Lucro da Embraer cresce quase 700% em 2024 e empresa está usando IA para enfrentar gargalos na cadeia de suprimentos

Fabricante brasileira de aviões atingiu maior carteira de pedidos de sua história, que chegou a R$ 152,9 bilhões

Por João Sorima Neto — O Globo – 27/02/2025

C-390 Millennium da Embraer: empresa quer fabricar até dez unidades do avião multimissão por ano até 2030C-390 Millennium da Embraer: empresa quer fabricar até dez unidades do avião multimissão por ano até 2030 — Foto: Divulgação

No ano passado, as ações da fabricante de aviões brasileira Embraer subiram mais de 160% refletindo os números positivos e históricos que a empresa obteve no período. A empresa encerrou 2024 com lucro líquido de R$ 2,6 bilhões, quase 700% de crescimento em relação aos R$ 333 milhões registrados no ano anterior. As ações da Embraer sobem mais de 11% na B3.

A companhia também informou que sua carteira de pedidos atingiu US$ 26,3 bilhões (R$ 152,9 bilhões) o maior valor desde que a empresa foi criada em 1969.

—Este foi um ano histórico para a Embraer. Atingimos os objetivos (guidance) originais e os revisados. Tivemos receita recorde de US$ 6,4 bilhões (R$ 35,4 bilhões, alta de 21% em relação a 2023), o maior patamar de todos os tempos, e chegamos à maior carteira de pedidos da história da companhia — disse Francisco Gomes Neto, CEO da empresa, durante apresentação de resultados da empresa nesta quinta-feira.

IA contra gargalos

Ele afirmou que ainda há gargalos na cadeia de suprimentos e este tem sido o principal desafio enfrentado pela Embraer nos últimos anos — até parafusos tem sido difícil encontrar, disse o CEO. Para enfrentar esses problemas, disse Gomes Neto, a companhia refinou processos internos e preparou um plano de produção.

O CEO da empresa afirmou que a Embraer poderia entregar até mais aeronaves do que entregou no ano passado, mas que a companhia preferiu ser mais conservadora para evitar problemas e ter as peças que necessita.

— A empresa está usando Inteligência Artificial para monitorar os riscos da cadeia de suprimentos, e novos processos para ajudar os fornecedores com esses problemas — afirmou Gomes Neto, garantindo que será possível fazer as entregas previstas para este ano.

A Embraer prevê que entre 77 e 85 aviões comerciais sejam entregues este ano, e entre 145 e 155 unidades da aviação executiva. A empresa projeta um novo recorde em receita em 2025, que deve variar entre US$ 7 bilhões e US$ 7,5 bilhões.

Os analistas do Itaú BBA, em relatório a clientes, afirmaram que as estimativas da empresa para 2025 são conservadoras, mesmo depois de um resultado forte no quarto trimestre, o que pode trazer volatilidade aos papeis. Mas mantiveram a recomendação de ‘performance acima do mercado’ para as ações da empresa. Os analistas do Santander também avaliaram os resultados da empresa como ‘fortes’, especialmente no quarto trimestre, com a encomenda de jatos executivos feita pela Flexjet, totalizando US$ 7 bilhões.

Em 2024, a empresa entregou 206 aeronaves, sendo 73 jatos comerciais, 130 jatos executivos (75 leves e 55 médios) e três KC-390 Millennium multimissão da área de Defesa & Segurança. O total de entregas é 14% acima das 181 aeronaves entregues no ano anterior. Goms Neto disse que até 2030 a expectativa é que a Embraer possa entregar dez KC-390 por ano.

A demanda elevada pelos jatos da Embraer, especialmente os de corredor único com até 150 assentos, tem mantido as ações da empresa próximas de máximas históricas, segundo analistas que acompanham a empresa.

Recentemente, a Embraer recebeu um pedido firme de 15 aeronaves E190-E2 da japonesa ANA e assinou um contrato recorde de US$7 bilhões com a Flexjet para entregar até 212 jatos executivos.

Já em relação ao KC-390, há várias vendas em andamento e no ano passado o avião atraiu clientes como Holanda, Áustria, Suécia e Eslováquia.

Dividendos e Trump

O CEO da Embraer disse os Estados Unidos representam 60% das vendas de jatos executivos da empresa e que o mercado americano deve continuar crescendo. Gomes Neto afirmou que, por enquanto, não espera que o presidente americanos Donald Trump coloque tarifas sobre produtos da Embraer, mas afirma que não pode prever decisões que o governo americano venha tomar.

— Os Estados Unidos são nosso mercado principal de jatos executivos e deve continuar sendo. Temos fábrica nos Estados Unidos, com 500 funcionários. Há 45 anos atuamos por lá. Nossas aeronaves têm grande conteúdo americano e devido a essa colaboração de longo prazo todos ganham — disse o CEO da empresa, que disse que até mesmo o KC-390 pode ser montados na unidade americana da empresa.

O CEO da empresa afirmou que com dívida líquida próxima de zero, a Embraer tem condições de voltar a pagar dividendos, o que depende de aprovação do Conselho de Administração da empresa. A última vez que a Embraer pagou dividendos foi em 2018.

Pausa e mais R$ 400 milhões

O conselho de administração da Embraer aprovou uma nova pausa de quatro anos do desenvolvimento do E175-E2, jato menor, que vinha sendo desenvolvido pela empresa. Segundo a fabricante brasileira, o adiamento se dá em razão das discussões entre as principais companhias aéreas dos EUA e os sindicatos de pilotos sobre o limite de peso máximo de decolagem para aeronaves com até 76 assentos. Na prática, disse o CEO, o mercado americano está fechado a este produto, mas que a aeronave já até voou no Brasil e está praticamente pronta.

O CEO da Embraer disse que a empresa está investindo em pesquisas para desenvolvimento de aeronaves elétricas e movidas a hidrogênio, mas que esses projetos são para dez ou quinze anos, já que especialmente no caso do hidrogênio, é necessária a construção de infraestrutura aeroportuária.

Gomes Neto afirmou que até a certificação e industrialização do primeiro Evtol, o carro voador que está sendo desenvolvido pela Eve, subsidiária da Embraer, são necessários investimentos de mais de R$ 400 milhões. O primeiro voo do protótipo está marcado para este ano e a expectativa é que a primeira entrega aconteça em 2027.

Lucro da Embraer cresce quase 700% em 2024 e empresa está usando IA para enfrentar gargalos na cadeia de suprimentos

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Petroleira BP anuncia corte drástico em energia verde e mais investimento em óleo e gás

Medida é uma tentativa da empresa de recuperar o preço das ações, mas foi recebida com incredulidade pelos defensores dos investimentos em transição energética

Por Estadão/AP – 26/02/2025 

LONDRES – A empresa britânica de energia BP confirmou nesta quarta-feira, 26, que cortará os gastos com empreendimentos voltados à transição energética e aumentará sua produção de petróleo e gás. Com essa mudança de direção, a empresa espera reforçar o preço de suas ações, mas o anúncio foi recebido com incredulidade pelos defensores das ações climáticas.

Em uma declaração intitulada “Reset BP”, a empresa disse que reduzirá seus gastos em negócios de transição energética em US$ 5 bilhões por ano – a previsão agora é de gastos de até US$ 2 bilhões. Em contrapartida, disse que aumentaria seus investimentos na produção de petróleo e gás em cerca de 20%, chegando a US$ 10 bilhões.

O CEO da companhia, Murray Auchincloss, disse que a BP está concentrando seus gastos nos “negócios de maior retorno para impulsionar o crescimento” e que será “muito seletiva” em seus investimentos em energias renováveis.

“Esta é uma BP redefinida, com um foco inabalável no aumento do valor de longo prazo para os acionistas”, disse.

A estratégia representa um recuo em relação ao plano muito elogiado da empresa há cinco anos, sob o comando do então CEO Bernard Looney, de reduzir a produção de petróleo e gás em favor de negócios com emissões líquidas zero de carbono.

A atualização, que ocorreu antes de uma importante reunião de acionistas em Londres, nesta quarta-feira, tem o objetivo claro de reforçar o apoio dos investidores, tendo em vista a queda no preço das ações da empresa.

O desempenho inferior dos papeis da empresa em relação aos de seus pares, como Shell, ExxonMobil e Chevron, alimentou a especulação do mercado de que ela poderia transferir sua listagem de ações de Londres para Nova York, ou até mesmo torná-la um alvo de aquisição.

O influente fundo de hedge americano Elliott Management recentemente adquiriu uma participação de quase 5% na BP, e acredita-se que ele tenha tentado empurrar a BP de volta aos combustíveis fósseis para aumentar os lucros.

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A mudança de estratégia da BP está enfrentando fortes críticas dos defensores do meio ambiente, que anteriormente haviam se entusiasmado com a insistência da empresa de que o futuro era verde.

“Essa medida da gigante do petróleo BP demonstra claramente porque corporações e indivíduos super-ricos, em busca de lucros de curto prazo para si mesmos e para os acionistas, não podem ser encarregados de solucionar a crise climática ou liderar a transição para a energia renovável de que tanto precisamos”, disse Matilda Borgström, ativista do Reino Unido no grupo de ação climática 350.org.

“Injetar dinheiro em mais petróleo e gás aumenta o risco de impactos climáticos para todos nós, vai contra as metas climáticas legais e, com o setor de energias renováveis crescendo exponencialmente, é um grande risco para os acionistas que a BP está tão interessada em agradar”, acrescentou.

Petroleira BP anuncia corte drástico em energia verde e mais investimento em óleo e gás – Estadão

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O futuro do trabalho não é desolador

Fórum Econômico Mundial mostra que saldo entre criação e destruição de empregos nos próximos anos será positivo, mas governos, empregadores e empregados precisam se preparar

Editorial Estadão – 22/02/2025

Até 2030, cerca de 78 milhões de novos postos de trabalho serão criados globalmente, de acordo com o Relatório sobre o Futuro dos Empregos 2025, organizado pelo Fórum Econômico Mundial e que, no Brasil, contou com a parceria da Fundação Dom Cabral.

Esse volume é o saldo líquido entre os 170 milhões de empregos que passarão a existir em um mundo de inovações tecnológicas e transição verde, entre outros vetores, e os 92 milhões de trabalhos que serão destruídos, digamos assim, em virtude da transformação do mundo do trabalho.

