GE obtém aprovação nos EUA para tecnologia médica de startup brasileira: tomografia remota

Por Rennan Setti – O Globo – 25/03/2024 

Máquina de medicina diagnóstica

Máquina de medicina diagnóstica — Foto: Divulgação

A GE HealthCare, gigante que vale R$ 200 bilhões na Nasdaq e é uma das maiores fabricantes de tomógrafos no mundo, obteve aprovação regulatória nos EUA para uma tecnologia brasileira.

A companhia obteve o aval da FDA (Food and Drug Administration), que fiscaliza alimentos e remédios naquele país, para o nCommand Lite. Trata-se de um sistema desenvolvido pela IONIC Health, startup de São José dos Campos (SP), que permite a operação remota de tomógrafos e equipamentos similares, independentemente do seu fabricante.

A tecnologia permite contornar a escassez de mão de obra para operação dos aparelhos, que valem milhões e são cruciais para diagnósticos médicos. No ano passado, a GE havia assinado acordo exclusivo de distribuição global da tecnologia brasileira.

“Nosso objetivo é fornecer soluções de operações remotas que ampliem o acesso dos pacientes a cuidados, especialmente àqueles que necessitam de atenção especializada à distância. Reconhecemos também a importância de disponibilizar a expertise de especialistas em diversos locais físicos para compartilhamento de conhecimento e treinamento, bem como a necessidade de integrar equipamentos de vários fornecedores e modalidades. Por isso, era essencial expandir nosso portfólio com a inclusão da tecnologia nCommand Lite da IONIC Health”, disse, em nota, Rekha Ranganathan, vice-presidente sênior e gerente geral de Plataformas de Imagem e Soluções Digitais da GE HealthCare.

A coluna contou a história da IONIC Health em novembro do ano passado. Segundo o cofundador e CEO, José Leovigildo Coelho, o contrato com a GE permitirá seu acesso a 20 novos mercados do mundo.

No fim do ano passado, a solução da IONIC estava plugada a 400 máquinas pelo Brasil, cujo parque de aparelhos total supera 8 mil unidades. Metade dos 20 principais grupos de saúde brasileiros é cliente, entre eles Dasa e Hapvida. O time da startup tem 150 pessoas, e a fábrica fica no parque tecnológico de São José dos Campos.

https://oglobo.globo.com/blogs/capital/post/2024/03/ge-obtem-aprovacao-nos-eua-para-tecnologia-medica-de-startup-brasileira-tomografia-remota.ghtml

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Agora é favela: o pujante mercado empreendedor de R$ 200 bilhões de reais

O povo pediu e o IBGE decretou: o censo voltará a usar o termo “favela”. E o que essa palavra, escondida por décadas, revela? As favelas brasileiras movimentam um mercado de 202 bilhões de reais e dão lições de empreendedorismo

Por Rodrigo Caetano e Marina Filippe – Exame –  22 de março de 2024 

Um bom caminho para conhecer as favelas, esses territórios urbanos altamente adensados e caóticos, parte da paisagem de toda metrópole brasileira, é conhecer seus artistas. Anitta, a artista brasileira mais bem-sucedida internacionalmente, é de favela, e tem uma carreira que mistura clipes para lá de sensuais com palestras em Harvard. Sua ascensão conta mais do que uma história de superação pessoal. É a história de como o Brasil, ou a parte do país que tem poder econômico, não percebeu a formação de uma legião de pessoas consumidoras, empreendedoras e criativas. Um mergulho nas letras dos raps dos Racionais MCs, dos funks de MC Lipi, MC Cabelinho, Orochi, entre outros, mostra esse processo. No início, os temas eram violência, crime, carência. Em 1997, por exemplo, Mano Brown, líder do Racionais MCs, escreveu a música Capítulo 4, Versículo 3, que dizia: “Se eu fosse aquele cara que se humilha no sinal por menos de 1 real, minha chance era pouca”. Recentemente, entraram a ostentação, marcas, carros, sexo e romance. “Obrigado, meu Deus, a favela venceu”, cantou MC Kevin em 2021, acompanhado do DJ Negret.

É a celebração do potencial de um Brasil repleto de desafios, sim, mas de empreendedorismo pujante. São mais de 16 milhões de pessoas, 11 milhões de eleitores, contingente que formaria o quarto maior estado brasileiro e um colégio eleitoral superior ao da cidade de São Paulo, o maior do país em termos municipais. Essas pessoas consomem 202 bilhões de reais por ano, segundo o Data Favela, instituto de pesquisa ligado à Central Única das Favelas (Cufa). O valor é expressivo, porém representa mais um represamento do que uma potência em plena expansão. Para Renato ­Meirelles, fundador do Data Favela e presidente do Instituto Locomotiva, empresa de pesquisas, é possível dobrar, ou mesmo triplicar, esse consumo com intervenções básicas de infraestrutura e educação.

Para Celso Athayde, um dos fundadores da Cufa, ONG presente em metade das 11.403 favelas do Brasil (dados do IBGE), o tamanho, a importância e a complexidade das favelas justificam a criação de um setor econômico próprio, o Quarto Setor. “O governo, Primeiro Setor, nunca resolveu o problema porque não olha para as favelas. As empresas e o mercado, Segundo Setor, não têm capacidade­ de resolver o problema porque não conhecem as favelas. E as ONGs, Terceiro Setor, têm uma mentalidade antimercado, que limita a possibilidade de crescimento”, afirma Athayde. “Por que só o asfalto tem o direito de ganhar dinheiro? O morador de favela precisa entender que ele também pode consumir, investir e empreender com o que produz.”

Na última década, o número de favelas dobrou no Brasil, aumento que coincide com o crescimento da insegurança alimentar e com uma renitente dificuldade do Brasil de crescer de acordo com seu potencial econômico. Quase 20 milhões de pessoas no Brasil passam fome, segundo a Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional. Durante a pandemia, 70% dos moradores de favela declararam não ter dinheiro para comprar comida. Essa realidade de carência e pobreza contrasta com a dinâmica urbana das favelas, sempre próximas aos grandes centros de produção, que proporciona ao morador oportunidades de trabalho e empreendedorismo apesar das dificuldades.

A lógica da desigualdade é cruel. As favelas movimentam mais de 200 bilhões de reais em consumo porque, como diz Athayde, produzem para isso. E, como todo brasileiro, o morador de favela paga impostos —no caso dos mais pobres, 21,2% da renda, segundo dados da Instituição Fiscal Independente do Senado, percentual três vezes maior do que o incidido sobre a renda dos mais ricos. Mas, diferentemente de outros brasileiros, quem mora em favela não usufrui da infraestrutura e dos serviços públicos por habitar áreas ilegais. Não há transporte, saneamento, e a segurança é falha. A invisibilidade dessa população, no entanto, vem diminuindo. Em parte, graças ao sucesso de muitos artistas oriundos da favela. E porque os números deixam claro que favela não é só carência, é potência. Ao descrever o estado de abandono da favela em Homem na Estrada, de 1993, Mano Brown cantou: “Até o IBGE passou aqui e nunca mais voltou”. Neste ano, após uma consulta pública e debates com líderes das comunidades, o IBGE decidiu abandonar o termo “aglomerado subnormal” e passar a se referir às favelas pelo seu nome de fato: favela.

A força da mulher empreendedora

O IBGE volta a jogar luz em 16.000 favelas, onde 56% dos moradores se consideram empreendedores, percentual muito acima da média nacional. É o caso de Gabriela Valente, fundadora da Escola da Diarista. Por 50 anos, sua mãe trabalhou como empregada doméstica para a mesma família, em Porto Alegre. Seu esforço garantiu a estabilidade financeira e o incentivo para a menina estudar. Gabriela completou o ensino fundamental em um colégio particular, graças a uma bolsa, e o médio em escola técnica. A realidade das empregadas domésticas, categoria com quase 6 milhões de profissionais no Brasil e que somente em 2013 teve os direitos trabalhistas equiparados às demais, não dá margem para uma fase de estudos mais alongada dos dependentes. Gabriela começou a trabalhar cedo, ainda mais depois de dar à luz Mônica, sua primeira filha e irmã do Bernardo, aos 20 anos.

Hoje, aos 40 anos, Gabriela enxerga a mãe como uma referência. Em 2019, as lembranças da infância trouxeram o vislumbre de uma oportunidade. Fazendo contas, percebeu que, se trabalhasse três vezes na semana como diarista, ganharia cerca de 1.000 reais mensais, o mesmo que recebia como recepcionista em uma clínica de estética, por seis dias na semana. Gabriela conhecia os pormenores da profissão. Aprendeu com a mãe a fazer uma limpeza organizada, atenta a detalhes, profissional. “Minha ideia era apresentar algo novo e estudei como melhorar o serviço, os melhores produtos para cada superfície etc. Ali, eu entendi que não é um trabalho para qualquer pessoa”, afirma.

