Fabricante de semicondutores apresentou plano para ‘turbinar desenvolvimento de robôs humanoides’ em seu esperado evento anual
Por Carolina Nalin — O Globo – 19/03/2025
A Nvidia mostrou ontem que não vai se limitar aos chips para inteligência artificial (IA) generativa e computação quântica. Em sua conferência anual, que começou ontem e vai até sexta-feira, a empresa comandada por Jensen Huang deixou claro que vai navegar pela evolução da IA.
No GPU Technology Conference (GTC), em San José, na Califórnia, Huang disse que a Nvidia está trabalhando com a General Motors para usar IA em carros, fábricas e robôs de última geração.
— A próxima onda já está acontecendo — afirmou Huang. — Hoje vamos falar muito sobre robótica, uma IA que compreende o mundo físico. Essa capacidade de entender o mundo tridimensional permitirá uma nova era da IA.
O evento, que reúne empresários, desenvolvedores e especialistas do setor, foi chamado pelo jornal The New York Times de “Super Bowl da IA”.
Chip Blackwell Ultra
O CEO também revelou um projeto junto com empresas como T-Mobile e Cisco, no qual ajudará a criar hardware de rede sem fio, especialmente criado para uso com IA, para as novas redes 6G, sucessoras do atual 5G. Enquanto isso, Dell, HP e outras empresas farão os novos sistemas de supercomputadores pessoais com base nos chips da Nvidia.
Outra novidade foi uma nova plataforma chamada Isaac GR00T N1, que irá “turbinar o desenvolvimento de robôs humanoides”. O projeto, em parceria com Walt Disney e DeepMind (do Google), será aberto a desenvolvedores externos.
Huang também apresentou o sucessor para o principal processador de IA da Nvidia, o Blackwell Ultra. Essa linha de chips, prevista para o segundo semestre deste ano, será seguida por uma atualização ainda mais avançada, chamada de Vera Rubin, em 2026.
Futuro distante
Para William Castro Alves, estrategista-chefe da Avenue, embora os anúncios da Nvidia tenham sido relevantes para o setor de tecnologia, as novidades, especialmente no campo da robótica, não foram suficientes para empolgar o mercado. As ações da empresa, que caíam cerca de 2% antes do início da conferência, fecharam em queda de 3,3%, a US$ 115,53, em Nova York.
— Quando se fala de robótica, parece um ponto mais distante. Não teve um impacto tão relevante positivo na ação, no sentido de trazer novidades — disse Alves.
No caso dos novos chips, Alves lembra que a Nvidia tem reforçado a narrativa de que anualmente lançará uma nova geração. O objetivo é convencer investidores de que essa estratégia garante a continuidade do crescimento e da geração de resultados.
O estrategista-chefe da Avenue destaca que a Nvidia não se limitou a anunciar novos chips, o que pode indicar uma estratégia mais ampla:
— Não acho errado o que a Nvidia está fazendo, de tentar mostrar um pouco mais sobre outros segmentos. Especialmente depois do fenômeno do DeepSeek, que trouxe novos questionamentos.
Ele se referiu à startup chinesa DeepSeek, que disse ter desenvolvido um modelo de IA generativa bem mais barato que os das concorrentes, que usam chips da Nvidia.
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Ter bom caráter não tem a ver somente com ser íntegro e justo; remete sobretudo à capacidade de julgamento da pessoa e possui ao menos 11 dimensões. RH e líderes devem aprender a reconhecer todas elas e começar a avaliar caráter em contratações e promoções; um processo de dez passos pode ajudar
Mary Crossan – MIT Sloan Management Review Brasil – 1 de março de 2025
Olhe a Boeing, derrubada por más decisões de liderança, que comprometeram a qualidade e a segurança de seus aviões e a confiança do público, forçando a saída de seu CEO. O debate sobre quem deveria ser o próximo CEO da problemática fabricante de aviões, antes de Kelly Ortberg ser escolhido, concentrou-se nos méritos de engenheiros versus contadores. Mais uma vez, foram focadas as competências, mesmo com o aprendizado super recente de que “contratamos por competência e demitimos por caráter” quando deveríamos fazer o contrário. Mais uma vez, faltou um elemento nessa conversa: reconhecer se um líder tem boa capacidade de julgamento, ou discernimento, baseada no caráter.
Embora os gestores muitas vezes pensem que contratam pelo caráter, a maioria confunde isso com ajuste de valores. Eles tendem a dar muito peso a dimensões como motivação e responsabilidade e pouco a humildade e comedimento.
A falta desses atributos pode trazer toxicidade e julgamento pobre para o DNA da organização. Isso muitas vezes leva indivíduos com caráter forte a deixar a empresa.
É ainda mais verdade quando a corporação promove alguém com um conjunto limitado ou desequilibrado de comportamentos. Passa uma imagem ruim aos funcionários.
Não há dúvida de que a contratação, a demissão e a promoção moldam a cultura de uma empresa para melhor ou para pior. Simplificando, a cultura organizacional reflete o caráter dos indivíduos dentro dela.
Logo, levar isso em conta é um ponto de alavancagem. Eu já trabalhei com muitas organizações que buscam valorizar o caráter tanto quanto as competências em suas práticas de RH. Aqui, vou compartilhar algumas lições importantes.
Entenda as diferenças entre competência e caráter
Muitas pessoas acham que estão avaliando o caráter ao entrevistar candidatos porque avaliam alguns de seus elementos isoladamente, como coragem, junto com conhecimentos e habilidades tradicionais. Só que essa é uma perspectiva bastante limitada.
Minha pesquisa mostrou que o caráter compreende 11 dimensões interconectadas, com um conjunto associado de comportamentos observáveis. Além disso, trata-se de algo que pode ser desenvolvido [veja figura a seguir].
As dimensões do caráter
Entenda todos os aspectos do caráter e os comportamentos associados a eles
O ponto crítico está em avaliar o caráter de maneira abrangente, em vez de nomear algumas qualidades desejáveis isoladamente. Isso ocorre porque qualquer uma das dimensões do caráter se manifestará como um vício se não tiver a sustentação das outras dimensões.
Enfatizar a coragem e não a humildade é um exemplo de onde as coisas podem sair dos trilhos. Se altos níveis de coragem não forem controlados pela força da humildade, o resultado pode ser uma tendência ao julgamento imprudente.
Colocar as avaliações de caráter no mesmo nível de importância das avaliações de competências requer uma observação cuidadosa de como esses processos diferem. A pesquisa descobriu que, diferentemente das competências, que variam entre as organizações (e muitas vezes entre os níveis da organização), os atributos de caráter são universais.
As competências podem ser avaliadas independentemente umas das outras, já os atributos de caráter estão interconectados e precisam ser considerados de maneira holística. Para fazer isso bem, os gestores contratantes e os líderes de RH devem entender o que é caráter, como ele se manifesta e como pode ser desenvolvido.
Ao contratar com base na competência, a abordagem clássica é usar entrevistas estruturadas e padrões de avaliação associados para prever o que alguém pode fazer ou como o faria. Cada pessoa entrevistada durante um determinado processo é avaliada segundo a mesma régua para minimizar o viés do entrevistador e promover a objetividade.
Em contraste, o caráter é sobre alguém: quem é essa pessoa e como ela se tornou o que é. Ou seja, é exclusivo.
Não existe uma abordagem única para todos, com uma lista padrão de perguntas para avaliar o caráter de alguém. Em vez disso, as avaliações de caráter são conversas mais fluidas e personalizadas, sem deixar de ser objetivas e rigorosas.
O rigor e a objetividade vêm da extensa ciência que revela o que é caráter, como ele pode ser avaliado e desenvolvido e como pode ser incorporado nas organizações, incluindo as práticas de RH. As diferenças individuais surgem porque a história de vida de cada pessoa é diferente quando se trata do desenvolvimento de seu caráter.
Há outro ponto importante. Como o caráter não é estático, mas um hábito que está sendo desenvolvido ao longo da vida, a avaliação pode ser contínua e repetida, seja nas decisões de contratação ou promoção.
