Fórmula de Singapura é valorizar professor, diz especialista

Ng Pak Tee, autor de ‘Learning from Singapore’, descreve como o país chegou a líder do Pisa, avaliação global de educação

Nelson de Sá – Folha – 3.jan.2024 

Taipé

Realizado em 2022 e divulgado no início de dezembro, o Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes) confirmou Singapura como líder do ranking de 81 países e regiões nas três matérias abrangidas, matemática, leitura e ciências. O Brasil foi o 65º em matemática, foco maior desta edição do exame aplicado desde 2000 para estudantes de 15 anos.

Autor do livro “Learning from Singapore”, aprendendo com Singapura, Ng Pak Tee aponta a valorização da educação e dos próprios professores, por razões históricas, e a busca permanente de aprimoramento do sistema de ensino como características significativas do país. Mas evita defender o sistema como modelo para outros países. “Ele não é perfeito, e nosso contexto é diferente.”

Desde que o país de 5,9 milhões de habitantes começou a chamar a atenção no Pisa, também há críticas, como o foco em exames de avaliação, que estimulam procurar aulas extras, pagas. Ng reconhece que Singapura era assim “no passado”, mas enfatiza as mudanças feitas, visando o bem-estar dos alunos e uma busca de “aprender com alegria”, como queria Confúcio.

Questionado sobre o que explicaria o desempenho também de Macau, Taiwan e Hong Kong, três outras regiões da chamada Grande China que aparecem logo abaixo de Singapura no último ranking do Pisa, Ng responde não conhecer a fundo, mas arrisca: “Meu palpite é que, de um modo geral, talvez a educação nesses lugares seja mais valorizada por toda a sociedade”.

Leia, a seguir, trechos editados da entrevista.



Como Singapura se tornou um exemplo em educação? Como começou?
Pessoalmente, eu não chamaria Singapura de um sistema educacional modelo ou um exemplo em educação, como você colocou. Ele não é perfeito, e nosso contexto e trajetória são diferentes dos outros. Em muitas áreas, como educação infantil, ainda está tentando alcançar e aprender com outros sistemas avançados. Se é por causa dos resultados do Pisa, então minha opinião é que o Pisa é uma boa referência, mas não é nosso boletim escolar. Estamos muito mais preocupados com a educação das crianças do que com os resultados do Pisa.

Suponho que a maneira mais fácil de entender seja começar por 1965, ano em que Singapura se tornou independente. O desafio naquela época era sobreviver. O país era pobre e havia um alto índice de desemprego, muitos singapurenses eram analfabetos. Havia uma atitude geral entre as pessoas daquela geração de que “vamos enviar nossos filhos para a escola para que tenham vidas melhores que as nossas”. A educação se tornou a esperança. Singapura é um país muito pequeno, sem recursos, sem petróleo, borracha ou terra para agricultura, exceto o povo. Valorizamos a educação, acho que esse foi o ponto de partida.

Qual é a característica mais significativa do sistema educacional hoje? E é viável reproduzi-la fora de Singapura?
Uma filosofia fundamental em Singapura é que, à medida que o tempo avança, são feitas mudanças para acompanhar. Independentemente de onde estiver em testes comparativos internacionais, vai sempre tentar melhorar a educação. Mas existem constantes atemporais que servem como faróis, para ajudar a navegar pelas águas da mudança de forma segura. Uma constante no sistema é que a educação é um investimento, não uma despesa. Não se pouparam recursos para a educação mesmo quando a economia foi duramente atingida, durante várias crises globais, para que as crianças não ficassem para trás.

O sr. acredita que o valor dado aos professores, em salários e na sua seleção e preparação, tem papel nisso?
Sim, em vários relatórios internacionais isso é citado como um fator chave para o alto desempenho educacional de Singapura. O ensino é uma profissão respeitada. Investe-se muito esforço e recurso no desenvolvimento profissional de líderes escolares e professores. Conseguimos recrutar professores do terço superior das suas turmas acadêmicas. O salário inicial é comparável a outras profissões, e existem diferentes caminhos de desenvolvimento e avanço na carreira. Entrevistamos cuidadosamente os candidatos para recrutar só aqueles que estão de fato interessados em ensinar. O governo cobre o custo para a formação de professores, e quando estagiários eles recebem salário. Todos os professores e líderes escolares são treinados no Instituto Nacional de Educação, onde eu trabalho. Tentamos preparar professores prontos para o futuro, que sejam adaptáveis à mudança, mas ancorados em princípios.

Essa valorização reflete a própria sociedade, a forma como ela enxerga os professores?
Sim, em termos gerais, a sociedade valoriza os professores, mas também são feitos esforços deliberados para cuidar e proteger a imagem da profissão. Por exemplo, existe um prêmio prestigioso que homenageia professores excepcionais, inspiradores e atenciosos, que o presidente de Singapura concede pessoalmente, e grandes anúncios são pintados na parte externa de ônibus, para lembrar ao público que a educação está “Moldando o futuro da nação”.

Em relação à posição de Singapura no Pisa, há críticas ao peso que é dado no país para aulas particulares e à educação muito voltada para os exames. Isso é verdade?
O bem-estar dos estudantes é atualmente um tema quente em Singapura. Na verdade, as escolas sempre se preocuparam, atividades extracurriculares e educação física sempre foram parte importante do ensino. Mais recentemente, têm sido feitos mais esforços em áreas como educação de caráter e cidadania, aprendizado social e bem-estar digital.

Nosso sistema no passado era bastante voltado para exames. O que se está fazendo agora é afastar do foco no resultado dos testes e concentrar na qualidade da aprendizagem. Foi reduzido o número de exames que os estudantes fazem nas escolas, mas, mais importante, estão sendo feitas mudanças na educação para apoiar uma infância ou adolescência saudável. Os estudantes passam parte do tempo na escola. O que se quer é garantir que eles realmente se beneficiem e aproveitem de seu tempo de aprendizado na escola. Isso é uma parte crucial do bem-estar dos estudantes, que as crianças desenvolvam o hábito de estudar com menos estresse na aprendizagem.

Você já escreveu que Confúcio, falando sobre aprender, perguntou: ‘não é uma alegria?’. É uma alegria, em Singapura? Está se tornando mais alegre?
Espero que sim. Foi reduzida a ênfase nas notas como medida de sucesso dos alunos. Nos exames de conclusão do ensino fundamental, para alunos com 12 anos, a medida estatística para classificar as notas dos alunos foi substituída por faixas de conquistas mais amplas. Ao fazer isso, a mensagem para os alunos e pais é que os exames ainda são importantes, mas não são a única coisa ou a coisa mais importante na vida. Não há necessidade de ficar tão ansioso para buscar o objetivo. Portanto, agora é preciso nos perguntar: é necessário fazer aulas particulares? O tempo pode ser utilizado para algo que leve a um desenvolvimento mais completo? É necessário estudar repetidamente só para os exames, tirando tempo de outras aplicações mais criativas do conhecimento? A prática não está errada, ela é necessária para a aprendizagem. Estamos preocupados com a prática excessiva, em detrimento do desenvolvimento holístico da criança.

A aprendizagem ganha vida quando os alunos sentem que o que aprendem é útil e significativo em suas vidas e têm oportunidade de aplicar seus conhecimentos e habilidades em situações do mundo real. Recentemente, todas as escolas foram incentivadas e apoiadas a desenvolver um programa de aprendizagem aplicada para seus alunos. A abordagem ao bem-estar dos estudantes não é superprotegê-los de desafios. Enfatiza-se a educação holística para preparar os alunos com valores e habilidades para superar dificuldades e contratempos.

Como é a equidade no sistema escolar de Singapura? As crianças de famílias pobres têm acesso a boa educação?
O objetivo é um sistema escolar excelente para todas as crianças e jovens, não algumas escolas excelentes para alguns. A filosofia é que todas as escolas sejam boas, independentemente dos resultados acadêmicos. Que todas tenham bons líderes e professores, sejam ambientes seguros para as crianças. Se você ensina em uma escola de alto nível, isso não significa que é um professor melhor ou tem uma carreira mais brilhante. Na verdade, indicamos alguns de nossos melhores professores e diretores para as escolas menos privilegiadas, porque eles podem melhorar essas escolas. Independentemente do contexto familiar, as crianças podem ter acesso a uma boa educação. Todas as escolas importam, são lugares para as crianças aprenderem e construírem relacionamentos em um ambiente seguro.

Estão sendo desenvolvidos caminhos diferentes, para que alunos diferentes com aptidões diferentes possam encontrar satisfação à sua maneira. De certa forma, isso descreve a equidade em Singapura. Os resultados podem não ser todos iguais, mas são todos bons o suficiente como base para levar uma vida, criar uma família, ser um cidadão. Os diferentes caminhos também permitem que as crianças experimentem a alegria de aprender. Elas se envolvem, encontram significado e prazer, trabalham duro para alcançar. É a confluência de equidade, excelência e bem-estar.

Como foi a experiência com Covid-19 em Singapura?
Quando a Covid-19 atingiu, foi, é claro, uma crise. O impacto em vidas humanas, nos meios de subsistência e no estilo de vida foi tremendo. Durante o período de bloqueio, de abril a junho de 2020, quando o ensino em casa foi implementado em todo o país, os professores continuaram ensinando e aprendendo usando ferramentas online. Dada a mudança repentina naquela época, escolas, professores e alunos realmente se adaptaram. Os professores aprenderam a operar online, fizeram ligações para cuidar de seus alunos. Estes, é claro, tiveram que fazer muitos ajustes também, tiveram mais tempo de tela e menos socialização presencial, mas fizeram o seu melhor. O resultado foi que a aprendizagem continuou em Singapura, apesar da pandemia.

Pós-Covid, olhando para a frente, essas competências de ensino online abrem caminho para o avanço pedagógico. Os professores agora têm uma melhor compreensão dos benefícios e armadilhas das ferramentas tecnológicas. Estamos aproveitando o fato de que os professores agora estão mais competentes com elas para avançar em direção ao ensino híbrido. Algum ensino em casa regular, feito online, complementa as aulas presenciais. Durante esses períodos de ensino em casa, os alunos assumirão a responsabilidade por sua própria aprendizagem e se envolverão em alguns tópicos fora do currículo.



