Como o Japão tenta recuperar sua influência como líder global em tecnologia

Empresas japonesas de chips estão investindo bilhões de dólares e colaborando com empresas estrangeiras como parte de novas políticas governamentais voltadas para o exterior

Por Patrícia Cohen e River Akira Davis – Estadão/The New York Times – 11/09/2024 

O sucesso invejável da China ao usar a política industrial para expandir sua economia e financiar a fabricação verde ajudou a dar início a uma disputa febril entre as nações para desenvolver e proteger suas próprias empresas locais.

Já se passaram 40 anos desde que essas ansiedades competitivas sobre uma potência asiática em ascensão provocaram esse tipo de adoção da intervenção governamental entre as maiores economias de livre mercado.

Só que, naquela época, a fonte de inquietação era o Japão, e não a China.

O thriller de Michael Crichton, “Rising Sun”, de 1992, com sua descrição sombria dos implacáveis guerreiros econômicos do Japão, dominou as listas de best-sellers, juntamente com títulos de não-ficção que alertavam sobre o rolo compressor financeiro e tecnológico criado pelo poderoso ministério do comércio do governo japonês.

Fábrica de chips Rapidus em Chitose, em Hokkaido, a ilha mais ao norte do Japão, é uma colaboração com a IBM e apoiada por bilhões de dólares em financiamento governamental 

Em uma pesquisa de 1990, quase dois terços dos americanos disseram que o investimento japonês nos Estados Unidos representava uma ameaça à independência econômica americana.

Acontece que a ansiedade em relação à Japan Inc. atingiu seu ápice justamente quando o país começou uma longa queda econômica após o colapso das bolhas do mercado imobiliário e do mercado de ações.

Agora, depois de um período de estagnação que o Ministério da Economia do Japão chama de “as três décadas perdidas”, Tóquio está envolvida em uma política industrial de vários bilhões de dólares para impulsionar a economia sem brilho e recuperar sua posição como inovadora em tecnologia.

Desta vez, o Japão está trabalhando com líderes de tecnologia dos Estados Unidos e de outros países – uma abordagem colaborativa que, décadas atrás, seria impensável.

Mas, mesmo que Tóquio esteja adotando políticas menos voltadas para o interior, a tempestade política sobre a aquisição da U.S. Steel, liderada pelo Japão, ilustra como os Estados Unidos estão cada vez mais se movimentando para proteger outros setores importantes da influência estrangeira.

Atualmente, o foco da política industrial de Tóquio está em formas avançadas de tecnologias que vão de baterias a painéis solares, mas a prioridade é recuperar uma fatia maior do setor global de semicondutores, para o qual o governo japonês destinou mais de US$ 27 bilhões (R$ 152 bilhões) nos últimos três anos.

“No futuro, o mundo será dividido em dois grupos: aqueles que podem fornecer semicondutores e aqueles que apenas os recebem”, disse Akira Amari, uma autoridade sênior do partido governista do Japão, que anteriormente liderou o Ministério da Economia, Comércio e Indústria. “Esses são os vencedores e os perdedores”.

Com base nas lições aprendidas nas últimas décadas, o Japão está experimentando um novo manual quando se trata de chips, disse Amari: “Agora, estamos colaborando com parceiros internacionais desde o início”.

Embora outras nações estejam gastando centenas de bilhões de dólares para obter uma vantagem, os esforços do Japão se destacam devido ao seu histórico de uso da política industrial para se desenvolver rapidamente após a Segunda Guerra Mundial.

“Não é preciso começar do zero”, disse Alessio Terzi, economista da Comissão Europeia. “Isso já é algo que o diferencia de outros países.”

A peça central do novo impulso industrial do Japão está tomando forma em um canteiro de obras que já dura um ano em Hokkaido, a ilha mais ao norte do país. A área é mais conhecida pelas estações de esqui com neve em pó de alta qualidade no inverno, pelos exuberantes tapetes de flores no verão e pelas fontes termais vulcânicas.

Do outro lado de pastos abertos e não muito longe do aeroporto de Chitose está o esboço da nova fábrica de semicondutores da Rapidus Corporation, ainda cercada por um exoesqueleto extenso de andaimes prateados.

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A fábrica, financiada em parte por bilhões de dólares de dinheiro do governo, está sendo desenvolvida por uma colaboração incomum entre a Rapidus, uma startup japonesa fabricante de chips, e a empresa americana de tecnologia IBM. Ela produzirá os chamados chips de 2 nanômetros, uma tecnologia da qual a IBM foi pioneira em seu laboratório em Albany, Nova York.

A ideia da parceria foi concebida no verão de 2020 com uma ligação telefônica de um amigo, John E. Kelly III, executivo de longa data da IBM, para Tetsuro Higashi, presidente da Rapidus.

“Pensei que ele estivesse ligando apenas para colocar a conversa em dia”, disse Higashi, 75 anos.

Mas não estava. Kelly explicou que a IBM estava desenvolvendo uma nova geração de chips e queria produzi-los no Japão.

Higashi logo percebeu que nenhuma empresa no Japão era capaz de produzir em massa esse tipo de chip avançado. Em sua opinião, era um momento de “agora ou nunca”.

“Eu sabia que, se recusasse o convite da IBM naquele momento, não haveria nada no futuro”, disse Higashi. O Japão, que já foi o principal fabricante de semicondutores do mundo, viu sua participação no mercado cair de mais da metade na década de 1980 para menos de 10%. Sem ação, disse Higashi, “o Japão ficaria cada vez mais para trás em nossas tecnologias”.

A próxima ação de Higashi foi entrar em contato com Amari, o responsável pela política industrial do governo.

Era um bom momento para pedir ajuda ao governo japonês para construir uma fábrica.

A escassez de tudo, desde chips de computador até molho de pimenta, relacionada à pandemia, e os altos custos de energia decorrentes da invasão da Ucrânia pela Rússia voltaram a atenção em Tóquio e nas capitais ao redor do mundo para a importância de 

cadeias de suprimentos resilientes e seguras.

Em 2020, o Japão acrescentou novos subsídios para incentivar as empresas japonesas que produzem produtos essenciais como semicondutores, turbinas eólicas, seringas de vacinação e luvas de borracha a transferir suas operações para o país ou para países próximos.

Enquanto isso, as crescentes tensões entre os Estados Unidos e a China minaram ainda mais a fé em uma ordem internacional cooperativa baseada em regras compartilhadas e comércio aberto.

Em 2021, o Ministério do Comércio introduziu uma política industrial mais agressiva. Um dos principais motivos para os anos de estagnação do Japão, concluiu o novo comitê de planejamento, foi a abordagem excessivamente antirregulatória e sem intervenção do governo em relação à economia.

O ministério também observou o que os principais concorrentes, como os Estados Unidos, a União Europeia e a China, estavam fazendo e, em seguida, analisou as políticas industriais e econômicas anteriores do Japão.

A “nova direção” não repetiria a estratégia anterior de promover e proteger determinados setores, disse o comitê. Em vez disso, usaria todo o conjunto de ferramentas regulatórias do governo para buscar “projetos voltados para a missão”, como a promoção de tecnologia verde e conservação de energia.

O compromisso do governo seria “em grande escala, a longo prazo e bem planejado”, disse o comitê.

As ideias apresentadas refletem grande parte do pensamento mais recente de economistas como Mariana Mazzucato e Dani Rodrik, que endossaram políticas industriais para lidar com questões como a transição verde e a digitalização.

Há 25 anos, o Japão tentou uma abordagem totalmente doméstica para reavivar seu setor de chips, que estava vacilante. O país fundiu várias das principais empresas japonesas de fabricação de chips em uma única entidade, a Elpida Memory, e depois a inundou com investimentos públicos e empréstimos.

Em 2012, a Elpida entrou com pedido de falência, a maior falência de um fabricante japonês desde a Segunda Guerra Mundial.

O setor de semicondutores de hoje “é realmente global”, disse Amari: as empresas taiwanesas produzem chips projetados nos Estados Unidos, usando equipamentos da Holanda e do Japão.

A Rapidus receberá tecnologia da IBM para seus semicondutores de alto desempenho e enviou centenas de engenheiros para as instalações de pesquisa da IBM em Albany para desenvolver tecnologias para a produção em massa dos chips.

O governo está apoiando tanto as grandes apostas como a Rapidus quanto as menores.

O Japão cortejou a Taiwan Semiconductor Manufacturing Company, o gigante da fabricação de chips, para construir uma fábrica na cidade de Kikuyo, no sul do país, com investimentos de empresas nacionais, incluindo a Sony. A fábrica, financiada em parte pelo governo, foi inaugurada em fevereiro.

