Bots, agentes, funcionários digitais: IA muda o conceito do que é trabalho

A IA não está apenas realizando tarefas, ela pode completar fluxos de trabalho inteiros. Veja como podemos redefinir o trabalho na era da IA


LARS SCHMIDT – Fast Company Brasil – 26-10-2024 

Imagine um mundo em que seu colega digital lida com fluxos de trabalho inteiros, adapta-se a desafios em tempo real e colabora perfeitamente com sua equipe humana. Isso não é ficção científica – é a realidade iminente dos agentes de IA no ambiente de trabalho.

Como Sam Altman, CEO da OpenAI, previu corajosamente em seu evento anual DevDay, “2025 é o ano em que os agentes de IA trabalharão”. Mas o que isso significa para o futuro do trabalho humano, das estruturas organizacionais e da própria definição de trabalho?

De acordo com pesquisa do The Conference Board, 56% dos trabalhadores usam IA generativa no trabalho e quase um em cada 10 usa ferramentas de IA generativa diariamente. Conforme entramos nesse estágio de negócios habilitado para IA, é essencial entender o potencial transformador dos agentes de IA e nos desafiar a reconceituar a parceria homem-máquina.

Em última análise, o envolvimento da IA no ambiente de trabalho pode ser dividido em três grupos: bots, agentes de IA e trabalhadores digitais. Aqui está um guia de como cada um deles está impactando o mundo do trabalho.

BOTS

Bots são aplicativos de software programados para executar tarefas automatizadas. No contexto empresarial, os chatbots são frequentemente usados para simplificar as operações, aprimorar o atendimento ao cliente e melhorar os processos internos.

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A maioria dos chatbots é programada usando Processamento de Linguagem Natural (NLP, na sigla em inglês) para interpretar e entender a linguagem humana e o aprendizado de máquina, o que permite que aprendam e melhorem com os dados ao longo do tempo.

Na última década, a adoção de bots em ambientes de negócios que abrangem saúde, varejo, bancos e uma série de outros setores teve crescimento exponencial. Espera-se que o mercado de chatbots salte de US$ 396,2 milhões em 2019 para US$ 27,3 bilhões até 2030.

Esse aumento no uso de bots pode ser atribuído aos avanços em PNL, ao aumento da demanda por suporte ao cliente 24 horas por dia, sete dias por semana, e ao crescente reconhecimento do potencial dos bots para aumentar a eficiência operacional em várias funções de negócios.

Embora os bots ofereçam inúmeros benefícios, eles também têm limitações que as empresas devem considerar. Um dos principais desafios é a possibilidade de não entender consultas complexas ou com nuances, o que pode levar à frustração do usuário e à disseminação incorreta de informações.

Os bots também podem ter dificuldades com situações que dependem do contexto ou com questões emocionalmente sensíveis, áreas em que a empatia e o julgamento humanos são cruciais. Por fim, há preocupações com a privacidade e a segurança dos dados, pois os bots geralmente lidam com informações confidenciais.

AGENTES DE IA

Um agente de IA é uma entidade ou programa de software autônomo projetado para perceber seu ambiente, tomar decisões e realizar ações para atingir metas ou objetivos sem intervenção humana.

Os agentes de IA estão prontos para levar a automação a níveis sem precedentes, transcendendo a simples conclusão de tarefas para gerenciar fluxos de trabalho completos, complexos e adaptáveis. Essa mudança representa um salto quântico em relação às tecnologias de automação tradicionais.

É ESSENCIAL ENTENDER O POTENCIAL TRANSFORMADOR DOS AGENTES DE IA E NOS DESAFIAR A RECONCEITUAR A PARCERIA HOMEM-MÁQUINA.

A rápida adoção de agentes de IA é impulsionada por seu potencial de aumentar a produtividade e a eficiência. Um relatório da McKinsey afirma que “cerca de metade das atividades (não trabalhos) realizadas pelos trabalhadores poderia ser automatizada”, com os agentes de IA desempenhando um papel crucial nessa transformação.

À medida que incorporamos os recursos de IA agêntica nas empresas, provavelmente desconstruiremos os trabalhos em tarefas individuais e identificaremos as que podem ser totalmente automatizadas por essas novas tecnologias e agentes de IA.

TRABALHADORES DIGITAIS

Os “trabalhadores digitais” são capazes de lidar com fluxos de trabalho inteiros, adaptar-se às necessidades em tempo real e colaborar com humanos de maneiras inimagináveis há alguns anos.

No início deste ano, a Lattice, uma plataforma de RH com inteligência artificial, foi criticada por propor um recurso que permitiria que as organizações fizessem registros de funcionários para trabalhadores digitais.

“Seremos os primeiros a fornecer aos trabalhadores digitais registros oficiais de empregados da Lattice. Eles serão integrados, treinados e receberão metas, métricas de desempenho, acesso a sistemas apropriados e até um gerente. Exatamente como qualquer funcionário”, compartilhou a CEO Sarah Franklin em uma postagem no blog da empresa anunciando o novo recurso.

Três dias depois, a Lattice publicou uma atualização informando que não iria mais incluir trabalhadores digitais no produto. O futuro estava aqui, mas não era um futuro para o qual estávamos preparados.

Talvez isso se deva a barreiras psicológicas. O conceito de “trabalhador digital” destaca as barreiras psicológicas para aceitar a IA como parte da força de trabalho. Ele ressalta a necessidade de uma integração cuidadosa e ponderada que respeite as preocupações humanas e, ao mesmo tempo, aproveite o potencial da IA.

MAIS DA METADE DOS TRABALHADORES USA IA NO TRABALHO E UM EM 10 USA FERRAMENTAS DE IA GENERATIVA DIARIAMENTE.

“A revolução da IA no ambiente de trabalho começou com ferramentas como o ChatGPT, apresentando às pessoas o potencial da tecnologia. Agora, estamos testemunhando o surgimento de agentes de IA que podem realmente executar tarefas, e não apenas ajudá-las”, diz Timur Meyster, cofundador e diretor de produtos da OutRival, plataforma alimentada por IA para equipes de experiência do cliente.

“Essa mudança está até redefinindo as métricas de sucesso, com as empresas agora medindo resultados como inscrições, reservas ou compromissos baseados no número de funcionários, demonstrando a poderosa sinergia entre a experiência humana e os recursos de IA”, diz Meyster.

Talvez a ascensão dos agentes de IA não seja apenas uma mudança tecnológica, mas filosófica: ela nos desafia a redescobrir a essência de nossa humanidade diante da inteligência artificial.


SOBRE O AUTOR

Lars Schmidt é fundador da Amplify, que auxilia empresas e executivos de RH a navegar pelo novo mundo dos recursos humanos, e da Amplify Academy, iniciativa que oferece programas de treinamento para lideranças.


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O veneno de um lagarto criou um império de US$ 350 bilhões — e está transformando a economia global.

Igor Drudi –  Linkedin – 27/03/2025

Nos anos 1990, cientistas estudavam o veneno do monstro-de-Gila, um lagarto do deserto americano, e descobriram a exendina-4, molécula semelhante ao GLP-1, hormônio que regula o açúcar no sangue.

Nascia ali a base para uma revolução médica.

