Comunidades que sofreram com o fechamento de fábricas nas últimas décadas estão agora recebendo novos investimentos e criando novos empregos
Por Peter S. Goodman – Estadão/The New York Times – 03/11/2024
Durante a maior parte do último meio século, a vida econômica no coração do Estado da Carolina do Norte, nos Estados Unidos, foi dominada por fechamentos de fábricas, desemprego e expectativas desanimadoras. As fábricas têxteis e de móveis foram prejudicadas pelas importações a preços baixos do México e da China. Os empregos no processamento de tabaco desapareceram.
No entanto, nos últimos anos, uma infusão de investimentos em setores de ponta, como biotecnologia, chips de computador e veículos elétricos, mudou a sorte de comunidades que há muito tempo estavam em dificuldades.
A Carolina do Norte é um exemplo notável dessa tendência, mas uma história semelhante está ocorrendo em outros lugares. Das faixas industriais do Meio-Oeste americano às cidades fabris do Sul, as áreas que sofreram os maiores impactos do comércio estão agora capturando as maiores parcelas de investimento em setores que estão se movendo para a frente, de acordo com uma pesquisa da Brookings Institution, uma organização de pesquisa de políticas públicas em Washington.
Os pesquisadores da Brookings examinaram as promessas de investimento privado nos Estados Unidos, usando dados compilados pelo governo de Joe Biden como parte de sua campanha para subsidiar a produção nacional de chips de computador e veículos elétricos. Eles também utilizaram um banco de dados do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT, na sigla em inglês) que rastreia investimentos em energia limpa. Nos últimos três anos, foram prometidos US$ 736 bilhões em investimentos para esses setores-chave, segundo os pesquisadores.
Quando mapearam os investimentos, a equipe da Brookings concluiu que quase um terço do total está indo para comunidades que sofreram os piores efeitos do chamado “Choque da China” – o fechamento de fábricas que se seguiu à entrada da China no sistema de comércio global em 2001.
“Ainda há uma orientação para a produção nesses lugares”, disse Mark Muro, membro sênior da Brookings Metro e um dos autores do estudo. Mesmo com o avanço da tecnologia e a mudança dos produtos, as áreas tradicionais de manufatura tendem a reter a perspicácia e as habilidades necessárias para produzir, disse ele.
Antes de uma eleição presidencial que pode depender de sentimentos econômicos, as descobertas parecem reforçar o caso da chamada política industrial, na qual o governo subsidia setores estratégicos. A campanha tem apresentado concepções contrastantes sobre como os Estados Unidos devem gerenciar as oportunidades e os desafios do comércio internacional.
O ex-presidente Donald Trump descreveu a China como uma ameaça mortal para os meios de subsistência dos americanos, ao mesmo tempo em que prometeu impor tarifas pesadas sobre as importações do país asiático. Os economistas alertam que esse caminho corre o risco de elevar os preços de muitos produtos e, ao mesmo tempo, minar a competitividade das fábricas nos Estados Unidos que dependem de componentes importados para fabricar seus produtos.
O governo Biden – ao mesmo tempo em que mantém e avança em muitas das tarifas impostas por Trump – também adotou subsídios em setores estratégicos para incentivar a produção americana. Os economistas criticaram essa abordagem como uma forma de protecionismo comercial que põe em risco as alianças americanas. Os riscos políticos são aumentados pela realidade de que os benefícios provavelmente levarão anos e bilhões de dólares em investimentos para aparecerem.
No ano passado, o presidente Biden (C) visitou uma instalação da Wolfspeed em Durham, Carolina do Norte, com o presidente-executivo da empresa, Gregg Lowe (E) e o governador Roy Cooper Foto: Al Drago/NYT
Mas a pesquisa da Brookings sugere que os benefícios de subsidiar esses setores podem estar em andamento, pelo menos em lugares como o condado de Chatham, na Carolina do Norte.
Durante décadas, o condado sofreu as consequências do desaparecimento da fabricação de móveis e dos empregos no setor têxtil. Em grande parte, perdeu o boom da biotecnologia que ocorreu a nordeste, na área de Raleigh-Durham.
Entre 1992 e 2023, a participação da manufatura no total de empregos no condado de Chatham caiu de 47% para 10%, de acordo com dados do NC Budget & Tax Center.
No entanto, o condado tem aproveitado sua abundância de terras urbanizáveis e seu legado como centro de manufatura para atrair grandes investimentos.
Em junho de 2023, a Wolfspeed, uma empresa que fabrica matérias-primas para chips de computador usados em veículos elétricos, iniciou a construção de uma fábrica que ocupará 1,8 mil metros quadrados na cidade de Siler City, onde vivem cerca de 8 mil pessoas.
Com um investimento de US$ 5 bilhões, a nova fábrica obteve recentemente a aprovação do Departamento de Comércio para um subsídio federal de US$ 750 milhões sob o Chips and Science Act – uma peça central da campanha do governo Biden para fabricar chips de computador nos Estados Unidos.
“Isso nos permitirá construir as linhas de fabricação mais rapidamente”, disse o CEO da Wolfspeed, Gregg Lowe.
Em Michigan, outro Estado há muito caracterizado pela diminuição do setor, as perspectivas estão sendo reavivadas por investimentos em fábricas de veículos elétricos e baterias.
Em Flint, local de nascimento da General Motors, uma empresa com sede em Chicago chamada NanoGraf está construindo uma fábrica para produzir componentes para baterias. Recentemente, ela recebeu um subsídio de US$ 60 milhões do Departamento de Energia.
A fábrica está sendo erguida em um terreno que anteriormente abrigava a Buick City, um complexo fabril onde 30 mil pessoas trabalhavam no auge da indústria automobilística americana.
Os líderes da empresa também apreciaram o poder simbólico do avanço dos veículos elétricos no mesmo terreno que foi essencial para o surgimento dos carros movidos a gasolina no século anterior.
“Trata-se de revitalizar a comunidade”, disse Francis Wang, CEO da empresa. “Estamos transformando o Cinturão da Ferrugem no Cinturão da Bateria”.
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Nos últimos cinco anos, o avanço de soluções como telemedicina, inteligência artificial e startups de saúde tem impulsionado uma revolução no setor, aproximando o Brasil de um futuro mais eficiente e integrado
Flavio Sampaio – Exame – 29 de outubro de 2024
Se o mercado de tecnologia em saúde no Brasil fosse um paciente, o prognóstico seria muito animador. As inovações implementadas nos últimos cinco anos, como telemedicina, inteligência artificial e preditiva, prontuários eletrônicos e sistemas integrados hospitalares, trazem boas esperanças para um futuro mais saudável para o país.
“O Brasil está muito bem no cenário de inovação em saúde”, diz o radiologista Gustavo Meirelles, fundador da Inovação em Saúde, comunidade de profissionais que debate os principais avanços desse setor. Num país dividido entre a saúde pública (atendendo a 75% da população), e a privada (os outros 25%), Meirelles se diz otimista com o potencial que temos adiante. “Há muitas frentes sendo desbravadas, aprimoradas. Além disso, o brasileiro é empreendedor, gosta de criar novidades. Há inúmeras startups brasileiras conquistando o mundo”, afirma. Levantamento feito pela Liga Ventures, a maior rede de inovação aberta da América Latina, em parceria com a Unimed Fesp, identificou 536 startups do setor de saúde ativas no país.
A Ionic Health saiu de São José dos Campos para conquistar o mundo. Fundada em 2019, no Parque Tecnológico da cidade do interior paulista, a startup criou soluções automatizadas para monitorar, acessar, educar e teleoperar sistemas de saúde de forma remota. “Diante da escassez de radiologistas e da crescente demanda por procedimentos de imagem, essa tecnologia facilita a colaboração entre locais e especialistas, melhorando a eficiência e o atendimento ao paciente”, explica Meirelles. Em 2023, a americana GE HealthCare selou um acordo com a Ionic Health para distribuir globalmente sua tecnologia.
Medicina na tela
A tragédia da pandemia de covid-19 acelerou investimentos e muitos avanços no setor da saúde. Em 2019, 14 bilhões de dólares eram investidos globalmente em inovação na saúde, de acordo com levantamento da americana StartUp Health. Em 2020 esse valor saltou para 22 bilhões de dólares e no ano seguinte atingiu 44 bilhões de dólares. Além da turbinada nos investimentos, a covid permitiu diversas mudanças regulatórias, como a regulamentação da telessaúde. Segundo a Global Market Insights, somente o mercado mundial de telemedicina deve bater 175,5 bilhões de dólares até 2026.
Caio Soares, Chief Medical Officer da Teladoc no Brasil, healthtech americana líder global em serviços médicos não presenciais, lembra que em 2018 sua equipe comemorou minguadas 50 teleconsultas realizadas num mês. Dois anos depois, durante a primeira onda da pandemia, esse número saltou para 600. Em junho de 2021, eram mais de 12.000 atendimentos num único dia. Hoje a Teladoc tem 6 milhões de vidas cobertas no Brasil e deve bater 1 milhão de consultas anuais até o fim de 2024. “Dos nossos casos, 90% são resolvidos logo na primeira interação”, explica Soares. “Isso é um impacto muito positivo para todo o sistema de saúde. Reduz deslocamentos, prioriza quem realmente precisa de algo urgente, salva vidas”, finaliza.