“Sem a intervenção do governo, os inúmeros projetos atualmente em andamento no Japão provavelmente não teriam se concretizado”, observou uma conferência do Centro de Estudos de Políticas Asiáticas da Brookings Institution em seu encerramento nesta primavera.

Há céticos no Japão. A usina Rapidus foi criticada por seu cronograma ambicioso e por sua incapacidade de atrair mais investimentos do setor privado.

Mas Amari argumenta que não há alternativa.

“Não assumir os semicondutores agora significa que você estará no grupo dos perdedores desde o início”, disse ele. “O Japão nunca escolherá isso.”

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Brasil já tem 3 safras agrícolas por ano, e tecnologia pode fazer produção dobrar

Colheita variada numa mesma área é uma tendência que ganha cada vez mais espaço no país

Por João Sorima Neto — O Globo – 21/09/2024 

Pode ser soja, milho e algodão. Ou soja, feijão e trigo. Em algumas fazendas, planta-se primeiro soja, depois o milho e por fim capim na para engordar o gado — o que os agricultores chamam de “boi safrinha”.

O avanço da tecnologia no campo, com melhoramento genético de sementes, irrigação e uso do plantio direto (técnica em que o solo é pouco revolvido) está colocando o Brasil numa posição única no mundo: a colheita de três safras por ano numa mesma área, tendência que ganha cada vez mais espaço no país.

O uso do solo durante todo o ano, sem interrupções, é uma vantagem competitiva em relação a nações do Hemisfério Norte, onde o inverno rigoroso interrompe esse ciclo. Com o avanço das três safras, aliada à recuperação de pastos degradados, os especialistas afirmam que o Brasil tem potencial para dobrar sua produção agrícola sem desmatar novas áreas.

— A tecnologia para a produção de três safras já está dominada. Esta é uma vantagem do Brasil em relação aos países onde há neve. Nossa capacidade produtiva é assombrosamente mais elevada por conta da possibilidade de usar o solo o ano todo — diz Roberta Carnevalli, chefe de pesquisa da Embrapa Soja.

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Essa rotação de culturas depende das características de cada região do país, como intensidade da chuva, luminosidade e temperatura. Como elas variam em cada lugar, há mais possibilidade de diversificar a produção. No Sul, a terceira safra pode ser de trigo, aveia ou até cevada.

A família do agricultor Emilio Kenji Okamura está há mais de quatro décadas produzindo na região de Capão Bonito, a 243 quilômetros da capital paulista. Com sementes que têm ciclo mais curto de produção, tem conseguido fazer até três safras num ano numa área de 300 hectares com soja, feijão e trigo ou sorgo na terceira safra. O feijão que normalmente leva 120 dias para ser colhido, nesse caso leva 90 dias:

— O plantio da próxima cultura acontece simultaneamente ao da colheita da anterior. Com melhoramento genético, temos ciclos mais precoces, e a irrigação é importante para os períodos mais secos.

Necessidade de irrigação

O engenheiro agrônomo Nelio Uemura, do departamento técnico da Cooperativa Agrícola de Capão Bonito (CACB), conta que a quase totalidade dos cem agricultores nos cerca de três mil hectares de feijão plantados na região consegue colher três safras num ano. Os que ainda não estão nesse patamar obtém cinco colheitas em dois anos.

Área de irrigação de fazenda da Bom Futuro, no Mato Grosso — Foto: DivulgaçãoÁrea de irrigação de fazenda da Bom Futuro, no Mato Grosso — Foto: Divulgação

O feijão é plantado em agosto e colhido no início de novembro. A soja vem em seguida e é colhida até março, e o trigo é plantado em abril. Este ano, com o inverno mais quente, ele conta que houve mais pragas, como a mosca branca, que ataca o feijão e soja. Por isso, os produtores plantaram o milho após a colheita do feijão:

— Temos tido boa produtividade da soja pós-feijão, com algo entre 55 a 60 sacas por hectare, quando a média brasileira é de cerca de 53 sacas.

Roberta, da Embrapa Soja, observa que a terceira safra de grãos normalmente acontece em período mais seco, e por isso, é necessária a irrigação — o que demanda investimento maior. Em Pernambuco e Roraima, por exemplo, tem sido produzido milho na terceira safra com irrigação.

O custo de irrigar um hectare é estimado em cerca de R$ 3 mil e nem sempre há água disponível. Esta é uma das barreiras para colher a terceira safra em época de seca. Por isso, em algumas regiões, a terceira safra é de capim, comumente a braquiária, que forma pastagens e alimenta o gado.

Em Campo Verde, no Mato Grosso, a Bom Futuro, empresa agrícola com 36 fazendas produtoras no estado e que atua nos setores de pecuária, sementes, energia, entre outros, colhe três safras em 700 hectares irrigados. Dependendo do ano, planta-se soja, milho e algodão, ou soja, algodão e milho.

Integração Lavoura pecuária em fazenda da Bom Futuro — Foto: DivulgaçãoIntegração Lavoura pecuária em fazenda da Bom Futuro — Foto: Divulgação

A produtividade é elevada com 80 sacas de soja por hectares nas áreas com irrigação, diz Nahzir Oke Junior, gerente administrativo de parcerias agrícolas da Bom Futuro.

Já na cidade de São José do Rio Claro, também em Mato Grosso, a fazenda Agromar, da Bom Futuro, faz a integração lavoura/pecuária, que permite o cultivo da lavoura e de pastagem em uma mesma área. A cultura da soja é seguida do milho e, na terceira safra, vêm as plantas forrageiras, que garantem alimento para os animais, especialmente para o gado de corte.

O produtor reduz os custos operacionais, aumenta a fertilidade do solo e acelera a recuperação de áreas degradadas — além de melhorar sua rentabilidade com o gado, vendido para grandes frigoríficos como JBS e Marfrig.

— Produzimos mais na mesma área. É um sistema mais sustentável. A pastagem melhora a fertilidade e a permeabilidade do solo para soja, evita erosão, e aumenta a rentabilidade, já que o gado engorda um quilo por dia quando se alimenta neste pasto — explica Nahzir Okde, lembrando que os 320 mil hectares da Bom Futuro, 42 mil já usam o sistema integração.

Lavoura e pecuária juntas

Para o pesquisador do Insper Agro Global, Leandro Giglio, a intensificação da produção pecuária com redução do tempo de abate, a adoção de processos de integração lavoura/pecuária, a intensificação das safras (elevando de duas para três colheitas) e a recuperação de pastagens degradadas vão permitir que o Brasil tenha potencial de dobrar sua produção sem expandir para áreas nativas nos próximos anos.

— Temos 160 milhões de hectares de pastos e mais da metade desse total com algum nível de degradação. As áreas de pastagens degradadas chegam a ser quase equivalentes ao total de área ocupada no Brasil com agricultura e silvicultura. Isso mostra que temos potencial para mais que dobrar a produção — diz Giglio.

Um estudo do Observatório de Conhecimento e Inovação em Bioeconomia da Fundação Getulio Vargas (FGV) revelou que para recuperar e reformar todas as áreas de pastagem que apresentam algum nível de degradação seriam necessários R$ 383,7 bilhões.

A Fazenda Roncador, em Querência, no Mato Grosso, com 53 mil hectares, vem praticando a agricultura regenerativa, com integração de lavoura e pecuária, que ocupa quase 80% da área. Plantam soja, milho e capim.

Pelerson Penido, CEO da Fazenda Roncador, lembra que a melhoria genética das sementes produz variedades mais resistentes — Foto: DivulgaçãoPelerson Penido, CEO da Fazenda Roncador, lembra que a melhoria genética das sementes produz variedades mais resistentes — Foto: Divulgação

O CEO da Roncador, Pelerson Dalla Vecchia, lembra que a melhoria genética das sementes produz variedades mais resistentes, que enfrentam as condições climáticas atuais. Na cultura do que ele chama de “soja inteligente” é usado o controle biológico de pragas, reduzindo largamente a aplicação de produtos químicos.

A Roncador desenvolveu uma forma de fortalecer e rejuvenescer o solo através da mineralização, em que pó de rocha é misturado à terra. São técnicas que ajudam a mitigar os efeitos climáticos do calor extremo e da falta de chuvas, de forma sustentável:

— A pastagem melhora a resiliência do solo, mantém a umidade e a temperatura mais baixa. E garante três meses de comida para o gado na seca.