A exenatida, versão sintética desenvolvida pela Amylin, foi o primeiro passo. Mas exigia duas aplicações diárias. A Novo Nordisk, da Dinamarca, refinou a molécula: em 2010 lançou o Victoza (aplicação diária) e, em 2017, o Ozempic — mais eficaz, com aplicação semanal.

Criado para tratar diabetes, o Ozempic surpreendeu pelo efeito colateral: perda de apetite e peso. A empresa lançou então o Wegovy (2021), versão com dosagem maior para obesidade.

Com apoio de Elon Musk e Oprah, as vendas explodiram. Em 2024, cresceram 56%, levando a Novo Nordisk a faturar US$ 42,1 bi e se tornar a empresa mais valiosa da Europa.

O impacto vai além da saúde.

O uso crescente de medicamentos como Ozempic já afeta o consumo de alimentos ultraprocessados.

A McDonald’s e outras redes vêm relatando queda na venda de combos e porções grandes, especialmente nos EUA.

Já companhias aéreas projetam redução de custos operacionais com menor peso médio dos passageiros, o que influencia diretamente o consumo de combustível.

Segundo o Goldman Sachs, o mercado de medicamentos para emagrecimento pode chegar a US$ 100 bi até 2030.

E se 60 milhões de americanos usarem GLP-1 até 2028, o PIB dos EUA pode crescer 1% acima do previsto, pela queda em doenças crônicas e ausências no trabalho.

Na Dinamarca, as exportações da Novo Nordisk fizeram o país crescer 2% em 2023 e 3,6% em 2024 — contra apenas 0,5% da média europeia.

Com 65% dos americanos acima do peso e 40% obesos, o impacto de medicamentos como Ozempic e Wegovy é econômico, social e global.

A jornada que começou com um lagarto agora remodela mercados inteiros — da alimentação à aviação — e promete reconfigurar a saúde pública nas próximas décadas.

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 | O que seu cérebro e o ChatGPT têm em comum? Veja o que a ciência diz

Novo estudo mostra que algoritmos de IA ativam áreas cerebrais semelhantes às humanas

Por Alexandre Chiavegatto Filho – Estadão – 26/03/2025 | 22h00

Ao longo do século passado, a área de inteligência artificial (IA) teve o cérebro humano como uma das suas principais fontes de inspiração. Nos últimos tempos, porém, essa abordagem foi deixada de lado, dando espaço a novas estratégias baseadas em tentativa e erro.

A trajetória de Santos Dumont, que abandonou a ideia de replicar o voo biológico ao projetar o avião, já indicava que a otimização de funções muitas vezes supera a imitação direta da natureza. Embora originalmente inspirados em modelos neurobiológicos, os algoritmos modernos de linguagem evoluíram para arquiteturas baseadas em mecanismos de atenção do tipo transformers.

Agora, um novo estudo publicado na Nature Human Behavior por pesquisadores de Princeton, New York University e Google, trouxe uma reviravolta nessa ideia ao encontrar que os modelos de linguagem de grande porte (LLMs) ativam padrões no cérebro humano de forma semelhante ao processamento natural da linguagem, exibindo uma espécie de “plasticidade” artificial ao se moldarem a partir de dados, assim como o cérebro se adapta por meio de mudanças sinápticas.

Utilizando técnicas de imageamento cerebral, pelo uso de eletrodos intracranianos, os pesquisadores analisaram a atividade neural de voluntários enquanto eles liam ou ouviam frases. Ao mesmo tempo, compararam essas respostas com as representações internas geradas por LLMs ao processar os mesmos estímulos linguísticos.

Os resultados indicaram que as ativações dos modelos de IA se alinham de maneira surpreendente com áreas específicas do cérebro, como o córtex motor e o giro temporal superior, regiões conhecidas pelo seu papel na integração de informações linguísticas e da fala humana.

Isso sugere que, apesar da sua construção artificial e o seu foco em eficiência, as LLMs acabaram por capturar aspectos fundamentais do modo como os humanos processam a linguagem, em uma convergência que vai muito além da simples inspiração biológica inicial.

Essa descoberta não implica que os modelos de IA sejam cópias fiéis do cérebro, mas aponta para uma sobreposição funcional surpreendente. Enquanto o cérebro humano evoluiu ao longo de milhões de anos para lidar com a complexidade da linguagem, as LLMs alcançaram habilidades semelhantes ao serem treinadas em grandes conjuntos de dados textuais.

Esses achados agora abrem caminho para investigar como a IA pode não apenas imitar, mas também ajudar a esclarecer o funcionamento da mente humana. Mais do que isso, reforçam a ideia de que, por rotas distintas, a inteligência artificial e a biológica podem convergir para soluções parecidas, apontando para a unificação da inteligência.

O que seu cérebro e o ChatGPT têm em comum? Veja o que a ciência diz – Estadão

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Polarização digital: do Google ao ChatGPT, buscas com IA reforçam crenças e limitam novas ideias, diz estudo

Pesquisa testou a interação de 10 mil usuários com plataformas que geram respostas por inteligência artificial

Por Juliana Causin — O Globo – 26/03/2025 

Ao personalizarem respostas com base em termos usados pelos usuários, ferramentas de busca baseadas em inteligência artificial — como Google, Bing e ChatGPT — reforçam crenças e reduzem a exposição a pontos de vista diferentes.

Em vez de ampliar o repertório de informações, essas plataformas aprofundam crenças pré-existentes.

A conclusão é de um estudo realizado com 9,9 mil pessoas por pesquisadores da Universidade de Tulane e de Chicago, nos Estados Unidos. Ao todo, foram realizados 21 experimentos que avaliaram o comportamento dos usuários nas buscas com o IA e a forma como os algoritmos influenciam a revisão (ou não) de crenças.

A pesquisa foi publicada nesta segunda-feira na PNAS, revista da Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos.

Os resultados mostram que a polarização de opiniões em diferentes temas, como a pandemia de Covid-19 e até mesmo os efeitos da cafeína para saúde, não está apenas nos algoritmos, mas também na forma como os usuários formulam suas buscas.

De forma recorrente, os participantes utilizaram termos enviesados, que refletiam o que já acreditavam — como “benefícios da cafeína” ou “bitcoin é perigoso” — e acabavam recebendo respostas que confirmavam suas ideias iniciais.

China inunda o mundo com modelos de IA após sucesso da DeepSeek

Desde o lançamento do ChatGPT, em novembro de 2022, a indústria de tecnologia tem acelerado a adoção de sistemas de IA em buscadores. O Bing, da Microsoft, foi o primeiro a integrar um modelo de linguagem em seu mecanismo de busca, com um sistema da OpenAi.

O Google começou a testar o modelo em 2023, e hoje exibe respostas geradas por IA no topo da página. O próprio ChatGPT passou a exibir links nas respostas.

Com a IA, as plataformas costumam entregar respostas para perguntas mais complexas e específicas. O estudo, no entanto, aponta que o viés nessas respostas pode permanecer ou até se intensificar. O processo costuma ser descrito por pesquisadores para a formação das chamadas bolhas de informação, nas quais os usuários são expostos apenas a conteúdos alinhados ao que já acreditam.

Viés de confirmação

“À medida que a inteligência artificial evolui e o acesso à informação se torna cada vez mais mediado por algoritmos, torna-se crucial reconhecer e mitigar os riscos do efeito da busca estreita”, escrevem os autores Eugina Leung e Oleg Urminsky.