Como conduzir entrevistas com foco em caráter
A avaliação do caráter como parte do processo de avaliação dos candidatos a emprego precisa ocorrer separadamente da avaliação de competências, pois requer uma abordagem mais conversacional do que uma entrevista típica. Veja os dez pontos que devem ser considerado:
1. Prepare-se para entrevistas sobre caráter a partir do desenvolvimento do seu próprio caráter Uma das razões pelas quais as empresas enfrentam dificuldade para avaliar o caráter é que a maioria de nós tem uma compreensão bastante superficial do assunto, o que muitas vezes leva aos nossos próprios desequilíbrios nesse aspecto. Parte do trabalho de desenvolver o próprio caráter é observar o caráter dos outros e testemunhar exemplos de como deficiências e excessos se manifestam em certas escolhas e comportamentos.
Agora, atenção: como muitas pessoas descobrem ao longo da vida, uma vez que você enxerga uma coisa, é muito difícil deixar de enxergá-la. Só que enxergar muitas vezes exige que reconheçamos preconceitos nossos sobre os quais não temos clareza.
2. Trate uma entrevista sobre caráter como uma conversa Conduzi muitas entrevistas sobre caráter com atletas de alto potencial. Em um caso, eu me reuni com um treinador e um jogador de um time estudantil para uma entrevista. Depois de cerca de 30 minutos de conversa, eu estava pronta para encerrar.
O jogador ficou um pouco surpreso e perguntou se eu o entrevistaria formalmente, e o coach respondeu: “Acho que ela acabou de fazer isso”. Foi uma conversa tão genuína e interessante que não parecia uma entrevista.
3. Entenda que serão revelados tantoo caráter do entrevistado como o do entrevistador Não é incomum ouvir que as pessoas entrevistadas ficaram tão impressionadas com o entrevistador que isso as convenceu a ingressar na organização. Só que o oposto também pode acontecer.
Quantas empresas não afastam candidatos porque seus entrevistadores revelam algum desequilíbrio no caráter? Fique de olho no comportamento “interconectado” (parte da dimensão da colaboração), que é definido como “reconhecer e valorizar conexões profundas com outras pessoas em todos os níveis dentro da organização e da sociedade”.
Cultivar a capacidade de estar interconectado é um dos principais comportamentos que ajuda a canalizar nossa empatia e flexibilidade para começar a se relacionar com outra pessoa e fazer com que ela confie em nós no processo. Quão interconectado você pode estar ao entrar na conversa? Esse é um comportamento que você exerceu no passado? Se assim for, ótimo.
Caso contrário, haverá alguma distância que será mais difícil de ser percorrida, mas que pode ser vencida. Pense nos comportamentos associados a curiosidade, respeito e vulnerabilidade (como parte da humildade) e como serão positivos para a troca enquanto você explora a conversa. Comportamentos como pensar criticamente e demonstrar adaptabilidade (parte do julgamento) o ajudarão a processar o desenrolar da história.
As entrevistas sobre caráter são como descascar cebola; as camadas surgem à medida que se explora o passado da pessoa
4. Use perguntas de sondagem Não importa por onde você começa, as entrevistas sobre caráter são como descascar cebola, as camadas surgem à medida que se explora o passado da pessoa.
Por exemplo, se você começasse com uma pergunta ampla como “Por que a posição lhe interessa?”, você pegaria os vários tópicos que lhe permitiriam explorar as dimensões do personagem. Se um candidato falasse sobre quão inovadora é a organização e o quanto ele gosta de ser inovador, as perguntas poderiam buscar de onde vêm esses interesses e as principais influências que os moldaram.
Essas respostas tornam-se trampolins para explorar outras partes da história do candidato. Em nenhum momento você está perguntando diretamente sobre as dimensões do caráter. Em vez disso, você está tendo uma conversa geral com a pessoa sobre si mesma.
5. Observe os agrupamentos de dimensões e seus pontos fortes e fracos Podemos observar várias dimensões do caráter durante uma entrevista. Vivenciei isso em um treinamento. A conversa revelou a enorme energia da entrevistada e, portanto, minhas perguntas giravam em torno de descobrir mais sobre sua temperança.
Perguntei como ela normalmente lidava com frustrações e obstáculos. Em vez de revelar aspectos de paciência e calma, ela começou a falar sobre elementos de humanidade e colaboração, e então eu segui esse fluxo. Ela descreveu o que aprendeu sobre si mesma “como um constante trabalho em andamento”. Explicou que, quando ouvia as histórias das pessoas, conseguia encontrar um terreno comum para uni-las, apesar de suas diferenças.
Após a entrevista simulada, pedi aos 20 observadores que se reunissem em pequenos grupos para discutirem o que haviam observado do caráter da mulher e, em seguida, considerassem a próxima pergunta que fariam para explorar quaisquer áreas não examinadas. Houve um acordo unânime sobre o que eles viram e para onde iriam em seguida, embora as perguntas que colocariam fossem muito diferentes. Todos queriam explorar a dimensão da temperança.
É muito comum ter interpretações semelhantes de quais são os pontos fortes e fracos do caráter dos entrevistados. Quando há divergência, os entrevistadores podem realizar a devida diligência adicional pedindo referências para explorar áreas de preocupação.
Aqueles que fornecem as referências normalmente não entendem o que é o caráter ou como ele opera em excesso ou deficiência. Portanto, o entrevistador deve ter conhecimento sobre o caráter para investigar esses pontos.
6. Procure sinais de pontos fortes e fracos nas histórias dos entrevistados No exemplo anterior, a história da candidata revelou muita motivação, coragem e responsabilidade. Sua transcendência também estava visível porque suas experiências mostravam quem ela era: inspirada, otimista, criativa e orientada para o futuro.
Embora essas tenham sido as dimensões que apareceram nos primeiros minutos, as perguntas de sondagem revelaram muita colaboração, humanidade, humildade e integridade. Quando um entrevistador sabe como os músculos do caráter operam, ele pode explorar quais músculos uma pessoa flexiona regularmente e quais ela usa menos.
No caso dessa candidata, a temperança era o elo mais fraco. Sua entrevista revelou que ela estava ciente de que se comprometia além da conta e que às vezes esteve perto do esgotamento.
7. Observe se a integridade e a humildade estão à vista Essas conversas, que trazem à tona uma riqueza nas experiências autênticas das pessoas, são qualitativamente diferentes das entrevistas por competência, que muitas vezes podem parecer ensaiadas e superficiais. Quando um candidato está falando sobre si mesmo, há várias facetas do caráter que estão sempre em exibição.
Dentro da dimensão da integridade, você pode observar seu grau de autenticidade, transparência e franqueza. Você também pode observar a humildade e se a pessoa é reflexiva e autoconsciente. Embora cultivar o autoconhecimento seja fundamental, também é importante lembrar que, em excesso, ele pode se transformar em ruminação. Então, mesmo altos níveis de humildade precisam das outras dimensões do caráter para equilibrar essa força.
Muitas vezes me perguntam se alguém que tem maior autoconsciência tem uma vantagem em entrevistas sobre caráter, e a resposta é sim. Como todos os comportamentos de caráter, aqueles associados à autoconsciência afetam a disposição para liderar. Pessoas que não têm autoconsciência, entre outros comportamentos potencialmente fracos, terão sua capacidade de liderança comprometida.
Também me perguntam se alguém que se sente confortável falando sobre si mesmo tem uma vantagem, e a resposta geralmente é sim. Mas quando as respostas de alguém parecem histórias ensaiadas, isso indica que eles podem não estar dispostos a deixar as pessoas realmente “vê-los” – outra faceta importante da liderança que muitas vezes é negligenciada.
8. Chame de dois a quatro entrevistadores As entrevistas sobre caráter podem ser conduzidas individualmente, mas, quando outras pessoas participam, elas podem ajudar a validar as observações do entrevistador principal, assim como aliviar a pressão de fazer todas as perguntas.
Devido à natureza não estruturada dessas entrevistas, é particularmente útil ter alguém mais experiente liderando. Eu recomendo não fazer anotações durante a entrevista e, em vez disso, reservar um tempo imediatamente depois para consolidar as observações.