​Brasil já tem 3 safras agrícolas por ano, e tecnologia pode fazer produção dobrar (globo.com)

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Vietnã assume posição de destaque no setor de semicondutores

Segundo Glauco Arbix, o Brasil tem muito a aprender com a trajetória do Vietnã, que se tornou um polo de excelência de profissionais com mais de 40% dos graduados especializados em ciência

Glauco Arbix / Rádio USP – 27/08/2024 

Glauco Arbix foca esta edição de sua coluna na indústria de semicondutores, um dos setores mais estratégicos e promissores da economia global, com um mercado estimado para alcançar US$ 1 trilhão em 2030. Os semicondutores são essenciais para qualquer aparelho eletrônico e a demanda por esses  microchips explodiu após a pandemia, com o crescimento da digitalização e com os avanços da inteligência artificial (IA). 

“A disputa entre Estados Unidos e China, além de aumentar a procura por semicondutores, está forçando uma reconfiguração das cadeias de valor e do mapa global de produção de chips, o que abre oportunidade para muita gente, inclusive para nós, aqui no Brasil”, diz Arbix.

De acordo com ele, o Vietnã é hoje o país cuja evolução nesse setor o tornou um centro global de semicondutores – mostrando uma taxa de crescimento na indústria de semicondutores constante desde 2016 – e o levou a se colocar entre os dez maiores exportadores globais de semicondutores e circuitos integrados, “atraindo empresas dos Estados Unidos, que praticamente destruíram o país há 50 anos numa guerra, e o Vietnã passou a ser o terceiro maior exportador asiático de semicondutores para os Estados Unidos, depois de Taiwan e Malásia”. 

Arbix explica o segredo que está por trás dessa evolução: “O plano estratégico do Vietnã impressiona pela simplicidade, o Vietnã investiu em gente, tornou-se um polo de excelência de profissionais, com mais de 40% dos graduados especializados em ciência, engenharia, que acabaram colocando o país entre as dez principais nações do mundo com maior número de formandos em engenharia. É uma  força de trabalho qualificada, que posicionou o Vietnã para se tornar um centro global e, ao mesmo tempo, permitiu que as empresas absorvessem o conhecimento que vem das grandes multinacionais”.

O colunista diz que o Brasil tem muito a aprender com a trajetória do Vietnã,  “a começar por aproveitar as oportunidades dos conflitos entre Estados Unidos e China, o Brasil pode ser beneficiado da migração de empresas de chips desses dois países, o Brasil é amigo dos dois, o Brasil tem parceiros tecnologicamente avançados em praticamente todo o mundo, o Brasil tem uma matriz energética limpa, que é a chave para atrair investimentos, tem um enorme estoque de metais críticos chamados de terras raras e tem capacidade de potencializar nossa engenharia, que já produziu, veja, o primeiro chip em 1970, dois anos após a criação da Intel, e hoje nós não temos uma indústria robusta de chips. 

É hora de dar foco à nova política industrial, de aproveitar o plano aprovado pelo Senado e definir um rumo claro para que o Brasil possa formar milhares de engenheiros capazes de impulsionar a nossa indústria”.


Observatório da Inovação
A coluna Observatório da Inovação, com o professor Glauco Arbix, vai ao ar quinzenalmente, terça-feira às 8h, na Rádio USP (São Paulo 93,7; Ribeirão Preto 107,9) e também no Youtube, com produção da Rádio USP, Jornal da USP e TV USP.

Vietnã assume posição de destaque no setor de semicondutores – Jornal da USP

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Nordeste se tornará uma das regiões mais importantes do MUNDO após chegada de megainvestimento de R$ 111 bilhões para produção do combustível do futuro

Valdemar Medeiros – Click Petróleo e Gás – 20/09/2024 

A região Nordeste do Brasil está prestes a receber um investimento de R$ 111 bilhões para impulsionar a produção de hidrogênio verde, posicionando-se como uma futura potência no cenário global de energia limpa.

A região Nordeste do Brasil está no centro de uma revolução energética global com um foco claro: a produção de hidrogênio verde, considerado o combustível do futuro. Entre os estados que lideram essa corrida está o Rio Grande do Norte, que recentemente anunciou um investimento massivo de R$ 111 bilhões para o desenvolvimento de projetos voltados à produção de hidrogênio verde (H2V). Com o potencial de gerar mais de 30 mil novos empregos e atrair bilhões em investimentos, o Nordeste está prestes a se consolidar como uma potência mundial na produção deste combustível inovador.

O Rio Grande do Norte como líder na produção de hidrogênio verde e suas condições ideais

O Rio Grande do Norte, já conhecido como o maior produtor de energia eólica do Brasil, está à frente de uma nova onda de desenvolvimento com o hidrogênio verde. O estado possui uma combinação perfeita de recursos naturais e infraestrutura que o coloca em uma posição vantajosa para liderar a produção do combustível do futuro. Além de abundante energia eólica, o estado também dispõe de grande disponibilidade de água, ambos essenciais para a produção de H2V.

Atualmente, pelo menos seis projetos estão em desenvolvimento no estado, com o potencial de gerar 5 GW de energia limpa. Três desses projetos já estão em fase de licenciamento ambiental, o que representa um passo importante para transformar o Rio Grande do Norte em um centro global de produção de hidrogênio verde.

Este avanço se deve, em grande parte, à colaboração entre o governo do estado e a iniciativa privada, que já está atraindo investimentos de empresas internacionais como a alemã Nordex e a espanhola Acciona.

O impacto do megainvestimento de R$ 111 bilhões no hidrogênio verde para o Nordeste

Com um investimento total estimado em R$ 111 bilhões, o Rio Grande do Norte se destaca como um polo estratégico para a produção do combustível do futuro. Segundo a Confederação Nacional da Indústria (CNI) e a Secretaria de Desenvolvimento Econômico do RN (Sedec), os projetos de hidrogênio verde no estado têm potencial para gerar um total de US$ 20 bilhões em investimentos diretos. Isso coloca o Rio Grande do Norte na vanguarda de um movimento que pode transformar a economia da região e criar mais de 30 mil novos empregos nos próximos anos.

O Complexo Industrial Alto dos Ventos, em Macau, é um dos principais projetos em desenvolvimento no estado. Com um investimento estimado em US$ 2,5 bilhões (cerca de R$ 12,9 bilhões), este projeto é liderado por Nordex e Acciona, ocupando uma área de 10 hectares e com capacidade de produção de 1 GW de hidrogênio verde. Essa capacidade coloca o projeto entre os maiores do mundo e reforça o papel do Rio Grande do Norte como uma potência emergente na produção do combustível do futuro.

O papel crucial da infraestrutura no escoamento do hidrogênio verde no Nordeste

A produção de hidrogênio verde no Nordeste não seria possível sem o desenvolvimento de uma infraestrutura robusta que permita o escoamento e transporte do combustível. Nesse contexto, o Porto-Indústria, que está sendo viabilizado pelo governo do Rio Grande do Norte, desempenha um papel fundamental. O porto será crucial para o transporte do hidrogênio verde produzido na região, facilitando sua exportação para mercados internacionais.

Além disso, o estado está trabalhando para desenvolver a regulamentação necessária para apoiar o crescimento desse setor. A Assembleia Legislativa do RN (ALRN) está elaborando um projeto de regulação para o ambiente de produção de hidrogênio verde, enquanto o Congresso Nacional já aprovou o Marco Legal para a produção de hidrogênio, criando um ambiente regulatório favorável para atrair mais investimentos. Essas medidas são essenciais para garantir que o hidrogênio verde se torne uma parte central da matriz energética do Brasil.

O impacto do hidrogênio verde na criação de novos empregos no Nordeste

Um dos aspectos mais promissores do investimento em hidrogênio verde no Nordeste é o impacto positivo que terá na criação de empregos. A expectativa é que os projetos de produção de H2V gerem mais de 30 mil novos empregos diretos e indiretos, abrindo oportunidades em diversas áreas, desde engenharia e tecnologia até logística e gestão de projetos.

Essa nova demanda por mão de obra qualificada está sendo atendida por iniciativas como o Centro de Excelência em Formação Profissional para Hidrogênio Verde, inaugurado em fevereiro deste ano no Rio Grande do Norte.

Esse centro é o primeiro do Brasil a oferecer treinamento especializado para profissionais que desejam atuar na produção de hidrogênio verde. Em condições reais de operação, os alunos aprendem desde a geração de energias renováveis até a produção e aplicação prática do hidrogênio verde. Essa capacitação é fundamental para garantir que o Brasil tenha os recursos humanos necessários para se destacar no mercado global de hidrogênio verde.

O futuro do hidrogênio verde no Nordeste e a transição para o combustível do futuro

O hidrogênio verde está rapidamente se tornando uma das soluções mais promissoras para a redução das emissões de gases de efeito estufa. O Brasil, com sua abundância de recursos renováveis, está bem posicionado para se tornar um líder global na produção deste combustível do futuro, e o Nordeste, em particular, está assumindo a dianteira desse movimento.

