Empresas usam dados para definir se uma área tem espaço para novos negócios, mesmo que região seja muito ocupada
Por João Scheller – Estadão – 30/09/2023
Um vídeo onde um homem narra a disputa territorial de diferentesfarmáciasem uma rua de Brasília viralizou. Nele, é possível ver unidades de redes concorrentes, uma ao lado da outra, disputando clientes em uma região conhecida como Rua das Farmácias.
A discussão levantada pelo rapaz fez com que outros usuários comentassem que têm visto situação parecida em suas cidades. Mas, afinal de contas, por que há tantas farmácias no País?
A resposta vem de diferentes fatores, como o próprio crescimento do setor – impulsionado pelas grandes redes – e a utilização cada vez mais sofisticada de inteligência de dados para a abertura de novas unidades.
Com os números em mãos, as empresas sabem se faz sentido abrir uma nova farmácia ao lado de concorrentes, em um local com grande potencial de clientes, em vez de investir em uma região com nenhuma unidade, mas sem a presença considerável de consumidores.
As mudanças nos hábitos de consumo, com farmácias funcionando como pontos de venda por conveniência, pontos de realização de exames e centros de entrega para pedidos on-line também fazem parte da equação.
Segundo dados do Conselho Federal de Farmácias (CFF), existem cerca de 90 mil estabelecimentos no País, em comparação com 55 mil em 2003. O crescimento é de 63% em 20 anos. Os números consideram farmácias com inscrição ativa no órgão, requisito legal para funcionarem.
Grandes redes saltaram em participação de mercado desde 2000
Parte do crescimento do setor pode ser creditada ao avanço das redes de farmácias.
Com forte presença em grandes cidades, elas tiveram um crescimento de cerca de 230% em participação de mercado, desde o início dos anos 2000 até agora.
Naquela época, eram responsáveis por 15% das vendas, e hoje alcançam mais de 50%. Isso em um contexto onde possuem somente 15% dos pontos de venda no País. Os dados são da Associação Brasileira de Redes de Farmácias e Drogarias (Abrafarma).
“São vários fatores que explicam esse crescimento. Mais estoque, infraestrutura, personalização e marketing moderno, que inclui vendas pelo app e site, são alguns deles”, afirma Sergio Mena Barreto, CEO da Abrafarma.
A associação reúne redes comoRaia Drogasil (Droga Raia e Drogasil), PagueMenos, Nissei e Panvel.
Dados da Abrafarma apontam que o faturamento de uma farmácia afiliada à associação é, em média, de R$ 8,7 milhões por ano, contra R$ 800 mil de farmácias independentes.
Barreto menciona que o número de lojas de redes tem crescido por conta da participação cada vez maior da venda de produtos de beleza e higiene pessoal, além de estudos sobre a viabilidade de abertura de novas unidades em diferentes regiões.
“Hoje abrimos lojas com muito mais eficácia. Uma loja de rede já nasce madura”, diz.
Associativismo ajuda pequenas farmácias a crescer
Mas a inteligência de dados não é exclusividade de grandes empresas.
“Temos uma eficiência muito grande em minerar nossos dados”, afirma Samuel Pires, diretor-executivo do Grupo Total, rede associativista fundada há 30 anos, que conta com cerca de 600 farmácias espalhadas por 300 municípios do Estado de São Paulo.
As redes associativistas permitem que farmácias independentes passem a operar sob uma única bandeira e compartilhem sistemas de gestão e contratos de compra.
Na prática, o associativismo permite que pequenos negócios tenham a possibilidade de operar em uma rede já estruturada.
“As farmácias passam a se profissionalizar, com estratégia de venda e precificação, negociação conjunta com laboratórios e treinamento de equipe”, explica Pires.
O movimento é especialmente importante considerando um setor com mercado concorrido, estoques caros e com uma variedade grande.
80% das farmácias são pequenos negócios, diz Sebrae
“O desafio atualmente é as farmácias independentes crescerem. E, para isso, é importante fazer o básico bem feito”, afirma Vicente Scalia, analista de negócios do Sebrae.
Ele menciona o tratamento personalizado e o horário alternativo como diferenciais competitivos. “O pequeno negócio não pode pensar em competir por preço, porque as redes têm grande escala”, diz.
Segundo ele, há espaço para expansão das pequenas farmácias, especialmente em cidades menores, com menos de 100 mil habitantes, já que essas regiões não são priorizadas pelas grandes redes.
De fato, com cerca 60% das vendas no País, as farmácias independentes são maioria quando se fala em pontos de venda, segundo a Abrafarma.
Quando se analisa o total de unidades, mais de 80% de todas as farmácias do País podem ser enquadradas como micro e pequenas empresas, segundo levantamento feito pelo Sebrae.
“A margem de lucro das farmácias é muito pequena, mas com a agregação de serviços que existe hoje, é possível melhorar isso”, diz Scalia.
Setor vê espaço para expansão com serviços para saúde
Roberto Coimbra, diretor-executivo de operações da rede de farmácias gaúcha Panvel, afirma que a empresa vê espaço para crescimento também a partir do oferecimento de serviços de saúde.
“As farmácias ainda têm a oportunidade de perceber o valor do farmacêutico”, diz. Ele cita a regra aprovada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) em maio, queamplia a oferta de serviços de análise clínica em farmácias para além dos exames de covid e glicemia.
Criada nos anos 1970, a Panvel tem grande presença no Sul do País e tem expandindo suas operações para o Sudeste.
Esse crescimento segue as tendências do setor de oferecer, além de uma gama grande de medicamentos, produtos de higiene e beleza. Cerca de 35% das vendas da rede não correspondem a medicamentos, segundo Coimbra.
Além disso, as mudanças nos hábitos de consumo e crescimento do delivery foram bem recebidos pelo setor, que já operava com vendas por telefone havia anos.
As vendas pelo site e aplicativo, que ganharam força especialmente na pandemia, devem responder por uma participação cada vez maior nas vendas.
Sobre o crescimento do setor, porém, Sergio Mena Barreto, da Abrafarma, é cauteloso. “Ao mesmo tempo em que se abrem muitas lojas, fecham-se muitas”, afirma.
Ele pondera que há espaço para todos, se houver inteligência e aproveitamento de especificidades do mercado. “Onde há dez lojas ineficientes, há espaço para avançar”, declara.
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Aparelhos conseguem mover até 600 quilos de mercadorias e aceleram separação de entregas em 20%; função reduz necessidade de mão de obra, mas empresa diz que irá contratar 11 mil pessoas no País até o fim de 2024, chegando a 32 mil funcionários
Por Lucas Agrela e Talita Nascimento – Estadão – 05/06/2024
Com investimentos anunciados de R$ 23 bilhões, oMercado Livre está priorizando as áreas de logística, fintech, mercado anunciante e medidas que ajudam a melhorar a produtividade da empresa. Para isso, tem apostado no uso de robôs em sua operação no centro de distribuição SP04, em Cajamar, que processa cerca de 500 mil pedidos por dia, ou seja, 347 pedidos por minuto.
Segundo o presidente da operação brasileira, Fernando Yunes, a companhia já tem 100 robôs, que ficaram em fase de testes por três meses, e o número será ampliado para 334 até o fim do ano. Os equipamentos reduzem em 20% o tempo de separação de mercadorias compradas pelos clientes via internet, o que gera um ganho de produtividade e acelera as entregas aos consumidores.
Produzidos pela companhia chinesa Quicktron, os aparelhos são semelhantes a um aspirador-robô pintado de amarelo e podem levantar até 600 quilos. A autonomia de bateria é de oito horas e eles retornam para a base para serem recarregados antes de iniciar uma nova jornada de trabalho. Os 100 robôs que já estão em operação hoje conseguem levantar e mover 2,5 mil prateleiras diariamente.
Mercado Livre aposta em robôs para melhorar produtividade e acelerar entregas Foto: Vinicius Stasolla/Mercado Livre
Os robôs aceleram um processo que hoje é manual, de movimentação de itens no centro de distribuição da empresa. Um funcionário precisa ir com um carrinho até as prateleiras onde os produtos são armazenados aleatoriamente e identificados por QR Code. Quando necessário, prateleiras com rodinhas eram movimentadas de um lado ao outro do centro por um funcionário. A ideia agora é que as prateleiras sejam levadas pelos robôs até um funcionário que as abastece com os produtos. Em seguida, elas vão para a unidade de embalagem e entram nos caminhões de entrega.
“O consumidor ganha uma entrega mais rápida, e os funcionários, estimamos, terão uma redução de 70% nos passos dados para percorrer distâncias no centro de distribuição durante um dia de trabalho”, diz Yunes.
Em Cajamar, os robôs serão responsáveis por até 22% da separação de pedidos após a expansão de unidades utilizadas, ou seja, poderão separar cerca de 100 mil compras por dia. No próximo ano, o plano é expandir essa iniciativa para mais centros de distribuição e para outros países, permitindo não só um ganho em termos de produtividade, mas também de espaço.
Como as prateleiras não precisam estar dispostas para permitir a passagem de funcionários entre elas, a distância entre as estantes é reduzida agora para apenas 15 cm, o que leva a um ganho de 10% a 15% na capacidade de armazenamento de mercadorias por metro quadrado.
A adoção de robôs reduz a necessidade de força de trabalho na separação de pedidos, mas o plano do Mercado Livre é continuar contratando no Brasil. A empresa havia prometido 6,5 mil contratações, mas terminará o ano contratando 11 mil pessoas, 70% a mais do que o previsto inicialmente, segundo Yunes. Assim, o quadro de funcionários deve subir de 22 mil para 33 mil pessoas até o fim de 2024.
“Naquela função de separação de pedidos, agora temos as prateleiras chegando até as pessoas. Mas a gente aumenta o número de contratações por uma expansão no número de centros de distribuição e pelo aumento do volume de processamento de pedidos por centro. Hoje, não estamos na capacidade máxima nos centros de distribuição e precisamos de mais gente conforme os pedidos aumentam”, diz.
Yunes anunciou também dois novos centros de distribuição que não estavam previstos inicialmente para este ano. Eles serão em Porto Alegre (RS) e Brasília e fazem parte do aumento do investimento do Mercado Livre no País. A promessa do Mercado Livre é de R$ 23 bilhões de investimentos em 2024, 20% a mais que em 2023. No entanto, Yunes diz que o número deve ser maior, mas não informou o quanto. “A única coisa que dá para dizer é que o investimento do próximo ano será ainda maior”, afirma.
De acordo com dados da empresa de monitoramento online Conversion, o Mercado Livre é líder em acessos a sites de comércio eletrônico no Brasil, seguida pela asiática Shopee e a americana Amazon. OLX e Magazine Luiza são as únicas brasileiras a integrar a lista das cinco lojas digitais mais acessadas por consumidores no País.
A respeito da concorrência com novas plataformas entrantes no País, o fundador do Mercado Livre e CEO da empresa, Marcos Galperín, diz que a companhia está habituada ao ambiente competitivo. “Sempre recebemos muitas perguntas sobre competidores, só muda o nome”, afirmou. Para ele, os próximos dez anos ainda serão de crescimento do comércio eletrônico e de investimentos do Mercado Livre.
Taxação de compras internacionais
Sobre a briga em torno da taxação das compras internacionais de até US$ 50, Galperín disse que a operação da companhia no Brasil deve se adaptar às condições tributárias. ”Estamos em oito países da América Latina há 25 anos. Nos adaptamos aos marcos que cada país escolher”, afirmou.
Ele diz acreditar que a taxação de importados beneficia os vendedores nacionais. Assim, se o imposto de importação para produtos comprados no exterior via internet for aprovado, esses vendedores serão priorizados na plataforma. “Sem imposto de importação, teremos mais vendedores chineses”, afirma. Yunes diz que a empresa apoia a isonomia tributária entre produtos importados a pessoas físicas por plataformas de comércio eletrônico e varejistas nacionais.