RAIO-X

Matemático pela Universidade de Cambridge, na Inglaterra, o singapurense Ng Pak Tee é professor do Instituto Nacional de Educação, da Universidade Tecnológica de Nanyang, faculdade que seleciona e prepara os professores do país. Publicou em 2017 o livro “Learning from Singapore: The Power of Paradoxes” (Routledge, 2017), em que aponta o efeito positivo de paradoxos no sistema educacional do país, como a convivência entre centralização e descentralização

https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2024/01/formula-de-singapura-e-valorizar-professor-diz-especialista.shtml

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IAs que resolvem problemas: um passo a mais para a IA realmente inteligente

Novo modelo de IA do laboratório do Google pode aprender a jogar games a partir de instruções verbais de um treinador humano


Mark Sullivan – Fast Company Brasil – 19-03-2024 

Por anos, pesquisadores têm ensinado modelos de IA a jogar videogame como uma forma de prepará-los para executar tarefas específicas da vida cotidiana. Mas a DeepMind, subsidiária do Google focada em inteligência artificial, aumentou a aposta, lançando um modelo “generalista” capaz de aprender a navegar em uma variedade de ambientes virtuais.

O agente de IA, chamado SIMA (acrônimo de “Scalable Instructable Multiworld Agent”, ou agente multimundo ensinável e escalável), pode seguir instruções em linguagem natural para realizar diversas tarefas em mundos virtuais.

Ele aprendeu a minerar recursos, pilotar espaçonaves, fabricar capacetes e construir esculturas usando blocos. Todas essas ações foram realizadas utilizando um teclado e um mouse para controlar o personagem principal do jogo.

O sistema (composto por vários modelos) que alimenta o SIMA foi projetado para mapear com precisão a linguagem e imagens. A equipe de desenvolvimento treinou um modelo de vídeo para prever o que aconteceria se o agente realizasse uma ação específica. Em seguida, ajustou o sistema com base em dados 3D específicos do jogo.

Os pesquisadores da DeepMind querem dar passos em direção à construção de modelos e agentes de IA capazes de descobrir como realizar tarefas no mundo real. “Estamos interessados no comportamento do nosso agente em ambientes que ele nunca viu antes”, afirma Frederic Besse, engenheiro de pesquisa da empresa.

Entretanto, seu colega Tim Harley, que liderou o projeto, ressalta que é muito cedo para falar sobre as aplicações da tecnologia. “Ainda estamos tentando entender como isso funciona… como criar um agente verdadeiramente generalista.”

ROBÔS CAPAZES DE SOLUCIONAR PROBLEMAS

Assim como a DeepMind, a Covariant busca criar um cérebro de IA com a capacidade de aprender novas informações e reagir a problemas inesperados. Mas, em vez de treinar agentes para atuar em uma ampla gama de ambientes digitais, a empresa está focando em ambientes mais restritos, como chãos de fábrica e centros de distribuição.

Os clientes da Covarient estão espalhados por 15 países. Todos usam diferentes tipos de robôs para realizar diversas tarefas, desde selecionar verduras até empacotar produtos comprados online.

A variedade de itens e ações com os quais eles lidam é grande demais para ser replicada em um laboratório de treinamento, então os robôs precisam usar sua capacidade de intuição para manusear objetos que nunca viram, de formas que nunca fizeram antes.

Os robôs começam a desenvolver um instinto de resolução de problemas, assim como os humanos.

Enquanto realizam suas atividades diárias, eles também coletam dados valiosos de treinamento. Peter Chen, CEO da Covariant, compara isso a muitos tipos diferentes de corpos reportando a um mesmo cérebro.

A empresa, que é composta por um bom número de ex-membros da OpenAI, usou esses dados para treinar um novo modelo de base com oito bilhões de parâmetros, o RFM-1.

Os primeiros grandes modelos de linguagem (LLMs, na sigla em inglês) eram treinados apenas a partir de texto. Em 2024, estamos vendo o surgimento de modelos multimodais, capazes de processar imagens, áudios, vídeos e códigos. Mas a Covariant precisava de um que pudesse “pensar” usando um conjunto ainda mais amplo de tipos de dados.

O RFM-1 também entende o estado e a posição do robô e os movimentos que ele pode fazer. Todas essas informações são representadas como tokens no modelo, da mesma forma que dados de texto, imagem e vídeo.

Com todos diferentes tipos de tokens em um único espaço, ele é capaz de fazer coisas impressionantes. O modelo pode, por exemplo, combinar instruções de texto com observações de imagem para intuir a melhor maneira de pegar e mover um objeto.

Também pode gerar um vídeo mostrando o resultado de uma ação específica. Ou simular uma ação planejada com base nas leituras dos sensores do robô. Em essência, trata-se de dar aos robôs uma espécie de intuição geral para solucionar novos problemas e experiências para os quais não foram treinados.

Dessa forma, eles podem continuar trabalhando sem a necessidade de serem desligados para receber treinamento adicional sobre como lidar com um cenário específico. Os robôs começam a desenvolver um instinto de resolução de problemas, assim como os humanos.

A diferença é que ainda podem realizar a mesma ação duas mil vezes por dia, a uma velocidade muito superior à nossa – e nunca ficam entediados.


SOBRE O AUTOR

Mark Sullivan é redator sênior da Fast Company e escreve sobre tecnologia emergente, política, inteligência artificial, grandes empres… saiba mais


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Porto de Santos aposta em drone subaquático e tecnologia chinesa contra o tráfico

Em 2023, mergulhadores da Marinha apreenderam 1,68 tonelada de cocaína em cascos de navio, estratégia do PCC para driblar fiscalização

Por Ítalo Lo Re – Estadão – 18/03/2024 

Somente no ano passado, mergulhadores da Marinha apreenderam 1,68 tonelada de cocaína em cascos de navios em ações de vistoria realizadas no Porto de Santos, o maior do hemisfério sul. A quantidade equivale a mais do que o triplo do que os 483 quilos interceptados em 2020, segundo informações exclusivas obtidas pelo Estadão.

A alta expressiva dessa modalidade, que se junta a outras táticas mais tradicionais, como esconder drogas em contêineres, desafia autoridades no combate ao tráfico. Hoje, a atuação do Primeiro Comando da Capital (PCC) extrapola fronteiras, com lucro que supera US$ 1 bilhão ao ano.

Na tentativa de frear o crime organizado, o governo federal editou, em novembro, decreto de Garantia da Lei e da Ordem (GLO) em portos e aeroportos de Rio e São Paulo, que prevê reforço militar até maio – ainda não está definido se haverá prorrogação.

Já a Autoridade Portuária de Santos (APS) prevê lançar edital ainda neste semestre para implementar um pacote de tecnologia no porto, inclusive com a compra de drones submarinos.

“Hoje, os mergulhadores precisam monitorar 24,6 quilômetros de canal. Ou seja, precisaria ter milhares de mergulhadores para monitorar todo o canal ao mesmo tempo”, diz Anderson Pomini, presidente da APS. Atualmente, a Guarda Portuária não tem mergulhadores, enquanto há quatro profissionais da Marinha em atuação.

Após essa análise de tecnologias usadas no exterior, houve “esse estudo interno para contratar os drones submarinos, segundo Pomini. “Há uma tecnologia chinesa, que já é implementada em alguns rios lá fora, para fazer esse tipo de vistoria, acompanhamento, batimetria, dragagem. Quereremos copiar essa tecnologia.”

O plano é de que essa contratação faça parte de um pacote de tecnologia para auxiliar na entrada e saída de navios que acessam o Porto de Santos. Segundo ele, R$ 140 milhões estão reservados para essa medida no orçamento deste ano. Também é previsto concurso para admitir 60 novos guardas portuários – hoje são 350.

A Guarda Portuária conta ainda com dois drones aéreos, além de uma rede que inclui 600 câmeras, algumas delas com sensor de movimento. As imagens são compartilhadas em tempo real com a Marinha. “É algo para ter imediatismo maior nas operações”, afirma o guarda portuário Felipy Nunes, que destaca a integração entre os agentes do porto para o sucesso da operação de GLO.

Dados da Alfândega de Santos obtidos pelo Núcleo de Estudos da Violência da USP mostram como o tráfico submarino tem crescido. Em 2020, a proporção de droga achada em cascos de navios era de 2,3% do montante. Em 2023, só até agosto, a fatia saltou para 13,5%.

“Eles (integrante do crime organizado) preferem atuar principalmente à noite e em zonas onde há menos patrulhamento e alcance das câmeras. Esse é o caso da zona de fundeio, que é bem distante e fica já em área marítima”, explica Gabriel Patriarca, pesquisador do Núcleo de Estudos da Violência da USP. Por isso e diante da dificuldade de vistoriar todas as embarcações, ele defende investir em tecnologia.

As investigações apontam que, em geral, os pacotes com cocaína são levados aos navios de duas formas: por pequenas lanchas, que se movimentam principalmente à noite com luzes apagadas, ou por mergulhadores, que saem de áreas de mata ou de embarcações mais afastadas. Além de içar os pacotes, também os acoplam nos cascos.

O pesquisador indica que, para mapear essa movimentação, outros portos internacionais já começam a adotar drones submarinos. Um exemplo é o de Rotterdã , na Holanda. Além de investir em redes mais sofisticadas de tecnologia, como o Sistema de Gerenciamento e Informação do Tráfego de Embarcações (VTMIS, na sigla em inglês).

Em Santos, o plano da Autoridade Portuária é justamente adotar monitoramento mais robusto. Como mostrou o Estadão, o Porto de Santos vai receber R$ 21,28 bilhões em investimentos entre 2024 e 2028, em ações que envolvem desde melhorias em infraestrutura até um novo sistema para acompanhar o tráfego de navios.

“Essa pode ser uma maneira mais efetiva de ter o controle de embarcações suspeitas que se aproximam dos navios na área de fundeio”, afirma Patriarca, da USP.

É na área de fundeio, por exemplo, que costuma ocorrer o içamento de pacotes com droga para integrantes da tripulação cooptados pelo crime organizado, como já indicaram investigações policiais. Não à toa, a Polícia Federal tem como um dos focos as inspeções de navios nesse espaço.