Estados como o Ceará, Piauí e Bahia também estão investindo pesadamente no desenvolvimento de projetos de hidrogênio verde, com o Ceará liderando o número de projetos em andamento, somando 27 iniciativas. No entanto, o Rio Grande do Norte continua a se destacar pelo seu pioneirismo e pela infraestrutura já em desenvolvimento para suportar a produção de H2V.

Com investimentos que podem chegar a US$ 90 bilhões em toda a região Nordeste, o hidrogênio verde promete não apenas transformar a economia local, mas também colocar o Brasil no mapa global como um dos principais exportadores desse combustível limpo e sustentável. Ao fazer essa transição para o combustível do futuro, o Brasil estará contribuindo significativamente para a luta contra as mudanças climáticas, ao mesmo tempo que gera novos empregos e oportunidades para o desenvolvimento regional.

O Nordeste como protagonista global na produção do combustível do futuro

O investimento de R$ 111 bilhões na produção de hidrogênio verde no Nordeste, especialmente no Rio Grande do Norte, é uma clara demonstração do potencial da região para liderar o setor de energias limpas.

Com recursos naturais abundantes, uma infraestrutura em desenvolvimento e o apoio de grandes empresas internacionais, o Nordeste está se posicionando como uma potência mundial na produção do combustível do futuro.

A criação de mais de 30 mil novos empregos reforça a importância desse investimento não apenas para a economia local, mas também para a transição energética global. À medida que o hidrogênio verde se torna uma peça central na luta contra as mudanças climáticas, o Nordeste do Brasil está preparado para desempenhar um papel de destaque na produção deste combustível que promete revolucionar o setor energético.

Nordeste se tornará uma das regiões mais importantes do MUNDO após chegada de megainvestimento de R$ 111 bilhões para produção do combustível do futuro – CPG Click Petroleo e Gas

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O que a Suécia tem? Origem de Spotify e Skype, país é a aposta da Europa na corrida tecnológica

Pequena nação nórdica tem um histórico empreendedor e potências tecnológicas, o que causa inveja a seus vizinhos

Por O Globo/The New York Times — 14/09/2024 

A economia da Suécia, de muitas maneiras, sofreu com as mesmas tribulações que o resto da Europa: recentes surtos de inflação esmagadora e recessão, e, agora, a perspectiva de um crescimento modesto em um mundo dividido por conflitos geopolíticos e econômicos.

No entanto, este pequeno país nórdico possui uma lista de empreendedores de alta tecnologia que causa inveja a seus vizinhos. Spotify e Skype são nomes de marcas reconhecidas globalmente. Klarna, uma empresa de tecnologia financeira, e King Digital Entertainment, criadora do gigante dos videogames Candy Crush, são outros exemplos de potências tecnológicas locais.

— Eles têm algo — especialmente no setor de tecnologia — que outros países europeus não têm na mesma medida — disse Jacob Kirkegaard, pesquisador sênior do German Marshall Fund.

Esse histórico empreendedor tem atraído renovada atenção em um momento em que crescem as ansiedades sobre a capacidade da Europa de competir com os avanços tecnológicos americanos e chineses.

Os Estados Unidos criaram uma geração de empresas como Google, Meta e Amazon, enquanto a cena tecnológica da China floresceu com empresas como Alibaba, Huawei e ByteDance, a proprietária do TikTok.

A Europa, claro, tem seus próprios gigantes tecnológicos, como a ASML da Holanda, uma líder global no setor de semicondutores. Mas, como um todo, o continente é visto mais como um espectador do que como um inovador, sendo mais conhecido por sua regulamentação agressiva de empresas estrangeiras de tecnologia do que por construir seus próprios negócios.

Valores europeus

O impacto econômico de ficar para trás é substancial, mas também tem importantes implicações sociais. Os formuladores de políticas europeias se preocupam com o efeito a longo prazo de depender de corporações estrangeiras para comunicação, redes sociais, compras e entretenimento, em vez de empresas com os chamados “valores europeus”.

Esses valores incluem uma maior valorização pela proteção da privacidade, pela prevenção da disseminação de discurso de ódio e pela manutenção de fortes proteções trabalhistas e de um melhor equilíbrio entre trabalho e vida pessoal.

Os críticos das políticas tecnológicas europeias reclamam do menor acesso ao capital de risco e de uma aversão cultural ao risco. Os trabalhadores de tecnologia da Europa muitas vezes se mudam para os Estados Unidos em vez de construir empresas em casa.

Mas a Suécia teve uma experiência diferente. Ela produziu mais unicórnios tecnológicos — startups avaliadas em mais de US$ 1 bilhão — per capita do que qualquer outro país na Europa, depois da pequena Estônia, de acordo com um relatório sobre tecnologia europeia da Atomico, uma empresa de investimentos. E classificou-se em quarto lugar no número de unicórnios, depois do Reino Unido, Alemanha e França, países cujas populações são seis a nove vezes maiores.

Exemplo a ser seguido

Mario Draghi, ex-presidente do Banco Central Europeu, que está analisando a “crise de competitividade” na União Europeia, recentemente apontou a Suécia como um exemplo a ser seguido. Ele observou que o setor de tecnologia sueco é duas vezes mais produtivo que a média da União Europeia e que o país oferece fortes programas sociais.

Em entrevistas, uma dúzia de empreendedores, investidores e economistas concordaram que um dos ingredientes do sucesso da Suécia foram as iniciativas dos anos 1990, que deram a uma ampla faixa da população acesso a computadores pessoais e banda larga. Na época, a maioria das pessoas estava apenas se acostumando ao som estridente dos modems de acesso discado.

Fredrick Cassel, sócio da Creandum, uma empresa de capital de risco que investiu no Spotify e na Klarna, disse que sua capacidade de usar a internet em casa o colocou no caminho para se tornar um investidor em tecnologia.

O impulso para colocar um PC em cada casa e construir conectividade deu à Suécia uma vantagem na produção de uma “geração de engenheiros”, disse Cassel, de 50 anos:

— Eu tenho dificuldade em ver isso acontecer sem essas duas infraestruturas em vigor.

O empreendedor de tecnologia sueco Hjalmar Nilsonne teve uma experiência semelhante. Ele lembra de ter recebido seu próprio computador Pentium II da HP em 1998, quando tinha 10 anos: “isso mudou minha vida, ao me apresentar à programação e à internet.”

Nilsonne, que fundou e posteriormente vendeu a Watty, recentemente cofundou uma startup chamada Neko Health com Daniel Ek, fundador e CEO do Spotify.

— Ele teve exatamente a mesma história que eu — disse Nilsonne sobre seu parceiro na Neko. — Começamos a brincar com computadores. Aprendemos a construir sites. Começamos a vender sites para amigos e familiares quando éramos adolescentes. E tudo isso foi possível porque tivemos acesso muito cedo à internet.

Investimento em pesquisa e desenvolvimento

Analistas também apontam para uma tradição na Suécia de investimento público e privado em pesquisa e desenvolvimento, que atualmente corresponde a 3,4% da produção total, uma das porcentagens mais altas da Europa.

Havia também um grande pool de ativos de fundações familiares como Wallenberg e Ikea, bem como um sistema de aposentadorias e pensões controlado pelo governo, que serviram como fontes locais de capital de risco inicial na pequena nação.

As empresas suecas sempre foram incentivadas a buscar clientes fora do país, que tem uma população de apenas 10 milhões, disse Asa Zetterberg, diretora-gerente da TechSverige, uma organização comercial. Isso forçou startups e indústrias, afirma Asa, a “serem competitivas na economia global.”

Metade do Produto Interno Bruto do país vem das exportações, e o setor de tecnologia respondeu por 11% do total das exportações em 2022.

Niklas Zennstrom, um dos fundadores do Skype que agora é CEO da Atomico, disse que as startups poderiam obter financiamento inicial, mas tinham muito mais dificuldade em conseguir financiamento para expansão na Europa em comparação com suas contrapartes nos Estados Unidos.

A pressão por mais financiamento vem em meio a um impulso dos governos ao redor do mundo para direcionar o desenvolvimento econômico de forma mais assertiva. Os Estados Unidos aumentaram os gastos com semicondutores, energia alternativa e veículos elétricos em centenas de bilhões de dólares para competir de forma mais agressiva com a China.

As principais legislações do presidente Joe Biden enfatizaram subsídios, garantias de empréstimos e incentivos fiscais para empresas que investem na transição verde e em tecnologia avançada.

As políticas de Biden também acenaram para o apoio social, como exigir que os fabricantes de chips que recebem subsídios ofereçam cuidados infantis acessíveis. Mas o foco está nos aspectos industriais e tecnológicos.