Em meio à transição de carreira, veio a pandemia. “Fiquei dois meses e meio parada”, conta. Como se diz no jargão corporativo, para toda crise existe uma oportunidade. Gabriela associou seus serviços à promoção da saúde e do bem-estar. Criou protocolos, como o uso de panos de cores diferentes, uma forma de evitar a contaminação cruzada. Desenvolveu metodologias para aumentar a produtividade, incluindo técnicas de ergonomia, o que permite cobrir áreas maiores no mesmo dia. Também se formalizou como microempreendedora individual e criou sua marca: Gabi Valente Soluções. O conhecimento adquirido ainda deu origem à Escola da Diarista, programa de treinamento profissional que já formou 75 mulheres. Gabriela também passou pela Escola de Negócios da Favela (ENF), empresa de educação que tem como parceiros a CUFA, na frente social, e a Fundação Dom Cabral, na frente educacional. A ENF oferece trilhas customizadas de conteúdos para moradores de favela acelerarem seus negócios (a reportagem apresenta outros três alunos da escola: Bê Paiva, Janaína Cristina e Diego Rocha). 

A força de trabalho feminina representa o grande potencial das favelas. Dados da Cufa mostram que 70% dos moradores de favela são mulheres. Delas, 71% são pretas ou pardas. E quase metade das famílias é chefiada por uma matriarca. As mulheres são a maioria entre os pequenos empresários, 60%, segundo o Data Favela. Para elas, empreender, muitas vezes, é uma questão de sobrevivência. Números do Instituto Locomotiva mostram que mais da metade das empreendedoras começou seu negócio por necessidade e 40% por oportunidade. No perfil médio, essa mulher é jovem, negra, com estudo até o ensino médio, e sete em cada dez têm filhos. Para 92%, o negócio é muito importante, e elas fazem de tudo para mantê-lo funcionando.

“Empoderamento, no fundo, é dinheiro no bolso”, afirma Mayara Lyra, cofundadora da Gerando Falcões e responsável pelo projeto Asmara. No final do ano passado, a ONG cocriada por Edu Lyra, um dos grandes nomes do empreendedorismo na base da pirâmide, anunciou o lançamento de uma empresa de venda direta, sob consultoria da Accenture. A Asmara (assim mesmo, no singular) já conta com cerca de 600 vendedoras, e pretende chegar a 25.000 em dois anos. A ideia é simples e complexa ao mesmo tempo. A partir do Bazar da Gerando Falcões, a empresa vai organizar sacolas com produtos diversos, que serão distribuídas às vendedoras e comercializadas na vizinhança, de modo semelhante ao que fazem companhias como Boticário, Natura, Tupperware etc.

O objetivo do negócio é retirar essas mulheres da vulnerabilidade social de forma permanente, sem depender de filantropia e, ainda, gerando dinheiro para empresas parceiras. Em sua simples complexidade, o projeto se apodera do conceito de microcrédito, notabilizado pelo economista e banqueiro bengali Muhammad Yunus, ganhador do Prêmio Nobel da Paz, para financiar a distribuição das sacolas. As vendedoras não pagam nada pelos produtos e devolvem o que não foi comercializado.

Carliene da Silva Ferreira, de 33 anos, é uma das vendedoras e, atualmente, coordena a ONG Decolar, na Favela dos Sonhos, em Ferraz de Vasconcelos, São Paulo. Ela veio da Bahia em busca de trabalho com seus três filhos. “Sou mãe solo”, afirma. Na pandemia, passou a juntar caixinhas de sucos para fazer uma renda extra. Assim conheceu a Gerando Falcões. “A maioria das mães aqui é solo e não tem onde deixar os filhos, por isso não consegue trabalho. Na Asmara, elas podem cuidar dos filhos e vender.” Tão importante quanto a renda é a rede de apoio. Algumas das mães do projeto estavam em depressão, diz ela, não tinham com quem conversar. E muitas sofreram violência doméstica. “Eu era muito dependente de homem”, afirma Janara dos Santos Lima, também vendedora da Asmara. “Sendo Mara, posso comprar algumas coisas para meus filhos.” Mãe de quatro crianças, a mais nova de 2 e o mais velho de 14 anos, ela conta que hoje é mais dona de si, e não vê a necessidade de ter um companheiro para se sustentar.

Crédito escasso

São muitas as dificuldades de empreender nas favelas, mas nada se compara à falta de crédito. Um levantamento apresentado no ano passado na Expo Favela, evento criado por Celso Athayde para reunir morro e asfalto, mostrou que, entre os entrevistados, apenas 1% relatou não ter enfrentado dificuldade em obter financiamentos. Já 66% disseram ser desafiante e 33% nem sequer tentaram. O preconceito é um agravante. Sérgio All, criado em Valo Velho, no extremo sul da capital paulista, já havia vencido as adversidades sociais quando deparou com o problema. Dono de uma agência de publicidade com mais de 30 funcionários, tentou um empréstimo para expandir o negócio. Negado várias vezes, percebeu o motivo: All é um homem negro.

Há sete anos, ele e sua sócia, Fernanda Ribeiro, abriram o próprio banco, a Conta Black, que espera chegar a 100.000 clientes ainda neste ano. Fernanda foi a única a estudar em uma família de sete mulheres. Trabalhou em grandes empresas até perceber que as oportunidades, para uma mulher preta, seriam restritas no mercado corporativo. Decidiu empreender. Em 2022, em Nova York, a fintech anunciou uma parceria com a Genial Investimentos. Um ano depois, no mesmo local, comunicou que buscava uma captação de 100 milhões de reais. “No último ano, aprimoramos o produto e lançamos a Conta Black 2.0, na qual o cliente pode fazer investimentos a partir de 10 reais. Agora, estamos focados na ampliação do acesso ao crédito para facilitar a vida das pessoas negras e periféricas”, diz Fernanda, CEO da Conta Black.

Estigma e violência

Acesso a crédito é um dos últimos estágios para destravar o potencial de empresários e empresárias que costumam ter histórias de dificuldades. Em muitos casos, sobretudo para as mulheres, até de violência. Na infância, Rosângela Almeida, de 51 anos, por exemplo, presenciou um ato de violência doméstica contra sua mãe, que ficou com sequelas. O episódio precipitou a entrada de Rosângela e sua irmã na vida adulta. “Ficamos jogadas na favela. Tentei uma vaga na escola e a professora disse que meu lugar não era ali, mas, sim, no lixo”, lembra Rosângela, ou Rose, como prefere. Aos 12 anos, passou a cuidar de um bebê para ganhar uns trocados. A mãe da criança costumava deixar bilhetes para ela, mas, analfabeta, de nada adiantava. Comovida, a patroa ajudou com a matrícula na escola. “Eu ficava com o menino de manhã e estudava à tarde”, conta. A vida melhorara, mas o trauma da rejeição era forte. Rose se sentia deslocada do mundo, não gostava do seu corpo, do seu cabelo. Era como se não pertencesse. Na tentativa de melhorar a autoimagem, buscou nas plantas, talvez o único recurso abundante de que dispunha, maneiras de hidratar os cabelos e a pele. Sem saber, estava iniciando um negócio.

Hoje, ela comanda a Rose Almeida Cosméticos Naturais, uma pequena fabricante de produtos de beleza, como máscaras de colágeno, sabonetes e cremes. Sua renda, que chega a 6.000 reais por mês, vem exclusivamente do empreendimento. A ideia surgiu em 2019, após uma consulta no dermatologista. “O médico disse que minha pele estava muito boa para uma mulher de 45 anos. Quando expliquei que usava máscaras de colágeno de fabricação própria, ele me incentivou a vender para outras mulheres”, diz. Apesar do sucesso, o estigma de ser um produto desenvolvido na favela, por uma mulher negra, persiste. “Uma clínica de cosméticos de Belo Horizonte usou meus produtos por um tempo. Mas a dona do local não queria que os clientes soubessem de onde vinham, da minha pele negra e da minha classe. Queria que pensassem ser algo importado”, afirma.

Criatividade e inovação

Na infância no Recife, Benício Paiva, o Bê, costumava brincar sozinho. “Me isolava muito por não me identificar com as brincadeiras das meninas”, lembra. Bê é um homem trans, de 44 anos. Pensou ser homossexual aos 12 e, aos 22, mudou para São Paulo em busca de trabalho e liberdade de expressão. “Na adolescência, escondia o corpo com roupas largas porque não queria ser visto e desejado como mulher, não me via assim”, lembra. Quando a expressão “identidade de gênero” ganhou repercussão na mídia, ele finalmente compreendeu o que se passava. Há três anos, iniciou o acompanhamento psicológico e a terapia hormonal.