Para ele, a proposta agregada ao projeto Mover deve ser aprovada no Senado. Do contrário, a empresa deve aumentar sua própria operação de importação, à qual não dá tanto foco hoje. “Se não houver isonomia, o Meli (Mercado Livre) iniciaria o processo de importar produtos”, disse. Porém, o executivo reforça que o impacto de uma taxação nas compras internacionais de baixo valor seria pequeno para a empresa porque são em pequeno número na plataforma atualmente.
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Empresa é a principal importadora do grão no país. China tem um dos maiores mercados consumidores de café do mundo — e segue crescendo
Ana Carolina Montoro e Luciano Pádua – Exame – 5 de junho de 2024
Um acordo bilateral para a compra de café brasileiro foi fechado durante a viagem à China do vice-presidente Geraldo Alckmin. O acordo assinado na terça-feira, 4, entre a Agência Brasileira de Promoção à Exportação (ApexBrasil) e Luckin Coffee, maior rede de cafeterias do país asiático, durante o Seminário Econômico Brasil-China tem valor de meio bilhão de dólares.
As 120 mil toneladas de grãos brasileiros irão abastecer a maior rede de cafeterias chinesa, que hoje é a principal importadora de café brasileiro no país. A Luckin Coffee tem mais de 16 mil lojas espalhadas pelo país, que passou a tomar gosto pela bebida. A China é a terra do chá, mas a nova geração tem abraçado o consumo de café.
“Em 2022, a China importou 80 milhões de dólares em café brasileiro, valor que cresceu para 280 milhões em 2023. Com este novo contrato, esperamos um aumento ainda maior no consumo de café na China”, explicou o presidente da ApexBrasil, Jorge Viana.
Somente em Xangai há 9.553 cafeterias, a maior concentração em uma cidade de todo o planeta.
Um estudo do Hongqiao International Coffee Hub, Universidade Jiao Tong de Xangai, plataforma de serviços online Meituan e plataforma de entrega de alimentos Eleme mostrou que a indústria de café chinesa cresceu 17% anualmente de 2020 a 2023.
Hoje, o mercado de café local tem valor estimado em 36 bilhões de dólares, segundo o China Daily, veículo chinês.
“Esse memorando de intenções demonstra a importância do café brasileiro para o crescimento do consumo do café na China. No ano passado a China já consumiu um número recorde de café e importou do Brasil também um número recorde, mas isso é apenas o começo de uma história que foi semeada 50 anos atrás quando no estabelecimento das relações diplomáticas entre Brasil e China os dois países brindaram com café”, diz Vinicius Estrela, diretor executivo da Associação Brasileira de Cafés Especiais (BCSA).
Segundo ele, o acordo abre mais portas para o Brasil ser crucial no fornecimento de café em meio ao avanço exponencial do consumo no país. “E o melhor, trazendo junto consigo cafés especiais e também a origem Brasil em blendings únicos e 100% da origem brasileira, além evidentemente dos cafés de origem única e cafés especiais. Sem sombra de dúvida, esse acordo inaugura uma nova fase na promoção do café brasileiro e a inserção do café especial no mercado chinês”, afirma Estrela.
Indústria nacional
O acordo firmado hoje por autoridades brasileiras e a Luckin Coffee também está ligado aos programas ExportaMaisBrasil, ExportaMaisAmazônia e ExportaMaisNordeste. O ministro da Agricultura, Carlos Fávaro, lembrou que a produção brasileira de café segue em transformação, dizendo que há um foco cada vez maior na sustentabilidade.
Alckmin lembrou o valor social da bebida, considerada a mais consumida no mundo depois da água. “O café é uma alternativa para o pequeno produtor, pois não é preciso ter milhares de hectares para produzir café, que é uma boa alternativa de renda para a agricultura familiar e o pequeno produtor de café orgânico. Este é um bom caminho, pois tem importância econômica e também social”, afirmou.
Comitiva de ministros
A comitiva liderada por Alckmin à China com outros ministros do governo e empresários marca os 20 anos da COSBAN (Comissão Sino-Brasileira de Alto Nível de Concertação e Cooperação), criada no primeiro governo do presidente Lula.
Em um deles, a ApexBrasil e Shanghai Yangpu District People’s Government firmaram o propósito de criar uma Casa Brasil em Xangai, um espaço para incubação de empresas brasileiras e promoção do comércio bilateral. No distrito de Yangpu funciona o principal hub de inovação da cidade chinesa.
Relação comercial Brasil e China
Segundo o MDIC, embora completem 50 anos em 2024, as relações econômicas entre Brasil e China realmente decolaram nas últimas duas décadas.
“A corrente de comércio bilateral saltou de US$ 6,6 bilhões em 2003, primeiro ano do primeiro mandato do presidente Lula, para US$ 175 bilhões em 2023, primeiro ano do terceiro mandato de Lula”, diz o ministério. “No ano passado, o superávit comercial do Brasil com a China, que desde 2009 é o principal destino das exportações brasileiras, foi de US$ 51,1 bilhões, mais que a metade do superávit de US$ 98 bilhões que o Brasil registrou em 2023.”
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Nos meses após ordens de retorno ao escritório, um número maior de funcionários experientes deixou grandes empresas do setor
Por Taylor Telford – Estadão/The Washington Post – 14/05/2024 |
O fim do home office em algumas das empresas de tecnologia mais poderosas –Apple,MicrosofteSpaceX– foram seguidos por um aumento nas saídas dos talentos mais experientes e difíceis de substituir, de acordo com um estudo publicado na semana passada por pesquisadores da Universidade de Chicago e da Universidade de Michigan.
Os pesquisadores se basearam em dados de currículos do People Data Labs para entender o impacto que o retorno forçado aos escritórios teve sobre a permanência dos funcionários e a movimentação dos trabalhadores entre as empresas. O que eles descobriram foi uma forte correlação entre a saída de funcionários de nível sênior logo após a implementação de uma ordem de retorno, sugerindo que essas políticas “tiveram um efeito negativo sobre a permanência e a senioridade de sua respectiva força de trabalho”. A pesquisa sugere que os funcionários de alto escalão permaneceram vários meses a menos do que teriam permanecido sem a obrigatoriedade e, em muitos casos, foram trabalhar para concorrentes diretos.
Na Microsoft, a parcela de funcionários seniores como parte da força de trabalho geral da empresa diminuiu mais de 5 pontos percentuais após a entrada em vigor da obrigatoriedade de retorno ao escritório, segundo os pesquisadores. Na Apple, o declínio foi de 4 pontos percentuais, enquanto na SpaceX – a única empresa das três que exige que os funcionários sejam totalmente presenciais – a parcela de funcionários seniores caiu 15 pontos percentuais.
“Descobrimos que os funcionários experientes afetados por essas políticas nas principais empresas de tecnologia procuram trabalho em outro lugar, levando consigo alguns dos mais valiosos investimentos em capital humano e ferramentas de produtividade”, disse Austin Wright, professor assistente de políticas públicas da Universidade de Chicago, EUA, e um dos autores do estudo. “Os líderes empresariais devem avaliar cuidadosamente as preferências dos funcionários e as oportunidades de mercado ao decidirem quando, ou se, determinarão o retorno ao escritório.”
A tecnologia é um setor “onde o discurso sobre o retorno ao escritório foi mais acalorado”, diz David Van Dijcke, pesquisador da Universidade de Michigan que trabalhou no estudo. A Microsoft, a Apple e a SpaceX desempenham um papel extraordinário no setor – coletivamente, elas representam mais de 2% da força de trabalho de tecnologia e 30% da receita do setor, de acordo com os pesquisadores – e sua política de escritório “estabelece o precedente para o debate mais amplo sobre o retorno ao escritório”, escreveram os autores do estudo.
Essas três empresas também estavam entre as primeiras grandes empresas de tecnologia a buscar o aviso de retorno ao escritório em 2022, permitindo que os pesquisadores separassem os efeitos dos mandatos das demissões tecnológicas generalizadas que abalaram o setor no final do ano, disse Van Dijcke.
A Microsoft se recusou a comentar sobre a pesquisa ou suas políticas de retorno ao escritório, e a SpaceX não respondeu a um pedido de comentário do The Washington Post. Mas o porta-voz da Apple, Josh Rosenstock, criticou o estudo como um trabalho que tira “conclusões imprecisas” e “não reflete a realidade de nossos negócios”.
“De fato, o desgaste está em níveis historicamente baixos”, disse Rosenstock.
A Apple, a Microsoft e a SpaceX diferem “acentuadamente” em suas culturas corporativas e linhas de negócios, e adotaram abordagens diferentes em suas políticas de retorno ao escritório. No entanto, os efeitos semelhantes dos mandatos encontrados pelos pesquisadores sugerem que “os efeitos são impulsionados por dinâmicas subjacentes comuns”, escreveram os autores.
“Nossas descobertas sugerem que os mandatos custam à empresa mais do que se pensava”, disse Van Dijcke. “Essas taxas de atrito não são apenas algo que pode ser gerenciado.”
O cabo de guerra sobre os escritórios está em um impasse há cerca de um ano: Os dados de ocupação de escritórios monitorados pela Kastle Systems mostram que a média nacional nas principais áreas metropolitanas dos EUA – incluindo Nova York, Washington e São Francisco – tem oscilado teimosamente em torno de 50% dos níveis pré-pandêmicos desde o início de 2023.
Um aumento nas saídas de funcionários seniores após mandatos de retorno ao escritório pode refletir o “golpe duplo” que eles infligem aos gerentes, que precisam lidar com os efeitos da política nas equipes que lideram e em suas próprias vidas, disse Christopher Myers, professor associado de gestão e saúde organizacional da Universidade Johns Hopkins, que não trabalhou no estudo.
Ele comparou a situação com a de liderar funcionários em meio a demissões ou estagnação salarial.
“É uma mudança na estrutura de trabalho, com certeza, mas também é apenas um golpe no moral”, disse Myers, que também é acadêmico da Academy of Management. Talvez os gestores saiam logo após os retornos, afirmou ele, “porque é mais fácil gerenciar uma equipe que está feliz”.
Executivos de tecnologia costumam exaltar os valores do trabalho presencial, citando os benefícios da conexão e da inovação. CEOs como Sam Altman, daOpenAI,Mark Zuckerberg, daMeta, eElon Musk, daTesla, criticaram os efeitos do trabalho remoto sobre a cultura e a produtividade da empresa. Em uma entrevista concedida em abril à CNBC, o CEO daNike, John Donahoe, atribuiu a desaceleração da inovação na empresa ao trabalho remoto, dizendo que “é realmente difícil fazer inovações ousadas e disruptivas, desenvolver um tênis ousadamente disruptivo no Zoom”.
Os executivos não forneceram muitas evidências de que o retorno ao escritório realmente beneficia suas forças de trabalho, diz Robert Ployhart, professor de administração e gerenciamento de negócios da Universidade da Carolina do Sul, EUA. Por exemplo, não há nada que aponte para uma queda generalizada na produtividade com o aumento do trabalho híbrido, diz ele.
“As pessoas que estão no ápice podem não gostar da maneira como acham que a organização está sendo administrada, mas se elas não estão trazendo dados para esse ponto de vista, é realmente difícil argumentar por que as pessoas deveriam voltar ao local de trabalho com mais frequência”, diz Ployhart.
Os funcionários seniores, disse Ployhart, são “os zeladores da cultura da empresa” e ter que substituí-los pode ter efeitos negativos sobre o moral e a produtividade da equipe.
“Ao afastar esses funcionários, eles na verdade melhoraram e aceleraram exatamente o que estavam tentando impedir”, afirma Ployhart.
Embora o estudo tenha se concentrado em três empresas, suas descobertas refletem amplamente o impacto das exigências de retorno ao escritório sobre as forças de trabalho em todo o país, de acordo com Ployhart, que também é acadêmico da Academy of Management. As empresas ainda estão lutando para se adaptar a um cenário fundamentalmente alterado pelo trabalho híbrido.