9. Determine a força geral do caráter com base na entrevista Após a sessão, os entrevistadores devem discutir e avaliar em qual das quatro categorias a seguir o candidato se enquadra: forte em todas as dimensões; fraco em todas as dimensões; desequilibrado, mas com autoconsciência para fechar as lacunas; e desequilibrado e em risco de se entrincheirar em seu comportamento.
Como o desenvolvimento explícito do caráter raramente é abordado em ambientes educacionais ou de emprego, não surpreende que muitas pessoas possam ser fracas em algumas áreas. Mas uma descoberta interessante que surgiu da pesquisa é que muitas pessoas que foram marginalizadas por sistemas que as prejudicam ou reprimem tiveram que cultivar com sucesso o caráter para navegar nesses sistemas.
Eu esperaria ver muito caráter desequilibrado ao entrevistar pessoas em níveis seniores. Afinal, a maioria das organizações tem ênfase rígida em algumas dimensões e não em outras.
10. Forneça feedback ao candidato após uma entrevista sobre caráter Quando os entrevistadores podem compartilhar feedback pós-entrevista, os candidatos geralmente o recebem como algo útil. Embora as sessões de feedback sejam opcionais, muitos candidatos aproveitam para aprender como seu caráter foi visto.
Uma candidata disse que, ao longo de sua carreira, ela foi instruída a diminuir o tom, mas isso não a ajudou a entender que ação precisava tomar. Ela finalmente aprendeu, em um contexto de avaliação de caráter, que seu alto impulso e coragem precisavam de mais apoio de sua humanidade e temperança. Em vez de diminuir a intensidade, ela entendeu que precisava fortalecer as duas dimensões.
O foco do feedback é compartilhar o que o comitê viu como pontos fortes e fracos. Como em qualquer cenário de feedback, algumas pessoas estão prontas para receber críticas construtivas, enquanto outras não, e isso por si só pode ser um reflexo do caráter.
É importante reconhecer que esse feedback é sobre o que foi visto na entrevista e não se destina a definir a pessoa. Por exemplo, alguém que está nervoso e interpretando mal o que está sendo dito e o que o entrevistador está procurando pode não se comportar de maneira autêntica, transparente e sincera (comportamentos associados à dimensão da integridade). Ter consciência disso pode ser uma visão valiosa para um candidato.
Finalmente, saber que existe um caminho claro para ajudar uma pessoa a fortalecer seu caráter é importante para ela pessoal e profissionalmente. Uma das descobertas mais importantes da pesquisa é que ele pode ser desenvolvido: alguém que revela desequilíbrios ou fraquezas em uma entrevista ou no trabalho pode trabalhar no fortalecimento dessas áreas.
Se desenvolver novas competências toma tempo, com o caráter pode haver uma correção de curso bastante rápida, principalmente em torno de desequilíbrios. Quando uma pessoa está preparada para se comprometer com o desenvolvimento de seu caráter, isso agiliza o processo.
Caráter deve pesar também na promoção
Abordei até aqui a avaliação de caráter em entrevistas de contratação, mas isso também é importante na hora de promover as pessoas. Na verdade, quando se trata de passar uma mensagem sobre quais qualidades a organização valoriza, a promoção é ainda mais importante que a contratação. Afinal, aqueles promovidos já são conhecidos pelos colegas, que têm uma opinião sobre seu caráter.
As decisões de promoção geralmente surgem de uma avaliação do desempenho de uma pessoa e sua prontidão para assumir mais responsabilidades. Muitas vezes, elas se concentram na competência em termos de resultados que ela entregou.
Aqui, também, podemos incluir o caráter. Uma empresa com a qual trabalhei usou avaliações de caráter e competência de 360 graus para identificar candidatos de alto potencial para promoção.
Uma avaliação revelou um líder competente, com pontos fortes em muitas dimensões do caráter, mas fraco em humildade, humanidade e colaboração. Ele era a pessoa mais competente na sala e conhecia o lado técnico do trabalho por dentro e por fora.
Seu desenvolvimento dependeria do fortalecimento de suas dimensões mais fracas de caráter. Ele concordou em assumir um posto no exterior em uma área que não conhecia, para que tivesse que se apoiar mais em sua humildade, humanidade e colaboração para liderar com eficácia. A experiência ajudou a fortalecer seu caráter para prepará-lo para a promoção.
CONSIDERAR EXPLICITAMENTE O CARÁTER, seja na contratação ou na promoção de pessoas, é uma prática incipiente, mas com recompensas significativas. Estou convencida de que colocar o caráter lado a lado com as competências nas organizações pode levar a um maior retorno sobre os ativos, líderes mais eficazes, maior segurança psicológica e maior comprometimento organizacional e engajamento no trabalho. Mas ainda são poucas as pessoas que entendem a visão baseada em pesquisas sobre o que é caráter ou como desenvolvê-lo, o que talvez as faça reagir a essas iniciativas com incerteza e apreensão.
Isso deve ser um sinal de alerta. É fácil reconhecer e fechar gaps de competência, mas muitas empresas têm voado às cegas em relação a caráter. Ocorre que caráter é algo que pode transformar a cultura de uma organização, para o bem ou para o mal. Trazê-lo abertamente para as práticas de RH, como contratação e promoção, dará aos gestores a oportunidade de transformá-lo em um ativo organizacional.
Mary Crossan
Mary Crossan é professora de liderança estratégica na Ivey Business School, da Western University (Canadá). Ela também é coapresentadora da série de podcasts Question of Character e cofundadora da Leader Character Associates.
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Corrida deve reunir 12 mil participantes, incluindo protótipos de 20 empresas, mas há requisitos
Por La Nacion — O Globo – 17/03/2025
Robô Tiangong corre ao lado de humano em Pequim — Foto: Reprodução La Nacion
Nova York, Paris, Londres, Berlim, Tóquio. Estas são algumas das maiores maratonas do mundo que acontecem anualmente. Mas não são as mais inovadoras. Nesse sentido, a China sai em primeiro lugar ao anunciar a primeira meia maratona em que humanos e robôs disputarão lugares no pódio.
A corrida acontecerá em abril em Pequim, especificamente na Área de Desenvolvimento Econômico e Tecnológico do Distrito de Daxing, conhecida como Beijing E-Town. A competição atrai 12 mil participantes, incluindo humanos e robôs de mais de 20 empresas diferentes.
Não é qualquer robô que pode participar: há certos requisitos. Por um lado, é essencial que os robôs tenham uma aparência humanoide. Além disso, devem ter entre 0,45 e 2 metros de altura. Também é essencial que as tecnologias tenham uma estrutura mecânica capaz de andar e correr sobre duas pernas. Parece um esclarecimento óbvio, mas não é. Alguns robôs podem vir com rodas, o que deixaria os humanos em total desvantagem.
Embora esta seja a primeira vez que uma corrida é realizada na qual os corredores competem formalmente com robôs, no ano passado, na Meia Maratona de Pequim, “Tiangong” — um robô humanoide — juntou-se aos humanos na reta final da corrida e cruzou a linha de chegada como um pequeno teste do que será visto na próxima edição.
Rivalidade
A grande questão desta era é: quando a tecnologia superará os humanos? De acordo com um estudo conduzido por pesquisadores especializados em inteligência artificial, há uma grande probabilidade de que inteligência de nível humano esteja presente em máquinas nos próximos 40 anos. E a questão permanece: o que acontecerá com os humanos?
Já existem vários exemplos em que o “aluno” superou o “professor”. Um dos casos mais famosos ocorreu em 1997, quando o Deep Blue, uma máquina desenvolvida pela IBM que conseguia analisar 200 milhões de posições por segundo usando computação bruta, derrotou Garry Kasparov, um histórico jogador russo, em uma partida de xadrez. A partida, disputada na cidade de Nova York, foi uma revanche de uma disputa que já havia ocorrido em 1996, quando Kasparov derrotou a tecnologia.