O executivo, que também é fundador da Saúde Digital Brasil, associação que reúne os maiores players de saúde digital do país, comemora os avanços da telemedicina no Brasil. No início do ano, durante uma expedição médica na terra indígena do Xingu da qual fez parte, viu uma jovem mãe de 22 anos prostrada no chão, com uma grande infecção no braço. Graças à tecnologia da telemedicina e dos satélites de comunicação, o médico se conectou a um especialista baseado em São Paulo para analisar o caso. “Ela estava em choque e precisaria ir para um hospital em até 24 horas, caso contrário morreria. Com ajuda do Exército, ela foi transferida e recebeu o atendimento necessário a tempo”, comemora.
Integração de dados
Pioneiro no uso de tecnologias de ponta — foi o primeiro hospital a ter uma máquina de ressonância magnética no Brasil, em 1986, e um robô cirúrgico, em 2008 —, o Hospital Israelita Albert Einstein tem hoje 458 colaboradores envolvidos diretamente com inovação. A corrida tecnológica extrapolou as fronteiras do hospital fundado no bairro do Morumbi, em São Paulo. No ano passado, foi inaugurado um novo centro de inovação em Goiânia, e no primeiro semestre de 2024, outro em Manaus.
No último ano, o Einstein investiu 240 milhões de reais (5% de sua receita) em inovações tecnológicas. A verba foi aplicada em startups, pesquisas clínicas, robótica, prontuário digital, transformação digital e em projetos do Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional do Sistema Único de Saúde (Proadi-SUS), aliança entre seis hospitais referência e o Ministério da Saúde.
“Pouca gente sabe que o Einstein cuida de mais gente no sistema público do que no sistema privado”, explica Rodrigo Demarch, diretor de inovação da instituição. Segundo o executivo, que também é médico geriatra, essa integração entre o sistema público e o privado tem um potencial de transformação gigante. “A construção de um sistema de saúde que seja, de fato, sustentável, que consiga entregar a maior qualidade possível de serviço para o maior número de pessoas só é possível com tecnologia”, diz.
Em julho, o time liderado por Demarch implementou, ainda em fase de testes, uma plataforma que usa IA e IA generativa à jornada clínica do paciente. Intitulada HStory, a ferramenta integra dados dos pacientes que estão espalhados por oito sistemas da instituição, como assistência hospitalar, diagnóstica, preventiva e ambulatorial. “Agora o médico pode entender exatamente o que já se passou com cada indivíduo. E ali já existem prompts predefinidos que permitem ao médico fazer determinadas perguntas relacionadas ao diagnóstico, ao possível prognóstico, às alternativas terapêuticas e diagnósticas. Funciona como um suporte à decisão clínica mesmo”, afirma Demarch.
Em 2017, o Einstein criou também uma incubadora de startups de saúde. Hoje, a Eretz.bio tornou-se um hub de inovação, fomentando o empreendedorismo do setor no Brasil. A iniciativa já avaliou mais de 2.500 empresas ao longo desses anos, das quais 140 foram aceleradas pela incubadora. Atualmente, 42 startups integram o ecossistema da Eretz.bio, divididas em saúde digital, dispositivos médicos, biotecnologia e edtech. Ao longo desses sete anos, o Einstein decidiu ser sócio de apenas 13 startups. A Anestech é uma delas.
Cockpit na sala cirúrgica
Desde menino o gaúcho Diógenes Silva foi um aficionado por tecnologia. Em 1982, aos 8 anos, começou a ler e programar. Quando fez 10, seu pai o apresentou um computador TK2000 — algo transformador em sua vida. Já na faculdade de medicina de Santa Maria (RS), Silva era um dos únicos alunos a levar consigo um computador e uma impressora matricial na mochila. Não era um laptop, mas um 286, desktop mesmo. “Lembro-me de quando fui à secretaria pedir para ter um e-mail da faculdade. Além de não conseguir, tive de escutar que um aluno de medicina jamais precisaria de um e-mail na vida”, diz Silva.
Já formado, o anestesista percebeu que os avanços tecnológicos das outras especialidades eram enormes, com exceção da sua. “Em 1894, o anestesista documentava a pressão, a frequência cardíaca e a temperatura do paciente. Tudo na mão, no pulso. Hoje o anestesista está na cabine de um Boeing, monitorizando a pressão do sangue venoso, sangue arterial, atividade cerebral. E tudo isso deve ser documentado de 5 em 5 minutos”, explica Silva.
Trocando em miúdos, o anestesista tem de ficar com uma caneta e um papel nas mãos para inserir os dados do paciente a cada 5 minutos. Como uma cópia fica com ele e a outra fica com o hospital, em muitos lugares ainda é usado o papel-carbono. Em uma cirurgia de 8 horas, são 96 anotações. “O pior de tudo é que não leva a análise alguma. Não melhora a economia do hospital nem a assistência ao paciente. Só dá retrabalho para o anestesista. Foi isso que a gente resolveu mudar”, diz.
Em 2012, a primeira versão da Anestech foi testada. Em 2015, Silva apresentou sua ideia ao Einstein, numa época em que o Eretz.bio nem havia começado. Com o apoio da incubadora do hospital, oito versões da ferramenta foram redesenhadas até que, em 2018, a novidade fosse lançada no mercado. “Em 12 anos de história, já conquistamos 121 clientes, 6.700 anestesiologistas usuários e 2,4 milhões de procedimentos registrados. Com a digitalização dos procedimentos, 17,2 toneladas de papel deixaram de ser consumidas”, celebra Silva. “Mas o melhor é saber que o médico anestesista foca seu tempo na coisa mais importante, que é o paciente”, conclui.
A solução integra prontuários eletrônicos de pacientes, monitores multiparâmetros e sistemas de gestão hospitalar, facilitando o acompanhamento do paciente desde a fase pré-anestésica até a recuperação. Com mais de 50 indicadores, permite a análise detalhada de procedimentos realizados, consumo de gases e fármacos, tempo de ocupação das salas cirúrgicas e destino dos pacientes pós-cirurgia, fornecendo insights valiosos para a gestão hospitalar.
Orquestra saudável
Na Prevent Senior, sistema de saúde verticalizado, a ideia é oferecer uma jornada completa para seus pacientes, desde o atendimento inicial até o acompanhamento pós-tratamento. Segundo Fabrício Próspero Machado, diretor de inovação e tecnologia da empresa, o objetivo da companhia é incorporar tecnologias que otimizem cada etapa do processo médico-paciente, equilibrando custos e qualidade.
Desde 2009, a Prevent Senior utiliza ferramentas de inteligência artificial para auxiliar nas tomadas de decisões. Esse sistema analisa exames de imagem, como radiografias e mamografias, indicando possíveis achados adicionais para médicos, especialmente em situações de pronto-socorro e junto com médicos não especialistas.
A equipe comandada por Machado, que é radiologista e pianista amador, lançou neste ano a Symfony — ferramenta que organiza e resume os prontuários médicos dos pacientes, desenvolvida internamente. Com isso, médicos conseguem visualizar de maneira simplificada o histórico completo do paciente antes da consulta. Isso permite que eles dediquem mais tempo às atividades que agregam maior valor ao paciente, como o diálogo e a compreensão das necessidades individuais. “Brincamos aqui que o médico faz a harmonia para o paciente fazer a melodia. É o que o Symfony propõe, orquestrar essa relação”, diz. Na esteira do que o Einstein já fez, o próximo passo é ter um sistema que separe os dados da história ambulatorial, hospitalar e diagnóstica de cada paciente.
Caio Soares, da Teladoc Brasil: teleconsultas mudaram o acesso à saúde (Teladoc Brasil/Divulgação)
Escala universal
Com 212.583.750 vidas em sua “carteira de clientes”, a totalidade dos habitantes do Brasil, o Sistema Único de Saúde (SUS) é o maior sistema público de saúde do mundo. Pela Constituição, o SUS deve ser universal a todos os brasileiros, sem custo. Mais do que prover saúde universal, o desafio é também prover saúde digital.
Desde 2023, Ana Estela Haddad comanda a Secretaria de Informação e Saúde Digital (Seidigi), Secretaria do Ministério da Saúde que reuniu três departamentos que antes trabalhavam de forma separada: Departamento de Informação e Informática do SUS (Datasus), Departamento de Monitoramento, Avaliação e Disseminação de Informações Estratégicas em Saúde (Demas) e Departamento de Saúde Digital e Inovação (Desd). “O SUS faz cerca de 2,8 bilhões de atendimentos por ano. Esse é um exemplo da escala que temos por aqui”, afirma Haddad.
Para Ana Haddad, “escala” é a palavra-chave. Em março deste ano, ela lançou o programa SUS Digital, com foco na transformação digital do sistema, oferecendo ferramentas para os gestores e profissionais de saúde trabalharem. Somente neste ano, foram destinados 464 milhões de reais para sua implementação, dos quais 88% direcionados aos municípios de pequeno porte, com até 50.000 habitantes. É a primeira vez que o governo brasileiro tem um programa nacional com recursos para fomentar o ecossistema de saúde digital. “Tivemos a adesão de todos os 5.570 municípios brasileiros”, comemora.