A boa notícia é que, como atestam as projeções do Fórum, desenvolvimentos que ainda assombram o mundo, como a inteligência artificial (IA), não dizimarão os empregos da face da Terra, como sustentam alguns profetas. Por outro lado, governos, empregadores e empregados têm muito a fazer para garantir o casamento entre habilidades e demandas desse renovado mercado de trabalho.

A educação, por óbvio, tem papel fundamental nessa equação. De um modo geral, no mundo todo é preciso que os profissionais estejam aptos a lidar com novas tecnologias que, se bem manejadas, garantirão a empregabilidade de milhões de pessoas.

Recentemente, a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) mostrou que um elevado porcentual (18%) de adultos de 31 países (o Brasil não foi avaliado nesse estudo) não domina nem mesmo os níveis mais básicos de proficiência em leitura, matemática e resolução de problemas. Trata-se de alerta importantíssimo, pois sem o conhecimento básico é impossível lidar com as tecnologias mais avançadas, aquelas que podem garantir vida ou morte no mercado de trabalho.

Para além do aprimoramento de competências básicas no mundo como um todo, é importante ter em mente que as necessidades de economias em diferentes estágios de desenvolvimento são assimétricas. Há ainda a questão do envelhecimento populacional, que é mais acentuada em países do Hemisfério Norte.

A demanda por profissionais da chamada indústria do cuidado (como enfermeiros, assistentes sociais e psicólogos) deve aumentar nos próximos anos, principalmente naqueles países mais maduros do ponto de vista econômico e etário.

Já funções como as de caixa – em lojas, supermercados, bancos e cinemas, por exemplo –, além de assistentes administrativos, entre outras, tendem a perder cada vez mais espaço, o que exigirá que profissionais que atuam nessas áreas busquem requalificação para se manterem empregáveis.

Os desafios são múltiplos no caso específico do Brasil, país em que a economia ainda é de renda média, mas que, de acordo com o IBGE, deve perder em no máximo 15 anos o seu bônus demográfico – quando a parcela da população em idade ativa é maior que a de dependentes, isto é, crianças e idosos.

De acordo com o Fórum, os empregadores que contratam no Brasil entendem que a lacuna de competências (skills gap) é a principal barreira para a transformação dos negócios no País até 2030. Aqui há, contudo, uma grande oportunidade, já que as empresas que atuam no País preveem crescimento de vagas para especialistas em áreas como transformação digital, IA, cadeias de suprimento e logística, entre outras.

A demanda por tais funções faz com que a promoção de políticas educacionais efetivas torne-se ainda mais urgente. O Brasil, em que pese suas múltiplas deficiências, tem um mercado interno significativo, além de ser um grande exportador global e um dos países com maior potencial na área de transição verde.

Do ponto de vista das empresas, também é preciso maior racionalidade para que a boa prática da retenção e aprimoramento de talentos, benéfica tanto para quem contrata quanto para quem é contratado, seja mais constante. Nesse sentido, é alentador que, de acordo com o relatório do Fórum, nove em cada dez empresas no Brasil planejem aprimorar as habilidades de seu quadro de funcionários nos próximos cinco anos.

Tudo isso posto, não há motivos para temer o futuro, desde que haja empenho de todas as partes para se adaptar a ele.

O futuro do trabalho não é desolador – Estadão

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Do caminhão para o navio: transporte marítimo cresce com custo menor e entrega porta a porta

Transporte marítimo doméstico intermodal tem preço de 20% a 30% menor que do apenas rodoviário, e atrai de grandes empresas como Mondeléz e Unilever a outras de menor porte

Por Glauce Cavalcanti — O Globo – 23/02/2025 

Chocolate, biscoito, maionese, açúcar, desodorante, baterias, ração animal, eletroeletrônicos, louças sanitárias e até pá de aerogerador para energia eólica. Um volume crescente de produtos e insumos do dia a dia dos brasileiros e das empresas está circulando entre fábricas e centros de distribuição passando pelo mar.

É efeito da maior adesão de produtores de bens de consumo, equipamentos e matérias-primas à cabotagem, o transporte marítimo de cargas entre portos nacionais, que cresceu 20% entre 2023 e 2024.

Foram 1,55 milhão de contêineres movimentados no ano passado, diz a Associação Brasileira de Armadores de Cabotagem (Abac). Mudanças na regulação e novos modelos logísticos baixaram os custos e aumentaram a frota de navios, que se tornaram alternativas mais atraentes ao caminhão.

— Transportamos a economia brasileira. A depender do volume de carga transportada, o custo fica de 20% a 30% abaixo do rodoviário. As armadoras (operadoras de navios) atuam em sistema multimodal, integrando o marítimo a transportes ferroviário e rodoviário — explica Luis Resano, diretor executivo da entidade, sobre o modelo porta a porta. — Isso permite buscar uma carga em Limeira (interior de São Paulo) e entregar num supermercado em Manaus, mas com custo menor que o do transporte só de caminhão.

O dado considera cargas movimentadas entre portos do país, entre portos brasileiros e do Mercosul e o chamado feeder, que movimenta no litoral do Brasil cargas chegando ou partindo para o exterior. O maior volume é de cargas domésticas em contêineres.

Mão dupla

No fim do mês passado, a fabricante de doces Mondeléz — de marcas como Oreo, Bis e Trident — aderiu à cabotagem numa parceria com a Aliança. Desloca por navios tanto produtos acabados como Club Social, Trakinas e Chocolícia quanto o açúcar usado na produção, aproveitando o modal nas direções norte e sul.

A companhia estima uma redução de 20% nos custos logísticos em 12 meses, em comparação com o frete terrestre.

No Brasil, onde a matriz de transporte é majoritariamente rodoviária, o principal rival do navio é o caminhão. Segundo especialistas, o transporte rodoviário vence em disponibilidade, pela alta oferta, agilidade e preço para distâncias abaixo de 1.500 quilômetros, mas o marítimo tem vantagem em escala, segurança e menores custos e emissões de gases de efeito estufa.

 — Foto: Editoria de Arte— Foto: Editoria de Arte

Cada embarcação tem capacidade para 3,5 mil contêineres de 20 pés (com capacidade de 20 a 28 toneladas), em média, enquanto um caminhão leva o equivalente a dois compartimentos desses, estima a Abac.

— Com escala, o custo unitário na cabotagem é menor. E a disseminação da solução ponto a ponto foi decisiva para oferecer a mesma flexibilidade do caminhão. O rodoviário é um parceiro fundamental — diz Fabiano Lorenzi, da Norcoast, a mais nova das armadoras no país, há um ano no mercado.

Operação ponto a ponto

Esse ponto a ponto já soma 80% das operações das armadoras desse segmento de contêineres no país (Aliança, Log-In, Norcoast e Mercosul Line), diz Resano. A operação montada pela Mondeléz ilustra o sistema. A companhia tem biscoitos e chocolates retirados de sua fábrica em Vitória de Santo Antão, perto de Recife, e levados até seus centros de distribuição em Louveira (SP) e São José dos Pinhais (PR).

No sentido inverso, embarca açúcar de usinas de Pitangueiras e Jaboticabal, interior paulista, até a unidade fabril pernambucana. Esse volume vai de trem até o Porto de Santos (SP) e de navio até o de Suape (PE). Um caminhão completa a jornada até a fábrica. A Mondeléz espera movimentar entre 30 e 40 contêineres por mês quando a operação estiver 100% implementada.

Mas o navio exige planejamento. Enquanto um caminhão faz esse ponto a ponto do açúcar em nove dias, a cabotagem faz em 21. Ainda assim, Claudio Pena, coordenador de Supply Chain Excellence da Mondeléz, considera que o transporte marítimo para longas distâncias facilitará a distribuição da empresa, cujo plano é dobrar de tamanho até 2030.

Segundo a Abac, a cabotagem cresce dois dígitos desde 2008, mas ainda representa pouco mais de 10% das cargas no país. Há dois anos o modal ganhou novo fôlego com a aprovação no Congresso da chamada BR do Mar.

Mais Sobre Infraestrutura 

A nova lei permitiu que as armadoras afretem navios estrangeiros, ampliando as frotas sem ter de investir em embarcações próprias, desde que operem no país com tripulação brasileira, diz Resano. Num par de anos, 7 embarcações foram incorporadas às empresas do setor no país, somando 22.

— A BR do Mar provocou mais concorrência, o setor se tornou mais competitivo, e o custo baixou — diz Resano.

Setor aquecido

Nos últimos anos, operadoras brasileiras foram adquiridas por estrangeiras: a Log-In pela suíça MSC; a Aliança pela dinamarquesa Maersk; e a Mercosul Line pela francesa CMA CGM. A Norcoast é uma joint venture da brasileira Norsul e da alemã Hapag Lloyd.

— Quanto maior a demanda, maior o potencial de botar mais navios. Isso amplia o número de frequências, reduz prazos e custos, tornando a cabotagem mais competitiva — diz Mauricio Lima, sócio diretor do Instituto de Logística e Supply Chain (Ilos). — A diferença para o caminhão é a escala regular. É o cliente que se adapta à escala dos navios. O desafio é coordenar a logística porque é preciso mais estoque para obedecer o tempo desse transporte, e isso tem custo.

Esse planejamento não é simples. A Mondeléz iniciou as conversas com a Aliança ainda em 2023, mas os embarques começaram este ano. Luiza Bublitz, presidente da Aliança, diz que o desafio é tornar a cabotagem mais conhecida, pois ainda é associada à importação e exportação:

— No Brasil, ela representa apenas 12% da matriz de transportes. No Japão e na China, fica em mais de 44%. Nos EUA, 32% — ela diz. —Na cabotagem, os produtos sofrem menos avarias, caem as despesas com roubo e com seguro para a carga, havendo ainda reduzida emissão de carbono.

A Unilever — dona de marcas como Dove, Comfort, Omo e Hellmann’s — há dez anos transporta itens de navio entre Sudeste e Nordeste e para abastecer a Amazônia.

— Existe uma complexidade na utilização da cabotagem, pelo maior lead-time (tempo de transporte ponto a ponto) do que seu correspondente terrestre. Dependendo da rota e do produto envolvido, isso exige mais estoques na cadeia para manter o nível de serviço ao cliente — conta João Nascimento, diretor de Logística da Unilever no Brasil.

Ele acrescenta que, nos dois últimos anos, a companhia também passou a usar navios para algumas matérias-primas:

— A cabotagem consegue ser até 25% mais eficiente em custos comparado ao rodoviário. Além disso, reduz emissões de CO2 em relação ao rodoviário em até 85% por quilômetro.

