme potencial para substituir os hidrocarbonetos em indústrias intensivas em carbono, como a siderurgia.

Além da abundância de vento e sol, características geográficas tornam o Ceará um local privilegiado para essa nova indústria. A viabilidade de geração eólica offshore (em alto mar) começa muito próxima à costa. Algumas centenas de metros mar adentro, há um desnível no fundo do mar, cuja profundidade atinge uma altura ideal para a instalação de plataformas, condição que se prolonga por quase 30 quilômetros em direção à Europa. O porto também oferece a rota mais rápida para se chegar de navio à Europa, aos Estados Unidos e ao Norte da África, viagens que levam, em média, uma semana.

Os planos da Arcelor Mittal

De capital indiano, a Arcelor Mittal produz anualmente 7,5 milhões de toneladas de aços planos na América Latina. Sua principal unidade no Brasil está localizada em Tubarão, no Espírito Santo. Em março deste ano, a companhia adquiriu, por completo, a Companhia Siderúrgica do Pecém (CSP), que pertencia à Vale e a duas empresas sul-coreanas. A transação movimentou 2,2 bilhões de dólares (cerca de 11 bilhões de reais).

O CEO Erick Torres explica que os investimentos em hidrogênio verde estão relacionados ao compromisso global de se tornar carbono zero até 2050. “Onde é possível acelerar, estamos fazendo”, disse. A disponibilidade do combustível é essencial, e o hub cearense, segundo o executivo, oferece condições únicas de custo e velocidade de implementação. A CSP produz chapas zincadas, utilizadas, principalmente, pelas indústrias automotiva e de construção.

Junto ao complexo portuário, também foi instalada uma Zona de Processamento de Exportações (ZPE), que são “distritos industriais incentivados, destinados a sediar empresas orientadas para o mercado externo”, como explica o site do porto. Na prática, trata-se de uma zona franca, cujo objetivo é atrair investimentos estrangeiros.

Nessa combinação de recursos energéticos abundantes, localização privilegiada, estrutura industrial e desembaraço aduaneiro acelerado, a expectativa é de que Pecém seja um polo de hidrogênio com o potencial do que foi, em seus tempos áureos, o município de Macaé, no Rio de Janeiro, base das operações do pré-sal durante o primeiro governo Lula. A cidade atraiu todo tipo de empresa interessada em prestar serviço e fornecer produtos para a cadeia do petróleo. Por alguns anos, Macaé vislumbrou o enriquecimento, mas a derrocada da Petrobras e do petróleo transformou o sonho em pesadelo, e hoje Macaé tenta se reerguer das cinzas do abandono empresarial.

No Ceará, esse risco parece menor. Não só a perspectiva para o mercado de hidrogênio é melhor e de mais longo prazo (estima-se que o combustível movimentará 350 bilhões de dólares no mundo e 30 bilhões no Brasil, até o final da década), como a transição energética oferece ao Brasil, e ao Nordeste em particular, uma oportunidade de ouro para ganhar protagonismo global, fortalecer a economia e reduzir as desigualdades sociais. “Se o Nordeste falhar, o Brasil falha”, disse à EXAME Alexandre Negrão, CEO da Aeris Energy, fabricante brasileira de pás para geradores eólicos. Negrão espera uma aceleração dos investimentos a partir do compromisso feito pela Arcelor Mittal, e se diz preparado para atender a demanda dos projetos offshore cearenses.

“Precisamos de pouquíssima adaptação para isso. A indústria nacional de geradores eólicos está consolidada, o que facilita a decisão de investir no Brasil. Essa é uma consequência positiva dos incentivos dados ao setor nas últimas duas décadas”, afirma Negrão. Uma política mais clara e efetiva de fomento ao setor, por sinal, era a principal demanda dos executivos e empresários no evento da FIEC. A segunda mais importante era para o governo, se não for ajudar, pelo menos não atrapalhar.