Fundadores e investidores na Suécia repetidamente apontaram para o papel crucial que a ampla rede de segurança social do país desempenha em encorajar empreendedores a experimentar e correr riscos — apesar dos altos impostos necessários para financiar os programas.

Sistema de bem-estar social encoraja o empreendedorismo e a inovação

Um “sistema de bem-estar social” eficaz é a melhor maneira de o governo sueco encorajar o empreendedorismo e a inovação, acrescentou Cassel.

Com educação gratuita, saúde gratuita, cuidados infantis gratuitos, ”você pode se dar ao luxo de correr riscos, você não vai parar na rua” se falhar, ressaltou.

Sebastian Siemiatkowski, fundador da Klarna, também deu créditos à rede de segurança da Suécia. Ele disse que seus pais imigrantes estavam frequentemente desempregados quando ele era criança. Ainda assim, ele conseguiu obter assistência médica, frequentar as melhores escolas e adquirir um computador doméstico cedo “sem ter dinheiro nenhum.”

A Suécia (junto com a Bélgica) gasta mais em educação como porcentagem do PIB do que qualquer outro membro da União Europeia.

Siemiatkowski apontou que a Suécia também está muito à frente dos Estados Unidos em igualdade de oportunidades. O país ficou em quarto lugar no índice de mobilidade social do Fórum Econômico Mundial em 2020, o mais recente disponível. Os Estados Unidos ficaram em 27º lugar.

Isso, ele disse, é uma razão importante pela qual a Suécia “se destaca mais do que o esperado.”

O que a Suécia tem? Origem de Spotify e Skype, país é a aposta da Europa na corrida tecnológica (globo.com)

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Crise climática: Mundo pode não ter mais volta e isso me apavora

A Terra só viu algo parecido no último período do interglacial, 120 mil anos atrás

Carlos Nobre – Folha – 14.set.2024 

Climatologista, é pesquisador sênior pelo Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP e copresidente do Painel Científico para a Amazônia; foi eleito em maio de 2022 como membro estrangeiro da Royal Society

A ciência climática do mundo inteiro não previa uma aceleração tão intensa das mudanças climáticas como temos visto recentemente. No começo de 2023, os cientistas previram um El Niño de grande intensidade, com temperaturas chegando a 1,3°C acima dos níveis pré-industriais. Mas ninguém esperava que as temperaturas globais fossem explodir e ficar 1,5°C mais quentes.

Com exceção de julho de 2024, estamos desde junho de 2023 vivendo temperaturas acima de 1,5°C. O último mês de agosto foi o mais quente já registrado. A Terra só viu algo parecido no último período do interglacial, 120 mil anos atrás.

A consequência desses 14 meses de temperatura alta, incluindo os recordes de temperatura dos oceanos, é o aumento dos eventos climáticos extremos. Mas eles não cresceram devagarzinho ou de uma forma linear. Eles cresceram exponencialmente, como a ciência previu. E é isso que está acontecendo no Brasil e no mundo inteiro, com ondas de calor, seca, chuvas intensas e incêndios florestais.

O Acordo de Paris e as COPs estabeleceram metas para reduzir as emissões de gases de efeito estufa de 28% a 42% até 2030, o que já é um enorme desafio. Mas as emissões continuam aumentando. Tudo isso foi definido para não passarmos de 1,5°C em 2050. Mas se no ano que vem continuarmos com temperaturas 1,5°C acima do período pré-industrial, serão três anos com temperaturas acima da meta do Acordo de Paris. Pode ser tarde demais e isso me apavora.

Estou apavorado porque, com 2,5°C, nós vamos criar uma mudança climática nunca vista. Com 2,5°C, os eventos extremos vão aumentar muito exponencialmente e o mais preocupante é que atingiremos os chamados pontos de não retorno.

Planeta em Transe

Se passarmos de 2°C, todos os recifes de coral do mundo serão extintos. Se passarmos de 2,5°C, vamos perder de 50% a 70% da amazônia e grande quantidade do solo congelado da Sibéria, do Canadá e do Alasca, o chamado permafrost, será descongelado. Com isso, vamos jogar uma gigantesca quantidade de gases de efeito estufa que estão ali aprisionados.

Na semana passada, a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, afirmou que o Brasil pode perder o pantanal por completo até o fim deste século se o mundo não for capaz de reverter o cenário de aquecimento global.

Como isso aconteceria? Grande parte da água que abastece o pantanal vem da bacia amazônica e do cerrado. Se ultrapassarmos 2,5°C de aquecimento, a amazônia será devastada, o que reduzirá significativamente as chuvas na região do pantanal. Sem essa umidade, o bioma pode se transformar em uma caatinga. E isso já vem acontecendo. O prolongamento das estações secas já resultou em 35% do pantanal deixando de ficar coberto por água nos últimos 40 anos.

  •  

Quando analisamos alguns países, especialmente na Ásia e em partes da Europa, vemos que eles estão adotando medidas eficazes para lidar com as mudanças climáticas. Um exemplo notável é Singapura, que implementou o conceito de “esponja urbana”, que envolve a restauração florestal nas áreas urbanas e periféricas, que reduz a temperatura e ajuda a mitigar desastres climáticos. O Brasil também tem potencial para implementar essas medidas.

Em São Paulo, por exemplo, a área urbana, com muito concreto e asfalto, pode ser de 6°C a 10,5°C mais quente do que áreas cobertas pela mata atlântica próximas, como o Parque Zoológico.

Estudos da USP mostram que a restauração da vegetação urbana pode reduzir as temperaturas em até 5°C, reter água no solo, diminuir enxurradas e remover de 20% a 30% dos poluentes. Além disso, melhora o microclima e, consequentemente, a saúde, já que ondas de calor são um dos maiores riscos climáticos.

No entanto, se falharmos em reduzir drasticamente as emissões, poderemos enfrentar um cenário extremo. Se a temperatura global aumentar em 4°C até 2100, grande parte do planeta, incluindo o Brasil, pode se tornar inabitável, especialmente as regiões tropicais e equatoriais. Isso incluiria vastas regiões do Brasil, especialmente as áreas tropicais e equatoriais. No Sudeste, os verões seriam tão extremos que viver ali seria insustentável.

A situação seria tão drástica que, no século 21, as únicas áreas habitáveis no mundo seriam regiões como o Ártico, a Antártica e as grandes cadeias montanhosas, como os Alpes e o Himalaia. Esse cenário nos mostra a gravidade da crise climática e o quanto é urgente zerar as emissões de carbono rapidamente, para evitar esse futuro quase inacreditável.

Ações mais rigorosas para combater as mudanças climáticas são urgentes. Sem medidas imediatas e eficazes, estamos caminhando para um futuro em que vastas regiões do planeta poderão se tornar inabitáveis, com impactos profundos para a vida. Não podemos em hipótese alguma aceitar passar de 2°C e chegar a 2,5°C. As metas de redução das emissões têm que ser muito mais rigorosas e abrangentes. Não podemos esperar até 2050.

Crise climática: Mundo pode não ter mais volta – 14/09/2024 – Ambiente – Folha (uol.com.br)

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‘Guru de Wall Street’ faz alerta: situação da China é tão grave quanto a do Japão dos anos 1990

Investidor bilionário diz que, com crise imobiliária, país terá provavelmente de fazer uma reestruturação de sua dívida

Por Estadão/Fortune – 19/09/2024

Os problemas de desequilíbrio financeiro da China são tão graves que lembram Ray Dalio da bolha de ativos do Japão logo antes do início da crise econômica de décadas do país.

O fundador do Bridgewater, um dos maiores fundos de investimentos do mundo, teme que a crise imobiliária na China tenha deixado os governos locais incapazes de pagar suas dívidas, buscando recursos por meio da venda de terras.

Isso aumenta o risco de que as províncias, prefeituras e municípios responsáveis por mais de 80% dos gastos totais do Estado precisem de alguma forma de um perdão da dívida, o que provavelmente resultaria em perdas para os credores.

“É uma situação que é pelo menos tão grave quanto a situação japonesa a partir de 1990″, disse Dalio, uma espécie de guru do mundo dos investimentos, durante um painel de discussão na quarta-feira no Milken Institute Asia Summit 2024, em Cingapura. “Eles precisam fazer uma reestruturação da dívida. É uma questão muito complicada e politicamente dura.”

Para você

No auge de sua bolha imobiliária no final da década de 1980, o terreno onde ficava o palácio imperial de Tóquio era notoriamente mais valioso na época do que todo o Estado da Califórnia. Quando a bolha finalmente estourou, o Japão passou por décadas de crescimento lento e deflação. Foi somente em fevereiro deste ano que o índice de ações Nikkei finalmente superou o pico de dezembro de 1989.