Logística reversa

No Grupo Moura, de baterias, desde 2015, o volume de cargas transportado nesse modal cresceu 12 vezes, representando hoje 15% do total movimentado, diz Marcelo Lima, gerente-geral de Logística da empresa, que também usa navios para logística reversa de insumos até seu complexo fabril em Pernambuco.

A cabotagem se abriu para empresas de menor porte com o contêiner fracionado, que pode ser um diferencial competitivo para quem leva cargas menores, diz Ezra Azury Benzio, diretor de Compras e Logística da Benduk, de Manaus, distribuidora de produtos como ração e medicamentos para o varejo voltado para pets.

— Nessa região, a cabotagem faz muita diferença. Aderimos há três anos. Antes, nosso produto ficava mais caro que o da concorrência. Em 2024, atingimos redução de 20% no custo logístico, o que nos tornou competitivos — diz. — E tem alívio no frete de retorno. Um contêiner vazio custa pouco. Um caminhão vazio na volta custa muito.

Limite climático

A geografia faz Manaus depender fortemente de embarcações para o fluxo de matérias-primas e produtos. É o principal modal usado pelas empresas da Zona Franca.

— Em Manaus, no início de 2023 eram duas saídas por semana no setor. Agora são quatro — destaca Felipe Gurgel, diretor comercial da Log-In. — Cabotagem só não cresce mais porque temos sofrido efeitos de mudanças climáticas, como as secas recentes no Amazonas. Mas já encontramos soluções, com um píer flutuante.

Do caminhão para o navio: transporte marítimo cresce com custo menor e entrega porta a porta

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Robôs Humanoides: Lição Básica

Chegou a hora de aprender mais sobre essa tecnologia, que será nosso próximo ponto de inflexão.

Junior Borneli – StartSe/Entrelinhas fev 22, 2025

Se você tivesse que imaginar um robô, qual imagem viria à sua cabeça? Um braço mecânico montando carros em uma fábrica? Um aspirador autônomo zanzando pela casa? Ou talvez algo mais futurista: um robô com feições humanas, andando e conversando como nos filmes de ficção científica? Se a última opção parece intrigante, saiba que não está tão distante da realidade.


O Que São Robôs Humanoides?

|Por Que Eles Se Parecem Conosco?

Robôs humanoides são máquinas projetadas para se parecerem e interagirem como seres humanos. Diferente dos robôs industriais, que têm formas adaptadas a tarefas específicas, os humanoides possuem cabeça, tronco, braços e pernas. Mas por que essa semelhança com os humanos?

A resposta passa por ergonomia e interação. Nós construímos um mundo pensado para nós: de portas a utensílios domésticos, tudo é adaptado ao corpo humano. Um robô que compartilhe essas características pode operar em ambientes humanos sem exigir grandes adaptações. Além disso, a forma humanoide facilita a aceitação social dessas máquinas, tornando-as mais intuitivas para interagir e se comunicar.


Os Principais Players da Corrida Tecnológica

O desenvolvimento de robôs humanoides está acelerando e, no centro dessa corrida, estão algumas das empresas mais inovadoras do mundo. Entre elas:

  • Boston Dynamics – Conhecida pelo robô Atlas, um dos mais avançados em termos de mobilidade e equilíbrio.
  • Tesla – Com o Tesla Bot (Optimus), Elon Musk promete um robô capaz de realizar tarefas domésticas e industriais.
  • Optimus, Atlas e Digit
  • Honda – Criadora do icônico Asimo, um dos primeiros humanoides a chamar atenção globalmente.
  • Agility Robotics – Desenvolvedora do Digit, um robô bípede capaz de transportar cargas e trabalhar em armazéns.
  • Xiaomi e Unitree Robotics – Empresas chinesas apostando na robótica acessível e comercializável.

Quando e Como Eles Devem Chegar ao Nosso Dia a Dia?

Os primeiros usos mais prováveis serão em indústrias, armazéns e serviços. Empresas como a Amazon já testam robôs humanoides em suas operações logísticas. No setor de saúde, robôs enfermeiros podem auxiliar pacientes e aliviar a carga de trabalho de profissionais.

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Para uso doméstico, a previsão é que robôs humanoides cheguem em massa ao mercado na próxima década. O grande desafio ainda é o custo e a autonomia. Um robô que possa cozinhar, limpar e realizar tarefas complexas exige um nível de sofisticação que está em pleno desenvolvimento.


Quem Lídera a Corrida?

Países como Estados Unidos, Japão, China e Coreia do Sul estão na dianteira. O Japão, por exemplo, investe pesado em robôs para assistência a idosos, enquanto a China acelera sua produção para dominar a robótica de serviço. Os EUA, com empresas como Boston Dynamics e Tesla, continuam à frente na inovação em inteligência artificial aplicada à robótica.


Humanoide, Androide e Ciborgue: Qual a Diferença?

Embora os termos sejam usados de forma intercambiável, há diferenças:

  • Humanoide: Qualquer robô que tenha formato humano, como o Atlas da Boston Dynamics ou como o Optimus, da Tesla. Eles não são criados para se passar por nós, apesar de se parecem conosco, no seu design.
  • Androide: Um robô humanoide que também tenta imitar a aparência da pele, expressões e movimentos humanos. Um exemplo famoso é o Sophia, da Hanson Robotics. Esse é um tipo de robô criado para nos copiar, no limite.
  • Ciborgue: Um ser humano com partes tecnológicas integradas, como implantes biônicos ou interfaces neurais. É aqui onde se misturam os organismos orgânicos, como os nossos, com partes robóticas. Seria um “híbrido”.

O Futuro Chegou

O mercado de robôs humanoides está evoluindo rapidamente. Em pouco tempo, essas máquinas deixarão de ser apenas curiosidades tecnológicas para se tornarem presenças comuns em nossas casas, escritórios e hospitais.

Se o passado foi marcado pela automação de tarefas específicas, o futuro promete robôs que se parecem, falam e se movem como nós. A pergunta não é “se”, mas “quando”. E a resposta é: muito em breve.


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O que é uma cidade inteligente e quais são seus exemplos no Brasil e no mundo

Premiações em série de Curitiba levam em conta programas ambientais, de saúde e fomento à inovação – com ou sem uso de tecnologia

Por Helena Carnieri — Valor – 21/02/2025 

A menção a “cidade inteligente” pode remeter a um lugar futurista, altamente tecnológico. Mas uma análise dos projetos premiados nos principais fóruns internacionais revela exemplos que nem sempre envolvem o uso de alta tecnologia.

É assim que Curitiba acumula premiações por programas como uma usina de energia solar instalada num antigo lixão problemático, um aplicativo de marcação de consultas de saúde e hortas coletivas em terrenos abandonados, entre outros. O termo “cidade inteligente” costuma definir municípios que conseguem resolver problemas de forma sustentável, conectada e eficiente.

Só para citar os mais recentes, Curitiba recebeu o título de Cidade Mais Inteligente do Mundo em 2023 na Fira Barcelona; o primeiro lugar no Government Excellence Awards de 2024, com o programa Fala Curitiba (consulta pública sobre o orçamento), nos Emirados Árabes; o prêmio Urbanismo Pioneiro 2024, do Bilbao Metropoli 30, na Espanha; o World Green City Awards 2024, com o Programa de Agricultura Urbana, na Holanda; e o Seoul Smart City Prize 2024.

Os rankings de “cidade mais inteligente” variam todo ano, pois seguem critérios e metodologias das diferentes organizações, que estão sempre buscando novos projetos inovadores.

As cidades mais citadas costumam ser Zurique, na Suíça, pelo serviço público e planejamento urbano de qualidade; Oslo, na Noruega, por iniciativas ambientais e seu transporte público; Camberra, na Austrália, pela infraestrutura digital; Copenhague, na Dinamarca, pelas soluções em energia limpa; além de Londres, Cingapura, Helsinki, Hamburgo, Estocolmo, Genebra, Tel Aviv e Dubai, entre outras.

O espaço de eventos da Fira Barcelona sedia o midiático World Smart City Awards, onde Curitiba ganhou o principal prêmio em 2023, resultado conferido à chinesa Shenzhen em 2024 e a Buenos Aires em 2022.

No Brasil, além de Curitiba, o Rio de Janeiro foi premiado em 2013 pelo mesmo World Smart City por projetos como o Centro de Operações Rio, a Central 1746 e o Porto Maravilha.

“Essas conquistas impulsionam o desenvolvimento de soluções inovadoras que tornam a cidade mais segura, eficiente e sustentável. A visibilidade internacional dessas premiações atrai investimentos, fomenta parcerias estratégicas e fortalece a confiança na gestão pública”, diz Leandro Matieli, secretário da Casa Civil do Rio de Janeiro.

Já o ranking do Intelligent Community Forum, sediado em Nova York, tem um caráter de fomentador de novas iniciativas e traz resultados mais inusitados. Entre as top 7 cidades escolhidas em 2024, além de Curitiba, estão Assaí, também no Paraná; Coral Gables (Flórida) e Hilliard (Ohio), nos EUA; a região de Durham e Fredericton, no Canadá; e Yunlin, em Taiwan.

Existem diversos outros rankings mundo afora, a exemplo do brasileiro Connected Smart Cities, que em 2024 deu a liderança a Florianópolis, seguida por Vitória (ES), São Paulo e com Curitiba em quarto lugar.

Desenvolvido pela Urban Systems em parceria com o Necta, o ranking analisa dados e informações de todos os municípios brasileiros com mais de 50 mil habitantes, mas os organizadores destacam que as dez cidades selecionadas ainda atingiram pouco mais da metade do total máximo de pontos, ou seja, podem melhorar em muito ainda seus índices e qualidade de vida.

Historicamente, Curitiba tem sido polo de testes de novos produtos. Agora, por exemplo, a ideia é testar aqui a entrega de mercadorias via drone de forma comercial e sistemática e, quem sabe, o carro voador na sequência.

“Curitiba sempre esteve à frente em inovação e trânsito e tem leis que permitem esse incentivo”, diz Marcos Ribeiro Resende, diretor de negócios da Atech, braço da Embraer responsável por novas tecnologias.

“A entrega por drone envolve transferir a logística para outra dimensão, que é o espaço aéreo. A vantagem de Curitiba é o arcabouço regulatório de incentivo, conhecido como ‘sandbox’, que autoriza testes de soluções para melhorias de mobilidade urbana, sejam elas terrestres ou aéreas.”