Bê se orgulha de ser um homem trans afroindígena. Na capital paulista, trabalhou em restaurantes renomados, entre eles Nakombi e Capim Santo, da chef Morena Leite, que o ajudou a ter um momento “eureca” que mudaria sua vida. Bê adorava o pão de capim-santo do restaurante. Um dia, ouviu a chef chamar a iguaria de “pão saborizado”. Era o toque de mar­keting que faltava para fazer decolar a sua grande inovação: a farinha de tapioca “saborizada”. A ideia ele deve às suas raízes. Quando criança, via a mãe juntar sobras de comida para alimentar ele e os irmãos. Um dia, com a mãe fora e enquanto cuidava dos gêmeos, cinco anos mais novos, resolveu unir a tapioca com um pouquinho de cuscuz que sobrara na panela. O resultado foi um disquinho colorido e muito saboroso, que virou um hit entre os conhecidos. “O pessoal ia em casa e pedia: ‘Faz aquela tapioca colorida’.” Até ele conhecer o pão saborizado, foi assim que chamou sua invenção.

Em São Paulo, como todo bom nordestino, Bê sempre tinha uma cuscuzeira à mão. E apresentou suas tapiocas coloridas aos amigos. Sucesso. O empurrão que faltava veio da mãe. “Por que não vende as suas tapiocas, meu filho?”, questionou a matriarca. Um fogão portátil, um botijão de gás pequeno e duas frigideiras deram início ao negócio. Hoje, Bê é dono da Tupiocas, lanchonete especializada em tapiocas saborizadas, que também realiza eventos corporativos com seu food truck e vende a famosa farinha colorida em embalagens seladas.

O crescimento das favelas

No sertão do Ceará, onde nasceu Chica Rosa em 1956, não havia luz ou água encanada. Aos 7 anos, ela aprendeu a bordar. Em 1982, mudou-se para Brasília. Mais tarde, depois de seus dois filhos nascerem, Chica se transferiu para uma ocupação, hoje parte da Região Administrativa (RA) Samambaia. O governo do Distrito Federal iniciara um projeto de urbanização no local, anteriormente ocupado por chácaras produtoras de hortaliças e flores. As primeiras famílias foram assentadas em 1985, ainda sem infraestrutura básica. Preocupada com o fluxo de trabalhadores chegando a Brasília, a administração estadual acelerou a transferência de famílias, dando continuidade a um processo caótico de expansão de Samambaia. A RA concentra, atualmente, 8% da população do DF.

Desde os anos 1980, as favelas cresceram territorialmente o equivalente a 106.000 campos de futebol no Brasil, de acordo com dados do ­MapBiomas, organização que analisa as mudanças no uso do solo. Essa expansão se deu sob a negligência do Estado, ou mesmo a partir de intervenções diretas dos governos municipais e estaduais, em projetos que exigiam grandes deslocamentos de pessoas.

Chica começou a mudar de vida em 1989, quando se reuniu com mulheres que faziam bordado, crochê e outros artesanatos, e criou a Associação Artesanato Moda e Tradição, um coletivo de mulheres especializadas em criar moda com lacres de latas de refrigerante. Pelas mãos dessas mulheres, os lacres se transformam em quimonos e bolsas. A inovação e o cuidado na produção chamaram a atenção de marcas internacionais, como é o caso da Escama Studio, que revende o quimono nos Estados Unidos por 379 dólares, algo em torno de 1.900 reais. No Brasil, a peça custa 360 reais. Chica faz questão de ressaltar o impacto ambiental do empreendimento. “Quando meus filhos nasceram, a gente morria de frio em Brasília, e hoje morre de calor. O pessoal está pensando em como vai cuidar do planeta, mas não apoia as soluções”, lamenta.

A moda também mudou a vida de Diego Rocha, de 27 anos, que teve “uma infância comum para um garoto de favela”. Aos 8 anos, sonhava em ser jogador de futebol. Aos 18, percebeu que o sonho seria substituído pela necessidade e passou a trabalhar como office boy. “Em 2017 eu estava frustrado de conseguir apenas sobreviver e comecei a escrever em um caderno o que eu queria para mim.” Dali saiu a ideia de uma marca de roupas inspirada nos clipes da MTV.

Para iniciar o negócio, Rocha estudou microempreendedorismo e, com 240 reais, investiu em telas e em quatro camisetas para estamparia. “Eu acreditei tanto no meu sonho que, no mesmo dia, abri um CNPJ. Quatro meses depois saí do meu emprego.” Nascia, em 2017, a King D., marca com três objetivos: identificação histórica, mostrar a qualidade do produto de favela e gerar protagonismo para as pessoas. “Tem muito talento na favela que não aparece na história das marcas famosas, mas é quem está na linha de produção”, afirma Diego.

Consistentemente, a favela vai conquistando espaços antes impensáveis. Filha de uma catadora de recicláveis e criada em Guaianazes, zona leste de São Paulo, Janaína Cristina Lopes, de 28 anos, conheceu Paris aos 17 anos, convocada para representar o Brasil no campeonato mundial de ginástica olímpica. O esporte ela conheceu em uma igreja no Carrão, outro bairro do leste paulistano. Aos 19, morou por quase dois anos em Dublin, na Irlanda, onde soube da possibilidade de ter uma cidadania estrangeira. Ao descobrir que seu avô era português, buscou informações sobre o processo. Esse conhecimento se transformou em negócio, com a Seja do Mundo, consultoria especializada em processos de cidadania. Seu público não é de favela, mas seus funcionários são. “Minha missão é a expansão e o impacto na vida de 1 milhão de pessoas”, afirma Janaína. Neste ano, a meta é faturar 1,2 milhão de reais. Janaínas, Fernandas e Gabrielas são a concretização de uma previsão feita na década de 1950 por Tom Jobim: “O morro não tem vez / Mas se derem vez ao morro / Toda cidade vai cantar / Morro pede passagem / Morro quer se mostrar”.

Créditos

Rodrigo Caetano

Editor ESG

Trabalhou como repórter e editor nas principais publicações de negócios do país. Venceu os prêmios Petrobras e Citi Journalistic Excellence. Atualmente, lidera a editoria ESG da Exame e apresenta o podcast ESG de A a Z.

Marina Filippe

Repórter de ESG

Mestre em Ciência da Comunicação pela USP. Na EXAME, desde 2016, escreveu em negócios, gestão e sustentabilidade. Foi finalista dos prêmios de Jornalismo Inclusivo e Comunique-se, e reconhecida entre os Mais Admirados da Imprensa.

https://exame.com/revista-exame/agora-e-favela

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Projetos tentam transferir mente humana para mundo digital

Ideia é gerar avatar, com base em dados que retratam personalidade, para se comunicar com quem já morreu

Samuel Fernandes – Folha –  23.mar.2024 

Era final de 2019 quando Justin Harrison sofreu um acidente de moto em Los Angeles, nos Estados Unidos. Ele sobreviveu. Seis semanas mais tarde, porém, veio a notícia de que sua mãe estava com câncer. Seis semanas após essa descoberta, um amigo dele morreu vítima de um acidente de moto. E, seis semanas depois dessa perda, começou a pandemia de Covid-19. “Como você pode imaginar, de repente, a morte estava em toda parte do meu rosto”, conta Harrison. Ele trabalhava, naquela época, com a produção de documentários e percebeu que queria registrar a vida da sua mãe antes que pudesse ocorrer uma tragédia –ela morreu em outubro de 2022 por causa do tumor. 

Mas Harrison não queria somente capturar a história da sua mãe, seu desejo era continuar interagindo com ela de algum modo mesmo que ela morresse. “Eu procurei se alguém tinha um programa que eu pudesse pegar as histórias dela e as nossas conversas e criar algo digital com o qual eu ainda pudesse me comunicar”, continua. 

Harrison, no entanto, não achou nada desse tipo. Foi aí que começou a montar seu próprio projeto, ainda em 2020. Ele entrou em contato com conhecidos que trabalhavam no ramo de tecnologia a fim de entender o que precisava ser feito para tirar a ideia do papel. Em meio a diferentes possibilidades, uma chamou sua atenção. Era óbvio que seria necessário coletar dados da pessoa que seria simulada, no caso, sua mãe, porém um dos conselhos que recebeu foi de não focar só a quantidade de dados mas também a qualidade. A ideia, então, não seria pegar dados genéricos da personalidade de alguém que deseja criar um avatar digital, mas a interação que ela tem com um indivíduo ou com um grupo pequeno de pessoas. 