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Rodrigo Caetano

Editor ESG Trabalhou como repórter e editor nas principais publicações de negócios do país. Venceu os prêmios Petrobras e Citi Journalistic Excellence. Atualmente, lidera a editoria ESG da Exame e apresenta o podcast ESG de A a Z.

https://exame.com/esg/o-ceara-nem-comecou-a-produzir-hidrogenio-verde-e-ja-vendeu-tudo/

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Estudo ilumina dia do choque de asteroide na Terra, há 66 milhões de anos

Poeira mineral espalhada pelo planeta provocou o inverno que mataria 75% da fauna e da flora — episódio crucial para entendermos os nós climáticos de hoje

Por Luiz Paulo Souza – Veja – Publicado em 10 nov 2023

Era o melhor dos tempos para os dinossauros que habitavam a Terra. E então, há 66 milhões de anos, houve o pior dos dias. Uma enorme rocha de 12 quilômetros de largura, um asteroide hoje conhecido por um carnaval de consoantes e vogais, o Chic­xu­lub, despencou dramaticamente onde hoje está a Península de Yucatán, no México. O impacto — 4,5 bilhões de vezes maior do que o da bomba de Hiroshima — levou à extinção de 75% de todas as espécies de plantas e animais da Era Mesozoica, inclusive os cultuados dinossauros. A força da rocha teria liberado enxofre e ácido sulfúrico na atmosfera, atalho para intermináveis chuvas ácidas. O escudo barrou a entrada de luz solar, as nuvens deixaram o ambiente escuro, impedindo o processo de fotossíntese e a abrupta diminuição de temperatura, em longo e severo inverno. 

Daria um filme-catástrofe — como, aliás, deu, e muitos. Foi a senha para milhares de estudos, incontáveis montagens ilustrativas. O fascínio por aquela tragédia seminal ainda hoje alimenta a humanidade, entre o enigma e a investigação, em um mar de incertezas. Virou, é natural, assunto pop, de permanente interesse. Faça a experiência, é engraçado: ponha “Chicxulub” no Google. Vai aparecer um meteoro animado, vindo da esquerda para a direita, a caminho do pé da página, que chacoalha ao contato da pedra.

Aquele instante indizível não cansa de entregar segredos, e brotou agora uma novidade que aponta para uma compreensão inédita. Um estudo publicado na reputada revista Nature Geoscience informa que a poeira de sílica, ou o pó de dióxido de silício — e não o enxofre ou o ácido sulfúrico — é que teria acelerado e mantido o esfriamento. Em alguns trabalhos científicos, a sílica tinha sido posta em cena, mas foi logo esquecida. “Tê-la na equação de volta nos deixa até emocionados”, disse a VEJA o pesquisador-chefe do estudo, Cem Berk Senel, do Observatório Real da Bélgica. 

A extraordinária conclusão deu-se a partir da investigação de partículas preservadas em um sítio geológico do estado americano de Dakota do Norte, próximo da colisão primordial. A poeira mineral, levantada depois do choque, teria ficado em suspensão por até quinze anos e ela é que teria puxado os termômetros em pelo menos 15 graus. “Em até quatro anos houve um colapso das grandes espécies em decorrência do frio e da falta de alimentos”, diz Aline Ghilardi, paleoecóloga e pesquisadora da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. “É a extinção em massa mais rápida de que temos registro.” Mas se os efeitos foram tão profundos, como o um quarto de espécies restantes conseguiu passar ileso? 

O evento é uma das provas definitivas da teoria da evolução. Enquanto os seres dependentes apenas de plantas e frutos, assim como seus predadores diretos, foram mais afetados pelo fenômeno, os animais marinhos, que demoraram mais para sentir o efeito do frio, e os espécimes com padrões alimentares mais variados, como os então primitivos mamíferos, tiveram mais tempo para se adaptar. Prosperaram, portanto, os mais resilientes.

Mapa Dinossauros

A revelação da poeira é celebrada por enxergar o que ocorreu lá atrás, claro, mas também por iluminar o futuro. “O conhecimento mais profundo em torno do fenômeno nos ajuda a compreender a morte dos dinossauros e outros animais, mas também a projetar possíveis crises climáticas”, diz Berk Senel. Por óbvio, o que se supunha para o estrago provocado anteriormente pelo Chicxu­lub foi sempre relevante — e, ressalve-se, não é o caso ainda de abandonar a tese do enxofre e do ácido sulfúrico. 