Para o Movimento Pró-Paraná, o que explica as premiações de Curitiba passa mesmo pelo ecossistema de inovação,  alimentado pelas 700 startups da cidade – o apoio municipal inclui o ISS tecnológico, reduzido de 5% para 2% para empresas de base tecnológica selecionadas -, e programas como o prontuário eletrônico e a oferta pioneira de videoconsultas de saúde, hoje presentes em várias outras cidades. “Isso foi muito importante na pandemia, com o agendamento da vacinação”, relembra o prefeito Eduardo Pimentel (PSD).

Para ele, a cidade inovadora não é só tecnológica, mas também criativa. “Gosto de citar esse aplicativo, o Saúde Já, onde o usuário recebe seus exames e marca consultas de forma digital, lado a lado com as 208 hortas urbanas, onde espaços deteriorados são transformados: a prefeitura doa sementes, e a partir daí a comunidade se une pela produção de alimento saudável.”

Na avaliação de Eros Leon Kohler, coordenador do Lactec, um centro de pesquisas para a indústria, um grande facilitador é a larga adoção do 5G em Curitiba. “Isso estimula a inovação, a exemplo de sistemas de iluminação pública inteligentes e ações de inclusão digital, por meio de aplicativos e pontos de internet pública gratuitos, estrategicamente espalhados por diferentes regiões da cidade”, diz.

“Sou totalmente aberto à tecnologia, e é assim que quero manter Curitiba no hall da inovação internacional”, diz Pimentel, para quem “todo prefeito que saiu um pouco das diretrizes do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano (Ippuc) não foi bem”.

“Há uma inteligência anterior à radicalização do uso da tecnologia que tem beneficiado Curitiba”, afirma Marcos Domakoski, presidente do Movimento Pró-Paraná. “Desde 1965, com o Ippuc, houve a valorização do pedestre e do centro histórico; a verticalização dos eixos estruturais e a criação das canaletas exclusivas para ônibus, bem como a ampliação de parques e espaços públicos”, enumera.

“Boa parte daquilo que Curitiba tem hoje em termos de resultados, tanto positivos quanto desafios, são oriundos dos anos 1970, década de guinada na cidade”, afirma Sérgio Czajkowski Jr., professor de planejamento estratégico da universidade UniCuritiba.

O difícil é manter a tradição de inovar e não se acomodar – afinal, os prêmios são anuais e a concorrência é grande. O embaixador da Fira Barcelona no Brasil, Beto Marcelino, é quem organiza as feiras Smart City Expo em Curitiba. Em março deste ano, o evento sai do parque Barigui para ocupar o estádio do Clube Athlético Paranaense, devido ao grande número de interessados.

Ele conta que, nos diferentes fóruns internacionais de cidades inteligentes, os municípios devem inscrever projetos específicos. “O principal é a gestão pública querer submeter um projeto que considera importante. Quando é selecionada, a cidade ganha uma espécie de capital social e intelectual, aparece numa vitrine internacional e passa a ser procurada por investidores, empresas, indústrias de tecnologia e bancos de fomento”, diz.

Outro entusiasta de Curitiba é o canadense John Jung, o criador do conceito de cidade inteligente e presidente do Intelligent Community Forum (ICF), que conferiu seu principal prêmio a Curitiba em 2024.

“Como auditor in loco nas cidades, foi uma inspiração para mim o comprometimento de Curitiba, o respeito pelas pessoas, a terra e o meio ambiente”, diz. Ele conta ao Valor que, desde que conheceu o arquiteto Jaime Lerner, ex-prefeito e governador do Paraná, morto em 2021, passou a estimular as lideranças curitibanas a se inscreverem em prêmios como o seu e comemora cada conquista.

Com a memória de “capital ecológica”, mote de Curitiba antes de ser “cidade inteligente”, hoje o enfoque é a energia renovável, com o início da eletrificação da frota de ônibus. Mas, para as irmãs Maria Eugênia e Maria Júlia Fornea, isso não basta – é preciso parar de usar o carro individual quando não há necessidade. É isso que elas querem promover nos prédios que constroem em regiões nobres da cidade.

A ideia é não ter muros, com uma fachada ativa que permite a passagem de pessoas pelo térreo, com restaurantes e lojas – seguindo a tese de que movimento gera segurança. “A cidade inteligente pede que a mobilidade seja revista, com mais circulação a pé e menos de carro, especialmente em bairros onde há muitas facilidades por perto”, diz Maria Eugênia. Pensando nisso, a dupla escolheu como ação social de sua empresa Weefor a doação de bicicletários para os terminais de ônibus das cidades que circundam Curitiba.

Dessa forma, tocam num ponto crucial para qualquer metrópole, que é a relação com a população periférica. Eros Leon Kohler acrescenta um problema recorrente em muitas cidades, que é a ocupação irregular de áreas, especialmente aquelas destinadas à preservação ambiental.

“Nesse contexto, iniciativas como o projeto do Bairro Novo da Caximba, que substitui palafitas irregulares por um bairro planejado e inteligente, representam um bom exemplo de esforços voltados à recuperação e requalificação do ambiente urbano’, diz. “Outro destaque é o projeto Pirâmide Solar, que converteu um antigo aterro sanitário em um gerador de energia limpa, por meio da instalação de painéis solares.”

Para a doutora em gestão urbana Rafaela Aparecida de Almeida, professora da Uninter, em ocupações irregulares, onde não há ruas cadastradas nem CEP, a exclusão típica do Brasil é ainda mais acentuada. “A população fica impossibilitada até mesmo de receber alertas da Defesa Civil em situações de temporais, enchentes ou outros riscos ambientais. Isso evidencia a dificuldade de Curitiba em avançar no cumprimento do Objetivo de Desenvolvimento Sustentável número 10, da ONU, que visa reduzir as desigualdades”, diz.

Para ela, apesar de iniciativas como o programa Wi-Fi Curitiba, que oferece pontos de acesso público à internet em locais estratégicos, a distribuição desses serviços não é uniforme. “Em bairros como Tatuquara, Campo de Santana, Umbará e Cidade Industrial, a quantidade de pontos gratuitos é significativamente menor em comparação com áreas centrais, o que agrava a exclusão digital.”

Segundo Almeida, essa limitação restringe o acesso a oportunidades educacionais, serviços públicos digitais e atividades econômicas que dependem de conectividade. Além disso, fatores como infraestrutura precária e falta de dispositivos adequados dificultam o acesso à internet para muitos moradores.

Por essa deficiência, o diretor de operações da Realize Hub, Victor Hugo Domingues dos Santos, acredita que ainda falta para Curitiba alcançar o desafio proposto pela Unesco de ser uma cidade MIl – com alfabetização midiática e informacional.

Por outro lado, ele cita iniciativas positivas, como as capacitações constantes e gratuitas oferecidas pelos programas Bom Negócio e Curitiba Empreendedora e Empreendedora Curitibana. “Os nove Espaços Empreendedor, que realizam 991 atendimentos diários aos 210 mil Microempreendedores Individuais formalizados de Curitiba, além dos programas 1º Empregotech e o Empregotech 40+, oferecem formação para o mercado de trabalho em tecnologia da informação”, diz. O que falta é levar esses avanços a todos, desafio da sociedade brasileira como um todo.

A cidade inteligente pede que a mobilidade seja revista, com mais circulação a pé e menos de carro”

— Maria Eugênia Fornea

Um crítico do discurso de “cidade inteligente” é Denis Alcides Resende, pós-doutor em cidade digital estratégica e professor da PUCPR. “Não tem nada de errado em ganhar prêmios. Mas falta pensar a cidade de forma mais estratégica. A mobilidade em Curitiba é um fator que deixa a desejar, com a integração de bicicleta, ônibus e automóvel. Outras áreas, como habitação, saneamento e saúde, são muito deficitárias. Basta ver a grande quantidade de moradores de rua”, afirma.

“De um lado, temos prêmios de inteligência no sentido tecnológico, e no outro, uma pobreza muito grande. É claro que a cidade tem seu lado positivo, com técnicos competentes buscando alternativas tecnológicas, mas não se vê investimento na área social – falta equilíbrio.”

Para Sérgio Czajkowski Jr., os desafios de urbanismo mais gritantes na cidade incluem a violência urbana, a necessidade de melhorar a infraestrutura e a gestão de resíduos, provenientes das regiões mais periféricas. “A cidade precisa lidar com questões de crescimento populacional na região metropolitana e desenvolvimento sustentável de longo prazo.”

Um olhar para outras cidades já premiadas como inteligentes pode ajudar a manter o faro para a inovação. Um exemplo é Barcelona, que tem lixeiras para determinados resíduos conectadas a um duto, em que o rejeito vai direto para uma usina de incineração por meio de vácuo.

A cidade tem ainda um aplicativo que interliga todos os modais – com o uso de um cartão, o morador pega ônibus, metrô, bicicletas e até táxi – no que Beto Marcelino, diretor de relações governamentais da consultoria iCities, considera uma “mobilidade 2.0”.

“Em Curitiba, ainda temos que criar mais interligação”, afirma ele, e acrescenta o exemplo do cartão para uso dos serviços públicos de Shenzhen, na China, e o modelo de segurança do bairro Puerto Madero, em Buenos Aires. “Ali existe um sistema de vigilância, com monitoramento de pessoas, que Curitiba poderia ter em seus mais de 50 parques”, sugere.

Ele cita ainda o High Line Park, em Nova York, bulevar turístico que transformou uma área degradada e serve de inspiração a outros locais. “Se pensarmos nas cidades que usam a Internet das Coisas no planejamento urbano, que é um critério bastante empregado nos rankings, não podem ficar de fora Zurique, Lausanne e Genebra, na Suíça; as capitais dos países escandinavos e também Londres, Abu Dhabi e Dubai”, diz Marcos Domakoski.

Inspirado em Milão e Barcelona, Pimentel quer trazer a Curitiba o aluguel social permanente, com períodos maiores para famílias ocuparem imóveis disponíveis. “Você ocupa espaços abandonados, aquece o mercado imobiliário, agiliza a fila da Cohab e pode priorizar eixos estruturantes, que são próximos de terminais e regionais de saúde”, diz.

Outra promessa é investir na empregabilidade dos jovens, estimulando cursos técnicos, e em inteligência artificial. “Queremos saber, por exemplo, onde estão se desenvolvendo focos de dengue e melhorar o abre e fecha de sinaleiros. E quero colocar ar-condicionado em todas as escolas municipais da cidade com energia vinda do telhado solar.”