Como funciona a criação de versões digitais da YOV

  • 1° passo Áudios, textos e outros materiais de uma pessoa real são adicionados em um site
  • 2° passo O sistema processa essas informações e cria uma pessoa digital baseada nas interações presentes nos materiais
  • 3° passo A pessoa que contratou o serviço pode então interagir com a versão digital criada

E foi assim que nasceu a YOV, empresa fundada por Harrison. Atualmente, a companhia conta com cinco funcionários —nenhum deles recebe salário por causa do momento preliminar que o negócio se encontra. O fundador ainda procura formas de financiar a empreitada, mas não deseja um parceiro comercial que demande um aumento significativo no valor da assinatura do serviço –no momento, é possível utilizar o sistema por três dias gratuitos e então se paga US$ 19,99 (cerca de R$ 100) por mês. Há 900 pessoas cadastradas no sistema, porém Harrison não revela quantas efitivamente geraram versões digitais de outras pessoas. 

Uma hipótese a ser testada 

Também nos Estados Unidos, existe a Terasem Movement Foundation, uma organização sem fins lucrativos fundada em 2004 que busca testar se é possível transferir uma consciência humana para o ambiente digital. A ideia pode ser um tanto estranha a princípio. Bruce Duncan, diretor-executivo do projeto desde 2006, até ri quando a reportagem diz que o objetivo do projeto soa um pouco como ficção científica. “Só um pouco?”, pergunta ele depois das risadas. 

Duncan explica que, por muito tempo, o trabalho gerava reações de desinteresse por parte da comunidade acadêmica. “Quase ninguém na academia falava sobre isso e, se você falasse com cientistas, eles simplesmente diriam ‘bem, isso é legal e você é louco’ e iriam embora.” Com o tempo, a tecnologia avançou, e o interesse por pesquisas envolvendo inteligência artificial (IA) cresceu. O projeto do Terasem Movement até já foi tema de um artigo publicado no periódico científico International Journal of Machine Consciousness. O texto é assinado por Martine Rothblatt, uma das fundadoras do projeto. 

Para atingir o objetivo da iniciativa, existem diferentes etapas. A primeira é coletar dados que retratam a personalidade de alguém. Hoje, cerca de 65 mil pessoas já colocaram diferentes materiais, como áudios e vídeos, no sistema digital da fundação, que só suporta arquivos em inglês. Esses dados são processados e interpretados seguindo o modelo Big Five, método que mensura os cinco traços predominantes na personalidade de alguém. 

Agora, nós não podemos dizer que temos uma mente clonada 

Bruce Duncan diretor-executivo 

Mas, antes de testar se uma IA pode simular a personalidade de um ser humano, é necessário treiná-la. E é nessa fase que o projeto se encontra por meio de um robô chamado Bina48, que se baseia na personalidade de Bina Rothblatt, a outra fundadora do projeto. Dados pessoais de Rothblatt foram coletados, e entrevistas bibliográficas foram feitas com ela. Então, essas informações foram incorporadas à IA para treiná-la e aprimorá-la. Se a IA ficar preparada, o que, nas estimativas de Duncan, pode ocorrer entre 5 e 8 anos, então se passa à próxima etapa: os testes. 

O plano é que especialistas, como psicólogos, e pessoas comuns tenham contato com a pessoa real que formou o arquivo digital e com a simulação realizada pela IA. Com essas análises, será possível averiguar se realmente existe alguma equivalência entre as duas. 

Caso isso aconteça, Duncan diz acreditar que novas questões devem surgir e, consequentemente, novos estudos. “Eu esperaria que houvesse muitas questões que valem a pena serem perseguidas para refinar, repetir e examinar as condições subjacentes que estão presentes em uma simulação suficientemente boa.” Após isso, quem sabe, será possível transferir a consciência de alguém para computadores que podem operar a personalidade dessa pessoa mesmo se ela já tiver morrido. Esse plano é de interesse da organização para o futuro, mas o foco agora é aprimorar a IA e aplicar os testes de equivalência nos próximos anos. E, por enquanto, não tem como afirmar se isso dará certo. “Agora, nós não podemos dizer que temos uma mente clonada”, resume Duncan. 

Como funcionará a criação de versões digitais da Terasem Movement

  • 1° passo Áudios, textos e outros materiais de uma das fundadoras do projeto foram coletados
  • 2° passo Uma IA está sendo treinada para performar esses dados e simular a pessoa real
  • 3° passo Depois de pronta, a IA será testada para averiguar sua eficácia em simular um ser humano
  • 4° passo Se obter sucesso, a IA poderá ser usada no futuro para replicar diferentes mentes humanas

É possível? 

Vitor Calegaro, professor adjunto do departamento de neuropsiquiatria da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), estuda o tema de personalidade humana relacionada a traumas e resiliência. Ele explica que, pelo menos hoje, a ideia de uma IA simular totalmente a personalidade de alguém é algo distante de acontecer. Por outro lado, simular padrões focalizados de comportamento de alguém é algo mais factível. Isso porque a personalidade de alguém é produto de uma interação de sistemas psicofísicos –ou seja, mentais, mas também biológicos. “Dependendo de como é a genética de uma pessoa, a biologia dela, tudo isso vai mudar um padrão de respostas que compõem as características individuais”, explica Calegaro. Sem contar com essas informações biológicas, como é o caso de computadores, processar completamente o que compõe uma pessoa é improvável. 

Além disso, certos traços de uma pessoa não podem ser categorizados completamente por modelos matemáticos. Sexualidade e amor são dois exemplos. Sem essas medidas, não é possível replicar essas características de alguém. Outro detalhe levantado pelo professor é relacionado a quão ambiciosa é a meta. Por exemplo, se o desejo é simular o estilo de interação de uma pessoa com outra, ou seja, algo mais focalizado, o nível de reprodução tende a ser mais fácil de ser atingido. Agora, se o objetivo é captar a personalidade de alguém em diferentes contextos sociais, alcançar essa meta tende a ser muito mais difícil. 

https://www1.folha.uol.com.br/ciencia/2024/03/projetos-tentam-transferir-mente-humana-para-mundo-digital.shtml

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Por que vemos gênios e loucos de forma apaixonada?

O colunista Marcelo Cardoso explica como pessoas como Elon Musk ganham tanta audiência na sociedade

Por Marcelo Cardoso – Valor – 11/03/2024

É fundador e integrador da Chie, consultoria que dá suporte à evolução de indivíduos e organizações

O “poderoso excêntrico” é uma figura arquetípica muito presente em nosso imaginário cultural, que aparece nas nossas histórias desde sempre, de imperadores romanos a reis loucos medievais, das peças de Shakespeare aos personagens cômicos da “Sessão da Tarde”.

Essa representação está tão entranhada em nós, nos fascinando e indignando na mesma medida, que, de tempos em tempos, quando surge alguém de carne e osso que se assemelha a essas figuras, temos uma dificuldade enorme de separar o mito e a realidade, e reagimos de forma apaixonada – seja pela supervalorização dos seus feitos, seja pelo desprezo absoluto pela pessoa. Assim, perdemos de vista questões um pouco mais intrincadas que nos falam do mundo que possibilita esse tipo de fenômeno e sobre nós mesmos. Recomendo o equilíbrio entre pensamento crítico e empatia ao analisarmos esses indivíduos.

Provavelmente você se lembrou de Elon Musk. E de fato é ele quem eu tenho em mente para este texto.

Acabo de ler a sua biografia, escrito por Walter Isaacson, quem já escreveu antes sobre as vidas de Steve Jobs e Leonardo da Vinci. Todo o livro parece se sustentar nessa indissociação entre o caráter inovador brilhante e o monstro insensível, a começar pela citação inicial, atribuída ao próprio biografado: “para qualquer um que eu ofendi, eu só quero dizer que eu reinventei os carros elétricos, e estou mandando pessoas para Marte em um foguete. Você pensou que eu também seria um cara normal e tranquilo?”.

Isaacson reforçou essa perspectiva posteriormente em entrevistas, chegou a dizer que somente pessoas assim, destemidas e brutais, podem alcançar tamanho sucesso para chegar aonde ninguém chegou antes, e que, em oposição, àqueles mais ponderados e sensíveis cabe o papel de observador na história. O autor ainda sugere que alguns desses inovadores como Musk, Jobs e outros, têm paixão pela humanidade, mas desprezo pelo ser humano, e que o preço a pagar pelas inovações dessas pessoas seria lidar com as consequências das personalidades distorcidas e abusos que eles cometem.

Talvez seja impossível separar nessas pessoas o aspecto inovador e benéfico do aspecto sombrio de suas psiquês – de alguma forma, todos nós vivemos esse paradoxo, em que nossas potências nascem da tentativa de proteger um profundo vazio, um trauma ou senso de inadequação interna. Porém, tenho convicção de que é possível transformar os vícios de nossa personalidade em uma versão mais madura, integrada e funcional, sem perdermos nossas potencialidades que nos destacam.

Mas a questão que se levanta, então, por que essas pessoas não só se recusam a melhorar, como enaltecem e são celebradas por tais características destrutivas?