Entre as principais metas do SUS Digital estão a ampliação do prontuário eletrônico, integração dos sistemas de informação, aumento do acesso do paciente a seus dados de saúde, extensão da telessaúde para populações indígenas e quilombolas, além do fortalecimento da Rede Nacional de Dados em Saúde (RNDS). “Tivemos um apagão de informações durante o último governo”, afirma a secretária, que também é professora titular do Departamento de Ortodontia da Universidade de São Paulo e criadora do pioneiro programa Telessaúde Brasil Redes, em 2006.
Na ponta dos usuários, a corrida digital também está aquecida. O novo app Meu SUS Digital já é o aplicativo de governo mais baixado do país. Com mais de 50 milhões de downloads e 4,5 milhões de usuários ativos, com ele é possível consultar o histórico clínico, acessar a carteira de vacinação digital, verificar resultados de exames laboratoriais, como os testes de covid-19, e até acompanhar a posição na fila do Sistema Nacional de Transplantes.
Ana Haddad vê a transformação digital não apenas como implementação de tecnologia, mas de ampliação de acesso. “Para combater os vazios assistenciais, levar saúde para quem precisa e ainda não tem, melhorar a qualidade do que a gente já oferece. Queremos prover um acompanhamento personalizado, principalmente aos pacientes crônicos, para que eles possam ter um telemonitoramento e ir à unidade somente quando realmente precisarem, levando maior conforto. Do ponto de vista da vigilância, poderemos ter cada vez mais predição e nos prepararmos para futuras emergências sanitárias”, finaliza.
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Suspeitas têm origem em um estudo da Nasa de 2005, que investigou os efeitos do terremoto e do tsunami do Oceano Índico de 2004 na rotação da Terra
Por El Tiempo/ O Globo – 01/11/2024
Hidrelétrica de Três Gargantas, construída no Rio Yang-tsé — Foto: A Barragem das Três Gargantas, localizada na província de Hubei, na China, gerou um debate inusitado na comunidade científica devido à sua possível influência na rotação da Terra. Essa estrutura monumental, projetada para controlar enchentes, facilitar o transporte fluvial e gerar energia, se estende por mais de dois quilômetros e chega a 180 metros de altura.
Desde a sua inauguração em 2014, posicionou-se como a maior barragem do mundo, tanto pelo seu tamanho como pela sua capacidade de contenção. O volume de água retido nesta megaobra tem levado os investigadores a explorar os seus efeitos na distribuição da massa terrestre, visto que esta influência pode alterar, ainda que de forma sutil, o movimento rotacional do planeta.
Um relatório da IFLScience detalha que o deslocamento de um volume tão considerável de água influencia o momento de inércia da Terra, uma mudança que, por sua vez, afeta a sua rotação.
Estudos anteriores que explicariam o fenômeno
Segundo o Huffington Post, “o deslocamento alterou a distribuição da massa da Terra, impactando seu momento de inércia e, consequentemente, sua rotação”. Estas suspeitas têm origem em um estudo da Nasa de 2005, que investigou os efeitos do terremoto e do tsunami do Oceano Índico de 2004 na rotação da Terra.
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Nesse caso, o movimento das placas tectônicas reconfigurou a massa do planeta e reduziu a duração de um dia em 2,68 microssegundos, indicando que qualquer evento que provoque deslocamentos massivos de água ou terra pode afetar sutilmente a rotação.
Projeções de mudança na duração do dia
O geofísico da Nasa Benjamin Fong Chao já havia alertado em 2005 que a Barragem das Três Gargantas, com capacidade para reter 40km³ de água, poderia estender a duração de um dia em aproximadamente 0,06 microssegundos.
Além disso, o especialista sugeriu que a construção da barragem poderia deslocar a posição do polo terrestre em cerca de 2 centímetros. Embora essas variações sejam imperceptíveis no cotidiano, elas são relevantes do ponto de vista geofísico, pois representam alterações causadas por uma estrutura construída pelo homem.
A atividade humana tem gerado alterações no planeta que também afetam a sua rotação, como as alterações climáticas.
Este fenômeno altera a distribuição da massa da Terra, e, por isso, alguns cientistas consideram que, se este impacto continuar, em um futuro próximo poderão ser necessários ajustes nos sistemas de medição do tempo de alta precisão, como os relógios atômicos, para ter em conta o que é chamado de “segundo bissexto negativo”.
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Para quem ainda tem dúvidas sobre o impacto da Creator Economy nos negócios, os números globais reforçam a importância desse ecossistema dentro do mercado digital. Segundo o mais recente relatório do Goldman Sachs, o setor gera, anualmente, cerca de US$ 250 bilhões. Até 2027, a expectativa é que esse valor chegue a US$ 480 bilhões.
O segmento, formado por criadores de conteúdo, influenciadores digitais e empreendedores cujo modelo de negócios envolve a monetização pela venda de conteúdos próprios, está em um estágio de profissionalização que reflete o amadurecimento do setor.
Uma pessoa-unicórnio
Alguns especialistas avaliam, inclusive, que a Economia dos Criadores de Conteúdo será a responsável pelo surgimento da pessoa-unicórnio. O conceito, já abordado por Sam Altman, CEO da OpenAI, afirma que depois das startups unicórnio, aquelas que atingem um valor de mercado superior a US$ 1 bilhão, empreendedores digitais poderão fazer a jornada do CPF ao CNPJ para atingir a mesma avaliação.
Neste contexto, o Brasil é um forte candidato para o surgimento de uma pessoa-unicórnio dentro da Creator Economy. Embora seja difícil cravar quantos produtores de conteúdo existem no país, já que o mercado está em constante crescimento, um estudo de 2023 realizado pela Meta, e divulgado pela consultoria YOUPIX, afirma que dos cerca de 300 milhões de criadores no mundo, 20 milhões são brasileiros.
Insights, tendências e networking
O comportamento dos brasileiros é um fator que ajuda no crescimento da Economia de Criadores de Conteúdo no país. Segundo dados do DataReportal, presentes no estudo, A presença brasileira na Creator Economy, realizado em fevereiro pela Hotmart, os brasileiros ficam o dobro do tempo nas redes sociais em comparação com o restante do mundo.
Também estamos acima da média mundial quando o assunto é acompanhar influenciadores ou experts pela internet (41,7% ante 22,1%).
De olho neste cenário, desde 2011, a Hotmart acompanha de perto a perspectiva dos negócios digitais na Creator Economy com um ecossistema completo para quem quer monetizar no ambiente digital.
Hotmart FIRE
Desde 2015, a companhia realiza o Hotmart FIRE, festival que tem como objetivo trazer debates, tendências e estimular o networking entre creators, empresas e especialistas do setor.
Neste ano, o evento aconteceu entre 29 e 31 de agosto, em Belo Horizonte, totalizando mais de 100 horas de conteúdo sobre negócios, estratégias e marketing digital para cerca de 8 mil participantes.
A tradição do Hotmart FIRE também atrai um grande público internacional. Neste ano, 27 países tiveram representantes inscritos. Não à toa, o festival é um dos maiores da indústria dos criadores da América Latina.
Eventos do tipo são lugares perfeitos para compartilhar e conhecer pessoas, mas também para entender como transformar uma boa ideia em negócio de verdade. “Em toda edição, sempre vemos muitas pessoas que estão começando, de diferentes mercados e querendo construir algo novo e diferente. Mas também vemos muita gente experiente, que vem para compartilhar dicas e experiências, o que é muito rico sempre”, avalia João Pedro Resende, CEO e cofundador da Hotmart.
Um exemplo de veterano presente na edição deste ano do Hotmart FIRE é o britânico Neil Patel. Conhecido como um dos nomes mais relevantes do marketing digital, o especialista compartilhou insights com um público atento para anotar as dicas. Segundo o fundador da NP Digital, o mercado digital brasileiro é ótimo, mas focar um alcance global é essencial. Além disso, ter paciência é fundamental para atingir resultados.
Profissionalização para conseguir destaque
Ainda que o mercado nacional de produtores de conteúdo esteja mais aquecido do que nunca, se destacar em meio à concorrência é sempre um desafio. O diferencial, no entanto, está na profissionalização do negócio. Essa é a dica de quem já atingiu o sucesso – e uma monetização de respeito –, caso de Priscila Zillo Sobral, especialista em marketing e estratégias do mercado online e cofundadora do Grupo Permaneo.
Ao lado do marido, Pedro Sobral, Priscila criou a empresa que é pioneira no conceito ‘ed-mkt-tech’, que une educação, marketing digital e tecnologia para desenvolver ecossistemas de valor em diversos nichos de mercado. Hoje, a companhia conta com uma equipe de mais de 250 profissionais e um faturamento anual na casa dos nove dígitos.
Formada em Direito, Priscila começou sua trajetória empreendedora em 2012, ao criar um curso online no qual preparava estudantes para o Concurso de Admissão à Carreira de Diplomata. Em seguida, se especializou no mercado de produtos digitais, coordenando mais de 350 lançamentos de produtores de conteúdo.
“Um mercado saturado é aquele que já foi de forma profissional e estratégica tão explorado, que não tem espaço para mais ninguém entrar. Todas as margens de lucro começam a cair e todas as soluções são muito semelhantes. Esse não é o cenário da Creator Economy”, analisa Priscila, em conversa com a EXAME. “O estágio, hoje, é de uma grande corrida. Ainda existe espaço para muitas pessoas despontarem, mas existe a necessidade de profissionalização. O criador precisa de uma arquitetura empresarial e estruturada como um modelo de negócio sustentável no longo prazo”, indica.