Contudo, ao cravar a liberação no ar da sílica — que, aliás, em sua forma cristalina dá origem ao quartzo, ao topázio e à ametista, e que pode ser vista em profusão em diversos cantos do mundo —, os cientistas conseguem ser assertivos, ao ter certeza de que as grandes extinções são causadas por alterações drásticas da natureza. É impossível evitá-­las, mas convém não incentivá-las, daí a importância de, hoje, manter atenção para as mudanças climáticas aceleradas pelo ser humano. Eis a beleza da descoberta: saber o que houve há 66 milhões de anos é atalho para enxergar o aqui e agora, olhando para a frente.

Publicado em VEJA de 10 de novembro de 2023, edição nº 2867

https://veja.abril.com.br/ciencia/estudo-ilumina-dia-do-choque-de-asteroide-na-terra-ha-66-milhoes-de-anos

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O maior hub de inovação da América Latina

Com mais de 13.000 startups, uma população fortemente digitalizada e portas abertas para soluções vindas de fora, Brasil é o grande polo tecnológico da região

Lilian Rambaldi – Exame – Publicado em 10 de novembro de 2023 

Junto da reconhecida potência no agronegócio ou em energia renovável, existe um Brasil líder também em inovação na América Latina e Caribe e em contínua ascensão. Pelo terceiro ano consecutivo, o país subiu posições no Global Innovation Index (GII), o mais amplo e conceituado ranking internacional de avaliação dos países em relação aos seus ecossistemas de inovação.

Na edição de 2023, divulgada recentemente pela Organização Mundial da Propriedade Intelectual (WIPO, na sigla em inglês), que realiza o estudo, o Brasil foi o que mais avançou na classificação — subiu cinco degraus —, consolidando-se entre as 50 economias mais inovadoras do mundo.

Segundo Sacha Wunsch-Vincent, coeditor do GII, o desempenho em inovação do país é tão expressivo que tem consistentemente superado o seu próprio nível de desenvolvimento. “Isso é fruto de esforços sustentados do Brasil para converter recursos de inovação, como a capacidade do setor corporativo de impulsionar a pesquisa e o desenvolvimento e, em geral, a excelente infraestrutura nacional de P&D, que leva a resultados como manufatura de alta tecnologia, produção de software e capacidade de produzir unicórnios”, argumenta.

No relatório, o país apresenta pontuações elevadas em indicadores como serviços governamentais online (14ª posição) e participação eletrônica (11ª), situando-se entre as 15 economias mais bem avaliadas nas duas categorias. O Brasil também se destaca por seus ativos intangíveis (31ª), com bons resultados em marcas registradas (13ª) e valor global de suas marcas (39ª).

“O Brasil prospera em um ambiente favorável ao empreendedorismo, por um lado, e com a presença de multinacionais brasileiras com valor de marca global cada vez mais forte”, pontua Wunsch-Vincent. “E há uma alta capacidade das empresas de gerar ativos intangíveis, como propriedade intelectual, software ou reputação, e de transformá-los em valor empresarial para o crescimento nacional impulsionado pela inovação”, acrescenta o especialista da WIPO. “A evolução do ecossistema brasileiro é perceptível em diversas frentes. Temos centros de inovação cada vez mais avançados, programas de apoio às startups cada vez mais maduros, novos modelos de negócios sendo aplicados tanto pelos empreendedores quanto pelos investidores, e tudo isso gera mais oportunidades, mais trocas e mais competitividade”, avalia Lívia Carbonell, coordenadora de investimentos da ApexBrasil.

Um ecossistema robusto

Os resultados positivos no GII refletem o papel fundamental da tecnologia em avanços relevantes do país nos últimos anos, permeando todos os setores, desde a inclusão de mais pessoas no sistema financeiro até a melhoria do acesso à saúde na pandemia ou o aumento da produtividade e da sustentabilidade no agronegócio.