“Temos realmente um mundo muito fragmentado, e essas políticas de tamanho único tendem a ter dificuldades para serem bem-sucedidas quando há tantas nuances na forma como trabalhamos”, diz Ployhart.
Este conteúdo foi traduzido com o auxílio de ferramentas de Inteligência Artificial e revisado por nossa equipe editorial. Saiba mais em nossa Política deIA.
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Quando olhamos para trás, voltando aos bancos escolares, lembramos da turma do fundão, da bagunça e das notas baixas e nos surpreendemos agora, quando alguns deles são grandes empresários, montaram negócios e se deram bem. Outros que sentavam na frente, tiravam notas altas, enveredaram pela burocracia ou por uma profissão que lhes permite viver bem, mas sem compor uma poupança extraordinária. Alguns mais surpreendentes ainda, nem puderam frequentar muito tempo de escola por restrições sociais e dão show de empreendedorismo com empresas surgidas do nada. De outro lado, alguns herdeiros de empresas se deram bem, aumentando o patrimônio da família e outros queimaram tudo.
O que faz essas diferenças, esse sucesso, fracasso ou irrelevância? Será inteligência?
Até recentemente, as pessoas acreditavam que a inteligência poderia ser medida, através de testes, como o famoso teste de QI que, no entanto, foi perdendo relevância, pois nem sempre as pessoas mais inteligentes e bem sucedidas obtinham os melhores resultados.
Será porque existem vários tipos de inteligência?
Segundo Howard Gardner, psicólogo, existem sete tipos de inteligência, e todas as pessoas têm um pouco das sete dentro de si, embora cada pessoa tenha um tipo mais desenvolvido. Esses sete tipos de inteligência são:
Linguística – caracterizada por grande facilidade de se expressar, tanto oralmente como na forma escrita;
Lógica – Alta capacidade de memória e um grande talento para lidar com matemática e lógica em geral;
Motora – Grande talento em expressão corporal e com uma noção excelente de espaço, distância e profundidade;
Espacial – Enorme facilidade para criar, imaginar e desenhar imagens 2D e 3D;
Musical – Grande facilidade para escutar músicas ou sons em geral e identificar diferentes padrões e notas musicais. É dos mais raros;
Interpessoal – Enorme capacidade para convencer o outro a fazer tudo o que acharem conveniente. Típica de liderança;
Intrapessoal – Enorme facilidade para entender o que as pessoas pensam, sentem e desejam. Está também associada à liderança.
Mas será que os tipos de inteligência explicam o sucesso nos negócios?
O famoso curso Empretec do Sebrae, desenvolvido pela ONU, lista as características e atitudes dos empreendedores de sucesso: 1. Busca de oportunidade e iniciativa; 2. Persistência; 3. Correr riscos calculados; 4. Exigência de qualidade e eficiência; 5. Comprometimento; 6. Busca de informações; 7. Estabelecimento de metas; 8. Planejamento e monitoramento sistemáticos; 9. Persuasão e rede de contatos; 10. Independência e autoconfiança.
Nem todas essas características se associam diretamente a um tipo de inteligência. Será que os sete tipos de inteligência explicam tudo ou será que existe uma oitava inteligência, a inteligência empreeendora, que alguns trazem no DNA, outros aprendem em família, e outros desenvolvem por pura necessidade?
Será que o “espírito animal”, aquele impulso espontâneo para a ação, ao invés da inação, de que falava Keynes, faz parte dessa inteligência empreendedora? Será que a capacidade de “tirar de onde não tem e colocar onde não cabe”, na definição de empreendedor feita por Nizan Guanaes, é parte dessa inteligência?
A capacidade de empreender que algumas pessoas demonstram e praticam é algo especial e deveria ser mais bem compreendida – e louvada, porque é isso que gera riqueza. Os Estados Unidos cresceram desde sempre com a força empreendedora. Deng Xiaoping entendeu isso e a China deu o verdadeiro grande salto para a frente. O Brasil precisa liberar essa oitava inteligência do atraso das amarras ideológicas e burocráticas.
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Design da reconstrução não será apenas criar novas cidades ou novos bairros, mas novos modelos de gerir cidades – e pensar o serviço público
Camila de Lira – Fast Company Brasil – 25-05-2024
O Rio Grande do Sul ainda está debaixo d’água, três semanas depois da catástrofe climática que atingiu a região. A lama sequer conseguiu ser retirada do Mercado Municipal de Porto Alegre e uma nova enchente deixou a capital alagada. A população sequer foi avisada de que deveria sair de suas casas – ou do que sobrou delas.
O caos mostra que, para o estado se reerguer, reconstruir não será suficiente. Ele terá que ser redesenhado. É o que defende a cofundadora e CEO da companhia de estratégia e inovação gaúcha No One, Mariana Gutheil.
“Não é uma reconstrução, é um redesign do estado. Reconstruir implica em construir de novo do mesmo jeito. E o jeito que a gente desenhou as cidades, as moradias, os serviços públicos, até agora, não dão conta da emergência climática”, afirma Mariana.
Ela está na linha de frente do atendimento voluntário a emergências em Porto Alegre. Desde que o rio Guaíba começou a encher, Mariana está apoiando resgates, organizando central de doações, conectando abrigos e, agora, coordenando ações de limpeza coletiva.
O Rio Grande do Sul tem 1,14 mil startups, 18 parques tecnológicos, 45 incubadoras e 48 instituições científicas de tecnologia e inovação.
A designer, que já foi parte do conselho de inovação digital e design do município de Porto Alegre, tem participado de reuniões com a prefeitura para apoiar a sonhada “volta ao normal” da capital.
Para Pedro Valério, CEO do Instituto Caldeira, hub de inovação arquitetado por 42 empresas e instituições gaúchas, a tragédia climática precisa ser um “ponto de inflexão” para a cidade e para o país.
“A omissão que nos levou aonde chegou não pode mais ser ignorada. É um momento importante para a gente se perguntar: qual cidade queremos ser amanhã? Qual sociedade queremos ser no futuro?”, argumenta Valério.
O Instituto Caldeira tem mais de 130 startups, em um galpão do Cais Mauá, no quarto distrito de Porto Alegre. A região era símbolo da renovação da capital do Rio Grande do Sul. Há três semanas, o espaço está completamente alagado e sem perspectivas de quando poderá ser utilizado.
A falta de informações sobre os bairros é uma constante em Porto Alegre. Moradores relatam não saber quando ou se devem voltar para suas casas. Aqueles que já voltaram foram surpreendidos pela nova enchente.
“O que estamos vivendo agora é o colapso do sistema informacional, do sistema de saneamento, de resíduos. Como garantir que o nosso sistema econômico também não entrará em colapso?”, questiona Mariana.
JORNADA DA LIMPEZA
Acostumada a lidar com empresas, a CEO da No One acredita que processos de design usados no setor privado para lançar serviços ou produtos digitais poderiam ajudar o poder público. Um dos princípios é: “coloque seu cliente no centro”.
“Essa lógica de design de serviço, com os dados conectados e a jornada pensada de forma completa, facilitaria a interação da população com o órgão público e o compartilhamento de informações na hora de emergência”, diz Mariana.
A aplicação deste ideal faria diferença no sistema de limpeza urbana de Porto Alegre neste momento de emergência. A prefeitura pediu para que as pessoas deixassem o entulho e a lama tóxica nas calçadas. Não houve indicação do momento correto para fazer isso. Assim como não houve comunicação sobre as áreas prioritárias para limpeza pública.
O resultado? Muitos que voltaram para casa colocaram a saúde e a segurança em risco, já que entraram em contato com água e lama infectadas. As ruas da cidade estavam tomadas de lixo quando chegou a chuva da última quinta-feira. O sistema de esgoto, já operando acima da capacidade, colapsou.
Água jorra de bueiro em Porto Alegre (Crédito: Reprodução/ YouTube)
Para Mariana, a limpeza, por exemplo, poderia ser conectada com outros serviços, como os avisos da Defesa Civil, os protocolos da área de saúde e os registros do município. Assim, entraria no serviço de limpeza urbana também a comunicação com o público, dando previsibilidade para as pessoas.
A resposta rápida a emergências é apenas um dos resultados de um governo inteligente e conectado com os cidadãos, explica Téo Foresti Girardi, CEO e fundadora do GovTech Lab, programa de fomento para apoiar a transformação digital do poder público.
Responsável pelo GovTech Summit, evento que teria sua terceira edição agora em junho em Porto Alegre, o Lab impulsiona o diálogo de municípios e estados com criadores de soluções tecnológicas voltadas para o poder público.
“Há chance de o Rio Grande do Sul ser um case de governo inteligente, que olha para o futuro e cuida do bem-estar social. Mas isso passa por uma transformação cultural e administrativa”, acredita Girardi. A capacidade de entender novas linguagens, como a do design digital, é uma dessas mudanças urgentes.
TEM, MAS TÁ EM FALTA
Para adotar novas perspectivas, um caminho é se conectar com quem vive de criar olhares diferentes: as startups e o ecossistema empreendedor.
O Rio Grande do Sul tem 1,14 mil startups, 18 parques tecnológicos, 45 incubadoras e 48 instituições científicas de tecnologia e inovação. Tudo coordenado por programas do poder público, como o Inova RS e a Rede Gaúcha de Ambientes de Inovação (Regnip).
O estado foi um dos primeiros do país a seguir o Marco Legal das Startups e aprovar uma lei para incentivar municípios a se conectarem com o ecossistema empreendedor.
A mitigação climática e a resposta à emergências não estavam na agenda do governo. A prioridade era digitalizar os serviços e aumentar a eficiência administrativa, diz Girardi.
Nos últimos dias, o GovTechLab tem feito a curadoria de ferramentas que podem ser usadas por municípios gaúchos tanto para aliviar os impactos da crise quanto para planejar os próximos passos da reconstrução. O objetivo é criar um arsenal para um “serviço público proativo”.
DESLOCADOS CLIMÁTICOS
O Rio Grande do Sul tem mais de 650 mil pessoas desabrigadas ou deslocadas por causa das enchentes. A tecnologia e a inovação precisam chegar a essa população. Tanto neste momento agudo da crise quanto nas próximas etapas. Saúde, educação e empregabilidade devem estar na pauta tanto quanto a construção de casas e bairros para quem perdeu tudo.
“A crise do clima é uma crise de direitos humanos sem precedentes. Não tem como repetir o que foi feito até agora”, afirma Naira Santa Rita Wayand, fundadora e diretora executiva do Instituto DuClima, que combate o racismo ambiental no Brasil.
embora o estado ainda esteja longe de pensar na reconstrução, agora é o momento de criar as estruturas para um governo “smart”.
Naira apoiou a produção do projeto de lei que institui a Política Nacional dos Deslocados Ambientais e Climáticos (PL 1594/ 2024), proposto pela deputada Erika Hilton (PSOL-SP) .
O projeto propõe estabelecer instrumentos econômicos, financeiros e socioambientais para dar apoio contínuo a populações atingidas por eventos climáticos. Também traz uma mudança de mentalidade para o país pensar nos deslocados climáticos. Só em 2023, mais de 745 mil pessoas no Brasil foram obrigadas a sair de casa por causa de enchentes, secas e tufões extratropicais.
“Precisamos trabalhar para que os próximos eventos climáticos sejam menos nocivos e catastróficos para a população. E lembrar que se trata de pessoas, não de estatísticas”, diz Naira. A líder do Instituto DuClima fala do deslocamento ambiental com propriedade. Ela mesma já fez parte desse grupo. Naira morava em Petrópolis, no morro da Oficina.
Em fevereiro de 2022, fortes chuvas na região serrana do Rio de Janeiro deixaram 235 mortos e quatro mil desabrigados e desalojados. Naira foi obrigada a mudar de cidade com o filho, a mãe e o cachorro. Desde então, a ativista estudou sobre o tema de deslocados, desabrigados e refugiados climáticos. “Não gostaria que ninguém passasse pelo que eu passei”, conta.