Segundo a Hotmart, atualmente, 77% dos creators que já estão em um estágio avançado na carreira contam com uma equipe própria formada por, no mínimo, quatro funcionários.
A IA na era dos criadores de conteúdo
Outro insight abordado por palestrantes de todos os cinco palcos do Hotmart FIRE 2024 foi a tendência global de aplicação da Inteligência Artificial (IA) generativa também no setor.
Dados da pesquisa Creator Economy in 3D, realizada pela Deloitte, mostra que 94% das marcas que trabalham com criadores de conteúdo estão usando ou têm planos de usar IA generativa para gerar conteúdo. Dessas marcas, 55% já usam a tecnologia de alguma forma.
“A IA foi um dos grandes destaques do evento neste ano, especialmente porque muitos palestrantes tocaram no assunto. Nós mesmos, de olho na movimentação do mercado, lançamos duas iniciativas com Inteligência Artificial para ajudar na trajetória dos creators”, analisa o CEO da Hotmart.
A primeira solução mencionada por Resende, e anunciada durante o festival, é a nova versão do Hotmart Tutor, que funciona como um assistente inteligente que usa aprendizado de máquina para absorver os conteúdos produzidos e responder dúvidas dos alunos em tempo real.
A ferramenta fica disponível 24 horas por dia, via chat. Segundo a empresa, o Hotmart Tutor já está disponível para todos os usuários da Hotmart no Brasil.
A segunda solução foi pensada para dublagem automática e lip sync personalizada. A tecnologia foi desenvolvida em parceria com a Reshape, empresa especializada em tecnologias de IA, como tradução automática, transcrição e dublagem, e adquirida pela Hotmart em janeiro.
A ideia é que a ferramenta, que ainda está em testes, ajude os creators a desenvolver conteúdos em diversos idiomas, ampliando o alcance e impulsionando a internacionalização dos negócios.
A internacionalização dos conteúdos, inclusive, foi uma das dicas sugeridas por Neil Patel aos empreendedores digitais brasileiros. Para o especialista, não é raro consumirmos conteúdos em idiomas que, muitas vezes, nem entendemos completamente. Conseguir ‘vender’ esse material em outros idiomas só vai aumentar o alcance.
Segundo a Hotmart, mais de 1 milhão de conteúdos já foram gerados por IA dentro de sua plataforma. Com as novas ferramentas, a ideia é que os criadores de conteúdo consigam explorar ainda mais um mercado que está em constante crescimento por meio de produtos digitais que já nascem globais.
Vem aí o Hotmart FIRE 2025
Quem quiser saber mais sobre o mercado da Creator Economy já pode se preparar para a edição comemorativa de dez anos do Hotmart FIRE. Os ingressos já estão disponíveis neste link.
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Andrea Casaluci, CEO da Pirelli, tem como missão manter os consumidores de luxo e conquistar a geração Z
Leo Branco – Exame – 18 de outubro de 2024
No início de setembro, a fabricante italiana de pneus Pirelli chamou a atenção da imprensa global com um lançamento típico de uma big tech. Em parceria com a alemã Bosch, a Pirelli está colocando no mercado um pneu com sensores capazes de levantar dados sobre o estado de conservação do material e as condições de uso da estrada. O objetivo é ajudar o motorista a planejar a próxima ida ao mecânico — e, assim, evitar o risco de ficar parado na estrada por causa de um pneu furado.
Apelidado de “pneu inteligente”, o anúncio é um dos destaques do primeiro ano de gestão do engenheiro italiano Andrea Casaluci como CEO da Pirelli. Casaluci sucedeu a Giorgio Bruno, que assumiu em 2022 depois da ida de Marco Tronchetti Provera, um dos principais investidores da companhia, para o conselho de administração (atualmente ele é vice-chairman).
Guinada em direção ao luxo
Em 20 anos no comando, Tronchetti Provera mudou profundamente a companhia. Aberta em Milão em 1872 para fabricar cabos para telecomunicações, a Pirelli virou um nome conhecido ao redor do planeta pelos pneus para todo tipo de carro — sobretudo no Brasil, onde possui uma das maiores redes de distribuidores da empresa pelo mundo.
Nas últimas décadas, sobretudo na gestão de Tronchetti Provera, a Pirelli deu uma guinada em direção ao mercado de luxo. Hoje, a marca fornece pneus para montadoras de alguns dos carros mais caros do planeta, como a italiana Ferrari e a inglesa Bentley. Além disso, patrocina o Calendário Pirelli. Ao longo de 60 anos, o produto reuniu alguns dos melhores fotógrafos e modelos do mundo. Por trás da estratégia está a associação de design e estilo, um traço comum a outras companhias com DNA italiano. Tudo isso preservou o apelo global da marca diante da expansão de concorrentes asiáticos. Sob outra ótica, tornou a Pirelli uma das empresas mais sólidas da Itália, com valor de mercado ao redor de 5,5 bilhões de euros, aproximadamente 30 bilhões de reais.
Daqui para a frente, Casaluci quer fazer do pneu o protagonista da corrida pelos carros autônomos. Em paralelo, ele está de olho nas mudanças geracionais. Com jovens críticos ao papel dos carros nas mudanças climáticas, o novo CEO quer ampliar o uso da borracha natural, vinda de plantações certificadas, para cortar o uso de materiais sintéticos pouco ou nada biodegradáveis. “Gostamos de definir a Pirelli como uma startup de 152 anos”, disse Casaluci à EXAME, direto do seu escritório, em Milão. “Estamos sempre olhando para o futuro e tentando antecipar tendências.”
Por que investir numa parceria com a alemã Bosch numa tecnologia de “pneu inteligente”?
Começamos esse projeto há 25 anos. A intenção dos nossos engenheiros é criar um pneu capaz de “conversar” com o carro. Os pneus são o único ponto de contato de um automóvel com o solo. Eles têm dados únicos para o motorista. Por ali é possível entender se um asfalto é bom ou não. Ou, então, se o solo está seco ou molhado, duas condições capazes de mudar a forma de dirigir. O estado de conservação do pneu em si diz muito sobre o estilo de direção. Então, colocamos muitos sensores em nossos pneus para coletar esses dados. Em junção com uma tecnologia da Bosch, desenvolvemos algoritmos para influenciar a experiência do motorista. Imagine saber com antecedência quando é o melhor momento para trocar o pneu. Esse tipo de informação ajudará o motorista a tomar boas decisões e a não desperdiçar dinheiro com a troca de pneus ainda em boas condições.
A tecnologia já está disponível?
O pneu inteligente já está disponível em alguns veículos da Pagani, marca italiana de veículos de alto desempenho. Ela tem um volume pequeno de produção, o que nos permite testar a tecnologia para, então, acelerar a adoção. Ao mesmo tempo, estamos em conversas com as principais montadoras do mundo. A nossa expectativa é fechar parcerias com elas para que o pneu inteligente esteja embarcado em seus próximos lançamentos em breve.
É uma tecnologia que deverá chegar logo aos veículos populares?
A estratégia da Pirelli sempre é a de focar primeiro os segmentos de ponta, ou high end. Esse tipo de consumidor é mais exigente e isso nos força a entregar o melhor produto. Quando a tecnologia ganha maturidade e seus custos de produção diminuem, aí colocamos esforços para ganhar tração em outros segmentos. Numa linha do tempo, estimo que a partir de 2026 muitas linhas produtivas de veículos já estarão trabalhando com a nossa tecnologia. Até o fim da década teremos uma presença maciça de sensores nos pneus para contar o que está acontecendo com os nossos carros — e de algoritmos para prever decisões importantes, como o momento certo de levar o veículo ao mecânico.
A indústria automotiva passa por duas mudanças profundas: os carros elétricos e a direção autônoma. Como ambas mudam o modelo de negócios da Pirelli?
Estamos atentos a ambas e, de certa forma, o anúncio dos pneus inteligentes é um exemplo disso. A direção autônoma tem a ver com a capacidade de coletar dados de todos os pontos de um carro para permitir ao próprio carro guiar-se sozinho com segurança. Antes de chegar ao ponto de um carro estar 100% autônomo o tempo inteiro, há muitos outros cenários possíveis. Vamos conviver com algum grau de autonomia combinada com a atenção humana na direção por algum tempo. Tudo isso enquanto a indústria automotiva desenvolve tecnologias mais robustas para os carros autônomos. Estamos confiantes de que a nossa parceria com a Bosch vai trazer muita inovação para as montadoras. Os pneus vão acabar sendo os protagonistas do desenvolvimento dos carros autônomos.
A corrida pelos carros elétricos provocará um impacto semelhante?
Aí eu vejo uma grande oportunidade para todas as empresas de pneus, incluindo a Pirelli. Os carros elétricos são mais pesados por causa das baterias e do layout diferente de seus motores. Esse tipo de veículo depende de pneus com muito mais aderência ao solo, uma vez que o torque do motor elétrico é mais potente que o de combustão. Para manter o desempenho do carro sem comprometer a aceleração, por exemplo, será preciso muita tecnologia. E, ainda por cima, fabricantes como a Pirelli vão precisar atentar para o barulho dos pneus. Os motores de carros elétricos são muito silenciosos. A tração dos pneus também deverá ser. Tudo isso vai trazer muita oportunidade para a Pirelli.