E a resposta prosaica é que, enquanto houver investidores ganhando com esse tipo de comportamento, os desvios de personalidade dessas pessoas serão tolerados e até incentivados. Até o ponto quando o comportamento deles coloca o negócio em risco, e então são afastados e descartados.

Como quase sempre, os lucros são maximizados e as consequências desastrosas para milhares de pessoas tornam-se um passivo para a sociedade, e até mesmo para o “excêntrico ex-gênio”, que se vê finalmente apartado de sua obra mas não de seus demônios. E provavelmente já será tarde demais para arrependimentos.

Talvez essas histórias sejam fascinantes para nós por serem uma metáfora da nossa sociedade, nesse constante desequilíbrio entre o exagero na busca pelo domínio do mundo externo, material e tecnológico e a aridez desleixada com o mundo interno, da falta de maturidade psíquica, ponderação e sensibilidade humana. É a história que vivemos como espécie.

Há uma outra história possível: em cada um de nós, e como sociedade, pode existir uma dança entre a constante investigação interna com a busca por realizações externas. Atualizando o mundo e a nós mesmos de forma ponderada, integrada e digna.

Precisamos começar a valorizar outras histórias e personagens.

Marcelo Cardoso é fundador da consultoria Chie e presidente do Instituto Integral Brasil

https://valor.globo.com/carreira/coluna/por-que-vemos-genios-e-loucos-de-forma-apaixonada.ghtml

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O poder do pedido – ou a força da cara de pau

Para Steve Jobs, pessoas que realizam têm a capacidade de pegar o telefone e ter a cara de pau de pedir alguma coisa

Aluizio Falcão Filho – Exame –  4 de março de 2024 

Muitos já viram um vídeo de Steve Jobs que circula nas redes sociais, contando uma história que também foi registrada na biografia escrita pelo jornalista Walter Isaacson. Nesta gravação, ele fala sobre o poder que um pedido pode ter (e a diferença que isso pode fazer em sua vida). “Eu nunca encontrei alguém que não quisesse me ajudar se eu pedisse ajuda”, diz Jobs. “Eu sempre liguei para as pessoas”.

Talvez você esteja matutando nessa hora: “Mas quem não ajudaria Steve Jobs?”. Um dos empresários mais geniais da história, ele seria atendido por qualquer pessoa do mundo, fã ou não da Apple e de outras iniciativas brilhantes, como a Pixar. Antes de mais nada, porém, leia o restante deste depoimento do criador do iPhone:

“Eu liguei para Bill Hewlett [o “H” da HP, empresa que fundou com David Packard] quando tinha doze anos de idade. Ele morava em Palo Alto e seu número ainda estava na lista telefônica. Ele atendeu o telefone e eu disse: ‘Oi, eu sou Steve Jobs, tenho doze anos, sou estudante do ensino fundamental e quero fazer um contador de frequências. Estava pensando se você não teria algumas peças sobrando que eu pudesse pegar’. Ele deu risada e me deu as peças para construir o contador de frequências e também me deu um emprego naquele verão na Hewlett-Packard, onde eu trabalhei na linha de produção. […] Eu nunca encontrei alguém que disse não ou desligasse o telefone quando ligava para pedir ajuda. Eu apenas perguntava”.

Para Jobs, o que separa as pessoas que sonham daquelas que realizam é a capacidade de agir, como pegar o telefone e ter a cara de pau de pedir alguma coisa. Obviamente, o discurso de quem faz esse tipo de coisa tem que ser tão ousado quanto a iniciativa em si. E, no caso da história contada por Jobs, o fato de ele ter apenas doze anos de idade fez boa parte do trabalho.

Ele manteve a audácia em seu caráter por muito tempo. Nos diários do artista plástico Andy Warhol, há uma passagem que descreve esse traço de personalidade do criador da Apple. Escrevi sobre isso em 17 de março de 2022. Vale a pena reler esse trecho:

A Netflix acaba de lançar uma minissérie sobre o artista Andy Warhol, baseada em seus diários. Uma determinada passagem fala sobre a noite de 9 de outubro de 1984. Era o aniversário do filho de John Lennon e de Yoko Ono, Sean, e Warhol tinha sido convidado, assim como o jornalista Walter Cronkite e o compositor John Cage. Lá pelas tantas, ele vê o aniversariante brincando com um computador da Apple ao lado de um rapaz que o ajudava a mexer na máquina.

Warhol estava acompanhado do também artista Keith Haring, que ficou encantado com o programa de ilustração do computador (na época, a maioria dos PCs não tinha interface gráfica). Intrigado, se aproximou e viu que era um Macintosh. Warhol disse para o rapaz ao lado de Sean Lennon: “Macintosh? Tem um cara que me liga toda semana querendo me dar um aparelho desses”.

O jovem, então, respondeu e estendeu a mão: “Sou eu mesmo. Muito prazer, Steve Jobs”.

Esse expediente, convenhamos, é imprescindível para qualquer empreendedor ou executivo que se preze. Portanto, vamos parafrasear o poeta Vinícius de Moraes em seu poema “Receita de Mulher”, de 1959: os tímidos que me perdoem, mas a desfaçatez é fundamental.

https://exame.com/colunistas/money-report-aluizio-falcao-filho/o-poder-do-pedido-ou-a-forca-da-cara-de-pau

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Fórmula de Singapura é valorizar professor, diz especialista

Ng Pak Tee, autor de ‘Learning from Singapore’, descreve como o país chegou a líder do Pisa, avaliação global de educação

Nelson de Sá – Folha – 3.jan.2024 

Taipé

Realizado em 2022 e divulgado no início de dezembro, o Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes) confirmou Singapura como líder do ranking de 81 países e regiões nas três matérias abrangidas, matemática, leitura e ciências. O Brasil foi o 65º em matemática, foco maior desta edição do exame aplicado desde 2000 para estudantes de 15 anos.

Autor do livro “Learning from Singapore”, aprendendo com Singapura, Ng Pak Tee aponta a valorização da educação e dos próprios professores, por razões históricas, e a busca permanente de aprimoramento do sistema de ensino como características significativas do país. Mas evita defender o sistema como modelo para outros países. “Ele não é perfeito, e nosso contexto é diferente.”

Desde que o país de 5,9 milhões de habitantes começou a chamar a atenção no Pisa, também há críticas, como o foco em exames de avaliação, que estimulam procurar aulas extras, pagas. Ng reconhece que Singapura era assim “no passado”, mas enfatiza as mudanças feitas, visando o bem-estar dos alunos e uma busca de “aprender com alegria”, como queria Confúcio.

Questionado sobre o que explicaria o desempenho também de Macau, Taiwan e Hong Kong, três outras regiões da chamada Grande China que aparecem logo abaixo de Singapura no último ranking do Pisa, Ng responde não conhecer a fundo, mas arrisca: “Meu palpite é que, de um modo geral, talvez a educação nesses lugares seja mais valorizada por toda a sociedade”.

Leia, a seguir, trechos editados da entrevista.



Como Singapura se tornou um exemplo em educação? Como começou?
Pessoalmente, eu não chamaria Singapura de um sistema educacional modelo ou um exemplo em educação, como você colocou. Ele não é perfeito, e nosso contexto e trajetória são diferentes dos outros. Em muitas áreas, como educação infantil, ainda está tentando alcançar e aprender com outros sistemas avançados. Se é por causa dos resultados do Pisa, então minha opinião é que o Pisa é uma boa referência, mas não é nosso boletim escolar. Estamos muito mais preocupados com a educação das crianças do que com os resultados do Pisa.

Suponho que a maneira mais fácil de entender seja começar por 1965, ano em que Singapura se tornou independente. O desafio naquela época era sobreviver. O país era pobre e havia um alto índice de desemprego, muitos singapurenses eram analfabetos. Havia uma atitude geral entre as pessoas daquela geração de que “vamos enviar nossos filhos para a escola para que tenham vidas melhores que as nossas”. A educação se tornou a esperança. Singapura é um país muito pequeno, sem recursos, sem petróleo, borracha ou terra para agricultura, exceto o povo. Valorizamos a educação, acho que esse foi o ponto de partida.

Qual é a característica mais significativa do sistema educacional hoje? E é viável reproduzi-la fora de Singapura?
Uma filosofia fundamental em Singapura é que, à medida que o tempo avança, são feitas mudanças para acompanhar. Independentemente de onde estiver em testes comparativos internacionais, vai sempre tentar melhorar a educação. Mas existem constantes atemporais que servem como faróis, para ajudar a navegar pelas águas da mudança de forma segura. Uma constante no sistema é que a educação é um investimento, não uma despesa. Não se pouparam recursos para a educação mesmo quando a economia foi duramente atingida, durante várias crises globais, para que as crianças não ficassem para trás.