O Brasil tem hoje um ecossistema substancialmente mais robusto, na visão de Eduardo Fuentes, chefe de pesquisa da plataforma de inovação Distrito. “Os empreendedores estão cada vez mais capacitados. Contamos com um número crescente de investidores dispostos a apostar no país, as corporações reconhecem a inovação aberta como um caminho viável para melhorar seus negócios e temos um governo com uma agenda positiva em relação a esse assunto”, diz.

Esse amadurecimento explica a liderança absoluta do Brasil em número de startups na América Latina, firmando-se como o grande hub de inovação da região. São mais de 13.000 startups, representando 62,9% do total, bem à frente do segundo colocado, o México, com 11,7%, de acordo com o estudo Panorama Tech América Latina 2023, realizado pela Distrito.

O país é também o campeão latino-americano em número de unicórnios, startups avaliadas em pelo menos 1 bilhão de dólares antes de abrirem capital: são 24 companhias, segundo o levantamento, o que significa que mais da metade dos unicórnios de toda a América Latina, que somam 45, está aqui.

Fintechs se destacam

O mercado financeiro é historicamente o mais forte em inovação no Brasil, abrigando o maior número de startups e concentrando o maior volume de investimentos. Fuentes salienta que, apesar da maturidade do segmento, avanços consideráveis estão acontecendo, especialmente devido a uma agenda pró-inovação altamente positiva do Banco Central nos últimos anos. “Essa abordagem tem sido fundamental para garantir um maior acesso da população a produtos financeiros, resultando na inclusão de 75 milhões de brasileiros no sistema bancário nos últimos anos. Com uma diversidade maior de opções, a concorrência se intensificou, elevando o padrão geral para todos os produtos e serviços bancários”, afirma.

Área da saúde tem espaço para inovar

Entre os campos em crescimento hoje, o da saúde é um dos que apresentam mais oportunidades. A pandemia desencadeou uma verdadeira transformação no mercado, abrindo portas para inúmeras possibilidades. Atendimento remoto, implementação de prontuários eletrônicos e uso de inteligência artificial para diagnósticos são apenas alguns exemplos desse movimento, que se beneficiaram das evoluções regulatórias e conceituais no país.

Mas ainda há muito espaço para desenvolvimento, especialmente no segmento farmacêutico. De acordo com Norberto Prestes, presidente-executivo da Associação Brasileira da Indústria de Insumos Farmacêuticos (Abiquifi), aumentar o número de startups deep techs (capazes de desenvolver novas drogas) é um dos objetivos pela frente. Um esforço importante nessa direção é o Programa de Inovação Radical da Abiquifi, que busca convergir iniciativas governamentais e privadas para o desenvolvimento de um ecossistema de inovação voltado para a cadeia farmacêutica.

Uma das faces da articulação estratégica, que conta com o envolvimento da Anvisa, é a criação de um parâmetro regulatório que ajude a promover a inovação radical no país, em nível internacional. “A discussão de normas regulatórias será determinante para o ritmo dos avanços esperados com inovação. Isso sem esquecer do equilíbrio entre a necessidade de normativas que tragam proteção e segurança às pessoas e o respaldo para a experimentação e a aprovação de tecnologias inéditas”, diz Prestes.

Terreno fértil para startups estrangeiras

O dinâmico mercado brasileiro — não só produtor de tecnologia mas grande consumidor de inovação — é também um destino atrativo para startups estrangeiras, que buscam ganhar tração. E há espaço para crescer. Com uma população de 203 milhões de habitantes e o maior Produto Interno Bruto (PIB) da América Latina, o mercado nacional é imenso tanto em número de consumidores quanto em capacidade para abraçar novas soluções. “Também estamos bem colocados quanto à penetração da internet, com uma taxa de 81%, o que facilita o desenvolvimento de soluções tech por aqui”, pontua Eduardo Fuentes.

Esses fatores chamam a atenção de startups de fora, muitas provenientes de mercados vizinhos, que veem no Brasil uma oportunidade de expansão. “O fenômeno é observado em todos os setores, desde o financeiro até o imobiliário”, destaca.