Qualquer investidor de destaque que compare a China com o Japão antes de suas décadas perdidas de estagnação deve ficar alarmado. Dalio, que continua a ser membro do conselho de administração da Bridgewater, era, no entanto, bem conhecido por suas opiniões otimistas sobre a China.

Agora, não mais. “Há grandes problemas estruturais no país”, disse ele aos participantes da conferência.

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E não são apenas os governos locais que estão atrasando a economia da China. De acordo com Dalio, as famílias que tradicionalmente detêm cerca de 70% de seu dinheiro vinculado a imóveis estão se esquivando de gastar. Elas precisarão ver uma recuperação, antes que o sentimento melhore e os consumidores voltem a gastar.

A Fortune entrou em contato com o Ministério das Relações Exteriores da China por meio de suas embaixadas para comentar o assunto, mas não obteve resposta.

Os EUA enfrentam seus próprios desafios

Dalio mostrou-se mais otimista em relação aos fundamentos da economia dos EUA, mas advertiu que ela também enfrenta seus próprios desafios.

As grandes lacunas na desigualdade de renda exacerbaram as tensões sociais a ponto de haver diferenças irreconciliáveis no país, argumentou o fundador do Bridgewater. Isso faz com que o tipo de reformas estruturais bipartidárias cruciais para mitigar essas divisões por meio da ampliação da riqueza seja praticamente impossível politicamente.

“Há muitas coisas positivas nos Estados Unidos – o Estado de direito, os mercados de capitais, muitas coisas diferentes fantásticas em muitos aspectos”, disse. “No entanto, quero enfatizar que há muito risco, porque um número limitado de empresas constitui grande parte do desempenho em um país onde temos de nos preocupar com (…) a transição ordenada do poder’.

No passado, Dalio chegou a alertar sobre o risco crescente de eclosão de uma guerra civil nos Estados Unidos.

‘Guru de Wall Street’ faz alerta: situação da China é tão grave quanto a do Japão dos anos 1990 – Estadão (estadao.com.br)

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Data centers que alimentam IA viram vilões ambientais nos EUA

Quantidade de água e energia utilizadas para servidores preocupam comunidades no país

Luiz Anversa – Exame –  18 de setembro de 2024 

Cerca de 25% americanos usaram o ChatGPT desde o lançamento do chatbot em 2022, de acordo com o Pew Research Center. E claro que cada consulta tem um custo.

Os chatbots usam uma quantidade imensa de energia para responder às perguntas dos usuário. Manter os servidores do bot para funcionar em data centers prejudica o meio ambiente. Embora o fardo exato seja quase impossível de quantificar, o The Washington Post trabalhou com pesquisadores da Universidade da Califórnia para entender quanta água e energia o ChatGPT da OpenAI, usando o modelo de linguagem GPT-4 lançado em março de 2023, consome para escrever um email de 100 palavras – nesse caso, pouco mais de uma garrafa de água. Escrevendo esse tipo de email, uma vez por semana, são consumidos 27 litros de água.

Frequentemente, sistemas hidráulicos são usados para resfriar os servidores em data centers para mantê-los funcionando. ​​A água transporta o calor gerado nos data centers para torres de resfriamento para ajudá-lo a escapar do edifício, semelhante a como o corpo humano usa o suor para se manter fresco.

Onde a eletricidade é mais barata, ou a água comparativamente escassa, a eletricidade é frequentemente usada para resfriar esses armazéns com grandes unidades que lembram condicionadores de ar. Isso significa que a quantidade de água e eletricidade que uma consulta individual de informação requer pode depender da localização de um data center e variar bastante.

Mesmo em condições ideais, os data centers geralmente estão entre os maiores usuários de água nas cidades onde estão localizados. Mas os data centers com sistemas de resfriamento elétrico também estão levantando preocupações ao aumentar as contas de energia dos moradores e sobrecarregar a rede elétrica.

O estudo divulgado pelo jornal mostra que escrever um email de 100 palavras usando o GPT  alimentaria 14 lâmpadas de LED por uma hora. Fazendo isso uma vez por semana durante o ano inteiro, seria possível levar energia para 9 casas na capital Washington por uma hora.

Os data centers também exigem grandes quantidades de energia para dar suporte a outras atividades, como computação em nuvem, e a inteligência artificial só aumentou essa carga. Se um data center estiver localizado em uma região quente — e depender de ar condicionado para resfriamento —, é preciso muita eletricidade para manter os servidores em baixa temperatura. Se os data centers que dependem de resfriamento a água estiverem localizados em áreas propensas à seca, eles correm o risco de esgotar a área de um recurso natural precioso, segundo a reportagem do Post.

Falta de transparência

No norte da Virgínia, lar da maior concentração de data centers do mundo, grupos de cidadãos protestaram contra a construção desses edifícios, dizendo que eles não são apenas grandes consumidores de energia que não geram empregos de longo prazo suficientes, mas também monstruosidades que matam o valor dos imóveis. Em West Des Moines, Iowa, um foco emergente de data centers, os registros do departamento de água mostraram que as instalações administradas por empresas como a Microsoft usavam 6% de toda a água do distrito. Após uma longa batalha judicial, o jornal Oregonian forçou o Google a revelar quanto seus data centers estavam usando em The Dalles, cerca de 128km a leste de Portland; acabou sendo quase 25% toda a água disponível na cidade, revelaram os documentos.

Antes que os chatbots possam atender a uma solicitação, uma enorme quantidade de energia é gasta treinando-os. Os grandes modelos de linguagem que permitem que chatbots como o ChatGPT gerem respostas realistas exigem que os servidores analisem milhões de dados.

Grandes empresas de tecnologia fizeram inúmeras promessas para tornar seus data centers mais verdes usando novos métodos de resfriamento. Essas promessas climáticas geralmente não são cumpridas.

Em julho, o Google lançou seu relatório ambiental mais recente, mostrando que sua pegada de emissão de carbono aumentou em 48%, em grande parte devido à IA e aos data centers. Ele também repôs apenas 18% da água que consumiu — bem longe dos 120% que definiu como meta até 2030. “O Google tem um compromisso de longa data com a sustentabilidade, guiado por nossas metas ambiciosas — que incluem atingir emissões líquidas zero até 2030”, disse Mara Harris, porta-voz do Google.

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Nova IA da OpenAI tira 10 em prova do ITA e ‘passa’ em residência médica da USP

Ferramenta supera modelos como GPT-4 e Claude 3.5 Sonnet

Por Guilherme Nannini – Estadão – 17/09/2024 

A nova inteligência artificial (IA) da OpenAI, batizada de OpenAI o1, já consegue “tirar 10″ na prova do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) e ser aprovada para diversas especializações na prova de residência médica da Universidade de São Paulo (USP). A o1 foi lançada na semana passada com a promessa de capacidade de raciocínios lógico e matemático e de resolução de problemas complexos. Agora, a IA está sendo submetida a testes no mundo inteiro por especialistas e pesquisadores.

No Brasil, o empreendedor Vinícius Soares submeteu o o1 à prova de matemática do ITA de 2024, onde o modelo gabaritou o teste, evidenciando sua capacidade de solucionar problemas matemáticos complexos. Diferentemente de modelos anteriores, que buscavam responder o mais rápido possível identificando conexões entre palavras, o o1 investe mais tempo de processamento para avaliar os dados já existentes e buscar diferentes caminhos para chegar a uma resposta, o que ocorreu no experimento testado por Soares.

A ideia de testar o ChatGPT o1 na prova do ITA surgiu após o empreendedor ler a divulgação do novo modelo e suas melhorias na capacidade de resolução de problemas envolvendo conjuntos, funções, geometria, trigonometria e estatística. Tendo prestado o vestibular do ITA, considerado um dos mais difíceis do país, Soares ficou curioso para ver como a IA se sairia diante desse desafio.

“Peguei as perguntas e colei uma a uma no novo modelo ChatGPT″, explica. “Ele não só forneceu as respostas corretas para todas as 10 questões, como também descreveu o raciocínio utilizado para chegar a cada solução.” Comparando as alternativas que ele apontou como corretas com o gabarito divulgado pelo ITA, a IA acertou 100% das perguntas.

Experimento de Vinicius Soares com a nova inteligência artificial da Open AI

Experimento de Vinicius Soares com a nova inteligência artificial da Open AI Foto: Reprodução/LinkedIn

A OpenAI afirma que o novo modelo é seis vezes mais preciso na resolução de problemas matemáticos do que seu antecessor, o GPT-4. Essa afirmação é corroborada por outros testes realizados pela própria empresa, nos quais o GPT-4 acertou em média 12% das perguntas, enquanto o o1 obteve um índice de acerto de 74%.