Até fevereiro de 2024, dois anos depois do desastre, a cidade fluminense ainda não havia finalizado as obras de infraestrutura. Mais de três mil pessoas seguem recebendo o aluguel social, já que a reconstrução de moradias também não foi finalizada. Não se trata apenas de ter uma casa, mas de garantir que as pessoas tenham dignidade.
Na visão de Girardi, do GovTechLab, embora o estado ainda esteja longe da fase de pensar na reconstrução, agora é o momento de criar as estruturas para um governo “smart”. “Será preciso uma gestão inteligente para organizar os espaços provisórios e as cidades temporárias.”
Soluções de gestão digital de documentos, bem como de análise de dados e de gerenciamento de estoques de alimentos e remédios funcionarão para a emergência, mas também serão bem utilizadas em tempos de “normalidade”.
Mariana Gutheil, da No One, lembra que até o estado estar completamente adaptado aos desastres climáticos, outros vão acontecer. As estruturas montadas de forma emergencial precisarão aguentar o tranco e serem igualmente resilientes.
No curto prazo, há muito a ser resolvido. Pensar em materiais para melhorar o conforto e a privacidade do espaço coletivo; garantir que as construções tenham baixo impacto de emissão de carbono; manter a comida fresca e nutritiva para todos. “Tudo isso é puro design”, “comenta.
No segundo momento, Naira aposta na reconstrução de comunidades e na identidade de quem perdeu tudo. Longe de suas casas, de seus bairros e suas cidades, muitos serão forçados a se mudar. Serão, como Naira, pessoas “desenraizadas”, que precisarão encontrar solo firme para se firmar e voltar a crescer.
“O Rio Grande do Sul vai virar vitrine para o Brasil e para o mundo”, diz Naira. Para o bem ou para o mal.
SOBRE A AUTORA
Camila de Lira é jornalista formada pela ECA-USP, early adopter de tecnologias (e curiosa nata) e especializada em storytelling para negócios.
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Estudo mostra que apenas um em cada dez recém-formados nos cursos mais populares do país consegue uma vaga formal equivalente ao seu nível de capacitação
Formada em Psicologia, Brenda Gontan, de 24 anos, participou de mais de 30 processos seletivos, sem sucesso, na busca de um emprego em sua área — Foto: Maria Isabel Oliveira/Agência O Globo.
A afinidade com ciências humanas e o interesse pelo que já tinha lido de Sigmund Freud, o pai da psicanálise, foram alguns dos atrativos que levaram a paulistana Brenda Gontan, de 24 anos, a escolher Psicologia na hora de ingressar na universidade, há cinco anos. Profissionalmente, ela esperava que a graduação abrisse portas para uma vaga nas áreas de recursos humanos e recrutamento.
— No final, não foi nada disso, o que é frustrante — desabafa a recém-formada, que tem dado aulas de inglês e alemão enquanto não acha um emprego em sua área.
A história de Brenda é uma entre tantas a ilustrar um paradoxo do mercado de trabalho no país: ao mesmo tempo em que nunca tantos brasileiros ingressaram no ensino superior, o diploma não tem sido garantia de um emprego com carteira assinada ou um salário compatível com a formação.
Estudo do início do ano da solução de análise de dados Geofusion, da empresa Córtex, do qual O GLOBO teve acesso a detalhes inéditos, mostra que só um em cada dez recém-formados nos cursos mais populares do país consegue uma vaga formal equivalente ao seu nível de capacitação. É um retrato do desencontro entre a expansão do ensino superior no Brasil e a necessidade de mão de obra especializada das empresas. Na linguagem dos aplicativos de namoro, falta match.
— Eu continuo procurando vaga, mas tive que recorrer a segundas opções. Daqui para a frente, é se reinventar— diz Brenda, que já participou de mais de 30 processos seletivos.
A alegria de conquistar um diploma também foi encoberta pela frustração para Mateus Lucioli, de 29 anos, de Belo Horizonte. Bacharel em Direito, foi o primeiro da família a chegar à universidade. Para pagar o curso, trabalhou como atendente em farmácia e vendedor de doces e chips de celular. Formado em 2021, demorou mais de dois anos até conseguir o primeiro emprego fora do comércio:
— Eu fui no pensamento da maioria das pessoas: me formar, passar na prova da OAB e conseguir emprego na área. Só que me formei, gastei muito dinheiro enviando currículos e não consegui oportunidades — conta ele, que atua como assistente em um escritório que auxilia brasileiros a tirarem cidadania italiana. — Futuramente, pretendo fazer a OAB para atuar em outras áreas.
Do ponto de vista do “copo meio cheio”, o país tem um recorde de 9,4 milhões de estudantes que chegaram à universidade em 2022, segundo os dados mais recentes do Censo da Educação Superior do Inep. De acordo com o IBGE, 19,7% dos brasileiros têm formação universitária, índice ainda baixo em relação a países desenvolvidos, mas o dobro dos 7,9% do início da década passada.
Concentração em 4 cursos
Quem se forma, no entanto, encontra barreiras para exercer a profissão que escolheu. A taxa de sucesso varia de acordo com a área. Em Psicologia, por exemplo, só 1,3% dos graduados consegue um emprego no modelo CLT correspondente à formação. Nas quatro graduações mais procuradas do país (Pedagogia, Direito, Administração e Enfermagem), o percentual fica entre 3,4% e 15,5%. O estudo avaliou dados de 400 mil recém-formados.
Cinco cursos de graduação concentram mais de um quarto dos universitários do país, mas poucos recém-formados encontram emprego na área — Foto: Arte/O Globo
— O que percebemos é um grande volume de contratações de pessoas com ensino superior em vagas de ensino médio, como assistente administrativo — diz Isabela Cavalcanti de Albuquerque, gerente de Produtos de Dados da Geofusion e uma das responsáveis pelo estudo, que vê um achatamento dos salários dos trabalhadores de nível superior.
Mateus Lucioli diz que a saturação de formados em Direito é visível. Segundo ele, as poucas oportunidades de contratação que surgem não raro oferecem salários baixos, perto do que ele ganharia em funções que não exigem diploma, como de vendedor:
— Já vi grandes escritórios que oferecem um salário mínimo. É o valor que eu pagava na mensalidade da faculdade. Hoje, sabendo disso, eu teria feito outro curso.
Para Janaina Feijó, pesquisadora da área de Economia Aplicada do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV), há uma desconexão entre o profissional que o mercado quer e o perfil que sai das universidades. O resultado é, de um lado, graduados sem trabalho e, de outro, empresas carentes de mão de obra qualificada.
— Quando você vai ver a formação (dos universitários no Brasil), a maior parte não está relacionada a ciência e tecnologia, que são áreas demandadas e que vão crescer em importância. Enquanto isso, houve expansão de cursos que muitas vezes formam profissionais que o mercado não tem condições de absorver — afirma Janaina.
Dados do Inep mostram que Pedagogia, Administração, Direito e Enfermagem são, há uma década, os cursos com maior número de matrículas no país. Segundo o último censo do Inep, 27,4% dos estudantes que entraram na universidade em 2022 optaram por um desses cursos. Isso significa que um em cada quatro calouros escolheu uma dessas quatro graduações entre 43.085 opções. Na outra ponta, empresas têm dificuldade de contratar profissionais das áreas ligadas à sigla em inglês STEM: ciências, tecnologia, engenharias e matemática.
Escassez na outra ponta
Profissionais de tecnologia, por exemplo, tendem a encontrar mais oportunidades. Análise do Ibre/FGV liderada por Janaina indica alta de 10% ao ano na demanda por profissionais de Tecnologia da Informação e Comunicação (TIC) no país. É a categoria no topo das mais procuradas. Uma pesquisa do Google feita com a Abstartups e a Box 1824 prevê um déficit de 530 mil profissionais de tecnologia no Brasil até 2025.
— Há um desequilíbrio entre a mão de obra e a demanda no Brasil. O que vemos nos países desenvolvidos é que eles buscam trabalhar justamente na formação daquilo que o mercado está buscando — ressalta a pesquisadora.
A CloudWalk, dona da maquininha de pagamentos InfinitePay, conseguiu aumentar a equipe voltada para inteligência artificial (IA) de 34 para 45 pessoas em um ano. Para isso, a empresa abriu a seleção para candidatos de todo o mundo. A possibilidade de trabalho 100% remoto, nesse caso, foi uma saída para encontrar profissionais mais qualificados, conta Pedro Terra, diretor de Pesquisa e Desenvolvimento da empresa:
— Queremos as melhores pessoas no time, e não necessariamente elas estarão no Brasil. Temos pessoas que moram na África do Sul, Índia, Canadá e Bolívia.
Mariana Rolim, diretora executiva da Brasscom,que reúne empresas de tecnologia, defende uma “articulação ampla” entre governo, instituições de ensino e setor privado em favor de políticas para formar mais pessoas na área:
— Precisamos de mais profissionais. Essa demanda só tende a aumentar.
Estudos internacionais sobre o futuro do trabalho apontam tendências que favorecem a demanda por profissionais das áreas STEM no mundo. O diagnóstico mais recente do Fórum Econômico Mundial sobre o tema mostra que as funções que mais rapidamente vão gerar novos empregos nos próximos três anos estão ligadas à tecnologia e à digitalização. Vagas para especialistas em análise de dados (big data), aprendizado de máquina de IA e segurança cibernética vão crescer 30% no mundo até 2027, diz o estudo.
Fernando Veloso, pesquisador do Ibre/FGV, avalia que esse desencontro entre formação e mercado de trabalho é um alerta preocupante.
— Isso indica algo mais profundo, que o mercado de trabalho não tem funcionado muito bem, seja porque a economia não cresce, seja porque as próprias universidades estão formando em áreas que o mercado não está demandando — diz. — O que é surpreendente é que essas pessoas com ensino superior deveriam estar sendo mais demandadas em geral. Mas o próprio salário delas tem caído desde 2012.
As últimas pesquisas do IBGE sobre o mercado de trabalho mostram aumento da massa salarial, mas concentrada nas atividades de menor qualificação. Veloso é coautor de um estudo do Ibre/FGV que indica que a renda de brasileiros escolarizados encolheu 16,7% na última década, entre trabalhadores que têm de 12 a 15 anos de estudo. Entre os que possuem de 5 a 8 anos de instrução, a queda é de 2,9%. A pesquisa compara o rendimento dessa parcela da população nos segundos trimestres de 2012 e 2023, a partir de dados do IBGE.
Falta qualidade também
Para Hugo Tadeu, professor e diretor do Núcleo de Inovação e Empreendedorismo da Fundação Dom Cabral, o Brasil não tem formado profissionais o suficiente “em qualidade e quantidade” para lidar com vetores de crescimento econômico, como de IA e outras tecnologias digitais.
— Precisamos ter um debate qualificado sobre a formação em alto nível — diz Tadeu. — Se queremos ser um país que exporta conhecimento e vai além das commodities, vamos precisar ter um olhar técnico e aprofundado para ciência, tecnologia e formação de mão de obra. Essa agenda é mais que imperativa.
A falta de uma estratégia nacional de qualificação de mão de obra sintonizada com a economia pode limitar o crescimento do país no longo prazo, alertam especialistas. Um dos efeitos da formação deficitária no país, desde a educação básica, é a estagnação brasileira em termos de produtividade, acrescenta Ildo Lautharte, coordenador do relatório de Capital Humano do Banco Mundial. Segundo a instituição, no ritmo atual, o Brasil vai levar 60 anos para alcançar os mesmos patamares dos países desenvolvidos nessa área. Se o país adotasse uma estratégia capaz de aproveitar ao máximo seu potencial de talentos, o Produto Interno Bruto (PIB) poderia ser 158% maior, estima o Banco Mundial.
— Quando a pessoa tem uma dificuldade de acumular habilidades, ela também demora para se adaptar a novos processos produtivos. É natural então que, quando venha algo novo, o Brasil tenha uma dificuldade absurda de se adaptar — diz Lautharte.