Para entender o risco de confirmação de viés, os pesquisadores realizaram estudos em que os participantes primeiro informavam suas crenças sobre determinado tema. Depois, geravam um termo de busca espontaneamente — e esse termo era avaliado quanto ao seu viés.

Em outro conjunto de testes, os participantes eram randomizados para fazer buscas com termos opostos (como“energia nuclear é boa” e “energia nuclear é ruim”) e tinham suas opiniões medidas antes e depois.

No caso da energia nuclear, por exemplo, os participantes que usaram termos positivos terminaram o experimento com uma visão significativamente mais favorável do que aqueles que usaram termos negativos. Com a cafeína, a diferença também foi expressiva. O padrão se repetiu em todas as plataformas testadas.

Entre os 21 testes, os autores avaliaram diferentes formas de reduzir o viés de confirmação. Alertar os usuários sobre seus próprios vieses teve efeito limitado. Já modificar os algoritmos para apresentar pontos de vista diversos se mostrou mais eficaz.

Pesquisadores sugerem ampliar resultados

Mesmo em temas polarizados, oferecer respostas mais abrangentes pode facilitar a atualização de crenças, indicam os pesquisadores. “Nossos resultados sugerem que mudanças estruturais nos algoritmos de busca e de IA, ampliando o escopo das respostas, podem mitigar o viés de confirmação, favorecer a atualização de crenças e promover decisões mais bem informadas”, afirmam os autores.

Uma das propostas avaliadas pelos autores é a criação de uma espécie de botão de “Busca Ampliada” — uma alternativa ao tradicional “Estou com sorte”, do Google. Em um dos experimentos, 84% dos participantes disseram que gostariam de ter acesso a esse recurso.

“Ao incorporar diferentes pontos de vista em uma única resposta, os sistemas de IA podem fornecer tanto a informação solicitada quanto perspectivas que o usuário talvez não tivesse considerado — promovendo revisão de crenças sem reduzir a utilidade percebida”, conclui o estudo.

Polarização digital: do Google ao ChatGPT, buscas com IA reforçam crenças e limitam novas ideias, diz estudo

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Esta manteiga não é feita com ingredientes animais ou vegetais: é de metano

A startup Savor faz gorduras e óleos sem precisar de agricultura e acabou de lançar uma manteiga feita a partir de metano ou CO2


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KRISTIN TOUSSAINT – Fast Company Brasil – 25-03-2025 

Depois de pegar uma porção de pipoca em um evento da Savor, meus dedos ficaram com aquele brilho familiar: era a gordura da manteiga que cobria os pequenos grãos.

Quando mais tarde fui pegar uma panqueca, ela estava tão cheia de manteiga que imediatamente cobriu minha língua com uma camada aveludada de gordura. Uma “vieira” de cogumelo, grelhada na manteiga, estava rica e saborosa.

A manteiga usada em todos esses pratos era cremosa e gostosa. Mas ela não é feita de matéria-prima de origem animal. Não é nem mesmo feita de plantas, como o óleo de abacate, óleo de coco ou azeite de oliva. Ela é feita a partir de energia – neste caso, mais especificamente, de metano.

A Savor, uma startup da Califórnia apoiada por Bill Gates, produz gorduras e óleos sem precisar de agricultura Normalmente, a fórmula básica para criar qualquer tipo de gordura é assim: energia (vinda do sol, embora também se possa usar luzes de cultivo) faz plantas crescerem. Essas plantas podem ser transformadas em óleos ou alimentar animais, que então produzem leite, transformado em manteiga.

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A Savor pula todas essas etapas intermediárias. A energia – metano, dióxido de carbono capturado ou mesmo hidrogênio verde – é transformada em manteiga por meio de um processo termoquímico que converte carbono, hidrogênio e oxigênio em ácidos graxos.

Esses ácidos graxos podem então ser compostos e rearranjados para formar triglicerídeos que compõem diferentes gorduras, como manteiga, óleo de palma, manteiga de cacau, entre outros.

“É a química mais antiga da Terra”, explica Kathleen Alexander, cofundadora e CEO da Savor, lembrando como, bilhões de anos atrás, no fundo do oceano, fontes hidrotermais criaram uma reação química entre hidrogênio e dióxido de carbono para formar ácidos graxos.

Isso significa que a manteiga da Savor evita não apenas o uso de animais e plantas, mas também o uso de terra associada à agricultura, hormônios, antibióticos e fertilizantes, todos com impactos ambientais.

No total, a produção atual de gorduras e óleos representa cerca de 7% das emissões globais de CO2, segundo um cálculo da Savor feito em colaboração com cientistas ambientais. Isso é mais do que o dobro das emissões da indústria da aviação.

Atualmente, a Savor usa metano ou dióxido de carbono emitido por fábricas e tem o objetivo de trabalhar com empresas focadas em captura de ar, ou extração direta de CO2 da atmosfera. “A Savor está se perguntando: em que casos podemos deixar a natureza de lado e ainda assim obter o que queremos”, diz o cofundador Ian McKay.

Ao longo da refeição servida no evento da Savor, a manteiga foi apresentada de diversas formas. Servida em potinhos junto com pão e palitos de legumes, tinha um sabor limpo, com um final levemente terroso e picante, graças à adição de alecrim.

Estava espessa e espalhável, não derretia tão rápido como manteigas à base de óleo e espalhava fácil pelo pão. A manteiga da Savor também é livre de alérgenos.

Um “bife” de cogumelo cozido na manteiga estava suculento e saboroso. A torta de chocolate tinha uma crosta densa, mas quebradiça, com caramelo salgado de manteiga e um ganache que derretia na boca.

A refeição teve como objetivo mostrar a variedade de formas como o produto pode ser usado, se encaixando nas receitas do dia a dia e em métodos de culinária tradicionais. A Savor vem trabalhando com chefs para testar sua manteiga e colaborar em criações de pratos.

A empresa está focada em se lançar primeiro como fornecedora de ingredientes, em vez de vender diretamente ao consumidor nas prateleiras de supermercados.

Em um vídeo no site da Savor, o chef de confeitaria Juan Contreras, do restaurante três-estrelas Michelin Atelier Crenn, usa a manteiga Savor para fazer uma brioche clássica, uma receita que ele diz ser “totalmente baseada na manteiga.”

“Chegamos a um ponto em que é praticamente igualzinho a trabalhar com manteiga à base de leite”, diz ele no vídeo da Savor. “Se alguém me servisse isso em um restaurante… eu acharia que é só manteiga normal.”


SOBRE A AUTORA

Kristin Toussaint é editora assistente da editoria de Impacto da Fast Company. 

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‘A China não está recuando em transição energética. Pelo contrário, está acelerando’, afirma presidente da Vale

Para Gustavo Pimenta, com o país asiático mantendo foco em redução de emissões, apesar da pressão dos EUA na direção contrária, cresce oportunidade à produção da Vale e aos minerais raros do Brasil na descarbonização global

Por Marcelo Ninio – O Globo – 24/03/2025 

Gustavo Pimenta assumiu o cargo de CEO da Vale em outubro e, no mês seguinte, já estava visitando a China, responsável por 60% das receitas da mineradora. “É um mercado que a gente acompanha de perto”, diz Pimenta ao GLOBO, em Pequim. Em sua segunda visita ao país, ele sente uma mudança positiva na economia, com avanços em infraestrutura e manufatura.