Apesar dos avanços em direção aos veículos elétricos, há ainda quem coloque em dúvida a total substituição dos motores a combustão. Eles terão alguma sobrevida?
Os veículos elétricos são, atualmente, a tecnologia dominante do mundo e continuarão sendo pelos próximos anos. O que vamos ver é um ritmo de adoção diferente ao redor do globo. Na China eles já são dominantes. A Europa está no meio dessa transformação. Apesar de a proibição dos veículos a combustão, antes prevista para 2035, ter sido postergada, eu ainda acredito que os carros elétricos serão dominantes na Europa em pouco tempo.
O que dizer das Américas e, sobretudo, do Brasil?
O Brasil tem uma história de sucesso com biocombustíveis como o etanol. Eles poderão ser a fonte de energia dominante junto com a elétrica na indústria automotiva brasileira. É uma situação diversa à dos Estados Unidos, onde eu vejo uma menor adesão aos veículos elétricos do que na Europa e na China.
A China virou, nos últimos anos, o maior fabricante de pneus do mundo. Boa parte da produção, focada no mercado automotivo popular, vai parar em outros países, como o Brasil. A competição dos chineses é um desafio para o setor?
O Brasil hoje está importando duas vezes mais pneus da China do que importava há dois anos. Os chineses dominam hoje praticamente metade do mercado brasileiro desse setor. É uma pena por duas razões. A primeira é o fato de empregos brasileiros estarem sendo ceifados por causa das importações. A segunda, e em alguns sentidos até mais preocupante, é pela [falta de] qualidade dos produtos chineses. E o tema da qualidade do pneu tem a ver com a questão da segurança nas estradas. É muito importante, então, proteger a produção local de pneus pela geração de empregos e pela segurança nas estradas brasileiras. No mês passado, o governo brasileiro aumentou a alíquota de importação de pneus de 16% para 25% por 12 meses. Vejo a medida como extremamente importante, mas talvez não seja suficiente. Eu aconselharia manter essa política de proteção do mercado brasileiro por mais tempo.
Quão importante é o Brasil para a Pirelli — e o que esperar do país daqui para a frente?
A Pirelli chegou ao Brasil em 1929. É uma história longa. Nos sentimos em casa no país. Toda vez que viajo para o Brasil vejo a importância da marca. As duas fábricas brasileiras estão entre as mais desenvolvidas da empresa no mundo, além de termos um dos centros de pesquisa e desenvolvimento mais relevantes. Nossa fatia de mercado no país entre os SUVs e os carros premium é perto de 50%. Olhando para a frente, estou muito otimista. O Brasil tem um estoque de carros que precisa de renovação. Ao olhar para a quantidade de investimentos anunciados pelas montadoras no Brasil, estou muito confiante de que a renovação da frota vai andar junto com um movimento de “premiunização” dos veículos. Será muito importante se tudo isso estiver combinado a uma estratégia de sustentabilidade.
Cemitério de pneus em Manaus: a Pirelli vê na sustentabilidade um caminho para conquistar consumidores jovens (João Viana/Fotos Públicas)
A propósito da sustentabilidade, o fato de muitos jovens da geração Z estarem abrindo mão do sonho de ter um carro por causa do impacto sobre o clima preocupa uma empresa como a Pirelli?
Pensamos muito, porque essa geração é o nosso futuro. Gostamos de definir a Pirelli como uma startup de 152 anos, porque estamos sempre olhando para o futuro e tentando antecipar tendências. Para ser honesto, não estou preocupado com a questão geracional. Não é verdade que a geração Z não vai precisar de carros. Ela vai precisar, mas terá uma percepção diferente. Para esses jovens, a sustentabilidade é de suma importância, o que é bom. Eles estão mais interessados em conforto do que em desempenho, mas amam design. E também estão cada vez mais interessados em competições de automobilismo. A Fórmula 1 está se tornando cada vez mais popular entre eles, por exemplo. O que realmente decidimos fazer é continuar sendo o líder global nos automóveis de luxo e de alto desempenho. Ao mesmo tempo, queremos ser referência em sustentabilidade. Temos a meta de neutralidade de carbono mais ambiciosa da indústria até 2030. Queremos chegar ao net zero [compensação total das emissões de carbono] até 2040. Temos uma meta ambiciosa de uso de materiais de base biológica e reciclados em nossos produtos. Em 2025, vamos produzir 100% dos nossos produtos com energia proveniente de fontes renováveis — isso já acontece nas fábricas das Américas e da Europa. Dessa forma, procuramos falar com todos os consumidores de todas as gerações, porque é possível ser o único fornecedor da Fórmula 1 e, ao mesmo tempo, ser o líder global em sustentabilidade. E a Pirelli está provando que isso é possível para atender às duas ambições da nova geração.
É possível haver um pneu 100% verde?
Estamos muito perto de conseguir reciclar 100% dos pneus usados em alguns mercados, como a Europa. Hoje, muitos dos materiais dos pneus são sintéticos e de difícil absorção na natureza. Queremos melhorar a porcentagem de borracha natural, em vez de borracha sintética, porque é uma base biológica. Então, para proteger a floresta e evitar qualquer tipo de impacto descontrolado na natureza, temos certeza de que a borracha natural que compramos vem de rastreabilidade total. E por meio de uma certificação, a FSC, garantimos o total respeito às plantações, evitando qualquer tipo de desmatamento.
Sua gestão à frente da Pirelli completou um ano. O que esperar daqui em diante?
O modelo de negócios da Pirelli é muito simples. Queremos continuar sendo o líder global no mercado de alto valor, focando apenas negócios de consumo, e nos tornando cada vez mais um ponto de referência na transição para a sustentabilidade. Se você me perguntar como vejo o título do futuro, seremos sustentáveis e conectados. É exatamente isso que estamos tentando fazer na Pirelli, e ela está conseguindo cumprir.
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O novo homem mais rico da China é o empresário Zhang Yiming, o fundador de 41 anos da empresa proprietária da plataforma de vídeos curtos TikTok e de sua equivalente chinesa Douyin, traz o Hurun
Por Pedro Borg – Valor – 29/10/2024
O número de bilionários em dólares na China caiu mais de um terço nos últimos três anos, segundo lista compilada pela empresa de pesquisas Hurun, que anualmente relata os mais ricos do país. O resultado reflete o aumento do controle do governo na economia, além de um mercado de ações fraco, decorrente de uma crise imobiliária persistente.
“A Lista de Ricos da China da Hurun encolheu por um terceiro ano consecutivo, algo sem precedentes, pois a economia e os mercados de ações da China tiveram um ano difícil”, disse Rupert Hoogewerf, presidente e principal pesquisador do Hurun Report, em comunicado. “O número de indivíduos na lista caiu 12% no último ano, para pouco menos de 1.100 pessoas, e 25% desde o ponto recorde em 2021, quando conseguimos identificar 1.465 indivíduos com patrimônio de 5 bilhões de yuans (cerca de US$ 700 milhões).”
Desde que atingiu o pico de 1.185 em 2021, o Hurun informou que o número de bilionários em dólares foi reduzido para 753, com a queda de 36% de pessoas na lista, superando uma queda de 10% no valor do renminbi em relação ao dólar no mesmo período.
Somente no último ano, o número de bilionários em dólares na China caiu 16%, enquanto o renminbi depreciou apenas 2,5% em relação ao dólar.
A queda no setor imobiliário chinês também ficou clara na lista, que teve grande mudança de nomes nos últimos tempos. Segundo a Hurun, “metade dos empreendedores da lista deste ano não estavam na lista há apenas cinco anos, e 8 em cada 10 não estavam lá há 10 anos”.
“A velha guarda, representada por desenvolvedores imobiliários, deu lugar a uma nova guarda de tecnologia, novas energias, eletrônicos de consumo, especialmente smartphones, comércio eletrônico, especialmente o comércio eletrônico transfronteiriço, produtos de consumo e saúde”, disse a Hurun em relatório.
O novo homem mais rico da China é o empresário Zhang Yiming, o fundador de 41 anos da empresa proprietária da plataforma de vídeos curtos TikTok e de sua equivalente chinesa Douyin. Ele se tornou pela primeira vez a pessoa mais rica do país, com uma fortuna avaliada em US$ 49 bilhões, segundo a Hurun.
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Detalhada em estudo, técnica para preservar informações digitais pode ser mais barata e sustentável
Michael Peel Folha/ Financial Times – 29.out.2024
Cientistas desenvolveram uma tecnologia para usar o código genético do DNA para armazenar dados, impulsionando a busca por soluções para salvar volumes cada vez maiores de informações digitais de forma mais barata e sustentável.
O DNA é visto como uma potencial salvação para economias dependentes de dados, pois é estável e apenas um grama dele pode teoricamente armazenar o equivalente a cerca de 10 milhões de horas de vídeo em alta definição.
Pesquisadores de instituições dos Estados Unidos, China e Alemanha usaram uma reação química simples para imitar o sistema binário dos computadores tradicionais, permitindo a impressão das informações no DNA com boa precisão e muito mais rapidamente do que os métodos tradicionais.
A nova tecnologia, relatada em um artigo da revista Nature na última quarta-feira (23), deve possibilitar “aplicações do mundo real” do armazenamento de DNA que colocam menos pressão sobre a eletricidade e outros recursos, disse Long Qian, uma das coautoras do trabalho.