O sr. acredita que o valor dado aos professores, em salários e na sua seleção e preparação, tem papel nisso?
Sim, em vários relatórios internacionais isso é citado como um fator chave para o alto desempenho educacional de Singapura. O ensino é uma profissão respeitada. Investe-se muito esforço e recurso no desenvolvimento profissional de líderes escolares e professores. Conseguimos recrutar professores do terço superior das suas turmas acadêmicas. O salário inicial é comparável a outras profissões, e existem diferentes caminhos de desenvolvimento e avanço na carreira. Entrevistamos cuidadosamente os candidatos para recrutar só aqueles que estão de fato interessados em ensinar. O governo cobre o custo para a formação de professores, e quando estagiários eles recebem salário. Todos os professores e líderes escolares são treinados no Instituto Nacional de Educação, onde eu trabalho. Tentamos preparar professores prontos para o futuro, que sejam adaptáveis à mudança, mas ancorados em princípios.

Essa valorização reflete a própria sociedade, a forma como ela enxerga os professores?
Sim, em termos gerais, a sociedade valoriza os professores, mas também são feitos esforços deliberados para cuidar e proteger a imagem da profissão. Por exemplo, existe um prêmio prestigioso que homenageia professores excepcionais, inspiradores e atenciosos, que o presidente de Singapura concede pessoalmente, e grandes anúncios são pintados na parte externa de ônibus, para lembrar ao público que a educação está “Moldando o futuro da nação”.

Em relação à posição de Singapura no Pisa, há críticas ao peso que é dado no país para aulas particulares e à educação muito voltada para os exames. Isso é verdade?
O bem-estar dos estudantes é atualmente um tema quente em Singapura. Na verdade, as escolas sempre se preocuparam, atividades extracurriculares e educação física sempre foram parte importante do ensino. Mais recentemente, têm sido feitos mais esforços em áreas como educação de caráter e cidadania, aprendizado social e bem-estar digital.

Nosso sistema no passado era bastante voltado para exames. O que se está fazendo agora é afastar do foco no resultado dos testes e concentrar na qualidade da aprendizagem. Foi reduzido o número de exames que os estudantes fazem nas escolas, mas, mais importante, estão sendo feitas mudanças na educação para apoiar uma infância ou adolescência saudável. Os estudantes passam parte do tempo na escola. O que se quer é garantir que eles realmente se beneficiem e aproveitem de seu tempo de aprendizado na escola. Isso é uma parte crucial do bem-estar dos estudantes, que as crianças desenvolvam o hábito de estudar com menos estresse na aprendizagem.

Você já escreveu que Confúcio, falando sobre aprender, perguntou: ‘não é uma alegria?’. É uma alegria, em Singapura? Está se tornando mais alegre?
Espero que sim. Foi reduzida a ênfase nas notas como medida de sucesso dos alunos. Nos exames de conclusão do ensino fundamental, para alunos com 12 anos, a medida estatística para classificar as notas dos alunos foi substituída por faixas de conquistas mais amplas. Ao fazer isso, a mensagem para os alunos e pais é que os exames ainda são importantes, mas não são a única coisa ou a coisa mais importante na vida. Não há necessidade de ficar tão ansioso para buscar o objetivo. Portanto, agora é preciso nos perguntar: é necessário fazer aulas particulares? O tempo pode ser utilizado para algo que leve a um desenvolvimento mais completo? É necessário estudar repetidamente só para os exames, tirando tempo de outras aplicações mais criativas do conhecimento? A prática não está errada, ela é necessária para a aprendizagem. Estamos preocupados com a prática excessiva, em detrimento do desenvolvimento holístico da criança.

A aprendizagem ganha vida quando os alunos sentem que o que aprendem é útil e significativo em suas vidas e têm oportunidade de aplicar seus conhecimentos e habilidades em situações do mundo real. Recentemente, todas as escolas foram incentivadas e apoiadas a desenvolver um programa de aprendizagem aplicada para seus alunos. A abordagem ao bem-estar dos estudantes não é superprotegê-los de desafios. Enfatiza-se a educação holística para preparar os alunos com valores e habilidades para superar dificuldades e contratempos.

Como é a equidade no sistema escolar de Singapura? As crianças de famílias pobres têm acesso a boa educação?
O objetivo é um sistema escolar excelente para todas as crianças e jovens, não algumas escolas excelentes para alguns. A filosofia é que todas as escolas sejam boas, independentemente dos resultados acadêmicos. Que todas tenham bons líderes e professores, sejam ambientes seguros para as crianças. Se você ensina em uma escola de alto nível, isso não significa que é um professor melhor ou tem uma carreira mais brilhante. Na verdade, indicamos alguns de nossos melhores professores e diretores para as escolas menos privilegiadas, porque eles podem melhorar essas escolas. Independentemente do contexto familiar, as crianças podem ter acesso a uma boa educação. Todas as escolas importam, são lugares para as crianças aprenderem e construírem relacionamentos em um ambiente seguro.

Estão sendo desenvolvidos caminhos diferentes, para que alunos diferentes com aptidões diferentes possam encontrar satisfação à sua maneira. De certa forma, isso descreve a equidade em Singapura. Os resultados podem não ser todos iguais, mas são todos bons o suficiente como base para levar uma vida, criar uma família, ser um cidadão. Os diferentes caminhos também permitem que as crianças experimentem a alegria de aprender. Elas se envolvem, encontram significado e prazer, trabalham duro para alcançar. É a confluência de equidade, excelência e bem-estar.

Como foi a experiência com Covid-19 em Singapura?
Quando a Covid-19 atingiu, foi, é claro, uma crise. O impacto em vidas humanas, nos meios de subsistência e no estilo de vida foi tremendo. Durante o período de bloqueio, de abril a junho de 2020, quando o ensino em casa foi implementado em todo o país, os professores continuaram ensinando e aprendendo usando ferramentas online. Dada a mudança repentina naquela época, escolas, professores e alunos realmente se adaptaram. Os professores aprenderam a operar online, fizeram ligações para cuidar de seus alunos. Estes, é claro, tiveram que fazer muitos ajustes também, tiveram mais tempo de tela e menos socialização presencial, mas fizeram o seu melhor. O resultado foi que a aprendizagem continuou em Singapura, apesar da pandemia.

Pós-Covid, olhando para a frente, essas competências de ensino online abrem caminho para o avanço pedagógico. Os professores agora têm uma melhor compreensão dos benefícios e armadilhas das ferramentas tecnológicas. Estamos aproveitando o fato de que os professores agora estão mais competentes com elas para avançar em direção ao ensino híbrido. Algum ensino em casa regular, feito online, complementa as aulas presenciais. Durante esses períodos de ensino em casa, os alunos assumirão a responsabilidade por sua própria aprendizagem e se envolverão em alguns tópicos fora do currículo.



RAIO-X

Matemático pela Universidade de Cambridge, na Inglaterra, o singapurense Ng Pak Tee é professor do Instituto Nacional de Educação, da Universidade Tecnológica de Nanyang, faculdade que seleciona e prepara os professores do país. Publicou em 2017 o livro “Learning from Singapore: The Power of Paradoxes” (Routledge, 2017), em que aponta o efeito positivo de paradoxos no sistema educacional do país, como a convivência entre centralização e descentralização

https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2024/01/formula-de-singapura-e-valorizar-professor-diz-especialista.shtml

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IAs que resolvem problemas: um passo a mais para a IA realmente inteligente

Novo modelo de IA do laboratório do Google pode aprender a jogar games a partir de instruções verbais de um treinador humano


Mark Sullivan – Fast Company Brasil – 19-03-2024 

Por anos, pesquisadores têm ensinado modelos de IA a jogar videogame como uma forma de prepará-los para executar tarefas específicas da vida cotidiana. Mas a DeepMind, subsidiária do Google focada em inteligência artificial, aumentou a aposta, lançando um modelo “generalista” capaz de aprender a navegar em uma variedade de ambientes virtuais.

O agente de IA, chamado SIMA (acrônimo de “Scalable Instructable Multiworld Agent”, ou agente multimundo ensinável e escalável), pode seguir instruções em linguagem natural para realizar diversas tarefas em mundos virtuais.

Ele aprendeu a minerar recursos, pilotar espaçonaves, fabricar capacetes e construir esculturas usando blocos. Todas essas ações foram realizadas utilizando um teclado e um mouse para controlar o personagem principal do jogo.

O sistema (composto por vários modelos) que alimenta o SIMA foi projetado para mapear com precisão a linguagem e imagens. A equipe de desenvolvimento treinou um modelo de vídeo para prever o que aconteceria se o agente realizasse uma ação específica. Em seguida, ajustou o sistema com base em dados 3D específicos do jogo.

Os pesquisadores da DeepMind querem dar passos em direção à construção de modelos e agentes de IA capazes de descobrir como realizar tarefas no mundo real. “Estamos interessados no comportamento do nosso agente em ambientes que ele nunca viu antes”, afirma Frederic Besse, engenheiro de pesquisa da empresa.