Ação conjunta da corporação com Receita e Marinha no início de 2023, por exemplo, apreendeu cerca de 290 kg de cocaína achados no casco de navio carregado de celulose. Os traficantes usaram até anilhas de academia para fixar os pacotes no recipiente. O barco ia para o Porto de Martas, na Turquia.

Para tentar auxiliar na fiscalização da área de fundeio durante o período da operação de GLO, a Marinha enviou cerca de 400 militares para atuar em Santos. A equipe conta com uma lancha blindada, conhecida como “Caveirão do mar”.

A lancha DGS 888 Raptor “Mangangá” é usada para a inspeção de embarcações que oferecem risco em potencial às equipes de fiscalização. A embarcação tem capacidade para transportar até 10 tripulantes e chega a uma velocidade de 30 nós, além de comportar uma metralhadora 7,62 mm.

“A gente entende que os números (de efetivo) são acanhados dado o tamanho do Porto de Santos, mas o que a gente procura fazer é utilizar informações de inteligência de forma a poder atuar pontualmente, mas de forma precisa”, diz o capitão dos Portos de São Paulo, Marcus André de Souza e Silva.

Nos quatro meses de GLO, houve duas apreensões mais expressivas de cocaína em Santos com ajuda da Marinha: uma de 10 kg, localizadas junto aos corpos de dois tripulantes estrangeiros de uma embarcação, e outra de 31 kg, escondidos em compartimento no alto do banheiro de um navio.

Além da lancha blindada, a Marinha enviou um blindado Mowag “Piranha”, tanque que chegou a ser usado em operações das Forças Armadas no Haiti e no Rio de Janeiro. Para reforçar as operações, a instituição dispõe também de dois drones e três navios-patrulha, com destaque para o “Maracanã”, embarcação da classe Macaé que possui canhão de calibre 40mm e duas metralhadoras.

“Não deixamos de atuar nas outras áreas que são de nossa responsabilidade, mas, atualmente, devido a essa demanda crescente da GLO, temos direcionado grande parte dos nossos esforços para a área de Santos, que é onde nós estamos sediados”, afirma o capitão de Corveta Bernardo Dias, chefe de Estado-Maior do Comando de Grupamento de Patrulha Naval do Sul-Sudeste.

É atribuição do grupamento atuar, por exemplo, no Porto de Paranaguá (PR), que, apesar de ser um dos maiores do País, não foi incluído no decreto de GLO. Segundo Dias, o remanejamento foi feito de forma a não prejudicar outros portos.

Apesar da previsão inicial de a operação ir até maio, fontes internas da Marinha afirmam que o governo federal estuda uma extensão até dezembro. Avalia também a inclusão no decreto do Porto de Paranaguá, que costuma ser o 2º colocado em apreensão de cocaína, atrás apenas de Santos.

Por ano, mais de 5 mil navios chegam a ficar atracados no Porto de Santos, que se destaca pela exportação de soja, açúcar e carne bovina. Os principais destinos das embarcações são Ásia e Europa, também alguns dos locais de revenda de droga pelo Primeiro Comando da Capital.

PCC envia entre 4 e 5 toneladas de cocaína por ano ao exterior

Investigações do MP indicam que a facção paga de US$ 1,2 mil a US$ 1,4 mil (entre R$ 6 mil e R$ 7 mil) pelo quilo de cocaína para fornecedores de países vizinhos, como Colômbia, Peru e Bolívia. Na Europa, vende por cerca de € 35 mil.

Como mostrou o Estadão, a estimativa é que o PCC envie de 4 a 5 toneladas de cocaína para outros países por mês, em especial por meio dos portos. E, pelos cálculos do MP, a facção lucra cerca de US$ 1 bilhão (quase R$ 5 bilhões) anuais, com destaque para a venda internacional de cocaína.

Conforme a Marinha, nos quatro primeiros meses de operação, foram mais de 27 mil abordagens em veículos, 7,4 mil fiscalizações em embarcações e 17,5 mil inspeções em pessoas e bagagens.

Além disso, foram inspecionados mais de 4,5 mil contêineres em cooperação com outros órgãos, sendo apreendidas mais de 30 embarcações por irregularidades administrativas. Outras 215 embarcações foram notificadas.

A Polícia Civil afirmou, em nota, que deflagrou as operações “Navegação Segura” e “Pérola do Atlântico” na Baixada Santista, em outubro e novembro, com apoio de agentes da Marinha e da Capitania dos Portos.

Um homem de 38 anos, procurado por tráfico de drogas, foi preso. Já um adolescente, de 15 anos, foi apreendido em flagrante por ato infracional equivalente à associação criminosa.

“Quatro jet skis produtos de furto foram recuperados e uma lancha com dados adulterados apreendida, em Santos. Em Guarujá, quatro jet skis com sinais de irregularidade e outros quatro sem documentação foram recolhidos”, afirmou.

Procurados pela reportagem, Ministério da Justiça e Polícia Federal não falaram.

https://www.estadao.com.br/sao-paulo/porto-de-santos-aposta-em-drone-subaquatico-e-tecnologia-chinesa-contra-o-trafico

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Silvio Meira: “Estamos na era da pedra lascada da IA, mas o futuro chega em 800 dias” 

Silvio Meira – Brazil Journal – 16 de março de 2024 

Daqui a 800 dias, a inteligência artificial atingirá a complexidade da filosofia. Não são meses nem semanas. São dias. Isso significa que os líderes empresariais que ficarem esperando para ver se “esse negócio de IA” vai dar certo, daqui a três anos não vão mais conseguir entender o cenário competitivo. Vai ser tudo rápido demais.

 A profecia é de Silvio Meira, o cientista-chefe da tds.company, professor emérito da Universidade Federal de Pernambuco e um dos fundadores do Porto Digital, o centro de excelência em inovação do Recife. Silvio também está no conselho de empresas como o Magazine Luiza, MRV, Tempest e CI&T. “Entre a escrita Linear B (a forma mais antiga do grego que se conhece) e Platão, demorou 1.200 anos,” diz Meira.

 “Entre a Inteligência Artificial online e o equivalente a um Platão contemporâneo, vai levar alguma coisa como 1.200 dias. Não é 1.200 meses, nem 1.200 semanas. É 1.200 dias.” Já estamos por volta do dia 400, levando em conta o lançamento do ChatGPT. Um lançamento épico, que já entrou para a História como o sistema de informação que mais rápido atingiu 100 milhões de usuários. “100 milhões de pessoas fazendo sabe o quê? Treinando um sistema de informação. De graça,” diz Silvio. 

Mesmo com a IA já tendo caminhado um terço da escala imaginada por ele, Silvio mesmo diz que estamos ainda na idade da pedra lascada da IA. Quando o ChatGPT foi lançado, o modelo era capaz de processar 4 mil tokens. O token é uma medida que define a quantidade de informação à qual o modelo de IA pode prestar atenção de forma a manter uma interação coerente com as pessoas. Mais recentemente o Google lançou o Gemini, com capacidade de 700 mil tokens. É token suficiente para processar 60% de toda a Enciclopédia Britânica. 

Até 2030, Meira diz que serão bilhões de tokens, capazes de entender todo o conteúdo em português criado no mundo em todos os tempos. E em 2040, serão trilhões de tokens. Enquanto isso, as empresas ainda precisam entender o básico: a inteligência artificial não é uma ferramenta. Ela é uma extensão da inteligência, e isso significa que as pessoas não podem ser substituídas. Também vai significar uma transformação dos negócios, a ponto de criarmos o mercado de uma só pessoa. Silvio não mede as palavras para fazer seu ponto. Nem com as pequenas… “Se você é uma empresa pequena e não está usando a inteligência artificial que está na nuvem que é aberta, que não vai lhe dar trabalho de treinamento, de configuração, de segurança, você é um idiota.” 

Nem com as grandes… “Se você é uma grande empresa, um banco, uma grande rede de varejo, grande negócio de finanças, grande sistema universitário e você está usando um negócio de Inteligência Artificial que está na nuvem, você é um idiota também.” 

É difícil entender, mas Silvio usa até as carroças para tentar explicar tudo nesta conversa com o Brazil Journal. Qual tem sido a reação mais recorrente das pessoas à inteligência artificial? Susto combinado com histeria. De fora da área de computação, todo mundo achando que houve um big bang. Mas para quem acompanha de perto, esse assunto está sendo falado pelo menos nos últimos 20 anos. O que estava faltando era talvez o que a gente pudesse chamar de cola, do ponto de vista científico. Como se fosse uma amarração. 

Computação já estava nas empresas desde a década de 50 e do ponto de vista da sociedade em geral ela passou 45 anos escondida. Quando que a computação aparece para as pessoas? Em 1995. Por quê? Porque publicou-se o código na internet. A internet não é um ambiente de comunicação. Ela é um ambiente de conectividade, que habilita você a publicar código na internet. Muitos algoritmos ao mesmo tempo. E aí o que a gente viu em 2022 foi a publicação de Inteligência Artificial online que levou ao sistema de informação que teve mais rápido 100 milhões de usuários em toda a história do universo. 100 milhões de pessoas fazendo sabe o quê? Treinando um sistema de informação. 

Vou dizer de novo, não é usando esse sistema. É treinando. E de graça. E depois você mandou as pessoas pagarem para treinar um sistema que vai ser usado depois. Nós estamos numa espécie de idade da pedra lascada da computação inteligente. Não parece tão primitivo assim. Vou fazer um paralelo com a escrita. O que a gente conhece como alfabeto, não com hieróglifos e coisas parecidas, tem 3.500 anos. E depois evoluiu para a Linear B. Entre a linear B, em 1.500 antes de Cristo, e Platão demorou 1.200 anos. Mas entre a Inteligência Artificial online e o equivalente a um Platão contemporâneo, vai levar algo como 1.200 dias. Não é 1.200 meses nem 1.200 semanas. É 1.200 dias! 

Estamos chegando num ponto onde eu posso chegar para uma inteligência artificial e dizer, “faça uma teoria para mim, para isso, para esse cenário aqui e faça uma teoria que serve para esse tipo de objetivo.” E ela faz. Entendeu? Isso é uma coisa que não se esperava que tivesse acontecendo agora e aí sim, tem uma surpresa, até para o pessoal da área. Que conhece esse assunto há muito tempo. Tem um ‘puta que pariu’ aqui. 