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Palmer Luckey, inventor californiano de 31 anos, fundou a empresa de defesa Anduril Industries
Por Tabby Kinder – Valor/Financial Times – 30/03/2024
Visto de baixo, o Altius-600M parece uma cruz negra navegando pelos céus. Tem uma fuselagem estreita e uma envergadura longa, o que torna sua largura duas vezes maior que o comprimento. De perto, é uma mistura de metal e circuitos, um testemunho esplêndido e ao mesmo tempo arrepiante da ambição humana. Também é uma das primeiras armas artificialmente inteligentes mobilizadas pelos Estados Unidos em uma guerra real.
Disparado de um tubo, como um míssil, primeiro, abre suas asas como um telescópio e, depois, tenta identificar seu alvo. É capaz de voar por cerca de 450 km. Circula alto no céu, por até quatro horas, e, então, lança-se contra o alvo em terra. O “M” da sigla se refere a munições; no impacto, ele explode em uma bola de chamas.
Anduril Industries fundada por Palmer Luckey
O drone de ataque é fabricado pela Anduril Industries, uma empresa de defesa fundada por um inventor californiano de 31 anos chamado Palmer Luckey.
O governo dos Estados Unidos comprou centenas de Altius-600Ms como parte de seus pacotes de ajuda militar à Ucrânia.
É um dos mais de dez sistemas autônomos de armamentos e de defesa que a Anduril construiu e vendeu para o Pentágono desde sua fundação em 2017.
Nesse período, a empresa de Luckey se tornou uma das maiores do pequeno grupo de startups que conseguiram se infiltrar na máquina de guerra do governo dos EUA, de trilhões de dólares.
Há décadas, a indústria tem sido dominada por um oligopólio de empresas fornecedoras governo com histórias seculares, chamadas de as “primes”, como a Lockheed Martin e a Raytheon.
Receita em US$ 1 bi em 2026
À medida que os conflitos no exterior se multiplicam, os negócios da Anduril se aceleram: a receita anual deve chegar a US$ 1 bilhão em 2026. “A primeira página do nosso primeiro documento de apresentação dizia que a Anduril pouparia centenas de bilhões de dólares por ano à civilização ocidental e aos contribuintes, ao mesmo tempo em ganharíamos dezenas e dezenas de bilhões de dólares por ano”, diz Luckey. “A intenção é enfrentar de igual para igual as ‘primes’ e conquistarmos nosso caminho até termos uma posição de igualdade.”
É uma reivindicação ousada, feita com a convicção de alguém que já previu o futuro antes.
Vendeu a Oculus por US$ 2 bi ao Facebook
A Anduril é o segundo grande empreendimento de Luckey. Em 2014, quando tinha 21 anos, ele vendeu a Oculus, uma empresa de óculos de realidade virtual (RV) que criou na garagem dos pais, para o Facebook por US$ 2 bilhões. No ano seguinte, estava na capa da revista “Time”. A Oculus foi um ponto de virada tecnológico, a primeira vez em que alguém havia criado um produto de RV viável para os consumidores. Isso alterou a trajetória do Facebook, uma das maiores empresas do mundo, que se reorientou em direção ao “metaverso”.
A invenção de Luckey também foi o modelo fundacional, que serviu de impulso para aparelhos como o Vision Pro, lançado recentemente pela Apple.
Luckey era a personalização de uma fantasia clássica do Vale do Silício: o nerd desajeitado destinado à grandeza.
O prodígio virou pária
No entanto, tempos depois, quando Luckey fundou a Anduril (a “Chama do Oeste”, o nome de uma espada em “O Senhor dos Anéis”, de J. R. R. Tolkien), ele já havia se transformado de prodígio em pária. Após revelações de que havia feito doações para um grupo on-line anti-Hillary Clinton, ele foi demitido do Facebook.
Seu apoio a Donald Trump o alienou do mundo de tendência política liberal das empresas de tecnologia, que ainda se sentia atordoado com o resultado das eleições presidenciais de 2016. O dinheiro para “incubar” a Anduril veio de Peter Thiel, o polêmico cofundador do PayPal, outro nome também renegado por partes do Vale do Silício por suas doações à campanha de Trump e por levar a Gawker Media à quebra.
“Sou um grande fã de Peter”, diz Luckey. “Ele sabia o que era ter problemas nos negócios por motivos políticos.”
A primeira grande vitória da Anduril, quando ainda era uma empresa de poucos meses, foi um contrato com o governo Trump para fornecer torres de vigilância alimentadas por inteligência artificial (IA) ao longo da fronteira mexicana. Foi um grande choque para a elite das empresas da alta tecnologia, que ainda estava às voltas para definir sua posição ética sobre IA e recuava da venda de softwares para militares para evitar protestos de funcionários. Ainda assim, passados sete anos, as empresas do Vale do Silício foram levadas à linha de frente da segurança nacional americana, com Luckey possivelmente sendo a figura mais crucial nesse processo.
O impacto das guerras
As guerras na Ucrânia e no Oriente Médio e a ameaça crescente da China e da Rússia aceleraram urgentemente a necessidade de modernização da capacidade militar no Ocidente. Em 2021, a China começou a testar armas hipersônicas — projéteis capazes de viajar a cinco vezes a velocidade do som — uma grande ameaça que demonstra avanços tecnológicos que deixaram os EUA muito para trás. Em março, Vladimir Putin advertiu que o apoio ocidental à Ucrânia ameaçava desencadear uma guerra nuclear mundial.
Dessa forma, o Vale do Silício se viu arrastado de volta ao cerne de um complexo industrial militar que perdera a dianteira da corrida — e Luckey está posicionando a Anduril como a salvadora desse complexo.
Nova geração de empresas de tecnologia militar
Sistemas de armas avançadas que há alguns anos pareciam ficção científica vêm sendo construídos na sede da Anduril, nos subúrbios de Los Angeles, e uma nova geração de empresas de tecnologia militar vem emergindo em sua órbita.
No alto da declaração de missão da Anduril, Luckey faz a pergunta: “Xi Jinping acha que pode superar a inovação da defesa americana. Ele está certo?”.
No dia de fevereiro em que me encontrei com Palmer Luckey no extenso campus da Anduril, em Costa Mesa, Orange County, o conflito no Oriente Médio sofria uma escalada. A morte de três soldados americanos na Jordânia por um drone iraniano durante à noite trazia mais um sinal de que a guerra entre Israel e o Hamas ameaça se transformar em um conflito maior. Há poucos detalhes, mas relatos iniciais indicam que o drone foi capaz de entrar na base dos EUA sem ser detectado pela tecnologia antidrones.
Shorts e chinelos
Luckey, com uma camisa tipo havaiana, shorts e chinelos, que são sua marca registrada, passa as mãos pelo seus “mullets”, angustiado com a notícia. A tecnologia da Anduril é mais avançada, rápida e barata de fazer do que o material construído pelos principais fornecedores das Forças Armadas dos EUA, diz Luckey.
Seu maior concorrente no segmento antidrones é o “Coyote”, da Raytheon, uma das “primes”. Luckey deu o nome de “RoadRunner” ao sistema da Anduril, o Papa-Léguas do clássico desenho animado “Looney Tunes”, no qual o pássaro sempre é mais rápido do que o coiote que tenta capturá-lo.
“E se tivéssemos uma tecnologia de antidrones instalada em todas as nossas bases americanas que tornasse esse ataque totalmente fútil?”, diz. “Poderiam enviar cem vezes mais drones e eles seriam simplesmente derrubados do céu, e seu adversário gastaria dezenas ou centenas de milhões de dólares atacando o local sem ganho tático algum”.
Um ouriço com espinhos
A missão da Anduril é permeada por uma forte e inabalável crença no poder de dissuasão. Basicamente,, o objetivo de Luckey é tornar os EUA e seus aliados quase impossíveis de serem atingidos — “um ouriço com espinhos”, em suas palavras — e também fornecer armas poderosas o suficiente para, em primeiro lugar, desencorajar os adversários de atacar. “Queremos construir capacidades que nos deem o poder de vencer rapidamente qualquer guerra em que sejamos obrigados a entrar”, diz.
Bomba atômica de Oppenheimer
A tese não é original. É a mesma ideia que levou ao desenvolvimento da bomba atômica por Robert Oppenheimer.
Os ataques americanos a Hiroshima e Nagasaki encerraram a Segunda Guerra Mundial, matando mais de 100 mil pessoas. Desde então, armas nucleares não voltaram a ser usadas em conflitos. O problema é que, 80 anos depois, para realmente definir o resultado de uma guerra, os EUA não apenas precisariam ter uma tecnologia capaz de acabar com uma guerra, mas também convencer seus adversários de que estariam dispostos a usá-la.
Entra em cena a IA
É aí que entra em cena a IA, à qual os círculos da área de defesa costumam se referir usando um termo menos ameaçador, “autonomia”. “O que é tão poderoso sobre a autonomia é que você pode mostrar claramente a seus adversários que você dispõe de armas que não custam tanto dinheiro assim e que não custam vidas humanas”, diz Luckey. “É uma parte poderosa do poder de dissuasão que os EUA perderam ao longo do tempo, à medida que nossa disposição para a morte diminuiu e o custo de nossos sistemas aumentou”.
Toda a tecnologia da Anduril é capaz de operar quase inteiramente de forma não tripulada (a ponderação sobre qual é o grau de autonomia quando essa tecnologia é usada fica a critério dos usuários e das autoridades).
Todos os produtos rodam sobre o mesmo software de aprendizagem das máquinas — um sistema operacional chamado “Lattice” —, de forma que eles podem se comunicar entre si e ser atualizados como qualquer smartphone para acompanhar avanços na tecnologia e na inteligência inimiga. Isso é parte do motivo pelo qual Luckey diz que seus sistemas são melhores do que, por exemplo, os da Raytheon.
O argumento de venda é claro: em meio à competição do livre mercado, a tecnologia de uso comercial se desenvolve em ritmo alucinante; a do setor de defesa, não.
IA do Tesla é mais avançada
A Anduril sustenta que a IA disponível em um Tesla é mais avançada que a dos veículos militares dos EUA, e que há uma potência de computação muito maior em um iPhone do que nos sistemas regularmente usados pelo Departamento de Defesa. Até 2019, o arsenal nuclear dos EUA ainda operava em disquetes.
Em comparação, o Fury, o caça autônomo da Anduril, e o Dive-LD, seu submarino para “espaços de batalha submersos”, parecem tão incríveis quanto algo retirado das páginas de um romance de Júlio Verne.
Agora, esse argumento de venda ganhou um sentido de urgência renovado, diz Luckey: “Tenho brincado que os últimos anos têm consistido na turnê do Palmer Luckey dizendo ‘Eu avisei'”, conta. “Essa era a tese de toda a empresa […] Nossa primeira apresentação para os investidores incluía especificamente o que a Rússia iria estar fazendo [agora], o que a China iria estar fazendo […] como o Irã usaria forças agindo em seu nome para tentar nos arrastar a uma luta. É exatamente o que previmos.”
A primeira captação
Em 2019, em uma noite de verão em São Francisco, 40 sócios da General Catalyst foram convocados para uma reunião no escritório central da firma de investimentos de capital de risco.. A Anduril realizava sua primeira grande captação de recursos e a pergunta na mesa era se a General Catalyst estava disposta a participar. O clima era tenso.
Os sócios já haviam feito um cheque de valor menor, de US$ 1,5 milhão, para a empresa ainda nascente. Agora, estavam divididos quanto à ética de dar dezenas de milhões de dólares para o que já era uma fabricante de armamentos em plena atividade.
“Foi controverso”, diz um dos sócios, que preferiu não ter o nome identificado. “Palmer era, para dizer de forma suave, uma figura impopular na época.”