No atual cenário de guerra comercial e pressão vinda dos EUA para que esforços em descarbonização sejam deixados de lado, ele afirma que governo e empresas chinesas mantêm o foco em reduzir emissões, o que gera oportunidade para o Brasil usar sua oferta de minerais raros para ser protagonista na transição energética global.

Como enxerga o estado atual da economia chinesa?

Quando estive aqui em novembro, saí com uma sensação de que havia coisas a fazer e que a economia ainda estava com uma série de desafios. Desta vez, o tom mudou bastante. Estou aqui há uma semana, estive com clientes e ministros em Xangai e Pequim, falei com muita gente. O tom mudou nesses seis meses. A sensação é que as ações do governo estão sendo muito mais concretas, os clientes comentam que têm percebido demanda sólida.

Demorou um certo tempo, mas a gente percebe que o tom mudou e a atividade econômica tem reagido. Muito estímulo ao consumo. A China passa por uma grande mudança em seu modelo, entre o que foi no passado, baseado num mercado de propriedades, e agora, mais focado em consumo e manufatura. No geral, a gente percebe um momento econômico bem mais positivo.

Na demanda de minério de ferro na China, a crise do setor imobiliário é compensada pelo investimento em infraestrutura?

A grande medida é a produção anual de aço. Houve redução da dependência do mercado imobiliário, que era 40% do mercado do minério de ferro. Caiu para 30%. A parte de infraestrutura continuou forte e a manufatura acelerou bastante, com linha branca, veículos e a nova economia, descarbonização, painel solar, energia eólica. Tudo isso também chama muito minério. A gente percebe uma mudança no mix, mas a produção de aço se manteve acima de um bilhão de toneladas.

A gente continuou tendo um mercado sólido, aqui. Foi uma mudança impressionante, porque eles conseguiram fazer esse ajuste de forma relativamente rápida, mas continuam sendo setores que demandam minério no longo prazo, porque precisam de aço. A gente ainda é muito construtivo no médio e longo prazos.

Essa tese de descarbonização é intensiva. Uma casa na China, construída nos últimos anos, tem uma penetração de aço de 1%. Nas economias desenvolvidas é de 6%. Se você pensar, a oportunidade, a penetração de aço oferece demanda adicional. No curto prazo, a manufatura segurou a produção de aço, o que acabou mantendo a demanda pelos nossos produtos.

A mudança para a manufatura foi sobretudo para exportação?

Teve muita exportação, e aí entra uma questão geopolítica, que tem um recorte na equação: carros elétricos no Brasil, muita linha branca para o Sudeste asiático. Tem uma agenda muito acelerada de descarbonização. Essa é uma questão que eu vi, toda essa discussão sobre recuo na descarbonização que tem sido mundial, aqui continua focado nisso. E é focado em aço e minério de ferro.

Como políticas de Donald Trump afetam os negócios da Vale?

Guerras tarifárias nunca são boas porque acabam gerando um potencial arrefecimento do PIB mundial, e isso é ruim para a demanda por minério de ferro. Haverá uma acomodação nesses debates porque vai impactar a atividade econômica e vai haver reação de acomodação entre as nações.

Uma variável relevante é entender como a China estava reagindo a algumas questões macro, como a descarbonização. Porque isso tem efeito importante na cadeia do aço, em posicionamento de produtos de baixo carbono. Essa cadeia contribui com as emissões numa escala relevante, 8%. Estou saindo com uma visão muito confortável de que a China não está recuando em nada nessa agenda de transição energética, descarbonização. Pelo contrário, estão acelerando. Meus clientes falam disso como prioridade deles e do governo.

Para a Vale é favorável porque nossa tese é descarbonização e nossos produtos se beneficiam disso. Estamos focando muito em minerais críticos. O aço vai continuar sendo produzido e precisamos encontrar rotas que não utilizam o carvão. Nas rotas mais limpas é preciso minério de mais alto teor. E a Vale é o ofertante de maior qualidade do mundo. Estamos investindo em níquel, já somos os maiores produtores do mundo ocidental.

Na China, o foco do governo é em inovação, até na indústria extrativista. O que a Vale tem a oferecer nessa área?

Quando se olha as nossas operações e a mineração do futuro, que vai ser 100% automatizada, a inovação vai ser fundamental. A tecnologia hoje está incorporada ao negócio da companhia. Circularidade é uma grande temática. Estamos caminhando para que 10% de nossa produção em 2030 sejam de minérios que temos em barragens.

A outra ponta é a inovação em produtos, como criar um minério de ferro que, quando usado na produção de aço, reduz a pegada de carbono, é muito estratégico. Depois de décadas de estudo, lançamos um produto chamado briquete verde, que potencialmente é uma revolução na indústria, substitui a pelota. Quando colocado no forno, ele reduz a geração de CO2. Temos 172 navios fazendo Brasil-mundo, China, Europa. E uma tecnologia chamada rotor sail, que aproveita a força dos ventos e reduz em 7% as emissões.

Não é nada que vai mudar o negócio da noite para o dia, mas são incrementos em tecnologia que vão melhorando a operação, reduzindo o risco, as emissões. Há muitas oportunidades, inclusive parcerias com empresas chinesas.

Como aproveitar o bom momento das relações Brasil-China para obter ganhos em transferência de tecnologia?

A questão dos minerais críticos se tornou relevante na discussão geopolítica mundial. E o Brasil talvez seja a maior potência em minerais críticos do mundo. Minério de ferro, cobre, terras raras. O petróleo do próximo século vão ser os minerais raros. Há aqui uma enorme pauta porque a China é grande demandante de minerais críticos para suas indústrias. Ao mesmo tempo, tem uma série de tecnologias que a gente pode aplicar até para trazer esses minerais ao mercado de forma mais rápida.

Como estão as relações da Vale com o governo chinês?

A relação é ótima. Nas reuniões que tive, com os ministérios do Comércio e da Inovação, a mensagem foi muito positiva, com esse alinhamento do Sul Global, do Brics. Existe um alinhamento estratégico de países buscando acelerar seu desenvolvimento econômico, uma relação de amizade, de parceria, tentando se ajudar e se complementar.

E com o governo brasileiro?

A relação está boa, nós somos um dos maiores investidores do Brasil e vamos continuar sendo. Acho que o que a gente quer fazer como companhia está muito alinhado com o que o governo brasileiro quer, investir, gerar emprego, renda, royalties.

‘A China não está recuando em transição energética. Pelo contrário, está acelerando’, afirma presidente da Vale

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Starlink multiplica objetos em órbita que atrapalham telescópios como o Vera C. Rubin

Marcelo Leite – Folha – 23.mar.2025 

Jornalista de ciência e ambiente, autor de “Psiconautas – Viagens com a Ciência Psicodélica Brasileira” (ed. Fósforo)

A cada enxadada, uma minhoca. Basta voltar atenção a qualquer coisa bolada por Elon Musk para topar com coisa ruim. Além de exterminar o serviço público nos EUA, o Doge de Trump também está no encalço da astronomia.

Neste caso é o empresário, e não o mandachuva sul-africano não eleito, que põe em risco todo um setor de pesquisa. Sua empresa Starlink pôs em órbita uma muvuca de satélites que prejudica a visão dos maiores telescópios do mundo.