“As tecnologias atuais de armazenamento de dados simplesmente não conseguem armazenar e preservar as enormes quantidades de dados que estamos coletando e produzindo todos os dias”, afirmou Qian, pesquisador do Centro de Biologia Quantitativa da Universidade de Pequim, na China. “Se os dados forem armazenados por mais de 50 anos… preservar dados em DNA será mais barato do que usar e manter discos rígidos.”
Tentativas anteriores de salvar informações em código genético sintético foram demoradas, caras e vulneráveis a erros.
Nesse projeto, os cientistas adotaram um processo químico natural conhecido como metilação para modificar os blocos biológicos no DNA conhecidos como bases. Como isso significava que as bases estavam metiladas ou não metiladas, isso lhes deu dois estados possíveis para codificar informações —como os valores binários de 0 e 1 usados pelos computadores.
Uma vantagem potencial da metilação é sua simplicidade em relação aos métodos convencionais de armazenamento de dados de DNA, que envolvem a construção de quantidades cada vez maiores de novo código genético. Os pesquisadores usaram a técnica para armazenar imagens, como uma foto colorida de um panda e uma reprodução de um tigre feito durante a dinastia Han, da China.
Os pesquisadores estimaram que sua estratégia de codificação poderia potencialmente ser 10 mil vezes mais rápida do que os métodos existentes a uma fração ínfima do custo, segundo Qian.
“O processo é mais como ‘uma prensa’ e menos como ‘deixar um rastro de migalhas de pão’. A esperança é tornar as coisas pequenas, rápidas, duráveis, não prejudiciais ao meio ambiente e baratas”, disse Nick Goldman, cientista sênior do Instituto Europeu de Bioinformática, acrescentando que mais avaliação da velocidade e dos custos do sistema são necessárias.
Impulsionado pelo aumento do uso de inteligência artificial, a quantidade de dados gerados anualmente hoje chega a zetabytes, ou trilhões de gigabytes. Isso vem aumentando a pressão sobre a capacidade de armazenamento digital, bem como alimentando uma enorme demanda por eletricidade dos centros de dados do mundo.
Algumas empresas como Amazon, Google e Microsoft estão buscando acordos de fornecimento de energia nuclear para atender às suas necessidades de dados na nuvem.
A nova técnica de armazenamento de dados de DNA tem o “potencial de contornar as limitações de tempo e custo das abordagens convencionais”, de acordo com comentário também publicado na Nature.
Mas o método ainda suscita dúvidas, segundo Carina Imburgia e Jeff Nivala, da Universidade de Washington. Entre elas a estabilidade a longo prazo das bases quimicamente alteradas e dos processos complexos necessários para copiá-las e —em algumas circunstâncias— lê-las.
“O custo total do novo sistema excede o do armazenamento de dados de DNA convencional e dos sistemas de armazenamento digital, limitando aplicações práticas imediatas”, disseram eles. “Abordar as questões pendentes ajudará a tornar o sistema mais prático para uma ampla gama de usos.”
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A IA não está apenas realizando tarefas, ela pode completar fluxos de trabalho inteiros. Veja como podemos redefinir o trabalho na era da IA
LARS SCHMIDT – Fast Company Brasil – 26-10-2024
Imagine um mundo em que seu colega digital lida com fluxos de trabalho inteiros, adapta-se a desafios em tempo real e colabora perfeitamente com sua equipe humana. Isso não é ficção científica – é a realidade iminente dos agentes de IA no ambiente de trabalho.
Como Sam Altman, CEO da OpenAI, previu corajosamente em seu evento anual DevDay, “2025 é o ano em que os agentes de IA trabalharão”. Mas o que isso significa para o futuro do trabalho humano, das estruturas organizacionais e da própria definição de trabalho?
De acordo com pesquisa do The Conference Board, 56% dos trabalhadores usam IA generativa no trabalho e quase um em cada 10 usa ferramentas de IA generativa diariamente. Conforme entramos nesse estágio de negócios habilitado para IA, é essencial entender o potencial transformador dos agentes de IA e nos desafiar a reconceituar a parceria homem-máquina.
Em última análise, o envolvimento da IA no ambiente de trabalho pode ser dividido em três grupos: bots, agentes de IA e trabalhadores digitais. Aqui está um guia de como cada um deles está impactando o mundo do trabalho.
BOTS
Bots são aplicativos de software programados para executar tarefas automatizadas. No contexto empresarial, os chatbots são frequentemente usados para simplificar as operações, aprimorar o atendimento ao cliente e melhorar os processos internos.
A maioria dos chatbots é programada usando Processamento de Linguagem Natural (NLP, na sigla em inglês) para interpretar e entender a linguagem humana e o aprendizado de máquina, o que permite que aprendam e melhorem com os dados ao longo do tempo.
Na última década, a adoção de bots em ambientes de negócios que abrangem saúde, varejo, bancos e uma série de outros setores teve crescimento exponencial. Espera-se que o mercado de chatbots salte de US$ 396,2 milhões em 2019 para US$ 27,3 bilhões até 2030.
Esse aumento no uso de bots pode ser atribuído aos avanços em PNL, ao aumento da demanda por suporte ao cliente 24 horas por dia, sete dias por semana, e ao crescente reconhecimento do potencial dos bots para aumentar a eficiência operacional em várias funções de negócios.
Embora os bots ofereçam inúmeros benefícios, eles também têm limitações que as empresas devem considerar. Um dos principais desafios é a possibilidade de não entender consultas complexas ou com nuances, o que pode levar à frustração do usuário e à disseminação incorreta de informações.
Os bots também podem ter dificuldades com situações que dependem do contexto ou com questões emocionalmente sensíveis, áreas em que a empatia e o julgamento humanos são cruciais. Por fim, há preocupações com a privacidade e a segurança dos dados, pois os bots geralmente lidam com informações confidenciais.
AGENTES DE IA
Um agente de IA é uma entidade ou programa de software autônomo projetado para perceber seu ambiente, tomar decisões e realizar ações para atingir metas ou objetivos sem intervenção humana.
Os agentes de IA estão prontos para levar a automação a níveis sem precedentes, transcendendo a simples conclusão de tarefas para gerenciar fluxos de trabalho completos, complexos e adaptáveis. Essa mudança representa um salto quântico em relação às tecnologias de automação tradicionais.
É ESSENCIAL ENTENDER O POTENCIAL TRANSFORMADOR DOS AGENTES DE IA E NOS DESAFIAR A RECONCEITUAR A PARCERIA HOMEM-MÁQUINA.
A rápida adoção de agentes de IA é impulsionada por seu potencial de aumentar a produtividade e a eficiência. Um relatório da McKinsey afirma que “cerca de metade das atividades (não trabalhos) realizadas pelos trabalhadores poderia ser automatizada”, com os agentes de IA desempenhando um papel crucial nessa transformação.
À medida que incorporamos os recursos de IA agêntica nas empresas, provavelmente desconstruiremos os trabalhos em tarefas individuais e identificaremos as que podem ser totalmente automatizadas por essas novas tecnologias e agentes de IA.
TRABALHADORES DIGITAIS
Os “trabalhadores digitais” são capazes de lidar com fluxos de trabalho inteiros, adaptar-se às necessidades em tempo real e colaborar com humanos de maneiras inimagináveis há alguns anos.
No início deste ano, a Lattice, uma plataforma de RH com inteligência artificial, foi criticada por propor um recurso que permitiria que as organizações fizessem registros de funcionários para trabalhadores digitais.
“Seremos os primeiros a fornecer aos trabalhadores digitais registros oficiais de empregados da Lattice. Eles serão integrados, treinados e receberão metas, métricas de desempenho, acesso a sistemas apropriados e até um gerente. Exatamente como qualquer funcionário”, compartilhou a CEO Sarah Franklin em uma postagem no blog da empresa anunciando o novo recurso.
Três dias depois, a Lattice publicou uma atualização informando que não iria mais incluir trabalhadores digitais no produto. O futuro estava aqui, mas não era um futuro para o qual estávamos preparados.
Talvez isso se deva a barreiras psicológicas. O conceito de “trabalhador digital” destaca as barreiras psicológicas para aceitar a IA como parte da força de trabalho. Ele ressalta a necessidade de uma integração cuidadosa e ponderada que respeite as preocupações humanas e, ao mesmo tempo, aproveite o potencial da IA.
MAIS DA METADE DOS TRABALHADORES USA IA NO TRABALHO E UM EM 10 USA FERRAMENTAS DE IA GENERATIVA DIARIAMENTE.
“A revolução da IA no ambiente de trabalho começou com ferramentas como o ChatGPT, apresentando às pessoas o potencial da tecnologia. Agora, estamos testemunhando o surgimento de agentes de IA que podem realmente executar tarefas, e não apenas ajudá-las”, diz Timur Meyster, cofundador e diretor de produtos da OutRival, plataforma alimentada por IA para equipes de experiência do cliente.
“Essa mudança está até redefinindo as métricas de sucesso, com as empresas agora medindo resultados como inscrições, reservas ou compromissos baseados no número de funcionários, demonstrando a poderosa sinergia entre a experiência humana e os recursos de IA”, diz Meyster.
Talvez a ascensão dos agentes de IA não seja apenas uma mudança tecnológica, mas filosófica: ela nos desafia a redescobrir a essência de nossa humanidade diante da inteligência artificial.