Soares acredita que o ChatGPT o1 tem potencial para revolucionar diversas áreas “Na educação, por exemplo, o modelo pode ser usado para gerar perguntas inéditas e apresentar a resolução passo a passo, auxiliando estudantes no preparo para provas como a do ITA. Em áreas como o direito, a IA pode analisar milhares de processos para identificar padrões e tendências, auxiliando, por exemplo, qual linha de defesa tem a melhor chance de ser deferida.”

Residência médica

Experimento de Matheus Ferreira com a nova inteligência artificial da Open AI

Experimento de Matheus Ferreira com a nova inteligência artificial da Open AI Foto: Reprodução/LinkedIn

Outro exemplo para testar o potencial dessa nova tecnologia na área médica foi feito pelo Gerente Médico de Educação Médica e Saúde Digital, Matheus Ferreira, que realizou um experimento ousado: submeter o1 à prova de residência médica da USP-SP de 2024. A IA alcançou um índice de acerto de 82%, mesmo sem a capacidade de analisar imagens, superando modelos GPT-4, também da OpenAI, e o Claude Sonnet 3.5, da Anthropic, que acertaram 76%. A OpenAI já havia afirmado que uma das limitações do o1 era a incapacidade de lidar com formatos diferentes de texto.

A prova, composta por 120 questões, foi dividida em seis blocos de 20 questões cada, respeitando a ordem original. Cada bloco foi enviado ao o1, acompanhado de um prompt solicitando que a IA respondesse às perguntas como um médico e indicasse o gabarito para cada alternativa.

Devido à limitação do o1 em processar imagens, as questões que dependiam exclusivamente de imagens foram excluídas da análise comparativa. Nas demais questões com imagens no enunciado, o1 foi privado dessa informação, enquanto os outros modelos, GPT-4 e Claude 3.5 Sonnet, puderam acessá-la.

Durante o experimento, Ferreira observou que o principal desafio do o1 foi o tempo de resposta. Enquanto o GPT-4 e o Claude 3.5 Sonnet forneciam respostas quase instantâneas, em algumas respostas, o o1 demoravam cerca de 100 segundos. Contudo, a ferramenta da OpenAI se provou mais assertiva que as outras, acertando 93 questões, em comparação às 85 das outras IA´s. O tempo de resposta mais elevado é uma característica inerente ao tipo de tecnologia proposto pelo o1, que dedica mais poder computacional para a análise de informação disponível para o sistema.

“O grande diferencial do1 é sua capacidade de executar uma cadeia de pensamento (chain of thought) antes de fornecer a resposta final. É como se ele discutisse consigo mesmo, buscando validar a resposta, o que resulta em um processo mais demorado, mas potencialmente mais preciso.”

O gerente médico destacou, no entanto, que na Medicina Preventiva observou-se um desempenho ligeiramente inferior de todas as ferramentas ao fazerem o teste. Ele atribui esse acontecimento ao fato de que grande parte do banco de dados de treinamento das IAs está em inglês, enquanto a Medicina Preventiva envolve muitos aspectos regionais, relacionados a legislações e ao SUS (Sistema Único de Saúde), que são específicos do Brasil.

IA aliada ao conhecimento humano

Os resultados obtidos pelo ChatGPT o1 na prova de residência médica da USP-SP abrem um leque de possibilidades para o futuro da educação médica. Matheus defende que a IA deve ser vista como uma aliada no processo de ensino e aprendizagem, e não como uma ameaça.

“Acredito que devemos enxergar a IA como uma parceira no processo educacional. Em vez de tentar evitar ou proibir seu uso, devemos incentivar uma utilização correta e ética, em momentos apropriados.”

Ele destaca dois grandes potenciais da IA para a educação: a criação de um tutor personalizado para o aluno e a atualização médica constante. A IA pode atuar como um “professor” particular, adaptando-se às necessidades e ao ritmo de aprendizado de cada estudante. Uma pesquisa feita em Harvard demonstrou que estudantes ao utilizarem um tutor de IA, tiveram um resultado de notas 22% maior, do que aquelas que apenas usaram o método “tradicional” de estudo. Além disso, a ferramenta também pode auxiliar os profissionais da saúde a se manterem atualizados em um cenário onde o conhecimento médico dobra a cada 73 dias, algo humanamente impossível de acompanhar sem o auxílio da tecnologia.

Ferreira vislumbra um futuro promissor para a inteligência artificial na área da medicina. Ele acredita que a IA se tornará um “copiloto” indispensável para os médicos, auxiliando no diagnóstico, tratamento e pesquisa, permitindo que os profissionais se dediquem mais à relação médico-paciente e à compreensão de aspectos que a máquina não pode captar.

“A IA tende a acelerar a evolução de muitos campos na medicina”, prevê. “Para a prática médica, acredito que ela aumentará a acurácia em diagnósticos e tratamentos. Na pesquisa, nos próximos anos, prevejo o surgimento de novas medicações e tratamentos para doenças que atualmente não possuem soluções satisfatórias.”

Evolução da IA

Até aqui, grandes modelos de linguagem (LLMs), como o GPT-4, aprimoravam sua capacidade de resposta aumentando o volume de dados de treinamento. Uma vez treinados, esses sistemas buscam responder o mais rápido possível, identificando as conexões mais comuns entre as palavras, como já dito anteriormente.

O o1 representa uma mudança de paradigma nesse processo. Em vez de focar apenas no volume dos dados, a OpenAI investiu em uma arquitetura que permite ao sistema dedicar mais tempo de processamento para avaliar os dados já existentes, buscando diferentes caminhos para chegar a uma resposta. Essa abordagem, conhecida como “cadeia de pensamento”, permite que a IA simule o raciocínio humano, avaliando cada etapa da construção da resposta e corrigindo erros ao longo do processo.

Além disso, o o1 utiliza o aprendizado por reforço, um processo de validação em que a máquina é “recompensada” ao encontrar respostas corretas. Esses resultados positivos são realimentados no sistema, aprimorando seu desempenho sem a necessidade de adicionar novos dados de treinamento.

Essa nova abordagem, que combina a cadeia de pensamento com o aprendizado por reforço, permitiu ao o1 alcançar resultados impressionantes em áreas como ciência, matemática e programação, superando modelos anteriores em tarefas que exigem raciocínio lógico e resolução de problemas complexos.

Nova IA da OpenAI tira 10 em prova do ITA e ‘passa’ em residência médica da USP – Estadão (estadao.com.br)

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A IA ajudou a Shein a se tornar a maior poluidora do fast fashion

A empresa quase dobrou suas emissões em 2023, tornando-se o pior ator em uma indústria notoriamente insustentável.

Esta história originalmente apareceu em Grist e faz parte da colaboração Climate Desk. – Wired – 14/09/2024

Em 2023, a gigante da moda rápida Shein estava em toda parte. Cruzando o mundo, os aviões transportavam pequenos pacotes de suas roupas ultrabaratas de milhares de fornecedores para dezenas de milhões de caixas de correio de clientes em 150 países. Os vídeos “#sheinhaul” dos influenciadores anunciavam os estilos da moda da empresa nas mídias sociais, conquistando bilhões de visualizações.

A cada etapa, os dados foram criados, coletados e analisados. Para gerenciar todas essas informações, a indústria de fast fashion começou a adotar tecnologias emergentes de IA. A Shein usa aplicativos proprietários de aprendizado de máquina – essencialmente, algoritmos de identificação de padrões – para medir as preferências do cliente em tempo real e prever a demanda, que atende com uma cadeia de suprimentos ultrarrápida.

À medida que a IA torna o negócio de produzir roupas acessíveis e modernas mais rápido do que nunca, a Shein está entre as marcas sob crescente pressão para se tornarem mais sustentáveis também. A empresa se comprometeu a reduzir suas emissões de dióxido de carbono em 25% até 2030 e atingir emissões líquidas zero até 2050.

Mas os defensores do clima e pesquisadores dizem que as práticas de fabricação ultrarrápidas da empresa e o modelo de negócios somente online são inerentemente pesados em emissões – e que o uso de software de IA para catalisar essas operações pode estar aumentando suas emissões. Essas preocupações foram ampliadas pelo terceiro relatório anual de sustentabilidade da Shein, divulgado no final do mês passado, que mostrou que a empresa quase dobrou suas emissões de dióxido de carbono entre 2022 e 2023.

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“A IA permite que a moda rápida se torne a indústria da moda ultrarrápida, sendo a Shein e a Temu as líderes disso”, disse Sage Lenier, diretora executiva da Sustainable and Just Future, uma organização sem fins lucrativos climática. “Eles literalmente não poderiam existir sem IA.” (A Temu é um titã do comércio eletrônico em rápida ascensão, com um mercado de produtos que rivaliza com o da Shein em variedade, preço e vendas.)