Entretanto, seu colega Tim Harley, que liderou o projeto, ressalta que é muito cedo para falar sobre as aplicações da tecnologia. “Ainda estamos tentando entender como isso funciona… como criar um agente verdadeiramente generalista.”

ROBÔS CAPAZES DE SOLUCIONAR PROBLEMAS

Assim como a DeepMind, a Covariant busca criar um cérebro de IA com a capacidade de aprender novas informações e reagir a problemas inesperados. Mas, em vez de treinar agentes para atuar em uma ampla gama de ambientes digitais, a empresa está focando em ambientes mais restritos, como chãos de fábrica e centros de distribuição.

Os clientes da Covarient estão espalhados por 15 países. Todos usam diferentes tipos de robôs para realizar diversas tarefas, desde selecionar verduras até empacotar produtos comprados online.

A variedade de itens e ações com os quais eles lidam é grande demais para ser replicada em um laboratório de treinamento, então os robôs precisam usar sua capacidade de intuição para manusear objetos que nunca viram, de formas que nunca fizeram antes.

Os robôs começam a desenvolver um instinto de resolução de problemas, assim como os humanos.

Enquanto realizam suas atividades diárias, eles também coletam dados valiosos de treinamento. Peter Chen, CEO da Covariant, compara isso a muitos tipos diferentes de corpos reportando a um mesmo cérebro.

A empresa, que é composta por um bom número de ex-membros da OpenAI, usou esses dados para treinar um novo modelo de base com oito bilhões de parâmetros, o RFM-1.

Os primeiros grandes modelos de linguagem (LLMs, na sigla em inglês) eram treinados apenas a partir de texto. Em 2024, estamos vendo o surgimento de modelos multimodais, capazes de processar imagens, áudios, vídeos e códigos. Mas a Covariant precisava de um que pudesse “pensar” usando um conjunto ainda mais amplo de tipos de dados.

O RFM-1 também entende o estado e a posição do robô e os movimentos que ele pode fazer. Todas essas informações são representadas como tokens no modelo, da mesma forma que dados de texto, imagem e vídeo.

Com todos diferentes tipos de tokens em um único espaço, ele é capaz de fazer coisas impressionantes. O modelo pode, por exemplo, combinar instruções de texto com observações de imagem para intuir a melhor maneira de pegar e mover um objeto.

Também pode gerar um vídeo mostrando o resultado de uma ação específica. Ou simular uma ação planejada com base nas leituras dos sensores do robô. Em essência, trata-se de dar aos robôs uma espécie de intuição geral para solucionar novos problemas e experiências para os quais não foram treinados.

Dessa forma, eles podem continuar trabalhando sem a necessidade de serem desligados para receber treinamento adicional sobre como lidar com um cenário específico. Os robôs começam a desenvolver um instinto de resolução de problemas, assim como os humanos.

A diferença é que ainda podem realizar a mesma ação duas mil vezes por dia, a uma velocidade muito superior à nossa – e nunca ficam entediados.


SOBRE O AUTOR

Mark Sullivan é redator sênior da Fast Company e escreve sobre tecnologia emergente, política, inteligência artificial, grandes empres… saiba mais


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Porto de Santos aposta em drone subaquático e tecnologia chinesa contra o tráfico

Em 2023, mergulhadores da Marinha apreenderam 1,68 tonelada de cocaína em cascos de navio, estratégia do PCC para driblar fiscalização

Por Ítalo Lo Re – Estadão – 18/03/2024 

Somente no ano passado, mergulhadores da Marinha apreenderam 1,68 tonelada de cocaína em cascos de navios em ações de vistoria realizadas no Porto de Santos, o maior do hemisfério sul. A quantidade equivale a mais do que o triplo do que os 483 quilos interceptados em 2020, segundo informações exclusivas obtidas pelo Estadão.

A alta expressiva dessa modalidade, que se junta a outras táticas mais tradicionais, como esconder drogas em contêineres, desafia autoridades no combate ao tráfico. Hoje, a atuação do Primeiro Comando da Capital (PCC) extrapola fronteiras, com lucro que supera US$ 1 bilhão ao ano.

Na tentativa de frear o crime organizado, o governo federal editou, em novembro, decreto de Garantia da Lei e da Ordem (GLO) em portos e aeroportos de Rio e São Paulo, que prevê reforço militar até maio – ainda não está definido se haverá prorrogação.

Já a Autoridade Portuária de Santos (APS) prevê lançar edital ainda neste semestre para implementar um pacote de tecnologia no porto, inclusive com a compra de drones submarinos.

“Hoje, os mergulhadores precisam monitorar 24,6 quilômetros de canal. Ou seja, precisaria ter milhares de mergulhadores para monitorar todo o canal ao mesmo tempo”, diz Anderson Pomini, presidente da APS. Atualmente, a Guarda Portuária não tem mergulhadores, enquanto há quatro profissionais da Marinha em atuação.

Após essa análise de tecnologias usadas no exterior, houve “esse estudo interno para contratar os drones submarinos, segundo Pomini. “Há uma tecnologia chinesa, que já é implementada em alguns rios lá fora, para fazer esse tipo de vistoria, acompanhamento, batimetria, dragagem. Quereremos copiar essa tecnologia.”

O plano é de que essa contratação faça parte de um pacote de tecnologia para auxiliar na entrada e saída de navios que acessam o Porto de Santos. Segundo ele, R$ 140 milhões estão reservados para essa medida no orçamento deste ano. Também é previsto concurso para admitir 60 novos guardas portuários – hoje são 350.

A Guarda Portuária conta ainda com dois drones aéreos, além de uma rede que inclui 600 câmeras, algumas delas com sensor de movimento. As imagens são compartilhadas em tempo real com a Marinha. “É algo para ter imediatismo maior nas operações”, afirma o guarda portuário Felipy Nunes, que destaca a integração entre os agentes do porto para o sucesso da operação de GLO.

Dados da Alfândega de Santos obtidos pelo Núcleo de Estudos da Violência da USP mostram como o tráfico submarino tem crescido. Em 2020, a proporção de droga achada em cascos de navios era de 2,3% do montante. Em 2023, só até agosto, a fatia saltou para 13,5%.

“Eles (integrante do crime organizado) preferem atuar principalmente à noite e em zonas onde há menos patrulhamento e alcance das câmeras. Esse é o caso da zona de fundeio, que é bem distante e fica já em área marítima”, explica Gabriel Patriarca, pesquisador do Núcleo de Estudos da Violência da USP. Por isso e diante da dificuldade de vistoriar todas as embarcações, ele defende investir em tecnologia.

As investigações apontam que, em geral, os pacotes com cocaína são levados aos navios de duas formas: por pequenas lanchas, que se movimentam principalmente à noite com luzes apagadas, ou por mergulhadores, que saem de áreas de mata ou de embarcações mais afastadas. Além de içar os pacotes, também os acoplam nos cascos.

O pesquisador indica que, para mapear essa movimentação, outros portos internacionais já começam a adotar drones submarinos. Um exemplo é o de Rotterdã , na Holanda. Além de investir em redes mais sofisticadas de tecnologia, como o Sistema de Gerenciamento e Informação do Tráfego de Embarcações (VTMIS, na sigla em inglês).

Em Santos, o plano da Autoridade Portuária é justamente adotar monitoramento mais robusto. Como mostrou o Estadão, o Porto de Santos vai receber R$ 21,28 bilhões em investimentos entre 2024 e 2028, em ações que envolvem desde melhorias em infraestrutura até um novo sistema para acompanhar o tráfego de navios.

“Essa pode ser uma maneira mais efetiva de ter o controle de embarcações suspeitas que se aproximam dos navios na área de fundeio”, afirma Patriarca, da USP.

É na área de fundeio, por exemplo, que costuma ocorrer o içamento de pacotes com droga para integrantes da tripulação cooptados pelo crime organizado, como já indicaram investigações policiais. Não à toa, a Polícia Federal tem como um dos focos as inspeções de navios nesse espaço.

Ação conjunta da corporação com Receita e Marinha no início de 2023, por exemplo, apreendeu cerca de 290 kg de cocaína achados no casco de navio carregado de celulose. Os traficantes usaram até anilhas de academia para fixar os pacotes no recipiente. O barco ia para o Porto de Martas, na Turquia.

Para tentar auxiliar na fiscalização da área de fundeio durante o período da operação de GLO, a Marinha enviou cerca de 400 militares para atuar em Santos. A equipe conta com uma lancha blindada, conhecida como “Caveirão do mar”.

A lancha DGS 888 Raptor “Mangangá” é usada para a inspeção de embarcações que oferecem risco em potencial às equipes de fiscalização. A embarcação tem capacidade para transportar até 10 tripulantes e chega a uma velocidade de 30 nós, além de comportar uma metralhadora 7,62 mm.