É possível que as vozes contrárias à ideia desconhecessem os primórdios do Vale do Silício. As armas desenvolvidas para ajudar a vencer a Segunda Guerra Mundial (a bomba atômica, a propulsão a jato, o radar) deixaram como legado para os anos seguintes uma profunda consciência de que a ciência e a tecnologia determinariam o domínio nos campos de batalha do futuro.
Em 1948, o Projeto Rand
Os EUA investiram bilhões de dólares em pesquisa enquanto competiam contra a antiga União Soviética pela superioridade ideológica e militar. Em 1948, nasceu o Projeto Rand (uma contração das palavras inglesas para “pesquisa e desenvolvimento”), para servir de elo entre o planejamento militar e as descobertas científicas americanas.
As fileiras de consultores e grandes pensadores do Rand produziram as pedras angulares de quase tudo,, desde o computador pessoal até a revolução da IA de hoje.
Dez anos depois, as ondas de surpresa provocadas pelo lançamento do primeiro satélite do mundo pela União Soviética, o Sputnik, reverberavam nos EUA. Em 1958, o presidente Dwight Eisenhower criou a Agência de Projetos de Pesquisa Avançada (Arpa, na sigla em inglês), que fornecia dinheiro para o desenvolvimento de tecnologias de uso militar e tentava garantir que os EUA nunca seriam superados em inovação novamente.
No início da década de 1960, o Darpa (o “D” de “defesa” foi adicionado posteriormente) financiou 70% de toda a pesquisa em computação nos EUA, grande parte dela feita nos laboratórios nas colinas californianas ao redor da Universidade de Stanford.
Essa pesquisa levou à invenção da maioria das tecnologias que usamos hoje — a internet, telas sensíveis ao toque, GPS, carros autônomos — e inaugurou uma nova era de supremacia tecnológica americana.
Quando líderes estrangeiros prometeram ao longo dos anos fomentar seus próprios Vales do Silício, não estavam apenas pensando nas empresas de tecnologia voltadas para o consumidor, como Twitter e Airbnb. O que realmente queriam replicar era o modelo americano de empresas privadas e estatais trabalhando em conjunto para manter o domínio econômico e militar do país.
Mesmo com tudo isso, há apenas cinco anos, a ideia de uma empresa do Vale do Silício especializada no mercado de defesa parecia algo totalmente impensável para muitos investidores em tecnologia.
Tornar o mundo um lugar melhor
O Vale do Silício começou a se afastar de suas raízes no fim dos anos 1990 e 2000, com as empresas de tecnologia adotando lemas como “Não Seja Maldoso” e dizendo a investidores, funcionários e clientes que a razão de sua existência era tornar o mundo um lugar melhor. Em 2019, ainda estava fresca na memória a retirada embaraçosa do Google e da Microsoft de alguns trabalhos militares, depois de funcionários terem realizado protestos por contratos com o Pentágono.
Passados três anos do governo Trump, o setor de tecnologia ainda sofria espasmos de aversão quase constantes com políticas que saiam de Washington, diante da colisão dos ideais progressistas das empresas com anúncios como o decreto executivo de Trump sobre imigração muçulmana, a ambiguidade dele em relação à supremacia branca, a proibição dele a soldados transgênero.
Por sua vez, a capital Washington empenhou-se em arrumar brigas com as gigantes tecnológicas. Acusava-as de coibir pontos de vista conservadores em seus sites e convocava executivos como Mark Zuckerberg e Jack Dorsey a se defenderem no Congresso.
Hardware para travar guerras
Como resultado de tudo isso, quase ninguém no Vale do Silício fazia algo parecido à Anduril. A empresa de foguetes de Elon Musk, SpaceX, e a empresa de inteligência de dados de Peter Thiel, a Palantir Technologies, estavam lucrando com contratos governamentais, inclusive com o Departamento de Defesa. Mas a Anduril queria ir um passo além, e construir hardware para travar guerras, incluindo armas. Seus fundadores alertavam para o risco de futuros conflitos com China, Irã, Rússia.
Luckey era o menino-gênio que havia inventado os óculos de RV Oculus e a equipe fundadora da Anduril incluía várias pessoas que haviam ajudado a levar a Palantir — também com o nome de um objeto de “O Senhor dos Anéis” — a deixar de ser uma pequena startup californiana e se tornar uma empresa avaliada em US$ 20 bilhões. Entre elas estavam o presidente Trae Stephens, o executivo-chefe Brian Schimpf e o diretor de operações Matt Grimm.
Xingada em festas de coquetéis
Uma das primeiras defensoras da Anduril foi Katherine Boyle, uma ex-rainha de concursos de beleza da Flórida e ex-repórter do “The Washington Post”, que se tornou uma estrela em ascensão na General Catalyst. Em 2017, ela apresentou seus chefes a Stephens e os convenceu a darem um cheque para a Anduril — uma façanha para alguém tão iniciante como ela. De repente, ela também se viu como uma pária social: “Fui chamada de defensora da guerra e de coisas piores”, diz ela. “Houve vezes em que fui xingada em festas de coquetéis de [firmas de] capital de risco.” Não era o melhor dos momentos para empresas de tecnologia na área de defesa. Em 2017, a Anduril decidiu instalar sua sede a centenas de quilômetros ao sul do Vale do Silício; em 2020, a Palantir fechou seus escritórios em Palo Alto e se mudou para Denver, Colorado.
Já havia sinais, entretanto, de que uma mudança vinha ocorrendo no Vale do Silício. Para alguns, os protestos do Google e da Microsoft passaram a sensação de que a cultura das empresas de tecnologia havia se tornado refém de funcionários ativistas. Provocadores como Musk passaram a atrair mais atenção.
Gigantes tecnológicas como o Facebook, que antes encorajavam seus funcionários a se posicionar publicamente sobre questões envolvendo a empresa, começaram a restringir o espaço para discussões políticas. Cada vez mais, figuras importantes da área de tecnologia adotavam posições mais conservadoras. Uma delas era Marc Andreessen.
Criador do Netscape, uma fera
No mundo dos veteranos da tecnologia, Andreessen é uma fera. Na década de 1990, ele criou o navegador mais popular dos primeiros dias da internet, o Netscape Navigator. Agora, ele comanda uma firma de capital de risco com seu sócio Ben Horowitz. Muitas vezes autoritário e beligerante, Andreessen é um catequizador da tecnologia, cujos confrontos e discussões nas plataformas de relacionamento social on-line e críticas sem rodeios ao governo e aos impostos o tornaram alvo de controvérsias.
Ainda assim sua influência nas “Big Techs”, inclusive no Facebook, onde faz parte do conselho de administração, o manteve em uma posição de poder no Vale do Silício. Quando ele fala, as pessoas costumam ouvir.
Depois que a Andreessen Horowitz investiu na Anduril em 2019, o clima mudou rapidamente. Quando ele escreveu em seu site: “Eu acredito nos Estados Unidos da América. Eu acredito em uma defesa nacional forte. E eu acredito na Anduril”, foi a primeira declaração categórica, por parte de alguém com autoridade dentro do mundo da tecnologia, de que investir em tecnologia de defesa era permissível. Foi um divisor de águas para firmas de capital de risco até então relutantes, que ficavam à margem, perguntando-se como justificariam um investimento em defesa a financiadores e funcionários.
“O Vale do Silício tem uma enorme cultura de seguir a tendência da vez”, diz Luckey. “Tudo o que é preciso é algumas pessoas se levantem e digam: ‘Atenção a todos, o conjunto aceitável de crenças mudou’, para que as coisas mudem para todos. O pêndulo oscila para frente e para trás, e acho que há muitas pessoas achando que o pêndulo oscilou longe demais para um lado, em toda uma gama de questões sociais e políticas”.
Anduril já levantou US$ 2,8 bi
Desde então, a Anduril levantou cerca de US$ 2,8 bilhões. A empresa de investimentos de Thiel, a Founders Fund, investiu US$ 400 milhões, seu maior investimento em dinheiro em uma única empresa. Em 2019, a General Catalyst também havia acabado decidindo investir, entrando com US$ 30 milhões.
Desde então, houve como uma corrida do ouro em busca de startups de tecnologias de defesa; o capital de risco investido em tecnologias de defesa dobrou para US$ 33 bilhões, entre 2019 e 2023. Também aumentou a confiança de que as startups de tecnologia de defesa acabarão conquistando uma bela fatia do orçamento de defesa dos EUA, de pesados US$ 842 bilhões neste ano.
OpenAI permite aplicações militares
Agora, fazer planos para que sua startup produza tecnologia de uso militar está em plena moda no Vale do Silício. No início do ano, a OpenAI, a fabricante do software de IA generativa ChatGPT, alterou silenciosamente seus termos de serviço, passando a permitir que sua tecnologia possa ter aplicações militares, apagando a política anterior que proibia o uso para fins de “militares e guerra”.
As políticas de Luckey permanecem inalteradas.Ele se autodescreve como republicano com “R” maiúsculo e libertário “l” minúsculo. Ele diz ser “não intervencionista”, mas isso não é tão contraditório quanto parece.
Ele sustenta que quer desenvolver sistemas militares autônomos para evitar que os EUA se envolvam em guerras estrangeiras. “Eu não quero soldados em terra. Estou cansado dos EUA serem arrastados para brigas nas quais nossos aliados realmente deveriam ter as ferramentas para lutar por si sós.”
Apoiador de Trump
Luckey deixa implícito que voltará a votar em Trump neste ano, observando que é um apoiador de longa data. Em 2011, ele escreveu para o então astro dos programas de “reality shows” na TV pedindo a Trump para que concorresse à presidência.
Em 2020, ele organizou um evento de arrecadação de fundos para Trump em sua casa, no qual o então presidente compareceu. “Eu converso com ele de vez em quando”, diz Luckey sobre Trump. “Gosto de pensar que ele acha que sou um cara competente, mas não acho que eu seja a voz de incentivo à defesa no ouvido de Trump. Isso seria fantástico se fosse verdade, adoraria ter esse nível de influência na política dos EUA”.
Órfão inteligente e maquiavélico
Seto Kaiba é o anti-herói da série de mangá japonesa Yu-Gi-Oh! — um órfão inteligente e maquiavélico que herda um império de armas e o transforma em tecnologia de RV. Também é o herói pessoal de Luckey. Quando tinha sete anos, Luckey ficou obcecado com uma das falas do personagem: “Você disse que a tecnologia tem limites. Errado.” (Como Luckey coloca, Seto Kaiba então continua “chutando o traseiro de todos, usando sua tecnologia incrível”.)
“Às vezes eu me pergunto, quanto livre arbítrio eu realmente tenho sobre minha vida?”, Luckey me diz, depois de animadamente recontar essa cena. “É possível que eu na verdade não tenha tido escolha em nenhum momento, exceto seguir o desenvolvimento da RV e das armas?”, diz.
Livros de história e ficção científica
Os interesses de Luckey o guiaram por um caminho altamente específico. Seu avô, um piloto interessado em aviação militar, começou a dar livros de história para Luckey quando ele tinha oito ou nove anos. Depois ele se interessou por ficção científica.
“A maioria das coisas em que a Anduril está trabalhando são coisas que existem há décadas no campo da ficção científica”, diz ele. Ele cita Verne, que previu tecnologias futuras plausíveis como submarinos elétricos e o Taser quando estava escrevendo em meados do século XIX.
Educado em casa por sua mãe, quando era adolescente, Luckey também devorou videogames e mangás. Ele cresceu em Long Beach, Califórnia, com seu pai, um vendedor de carros, e três irmãs, uma das quais, Ginger Luckey, é casada com o congressista republicano da Flórida e fã fervoroso de Trump, Matt Gaetz.
Quando tinha 11 anos, Luckey fazia experimentos com eletrônicos, primeiro na garagem de seus pais e depois em um trailer velho na entrada, criando lasers e uma arma de bobina eletromagnética a partir de fios de cobre e capacitores de alta voltagem.