Seguindo essa linha, a tecnologia AlphaGo, desenvolvida pelo Google DeepMind, enfrentou o campeão mundial sul-coreano Lee Sedol em uma competição de cinco jogos do Go. O resultado terminou em uma vitória de quatro jogos contra uma derrota a favor da máquina, demonstrando seu claro potencial intelectual.
Mais recentemente, em 2018, o robô Curly derrotou um time sul-coreano em uma competição de curling, esporte que envolve lançar uma pedra de 20 quilos o mais próximo possível de um alvo no chão. A tecnologia foi desenvolvida por um grupo de pesquisadores da Universidade da Coreia do Sul e do Instituto de Tecnologia de Berlim e foi um grande sucesso, vencendo três das quatro partidas disputadas.
Nesse contexto, Eduardo Levy Yeyati, autor do livro Automatizados, refletiu em entrevista à RED/ACCIÓN que estamos em um momento em que devemos redefinir a relação que temos com as tecnologias e entender o valor que agregamos à medida que elas se tornam mais sofisticadas e começam a ocupar lugares importantes em nosso ecossistema.
— Não é a máquina no lugar do homem, é o homem como uma interface com a máquina e o homem habilitado pela máquina. Não adianta competir com a máquina. Temos que ser amigos — disse ele.
Mas imaginar um contexto em que vemos competições de robôs em vez de competições humanas é difícil.
“Há algo essencialmente humano que se perde quando atletas robôs praticam esportes”, escreveu Michael Cheng, especialista em IA e filosofia, em um artigo. “Obtemos um valor de entretenimento substancial, ou até mesmo aprendemos mais, ao observar alguém ficar confuso. O fato de os humanos cometerem erros é uma característica, não um defeito”.
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Presidente do IPT – Professor Titular e ex-Reitor do ITA
Não existe uma reunião sequer onde discutimos novas metodologias, técnicas de ensino, pesquisas de impacto ou políticas de inovação. Nos encontramos para discutir orçamento, métricas pra enviar para a CAPES, eleição para os cargos e as reformas dos banheiros. Não há líderes, mas gestores com a planilha debaixo do braço.
Sinto falta de ir a uma reunião onde eu saia inspirado e veja meus colegas igualmente. Quero falar sobre como motivar os alunos, quais são as tendências mundiais de pesquisa, para onde o mundo está indo. Se eu, que já tenho 50 anos de idade, estou achando a academia Brasileira puro tédio, imagine alguém de 18 anos de idade.
Sejam honestos, quem tem paciência para ir a um congresso acadêmico hoje em dia? Ver gente ficar passando powerpoint e falar as mesmas coisas de sempre. No final nunca concluem nada e ainda deixam um slide para pesquisa futura. Quando é que vão encontrar alguma descoberta que impacte a indústria? Quero ver patentes se tornando negócios e startups unicórnios.
Já passou da hora de as universidades ganharem autonomia de fato. Que autonomia é essa que não tem orçamento, não podem se autoavaliar e ficam inundados de burocracia, onde o professor na verdade está virando auxiliar administrativo doutor?
O Campus Universitário precisa transbordar de motivação e de novas iniciativas. Quando Kennedy quis anunciar que iriam chegar à lua, foi no ginásio da Universidade que ele fez o discurso, pois ali é um local para se apregoar boas notícias.
Por mais inspiração e menos transpiração em nossas universidades.
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Por João Lara Mesquita – Estadão – 10 de março de 202511
Extração de petróleo na Margem Equatorial, afinal, por que não?
Faz mais de uma década que discute-se a extração de petróleo na Margem Equatorial, a questão não avança. Antes, saiba que Margem Equatorial significa cerca de 2,2 mil quilômetros, desde o Estado do Amapá, na Região Norte, até o Rio Grande do Norte, no Nordeste Em 2023, o governo estimou que seria possível extrair 10 bilhões de barris de petróleo só do bloco 59 na Foz do Amazonas, que fica a 160 km da costa, e a mais de 500 km da foz do rio. No entanto, mesmo pedindo apenas para ‘pesquisar’, sondar a área, e confirmar ou não o potencial de barris, o Ibama negou a licença.
Técnicos do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) recomendaram que a chefia do órgão negue a licença à Petrobras para explorar a Margem Equatorial na região do Amapá. O Globorevelou a informação, posteriormente confirmada pela CNN.
De todo modo, a capacidade da Margem Equatorial se aproxima da do pré-sal. Este post certamente renderá discussões, mas era uma obrigação com nossos leitores. Também será mais uma oportunidade para o Mar Sem Fim expor seu pensamento e se distanciar ainda mais dos… “ambientalistas”.
23 plataformas na região do pré-sal e 126 bilhões para a sociedade
A propósito, hoje a Petrobras tem 23 plataformas nesta região. Segundo a empresa, ‘o pré-sal é um sucesso que gera resultados para a Petrobras e também para o país. Entre 2008 e 2023, a Petrobras pagou cerca de U$ 63 bilhões em participações governamentais, entre royalties e participações especiais, associados diretamente à produção do pré-sal. Além disso, outros U$ 63 bi foram pagos ao estado, para aquisição de blocos e direitos em ativos da atividade, em um total de 126 bilhões de dólares em retorno do pré-sal para a sociedade civil’. Em outras palavras, foi a sociedade que ganhou estes 126 bilhões de dólares. Será que somos tão ricos assim que não precisamos do dinheiro, possivelmente, ainda mais que nos rendeu o pré-sal?
“Inconsistências preocupantes para a operação segura”
Para o Ibama, há “inconsistências preocupantes para a operação segura” em uma área de “alta vulnerabilidade socioambiental”. Daí vem a negativa, apoiada pela grande maioria dos ‘ambientalistas’, entre outros. Contudo, para nós, esta é uma decisão ideológica, e não uma análise puramente técnica como deveria.
Veja o caso da Guiana, já abordado nestas páginas. Até então, o país figurava entre os mais pobres da América Latina. Em 2015, um consórcio liderado pela Exxon, que incluía a Hess e a chinesa Cnooc, fez uma grande descoberta no Campo Liza. Segundo o Financial Times, a produção deve garantir à Exxon um fluxo contínuo de petróleo bruto por décadas. Como resultado, a economia guianense cresceu a impressionantes 62,3% em 2022, a maior taxa do mundo. Na época, analistas de Wall Street classificaram o investimento como “o melhor negócio petrolífero da história moderna”.
Em 2023, a Guiana registrou o sexto maior PIB per capita das Américas, segundo o site especializado Trading Economics. Com um valor de 23.103 dólares, o país ficou atrás, nessa ordem, das Ilhas Caimã, Estados Unidos, Canadá, Bahamas e Porto Rico. No mesmo ano, o Brasil ocupou a 20ª posição, com 9.728 dólares.
Para nós, o maior problema segue sendo a polarização. Essa divisão extrema entre brasileiros apenas atrapalha, prejudica e paralisa o país. Enquanto isso, poucos veículos da imprensa ou perfis nas redes sociais mencionam a importância da Corrente Norte do Brasil.
A Corrente Norte do Brasil
A Corrente Norte do Brasil atravessa o Equador, transportando águas tropicais do hemisfério sul para o hemisfério norte. No entanto, essa dinâmica raramente aparece nas discussões sobre a possível exploração na Margem Equatorial. Em outras palavras, em caso de vazamento, há grande chance de o óleo nem sequer alcançar o litoral do país.
Especialistas falam com o Mar Sem Fim: Ilson da Silveira
O Mar Sem Fim conversou com o especialista Ilson da Silveira, Bacharel em Oceanografia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (1984), Mestre em Oceanografia (Oceanografia Física) pela Universidade de São Paulo (1990) e Ph. D. em Ciências da Terra – Oceanografia Física pela University of New Hampshire (1996).