SOBRE O AUTOR
Lars Schmidt é fundador da Amplify, que auxilia empresas e executivos de RH a navegar pelo novo mundo dos recursos humanos, e da Amplify Academy, iniciativa que oferece programas de treinamento para lideranças.
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Rocha, que muitos chamam de ‘amaldiçoada’, saiu do Brasil em 2005, identificada como ‘betume e asfalto’; agora, Justiça dos EUA pode determinar sua devolução
Por Terrence McCoy – Estadão/The Washington Post – 27/10/2024
Muitas histórias extraordinárias foram contadas sobre a Esmeralda Bahia, grande parte delas falsas. Já foi dito que onças, ou algum outro animal feroz, atacaram uma carroça puxada por mulas que transportava a pedra pela selva brasileira. Também já foi apontado que a “máfia brasileira” empreende uma perseguição violenta para pegar o que se acredita ser a maior esmeralda do mundo.
Outra história até dizia que a pedra gigante foi engolida pelas águas da enchente do Furacão Katrina.
Essa é verdadeira.
Assim sempre foi com esta grande esfinge de uma rocha. Verdade e mentira. Bruta, desfigurada, misteriosa, frustrante: a esmeralda desafia as convenções. A rocha do tamanho de uma mini geladeira, cravejada de cristais verdes, não deslumbra; ela encanta. Muitos a cobiçaram. Alguns morreram cobiçando-a. Alguns foram enviados à prisão por ela.
Policiais de Los Angeles ao lado da Esmeralda Bahia Foto: Los Angeles County Sheriff’s Department
As pessoas, especialmente os jornalistas, gostam de chamar a coisa de “amaldiçoada”. Desde que foi arrancada de uma mina brasileira em 2001, o valor, significado e propriedade da Esmeralda Bahia têm sido disputados.
Alguns dizem que vale quase US$ 1 bilhão (R$ 5,7 bilhões). Outros dizem que vale quase nada. Alguns dizem que pesa 380 quilos. Outros dizem que são 340.
Mas agora, no Tribunal Distrital dos EUA para o Distrito de Columbia, pelo menos um assunto está à beira da resolução: quem é o dono. Uma batalha legal de uma década colocou o Brasil contra um pequeno consórcio de caçadores de fortunas que estão tentando impedir uma petição diplomática para retornar a rocha à sua terra natal.
O Brasil alega ser vítima de um crime. A rocha foi minerada ilegalmente e contrabandeada para fora do País. Advogados do governo, ecoando Indiana Jones, dizem que ela pertence a um museu.
“Não somos movidos por qualquer interesse financeiro,” disse Boni de Moraes Soares, promotor federal especializado em disputas internacionais. “Queremos enviar um sinal de que iremos atrás da propriedade nacional do Brasil onde ela estiver e responsabilizaremos traficantes internacionais, para que pensem duas vezes antes de cometer um crime tão ousado.”
Do outro lado estão três especuladores americanos de gemas que alegaram ser os legítimos proprietários da pedra por mais de 15 anos. Vencendo uma disputa separada de propriedade, eles dizem que não tiveram nada a ver com sua importação, mas a adquiriram legalmente em uma transação confirmada por um juiz civil de Los Angeles.
Um deles é Jerry Ferrara, um homem da Flórida que negocia imóveis e pedras preciosas. Por 16 anos, ele tentou lucrar com a esmeralda. Enfrentou o Departamento de Polícia de Los Angeles, um grupo de caçadores de gemas de pequena escala, ruína financeira — e não chegou mais perto de realizar suas ambições de fortuna.
“Eu sempre digo às pessoas, ‘Eu sou o homem pobre mais rico que você já conheceu’”, disse.
Mas, agora, ele e seu consórcio, a FM Holdings, estão enfrentando seu adversário mais assustador: a República Federativa do Brasil.
A terra das esmeraldas gigantes
A Serra da Carnaíba, uma cadeia de montanhas no Estado da Bahia, abriga um dos maiores depósitos de esmeraldas do mundo. Mas as pedras encontradas lá são diferentes das da Colômbia ou de Zâmbia. Elas são mais turvas e, como resultado, têm valor menor. Mas algumas também são muito maiores.
A mina de Carnaíba produziu cinco “esmeraldas gigantes”, segundo a mídia brasileira, cada uma pesando centenas de quilos.
Um dos comerciantes dessas pedras foi Alderacy de Carvalho. “Mais velho, duro, tinha o apelido de ‘O General’,” disse seu amigo Osmar Santos sobre ele. Atrás de sua casa, O General guardava, como o programa Fantástico, da Rede Globo, descreveu em 2012, uma “coleção rara de rochas.”
Nenhuma era mais rara do que a Esmeralda Bahia. Um bloco de xisto preto e cristais verdes, que parece mais um meteorito que uma esmeralda. O General, relatou o Fantástico, comprou-a por US$ 1.700 (R$ 9,69 mil).
“Desconhecemos uma peça tão rara e única, com os cristais de esmeralda tão bem formados”, relatou um geólogo contratado pelo Ministério de Minas e Energia brasileiro. “Deveria ser enviada para um museu mineral para que os brasileiros e turistas estrangeiros possam conhecer as riquezas produzidas no Brasil.”
Em vez disso, como mostram registros judiciais, o General a vendeu por US$ 8 mil (R$ 45 mil) para dois intermediadores. Eles a levaram para São Paulo e a armazenaram em uma oficina de carros desorganizada, onde o mecânico Antonio Luiz Fernandes de Abreu disse que ela passou anos “literalmente no caminho”.
Em 2005, os intermediadores a enviaram para os Estados Unidos na esperança de encontrar um comprador.
‘Como nada que eu já tinha visto’
Nos Estados Unidos, uma sucessão de especuladores amadores de gemas – um morava em um trailer com sua mãe idosa; outro era um encanador em Pasadena, Califórnia — tentou e não conseguiu encontrar um grande comprador.
Aí apareceu Ferrara, que recebeu a escritura da esmeralda com a promessa de dividir os lucros de qualquer venda com o encanador Larry Biegler.
Ferrara diz que, na época, estava quebrado e sem teto, abalado pelo colapso do mercado imobiliário. A esmeralda “era diferente de tudo que eu já tinha visto”, Ferrara escreveu em suas memórias não publicadas. “Para mim, era o equivalente a estar em uma sala com a Arca da Aliança.”
Mas as relações entre Ferrara e Biegler tornaram-se ácidas. Ferrara se juntou ao empresário de Idaho Kit Morrison, que investiu US$ 1,3 milhão por uma participação na venda.
Biegler disse à polícia que a rocha foi roubada e alegou que a “máfia brasileira” estava atrás dele. O Departamento de Polícia de Los Angeles encontrou a rocha e a apreendeu. Ferrara e Biegler disputaram sua propriedade. Um juiz em Los Angeles decidiu a favor de Ferrara e Morrison em 2015.
Biegler não respondeu a um pedido de comentário.
Enquanto os homens lutavam pela pedra, os EUA informaram as autoridades brasileiras sobre ela. O País, que perdeu mais de 900 relíquias culturais para traficantes e viu suas próprias riquezas naturais desfilarem por nações mais ricas, é sensível ao assunto. Abriu uma investigação criminal.
As autoridades, mostram os registros judiciais, descobriram que a primeira licença para minerar o local que produziu a Esmeralda Bahia não foi emitida até anos após sua descoberta. Que os especuladores que enviaram a rocha para os Estados Unidos a identificaram falsamente nos documentos de exportação como “betume e asfalto”. Que um especialista em gemas de São Paulo tinha dito a eles que valia US$ 372 milhões (R$ 2 bilhões), mas eles estimaram seu valor em US$ 100 (R$ 570).
Um tribunal brasileiro considerou os especuladores Elson Alves Ribeiro e Ruy Saraiva Filho culpados de contrabando e usurpação de propriedade pública e os condenou à prisão.
“Não somos uma colônia,” escreveu a juíza Valdirene Ribeiro de Souza Falcão. “Somos um país soberano. Nossas riquezas não podem ser distribuídas a inúmeros países a preços modestos.”
Esforços para contatar Ribeiro foram malsucedidos. Saraiva morreu.
O Brasil ordenou a apreensão da gema e invocou o Tratado de Assistência Jurídica Mútua, um acordo diplomático que obriga os signatários a auxiliar em questões criminais. Em 2015, os Estados Unidos pediram ao tribunal federal do Distrito de Columbia que a devolvesse ao Brasil.
O capítulo final
Apesar do suposto valor da esmeralda, ninguém nunca lucrou muito com ela.
Morrison, coproprietário da FM Holdings, espera que sempre seja assim. Ele passou 16 anos e gastou mais de US$ 2 milhões na busca de lucrar com a esmeralda. Mas, quando atendeu o telefone da reportagem, sua voz traiu resignação.
Nove anos após o Brasil buscar ajuda dos EUA para recuperar a pedra, uma decisão finalmente está próxima. O juiz dos EUA Reggie B. Walton anunciou que em breve emitiria sua decisão. A gema está prestes a deixar a custódia do Departamento de Polícia de Los Angeles. Mas Morrison, que estabeleceu suas credenciais de propriedade no Tribunal da Califórnia, não acha que será devolvida a ele.