Nos 12 anos desde que a Shein foi fundada, tornou-se conhecida por sua fabricação excepcionalmente prolífica, que gerou mais de US$ 30 bilhões em receita para a empresa em 2023. Embora as estimativas variem, um novo design da Shein pode levar apenas 10 dias para se tornar uma peça de vestuário, e até 10.000 itens são adicionados ao site a cada dia. A empresa oferece até 600.000 itens à venda a qualquer momento, com um preço médio de aproximadamente US$ 10. (Shein se recusou a confirmar ou negar esses números relatados.) Uma análise de mercado descobriu que 44% da Geração Z nos Estados Unidos compram pelo menos um item da Shein todos os meses.

Essa escala se traduz em enormes impactos ambientais. De acordo com o relatório de sustentabilidade da empresa, a Shein emitiu 16,7 milhões de toneladas métricas totais de dióxido de carbono em 2023 – mais do que quatro usinas de carvão expelem em um ano. A empresa também foi criticada por resíduos têxteis, altos níveis de poluição por microplásticos e práticas trabalhistas exploradoras. De acordo com o relatório, o poliéster – um tecido sintético conhecido por liberar microplásticos no meio ambiente – representa 76% de seus tecidos totais, e apenas 6% desse poliéster é reciclado.

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E uma investigação recente descobriu que os trabalhadores das fábricas dos fornecedores da Shein trabalham regularmente 75 horas por semana, mais de um ano depois que a empresa se comprometeu a melhorar as condições de trabalho em sua cadeia de suprimentos. Embora o relatório de sustentabilidade da Shein indique que as condições de trabalho estão melhorando, ele também mostra que, em auditorias de terceiros de mais de 3.000 fornecedores e subcontratados, 71% receberam uma pontuação C ou inferior na escala de notas da empresa de A a E – medíocre na melhor das hipóteses.

O aprendizado de máquina desempenha um papel importante no modelo de negócios da Shein. Embora Peter Pernot-Day, chefe de estratégia global e assuntos corporativos da Shein, tenha dito ao Business Insider em agosto passado que a IA não era central para suas operações, ele indicou o contrário durante uma apresentação em uma conferência de varejo no início deste ano.

“Estamos usando tecnologias de aprendizado de máquina para prever com precisão a demanda de uma forma que achamos de ponta”, disse ele. Pernot-Day disse ao público que todos os 5.400 fornecedores da Shein têm acesso a uma plataforma de software de IA que fornece atualizações sobre as preferências do cliente e alteram o que estão produzindo para combiná-lo em tempo real.

“Isso significa que podemos produzir muito poucas cópias de cada peça de roupa”, disse ele. “Isso significa que desperdiçamos muito pouco e temos muito pouco desperdício de estoque.” Em média, a empresa diz que estoca entre 100 e 200 cópias de cada item – um forte contraste com as marcas de fast-fashion mais convencionais, que normalmente produzem milhares de cada item por temporada e tentam antecipar as tendências com meses de antecedência. A Shein chama seu modelo de “sob demanda”, enquanto um analista de tecnologia que falou com a Vox em 2021 o chamou de varejo “em tempo real”.

Na conferência, Pernot-Day também indicou que a tecnologia ajuda a empresa a captar as “microtendências” que os clientes desejam usar. “Podemos detectar isso e agir de uma maneira que acho que realmente fomos pioneiros”, disse ele. Um designer que entrou com uma ação coletiva recente em um Tribunal Distrital de Nova York alega que as ferramentas de análise de mercado de IA da empresa são usadas em um “esquema em escala industrial de violação sistemática de direitos autorais digitais do trabalho de pequenos designers e artistas”, que raspa designs da internet e os envia diretamente para as fábricas para produção.

Em uma declaração por e-mail a Grist, um porta-voz da Shein reiterou a afirmação de Peter Pernot-Day de que a tecnologia permite que a empresa reduza o desperdício e aumente a eficiência e sugeriu que o aumento das emissões da empresa em 2023 foi atribuído ao crescimento dos negócios. “Não vemos o crescimento como antitético à sustentabilidade”, disse o porta-voz.

Uma análise do relatório de sustentabilidade da Shein pela Business of Fashion, uma publicação comercial, descobriu que, no ano passado, as emissões da empresa aumentaram quase o dobro de sua receita – tornando a Shein a empresa de maior emissão na indústria da moda. Em comparação, as emissões da Zara aumentaram metade de sua receita. Para outros titãs da indústria, como H&M e Nike, as vendas cresceram enquanto as emissões caíram em relação ao ano anterior.

As emissões da Shein são especialmente altas por causa de sua dependência do transporte aéreo, disse Sheng Lu, professor de estudos de moda e vestuário da Universidade de Delaware. “A IA tem amplas aplicações na indústria da moda. Não é necessariamente que a IA seja ruim”, disse Lu. “O problema é a essência do modelo de negócios específico da Shein.”

Outras grandes marcas enviam itens para o exterior a granel, preferem o transporte marítimo por seu custo mais baixo e têm fornecedores e armazéns em um grande número de países, o que reduz as distâncias que os itens precisam percorrer até os consumidores.

De acordo com o relatório de sustentabilidade da empresa, 38% da pegada climática da Shein vem do transporte entre suas instalações e para os clientes, e outros 61% vêm de outras partes de sua cadeia de suprimentos. Embora a empresa esteja sediada em Cingapura e tenha fornecedores em alguns países, a maioria de suas roupas é produzida na China e é enviada por via aérea em pacotes endereçados individualmente aos clientes. Em julho, a empresa enviou cerca de 900.000 deles para os EUA todos os dias.

O porta-voz da Shein disse a Grist que a empresa está desenvolvendo um roteiro de descarbonização para abordar a pegada de sua cadeia de suprimentos. Recentemente, a empresa aumentou a quantidade de estoque que armazena nos armazéns dos EUA, permitindo oferecer aos clientes americanos prazos de entrega mais rápidos, e aumentou o uso de navios de carga, que são mais eficientes em carbono do que os aviões de carga.

“Controlar as emissões de carbono na indústria da moda é um processo realmente complexo”, disse Lu, acrescentando que muitas marcas usam IA para tornar suas operações mais eficientes. “Realmente depende de como você usa a IA.”

Há pesquisas que indicam que o uso de certas tecnologias de IA pode ajudar as empresas a se tornarem mais sustentáveis. “É a peça que faltava”, disse Shahriar Akter, reitor associado de negócios e direito da Universidade de Wollongong, na Austrália. Em maio, Akter e seus colegas publicaram um estudo descobrindo que, quando os fornecedores de fast fashion usavam software de gerenciamento de dados de IA para cumprir as metas de sustentabilidade das grandes marcas, essas empresas eram mais lucrativas e emitiam menos. Um dos principais usos dessa tecnologia, diz Atker, é monitorar de perto os impactos ambientais, como poluição e emissões. “Esse tipo de rastreamento não estava disponível antes das ferramentas baseadas em IA”, disse ele.

A Shein disse a Grist que não usa software de gerenciamento de dados de aprendizado de máquina para rastrear emissões, que é um dos usos da IA incluídos no estudo de Akter. Mas o uso muito elogiado de software de aprendizado de máquina pela empresa para prever a demanda e reduzir o desperdício é outro dos usos da IA incluídos na pesquisa.

Independentemente disso, a empresa tem um longo caminho a percorrer antes de atingir suas metas. Grist calculou que as emissões que a Shein supostamente economizou em 2023 – com medidas como fornecer painéis solares a seus fornecedores e optar pelo transporte marítimo – totalizaram cerca de 3% do total de emissões de carbono da empresa no ano.

Lenier, da Sustainable and Just Future, acredita que não há uso ético da IA na indústria de fast-fashion. Ela disse que a tecnologia amplamente não regulamentada permite que as marcas intensifiquem seus impactos prejudiciais sobre os trabalhadores e o meio ambiente. “As pessoas que trabalham em fábricas de fast-fashion agora estão sob uma pressão incrível para produzir ainda mais, ainda mais rápido”, disse ela.

Lenier e Lu acreditam que a chave para uma indústria da moda mais sustentável é convencer os clientes a comprar menos. Lu disse que se as empresas usarem a IA para aumentar suas vendas sem mudar suas práticas insustentáveis, suas pegadas climáticas também crescerão de acordo. “É o efeito geral de poder oferecer itens mais populares no mercado e incentivar os consumidores a comprar mais do que no passado”, disse ele. “Claro, o impacto geral do carbono será maior.”

A IA ajudou a Shein a se tornar a maior poluidora da fast fashion | WIRED

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