O enxame de artefatos em torno da Terra teve crescimento exponencial em cinco anos, chegando a 11 mil. Desses, 7.000 abastecem com terabits as pequenas antenas da Starlink, que levam cobertura a lugares remotos como a amazônia. A firma de Musk e outras têm planos para lançar dezenas de milhares de satélites.

Toda tecnologia benéfica tem efeitos não pretendidos. Conexão à internet é uma dádiva para comunidades indígenas ou ribeirinhas isoladas, mas também facilita a vida de garimpeiros, madeireiros, traficantes e grileiros.

Os satélites da Starlink e outras empresas riscam o céu noturno com quantidade crescente de pontos mais, ou menos, brilhantes, a depender de tamanho, formato e distância. Em 2017, o reflexo de um fragmento de satélite foi confundido com uma rajada de raios gama, informa Alexandra Witze na Nature.

Não é brincadeira: satélites obrigam astrônomos a monitorar seus percursos, de modo a evitar observações quando os objetos estão passando. Existem bancos de dados para mapear trajetórias, mas não são ultraprecisos, porque elas podem mudar pelo atrito com a atmosfera ou por manobras de posicionamento.

Um dos focos de preocupação está no topo de uma montanha no Chile, o Observatório Vera C. Rubin, que custou US$ 810 milhões (R$ 4,6 bilhões). Dotado de telescópio com espelho de 8,4 m, pode registrar um milhar de instantâneos detalhados por noite, para compor um levantamento do céu austral em dez anos e, por exemplo, captar asteroides na rota da Terra. Nesse período, estima-se que até 40 mil satélites poderão estar circulando sobre o Rubin. Caso isso se concretize, cerca de um décimo das imagens geradas flagrarão a passagem de pelo menos um desses aparelhos.

O desenvolvimento das tecnologias de telecomunicação pode criar outros problemas. Novas versões de satélites precisarão ser lançadas, e os obsoletos passarão a integrar o lixo espacial em órbita.

Há mais. Além de refletirem luz, alguns artefatos emitem radiação eletromagnética que atrapalha estudos por radiotelescópios. A interferência tende a piorar com o advento de satélites que se comunicam direto com celulares, como fazem antenas em terra.

Não bastasse, a explosão populacional de satélites também gera poluição química, não só radiante. Além do monóxido de carbono e do CO2 emitidos em sua produção e por foguetes de lançamento, a reentrada dos aparatos aposentados pulveriza e espalha um monte de compostos pela atmosfera, como metais.

Mais uma razão para regular internacionalmente o lançamento de satélites. Só que não: estamos em pleno retrocesso na concertação de esforços para resolver problema muito mais grave, a crise do clima. Se não mantemos nem a casa terrena limpa, é vão esperar disciplina do capitalismo da porta para fora –no espaço.

Enxame de satélites de Musk aflige astronomia – 23/03/2025 – Marcelo Leite – Folha

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Conselhos de empresas no Brasil ficam mais profissionais e oferecem remuneração milionária

Estudo mostra crescimento na profissionalização dos colegiados, com contratação de conselheiros independentes, busca por mais diversidade e pagamento anual que pode ultrapassar R$ 1 milhão

Por Shagaly Ferreira – Estadão – 21/03/2025 

Ao longo da última década, o perfil do conselheiro de administração buscado pelas grandes empresas no Brasil teve uma transformação importante. Atualmente, esse é um profissional com atuação cada vez mais ativa junto à área executiva e mais atento às agendas urgentes do mercado. A prova disso aparece em um cenário corporativo marcado por conselhos com mais mulheres, mais membros recrutados fora dos núcleos familiares e com ofertas de remuneração tão atrativas quanto as recebidas nas funções executivas.

Os dados da pesquisa anual da consultoria Korn Ferry intitulada “Práticas de Governança e Remuneração de Conselhos” mostram que, em 2024, 6 em cada 10 membros dos conselhos de administração no País eram independentes (profissionais que não possuem vínculo pessoal ou financeiro com a empresa); 20% desses conselheiros eram mulheres; e parte deles tinha remuneração anual acima de R$ 1 milhão.

As informações da pesquisa são compiladas desde 2014. Em 2024, o levantamento, que está na 12.ª edição, mapeou mais de 100 grandes companhias no Brasil, tendo como maioria de sua base amostral dados não públicos, coletados diretamente com as empresas.

Ao catalogar as informações, a pesquisa observou de forma panorâmica informações gerais sobre remuneração de conselheiros, além de aspectos de governança e da estrutura dos conselhos. A maior parte das companhias ouvidas pertence ao segmento industrial, seguida das representantes de áreas de varejo, holding, serviços, finanças e de mais nove setores.

O líder da prática de serviços para conselhos da Korn Ferry, Jorge Maluf, explica, que ao longo do tempo, controladores das empresas no Brasil, que costumavam deter uma grande fatia das ações, passaram a abrir capital e ceder até 50% de sua parte para novos investidores. Com esses novos acionistas, vieram também novas exigências para governança, demandando mais membros independentes e mais diversidade de gênero.

“As empresas começaram a avançar na governança justamente para atender a essas demandas”, afirma.

Avanço na diversidade

Entre 2014 e 2024, a presença de mulheres nos conselhos saltou de 7% para 20%, segundo o estudo. O número é ainda inferior ao de mercados internacionais, como os dos EUA (25%) e da Europa (39%), mas aponta para uma tendência de aumento. Na presidência dos conselhos, as mulheres estavam em sete cadeiras em 2024, ante seis em 2023.

Segundo Maluf, essa rota de crescimento já era esperada, uma vez que houve forte influência da agenda ESG no mercado, principalmente por exigências de acionistas.

“Os investidores, lá fora, esperavam ver que os conselhos das empresas tivessem gradativamente um aumento de participação feminina. E, quando nos referimos aos conselheiros independentes, foi muito mais acelerada essa curva de crescimento de diversidade de gênero”, diz.

Membros independentes

O porcentual de membros independentes nos conselhos de administração quase dobrou em dez anos. Em 2014, eles eram 35% na composição desses colegiados. Agora, chegam a 60%. O estudo também registrou aumento no número de presidentes independentes. Entre 2023 e 2024, eles passaram de 27 para 34 entre as empresas mapeadas.

O aumento desse tipo de conselheiro nas empresas reflete a profissionalização e a mudança estratégica dos conselhos no Brasil, diz Maluf. A composição passou a exigir pessoas que pudessem apoiar não só decisões de auditoria, mas colaborar com a gestão efetivamente em novas e diversificadas demandas.

“A agenda temática dos conselhos começou a aumentar. Antes, ele se reunia para aprovar as contas, os demonstrativos financeiros. Era uma agenda de controle, de supervisão. Agora, o conselho tem de discutir transição energética, transformação digital, ESG, geopolítica global.”

Houve, com isso, a exigência de novos perfis, geralmente vindos de fora dos núcleos familiares. “Os conselhos passaram a perceber que aquele perfil tradicional de conselheiro, geralmente alguém com background em finanças e em direito, não dava mais conta de atender a essas demandas. Então, começaram a trazer pessoas de fora, que pudessem contribuir com essas outras discussões. Com isso, o conselho passou a ser mais atuante.”

Remuneração competitiva

A demanda por profissionais especialistas em diversas áreas não só influenciou o aumento de membros independentes, como também a oferta de remuneração mais competitiva, para atração de profissionais e maior dedicação de tempo deles às funções dos conselhos.