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Europa declara guerra ao desperdício: moda e comida pagarão por descarte

Novas regras na UE atacam perda anual de 132 bi de euros em alimentos desperdiçados e forçam indústria fast fashion a arcar com reciclagem

Lia Rizzo – Exame/Editora ESG –  19 de fevereiro de 2025

A União Europeia estabeleceu um acordo para implementar novas regras abrangentes sobre resíduos alimentares e têxteis, atribuindo os custos do descarte às empresas e impondo novas obrigações ambientais às plataformas de comércio eletrônico do continente.

A atual presidência do Conselho da UE, exercida pela Polônia, alcançou o avanço após intensas negociações nos últimos dias, focando especialmente os objetivos de redução do desperdício alimentar e nas medidas para conter a cultura do vestuário descartável — o que afeta diretamente as chamadas fast fashion.

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O setor alimentício gera aproximadamente 60 milhões de toneladas de lixo anualmente na UE, enquanto o setor têxtil adiciona 12,6 milhões de toneladas.

Juntas, estas indústrias representam parte considerável dos resíduos municipais e industriais, além das emissões de carbono provenientes dos processos de produção e descarte.

O acordo provisório fixará metas compulsórias com força de lei, para diminuir as perdas de alimentos. E obrigará produtores de vestuário a arcar com os custos de coleta, triagem e reciclagem de têxteis, após as negociações entre o Parlamento Europeu e o Conselho, finalizadas na noite desta última terça-feira, 18.

As medidas estabelecerão encargos financeiros e regulatórios adicionais às empresas, incluindo marcas de fast fashion e varejistas online, em um contexto que intensifica o monitoramento do impacto ambiental das indústrias de consumo.

Descarte estimado em 132 bilhões de euros

Um dado alarmante revelado pelas estatísticas da UE indica que aproximadamente 11% dos alimentos são desperdiçados antes mesmo de saírem das propriedades agrícolas.

Com o acordo, os Estados-membros da UE precisam reduzir o desperdício de comida em 10% na fabricação e processamento, e em 30% per capita no varejo, restaurantes, serviços de alimentação e residências até o final de 2030, calculado a partir de uma linha de base média de 2021-2023.

As grandes empresas do setor alimentício terão a obrigação de viabilizar doação do que não for vendido, mas apropriado para consumo, em um esforço adicional para minimizar o descarte desnecessário.

Este aspecto é particularmente relevante considerando que mais de 59 milhões de toneladas de alimentos são descartadas anualmente na UE, representando uma perda econômica estimada em 132 bilhões de euros.

Fast fashion na mira

Atualmente a União Europeia gera aproximadamente 5,2 milhões de toneladas de resíduos têxteis anualmente, dos quais apenas um quarto é reciclado. O restante tem como destino aterros sanitários ou incineradores, resultando na liberação de poluentes prejudiciais ao meio ambiente.

As novas medidas ampliam a responsabilidade dos fabricantes (REP), determinando que todos os produtores têxteis — independentemente de estarem baseados na UE ou comercializando via e-commerce — deverão pagar uma taxa para financiar todo o processo de reciclagem de seus produtos desde a coleta, com base no grau de sustentabilidade dos mesmos.

O prazo estabelecido é de 30 meses a partir da implementação da diretiva, com 12 meses adicionais para pequenas empresas com menos de dez funcionários.  E a nova legislação se insere em um contexto mais amplo de esforços da União Europeia para combater o fast fashion e seus impactos ambientais.

Em setembro de 2023, o bloco já havia estabelecido objetivos para o setor, determinando que até 2030 todos os produtos têxteis comercializados na UE devem ser produzidos com fibras recicladas, além de apresentarem características de durabilidade, reparabilidade e reciclabilidade.

No entanto, os desafios técnicos e logísticos são consideráveis. Atualmente, menos de 1% das roupas passa por processos de reciclagem fibra a fibra, e as tecnologias necessárias ainda estão em desenvolvimento.

Entre os principais obstáculos está a complexidade da separação de diferentes tipos de fibras para criar matéria-prima adequada para reciclagem. E apesar dos compromissos de sustentabilidade da indústria e de diversas iniciativas de reciclagem existentes, a redução significativa do desperdício de vestuário continua sendo um gargalo que demanda uma resposta regulatória coordenada.

Freio no marketing agressivo

O texto acordado reconhece explicitamente que o rápido crescimento do mercado do comércio eletrônico, embora traga oportunidades, representa um desafio significativo em termos de proteção ambiental.

Esta preocupação se reflete nas disposições que permitem penalizar estratégias de marketing que promovam o consumo excessivo de produtos têxteis e, consequentemente, geração excessiva de resíduos.

Neste sentido, a legislação prevê, por exemplo, taxas mais altas para empresas que estimulem compras através do marketing agressivo. Os governos da UE poderão aumentar a cobrança para marcas que lançam muitos produtos em pouco tempo, e reduzir para aquelas que ofereçam serviços de reparo e incentivem o uso prolongado das roupas.

Embora não existam penalidades específicas para a produção em massa de vestuário com ciclo de vida curto, está previsto que custos de conformidade recaiam principalmente sobre as empresas que saturam o mercado com ítens de moda descartáveis de baixo custo. O que significa que marcas que vendem grandes volumes de roupas baratas e descartáveis, a exemplo da Shein, pagarão as maiores taxas.

Celebração ponderada

Embora tenham celebrado a iniciativa da União Europeia, organizações ambientais expressaram preocupações quanto à efetividade do acordo, criticando especialmente a ausência de medidas mais rigorosas para redução de resíduos no nível da produção.

Essas entidades argumentam também que a meta de 10% para fabricação e processamento de alimentos deveria ser significativamente mais elevada, por estar aquém do compromisso estabelecido pela ONU.

Para as plataformas de comércio eletrônico, o acordo representa uma transformação regulatória significativa. Os varejistas online, incluindo aqueles sediados fora da UE mas que comercializam para o bloco, estarão sujeitos às mesmas obrigações que os negócios físicos tradicionais.

A implementação dessa medida promete ser desafiadora, especialmente devido à proliferação de plataformas de fast-fashion com sede na China, no Reino Unido e nos Estados Unidos, que realizam envios diretos para consumidores europeus.

Europa pode ditar ritmo global?

Embora o acordo ainda precise de aprovação formal do Conselho da UE – etapa considerada protocolar devido ao amplo apoio político já obtido — a nova regulamentação sinaliza uma mudança fundamental na forma como as empresas devem abordar suas responsabilidades ambientais.

A implementação dessas medidas marca ainda um momento histórico na política ambiental europeia, de compromisso concreto com a sustentabilidade e estabelece um precedente importante para outras regiões do mundo.

Europa declara guerra ao desperdício: moda e comida pagarão por descarte | Exame

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‘O que nos torna humanos? A resposta de hoje não é a mesma de três anos atrás’

Norberto Paredes – BBCNewsMundo – 2 fevereiro 2025

O que nos torna humanos?

É uma questão sobre a qual o neurocientista Rodrigo Quian Quiroga reflete em seu último livro Cosas que nunca creeríais: De la ciencia ficción a la neurociencia (“Coisas que você nunca acreditaria: da ficção científica à neurociência”, em tradução livre), publicado em 2024.

Um dos filósofos mais célebres da história, René Descartes, pensava que o que nos torna humanos era a glândula pineal — que, segundo ele, facilitava a comunicação entre o corpo e a mente.

E embora a ciência tenha descartado há muito tempo a ideia de que a mente é uma entidade diferente do cérebro, a questão permanece válida.

Para Quian Quiroga, não se trata de uma glândula nem de um órgão — mas, sim, de vários fatores que nos tornam humanos, como o bom senso ou a linguagem que desenvolvemos há 100 mil anos.

O físico argentino de 57 anos adverte em entrevista à BBC News Mundo, serviço de notícias em espanhol da BBC, que é possível que a inteligência artificial alcance e supere a inteligência humana, mas afirma que não devemos ter medo dela, e muito menos pensar que a humanidade vai “acabar” em cenários de ficção científica, como os filmes O Exterminador do Futuro ou Planeta dos Macacos.

Quian Quiroga, que descobriu os “neurônios Jennifer Aniston”, também conhecidos como neurônios conceituais, é professor do ICREA no Instituto de Pesquisa do Hospital del Mar, em Barcelona, ​​e foi diretor do Centro de Neurociência de Sistemas da Universidade de Leicester, na Inglaterra.

A BBC News Mundo conversou com ele no âmbito do Hay Festival, realizado em Cartagena, na Colômbia, entre 30 de janeiro e 2 de fevereiro.

BBC News Mundo – A ciência está conseguindo o que parecia impossível há décadas. Há avanços observados na ficção científica que você teme que se tornem realidade?

Rodrigo Quian Quiroga – Muita gente tem medo dos avanços da inteligência artificial, porque acredita que cenários distópicos como o do filme de ficção científica O Exterminador do Futuro serão replicados.

Mas, pelo contrário, a inteligência artificial oferece muitas vantagens.

Pode ajudar em análises médicas, por exemplo. Não vai substituir um médico, mas pode servir como ferramenta para analisar imagens ou estudos.

Há alguns anos, ficamos surpresos com o fato de a inteligência artificial conseguir vencer os melhores jogadores de xadrez do mundo.

Mas hoje os mesmos jogadores de xadrez usam inteligência artificial para aprender a jogar xadrez ou melhorar.

Como acontece com toda tecnologia, a IA pode ser bem ou mal utilizada. É o ser humano quem decide.

BBC News Mundo – Mas a inteligência humana ainda é muito superior à IA na maioria dos aspectos. Será que algum dia ela será capaz de reproduzir a inteligência humana?

Rodrigo Quian Quiroga – Não há razão para supor que a IA não possa reproduzir a inteligência humana.

É algo que pode acontecer, mas faltam duas coisas à IA.

Rodrigo Quian Quiroga afirma de que a IA também precisa estar ciente da sua existência para reproduzir a inteligência humana

Primeiro, ela não tem o que é conhecido como inteligência geral, que é a capacidade de aprender novas tarefas em contextos completamente novos e sem treinamento.

É algo que fazemos o tempo todo: enfrentamos situações que são novas, usamos o bom senso e sabemos como reagir.

Explicado de uma forma mais simples, para replicar a inteligência humana, a IA precisa desenvolver um bom senso que ainda não tem e não sabemos como proporcionar a ela.