Uma vez, quando estava trabalhando em uma bobina de Tesla, ele tocou em uma cama de metal no chão e foi arremessado através da garagem. Ele também ficou com um ponto cinza marcado em sua visão enquanto limpava um laser infravermelho. Mais tarde, ele começou a modificar equipamentos de jogos e consertar iPhones quebrados, mexendo com antigas unidades de visualização de RV militares que comprou em leilões do governo.
Artigos do Pentágono
Aprofundou-se, adquirindo o hábito de ler artigos de pesquisa do Pentágono que haviam sido liberados da condição de confidenciais. Primeiro, tudo que já fora escrito sobre telas montadas na cabeça e RV, depois vastas quantidades de relatórios técnicos de laboratórios financiados pelo governo, desde a Segunda Guerra Mundial.
São as “leituras mais fascinantes que você poderia encontrar, porque era uma época na história em que você podia pensar sem limitação ou consideração por regulamentos ou precedentes”, diz ele. “Eles estavam vivendo na era atômica, neste novo mundo liderado pelos Estados Unidos. Tudo estava em jogo.”
Esse hiper-otimismo tecnológico também consumiu a vida pessoal de Luckey. Ele dirige um Tesla Model S (com a tinta removida para revelar o metal nu) e navega um veículo de operações especiais Mark V de 82 pés (uma embarcação camuflada dos Seals, da Marinha, de US$ 3 milhões, equipada com metralhadoras desativadas), que ele mantém atracada em sua casa em Newport Beach, Califórnia.
Óculos com explosivos
Em 2022, como um projeto paralelo para comemorar a série de anime Sword Art Online, ele inventou óculos de RV para jogos que realmente matam o jogador se ele morrer no jogo, montando módulos de carga explosiva nos óculos, direcionados para o cérebro. (Ele diz que nunca o usou.)
Luckey e sua esposa Nicole Edelmann, uma jogadora profissional que ele connheceu em um acampamento de debates quando eram adolescentes, foram fotografados usando biquínis e botas de combate, ambos se fantasiando como Quiet, a heroína de Metal Gear Solid. Nesse videogame, os jogadores descobrem a existência de uma arma nuclear controlada por IA, feita pelo vilão criador com a crença de que a falta de vontade humana de lançar uma bomba nuclear é a falha na teoria da dissuasão.
‘Esse cara é um gênio’
“Eu realmente acho que esse cara é um gênio”, diz Chris Brose, diretor de estratégia da Anduril, que foi o principal conselheiro do senador John McCain em segurança nacional e é a contratação de maior hierarquia de alguém de Washington feita pela empresa. “Ele propõe uma solução para um problema e entende de imediato como fazê-lo tecnicamente — e 80% ou 90 % das vezes ele está certo, logo de cara.” Quando estavam projetando o primeiro sistema interceptador de drones da Anduril, o Anvil, Luckey imaginou um quadricóptero que poderia derrubar outros quadricópteros do céu, diz Brose. “Ele tinha um protótipo em uma semana. Ele tem ideias constantemente. Algumas dessas ideias vão estar erradas ou inviáveis. Outras vão ser o Oculus.”
Algumas semanas após a Rússia invadir a Ucrânia em fevereiro de 2022, Luckey voou para Kiev e se encontrou com Volodymyr Zelensky, pela segunda vez. Eles haviam conversado pela primeira vez em Nova York três anos antes, depois que o presidente ucraniano leu um artigo na revista Wired sobre as torres de sensores da Anduril na fronteira entre os EUA e o México.
Zelensky queria implantar a mesma tecnologia na fronteira oriental da Ucrânia, segundo Luckey. “As pessoas vão tentar pintá-lo como apenas um comediante”, diz ele, “mas a realidade é que anos antes da invasão da Rússia, essa era uma de suas principais prioridades, a ponto de estar visitando empresas estrangeiras para descobrir como impedir isso.”
EUA proibiram a tecnologia para a Ucrânia
O governo dos EUA proibiu a Anduril de vender a tecnologia para a Ucrânia. A posição oficial americana era que a Rússia estava apenas fazendo ameaças e que uma acumulação de tecnologia na fronteira, particularmente fornecida pelos EUA, seria provocativa. “Eu realmente acreditei que a avaliação (de Zelensky) estava correta. Mas temos que seguir as regras, então não pudemos fazer nada a respeito”, disse Luckey. Quando os dois se encontraram novamente em Kiev no início da guerra, “havia um pouco de amargura” de Zelensky sobre essa decisão. (Zelensky não respondeu aos pedidos de comentário.)
A guerra na Ucrânia tem sido um campo de testes útil para a Anduril aperfeiçoar seus sistemas em um cenário da vida real. Mais importante ainda, o conflito mostra como as características da guerra estão mudando.
Mais do que nunca está sendo usada tecnologia comercial, como imagens de satélite e drones autônomos. Quando Musk implantou seu serviço Starlink na Ucrânia, fornecendo internet apesar dos esforços de interferência russa, foi a primeira vez que uma empresa comercial forneceu a espinha dorsal da capacidade militar de um país durante a guerra. Isso deu peso a um argumento que tem sido discutido em Washington há anos, de que os EUA precisam melhorar na aquisição de tecnologia fora das tradicionais compras militares.
A quantidade enorme de munições necessárias para os combates na Ucrânia — que estão usando atualmente 10 mil drones por mês — expôs as vulnerabilidades da produção de defesa dos EUA. A necessidade de os EUA adquirirem novas tecnologias rapidamente e em escala passou de um argumento acadêmico para um consenso da noite para o dia.
A SpaceX e a Palantir reclamaram sobre como os contratos são concedidos desde pelo menos 2005, inclusive processando a Força Aérea dos EUA e o Exército dos EUA, respectivamente, por esquemas que elas consideravam favorecer injustamente os fornecedores tradicionais em relação aos novos entrantes.
Após o colapso da União Soviética, os EUA reduziram drasticamente os gastos com defesa, iniciando um frenesi de consolidação no início dos anos 1990, quando dezenas de empresas se fundiram em apenas cinco.
80% da receita nas mãos de 10 empresas
Agora, com o aumento dos gastos com defesa,, cerca de 80% da receita do setor é produzida por apenas 10 empresas, fundadas décadas atrás. Quase dois terços dos principais sistemas de armas nos EUA têm um único licitante.
No centro das ações judiciais da SpaceX e da Palantir estava a consternação com o modelo de compra do departamento de defesa conhecido como “custo acrescido”, no qual concede contratos a empresas que se oferecem para construir pelo custo de produção mais uma taxa percentual. Isso geralmente leva a grandes excedentes de custos e longos atrasos, já que os contratados são incentivados a permitir que os custos se acumulem. Também significa que os sistemas são atualizados em uma base geracional, lenta demais para acompanhar a inovação tecnológica.
Por exemplo, o Lockheed Martin F-22 Raptor, introduzido em 2005, foi o primeiro caça a jato a incorporar avanços em computação digital e rede móvel na década de 1990. A próxima geração do jato não é esperada até os anos 2030.
SpaceX, Palantir e Anduril
Ao contrário dos contratantes principais tradicionais, a SpaceX, a Palantir e a Anduril usam financiamento privado para construir seus produtos antes de vendê-los para o governo. À medida que cada empresa começou a ganhar bilhões de dólares em contratos, começou a parecer que o modelo de compra do departamento de defesa está se tornando lentamente mais comercial. Mas ainda está longe de oferecer condições de concorrência equitativas.
P&D e fabricação
Há certas partes da sede da Anduril onde Luckey precisa usar sapatos adequados. Em 2021, a Anduril mudou-se para a antiga área de impressão do “Los Angeles Times”, assumindo a instalação de mais de 60 mil metros quadrados, aproximadamente do tamanho de onze campos de futebol americano. Sua reabilitação de aproximadamente US$ 200 milhões criou uma vasta área de pesquisa, desenvolvimento e fabricação. Tem o mesmo zumbido que impregnava os laboratórios de pesquisa do pós-guerra da área da Baía de São Francisco.
Do lado de fora, os prédios são de um cinza ardósia e discretos. Guardas de segurança estão postados em cada uma de suas entradas (meu motorista de táxi supõe que a empresa tenha “algo a ver com o governo”). A Anduril tem uma política de trazer cães para o trabalho, da era ponto.com, e os funcionários passeiam com seus animais de estimação pelo campus sob o sol californiano.
Dentro, os experimentos mais recentes estão sendo trabalhados em galpões do tamanho de hangares de aeronaves — um contêiner de transporte à prova de explosão, revestido de satélites, e um veículo todo-terreno com camuflagem do deserto, coberto de sensores.
Chinelos de dedo são proibidos
Telas pretas sobre rodas protegem projetos secretos em uma extremidade da sala. Os cães também estão aqui, cochilando sob bancadas de trabalho e espiando pelas salas de reuniões. Uma placa indicando a proibição de chinelos de dedo é direcionada diretamente a Luckey. No chão de fábrica, só servem sapatos de verdade.
Quando o Facebook e o Google construíram seus palácios de escritórios no Vale do Silício, eles eram símbolos multibilionários do imenso poder e status das “Big Tech”s. O campus da Anduril também é um testemunho da mudança de atitudes no Vale desde então.
Há dez anos, a Anduril teria achado impossível recrutar do mesmo pool de desenvolvedores e engenheiros destinados às empresas de tecnologia comercial, mas agora está atraindo funcionários desses concorrentes. A equipe da Anduril triplicou de tamanho para mais de 2,5 mil funconários em três anos.
Os novos recrutados chegam sem ambiguidade em suas mentes sobre a tecnologia em que estarão trabalhando. Cada novo contratado passa por uma apresentação de três horas de Luckey sobre a história da Anduril e seus planos para o futuro.
Se você não se sentir confortável, não deve trabalhar aqui
A mensagem é: se você não se sentir confortável, não deve trabalhar aqui. Há algo mais aqui também, uma resposta diferente para a pergunta sobre para que serve o Vale do Silício.
A era de ouro da Netflix e da Apple trouxe tecnologias de consumo que mudaram a vida. Mas na 18ª versão do iPhone, os ganhos parecem marginais em comparação com o texto de marketing prometendo magia. Mesmo os novos óculos da Apple, que estão anos-luz à frente de qualquer coisa com que Luckey estava mexendo em sua garagem, parece, bom, meio mediano.
Se o Vale do Silício é um país próprio, parece ser um país que está ficando sem ideias significativas. Mas se, como parece no campus da Anduril, o Vale do Silício é um ativo do poder americano, então Luckey estará certo pela terceira vez.
Suas ideias só vão ficar mais ambiciosas à medida que a IA desbloquear novas gerações de sistemas de armas e à medida que a Anduril levantar bilhões de dólares a mais em capital. “Se você é tão incrivelmente forte que pode lutar com uma mão amarrada atrás das costas e ainda vencer facilmente, você pode realmente se dar ao luxo de dizer, ‘Eu não vou aceitar danos colaterais civis quase no mesmo grau, eu não vou aceitar danos maciços à máquina econômica dos EUA'”, diz Luckey.
“A maneira de encarar seria que eu quero nos dar uma tecnologia que transforme o palco mundial, no que diz respeito à guerra, em os Estados Unidos seja um adulto em uma sala cheia de ditadores do tamanho de crianças.”
Em sua mente, Luckey já é Seto Kaiba, capaz de chutar o traseiro de todos com sua tecnologia incrível. Então, a Anduril criará as armas de IA que serão tão decisivas para o resultado da guerra quanto a bomba atômica? “Temos ideias de como elas são”, diz Luckey. “Estamos trabalhando nelas.” (Sabino Ahumada e Samara Leonel)
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Gigante americana do varejo online usa inteligência artificial para entender consumidor e não acumular mercadorias
Daniele Madureira – Folha – 31.mai.2024
A Amazon Brasil deu um salto nos últimos cinco anos. No país desde 2012, com a venda do leitor de livros digitais Kindle, foi só a partir de 2019 que a empresa se tornou de verdade um marketplace e expandiu o número de categorias. De um único centro de distribuição (CD) em São Paulo, passou a 10 CDs nas regiões Sudeste, Sul, Centro-Oeste e Nordeste. De zero hub logístico (estação de separação de mercadoria) em 2019, saltou para 64.