A única pergunta foi: Se houver vazamento, para onde iria o óleo? ‘Alguns estudos simples de dispersão precisariam ser conduzidos (ou foram e eu não sei dos resultados) para afirmar com mais propriedade. Mas, em função da distância da costa dos blocos de exploração ao largo do Amapá e a presença da muito intensa Corrente Norte do Brasil, acredito que a grande chance é que o derramamento seja transportado para o hemisfério norte junto à corrente. Talvez este até possa alcançar a costa mais à frente, mas fora de águas territoriais brasileiras (mas mesmo assim me parece improvável). Para responder além dos “achismos” e de forma quantitativa, só com estudos de modelagem numérica’.
Alexander Turra, professor do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo
Também conversamos com Alexander Turra, professor do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo, e Chefe da Cátedra UNESCO de Sustentabilidade Oceânica.
Eis o que ele nos disse: ‘Participo de um grupo que vem buscando identificar contrapartidas que precisarão ser implementadas para que a eventual riqueza trazida pelo óleo trabalhe efetivamente na transformação da região para um futuro cada vez mais sustentável’.
Isso passa por, por exemplo pelo fortalecimento das Unidades de Conservação existentes (elaboração e implementação de planos de manejo, fundo de compensação ambiental…); ampliação das Unidades de Conservação para aumentar a proteção de ambientes pouco representados, fomentar à ciência (ex. aumentar a massa crítica nas universidades e institutos de pesquisa da região (previsão orçamentária), dar mais suporte aos cursos de graduação e pós-graduação sobre a temática na área; aumentar os recursos destinados à ciência; instalação e manutenção do Sistema de Vigilância da Amazônia Azul (SisGAAz/Marinha); fortalecimento do tecido social e dos processos participativos como uma estratégia de controle social para aplicação dos royalties; promoção da economia sustentável do oceano e zona costeira por meio da criação de uma agência de desenvolvimento da economia azul na região; e, finalmente, a aprovação da Lei do Mar (PL 6.969/2013)’.
Agora é conosco
Diante dessa realidade, da desigualdade e pobreza do Brasil e da vastidão da região Norte, não tenho dúvidas de que devemos seguir em frente.
Macapá enfrenta a pior infraestrutura de esgoto do país. Segundo o IBGE, apenas 15,5% da população tem acesso a saneamento por meio de rede geral, pluvial ou fossa ligada à rede. Os números são alarmantes: 174.996 pessoas dependem de fossas sépticas ou filtros sem conexão com a rede, 2.813 recorrem a outras soluções improvisadas e 389 sequer têm banheiro ou sanitário. A capital do Amapá ocupa a última posição no ranking de saneamento básico no Brasil. E, de acordo com o Instituto Trata Brasil, a cidade despeja diariamente no rio Amazonas o equivalente a 15 piscinas de esgoto in natura. Em toda a Amazônia, esse número salta para 831 piscinas por dia.
Agora imagine o impacto dos royalties da Petrobras caso as suspeitas se confirmem. Bilhões de reais poderiam transformar Macapá em um exemplo de saneamento universal no Brasil, além de viabilizar outras melhorias essenciais.
Marina Silva
Marina Silva, com seu messianismo e clara posição política, pode protestar, e daí? Sim, Marina é um ícone do ambientalismo nacional e internacional, tem uma trajetória de superação admirável, mas, como ministra do Meio Ambiente, é fraca. Seu foco se limita à Amazônia, ao Pantanal e à criação das famigeradas Reservas Extrativistas. Mesmo após mais de dois anos no cargo, nunca se pronunciou sobre o litoral e o mar territorial brasileiros, que seguem abandonados.
Em seu primeiro mandato, mais uma vez concentrou esforços na Amazônia e obteve sucesso. Foi nessa gestão que o desmatamento atingiu a maior queda já registrada. Em 2012, o governo anunciou uma redução de 83%, enquanto o INPE indicava 72%. Seja qual for o número exato, a queda foi impressionante.
No governo Lula 2, com o apoio decisivo do Itamaraty, Marina Silva consolidou o Brasil como um dos líderes nas discussões ambientais globais. Apesar das críticas à sua atuação interna, é preciso reconhecer esse e outros méritos.
Por outro lado, cometeu um grande erro ao desmembrar o Ibama para criar o ICMBio, numa homenagem a Chico Mendes. No entanto, deixou de estruturar os órgãos ambientais, que já eram precários e acabaram ainda mais sucateados, tornando-se quase inoperantes. E chega de Marina, o assunto é outro.
24 petrolíferas atuam na costa da Guiana e Suriname
É interessante notar que pesquisadores estimam um potencial de 20 a 30 bilhões de barris de óleo cru apenas na bacia Pará-Maranhão. Para comparação, as bacias de Campos e Santos têm reservas comprovadas e contingentes de 40 bilhões de barris.
O Estadão ainda lembrou que ‘desde 2015, 24 petrolíferas atuam na costa da Guiana e do Suriname em 60 pontos de exploração, sem nenhum incidente’.
“Intromissão ideológica”
O problema, diz o jornal em editorial, é que a zona cinzenta de discricionariedade política é também sujeita à intromissão ideológica. Boa parte da militância ambientalista considera a combinação Amazônia + petróleo – ainda que já haja extração na própria floresta e a perfuração solicitada seja a centenas de quilômetros da foz – inexoravelmente catastrófica, e há indícios de que o Ibama e a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, levaram em conta esses humores para transformar a controvérsia em uma espécie de cause célèbre.
Para encerrar, o Estadão lembrou que ‘o próprio Ibama participou do comitê que autorizou, há dez anos, a oferta de mais de 40 blocos na região que agora diz ser inviável.’
Segundo a Petrobras por enquanto o Brasil pretende explorar um poço de óleo e gás no Rio Grande do Norte. A Colômbia abriu onze poços exploratórios e oito descobertas de gás. Trinidad e Tobago tem 37 poços exploratórios e 21 descobertas de óleo e gás. a Guiana, 64 poços exploratórios e 42 descobertas de óleo e gás. O Suriname extrai em 40 poços e teve 19 descobertas de óleo e gás.Finalmente, a Guiana Francesa trabalha em sete poços exploratórios e teve duas descobertas de óleo. E, até o momento, ainda não houve qualquer acidente. Ou seja, o Brasil não pode ficar atrás, não temos como dispensar os bilhões que a Margem Equatorial pode render.
Potencial do petróleo e gás até 2050
Em outro editorial, o Estadão levantou questões que vale a pena destacar. Para começar, estima-se que, em 2050, o petróleo e o gás ainda representarão cerca de um terço da matriz energética global. Mesmo no cenário mais agressivo – e improvável – de descarbonização, os combustíveis fósseis ainda responderiam por 15% dessa matriz. A Empresa de Pesquisa Energética alerta que, se o Brasil deixar de explorar suas reservas potenciais, poderá perder R$ 5 trilhões entre 2031 e 2050.
Mais adiante, o editorial revela outros fatos importantes para esta discussão. Por exemplo, ‘o Brasil tem vantagens. Se boa parte do mundo precisa trocar o carvão por fontes limpas, o País já tem 48% de sua matriz energética ligada a fontes renováveis, enquanto a média mundial é de 15%’.
‘No mundo, o setor de energia responde por 70% das emissões de carbono. No Brasil, são 17%. O País tem áreas continentais fartamente servidas por água, vento, luz solar, biomassa e metais cruciais para a transição energética, e tem condições materiais de se tornar um exportador de hidrogênio verde e aproveitar a expertise com o etanol para desenvolver alternativas de biocombustíveis’.
E, então, vamos considerar os argumentos acima, ou persistirá a divisão? Queremos saber a sua opinião, participe, é importante para o País que todos se manifestem. Vamos lá?
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Como a Velocidade de Entrega Define o Sucesso no Varejo Digital
Junior Borneli – Entrelinhas/StartSe – 13/3/2025
Se você acha que preço é o fator decisivo na escolha de uma loja online, pense de novo. No mundo acelerado do e-commerce, a rapidez da entrega tornou-se um diferencial tão ou mais importante do que o valor pago pelo produto.
Pesquisas mostram que consumidores estão dispostos a pagar mais para receber seus pedidos rapidamente e, muitas vezes, preferem uma loja que entregue em um dia, mesmo que tenha um preço um pouco mais alto.