Mas temos a questão dos erros, das alucinações. Isso vai acabar então? Os erros não vão acabar e justamente eles vão criar um conjunto muito grande de oportunidades para evolução. A gente nunca vai ter um modelo capaz de entender um universo como um todo, isso é computacionalmente impossível. Não tem essa história de vamos fazer um troço que entende o mundo todinho e nos diz a resposta para o sentido da vida. Mas vai fazer com que a gente continue evoluindo em larga escala e numa velocidade que talvez a gente nunca tenha visto. 

Isso está acontecendo com o Gemini, do Google? O ChatGPT saiu tão na frente e saiu tão do nada que ninguém esperava que aquilo acontecesse. O que aconteceu é que a Microsoft pulou direto na oportunidade, foi lá e botou US$ 10 bilhões em um movimento defensivo. Só para a gente lembrar, lá no começo, a Microsoft fez a mesma coisa com o Facebook, ela olhou assim e pensou eu nunca vou fazer isso então eu vou entrar aqui. Ela comprou uma cláusula de bloquear investimentos de outros. Ninguém pode comprar Facebook porque a Microsoft não deixaria, ela tem uma opção de compra para ela mesmo. E ela fez a mesma coisa com a OpenAI. 

E aí o que aconteceu com Google, Facebook, Apple? Eles têm que lançar alguma coisa. No caso do Google, isso é ainda mais dramático porque muda o seu modelo de negócio. Imagina você e eu fazendo a seguinte pergunta: Me explica a história das línguas escritas. O Google me responde com 50.000 links. O ChatGPT me explica a história das línguas escritas em uma resposta. 

Mas em que ponto estamos na sua escala de evolução da IA? Nós estamos alguma coisa como 400 dias depois do ponto de partida. E ainda estamos confundindo um bocado de coisa, a começar pelo que é inteligência humana. Até bem pouco tempo, tínhamos duas dimensões dessa inteligência da sociedade: a inteligência de cada um de nós e a inteligência social, que é a inteligência dos grupos ou de rede de pessoas. E aí vem a inteligência artificial. 

Ela não é uma tecnologia. Ela não é uma plataforma. Ela é uma nova dimensão da inteligência, e eu acho que as pessoas estão se perdendo aqui ao achar que tem uma ferramenta em que você bota os processos como eles já existem. Não. A gente agora tem um outro conjunto de inteligências a nosso dispor, se a gente assim quiser, que além de ser cada um de nós e nós em rede, são agentes inteligentes e desincorporados. Onde estamos é só o começo. Porque o que define a competência desses agentes inteligentes é uma medida chamada tokens por interação. 

Qual é a quantidade máxima de informação à qual o modelo pode prestar atenção de forma coerente, que mantém um fluxo de informação como se duas pessoas estivessem conversando? Estamos hoje em milhares de tokens por interação. A versão atual de Gemini, a paga, trabalha com 700 mil tokens. Em um ano e meio evoluímos para centenas de milhares de tokens. Se você for ver o que Gemini é capaz, ele é capaz de fazer coisas do outro mundo. Mas estou falando do outro mundo mesmo, comparado com o que o ChatGPT faz. Por quê? Porque a zona de atenção dele é muito maior. Ele processa um conjunto muito maior de dados. A zona de contexto informacional é do tamanho de 60% da Enciclopédia Britânica inteira. Nós estamos falando de 40 milhões de palavras. E estamos indo para um modelo de bilhões de tokens onde ele captura quase toda a informação relevante já produzida pela humanidade. 

Então o contexto conversacional com esses modelos, por exemplo, ali no fim da década, olhando para 2030, essa inteligência vai estar acessível no interface conversacional, não é no laboratório da Nasa ou da Google ou da Microsoft. Então você vai ter o equivalente, por exemplo, a toda a literatura em língua portuguesa, tudo que os jornais já publicaram, tudo que já foi feito em português no mundo inteiro vai estar disponível no interface conversacional para você elaborar coisas com ela. No médio prazo, nós estamos falando de 2040, vai haver modelos que lidam com trilhões de tokens por interação. Esses modelos vão começar a fazer completamente sozinhos os modelos de mundo. E na medida em que o mundo for mudando ao redor deles, eles vão estendendo não probabilisticamente, ou seja, eles não vão chutar as respostas com uma certa probabilidade, eles vão mudar as regras, eles próprios, para entender o que é esse novo mundo que está lá fora. E como as empresas estão lidando? 

As empresas tendem a simplificar dramaticamente a IA e começam a ter uns problemas não triviais. Quer ver um? O chatbot habilitado por Inteligência Artificial da Air Canada. Ele foi colocado online para tirar pessoas da frente de atendimento e reduzir custos de atendimento 24 horas. O que fez o chatbot? Pariu, do nada, uma política de reembolso para um cliente. E o cliente exigiu o cumprimento. A causa foi parar na Justiça e a Air Canada alegou que foi um erro de sistema. A Justiça disse que não tem nada de erro de sistema, que a empresa botou o robô no ar e tinha que pagar ao cliente, de acordo com a política de reembolso que o chatbot criou. Qual é o problema? O problema é que a empresa não entendeu o que é a IA. Se você resolver botar na linha de frente um robô, de repente, o cliente vai fazer perguntas que podem levar a respostas completamente estapafúrdias, pelas quais o negócio vai ser responsabilizado. 

As empresas não entenderam que você não está olhando para algum ambiente de processamento de informação clássico, que é determinístico como quando você bota o CRM, um sistema de estoque ou de logística em que você escreve algumas regras para esse comportamento digital. O que a gente está falando aqui agora é um sistema que você não sabe a priori o que ele vai responder. Eu mesmo tenho vários agentes inteligentes – robozinhos que eu criei – que escrevem texto, e um deles é especialista em Direito. Outro dia ele me surpreendeu criando um pedaço da Constituição Brasileira. Eu tinha entregue a ele a Constituição todinha – e mesmo assim ele inventou um trecho. 

Então tem uma diferença fundamental aqui. Isso não é um sistema de informação exato, é um sistema de informação criativo e esse problema da criatividade é o que vai fazer a diferença. Os líderes empresariais devem estar todos de cabelo em pé sem saber o que fazer. A oportunidade agora não é você dizer, ‘eu vou demitir o meu call center e botar um agente IA.’ Muito longe disso. A oportunidade agora é descobrir como eu posso usar pessoas e agentes inteligentes em redes. Não substituir trabalhos repetitivos cognitivos por IA. Isso pode aumentar a complexidade dos problemas das empresas. A questão é expandir a inteligência. Porque se for uma substituição simples, o próprio CEO poderá ser substituído em algum momento. Este é um ponto que deixa todo mundo nervoso, já que a IA substitui um nível técnico mais elevado. 

Não estamos falando do chão de fábrica como em outras revoluções tecnológicas, não é? O que a gente descobriu é que o funcionário de chão de fábrica é muito difícil de ser substituído. Por exemplo, o motorista nas ruas de Nova Déli ou na periferia do Rio de Janeiro, São Paulo e Recife. Essas pessoas são extremamente difíceis de serem substituídas. Por quê? Porque elas trabalham com o contexto mutante e muito difícil de ser codificado. Imagina você ser um carro autônomo na Maré, no Rio de Janeiro, ou no Complexo do Alemão… É totalmente diferente das ruas, das cidades, do interior da Alemanha, onde tudo é previsível. Todas as placas de trânsito têm o mesmo tamanho, e inclusive ficam na mesma altura. 

Mas em que contexto as empresas vão usar a IA? A gente vai começar a usar a inteligência artificial para criar mercados de uma pessoa. Eu vou conseguir capturar tanta informação sobre a pessoa e manter essa informação coerente com um discurso interativo, que eventualmente cada pessoa poderá ser tratada como um mercado de propósito específico. Não haverá mais categorias “professores universitários que têm 70 anos”. Vai ter a categoria Silvio Meira. E o tipo de atendimento que eu vou ter é totalmente diferente do tipo de atendimento que outro professor de computação – que também tem 70 anos e mora no Recife no mesmo bairro que eu – vai ter. 

Eu tenho uma lei para empresas e nuvens. Se você é uma micro pequena e média empresa e você não está na nuvem você é um idiota. Se você é uma empresa grande ou gigantesca, e você está numa nuvem pública de alguém, você também é um idiota. Tem uma coisa aí básica que é o seguinte: se você é uma empresa pequena e resolve processar a sua própria informação, você é um idiota completo, está perdendo tempo com um negócio que é totalmente irrelevante para você. Mas se você é um negócio que faz milhares ou milhões, dezenas de milhares, milhões de transações por dia na nuvem, você é um idiota porque você está jogando fora uma oportunidade de negócio, não só de você participar da nuvem com essas empresas ou fazer serviço para essas empresas que são menores, de pequeno porte. 

Para a inteligência artificial é a mesma coisa. Se você é uma empresa pequena e não está usando a inteligência artificial que está na nuvem aberta, que não vai lhe dar trabalho de treinamento, de configuração, de segurança, você é um idiota. Se você é uma grande empresa, um banco, uma grande rede de varejo, grande negócio de finanças, grande sistema universitário e você está usando um negócio de Inteligência Artificial que está na nuvem, você é um idiota também. Por quê? Porque isso tem custo de transação. Você paga por token consumido e produzido nas interfaces. 

As empresas no Brasil estão efetivamente fazendo alguma coisa ou só olhando por enquanto? Tem muita gente fazendo muita coisa. Todas as empresas onde eu estou no conselho estão trabalhando com modelos de Inteligência Artificial, seja design de soluções, seja na entrega das soluções, seja no desenvolvimento de soluções. Não tem ninguém parado não. Mas o ambiente que eu estou vendo em todos os lugares, onde está sendo feito de maneira responsável, é de aprendizado, de experimentação e de uso com cautela, para ver como esses modelos se comportam do ponto de vista de três coisas: de eficácia, se resolve ou não resolve o problema sem criar um outro problema; de eficiência, resolver muito mais rapidamente; e de economia, custo. 