Com isso, acelerou a entrega: o número de cidades atendidas em 24 horas passou de 50 para 200. Os municípios com entrega em até 48 horas aumentaram de 90 para 1.300. O número de ‘sellers’ (revendedores cadastrados na plataforma) cresceu de 20 mil para 80 mil.
No ano passado, a Amazon ultrapassou Casas Bahia e Americanas e se tornou a terceira maior operação de comércio online do país, atrás de Mercado Livre e Magalu, com faturamento bruto estimado em R$ 25 bilhões.
“O Brasil é o segundo maior mercado emergente da empresa no mundo, só depois da Índia”, disse à Folha o presidente da Amazon Brasil, Daniel Mazini, 45. O executivo entrou como “estagiário de verão” na gigante americana em 2009, quando morava em Londres, e acabou ficando. Foi transferido para a sede, em Seattle, até que em 2014 foi convocado para trabalhar na expansão da filial brasileira.
“Temos uma ferramenta interna que mostra quantas pessoas entraram depois de você. No mundo, 99,7% chegaram depois de mim”, diz. “Descobri que sou veterano na Amazon.”
Mazini responde pelas operações de comércio eletrônico e entretenimento (filmes, músicas e livros). A área de computação em nuvem, a AWS, é uma empresa em separado. “Nós fazemos questão de manter essa independência, já que alguns rivais do marketplace são clientes da AWS, como Mercado Livre e Netflix.”
O crescimento das vendas online da Amazon está ancorado no uso de inteligência artificial para entender o comportamento do consumidor e, assim, gerenciar a demanda. “Eu não preciso ter a mesma televisão em 700 lugares diferentes”, diz Mazini. “Eu preciso ter só 10 televisões. Se vender bem, compro 40. Se continuar vendendo bem, compro mais 200”, afirma.
Hoje a Amazon Brasil conta com a oferta de 100 milhões de produtos na plataforma –99% são dos sellers. O estoque próprio é de apenas 1 milhão de mercadorias. “A gente se concentra em comprar grandes marcas, que têm demanda garantida, como iPhones, smartphones da Samsung e computadores Lenovo”, diz.
Existe um “porém” nessa estratégia: se o estoque é do seller, a Amazon não determina o preço do produto, que fica a cargo do revendedor. Por isso, em épocas de grande demanda, como Natal e Black Friday, e durante períodos promocionais, a empresa reforça o estoque próprio, chamado de “1P” no jargão do comércio eletrônico. Nessas épocas, até 50% do estoque chega a ser da empresa.
CHINESAS CRESCEM NO QUINTAL AMERICANO
Mazini diz que não se incomoda com o recente avanço das plataformas asiáticas no Brasil, como Shopee, Shein e AliExpress, uma vez que o comércio online representa apenas 12% do varejo brasileiro. “Quanto mais o mercado como um todo cresce, mais nós crescemos”, diz o executivo, que pensa o mesmo a respeito da chegada da Temu ao Brasil, ainda este ano.
A chinesa Temu tem dominado a cena nos Estados Unidos, ao se tornar o aplicativo de compras mais baixado do país, de acordo com a ferramenta de pesquisas de mercado App Magic. Na vice-liderança está a também chinesa Shein, enquanto a Amazon ocupa o terceiro lugar em downloads.
O avanço das chinesas nos Estados Unidos é preocupante, uma vez que o mercado americano responde sozinho por mais da metade das vendas da Amazon. O grupo registrou receita líquida de US$ 574,8 bilhões (R$ 2,9 trilhões) em 2023, uma alta de 12% sobre o ano anterior, com lucro de US$ 30,4 bilhões (R$ 156,7 bilhões) no período. Da receita, 61% vêm da América do Norte, 23% vêm dos outros países (segmento que a Amazon chama de Internacional) e 16% vêm da AWS.
A companhia divide o mundo entre mercados consolidados e emergentes –sendo estes últimos os países onde iniciou operação há pelo menos 10 anos. Nessa lista, além de Índia e Brasil, estão México, Austrália, Singapura, Egito, Emirados Árabes, Arábia Saudita, Bélgica, Suécia e Polônia. Agora a empresa chega também à África do Sul.
Já os consolidados são, além dos Estados Unidos, Alemanha, Canadá, China, Espanha, França, Itália, Japão e Reino Unido.
VENDA SUSPENSA NO RIO GRANDE DO SUL, COM CD INTERDITADO
No Brasil, os 10 CDs da empresa estão em seis estados e no Distrito Federal: São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Brasília, Pernambuco, Ceará e Rio Grande do Sul.
Este último, porém, na cidade de Nova Santa Rita, região metropolitana de Porto Alegre, está interditado por tempo indeterminado por conta das fortes chuvas que abalaram o estado gaúcho desde o fim de abril. O CD fica próximo ao rio dos Sinos, que transbordou.
A Amazon não informa se as mercadorias foram atingidas e para qual CD redirecionou os pedidos feitos até então. Na sexta-feira (24), a empresa anunciou que suspendeu as vendas para o estado temporariamente.
O foco da companhia está em fazer com que cada vez mais sellers adotem o seu sistema fulfillment, chamado de FBA: o lojista envia seus produtos para a Amazon, que se encarrega da gestão logística do estoque e do envio das mercadorias. Além de aumentar a sua receita de serviços, o FBA permite à Amazon garantir a entrega grátis aos seus clientes Prime, outro foco de crescimento da empresa.
“A base do nosso negócio é catálogo, conveniência e valor”, diz Mazini. “Preciso oferecer cada vez mais ofertas para meus clientes Amazon Prime”. O serviço, que inclui uma seleção de músicas e filmes em streaming, custa R$ 19,90 ao mês. A empresa não divulga quantos clientes Prime tem no país.
Em abril, a Amazon informou pela primeira vez seus investimentos no mercado brasileiro desde que deu início à operação: R$ 33 bilhões, em infraestrutura e salários. Segundo especialistas em varejo, a Amazon faz o estilo “low profile”, crescendo sem alarde, diferentemente do Mercado Livre, que anuncia todo ano seus investimentos no país.
“A Amazon cresceu silenciosamente, mas de maneira muito consistente, a sua escalada no Brasil é impressionante”, diz o consultor Alberto Serrentino, sócio da Varese Retail.
LIVRARIAS DIZEM QUE CHEGADA DA AMAZON FOI ‘DESASTRE ECOLÓGICO’
A atuação da Amazon no país, porém, causa controvérsias. A empresa é acusada de concorrência desleal pelo mercado de livrarias.
“Se as livrarias brasileiras –pequenas, médias ou grandes– praticassem os mesmos descontos que a Amazon oferece aos seus clientes, todas elas, sem exceção, fechariam suas portas”, diz Alexandre Martins Fontes, presidente da ANL (Associação Nacional de Livrarias) e diretor da editora WMF Martins Fontes.
Segundo ele, uma livraria que vive única e exclusivamente da venda de livros não tem como competir com uma empresa que abre mão de suas margens e usa o livro como estratégia para atrair o consumidor. “Desde a chegada da Amazon, temos acompanhado o fechamento de centenas de livrarias, a começar pelas nossas duas maiores redes, Saraiva e Cultura“, diz.
Daniel Mazini rebate. Diz que, segundo dados da própria ANL, nos últimos dez anos, o total de livrarias no país caiu apenas 1,8%, para 2.972 unidades. De acordo a ANL, o estado de São Paulo concentra 39% das livrarias no país (1.167), enquanto na outra ponta o estado com menos lojas é o Amapá (4).
Martins Fontes destaca, porém, que a maior parte das livrarias são pequenas e não têm poder de barganha com as editoras. Com isso, muitas se especializam em nichos. “Elas são bem-vindas, com certeza, mas o Brasil merece um mercado livreiro forte, o que a Amazon impediu”, diz. “Eles causaram um desastre ecológico no setor livreiro, corrompendo e destruindo tudo o que estava à sua volta.”
Mazini, por sua vez, diz que a venda de livros cresceu desde a chegada da Amazon, segundo dados Nielsen Book. Entre 2019 e 2023, o volume saltou 33%, para 55,2 milhões de exemplares ao ano.
“Se as livrarias desaparecerem, a Amazon vai continuar oferecendo descontos?”, questiona Martins Fontes. “No mundo da cultura, não existe nada pior do que um monopólio.”
RAIO-X AMAZON BRASIL
Fundação: 2012
Funcionários: 18 mil, entre diretos e indiretos
Faturamento: R$ 25 bilhões*
Estrutura logística: 10 CDs em 6 estados e no DF e 64 hubs logísticos
Principais rivais: Mercado Livre, Magazine Luiza e Netflix
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A palavra “eureka” foi supostamente pronunciada por Arquimedes quando descobriu como resolver um problema complicado: medir o volume da coroa do rei sem a derreter. Ele entrou numa banheira com água e observou que o nível da água subia quando ele entrava. Concluiu então que para medir o volume da coroa bastava mergulhar a coroa em água e calcular o volume de água deslocado, que deveria ser equivalente. Conta-se que ele saiu nu, correndo pelas ruas e gritando eufórico: “Eureka! Eureka!” (Achei! Achei!). “O Princípio de Arquimedes” foi como ficou conhecida a descoberta do grande cientista grego.
Mas Isaac Asimov, um dos mestres da ficção científica, disse que a frase mais empolgante de ouvir em ciência, a que prenuncia novas descobertas, não é “Eureka!”, mas sim “Isto é estranho…”
A língua inglesa criou a palavra serendipity para se referir a atos, ao desenvolvimento ou descoberta de coisas felizes/úteis ou interessantes por acaso. A história da ciência está repleta de casos que podem ser classificados como serendipismo. O pesquisador Alexander Fleming em 1928 estava estudando bactérias do gênero Staphylococcus e percebeu que sua amostra tinha sido contaminada por algum tipo de fungo. Após analisar o bolor, ele descobriu a penicilina. O viagra foi desenvolvido para tratar hipertensão e angina. Mas a partir dos primeiros testes clínicos, os homens descobriram rapidamente um efeito inesperado: a melhora de suas ereções. Há pouco tempo, descobriu-se que o Ozempic, um remédio inicialmente utilizado contra Diabetes tipo 2, também auxiliava na perda de peso. As vendas do medicamento dispararam e a companhia que o produz, a Nova Nordisk, se tornou em pouco tempo a empresa com maior valor de mercado da Europa, além do impacto na economia da Dinamarca.
Inovações não vêm só da ciência. Quantos negócios começaram com uma reunião despretensiosa, um encontro fortuito, uma cadeira por acaso ao lado no avião? Tudo bem, alguns acham que é destino. Prefiro seguir Mário Quintana, para quem o destino é apenas o acaso com mania de grandeza. Mesmo para ser destino você tem que estar no lugar certo na hora do destino se manifestar. Em outras palavras, quem não está no salão não é convidado a dançar. Steve Jobs concordava: “A gente encontra alguém por acaso, pergunta o que anda fazendo, diz uau e logo começa a borbulhar todo tipo de ideia.” Henry Ford tirou a ideia da linha de montagem de automóveis em uma visita a uma indústria de processamento de carnes, onde a desmontagem dos animais era feita a partir da suspensão das carcaças recentes em um transportador aéreo que as levava de trabalhador a trabalhador.
O networking tem o efeito de colocar você no salão das inovações. ideias inovadoras acontecem quando você começa a conversar com pessoas de diversas redes sociais. Isso significa falar com gente de diferentes posições nos negócios, empresas, setores, países, grupos étnicos, grupos socioeconômicos, etários, políticos e religiosos. A diversidade de redes alimenta a diversidade de ideias, assim como a diversidade deve ser praticada dentro das empresas.
Nem toda inovação vem do acaso, mas que os Titãs, autores da música com o verso título desse artigo, inspirem essa fonte de inovação.
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