O estudo não apresenta uma série histórica sobre remuneração, mas aponta que, em 2024, o pagamento anual de um conselheiro independente podia atingir cifras milionárias. Um total de 25% das empresas com receita líquida de até R$ 5 bilhões oferecia mais de R$ 639 mil anuais para seus membros independentes, enquanto 25% das empresas com receita líquida acima de R$ 30 bilhões pagavam mais de R$ 1,1 milhão por ano para esse perfil de conselheiro.

“Há 15 anos, a remuneração de um conselheiro não era uma preocupação, pois essa não era uma profissão. Quem estava lá havia sido convidado ou tinha relação com o controlador, como uma espécie de clube”, explica Maluf. “Hoje, os conselhos se reúnem muito, e a dedicação de tempo dos conselheiros é muito intensa. Eles têm de estar muito preparados para participar de uma reunião.”

O movimento, conforme o especialista, criou um mercado de conselheiros, com a remuneração crescendo em um ritmo maior do que a remuneração executiva, embora o valor final ainda seja menor. A tendência é que o mercado atraia cada vez mais interessados. “O resultado da pesquisa é muito mais o efeito do que uma causa. A causa é essa mudança que os conselhos vêm vivendo e o efeito é que a remuneração reflete esse contexto. Ela começa a refletir o tamanho da contribuição esperada desses conselheiros.

Conselhos de empresas no Brasil ficam mais profissionais e oferecem remuneração milionária – Estadão

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O pequeno vilarejo da Dinamarca transformado pelo Ozempic

Adrienne Murray – BBC Worklife – 13 março 2025

Apenas dois anos atrás, o nome da empresa dinamarquesa Novo Nordisk dificilmente chamaria a atenção.

Mas a disparada das vendas de dois medicamentos para o tratamento de diabetes e obesidade – Wegovy e Ozempic – transformou a gigante farmacêutica em uma das empresas mais valiosas da Europa.

A companhia divulgou, no início de fevereiro, que seus lucros antes dos impostos aumentaram em 22%, atingindo US$ 17,8 bilhões (cerca de R$ 103,4 bilhões).

O sucesso também trouxe enorme impulso para a economia da Dinamarca, que passou a ser um dos países de maior crescimento na região. Da criação de novos empregos até a redução das taxas de financiamento imobiliário, os efeitos cascata da estratosférica demanda pelos dois medicamentos vêm sendo sentidos em todo o país.

Isso sem falar na minúscula cidade portuária de Kalundborg, uma comunidade com menos de 17 mil habitantes, onde agora se concentra um dos maiores investimentos da história da Dinamarca.

Quando descem do trem nas proximidades de Kalundborg, a uma hora a noroeste da capital do país, Copenhague, os passageiros são recebidos pelo canto dos pássaros e pelo barulho das construções. É neste local improvável que, hoje, fica o epicentro de uma revolução global da perda de peso.

No outro lado da ponte ferroviária, ficam os edifícios quadrados e cinzentos da extensa fábrica da Novo Nordisk. Ali, é produzida a metade da insulina do planeta. E também a semaglutida, o ingrediente ativo revolucionário do Ozempic e do Wegovy.

“Somos o centro onde se inicia o remédio, a substância principal”, conta o prefeito de Kalundborg, Martin Damm. Ele nos leva para visitar o perímetro da fábrica, um vasto terreno de 1,6 milhão de metros quadrados, equivalente a 224 campos de futebol.

“Agora, você está entrando na terra dos guindastes”, anuncia Damm. Conto rapidamente cerca de 20 deles, erguendo novas estruturas de concreto e cabines temporárias.

Aqui, será gasto o surpreendente valor de US$ 8,6 bilhões (cerca de R$ 49,9 bilhões) nos próximos anos, gerando 1.250 novos empregos, além dos 4,4 mil funcionários atuais da empresa. A obra também atraiu 3 mil operários da construção civil para a região.

“Temos uma regra geral: cada emprego dentro da indústria gera três empregos fora dela”, explica Damm.

A economia de Kalundborg enfrentou altos e baixos ao longo do tempo. A cidade era um centro de construção naval e floresceu nos anos 1960, com a fabricação dos Carmen Curlers, uma espécie de bóbi para ondular os cabelos que era popular nos Estados Unidos, mas depois saiu de moda.

Agora, parece que a cidade está revivendo. Enquanto dirigimos, Damm aponta para um posto de gasolina.

“Todas as manhãs, o proprietário precisa assar 30 kg de carne de porco para os sanduíches. Todos esses operários gostam de sanduíches de carne de porco.”

Existem várias histórias de crescimento repentino do comércio. Um supermercado local aumentou suas vendas em cinco vezes e uma lanchonete fast food vendeu 17,5 mil cachorros-quentes em pouco mais de um mês, para operários da construção famintos em busca de um lanche rápido.

Crédito,

Dois terços do crescimento do PIB dinamarquês vieram de apenas dois municípios. Ambos têm um ponto em comum: instalações da Novo Nordisk.

Entre eles, Kalundborg observou uma taxa de crescimento surpreendente de 27% em 2022, segundo os dados mais recentes disponíveis. “Somos a número 1”, declarou Damm.

O prefeito destaca que o desemprego local, que era alto uma década atrás, agora é um dos mais baixos da região.

A crescente arrecadação de impostos corporativos da Novo Nordisk ergueu as finanças do município. Isso permitiu a construção de uma piscina pública e a elaboração de planos para uma nova casa de cultura e biblioteca. Serão construídas mais de 1.250 residências e foi aberto o caminho para uma nova estrada até Copenhague.

Mas, apesar de toda essa receita, as escolas primárias locais ainda estão atrasadas em matérias como Matemática. E há na região um alto índice de crianças acima do peso, o que vem gerando críticas.

A BBC conversou com moradores de Kalundborg, que foram reticentes quanto aos benefícios verificados até aqui.

“Empresas estão abrindo e fechando, é a mesma coisa”, afirma Lonny Frederiksen, dona de um salão de cabeleireiros na cidade. “Mas os jovens, agora, têm mais oportunidades.”

Muitos trabalhadores usam o transporte público, em vez de morarem em Kalundborg, destaca Gitte Pedersen, cliente do salão. Ela também se desloca e lamenta o tráfego pesado. “Às vezes, preciso esperar [devido às] filas e não gosto disso.”

Mas ela está otimista sobre o futuro da cidade. “Irá trazer muitos empregos. Veremos a diferença daqui a alguns anos.”

Demanda insaciável

Por um século, os negócios da Novo Nordisk se basearam na produção de insulina. Mas a descoberta do efeito da semaglutida para a perda de peso gerou uma reviravolta.

“Ela está realmente se transformando em uma nova empresa”, segundo o professor Kurt Jacobsen, da Escola de Negócios de Copenhague. Ele é o autor de um livro sobre a companhia.

O Wegovy e o Ozempic pertencem a uma classe de drogas chamada GLP-1s. Elas ajudam a controlar o açúcar do corpo e a suprimir o apetite.

O Ozempic foi aprovado nos Estados Unidos em 2017. E, em 2021, foi a vez do Wegovy, hoje disponível em 13 países, incluindo a China.