Mas o fato é, quem estiver parado agora esperando para ver se essa coisa vai funcionar no futuro, achando que agora a IA não resolve nada para sua empresa e vai dar uma olhada só daqui três anos, aí sim, esses têm um problema porque lá na frente vão ter que dar saltos de anos e não vão conseguir entender o cenário competitivo. Se já é difícil entender agora.. É isso. Do jeito que está, já é complicadíssimo. Daqui para frente, vai ficar muito mais complicado. As empresas, de todos os portes e todos os mercados, que vão ter mais sucesso com inteligência artificial são aquelas que vão entender que inteligências artificiais não vieram para substituir pessoas, mas para trabalhar junto com pessoas e grupos de pessoas em prol de modelos de negócios de resolução de problemas. 

Se eu posso fazer com que cada pessoa trabalhe por dez, eu tenho que ir atrás de 10 vezes mais mercado – e não demitir. Se eu demitir as pessoas do call center, tenho que contratar TI para operar a inteligência artificial que vai conversar com os clientes. Quem souber dar esse salto para o futuro usando Inteligência Artificial para empoderar, para estender, para aumentar a capacidade e o alcance das suas pessoas – mudando também simultaneamente o nível das pessoas – vai sobreviver lá na frente. 

O que nós estamos falando agora é de sobreviver. Só para comparar, algumas empresas que digitalizaram seus modelos de negócio nos últimos 25 anos quebraram. Por que fizeram o quê? Pegaram o modelo de negócio analógico e botaram só uma capa digital. Às vezes só fica mais caro de executar o modelo de negócio. As que sobreviveram, cresceram e se tornaram gigantes foram aquelas que transformaram o modelo de negócio. 

Você pega o Magazine Luiza, onde eu estou no conselho. Lá em 2011, a empresa começou o processo de transformação digital. Transformou funções, métodos, fundações e reescrever do zero digitalmente. O resultado é uma companhia hoje 50 vezes maior do que quando esse processo começou. Não é uma coisa que você pegou e disse ‘ah, vamos informatizar a loja do Magazine Luiza.’ Não. Transformar a loja, transformar o vendedor. Transformar o digital do magalu. Transformar lojista. E aí você faz um negócio completamente diferente. Se o mercado entende ou não entende, isso é outro problema, completamente diferente. O erro que as pessoas podem incorrer com inteligência artificial é exatamente o de pegar os seus processos de negócios pré-IA e artificializar. 

Você precisa estar ciente que tem uma nova dimensão da Inteligência e começar do zero. E é muito difícil para as empresas pensarem. Se já foi difícil com a digitalização.. Mas se você não pensa a partir do zero, você continua executando no passado. Na vasta maioria das empresas contemporâneas, você não tem garantia para o ano que vem do orçamento que você teve no ano passado. Não pode ter, porque senão você não muda, você não vai atrás de melhoria de processo, você não vai atrás de mudança de nada. Então o que está acontecendo agora é uma mudança radical no contexto das inteligências, tem uma nova dimensão das inteligências, quem não tentar entender isso não vai sobreviver nos próximos 15 anos. 

Isso você pode escrever com todas as letras: ou as pessoas e as empresas entendem Inteligência Artificial como uma nova dimensão da inteligência, não como um conjunto de ferramentas, de plataformas de tecnologias, ou elas não vão sobreviver. Tem um ponto de partida aqui que foi a mudança de paradigma da tração animal para o motor a combustão. Você sabe quantas fábricas de carroças, carruagens e ônibus puxados a cavalo conseguiram com sucesso construir um automóvel, uma caminhonete e um ônibus movido no motor a combustão? Zero. 

Porque eles ficaram olhando para o motor e dizendo ah, mas esse negócio é barulhento, quebra muito, precisa de posto de gasolina. E o pessoal do motor a combustão foi lá devagarzinho, faz o motor um pouco melhor, faz o motor um pouco menos de barulhento, faz um motor que quebra menos, faz um motor que consome menos combustível, começa a instalar posto de gasolina… 

Essa transição levou cerca de 30 anos. Quando foi que a internet começou? 1995. Aconteceu tanta coisa de lá para cá que a gente pensa que foi em 1915. Mas foi em 95. No ano que vem a gente vai comemorar 30 anos da internet comercial. Mas ela só virou banda larga em 2005, a gente só tem smartphone desde 2007. Se a gente olhar, só tem 15 anos de internet de verdade, os próximos 15 anos que vão ser acelerados por Inteligência Artificial é que vão ser os anos de impacto mesmo da internet, porque aí o jogo vai mudar completamente. 

Quem ainda sobrevivia mesmo estando escondido da internet, da tecnologia da Informação em algum lugar, não vai sobreviver e isso é fato. Como já disse Peter Drucker, o objetivo final da inovação é sobreviver. Não é criar um produto, mudar processo, nada disso. É sobreviver.

Leia mais em https://braziljournal.com/silvio-meira-estamos-na-era-da-pedra-lascada-da-ia-mas-o-futuro-chega-em-800-dias/ .

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O Brasil e a Nova Rota da Seda

País tem mais com o que se preocupar que aderir à iniciativa chinesa


Rodrigo Zeidan – Folha – 15.mar.2024 

Professor da New York University Shanghai (China) e da Fundação Dom Cabral. É doutor em economia pela UFRJ.

Recentemente, a Itália saiu da Nova Rota da Seda, acordo da China com países interessados em aumentar investimentos de Pequim. Já me perguntaram várias vezes, por morar na China, se o Brasil deveria fazer parte desse acordo. A resposta, em bom português, é que não faz diferença.

A Nova Rota da Seda é muito menor do que já foi no passado e hoje funciona mais para emprestar dinheiro para empresas chinesas fazerem obras de infraestrutura em países pobres e de renda média do que qualquer outra coisa.

A ideia da China como grande investidor (ou colonizador, segundo alguns) na África ou na América Latina foi por água abaixo. Primeiro, pelo ataque especulativo contra o yuan pelas estatais chinesas. Depois, pelas tensões geopolíticas, por problemas com dívidas para países amigos e pela desaceleração da economia chinesa.

Em 2013, quando a iniciativa foi criada (então chamada de “One Belt One Road”), as autoridades monetárias chinesas lutavam para expulsar dólares do seu país. No auge da acumulação de reservas cambiais, em 2013 e 2014, o saldo líquido de entrada de dólares na China chegava a US$ 100 bilhões por mês. Sim, por mês, não por ano. Algo que não só era único na história da humanidade —nunca um país recebeu tantos recursos em tão pouco tempo— como parecia que nunca acabaria, pois a economia chinesa era o motor do desenvolvimento mundial.

O Brasil também já passou por algo parecido em 2007 e no início de 2008, quando o Banco Central lutava a todo custo para não deixar o real se valorizar ainda mais; muitos achavam que o real voltaria à paridade com o dólar, mas aí veio a crise financeira global e desvalorizou a moeda brasileira.

O projeto da Nova Rota da Seda

O projeto da Nova Rota da Seda – William Mur/Folhapress

No caso chinês, com a enxurrada de dólares, fazia sentido uma estratégia de “comprar” aliados com projetos gigantescos de infraestrutura ou, em última instância, fazer empréstimos emergenciais para países em dificuldade. Saiu mais de US$ 1 trilhão da economia chinesa desde o início da Nova Rota da Seda, mas grande parte nos primeiros anos, quando as reservas do país bateram em US$ 4 trilhões.

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Mas tudo isso muda em 2015 e 2016, quando empresas estatais chinesas apostaram que o Banco Central não iria conseguir manter a cotação vigente do yuan com o dólar e chegaram a tirar quase US$ 1 trilhão da economia do país em um ano e meio.

No caso italiano, entraram na contabilidade da Nova Rota da Seda projetos superprioritários (com ironia), como a compra de participação nos clube de futebol Milan e Inter de Milão.

A China também não está “comprando” a África (e só alguém muito elitista pode reclamar de projetos de investimentos em países que carecem de infraestrutura básica). O número de trabalhadores chineses no continente caiu 64% desde o auge do programa, em 2015.

Hoje, os projetos da Nova Rota da Seda são pequenos e direcionados, em grande parte, a energias limpas. Mas estar ou não no projeto não faz muita diferença. Se há interesse de empresas chinesas ou do governo, há financiamento dos projetos.

O que o Brasil ganharia assinando o protocolo? Quase nada. O que perderia? Também quase nada. Os EUA torceriam o nariz, e a China poderia adicionar mais um país à sua coleção de 150 que aderiram ao acordo, mas, fora isso, não mudaria muita coisa.

Há coisas mais importantes para nos preocupar do que com a Rota da Seda. Ela nunca passou pelas Américas, afinal.

https://www1.folha.uol.com.br/colunas/rodrigo-zeidan/2024/03/o-brasil-e-a-nova-rota-da-seda.shtml

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O abismo criativo entre os seres humanos e a inteligência artificial

A IA pode tornar o trabalho mais eficiente, mas será que ela pode mexer com as nossas emoções?


Michael McIntyre – Fast Company Brasil – 15-03-2024 

Gostaria muito que o ChatGPT pudesse gerar uma piada engraçada o suficiente para fazer minha família rir. Mas, infelizmente, todas são sempre recebidas com olhares entediados dos meus filhos adolescentes, que têm um senso de humor muito exigente.

Até hoje, a inteligência artificial não conseguiu nos entregar uma grande obra de arte, filme ou série de TV de sucesso ou campanhas publicitárias memoráveis. Isso nos faz questionar: será que a IA já produziu algo realmente valioso, além da promessa de um futuro mais produtivo?

Com as máquinas começando a exercer gradualmente sua influência mecânica nas artes, aqui estão três pontos que sugerem que nós, humanos, continuaremos no controle criativo.

EMOÇÕES

A inteligência artificial, seja o ChatGPT, Midjourney ou Runway, nunca foi capaz de me fazer rir (intencionalmente, pelo menos). Da mesma forma, também nunca me fez chorar, despertou sentimentos de nostalgia ou amor, ou me inspirou a agir. Isso acontece porque, para expressar emoções, é necessário entendê-las.

O que é  engraçado ou não é algo que só os humanos realmente compreendem. A comédia é uma combinação delicada e complexa de sagacidade, timing e normas culturais, que apela para o que é conhecido e então subverte a expectativa. Embora a IA possa gerar o absurdo, criar uma piada genuinamente engraçada requer o toque humano.