A outra coisa que falta a ela é a consciência da sua existência, que nós temos.

Não sei se isso pode ser alcançado dentro de dois anos, uma década ou dois séculos.

Mas, em princípio, não descarto que um computador não possa ter estes dois elementos, porque não há razão para que uma máquina não possa replicar o comportamento de um cérebro.

Isso é algo que parece distante por enquanto, pois não se sabe qual é o ingrediente que falta para que uma máquina seja consciente.

BBC News Mundo – Há um debate sobre se deveria haver um limite para o avanço dos computadores, e se eles poderiam um dia ultrapassar a inteligência humana. O que você acha?

Rodrigo Quian Quiroga – Isso é uma utopia. Não pode haver limite para o avanço dos computadores.

Na prática, é algo impossível de regular.

Qualquer pessoa pode desenvolver um algoritmo de IA em casa, com seu laptop. Você não precisa de um supercomputador da melhor universidade dos Estados Unidos para fazer isso.

Portanto, acredito que é impraticável impor limites aos avanços da IA.

Quanto a saber se vai ser capaz de ultrapassar a inteligência humana, acho que é provável que a IA ultrapasse a inteligência humana se conseguir ter inteligência geral, que é a capacidade de desenvolver o bom senso.

BBC News Mundo – Muitos têm medo disso, pois na ficção científica vemos como a tecnologia criada pelos seres humanos acaba nos dominando.

Rodrigo Quian Quiroga – A tecnologia não precisa nos dominar. Quando começamos a falar sobre essas coisas imaginamos cenários como o do filme O Exterminador do Futuro.

Mas não se trata de uma competição. Um computador não vai competir com os seres humanos pelos recursos de que eles precisam, como terra e alimentos.

O computador só precisa de energia, e isso é muito fácil de gerenciar.

Portanto, não vejo por que um computador precisaria entrar em guerra com um ser humano.

Não devemos temer a inteligência artificial, mas o que um ser humano pode fazer com ela.

A tecnologia não é boa nem ruim, mas sim o uso que os seres humanos fazem dela.

Uma coisa que me dá medo são os vídeos falsos ou deepfakes que as pessoas fazem, que podem ser usados para difamar outras pessoas.

Isso é possível hoje graças à IA, mas a culpa não é da tecnologia, mas de quem faz o vídeo falso.

BBC News Mundo – A descoberta dos neurônios Jennifer Aniston, também conhecidos como neurônios conceituais, mudou radicalmente sua carreira científica. O que o levou a esta descoberta?

Quiroga – Descobri esses neurônios após registrar neurônios individuais em seres humanos por meio de eletrodos implantados por razões clínicas para curar pacientes com epilepsia.

A primeira coisa que vejo é que há neurônios que respondem a conceitos específicos. Seja Jennifer Aniston, Halle Berry, Maradona, ou quem quer que seja.

Eles não respondem a detalhes, apenas ao conceito.

Ou seja, eles não respondem à aparência da pessoa em uma determinada foto, mas respondem à pessoa independentemente de como você a mostra.

Esta descoberta surpreendente foi a primeira etapa.

Na segunda fase, vimos como estes neurônios estão envolvidos na formação e codificação de memórias, como quando uma pessoa se lembrava de algo novo, esses neurônios conseguiam codificar memórias novas.

Mas a terceira etapa foi a mais interessante: percebemos que estes neurônios oferecem uma representação abstrata de memórias e pensamentos, algo que nunca foi visto em nenhum outro animal.

Depois de fazer experiências em macacos, ratos e outras espécies, até agora não foram encontrados neurônios deste tipo, e defendo que nunca os encontraremos. Para mim, estes neurônios são exclusivos dos seres humanos.

Eles são a base da inteligência humana, que é muito mais abstrata e de alto nível em comparação com a de um macaco ou outro animal.

BBC News Mundo – Há alguns anos, dizia-se que as máquinas só podiam responder a rotinas escritas por um usuário e, em princípio, não podiam pensar por si só. Será que a ciência está mudando isso?

Rodrigo Quian Quiroga – O que é fascinante sobre a IA é que dizer que as máquinas apenas respondem a rotinas escritas era algo verdadeiro há dez anos, mas não é verdade hoje, graças aos avanços que foram feitos.

Atualmente, questiono isso. Não se pode mais dizer que a máquina responde apenas a códigos ou rotinas escritas por um usuário.

Hoje, você pode fazer com que uma máquina aprenda e comece a responder não apenas com base em determinadas regras, mas com base em tudo o que ela aprendeu treinando a si mesma.

Neste sentido, não é mais tão diferente do ser humano.

BBC News Mundo – Há cientistas que afirmam que o cérebro também é, no fundo, uma máquina. Você concorda?

Rodrigo Quian Quiroga – Sim. É o que em filosofia se chama materialismo.

Baseia-se no fato de que a atividade, os pensamentos, os sentimentos, as emoções são nada mais nada menos do que a atividade dos neurônios.

O substrato de tudo se deve ao disparo dos neurônios.

Não se trata de algo mágico ou de a mente estar dissociada do cérebro, como afirmou René Descartes séculos atrás.

BBC News Mundo – Então, quais são as diferenças fundamentais entre a inteligência de um ser humano e a de um computador?

Quiroga – Em relação ao substrato material, não há diferenças entre a inteligência de um ser humano e a que um computador poderia chegar a ter.

Nosso cérebro funciona por meio de conexões entre neurônios, e a base dos neurônios, a base da vida, é o carbono.

Uma máquina funciona por conexões, transistores ou circuitos. E a base disso é o silício.

Então, não vejo por que algo feito com carbono não pode ser replicado com silício ou por que algo feito com silício não pode replicar o que foi feito com carbono.

Mas o que falta à IA é algo que já disse antes: falta a ela desenvolver inteligência geral e consciência da sua existência.

BBC News Mundo – No livro, você também aborda a consciência animal. Dada a pouca diferença entre o DNA dos seres humanos e o dos primatas superiores, você acha que ainda é possível que os animais um dia reproduzam a inteligência humana?

Rodrigo Quian Quiroga – Pode-se dizer que o DNA dos primatas é muito parecido com o DNA humano.

O cérebro humano é três vezes maior que o de um chimpanzé.

As evidências sugerem que a diferença não está ligada ao DNA — mas, sim, que há algo anatomicamente no cérebro humano que é irreproduzível.

Em outras espécies, o substrato é muito parecido, mas a diferença é que ele funciona de forma distinta.

É como se estivéssemos comparando dois computadores, um deles um pouco maior que o outro, mas aquele que é um pouco maior é infinitamente mais poderoso que o menor.

Assim, pode-se dizer que a diferença entre o cérebro humano e o de outras espécies não está ligada às suas características fisiológicas — mas, sim, ao fato de funcionar de forma diferente.

BBC News Mundo – Já houve tentativas de ensinar coisas aos primatas sem muito sucesso. O que aconteceu exatamente, e o que torna difícil ensiná-los?

Rodrigo Quian Quiroga – Muitas experiências foram feitas nas quais os chimpanzés foram educados desde pequenos, como se fossem bebês humanos.

Mas chega um momento em que a inteligência do ser humano dispara, e a do primata permanece estagnada.

A diferença entre o homem e os outros animais é que os seres humanos vêm evoluindo com a linguagem há cerca de 100 mil anos.

Ao usar a linguagem, pensamos com abstrações, porque todo substantivo é uma abstração; palavras são abstrações da realidade.

O primata não tem isso.

O macaco não tem linguagem. Ele guincha, tem uma maneira de se comunicar, mas não atribui palavras às coisas ao seu redor.

Pensar de uma maneira mais abstrata e 100 mil anos de evolução com o uso da linguagem são coisas que abriram caminho para a criação de neurônios conceituais.

BBC News Mundo – Então a linguagem é outra coisa que nos define como espécie, além da mente, do bom senso e da consciência…

Quiroga – Sim, mas um macaco também pode ter bom senso.

Ele pode saber que há algo que não deve fazer, e prever que existe um perigo.

Seu bom senso não tem o nível de sofisticação que a inteligência geral do ser humano tem, mas pelo menos tem um bom senso, algo que as máquinas ainda não têm.

As máquinas confundem, te enganam de certa forma, porque são imbatíveis em tarefas muito específicas.

Se você colocar uma máquina para jogar xadrez, ela é imbatível, mas esta mesma máquina não consegue reconhecer rostos.

Não pode sair para a rua e se virar sozinha, se você a colocar em um corpo. Ela só sabe jogar xadrez, e nada mais

BBC News Mundo – Que grande desafio a neurociência enfrenta neste momento?

Rodrigo Quian Quiroga – No epílogo do livro, falo sobre como não só a neurociência está mudando, mas a filosofia também, e muito rápido.

Há uma revolução e uma mudança de paradigma.

Acho que o desafio que a neurociência enfrenta é que ela está no meio de uma revolução, está se refundando, mas grande parte da ciência e do pensamento humano também está na mesma situação.

Você se pergunta: o que nos torna humanos? Mas a resposta que você dá hoje não é a mesma que você dava há três anos.

A diferença entre um humano e um androide não é tão óbvia, porque há coisas que antes eram atribuídas exclusivamente aos humanos, mas hoje vemos que as máquinas também podem fazer.

Então, acredito que os desafios não são apenas tecnológicos e de experimentos específicos, mas são muito mais profundos, porque é assim que estamos repensando as grandes questões da história da humanidade.

O que nos torna humanos? O que é consciência?

Há muitas perguntas que achávamos que não poderiam ser respondidas, e hoje estamos começando a responder.

Ou são perguntas que achávamos que já tínhamos respondido, mas agora estamos mudando a maneira de ver as coisas e repensando o que achávamos que sabíamos antes.

BBC News Mundo – Que avanços vistos na ficção científica você considera impossíveis de tornar realidade?

Quiroga – Acredito que a possibilidade de ser imortal, de prolongar a vida após a morte, é impossível.

Você pode acreditar que existe vida após a morte, por uma questão religiosa, e isso é aceitável.

Mas acho que é impossível prolongar a vida por meio de um dispositivo de IA. Acredito que a partir do momento em que você morre, sua vida na Terra acaba.

Se existe vida após a morte ou não é uma questão de fé, mas não acredito que a ciência possa te eternizar.