É o caso da Rappi, startup colombiana de delivery, cujo ingresso no mercado brasileiro teve peso relevante para que a empresa atingisse o status de unicórnio em 2018. De acordo com Tijana Jankovic, vice-presidente global de negócios da Rappi, a maior base de usuários é exatamente o Brasil, ao lado do México. “Foram esses dois mercados que colocaram a companhia como um grande player de patamar mundial, na América Latina”, comenta.

Primeiro, porque o Brasil garante fatores macroeconômicos que favorecem a expansão e a sustentabilidade de negócios como o da Rappi, como grande representatividade de população urbana, alta digitalização da população e um segmento de usuários com elevado poder aquisitivo. Depois, nas palavras de Tijana, porque dos nove mercados em que a startup atua, o Brasil tem, de longe, o maior nível de exigência de produto, tecnologia e atendimento ao cliente. “Com isso, a Rappi teve que se desenvolver muito no aspecto tecnológico e operacional para, de fato, atender o usuário brasileiro com a melhor experiência possível. Esse know-how adquirido no Brasil fez com que a Rappi se desenvolvesse e se destacasse em todos os mercados onde opera”, afirma.

Rebocador da Wilson Sons: startup israelense DockTech monitorará mais de 754 quilômetros de vias navegáveis em associação

Apoio à entrada de novas soluções

Outro exemplo bem-sucedido é o da israelense DockTech. Usando inteligência artificial e dados dinâmicos, a empresa reproduz digitalmente as condições do leito marinho de portos e vias de navegação em tempo real, aumentando a eficiência e a segurança das operações marítimas e portuárias.

A startup entrou no mercado brasileiro com o suporte do ScaleUp in Brazil, programa premiado pela ONU da ApexBrasil e da Associação Brasileira de Private Equity e Venture Capital (ABVCAP) que apoia empresas internacionais inovadoras com a metodologia e as ferramentas necessárias para que comecem a operar no país. “O programa foi fundamental para que a DockTech fosse exposta aos players brasileiros e entendesse a melhor forma de atuar no nosso mercado. O objetivo foi trazer maturidade à empresa para que tivesse sucesso por aqui”, explica Raquel Kibrit, que foi a country manager da startup nesse processo de ingresso no mercado.

Missão cumprida. Associada à Wilson Sons, maior operadora integrada de logística portuária e marítima do Brasil, a israelense acaba de protagonizar um marco no país: depois de um acordo de cooperação técnica com o Porto de Santos, o maior complexo portuário da América Latina, a empresa assinou o primeiro contrato comercial de uma autoridade portuária, a Portos RS, com uma startup. Por meio dos rebocadores da Wilson Sons e outras embarcações que operam na região, a companhia vai monitorar o leito de mais de 754 quilômetros de vias navegáveis administradas pela Portos RS, em Rio Grande, Pelotas e Porto Alegre, no sul do país.

Esses são alguns exemplos de como o Brasil não só é celeiro de startups como também um porto seguro para aquelas que, por aqui, querem atracar. 


O revolucionário Pix

Em três anos, inovação do Banco Central se tornou o sistema de pagamento mais usado no Brasil — e recebeu prêmios internacionais pela inclusão financeira sem precedentes

Uma das grandes inovações financeiras do país é certamente a criação do Pix em 2020 pelo Banco Central. O sistema de pagamento instantâneo brasileiro é um dos mais bem-sucedidos do mundo. O êxito do sistema é nítido: após três anos do lançamento, ele já supera todas as demais formas de transacionar dinheiro no país, como cartões de crédito, débito ou boleto. Somente em um dia, 6 de outubro, por exemplo, foram realizadas 163 milhões de transferências via Pix, segundo o Banco Central. Pela inclusão financeira sem precedentes promovida pela ferramenta, o Pix acaba de receber um prêmio internacional nos Estados Unidos, o Bravo Business Awards, que reconhece a excelência e a liderança em negócios e políticas públicas.

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Lilian Rambaldi

Repórter

Jornalista com mais de 20 anos de experiência no mercado. Atuação em grandes empresas de mídia do país, como coordenadora de projetos de branded content, editora-chefe, editora, repórter e redatora.

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