A Amazon e o Mercado Livre entenderam essa nova dinâmica do mercado e transformaram a logística em uma arma estratégica. A Amazon Prime, por exemplo, revolucionou o setor ao oferecer frete grátis em 24 horas para assinantes, o que não só fidelizou clientes como também elevou o padrão de exigência do consumidor.
Para cumprir essa promessa, a empresa investiu em sua própria frota de aviões, os Amazon Air, garantindo que os produtos cruzem países em poucas horas, sem depender de terceiros. São mais de 80 grandes jatos da Boeing.
No Brasil, o Mercado Livre seguiu um caminho similar. A empresa criou uma rede de logística própria, com centros de distribuição espalhados pelo país e, assim como a Amazon, investiu na sua própria frota de aviões, os Meli Air.
O resultado? Entregas ultra-rápidas que fazem com que milhares de consumidores escolham a plataforma apenas pela eficiência na entrega. Tempo é dinheiro, mas é também diferencial competitivo no mundo onde tudo é rápido.
Uma pesquisa da PwC revelou que 41% dos consumidores estão dispostos a pagar mais por entregas no mesmo dia. Outra pesquisa, da Retail TouchPoints, mostrou que 87% dos consumidores consideram a velocidade da entrega um fator decisivo na escolha de onde comprar. Isso significa que, em muitos casos, o cliente não escolhe pelo preço, mas pelo tempo de espera.
Outras gigantes também entraram na corrida contra o tempo. O Alibaba, na China, criou uma malha de centros logísticos hiperconectados para reduzir ao máximo os prazos de entrega, garantindo que pedidos feitos de manhã cheguem ao consumidor no fim do dia.
Até mesmo empresas mais tradicionais como o Walmart, nos EUA, investiu pesado em sua própria infraestrutura de entrega expressa, permitindo que milhares de produtos sejam entregues em poucas horas.
A velocidade não é apenas um diferencial, é um fator de sobrevivência. No e-commerce, cada minuto conta, e a capacidade de entregar rapidamente define quem cresce e quem fica para trás.
Como disse Jeff Bezos, fundador da Amazon: “A melhor propaganda é um cliente satisfeito”, e nada deixa um cliente mais satisfeito do que receber seu pedido quase instantaneamente.
No fim das contas, a mensagem é clara: quem entrega mais rápido, vende mais. O tempo é o novo dinheiro do e-commerce, e quem não se adaptar a essa realidade vai ver seus clientes escolhendo a concorrência. Afinal, esperar nunca foi tão caro.
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Para a política do reshoring se sustentar, serão necessárias medidas mais agressivas de subsídios, discriminação e proteção, o que poderá empurrar a economia americana para um círculo vicioso de baixa inovação e baixa competitividade
Por Jorge Arbache – Valor – 13/03/2025
É professor de economia da Universidade de Brasília e foi vice-presidente de Setor Privado do Banco de Desenvolvimento da América Latina (CAF)
Parte da narrativa dos recentes governos dos Estados Unidos para justificar políticas protecionistas, discriminatórias e de subsídios que afrontam regras do comércio internacional é que o país estaria se desindustrializando em razão do modelo econômico implantado pelo governo chinês.
O presidente Donald Trump tem sido particularmente enfático: “Perdemos milhões de empregos no setor de manufatura por causa da China”; “Eles tomaram nossas fábricas, tomaram nosso dinheiro”; “Não podemos continuar a permitir que a China estupre nosso país, e é isso que eles estão fazendo. É o maior roubo da história do mundo”.
As estatísticas parecem dar suporte aos políticos. Em 1980, a participação da indústria no Produto Interno Bruto (PIB) americano foi de 21,2% e no emprego de 20,1%. Em 2023, os números tinham caído para 10,1% e 8,4%, respectivamente.
Mas um olhar mais cuidadoso revela uma história diferente. Nos anos 1980, coordenados com o governo, grandes conglomerados industriais americanos adotaram uma política de transferência de plantas industriais para a China, que então iniciava a sua jornada de transformação econômica e buscava investimentos e tecnologias. Houve uma combinação de interesses entre os dois lados, que levaria a uma das mais espetaculares mudanças econômicas contemporâneas. Os EUA entrariam com capital, máquinas, tecnologias, modelos de negócios e gestão, e a China entraria com mão de obra, então extremamente abundante e barata, e condições regulatórias, logísticas e de infraestrutura bastante vantajosas.
O modelo mais que atendeu aos interesses dos investidores. Estudos de caso mostraram reduções médias de custos operacionais entre 30% e 50% e, em alguns casos, reduções muito maiores. Estima-se que as margens operacionais médias e os retornos médios anuais das ações das empresas que adotaram a estratégia foram, respectivamente, 15% e 7% maiores do que os de empresas similares do mesmo setor que não seguiram aquela estratégia.
A redução de custos e o aumento da escala de produção permitiram que empresas como Apple, Nike, Dell, HP e tantas outras alcançassem o mercado global e se tornassem líderes quase imbatíveis de seus setores, algo impensável se a produção fosse nos EUA. Os produtos saíam das fábricas como “Made in China”, mas seria mais acurado saírem como “Made by the United States in China”. Diante do enorme sucesso empresarial, conglomerados europeus e japoneses também abraçaram a estratégia, que viria a ser conhecida como “offshoring”.
A política do offshoring, combinada com mudanças tecnológicas, como contêineres e internet, flexibilizações regulatórias e financeiras, entre outras, catapultaria para as alturas o modelo de cadeias globais de valor liderado pelos EUA.
Mais adiante, o país levaria esse modelo para uma segunda etapa, desta vez, focado em setores específicos para atender especialmente ao próprio mercado americano. Assim surgiriam as cadeias regionais de valor da América do Norte. O caso mais conhecido do modelo é o do setor automobilístico, que desenvolveu uma sofisticada cadeia de valor envolvendo os três países do norte no âmbito do então acordo comercial Nafta.
A política de cadeias internacionais de valor transformou profundamente a indústria americana. Em vez de plantas industriais, os EUA passaram a se concentrar em serviços e na gestão de cadeias de valor. Em vez de peças, partes e montagem, a ênfase passou para P&D, softwares, patentes, design, marcas, marketing, vendas, financiamento, seguros e tantos outros serviços que são parte crítica das modernas cadeias de valor e que são o filé-mignon do comando, controle e retorno do capital.
É improvável que o reshoring recupere a indústria manufatureira americana em um horizonte previsível. Pense no iPhone. Embora o telefone seja embalado e despachado para os mercados globais desde a China, estima-se que esse país fique com entre 5% e 10% do valor adicionado de cada telefone. No caso do México, que é um hub de exportação de automóveis com várias dezenas de grandes plantas, estimativas apontam que o país responderia por até 15% do valor final de cada carro que envia para os EUA. Tanto em um caso quanto no outro, a maior parte da agregação de valor vai para o maestro da cadeia de valor.
Portanto, a indústria americana encolheu, em boa parte, como resultado de políticas corporativas de otimização de custos e maximização de lucros e da busca por alcance global. Isso nada tem a ver com “roubo” de empregos.
Embora a típica família americana tenha se beneficiado da enxurrada de manufaturas baratas importadas, a política de offshoring prejudicou setores da classe média. A perda de empregos industriais foi especialmente marcante em estados críticos para as eleições majoritárias, o que teria implicações políticas importantes. O setor de serviços voltados para a indústria pouco absorveu os trabalhadores que perderam os seus empregos, pois não tinham a qualificação e o conhecimento específicos.
A crescente liderança da China em vários setores industriais e os problemas de suprimentos durante a pandemia somaram-se às dores da desindustrialização para dar origem, poucos anos atrás, à estratégia política populista do “reshoring”, qual seja, trazer de volta as plantas industriais que estavam na China. As promessas eram recuperar empregos “roubados” e conter a China.
Mas é improvável que o reshoring recupere a indústria manufatureira americana em um horizonte previsível. Empresas que fecham as portas na China para reabrirem nos EUA o fazem com uso intensivo de robôs e IA. Custos trabalhistas mais elevados e carência de infraestruturas, ecossistema industrial e fornecedores de peças e partes deverão tornar a tarefa mais árdua. As políticas antimigratórias e as tarifas comerciais adicionarão ainda mais amargor a esse caldo.