As vendas da injeção semanal para perda de peso cresceram em 86% no ano passado. Já o Ozempic é o remédio para diabetes mais vendido do mundo e 45 milhões de pessoas fazem uso dos tratamentos oferecidos pela empresa.

Mais da metade das vendas da Novo Nordisk foram para os Estados Unidos, onde dezenas de milhares de novos usuários de Wegovy se inscrevem a cada semana para conseguir a receita.

O tratamento custa no país mais de US$ 1 mil (cerca de R$ 5,8 mil) por mês, em comparação com apenas US$ 92 (cerca de R$ 534) na Alemanha. Por isso, muitas seguradoras americanas se recusam a cobrir os custos do tratamento.

Durante uma audiência no Congresso americano no ano passado, o senador Bernie Sanders perguntou repetidamente ao CEO (presidente-executivo) da Novo Nordisk, Lars Fruergaard Jørgensen, por que os americanos pagam mais pelo medicamento. Ele exigiu que a empresa “pare de nos espoliar!”

Em resposta, a companhia culpou as complexidades e os “intermediários” do sistema de saúde americano.

Cerca de 800 milhões de pessoas vivem com obesidade em todo o mundo. Estima-se que o mercado global de tratamentos para perda de peso possa atingir US$ 150 bilhões (cerca de R$ 871 bilhões) em 2030.

Este imenso mercado alimenta uma verdadeira corrida do ouro em toda a indústria, com as grandes empresas farmacêuticas em busca da próxima geração de medicações contra a obesidade.

As líderes até o momento são a Novo Nordisk e a sua concorrente americana Eli Lilly, que produz medicamentos similares. Mas as duas fabricantes têm dificuldade para atender à demanda insaciável por seus produtos.

Para ampliar a capacidade de produção, a Novo Nordisk deu início a uma onda colossal de gastos, totalizando vários bilhões de dólares.

A empresa está ampliando suas fábricas na Dinamarca e construindo uma nova instalação no país. Além das fronteiras locais, ela também está conduzindo ampliações na França e nos Estados Unidos e adquiriu três fábricas de medicamentos da empresa americana Catalent.

Grande impacto sobre uma economia pequena

Para uma empresa sediada em um pequeno país com menos de seis milhões de habitantes, o crescimento da Novo Nordisk trouxe impactos desproporcionais.

“Existem outras empresas com participação importante na economia, especialmente a [companhia de navegação] Maersk, mas nenhuma nesta escala”, afirma o economista-chefe do Danske Bank, Las Olsen. “É a maior da história.”

Em 2023, a Dinamarca foi uma das economias que mais cresceram na Europa. O PIB do país aumentou em 2,5% – e metade deste crescimento foi gerado pelo setor farmacêutico.

Após a grande expansão das exportações de medicamentos, o governo agora anuncia que o crescimento em 2024 foi de 3,0% e prevê 2,9% para este ano.

O setor farmacêutico também é o que paga mais impostos no país. Ele é responsável por 20% de todos os novos empregos e muitos fundos de pensão e cidadãos dinamarqueses possuem ações de empresas do setor.

Para Olsen, “de certa forma, a Dinamarca é como o resto da Europa, mas um pouco mais forte. E, com a Novo Nordisk somos muito mais fortes.”

Os dólares que chegam à Dinamarca provenientes da exportação pressionaram a moeda local. A consequência foi a redução dos custos dos empréstimos.

“Temos taxas de juros levemente abaixo da zona do euro, o que é um resultado direto de todo esse fluxo de entrada de dinheiro”, explica Olsen.

Por outro lado, nos últimos meses, a cotação das ações da empresa, antes estratosférica, desabou. O motivo foi o resultado dos testes de dois novos tratamentos contra a obesidade, que decepcionou os investidores.

O movimento de venda das ações foi tão grande que a própria coroa dinamarquesa sofreu uma rápida baixa. Mas os dados dos testes iniciais bem sucedidos de mais uma nova injeção semanal fizeram com que as ações subissem novamente em janeiro.

Existe também o receio de que a Novo Nordisk esteja ficando maior que a Dinamarca e possa tornar a economia do país mais vulnerável. Surgiram comparações com a economia da Finlândia, que entrou em recessão em 2007, quando a gigante da telefonia celular Nokia não conseguiu competir com os novos smartphones.

Mas a maioria dos especialistas que consultamos não tem tanto receio de um desfecho similar.

“A maioria concorda que existe uma baixa probabilidade”, segundo o presidente do Conselho Econômico da Dinamarca, Carl-Johan Dalgaard.

“É claro que a probabilidade não é zero. Se você tiver uma economia que abriga superastros da indústria, a maioria irá achar que esta é uma grande vantagem.”

Mas, quando algumas empresas grandes dominam a economia do país (como é, cada vez mais, o caso da Dinamarca), podem surgir outras desvantagens, sugere Dalgaard.

“Existe o receio de que, com a influência econômica, você possa também ver eventualmente surgir a influência política, o que pode trazer consequências.”

E existem novos riscos surgindo no horizonte.

Em meio às tensões sobre o controle da Groenlândia, o presidente americano Donald Trump ameaçou impor possíveis tarifas de importação sobre os produtos dinamarqueses. E a primeira-ministra da Dinamarca, Mette Frederiksen, convocou recentemente os responsáveis pelas maiores companhias do país para uma reunião.

“O lado americano indicou que, infelizmente, pode vir a haver uma situação na qual iremos trabalhar menos em conjunto do que atualmente”, declarou ela.

Entre os presentes à reunião, estava Jørgensen, da Novo Nordisk. Após o anúncio dos lucros da empresa, em 5 de fevereiro, ele declarou aos repórteres que a companhia está preparada, mas “não imune”.

“Tarifas de importação são sempre uma má ideia”, segundo o pesquisador Jacob Funk Kirkegaard, do think tank (centro de pesquisa e debates) americano Instituto Peterson de Economia Internacional.

Mas ele acredita que “de todos os países da União Europeia, certamente nenhum seria mais resiliente às tarifas americanas do que a Dinamarca. Uma empresa sofisticada como a Novo Nordisk (que também produz fora da Dinamarca) seria capaz de se isolar.”

‘Daqui a cinco anos, tudo será diferente’

Além da Novo Nordisk, existem diversas empresas multinacionais na Dinamarca. Elas incluem a gigante da navegação Maersk, a indústria de cerveja Carlsberg e o fabricante de brinquedos Lego. Muitas delas, em parte, são de propriedade de fundações beneficentes.

Este modelo oferece estabilidade a longo prazo e dificulta a dissolução das empresas, segundo a vice-presidente da Câmara Dinamarquesa de Comércio, Mette Feifer.

“Se a Novo Nordisk não fosse de propriedade de uma fundação, acho que ela não seria dinamarquesa hoje em dia”, explica ela. “Ela teria sido vendida 10 ou 20 anos atrás.”

A fundação filantrópica da empresa, atualmente, é a mais rica do mundo. Em 2023, ela distribuiu US$ 1,3 bilhão (cerca de R$ 7,6 bilhões) em doações para centenas de projetos, na Dinamarca e no exterior.

De volta a Kalundborg, um novo campus educacional se dedica a formar a próxima geração de profissionais de ciências da vida.

Entre outras instituições, a Helix Lab é financiada pela Fundação Novo Nordisk. Ela oferece aos estudantes de mestrado acesso a laboratórios de pesquisa e contratações por empresas locais de biotecnologia.