Crédito: Freepik

Quando se trata de música, a inteligência artificial pode criar playlists com seus algoritmos, mas não consegue explicar por que uma determinada canção mexe tanto com as nossas emoções.

A sugestão de músicas pode ser útil como ponto de partida, mas decidir qual usar em um anúncio, filme, trailer ou programa de TV para evocar uma emoção específica continua sendo um trabalho para criativos humanos.

O “conteúdo” vai além dos pixels e bytes que o compõem. Ele tem a ver com o significado por trás do trabalho, com a capacidade de mexer com as emoções das pessoas e provocar reações ou ações. A IA carece da profundidade emocional e depende da criatividade e do significado que só os humanos podem proporcionar.

MENTORIA

Descobrir no que somos bons leva tempo. Normalmente, envolve tentativa e erro e requer orientação de pessoas mais experientes. Editores assistentes, por exemplo, analisam centenas de milhares de horas de filmagem para montar uma cena e identificar as melhores tomadas.

Redatores iniciantes escrevem milhares de textos ruins até dominar totalmente a escrita. Designers novatos produzem centenas de logotipos até encontrar a solução “certa”. Tudo isso fortifica nosso músculo mental para que possamos ser cada vez mais criativos.

A inteligência artificial pode processar dados e gerar resultados rapidamente, mas não pode ensinar o que é bom gosto. Os aspirantes a criativos devem ter cuidado para não depender demais da IA como uma espécie de muleta criativa, em vez de usá-la apenas como um assistente de produtividade.

A JORNADA

Só por diversão, recentemente pedi ao ChatGPT para sugerir ideias para o trailer de um filme distópico dos anos 90 em que estávamos trabalhando. As sugestões eram lógicas, mas faltou a elas as nuances e o toque humano que fazem uma obra memorável.

Mas, como ferramenta produtiva, a IA pode ser excelente. Ela pode fornecer sugestões e pontos de partida, permitindo que os criativos explorem diferentes direções. 

Usamos ferramentas como o Midjourney e o Runway para criar protótipos visuais em tempo recorde, o que nos ajuda a mostrar aos clientes uma ideia de como será o resultado final.

No entanto, o perigo é depender demais da IA. Nenhum algoritmo pode replicar o sentimento de ouvir uma música que sua mãe colocou durante uma viagem de carro ou a experiência de enfrentar um valentão na escola – um abismo criativo que separa o homem da máquina.

Mexer com sentimentos, seja emocional ou comercialmente, sempre exigirá um toque humano. Compreender emoções e articular o porquê por trás de uma história confere valor artístico a qualquer projeto criativo.

A IA certamente mudará a forma como trabalhamos, tornando nossos processos e fluxos de trabalho mais eficientes e fornecendo ideias baseadas em vastos conjuntos de dados. Mas precisamos decidir o que fazer com essas ideias e como transformá-las em algo verdadeiramente significativo e impactante.

A inteligência artificial nos dá apenas um ponto de partida. Todo o resto cabe a nós, humanos, decidir.


SOBRE O AUTOR

Michael McIntyre é cofundador e CEO da agência de marketing Mocean.

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Como a Malásia se tornou um elo crucial na cadeia global de chips

Empresas americanas e europeias que buscam alternativas à China estão se se expandindo no Sudeste Asiático, um sinal de como a geopolítica está remodelando o setor tecnológico

Por Patricia Cohen Estadão/The New York Times – 14/03/2024 

PENANG, MALÁSIA – Os guindastes de construção ainda cercam a novíssima fábrica no parque industrial de Kulim, na Malásia. Mas, lá dentro, legiões de trabalhadores contratados pela gigante austríaca de tecnologia AT&S já se preparam para produzir com capacidade total até o final do ano.

Vestidos de macacão da cabeça aos pés, com capacetes e grandes óculos de segurança, eles lembram as abelhas operárias do filme “Minions”, mas com cores codificadas por função – azul para manutenção; verde para os vendedores; rosa para zeladores; branco para os operadores.

A AT&S é apenas uma de uma enxurrada de empresas europeias e americanas que recentemente decidiram se mudar ou expandir suas operações na meca da fabricação de produtos elétricos e eletrônicos da Malásia.

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A Intel, gigante americana de chips, e a Infineon, empresa alemã, estão investindo US$ 7 bilhões cada uma. A Nvidia, líder mundial na fabricação de chips que alimentam a inteligência artificial, está se unindo ao conglomerado de serviços públicos do país para desenvolver um centro de supercomputadores e nuvem de inteligência artificial de US$ 4,3 bilhões. A Texas Instruments, a Ericsson, a Bosch e a Lam Research estão se expandindo na Malásia.

O boom é uma evidência do quanto o atrito geopolítico e a concorrência estão remodelando o cenário econômico do mundo e impulsionando decisões de investimento multibilionárias. À medida que as rivalidades entre os Estados Unidos e a China em relação à tecnologia de ponta se acirram e as restrições comerciais se acumulam, as empresas – principalmente as de setores cruciais como semicondutores e veículos elétricos – procuram fortalecer suas cadeias de suprimentos e capacidades de produção.

A AT&S tinha unidades de produção na Áustria, Índia, Coreia do Sul e China – sua maior fábrica – quando começou a procurar um novo local.

“Ficou claro que, após 20 anos de investimento na China, precisávamos diversificar nossa presença”, disse o CEO da AT&S, Andreas Gerstenmayer. A empresa fabrica placas de circuito impresso e substratos de alta qualidade, que servem como base para componentes eletrônicos avançados que alimentam a inteligência artificial e os supercomputadores.

A pesquisa de locais da empresa começou no início de 2020, quando começaram a se espalhar avisos sobre um novo e perigoso coronavírus na China. A AT&S pesquisou 30 países em três continentes antes de se decidir pela Malásia.

A posição estratégica do Sudeste Asiático, no Mar do Sul da China, e os laços econômicos de longa data com a China e os Estados Unidos tornam a região um local atraente para se estabelecer. Países como a Tailândia e o Vietnã, a segunda opção da AT&S, também estão cortejando agressivamente as empresas de semicondutores para que se expandam, oferecendo incentivos fiscais e outros atrativos.

No entanto, a Malásia tem a vantagem de estar à frente.

O país tem aproveitado a onda tecnológica desde a década de 1970, quando foi atrás, energicamente, de algumas das superestrelas elétricas e eletrônicas do mundo, como a Intel e a Litronix (hoje Osram, com sedes na Áustria e na Alemanha). O país criou uma zona de livre comércio na ilha de Penang, ofereceu isenções fiscais e construiu parques industriais, armazéns e estradas. A mão de obra barata foi um atrativo adicional, assim como sua grande população de língua inglesa e um governo que apoiava o investimento estrangeiro.

No caso da AT&S, o histórico da Malásia no setor de produção de semicondutores foi um dos principais atrativos, disse Gerstenmayer.

“Eles sabem muito bem quais são as necessidades do setor de semicondutores”, disse. “E têm um ecossistema bem desenvolvido nas universidades, na educação, na força de trabalho, na cadeia de suprimentos” e muito mais. O apoio do governo foi outro atrativo, disse.

Tengku Zafrul Aziz, ministro de investimentos, comércio e indústria da Malásia, disse que o investimento estrangeiro começou a aumentar em 2019, impulsionado pelo uso cada vez maior de semicondutores em tudo, de automóveis a dispositivos médicos. “Há 5 mil chips em um carro”, disse ele.

Depois que a pandemia da covid-19 revelou fraquezas devastadoras nas cadeias de suprimentos globais, o interesse na Malásia como uma fonte adicional aumentou.

Essa tendência se acelerou com o surgimento de conflitos entre grandes potências.

Tanto a China quanto os Estados Unidos passaram a forjar suas próprias cadeias de suprimentos de semicondutores confiáveis, além de apoiar outros setores essenciais, como energia renovável e veículos elétricos.

“As empresas americanas e europeias, e até mesmo as chinesas, queriam se diversificar fora da China”, disse Zafrul Aziz. A China também está instalando unidades de produção fora da China continental, em parte, dizem alguns, para evitar as sanções dos EUA. É uma estratégia “China mais um”.

As preocupações com Taiwan, o maior produtor de semicondutores do mundo, estimularam ainda mais os investimentos na Malásia, disse ele. A ilha é uma fonte de atrito crescente entre a China, que mantém Taiwan como parte de seu território, e os Estados Unidos, que a apoiam politicamente.

A Malásia já é o sexto maior exportador de semicondutores do mundo e embala 23% de todos os chips americanos.

“Para um país desse tamanho, ter um impacto tão grande no mercado global de semicondutores é fantástico”, disse David Lacey, diretor de desenvolvimento e serviços avançados da Osram, uma das maiores empresas de iluminação do mundo.

Sentado em uma grande mesa de conferência na Sciences University of Malaysia, em Penang, ele rapidamente apontou para a tecnologia ao redor da sala. “Há uma TV, há luzes, há um projetor, há telefones”, disse. “Você pode praticamente garantir que há um componente da Malásia em algum lugar.”

A proximidade de tantas empresas de tecnologia também exerce uma atração gravitacional. Em Penang e Kulim, que são conectadas por duas pontes longas e serpenteantes, há mais de 300 empresas.

“Tudo está aqui”, disse Eric Chan, vice-presidente e gerente geral da Intel na Malásia. Depois de meio século, essa rede e infraestrutura não são facilmente duplicadas.

Chan também mencionou a cooperação crucial do governo durante a pandemia para manter as fábricas abertas.

O investimento estrangeiro direto foi de quase US$ 40 bilhões no ano passado, mais do que o dobro do total gerado em 2019.

Mario Lorenz, diretor administrativo na Malásia da empresa de logística alemã DHL Supply Chain, disse que a maioria dos grandes investimentos da empresa aconteceu nos últimos dois anos.

Durante esse período, o setor de semicondutores cresceu e passou a dominar os negócios da empresa na Malásia. “Seguimos a tendência”, disse.

Dentro do mais novo centro de distribuição global da DHL Supply Chain, o Penang Logistics Hub No. 4, há prateleiras laranja e azuis sob medida, projetadas especificamente para lidar com as caixas pesadas e grandes usadas por uma empresa de semicondutores.