Para a política do reshoring se sustentar, serão necessárias medidas mais agressivas de subsídios, discriminação e proteção, o que poderá empurrar a economia americana para um círculo vicioso de baixa inovação e baixa competitividade. Não seria exagero prever que tudo isso levará a mais guerras comerciais e a frustrações populares.
Jorge Arbache é professor de economia da Universidade de Brasília (UnB) e escreve mensalmente às quintas feiras neste espaço.
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Presidente do IPT – Professor Titular e ex-Reitor do ITA
Abro uma reflexão hoje sobre uma questão essencial. Quem é o cliente final da Universidade?
Considero que alunos, professores, empregadores e governo são clientes intermediários, mas há objetivos que transcendem as necessidades desses stakeholders.
Muitas privadas focam demasiadamente nos alunos. Buscam reduzir as mensalidades, fazer vestibulares bem acessíveis e cursos rápidos sem estresse. Como Professor do ITA há 20 anos, considero que se a gente fosse focar apenas no desejo dos alunos, acredito que o modelo da escola já teria implodido há muito tempo.
Vejo que algumas públicas vivem para satisfazer seus professores. Conselhos gigantes, longas reuniões, várias instâncias consultivas, eventos pomposos com citações nominais a celebridades acadêmicas e prêmios infindáveis. Muitas universidades tem se perdido no corporativismo acadêmico e deixado de entregar de fato o que é necessário.
Há quem diga que a universidade deva atender ao mercado de trabalho, mas quem garante que os empregadores estão corretos nas suas especificações de profissionais? Vejo no caso da Engenharia, que se a gente fosse ouvir algumas empresas, principalmente aquelas multinacionais que deixam os Centros de Pesquisa na matriz, a gente só iria formar Engenheiro para trabalhar no chão de fábrica.
Finalmente, é inevitável que as universidades atendam o governo e suas regulações. Inclusive muitas instituições tem abdicado de suas missões próprias para atender regras, mesmo que isso signifique sacrificar seus propósitos principais. Lembro que certa vez um coordenador de pós-graduação do ITA queria descredenciar dois professores do programa porque não tinham o número de papers mínimo necessário, apesar de um deles estar construindo um satélite Brasileiro, em parceria com a NASA e outro estava apoiando no desenvolvimento do cargueiro KC-390. Claro que não autorizei tal atrocidade.
Portanto, atender os clientes intermediários não é suficiente. Temos que pensar na verdade é no cliente final, que é a sociedade Brasileira. É assim que eu pensava quando era Reitor do ITA. Já tive situação em que tive que dizer não concomitante a vários stakeholders, em prol de nossa missão institucional, pois a gente não assume uma função dessas para agradar a todos, muito pelo contrário.
Sempre que estivermos na dúvida sobre quem é o cliente final da universidade, lembremos dos Bilhões de reais que vem dos pagadores de impostos anualmente. Gente simples, que acorda de madrugada para sustentar as famílias e precisa ao mesmo tempo nos bancar na universidade pública com a parcela de impostos provenientes de seus baixos salários. Por isso, todos precisamos focar no bem estar da sociedade e gerar conhecimento e entregas que lhe sejam úteis em retorno.
Gostei da definição de cliente que ouvi quando visitei uma universidade asiática: “aqui só fazemos pesquisas que interessem ao país”. Que tenhamos isso em mente quando formos montar nossos projetos universitários.
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Pequenas empresas, com bom funcionamento, vão construindo modelos especializados
Pedro Doria – O Globo – 11/03/2025
Dois dos lançamentos mais recentes de inteligência artificial nada têm a ver com as grandes empresas. Não tem OpenAI ou Anthropic, Google ou Meta, não tem nem xAI. Um é um modelo americano para conversação por voz, o Sesame. O outro, chinês, se chama Manus e promete ser o primeiro agente realmente autônomo de que temos notícias. São, ambos, dois lançamentos, um com duas semanas, o outro com menos de uma.
Poderíamos jogar na lista ainda um terceiro, o Mistral Saba, modelo de linguagem de grande porte construído na França, não muito distinto do GPT ou do Gemini ou dos muitos que todos temos usado. Com uma distinção: o Mistral Saba foi treinado em árabe. É fluente na língua, falada por 300 milhões, idioma oficial de 26 países. Um modelo nativo sempre fala melhor do que aqueles que traduzem, produz textos menos artificiais, faz diferença no dia a dia. A IA está se fragmentando, se distribuindo e avançando mais rápido do que era esperado.
Talvez, desses lançamentos novos, o mais relevante seja o Manus. No vídeo em que o anunciam, os engenheiros chineses dão um exemplo de sua capacidade. Partem de uma ordem simples: pegue estes muitos currículos aqui, compare as carreiras e o potencial de cada um dos candidatos e sugira quem melhor se encaixa no perfil da empresa e por quê. Parece trivial para uma boa IA, só que o Manus faz o que nenhuma IA de hoje consegue. Analisa cada um dos textos, aí escreve um código para fazer uma comparação e roda o programa, chega a suas conclusões, abre o software de e-mail e envia para uma série de executivos suas avaliações.
O que Manus consegue é controlar o computador. E faz isso pensando. Não fica preso dentro de uma janela, como os modelos que usamos hoje. Faz buscas na web, abre planilhas, escreve programas e depois os roda, captura as conclusões, abre o software de e-mail, escreve uma mensagem e decide para quem tem de mandar. Poderia entrar no banco e fazer uma transferência todo dia 5 ou escolher em que data é melhor comprar passagem numa determinada companhia aérea. Agentes são isso. Recebem um pedido, assumem o comando de nosso computador e fazem aquilo que pedimos. Não estávamos longe deles. Tanto Google quanto OpenAI prometem, ainda para este ano, lançar algo que chamam de agentes. Só que veio de uma firma chinesa desconhecida quando ninguém esperava. Uma empresa que nem estava no mapa.
Aí vem o Sesame, com duas vozes, uma masculina chamada Miles, outra feminina, Maya. Ele bate papo, só isso. Conversa por voz. E é inglês, não domina outra língua. Mas conversa numa fluência que nenhuma outra IA havia conseguido, nem o excelente Advanced Speech do ChatGPT. É conversa de jogar fora mesmo, sobre o que o humano desse lado da tela quiser, com trejeitos, sorrisos, pequenas pausas e aqueles sons de apoio que usamos para preencher o vazio enquanto construímos o raciocínio.
Mesmo o Mistral, que aparentemente não tem nada demais, pois só fez em árabe o que outras companhias já haviam feito em inglês, mostra um avanço incrível. Afinal, demonstra aquilo que o DeepSeek chinês já insinuava. Está ficando muito mais barato, muito mais rápido e muito mais fácil treinar um grande modelo de linguagem (LLM). Os planos brasileiros de treinar IA em português precisam ser refeitos porque tudo o que parecia ser necessário no segundo semestre do ano passado não é mais. A coisa simplificou.
Há menos de um ano, parecia que as grandes inovações estavam nas mãos de grandes corporações com bolsos sem fundo. OpenAI (ChatGPT) e Google (Gemini) ainda são líderes incontestáveis. Os produtos com a marca GPT, no agregado, seguem mais à frente que os outros. Ainda representam a melhor suíte de produtos baseados em IA que existe no mercado. Mas a distância vai apertando e, ao que parece, pequenas empresas, com bom funcionamento, vão construindo modelos especializados superiores ao que as suítes oferecem.
Para quem precisa usar IA, principalmente empresas, isso muda o jogo. Aponta para um mundo em que, em vez de contratar um grande pacote de um único fornecedor, iremos para um mercado fragmentado. Mostra que produtos regionais podem ter mais relevância para usos específicos que os americanos ou chineses. E, sim, essa é uma boa notícia para o mercado brasileiro de IA, que, potencialmente, poderia contar com empresas locais, relevantes, oferecendo algo que as estrangeiras não conseguem.