‘O que nos torna humanos? A resposta de hoje não é a mesma de três anos atrás’ – BBC News Brasil

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Tamanho real da cadeia do agronegócio no PIB é três vezes o medido pelo IBGE, diz estudo do Itaú

Segundo economista responsável pelo trabalho, não existe divergência entre a análise do banco, que considera a cadeia do setor ‘além do campo’, e a do IBGE: ‘São visões diferentes de um mesmo tema’

Por Márcia De Chiara – Estadão – 18/02/2025 

O agronegócio tem um impacto ainda maior na economia brasileira do que as estatísticas tradicionais indicam, especialmente quando se consideram as atividades “além da porteira” e os demais elos da cadeia produtiva, abrangendo a geração de riqueza, empregos e o comércio.

A participação do agronegócio na economia brasileira vai além da produção primária no campo. Quando se incluem atividades como o beneficiamento das safras, a fabricação de insumos (como fertilizantes), além do comércio e do transporte, o setor responde por 21% do Produto Interno Bruto (PIB). Esse valor é mais que o triplo do PIB agro, medido pelas estatísticas oficiais do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que é de 6%.

O dado consta de estudo inédito dos economistas do departamento econômico do banco Itaú, André Matcin e Pedro Renault. “Quando se fala em agronegócio, a primeira visão que se tem é da produção primária, da ‘porteira para dentro’”, diz Matcin.

A intenção do estudo foi dar exatamente uma visão mais ampla da atividade e a sua relevância. Isto é, desde a cadeia de insumos usados no agronegócio, a produção nas fazendas da agricultura e pecuária, a cadeia de beneficiamento, o comércio dos produtos e o transporte.

Muito se fala do potencial da cadeia ampliada do agronegócio na geração de riqueza, mas, na prática, não havia um número que retratasse o seu real tamanho. O economista observa que vários clientes do banco queriam saber as dimensões do agronegócio nesse conceito ampliado.

Como o estudo foi feito

Para chegar à fatia do agronegócio no PIB no conceito de cadeia ampliada, os economistas usaram dados da Tabela de Usos e Recursos (TRU) do IBGE, cuja última divulgação foi em 2021. Essa tabela permite olhar detalhadamente toda a cadeia de consumo do agronegócio além do campo.

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“Não existe divergência entre a análise do IBGE e a nossa análise, que busca uma visão integrada da cadeia”, frisa Matcin. Ele ressalta que são visões diferentes de um mesmo tema.

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Emprego e balança comercial

Outro ponto destacado pelo trabalho foi a geração direta de emprego pelo agronegócio. No conceito ampliado, o agronegócio responde por 17% da população ocupada, sendo que 7,9% da mão de obra está alocada na produção primária, 1,7% no beneficiamento e 7,4% no comércio e no transporte.

Chegou-se à conclusão de que o setor emprega diretamente um pouco mais de 17 milhões de trabalhadores, com base nos microdados da Pesquisa Nacional por Amostra de domicílios (PNAD) do IBGE, cruzados com as informações da TRU.

Em relação às contas externas, não é de hoje que o agronegócio sustenta o saldo da balança comercial brasileira. O estudo aponta que o agronegócio respondeu por cerca de 31% da corrente de comércio brasileira em 2024.

Sob a ótica do saldo comercial, em 2024, o agronegócio foi superavitário em US$ 109 bilhões, enquanto a balança comercial do País como um todo teve um resultado positivo de cerca de US$ 75 bilhões. “O agronegócio é motor na geração de superávits nos últimos anos”, afirma o economista.

Ele rebate a crítica de que o setor não geraria tanta riqueza nas exportações comparado a outros segmentos, ressaltando que o beneficiamento dos itens agropecuários responde por uma parcela expressiva, superior ao valor da produção primária, do que é exportado.

Quanto à tendência, Matcin diz que o agro vai continuar sendo protagonista do crescimento da economia brasileira nos próximos anos, e isso deve ocorrer neste ano. As estimativas do departamento de agricultura dos Estados Unidos (USDA) e órgãos do governo brasileiro indicam uma safra bastante forte. “Isso vai trazer um benefício importante para a economia em 2025”, prevê.

Tamanho real da cadeia do agronegócio no PIB é três vezes o medido pelo IBGE, diz estudo do Itaú – Estadão

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As 30 tendências de negócios que guiarão a sociedade até 2035

Como a tecnologia, a saúde, a educação e o clima vão moldar a maneira como as empresas se relacionarão nos próximos anos

Luís Rasquilha – MIT Sloan Review – 4 de fevereiro de 2025

Como serão os negócios nos próximos dez anos? Pode apostar que muita coisa que já está rolando vai ganhar força – e outras novidades vão surgir.

A computação quântica começará a virar realidade, o ESG deverá ganhar mais uma letra, teremos novas cadeias de valor e valorizaremos novas habilidades e competências. Ambidestria corporativa, a humanização do digital e uma liderança cada vez mais educadora também permearão os negócios.

Nos artigos anteriores, apresentei as forças motrizes, as megatendências e as tendências comportamentais que dão corpo e direção ao Relatório de Tendências Direção 2035. Neste mês, encerro a série falando de negócios.

São 30 tendências, separadas por seis forças:

  1. Tecnologia e conectividade.
  2. Ambiente e clima.
  3. Política e economia.
  4. Social e humano.
  5. Saúde e bem-estar.
  6. Educação, empresas e negócios.

Tendências de negócios para tecnologia e conectividade

Transformação e upskilling digital

Uma abordagem integrada em que as tecnologias desempenham papel-chave na transformação da estratégia, estrutura, cultura e processos de uma empresa, usando o alcance e o poder da conectividade, da internet e da tecnologia. Espera-se melhorar o envolvimento dos clientes em todos os pontos de contato no ciclo de vida de sua experiência. Para isso, é preciso criar o ambiente correto e a cultura adequada (ou seja, capacitação dos colaboradores) para operarem os negócios de maneira cada vez mais digital.

DDE (data driven enterprise)

Ter bases de dados construídas em anos de resultados consistentes é ótimo, mas, hoje, é fundamental entender que a experiência anterior das empresas não garante sucesso no mercado digital. A hora é a de olhar para o futuro, e não há forma de fazer isso se a companhia não tiver informação qualificada.

Falamos de dados e da habilidade de trabalhá-los. É necessário ter uma cultura guiada por dados, uma cultura data driven, em que captamos as informações (dados) constantemente, e em que eles servem como base para as tomadas de decisão, graças à capacidade de transformar dados em conhecimento aplicável. 

IA generativa e computação quântica

IA generativa é o ramo da inteligência artificial que envolve a criação de novos conteúdos, como texto, imagens, música ou código, por meio de modelos de IA. Diferentemente de outras formas de IA, que geralmente se limitam a processar e analisar dados existentes, a IA generativa é capaz de produzir novas informações ou criações que se assemelham a conteúdos humanos. 

Ela usa técnicas como redes neurais profundas e modelos de aprendizado de máquina para gerar saídas criativas. É o caso dos conhecidos modelos GPT (como o ChatGPT) e DALL·E. 

A computação quântica é uma forma avançada de computação que utiliza as propriedades da física quântica para processar informações de maneira extremamente rápida e eficiente. Enquanto os computadores tradicionais operam em bits (0 ou 1), os computadores quânticos usam qubits, que podem existir em múltiplos estados ao mesmo tempo, permitindo cálculos paralelos exponenciais. Essa tendência vai alterar todo o contexto empresarial que conhecíamos até agora.

Tecnologias de impacto

A evolução da tecnologia, cada vez mais acessível, transformou mercados, empresas e pessoas. A velocidade de produção e difusão de informação tem impactado e continuará a impactar a forma como as empresas desenvolvem os seus negócios e se relacionam com os seus públicos. Nesse sentido, existe a oportunidade de aplicar o conhecimento atualmente disponível para a criação, facilitação e implementação dessas tecnologias, com conteúdo relevante para clientes e para a sociedade. 

Interconectividade

Refere-se à capacidade de diferentes sistemas, redes, dispositivos ou indivíduos se conectarem e interagirem entre si, facilitando o fluxo de informações, dados, comunicação e negócios. Abrange as interações entre tecnologias digitais, empresas, países e até mesmo pessoas, formando redes globais de colaboração e troca.

Tendências de negócios para ambiente e clima

E.ESG

O já conhecido ESG (do inglês para “governança ambiental, social e corporativa”) é uma avaliação da consciência coletiva de uma empresa em relação a fatores sociais e ambientais. Normalmente, essa pontuação compila dados em torno de métricas específicas relacionadas a ativos intangíveis da empresa. 

Agora, o ESG deverá ganhar mais uma letra, mais um “E”. É uma denominação com foco econômico, que defende a geração de resultados sustentáveis que permitam manter a performance responsável de forma sistemática.

Logística reversa  

Aborda o fluxo físico de produtos, embalagens ou outros materiais, desde o ponto de consumo até o local de origem. Se bem implementada, a logística reversa garante que esse caminho de volta é uma grande contribuição para a melhoria da qualidade de vida do planeta.

Transição energética

Refere-se ao processo de mudança do uso predominante de fontes de energia fósseis (como carvão, petróleo e gás natural) para fontes de energia mais limpas e renováveis (como solar, eólica, hidrelétrica e biomassa). O objetivo dessa transição é reduzir a emissão de gases de efeito estufa, mitigar as mudanças climáticas e promover a sustentabilidade ambiental. Para tal descarbonização, eficiência energética e eletrificação são exemplos de como a transição já é real e impactante dos negócios.

Resultados responsáveis (EVA: environment value added)

O EVA tradicional (“economic value added”, ou “valor econômico adicionado”) é um indicador que demonstra a criação ou destruição de valor. Representa o custo de oportunidade do capital aplicado por credores e acionistas como forma de compensar o risco assumido no negócio.

Agora, com o avanço de conceitos mais sustentáveis e responsáveis, o “E” da sigla ganha um novo significado, de “environment”. Ele trata das compensações de maneira mais sustentável e integrada com o meio ambiente. Ou seja, o “resultado a qualquer custo” perde valor. 

Urbanização

Mais da metade da população mundial vive em grandes cidades e, diferentemente do que aconteceu em outras épocas, a maioria das pessoas nasceu nas cidades, o que aprofunda sua relação com elas. Com esse aumento da urbanização, cresce também o interesse que as populações urbanas têm pelos espaços que habitam, que precisam ser mais acolhedores.