Quatro novas instalações da cadeia de suprimentos estão hoje em desenvolvimento na Malásia.

https://www.estadao.com.br/economia/malasia-investimentos-producao-chips

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Como a China dominou a indústria mundial de painéis solares

  • Energia barata de fontes como o carvão e salários baixos estão entre as razões

Pequim | Folha/The New York Times – 8.mar.2024 

A China revelou todo a força de sua indústria de energia solar no último ano. O país asiático instalou mais painéis solares do que os Estados Unidos em toda a sua história e reduziu o preço dos painéis que vende no atacado em quase metade. As exportações de painéis solares montados aumentaram 38%, enquanto as exportações de componentes-chave quase dobraram.

Enquanto os Estados Unidos e a Europa tentam reviver a produção de energia renovável e ajudar as empresas a evitar a falência, a China está correndo muito à frente.

Na abertura anual da legislatura da China nesta semana, o primeiro-ministro Li Qiang —segunda autoridade mais importante do país depois de Xi Jinping—anunciou que o país aceleraria a construção de fazendas de painéis solares, bem como projetos eólicos e hidrelétricos.

Com a economia cambaleando, os gastos intensificados em energia renovável na China, principalmente solar, são a pedra angular de uma grande aposta em tecnologias emergentes. Os líderes do país afirmam que um “novo trio” de setores na indústria —painéis solares, carros elétricos e baterias de lítio— substituiu um “trio antigo” de roupas, móveis e eletrodomésticos.

O objetivo é ajudar a compensar a forte queda no setor de construção de moradias da China. A China espera aproveitar indústrias emergentes como a energia solar, que Xi gosta de descrever como “novas forças produtivas”, para revigorar uma economia que desacelerou por mais de uma década.

O foco na energia solar é o mais recente capítulo de um programa de duas décadas para tornar a China menos dependente de importações de energia.

As exportações solares da China já provocaram respostas urgentes. Nos Estados Unidos, a administração Biden introduziu subsídios que cobrem grande parte do custo de fabricação de painéis solares e parte do custo para instalá-los, muito mais altos.

O alarme na Europa é particularmente grande. Os funcionários estão amargurados porque, há uma dúzia de anos, a China subsidiou suas fábricas para fabricar painéis solares, enquanto os governos europeus ofereciam subsídios para comprar painéis feitos em qualquer lugar. Isso levou a uma explosão de compras de consumidores da China que prejudicou a indústria solar da Europa.

Uma onda de falências varreu a indústria europeia, deixando o continente amplamente dependente de produtos chineses.

Os vestígios da indústria solar europeia estão desaparecendo. A Norwegian Crystals, importante produtora europeia de matérias-primas para painéis solares, entrou com pedido de falência no verão passado. A Meyer Burger, uma empresa suíça, anunciou em 23 de fevereiro que interromperia a produção na primeira quinzena de março em sua fábrica em Freiburg, Alemanha, e tentaria levantar fundos para concluir fábricas no Colorado e no Arizona.

Os projetos da empresa nos EUA poderiam aproveitar os subsídios à fabricação de energia renovável fornecidos pela Lei de Redução da Inflação do presidente Joe Biden.

A vantagem de custo da China é formidável. Uma unidade de pesquisa da Comissão Europeia calculou em um relatório de janeiro que as empresas chinesas poderiam fabricar painéis solares por 16 a 18,9 centavos por watt de capacidade de geração. Em contraste, custava às empresas europeias de 24,3 a 30 centavos por watt, e às empresas dos EUA cerca de 28 centavos.

A diferença reflete em parte os salários mais baixos na China. As cidades chinesas também forneceram terrenos para fábricas de painéis solares a uma fração dos preços de mercado. Bancos estatais emprestaram pesadamente a baixas taxas de juros, embora as empresas solares tenham perdido dinheiro e algumas tenham falido. E as empresas chinesas descobriram como construir e equipar fábricas de forma econômica.

Os baixos preços da eletricidade na China fazem uma grande diferença.

A fabricação do principal material bruto para painéis solares, o silício policristalino, requer enormes quantidades de energia. Os painéis solares geralmente devem gerar eletricidade por pelo menos sete meses para recuperar a eletricidade necessária para fabricá-los.

O carvão fornece dois terços da eletricidade da China a baixo custo. Mas as empresas chinesas estão reduzindo ainda mais os custos instalando fazendas solares nos desertos do oeste da China, onde a terra pública é essencialmente gratuita. Elas então usam a eletricidade dessas fazendas para produzir mais silício policristalino.

Por outro lado, a Europa tem eletricidade cara, especialmente depois de parar de comprar gás natural da Rússia durante a guerra na Ucrânia. A terra usada na Europa para fazendas solares é cara. No sudoeste dos Estados Unidos, preocupações ambientais têm retardado a instalação de fazendas solares, enquanto questões de zoneamento bloquearam licenças para a transmissão de energia renovável.

O consumo de carvão da China a tornou o maior contribuinte anual de emissões de gases de efeito estufa do mundo. Mas o papel pioneiro do país em tornar os painéis solares menos caros tem desacelerado o aumento das emissões.

“Se os fabricantes chineses não tivessem reduzido o custo dos painéis em mais de 95%, não poderíamos ver tantas instalações em todo o mundo”, disse Kevin Tu, um especialista em energia de Pequim e membro não residente do Centro de Política Energética Global da Universidade de Columbia.

As instalações anuais de painéis solares quase quadruplicaram em todo o mundo desde 2018.

Algumas das novas fazendas solares que geram eletricidade para a produção de polissilício estão em duas províncias do sudoeste da China, Qinghai e Yunnan. Mas grande parte do polissilício é produzido na região de Xinjiang, no noroeste da China. Os Estados Unidos proíbem a importação de materiais ou componentes fabricados por trabalho forçado em Xinjiang, onde a China reprimiu predominantemente minorias muçulmanas como os uigures.

Isso levou os Estados Unidos a bloquear alguns envios de painéis solares da China, enquanto a União Europeia tem considerado ações semelhantes.

As empresas chinesas cada vez mais realizam as etapas iniciais e de alto valor da fabricação de painéis solares na China e depois enviam os componentes para fábricas no exterior para montagem final. Isso permite que os envios evitem barreiras comerciais, como tarifas impostas a muitas importações chinesas pelo presidente Donald Trump. Várias das maiores fabricantes de painéis solares da China estão construindo fábricas de montagem final nos Estados Unidos para aproveitar os subsídios oferecidos como parte da Lei de Redução da Inflação.

A lei inclui extensos subsídios para reviver a indústria de painéis solares dos EUA, que quase entrou em colapso completamente há uma década diante das importações de baixo custo da China. Mas construir uma indústria que possa se sustentar será difícil.

A China produz praticamente todo o equipamento do mundo para fazer painéis solares e quase todo o suprimento de cada componente dos painéis solares, desde wafers até vidro especial.

“Há conhecimento técnico nisso, e está tudo na China”, disse Ocean Yuan, CEO da Grape Solar, uma empresa em Eugene, Oregon, que trabalha com empresas solares chinesas que estão estabelecendo operações de montagem nos Estados Unidos.

Esse conhecimento técnico costumava estar nos Estados Unidos. Até 2010, os produtores chineses de painéis solares dependiam principalmente de equipamentos importados e enfrentavam atrasos longos e custosos se algo quebrasse.

“Levava dias ou semanas para obter peças de reposição e engenheiros”, disse Frank Haugwitz, consultor de energia solar de longa data especializado na indústria chinesa.

Em 2010, a Applied Materials, uma empresa do Vale do Silício, construiu dois extensos laboratórios em Xi’an, a cidade no oeste da China famosa pelos guerreiros de terracota.

Cada laboratório tinha o tamanho de dois campos de futebol. Eles foram destinados a fazer testes finais para linhas de montagem com robôs que poderiam produzir painéis solares com praticamente nenhum trabalho humano.

Mas, em poucos anos, as empresas chinesas descobriram como fazer isso sozinhas. A Applied Materials reduziu consideravelmente sua produção de ferramentas para painéis solares e passou a se concentrar em fazer equipamentos semelhantes para a fabricação de semicondutores.

https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2024/03/como-a-china-dominou-a-industria-mundial-de-paineis-solares.shtml

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Corrida global por energia limpa deve triplicar produção de etanol no Brasil

Aposta em veículos híbridos, combustível de aviação sustentável e hidrogênio estimulam novos investimentos na indústria da cana e do álcool

Por Vinicius Neder – O Globo – 10/03/2024 

Unidade da Raízen para produção de etanol de segunda geração, a partir do bagaço da cana, em Piracicaba (SP). Empresa vai construir mais cinco fábricas no país Unidade da Raízen para produção de etanol de segunda geração, a partir do bagaço da cana, em Piracicaba (SP). Empresa vai construir mais cinco fábricas no país — Foto: Paulo Altafin/Divulgação

Vinte anos após a introdução dos carros flex, em 2003, a transição para uma economia de baixo carbono oferece mais uma oportunidade para a cana-de-açúcar e a indústria sucroalcooleira no Brasil. A chegada dos veículos elétricos intensifica investimentos em carros híbridos, inclusive com uso do etanol, uma vantagem energética do país. Essa nova perspectiva e avanços tecnológicos no campo formam um cenário que pode dobrar a produção de cana e triplicar a de etanol, dizem executivos e pesquisadores do setor.

Com as metas de redução de gases de efeito estufa (GEEs) gerados pelos combustíveis de origem fóssil, a indústria automobilística parece se dividir entre a aposta da China nos elétricos e o caminho dos híbridos, que combinam motores elétricos e a combustão, como o flex brasileiro.

Essa segunda vertente é o centro dos planos bilionários anunciados recentemente por Toyota e Stellantis (dona de Fiat e Peugeot), por exemplo, entre os R$ 117 bilhões que montadoras investirão no país até 2030.

Parte da indústria acredita que os híbridos são o modelo ideal de transição, particularmente em países emergentes, onde o preço alto dos carros elétricos e a falta de infraestrutura de recarga são barreiras. Se, por um lado, o veículo híbrido reduz o consumo de etanol por motorista, a adoção desse caminho por outros países pode elevar a demanda global por um combustível do qual o Brasil é exportador.