“Você tem a indústria do outro lado da rua e pode colaborar mais de perto com ela”, afirma a estudante de engenharia química mexicana Maria Riquelme Jiménez. Ela espera, um dia, poder trabalhar na Novo Nordisk.

“Realmente é uma vantagem para seus empregos futuros”, destaca a diretora da Helix Lab, Anette Birck. E também ajuda a atrair talentos e fornecer oportunidades para os jovens de Kalundborg, segundo ela.

Em frente à orla inteligente da cidade, fica a cafeteria Costa Kalundborg Kaffe, de propriedade do neozelandês Shaun Gamble.

“Dirigindo pela área em construção, você fica surpreso com tanta grandiosidade para uma cidade pequena”, ele conta.

Sua cafeteria presenciou o aumento do número de clientes e de estudantes estrangeiros que se mudam para a região, além da abertura de empresas locais.

“Houve uma mudança”, ele conta. “Ainda está no começo, mas posso sentir.”

“Daqui a cinco anos, tudo será diferente por aqui – e melhor.”

Leia a versão original desta reportagem (em inglês) no site BBC Business

O pequeno vilarejo da Dinamarca transformado pelo Ozempic – BBC News Brasil

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Brasil tem 500 projetos de infraestrutura em elaboração para serem leiloados; veja mapas

Só neste ano, governo federal planeja realizar 82 leilões de empreendimentos incluídos no Programa de Parcerias de Investimentos (PPI)

Por Luiz Guilherme Gerbelli – Estadão – 20/03/2025 

Apesar da incerteza econômica crescente dos últimos meses, o Brasil tem um longo cardápio de projetos de infraestrutura que pretende transferir para a iniciativa privada com potencial para atrair bilhões em investimentos nos próximos anos.

Os projetos são, em sua maioria, encampados pela União e pelos Estados, mas há também ativos de municípios na lista. Um levantamento realizado pela Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base (Abdib) apontou que o País tem cerca de 500 projetos em estruturação para migrar para o setor privado. Ao todo, eles podem garantir R$ 750,5 bilhões em investimentos.

Esse investimento bilionário que pode chegar ao Brasil marca uma mudança de patamar e paradigma na infraestrutura brasileira. Por muitas décadas, a transferência para o setor privado era rechaçada no País. “Agora, os governantes tomaram a decisão política de fazer concessões. Não adianta ter um bom projeto se o governante não decidir fazer a concessão para o setor privado daquele ativo público”, afirma Roberto Guimarães, diretor de planejamento e economia da Abdib.

No ano passado, a estimativa da Abdib é a de que o investimento em infraestrutura alcançou R$ 259,3 bilhões, o maior valor já registrado pela série histórica da associação, iniciada em 2010.

Os investimentos privados também bateram recorde e somaram R$ 197,1 bilhões. A associação faz a projeção com base nos dados dos balanços divulgados pelas empresas ao longo do ano. Os dados finais de 2024 ainda serão fechados com base nos últimos números das companhias.

Mais do que uma decisão política de abrir espaço para o setor privado, há ainda outros fatores apontados por especialistas que ajudaram o País a avançar no cenário do investimento em infraestrutura. São eles: a melhora da qualidade dos estudos de viabilidade e estruturação dos projetos, o surgimento das novas fontes de financiamento e o fato de o Brasil ser um dos poucos países com projetos robustos de concessão.

A economia brasileira também lida com uma restrição fiscal importante nos últimos anos, o que ajuda abrir espaço para o setor privado.

“Hoje, temos projetos de concessão com compartilhamento de riscos de demanda, de variação cambial. Isso não existia no passado”, afirma Guimarães.

Em 2025, o governo federal espera realizar 82 leilões de projetos que estão dentro do Programa de Parcerias de Investimentos (PPI). Os investimentos a serem contratados são de R$ 130 bilhões.

Do total de projetos, 42 são federais. O restante é de origem de entes subnacionais. Se essa previsão se confirmar, o resultado de 2025 será o melhor já apurado desde que o PPI surgiu, em 2016. Até agora, o melhor resultado é de 2021, quando foram registrados 66 leilões.

No PPI, há projetos previstos para diferentes áreas: portos e hidrovias, mineração, irrigação, óleo e gás, saneamento, iluminação pública, parques, estruturação de parcerias público privadas (PPP) para a educação infantil, entre outros.

“A nossa expectativa é de que esses projetos devem sair”, diz Cleyton Barros, chefe da assessoria especial para o PPI. “Na nossa avaliação, esse é um resultado da (melhora da) estruturação e modelagem e da conversa ao mercado. O processo de governança estabelecido pelo PPI perpassa todo o ciclo de desenvolvimento dos projetos de infraestrutura para que eles possam sair do papel.”

Em 2025, por exemplo, o Ministério dos Transportes pretende colocar de pé 15 leilões de rodovias. O número é maior do que o do ano passado, quando foram realizados sete leilões, a melhor marca em sete anos, e até acima do previsto pela PPI − são 12 na conta do programa.

O primeiro desses leilões foi realizado no fim de fevereiro. Sem concorrentes e por meio de um consórcio, as gestoras 4UM e Opportunity arremataram a concessão Agro Norte (BR-364/RO). O projeto de concessão da Agro Norte prevê R$ 10,23 bilhões em investimentos durante os 30 anos de contrato.

“O apetite (do investidor) está grande, apesar do juro alto e da preocupação com a inflação e com as contas públicas”, afirma Gesner Oliveira, sócio executivo da consultoria GO Associados.

Há ainda uma grande expectativa por leilões de outros setores, como no saneamento. Estão previstos leilões dos sistemas de Goiás, Rondônia e Paraíba. Fora do PPI, existe a expectativa pelo leilão do sistema de Pernambuco, que deverá ser o maior do País, com investimentos de R$ 18,9 bilhões.

“O saneamento criou uma agenda regulatória. Há uma institucionalidade para conduzir esses programas de concessão e o mercado entendeu isso”, diz Fernando Vernalha, do Vernalha Pereira Advogados, especialista em investimentos em infraestrutura pública.

A carteira cheia de projetos e a sinalização de que os investidores querem investir no País impõem um desafio importante de manter uma estabilidade macroeconômica. Os juros em alta podem tornar os investimentos mais caros, o que contribui para piorar a atratividade dos projetos.

“Tem uma conjuntura que é mais desafiadora do que era há um ano, em razão dos juros altos e do câmbio volátil”, acrescenta Vernalha. “Mas há mecanismos de mitigação de risco cambial, por exemplo. Ele não é perfeito, mas ajuda a mitigar o risco.”

Hiato do investimento

Embora os números sejam positivos, o Brasil ainda tem um grande caminho a percorrer no setor de infraestrutura. Em 2024, a necessidade de investimentos no setor era de R$ 503 bilhões, segundo a Abdib. “Faltam R$ 201 bilhões por ano”, afirma Guimarães.

Esse hiato é maior no setor de transporte e logística. O País investiu R$ 63 bilhões no ano passado, mas precisaria de R$ 264,4 bilhões. A segunda maior necessidade de investimento foi observada no setor de telecomunicações. São necessários R$ 88,9 bilhões, mas o País aportou R$ 43 bilhões em 2024.

Brasil tem 500 projetos de infraestrutura em elaboração para serem leiloados; veja mapas – Estadão

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