“Eu venci e fui considerado o comprador de boa-fé da esmeralda,” ele disse. “Mas na vida, você pode vencer, e não vencer.”
Ele está sob o feitiço da pedra há tempo suficiente.
“Se é realmente um tesouro nacional, pertence ao Brasil,” ele disse. “É onde estou agora. Tenho de olhar para a realidade.”
Ferrara não quer ouvir. Acredita que ainda há uma chance. A Esmeralda Bahia ainda pode ser deles.
“Eu quero continuar a lutar?” ele perguntou. “Sim, absolutamente. Não passei 16 anos da minha vida nisso à toa.”
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Os líderes de Pequim estão trabalhando com os vizinhos regionais nas fronteiras oeste, norte e sul do país para desenvolver novas conexões ferroviárias e marítimas
Por Keith Bradsher – Estadão/The New York Times – 25/09/2024
A China tomou várias medidas nos últimos meses para avançar em seu ambicioso objetivo de se tornar o centro de comércio e transporte da Ásia.
A oeste, a China concordou em construir uma linha ferroviária na Ásia Central. Pequim também disse que ajudaria o Vietnã a planejar três linhas ferroviárias que levariam à fronteira compartilhada pelos países. E a China está tentando persuadir a Rússia e a Coreia do Norte a permitir a reabertura de um porto há muito tempo fechado no Mar do Japão.
Se forem bem-sucedidos, os planos darão à China laços mais estreitos com as economias do nordeste e sudeste da Ásia, do Oriente Médio e até mesmo do Ártico, as últimas etapas de sua Iniciativa Rota da Seda, que já dura 11 anos, para criar uma ordem global mais centrada na China.
Cada uma das iniciativas, de formas variadas, enfrenta obstáculos. O principal líder da nação, Xi Jinping, precisará de uma estreita cooperação dos países fronteiriços, alguns dos quais são politicamente voláteis, como o Quirguistão, ou isolados internacionalmente, como a Coreia do Norte. Os países vizinhos que há muito tempo desconfiam da China, como o Vietnã, precisarão ser tranquilizados.
Um empreendimento semelhante, uma linha ferroviária de três anos que a China forjou no Laos, no sudeste asiático, sem acesso ao mar, foi bem recebido por alguns por trazer um influxo de investimentos chineses em mineração e turismo para o país. Mas outros alertaram sobre o domínio chinês na economia do Laos.
“Eles acabaram tendo muitas terras, ou pelo menos usando muitas terras, e expulsando alguns dos habitantes locais”, disse Ja Ian Chong, professor da Universidade Nacional de Cingapura.
As novas iniciativas também seriam caras, e a China começou a enfatizar projetos menores da Rota da Seda em outros lugares.
Um fator central nos movimentos do país é sua relação geopolítica com a Rússia, cuja invasão da Ucrânia em 2022 ajudou e prejudicou os esforços da China para construir conexões de transporte regionais.
A Rússia agora depende da China para obter caminhões, drones e outros suprimentos para a guerra, e se tornou menos um contrapeso para a China nas lutas pela influência regional. Como os laços entre os dois países se estreitaram, incluindo até mesmo muitos exercícios militares conjuntos no Mar do Japão e em outros lugares, Moscou tem dado mais apoio diplomático aos projetos chineses, principalmente na curta fronteira russa com a Coreia do Norte.
No entanto, a guerra na Ucrânia gerou uma grave escassez de mão de obra na Rússia, atraindo trabalhadores da Ásia Central. O Quirguistão, em particular, ficou com poucos trabalhadores qualificados para construir a linha ferroviária que a China quer construir através de suas montanhas em direção ao Afeganistão e ao Irã.
“O problema não é apenas ter engenheiros e trabalhadores em número suficiente, mas um número suficiente de pessoas com o treinamento técnico e o histórico corretos para permanecer e trabalhar no Quirguistão”, disse Niva Yau, especialista no país no Atlantic Council, um grupo de pesquisa em Washington.
Mas o escopo coletivo dos projetos mostra como Xi está usando a infraestrutura para consolidar o papel da China como centro comercial e geopolítico da Ásia.
Em 6 de junho, a China concordou com um pacto que lhe deu 51% da propriedade da linha ferroviária planejada com o Quirguistão e o Uzbequistão dividindo o restante. Mas, embora o Quirguistão tenha dito que a construção começaria em agosto, ela já foi adiada.
A linha ferroviária começaria em Kashgar, em um canto empobrecido da região de Xinjiang, no extremo oeste da China. Em seguida, atravessaria as montanhas quase sem estradas do sul do Quirguistão até o Uzbequistão.
O terminal da linha no Uzbequistão, Samarkand, é o centro de uma rede ferroviária da era soviética que cruza a Ásia Central para ligar a Rússia ao Afeganistão e ao Irã e, além do Irã, à Europa. A linha planejada de Kashgar a Samarkand daria à China acesso mais fácil ao Afeganistão e às suas reservas de cobre e minério de ferro. A linha também ajudaria a China a vender carros e outros produtos manufaturados ao Irã por ferrovia em troca de petróleo, enviado à China por via marítima.
A China agora compra consistentemente 90% ou mais das exportações de petróleo do Irã todos os meses, disse Andon Pavlov, analista sênior de refino e produtos petrolíferos da Kpler, uma empresa de Viena especializada em rastrear as remessas de petróleo do Irã. A maioria das outras nações se recusa a comprar petróleo iraniano devido às sanções internacionais relacionadas ao programa de armas nucleares do país, o que faz com que o petróleo iraniano seja vendido com um desconto considerável em relação aos preços mundiais.
A mais de 3 mil quilômetros de distância da linha ferroviária planejada para a Ásia Central no Quirguistão, outras três linhas ferroviárias estão planejadas para se estenderem da fronteira sudeste da China até o Vietnã. Elas também podem gerar ganhos econômicos.
Corporações multinacionais e empresas chinesas transferiram a montagem final de muitos produtos, inclusive painéis solares e smartphones, para o Vietnã, a fim de contornar as barreiras comerciais contra produtos chineses erguidas pelos Estados Unidos e outros países. Mas os produtos químicos, os componentes e a engenharia de muitos desses produtos ainda vêm da China.
Isso criou uma demanda por ligações de transporte mais próximas entre a China e o Vietnã, além das rodovias e rotas de navegação que já os conectam. Por enquanto, espera-se que o envolvimento da China em ajudar o Vietnã a construir suas linhas de trem seja limitado.
Em uma declaração conjunta após a visita do novo líder do Vietnã, To Lam, a Pequim no mês passado, os países disseram que a China ajudaria no planejamento das linhas.
O projeto mais difícil para a China, mas com um potencial de grande retorno, está na tentativa de garantir o acesso ao Mar do Japão e ao Oceano Pacífico por meio do Rio Tumen.
Em meados do século XIX, a Rússia tomou da China uma grande área da Sibéria, incluindo uma faixa costeira de terra que vai do sul até a Coreia do Norte e obstrui o acesso do nordeste da China ao oceano. O rio Tumen corre ao longo de mais de 300 milhas da fronteira da China com a Coreia do Norte, mas as últimas nove milhas dele ficam entre a Rússia e a Coreia do Norte.
Uma ponte ferroviária baixa sobre o rio, que a União Soviética construiu às pressas durante a Guerra da Coreia para transportar suprimentos, bloqueou todos os barcos, exceto os de pequeno porte, desde então.
Substituir essa ponte por uma mais alta, que permitiria que navios oceânicos usassem o rio, é um sonho antigo dos líderes chineses. O objetivo é ligar o Oceano Pacífico a um porto em Hunchun, uma cidade chinesa sem litoral a alguns quilômetros acima do rio. Alguns moradores de Hunchun, como Zhao Hongwei, um investidor imobiliário, compartilham esse sonho.
“Se houver um porto, poderá haver comércio e poderemos nos tornar prósperos”, disse Zhao, 49 anos.
Para Pequim, a abertura do tráfego do Rio Tumen facilitaria o comércio com a Rússia, o norte do Japão e a costa nordeste da Península Coreana e até mesmo criaria novas rotas de navegação para a Europa, já que a mudança climática reduz a calota de gelo do Ártico.
“O rio Tumen, como a única passagem direta para o Mar do Japão, tem um valor estratégico extremamente alto”, disse Li Lifan, diretor-executivo de estudos russos e da Ásia Central na Academia de Ciências Sociais de Xangai.
Com a Rússia expressando uma nova disposição nos últimos meses para substituir a ponte, a grande questão agora é a postura da Coreia do Norte. Autoridades russas e norte-coreanas assinaram seu próprio acordo em 20 de junho para construir uma ponte rodoviária sobre o rio Tumen.
Alguns analistas estão céticos quanto à possibilidade de a Coreia do Norte concordar com a remoção da ponte baixa. O país há muito tempo tenta colocar a China contra a Rússia quando isso atende às suas necessidades geopolíticas. A Coreia do Norte, que já enfrenta a China ao longo de quase toda a sua fronteira norte, talvez não queira ver a influência chinesa no último segmento com a Rússia.
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“Mesmo que a China e a Rússia cheguem a um acordo, elas ainda terão de persuadir a Coreia do Norte”, disse Hoo Chiew Ping, especialista em Coreia do Caucus de Relações Internacionais do Leste Asiático, na Malásia.
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