E há outros motivos para o otimismo: países discutem elevar a diluição de biocombustíveis na gasolina para reduzir emissões e várias rotas tecnológicas tentam viabilizar o SAF, o combustível sustentável de aviação que poderá substituir o atual querosene, de origem fóssil.

Brasileiros estão otimistas sobre a possibilidade de o álcool despontar como o insumo mais vantajoso. O etanol ainda pode ser usado na produção de hidrogênio.

— Imagina os EUA colocando 5% a mais de etanol na gasolina. Hoje são 10%. Imagina, no Brasil, subindo para 30%. Imagina outros países adotando essa mistura. O Brasil tem grande potencial — empolga-se Fabio Venturelli, presidente da São Martinho, fabricante de açúcar e etanol.

A Raízen, maior do ramo no país, constrói, até 2027, oito usinas de etanol de 2ª geração, fabricado a partir de celulose encontrada em palha de cana ou outras plantas. O investimento soma quase R$ 10 bilhões, já que cada unidade custa em torno de R$ 1,2 bilhão.

Sustentabilidade no ar

Até 2030, serão 20 usinas. No fim de fevereiro, anunciou a captação de US$ 1,5 bilhão (R$ 7,5 bilhões), em “títulos verdes” de longo prazo, para financiar parte desses aportes.

— Nas regulações europeia, japonesa e americana, o etanol de 2ª geração se encaixa. Uma empresa de energia europeia, por exemplo, tem um limite de emissões (de GEEs). Ou ela reduz ou compra um produto que tenha créditos. O etanol de 2ª geração é como se fosse um crédito de carbono — define Mateus Lopes, diretor de Transição Energética e Investimentos da Raízen.

Na aviação comercial, não há saída fora dos biocombustíveis, observa Bernardo Gradin, presidente da GranBio, pioneira brasileira no etanol de 2ª geração. Segundo a Iata, a entidade global que reúne as companhias aéreas, 65% da redução de emissões do setor até 2050 terão de vir do SAF.

Em 2023, 300 milhões de litros foram produzidos. A perspectiva é de 5 bilhões de litros anuais em 2025. A GranBio investe numa usina experimental nos EUA em parceria com a Honeywell, fornecedora do setor de aviação.

— A demanda de SAF é real — diz Gradin.

A Atvos já planeja a construção de uma refinaria de SAF no Brasil, para ir além do açúcar e do álcool e agregar valor. O estudo de viabilidade econômica ainda pode consumir de três a cinco anos, mas Bruno Serapião, presidente da empresa, se diz confiante.

– Fica o alerta: o Brasil é o maior exportador de soja do mundo, mas perdeu o bonde de ser o maior exportador de farelo e óleo de soja, porque não montou uma política industrial para favorecer a instalação dessas indústrias aqui.

Na fronteira tecnológica, a startup Hytron, nascida na USP, trabalha com a Raízen e a petroleira Shell num projeto para desenvolver hidrogênio verde a partir do etanol. Seria uma forma de driblar dois dos principais obstáculos à produção de hidrogênio verde: a alta demanda por eletricidade de fonte renovável e o transporte do gás, que requer condensação em baixíssima temperatura em navios para exportação.

O projeto, que constrói unidades experimentais, consiste em extrair hidrogênio do etanol, mais fácil de transportar, em usinas, chamadas de “reformadores”, instaladas próximas dos consumidores.

— Em vez de desenvolver uma cadeia logística nova, podemos aproveitar a que já existe — diz o gerente de Tecnologia de Baixo Carbono da Shell no Brasil, Alexandre Breda.

Na frente agrícola, a tecnologia possibilitará produzir mais com menos cana. O CTC, empresa de pesquisa mantida pelos principais grupos sucroalcooleiros, desenvolve novas variedades genéticas de cana, incluindo transgênicas, mais resistentes a pragas e mais produtivas, e sementes para facilitar o plantio, até hoje baseado em mudas.

— Nossa visão é que é possível dobrar a produtividade da cana-de-açúcar nos próximos 20 anos, o que vai mudar completamente o jogo — diz Cesar Barros, presidente do CTC.

Salto na produção

Isso significaria alcançar 1,2 bilhão de toneladas de cana por ano, conforme dados da Unica, entidade que representa o setor, com a mesma área plantada. Com mais cana e a ampliação do parque industrial (atualmente são 360 usinas), o país poderia dar um salto na produção de açúcar e etanol, para cerca de 70 bilhões de litros anuais. A do combustível poderia triplicar porque há também ganhos na frente tecnológica industrial.

Um estudo publicado em 2020 pelo Laboratório Nacional de Biorrenováveis (LNBR), do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), estima que a incorporação generalizada do etanol de segunda geração poderia ampliar a produção em mais 50%. Se esse aumento se der sobre a produção elevada pelo aumento da produtividade da cana, seriam 100 bilhões de litros ao ano, o triplo da atual.

No estágio atual, o elevado custo de produção ainda é um obstáculo para a incorporação da tecnologia de 2ª geração. Para reduzi-lo, o LNBR trabalha no desenvolvimento de enzimas nacionais, insumo essencial no processo de transformar a celulose em etanol. Eduardo Couto, diretor do laboratório, diz que, após testes, será possível o uso comercial por volta de 2030.

— Uma enzima produzida localmente na usina reduz custos com logística, reduz a pegada de carbono e faz com que o etanol de segunda geração fique mais competitivo comercialmente — diz Couto.

Luciano Rodrigues, diretor de Inteligência Setorial da Unica, que reúne empresas do ramo, inclui no rol de uma “transformação acelerada” do setor o etanol de milho e o biometano. Em dez anos, o etanol de milho saltou de zero para 17% de todo o volume no país.

O biometano — substituto do gás natural de origem fóssil, tanto para a indústria quanto para o transporte, como gás natural veicular (GNV) — é gerado a partir da vinhaça e da torta de filtro, sobras da fabricação de açúcar e etanol.

Rodrigues vê no gás potencial semelhante ao da geração de eletricidade a partir do bagaço. Hoje, essa fonte já soma 5% da matriz elétrica do país.

Clima preocupa

As oportunidades se colocam num momento de retomada após anos de dificuldades, diz Leonardo Alencar, analista da XP Investimentos. Desde a década passada, a cana tem sido atingida pela seca e pelo calor.

Recentemente, problemas climáticos na Índia, maior competidor do Brasil no açúcar, elevaram os preços internacionais, incentivando a produção brasileira. Por aqui, canaviais foram beneficiados pelas chuvas, que podem minguar este ano com La Niña.

Segundo Alencar, na conjuntura atual, o açúcar tem sustentado o setor, enquanto o etanol está com preço relativamente baixo. Rodrigues, da Unica, considera o vaivém dos preços normal.

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O aparelho que pode hackear (quase) tudo

Dispositivo teve venda proibida no Brasil pela Anatel, o que aliviou empresas locais de atualizar defesas

Ronaldo Lemos – Folha –  10.mar.2024 

Cibersegurança é uma das questões mais importantes do mundo atual. É também um dos temas mais ignorados pela maioria das pessoas (e empresas). Nossa tendência é “confiar” nos aparelhos que estão à nossa volta, pressupondo que são seguros e achar que tem alguém cuidando da segurança de tudo. Ledo engano. Para derrubar essa confiança ingênua com os dois pés na porta, uma empresa dos EUA lançou há quatro anos um aparelho que é capaz de testar e hackear a segurança de boa parte dos equipamentos que estão à nossa volta. O nome do aparelho vai ser omitido, já que o importante é o debate que ele gera e não o produto em si. 

O aparelho cabe na palma da mão, custa menos de R$ 1.000 e é capaz de interagir com boa parte dos dispositivos à nossa volta. Por exemplo, chaves digitais de todos os tipos, incluindo de veículos, portões de garagem, fechaduras eletrônicas etc. Usando o aparelho é possível ler os sinais emitidos pela chave e gravá-los. É possível, então, reproduzi-los, o que pode permitir abrir um veículo, uma fechadura digital ou um portão, dependendo da estrutura de segurança implementada. 

Nesse sentido, o aparelho pode clonar a chave de um quarto de hotel. Bastaria aproximar a chave do aparelho. Ele pode, então, reproduzir o seu sinal junto ao sensor, abrindo efetivamente a porta. O mesmo pode ser feito com relação a controles remotos. Dá para basicamente ler e reproduzir o sinal de qualquer controle existente no mercado, permitindo ligar e desligar TVs, ar-condicionados ou qualquer coisa comandada por infravermelho. 

É possível ler também chips e tags com RFID (identificação por frequência de rádio), tecnologia cada vez mais comum. Dá para ler o chip de um cartão de crédito, obtendo o número do cartão. No entanto, o aparelho não consegue clonar o cartão, porque não consegue ler sua senha nem seu código de verificação privado. 

Em entrevista recente o presidente da empresa que faz esse aparelho disse: “nosso produto não é o mais sofisticado do mercado. Ao contrário, o seu objetivo é trazer consciência de que muitas coisas que usamos não são seguras. Se algo pode ser hackeado por nosso aparelho é sinal de que está desatualizado em termos de segurança.” “Várias empresas estão fazendo marketing de seus produtos digitais hoje dizendo que eles não podem mais ser hackeados pelo nosso aparelho. Isso é o que queríamos, essa é a nossa filosofia”, acrescentou. 

No Brasil o aparelho teve sua comercialização proibida pela Anatel. Nos EUA ele continua sendo legal e pode ser comprado online. A atitude da Anatel é paternalista. Apesar de ter a nobre intenção de proteger as pessoas contra usos maliciosos, o resultado é o oposto: mantém muita gente em uma falsa bolha de segurança e alivia as empresas, que sabem que seus produtos são vulneráveis e desatualizados, da necessidade urgente de corrigir o problema. Afinal, não é o aparelho que cria as falhas de segurança. Ele apenas as revela. 

E ,infelizmente, há ferramentas muito mais poderosas que podem ser compradas por bandidos. Muitas vezes a melhor forma de aprender algo é ver, na prática, como as coisas (não) funcionam.

 Já era —vírus só como um problema de saúde

 Já é —vírus em computadores 

Já vem —vírus em inteligências artificiais 

https://www1.folha.uol.com.br/colunas/ronaldolemos/2024/03/o-aparelho-que-pode-hackear-quase-tudo.shtml

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