Falta, para isso, claro, equipamento. Afinal, não temos parques de servidores e comprar computador é sobretaxado de forma excessiva.
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Na empresa fundada por Jeff Bezos, o objetivo era criar um chip capaz de diminuir as taxas de erros. Na computação quântica, a informação é processada por meio de qubits, que, ao contrário dos bits da computação clássica (como a dos smartphones), exibe diversos estados entre 0 e 1. É como se os bits fossem uma lâmpada se só é capaz de ficar acesa ou apagada, enquanto os qubits são uma lâmpada dimerizada, exibindo diferentes estados de iluminação entre a ausência e a presença total de luz. No entanto, os qubits são bastante instáveis e o Santo Graal da indústria é conseguir torná-los estáveis ao ponto em que as máquinas se tornem úteis fora dos laboratórios.
Desenvolvido durante cinco anos, o Ocelot usa um método de oscilação de qubits para diminuir a taxa de erro desses componentes, facilitando a construção de um chip com capacidade de processar fórmulas longas e complexas para os computadores comuns. É a missão perfeita para Brandão. Há nove anos, ele ocupa a cadeira máxima da Divisão de Teoria Física, Física, Matemática e Astronomia do Instituto de Tecnologia da Califórnia (Caltech). A escolha não é à toa: professor do Caltech e prêmio Nobel de Física de 1965, o americano Richard Feynman, foi quem deu os primeiros passos na computação quântica.
Filho do meio de um casal de professores universitários – o pai é professor de literatura e língua grega; a mãe, de filosofia – Brandão apresentou o Ocelot em um momento crucial para a área. É hora dessas máquinas mostrarem que são capazes de levar a descobertas que transformarão o mundo. Ele conversou com o Estadão sobre o tema em videochamada de sua casa na região de Los Angeles, EUA.
“As pessoas comentam que é uma competição entre os Big Techs e, claro, tem um pouco disso. Todo mundo quer progredir. Mas acho que, no caso da computação quântica, realmente não é uma maneira de pensar nisso. É muito gratificante ser parte desse time e ser parte da comunidade de computação quântica em geral, que pode contribuir para avançar a humanidade de alguma maneira, tentando construir esse novo tipo de computador”. Veja abaixo os melhores momentos da conversa.
A computação quântica já faz parte da sua rotina há muito tempo. Como é ver um chip desse tipo, como o Ocelot, em funcionamento?
É um momento muito bom. A gente começou esse projeto na Amazon há uns cinco anos e o objetivo de longo prazo é construir um computador quântico que traz benefício pra sociedade. E, claro, não somos os únicos tentando fazer isso e, como todo mundo trabalhando na área sabe muito bem, isso é um desafio tecnológico incrível.
Por que investir em computação quântica?
As leis da física quântica são muito diferentes da física que a gente observa no nosso dia a dia. E essa diferença pode ser usada para fazer uma computação de uma maneira muito mais eficiente para algumas aplicações importantes para sociedade, como criptografia ou ciências materiais, por exemplo. Algumas delas são muito, muito difíceis para os nossos melhores computadores. Algumas delas são, na verdade, impossíveis para os computadores que a gente tem hoje em dia, mas o computador quântico conseguiria resolvê-las. Então, todo esse esforço para construir um computador quântico, uma vez alcançado, vai se transformar em uma tecnologia transformadora para sociedade.
A Amazon anunciou que a tecnologia usada nesse chip quântico é a de correção de erros. O que isso significa?
Desde o começo desse projeto, a Amazon já entendia que sem correção de erro, computadores quânticos não vão trazer benefício para sociedade. Depois de muitas tentativas, muita ciência junto com engenharia, a gente conseguiu implementar uma correção de erros sem a necessidade de tantos qubits, e isso é o que o Ocelot demonstra. Correção de erro é uma ideia que já existe em tecnologia normal, mas a gente quer a versão quântica disso. E a gente sabe como fazer isso em princípio, mas tem um preço que você paga. E o preço que você paga é que para cada qubit que você quer ter no seu computador, você precisa construir vários qubits no laboratório para que ele “absorva” os ruídos. O Ocelot implementa um novo tipo de correção de erro que chama correção de erro quântica bosônica. A ideia é que, inventando uma nova maneira de fazer correção de erro quântica, a gente consiga reduzir em 10 vezes o excesso de qubits necessários para fazer correção de erro numa escala de utilidade prática. Então, no momento, é um protótipo, é um chip com correção de erro funcionando, mas pequeno ainda. E o que a gente tem que fazer agora é escalonar esse chip. Mas essa nova estratégia que a gente achou vai permitir que a gente faça isso de maneira muito mais eficiente do que antes.
Como isso foi possível de ser feito?
Nesse chip temos fótons que se posicionam como se tivessem entre dois espelhos, em que eles batem várias vezes. Isso é o ‘oscilator’, eles oscilam entre essas cavidades, entre esses dois espelhos. O que a gente consegue ver é que quando a gente coloca mais fótons lá, ele se torna mais robusto para erros, para um tipo de erro pelo menos. O que a gente conseguiu fazer, usando esse tipo de qubit, foi corrigir um desses tipos de erro diretamente no nível do qubit. Então, a gente consegue construir um qubit que só tem o mesmo erro que os bits clássicos. E aí a gente pode usar só um código de correção de erro tradicional para resolver esse tipo de ruído. Resumindo, a gente desenvolveu um novo tipo de qubit que só é suscetível a um dos dois tipos de erros que normalmente a gente tem no computador quântico.
Qual foi o maior desafio que vocês encontraram nesse projeto?
O maior desafio foi esse tipo de qubit especial, chamado “qubit gato”. Já se sabia que eles poderiam ser úteis para correção de erro quântico, eles são mais robustos que outros tipos de qubits, mas era muito difícil fazê-los de uma maneira escalável, colocar vários deles num chip e implementar o código de correção de erro. E acho que isso foi a maior inovação que a gente conseguiu fazer. A gente conseguiu fazer esses “qubits gato” mas de uma maneira escalável, onde a gente pode colocar vários num chip, conectá-los, fazer eles funcionarem e aí ter essa correção de erro mais eficiente.
Estamos em um momento em que temos visto com mais frequência descobertas no mundo da computação quântica. Esses anúncios ficarão mais comuns?
Sim. Tem bastante interesse na área e a gente chama de “moonshots” todos os projetos, porque o objetivo final ainda está bem no futuro para todo mundo, ainda precisa de muito desenvolvimento, não importa qual é a plataforma que você está considerando. Também tem todos esses grupos e empresas diferentes porque tem muitas ideias de como construir o computador quântico. E qual dessas ideias vai ser realmente a melhor e vai construir o primeiro computador quântico? Isso só a história vai falar para a gente. Na Amazon, a gente se sentiu muito bem trabalhando com versões futuras do Ocelot. Mas eu acho muito bom que tenham outras pessoas tentando outras abordagens e isso faz a área de computação quântica ser interessante, com muita coisa acontecendo e muitas vezes a gente vê também uma plataforma ou uma abordagem para construir um computador quântico influenciando a outra. Então, eu acho que é um momento realmente de muito aprendizado, de muita construção e que bom que há todo esse investimento, porque sem isso não tem como progredir em uma área de tecnologia igual essa.
Qual o cenário futuro da computação quântica para os próximos anos?
Todo esse trabalho, todo esse esforço é para atingir um objetivo final que é construir um computador quântico que, um dia, vai trazer benefícios para a sociedade – e isso significa resolver alguns problemas de interesse da sociedade que são totalmente impossíveis para os computadores que a gente tem hoje em dia. Com certeza é um objetivo muito valioso, que vale a pena investir, mas vai demorar muito tempo ainda, não é uma questão de alguns poucos anos. Ao mesmo tempo, por causa de todo esse investimento e todo o interesse, estamos em uma curva exponencial de desenvolvimento. É muito difícil prever, mas eu vejo todos os passos necessários para chegar lá acontecendo, e talvez isso comece a acontecer mais rapidamente no futuro.
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