Tendências de negócios para política e economia

Riscos globais

Riscos globais são definidos como as ameaças que podem afetar várias regiões ou países ao redor do mundo, com potencial para causar impactos significativos e de longo alcance. Esses riscos podem ser naturais, tecnológicos, econômicos, sociais ou políticos e geralmente exigem cooperação internacional para serem geridos eficazmente. As empresas estarão diante de eventos extremos com uma frequência cada vez maior.

Ética

Com o crescimento do mundo digital, todos estamos cada dia mais expostos. Essa exposição tem aumentado a exigência por práticas mais éticas por parte das empresas. Uma conduta correta na maneira como as organizações interagem com o seu meio será cada vez mais exigida. 

Governança corporativa

Refere-se ao conjunto de regras, práticas e estruturas que regulam e orientam a tomada de decisão, a prestação de contas e a gestão das organizações. É uma estrutura essencial para garantir que a empresa seja gerida de maneira ética, transparente e responsável, visando ao interesse de acionistas, colaboradores, clientes e outros stakeholders. O fato de a governança precisar ser cada vez mais customizada/personalizada (e não estandardizada) decorre da crescente complexidade e diversidade das empresas e dos setores em que atuam. 

Novas cadeias de valor

As empresas vão criar e entregar produtos e serviços de maneiras novas e eficientes. A ideia é agregar valor a cada etapa do processo, desde a concepção até a entrega ao cliente. Conceitos de gestão como digitalização e automação, integração vertical, economia de plataforma, personalização e customização, modelos de negócio baseados em dados, sustentabilidade e responsabilidade social estão alterando o modelo tradicional empresarial, cunhado no taylorismo. 

Novos modelos de operação

É algo diretamente influenciado pela tendência anterior e seus impactos nas empresas. Surgem novos modelos de operação, focando em abordagens modernas e inovadoras que as empresas adotam para melhorar a eficiência, a flexibilidade e a competitividade.

Esses modelos aproveitam tecnologias avançadas e práticas de gestão para transformar como as empresas operam, entregam produtos e serviços e interagem com clientes e parceiros. Conceitos como produção localizada (“nearshoring”), manufatura aditiva (impressão 3D), indústria 4.0, produção sustentável, economia circular e personalização em massa fazem parte dessa transformação dos negócios.

Tendências de negócios para social e humano

Liderança educadora

A liderança vem se reinventando em um novo contexto organizacional, abandonando as hierarquias rígidas e a autoridade formal. Em vez disso, ela se concentra em competências que estimulam a adaptação, a inovação, o desenvolvimento de talentos e a construção de culturas organizacionais mais colaborativas. 

Nesse contexto, o movimento mais importante é o da liderança educadora, que foca no desenvolvimento dos indivíduos dentro de uma empresa, enfatizando a importância de ensinar, orientar e inspirar os membros da equipe. Em vez de simplesmente gerenciar e supervisionar, um líder educador assume o papel de mentor e facilitador, promovendo um ambiente de aprendizado contínuo e crescimento pessoal e profissional.

Diversidade, inclusão e equidade

Diversidade nada mais é do que variedade. Está presente em todos os âmbitos da nossa vida, mas quando falamos de empresas, diversidade se refere a pessoas com características, origens e formas de pensar diferentes.

Nunca são pontos fixos. Quer dizer, não é algo que se atinge e fica estático.

Diversidade, no ambiente corporativo, é sempre algo que precisa ser olhado de perto. É algo que precisa evoluir.

Inclusão é a sensação de pertencimento. Apenas a existência de pessoas diversas em uma empresa não significa, necessariamente, que elas se sentirão incluídas naquele ambiente. A inclusão é algo que passa por cultura organizacional, comportamento dos colaboradores e segurança para todos compartilharem suas ideias. 

Equidade é busca por igualdade por meio de processos e práticas que entendam que cada jornada é individual. As pessoas não partem do mesmo lugar – enquanto alguns começam com vantagens, outros começam com barreiras.

Economia da experiência

Os produtos por si só já não têm o valor de outros tempos. O consumidor procura algo mais do que aquilo que vem na embalagem.

Todo o processo de compra e consumo deve ser acompanhado por algo único – uma experiência – capaz de estimular os cinco sentidos. A economia da experiência se refere a isso. Como marcas podem oferecer experiências que gerem vendas, reconhecimento e reforço de imagem. 

Novas competências e habilidades

As competências comportamentais e de gestão serão cada vez mais importantes na preparação dos gestores. Com a complexidade crescente dos negócios, novas competências e habilidades serão diariamente colocadas na mesa.

Cultura da colaboração e inteligência coletiva

Influenciadas pelo comportamento de colaboração, as empresas estão atuando sobre a cultura corporativa com o objetivo de abrir a roda de discussão e turbinar o que de melhor cada colaborador pode trazer.

Tendências de negócios para saúde & bem-estar

Autenticidade

Refere-se à qualidade de ser verdadeiro, genuíno e honesto. Em termos pessoais, é a capacidade de uma pessoa ser fiel a si mesma, agindo de acordo com suas próprias crenças e valores, sem se deixar influenciar excessivamente por pressões externas. 

Em termos culturais, trata da preservação e expressão verdadeira das tradições, práticas e identidades culturais, sem adulterações ou imitações. Em termos profissionais, refere-se à capacidade de um indivíduo ser verdadeiro e coerente em sua identidade, valores e ações dentro do ambiente de trabalho. 

Isso inclui transparência, consistência, autoconhecimento e integração de valores pessoais e profissionais. A pessoa que age com verdade mostra os seus sentimentos e opiniões sem temer retaliação. 

Ela não possui segundas intenções e, quando quer alguma coisa, expressa a sua vontade para que não haja desentendimentos futuros. Ser autêntico no trabalho pode promover um ambiente mais colaborativo, aumentar a satisfação e melhorar o engajamento e a produtividade.

Saúde mental

Trata do bem-estar emocional, psicológico e social de um indivíduo. É um aspecto fundamental da saúde geral e envolve a capacidade de lidar com as exigências da vida, manter relacionamentos saudáveis e tomar decisões equilibradas. 

A saúde mental abrange bem-estar emocional, capacidade de adaptação, relacionamentos saudáveis (pessoais e profissionais), autoconhecimento e autoestima. Por isso, ela é essencial para a performance.

Diversos fatores a influenciam, como genética, ambiente, experiências anteriores e estilo de vida. A manutenção da saúde mental pode ser a base para a diferença entre ter ou não ter sucesso pessoal, profissional e empresarial.

Humanamente digital


É uma abordagem que coloca o ser humano no centro do desenvolvimento e aplicação da tecnologia. Essa perspectiva busca equilibrar o avanço tecnológico com o bem-estar humano, garantindo que as tecnologias sejam criadas e usadas de maneira ética, inclusiva e responsável. O conceito procura equilibrar o progresso tecnológico com a preservação dos valores humanos e a garantia de um futuro mais justo e sustentável para todos.

Novos modelos de trabalho 


Os novos modelos de trabalho vêm se desenvolvendo rapidamente nos últimos anos. Após a pandemia, avanços tecnológicos, mudanças nas expectativas dos funcionários e novas necessidades das empresas impulsionaram isso ainda mais.

O 100% presencial, vigente de 1919 a 2019, abriu espaço para novos modelos. Trabalho remoto, híbrido, flexível, por projetos, por competências e tantos outros em desenvolvimento terão impacto crescente na gestão das organizações.

Propósito


Propósito é um conceito poderoso, que atua como eixo central para garantir a longevidade da empresa. Ele pode ser definido como um modo único e autêntico por meio do qual sua marca fará a diferença no mundo.

Tendências de negócios para educação, empresas e negócios

Ambidestria corporativa


A evolução tecnológica, a mudança do comportamento do consumidor, a turbulência política e a incerteza econômica reafirmaram aos gestores a importância da adaptabilidade. A capacidade de se mover em direção a novas oportunidades e se ajustar a mercados voláteis sem prejudicar o negócio atual é algo estratégico. 

Para uma empresa ter sucesso a longo prazo, ela precisa dominar a adaptabilidade e o alinhamento, atributo às vezes conhecido como ambidestria. A ambidestria corporativa fala do equilíbrio entre escala e produtividade com velocidade, inovação e criatividade.

É o equilíbrio constante entre “exploration” e “exploitation”. A primeira trata da busca por novas oportunidades, experimentação e inovação, e a segunda, da melhoria contínua das atividades existentes da organização, como otimização de processos e aumento de eficiência.

Negócios de plataforma e de ecossistema


A dependência de plataformas e ecossistemas tirará as empresas do “eu” e as levará para o ”nós”. Todos se integram e se conectam ao longo da cadeia de valor.

O conceito trata da construção de ecossistemas integrados de gestão para melhor entrega e diferenciação no mercado, da adoção de sistemas que se ajustem ao contexto dos clientes e demais players e da integração das funções com transição para um sistema empresarial com o mínimo de silos. Isso gerará plataformas capazes de incorporar pessoas e tecnologias, automatizando os processos.

Estratégia prospectiva


É uma abordagem que busca antecipar o futuro, considerando os cenários e as tendências emergentes como base para tomar decisões. A importância do planejamento estratégico prospectivo está cada vez mais na sua capacidade de tornar a empresa mais preparada para o futuro. 

Empreendedorismo


Resultado das crises recentes e da crescente insatisfação com empresas rígidas e engessadas. Muitas pessoas têm abandonado carreiras executivas para se aventurarem na criação dos seus empreendimentos ou abrindo frentes de mudança nas empresas em que atuam.

Nunca como agora surgiram tantas empresas e tanta gente se mobilizou para mudar as bases nas quais o mundo se assenta. Os empreendedores do futuro estão mais focados na resolução dos grandes problemas. Se não o fizerem dentro das empresas onde trabalham, criarão novas, que garantirão esse movimento.

Aconselhamento


No pressuposto de que ninguém sabe tudo e todos sabem um pouco, o aconselhamento vem ganhando relevância e crescerá exponencialmente nos próximos anos. Será uma maneira de enfrentar os desafios que a alta gestão terá no dia a dia dos seus negócios. 

Quadro resumo completo das megatendências, tendências comportamentais e tendências de negócio por cada força motriz:

Tela de computador com texto preto sobre fundo azul

Descrição gerada automaticamente

Luís Rasquilha

CEO da Inova TrendsInnovation Ecosystem e professor da Fundação Dom Cabral (FDC), Hospital Albert Einstein e Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (Esalq-USP).

As 30 tendências de negócios que guiarão a sociedade até 2035 – MIT Sloan Management Review Brasil

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