“A gente entende que os números (de efetivo) são acanhados dado o tamanho do Porto de Santos, mas o que a gente procura fazer é utilizar informações de inteligência de forma a poder atuar pontualmente, mas de forma precisa”, diz o capitão dos Portos de São Paulo, Marcus André de Souza e Silva.

Nos quatro meses de GLO, houve duas apreensões mais expressivas de cocaína em Santos com ajuda da Marinha: uma de 10 kg, localizadas junto aos corpos de dois tripulantes estrangeiros de uma embarcação, e outra de 31 kg, escondidos em compartimento no alto do banheiro de um navio.

Além da lancha blindada, a Marinha enviou um blindado Mowag “Piranha”, tanque que chegou a ser usado em operações das Forças Armadas no Haiti e no Rio de Janeiro. Para reforçar as operações, a instituição dispõe também de dois drones e três navios-patrulha, com destaque para o “Maracanã”, embarcação da classe Macaé que possui canhão de calibre 40mm e duas metralhadoras.

“Não deixamos de atuar nas outras áreas que são de nossa responsabilidade, mas, atualmente, devido a essa demanda crescente da GLO, temos direcionado grande parte dos nossos esforços para a área de Santos, que é onde nós estamos sediados”, afirma o capitão de Corveta Bernardo Dias, chefe de Estado-Maior do Comando de Grupamento de Patrulha Naval do Sul-Sudeste.

É atribuição do grupamento atuar, por exemplo, no Porto de Paranaguá (PR), que, apesar de ser um dos maiores do País, não foi incluído no decreto de GLO. Segundo Dias, o remanejamento foi feito de forma a não prejudicar outros portos.

Apesar da previsão inicial de a operação ir até maio, fontes internas da Marinha afirmam que o governo federal estuda uma extensão até dezembro. Avalia também a inclusão no decreto do Porto de Paranaguá, que costuma ser o 2º colocado em apreensão de cocaína, atrás apenas de Santos.

Por ano, mais de 5 mil navios chegam a ficar atracados no Porto de Santos, que se destaca pela exportação de soja, açúcar e carne bovina. Os principais destinos das embarcações são Ásia e Europa, também alguns dos locais de revenda de droga pelo Primeiro Comando da Capital.

PCC envia entre 4 e 5 toneladas de cocaína por ano ao exterior

Investigações do MP indicam que a facção paga de US$ 1,2 mil a US$ 1,4 mil (entre R$ 6 mil e R$ 7 mil) pelo quilo de cocaína para fornecedores de países vizinhos, como Colômbia, Peru e Bolívia. Na Europa, vende por cerca de € 35 mil.

Como mostrou o Estadão, a estimativa é que o PCC envie de 4 a 5 toneladas de cocaína para outros países por mês, em especial por meio dos portos. E, pelos cálculos do MP, a facção lucra cerca de US$ 1 bilhão (quase R$ 5 bilhões) anuais, com destaque para a venda internacional de cocaína.

Conforme a Marinha, nos quatro primeiros meses de operação, foram mais de 27 mil abordagens em veículos, 7,4 mil fiscalizações em embarcações e 17,5 mil inspeções em pessoas e bagagens.

Além disso, foram inspecionados mais de 4,5 mil contêineres em cooperação com outros órgãos, sendo apreendidas mais de 30 embarcações por irregularidades administrativas. Outras 215 embarcações foram notificadas.

A Polícia Civil afirmou, em nota, que deflagrou as operações “Navegação Segura” e “Pérola do Atlântico” na Baixada Santista, em outubro e novembro, com apoio de agentes da Marinha e da Capitania dos Portos.

Um homem de 38 anos, procurado por tráfico de drogas, foi preso. Já um adolescente, de 15 anos, foi apreendido em flagrante por ato infracional equivalente à associação criminosa.

“Quatro jet skis produtos de furto foram recuperados e uma lancha com dados adulterados apreendida, em Santos. Em Guarujá, quatro jet skis com sinais de irregularidade e outros quatro sem documentação foram recolhidos”, afirmou.

Procurados pela reportagem, Ministério da Justiça e Polícia Federal não falaram.

https://www.estadao.com.br/sao-paulo/porto-de-santos-aposta-em-drone-subaquatico-e-tecnologia-chinesa-contra-o-trafico

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Silvio Meira: “Estamos na era da pedra lascada da IA, mas o futuro chega em 800 dias” 

Silvio Meira – Brazil Journal – 16 de março de 2024 

Daqui a 800 dias, a inteligência artificial atingirá a complexidade da filosofia. Não são meses nem semanas. São dias. Isso significa que os líderes empresariais que ficarem esperando para ver se “esse negócio de IA” vai dar certo, daqui a três anos não vão mais conseguir entender o cenário competitivo. Vai ser tudo rápido demais.

 A profecia é de Silvio Meira, o cientista-chefe da tds.company, professor emérito da Universidade Federal de Pernambuco e um dos fundadores do Porto Digital, o centro de excelência em inovação do Recife. Silvio também está no conselho de empresas como o Magazine Luiza, MRV, Tempest e CI&T. “Entre a escrita Linear B (a forma mais antiga do grego que se conhece) e Platão, demorou 1.200 anos,” diz Meira.

 “Entre a Inteligência Artificial online e o equivalente a um Platão contemporâneo, vai levar alguma coisa como 1.200 dias. Não é 1.200 meses, nem 1.200 semanas. É 1.200 dias.” Já estamos por volta do dia 400, levando em conta o lançamento do ChatGPT. Um lançamento épico, que já entrou para a História como o sistema de informação que mais rápido atingiu 100 milhões de usuários. “100 milhões de pessoas fazendo sabe o quê? Treinando um sistema de informação. De graça,” diz Silvio. 

Mesmo com a IA já tendo caminhado um terço da escala imaginada por ele, Silvio mesmo diz que estamos ainda na idade da pedra lascada da IA. Quando o ChatGPT foi lançado, o modelo era capaz de processar 4 mil tokens. O token é uma medida que define a quantidade de informação à qual o modelo de IA pode prestar atenção de forma a manter uma interação coerente com as pessoas. Mais recentemente o Google lançou o Gemini, com capacidade de 700 mil tokens. É token suficiente para processar 60% de toda a Enciclopédia Britânica. 

Até 2030, Meira diz que serão bilhões de tokens, capazes de entender todo o conteúdo em português criado no mundo em todos os tempos. E em 2040, serão trilhões de tokens. Enquanto isso, as empresas ainda precisam entender o básico: a inteligência artificial não é uma ferramenta. Ela é uma extensão da inteligência, e isso significa que as pessoas não podem ser substituídas. Também vai significar uma transformação dos negócios, a ponto de criarmos o mercado de uma só pessoa. Silvio não mede as palavras para fazer seu ponto. Nem com as pequenas… “Se você é uma empresa pequena e não está usando a inteligência artificial que está na nuvem que é aberta, que não vai lhe dar trabalho de treinamento, de configuração, de segurança, você é um idiota.” 

Nem com as grandes… “Se você é uma grande empresa, um banco, uma grande rede de varejo, grande negócio de finanças, grande sistema universitário e você está usando um negócio de Inteligência Artificial que está na nuvem, você é um idiota também.” 

É difícil entender, mas Silvio usa até as carroças para tentar explicar tudo nesta conversa com o Brazil Journal. Qual tem sido a reação mais recorrente das pessoas à inteligência artificial? Susto combinado com histeria. De fora da área de computação, todo mundo achando que houve um big bang. Mas para quem acompanha de perto, esse assunto está sendo falado pelo menos nos últimos 20 anos. O que estava faltando era talvez o que a gente pudesse chamar de cola, do ponto de vista científico. Como se fosse uma amarração. 

Computação já estava nas empresas desde a década de 50 e do ponto de vista da sociedade em geral ela passou 45 anos escondida. Quando que a computação aparece para as pessoas? Em 1995. Por quê? Porque publicou-se o código na internet. A internet não é um ambiente de comunicação. Ela é um ambiente de conectividade, que habilita você a publicar código na internet. Muitos algoritmos ao mesmo tempo. E aí o que a gente viu em 2022 foi a publicação de Inteligência Artificial online que levou ao sistema de informação que teve mais rápido 100 milhões de usuários em toda a história do universo. 100 milhões de pessoas fazendo sabe o quê? Treinando um sistema de informação. 

Vou dizer de novo, não é usando esse sistema. É treinando. E de graça. E depois você mandou as pessoas pagarem para treinar um sistema que vai ser usado depois. Nós estamos numa espécie de idade da pedra lascada da computação inteligente. Não parece tão primitivo assim. Vou fazer um paralelo com a escrita. O que a gente conhece como alfabeto, não com hieróglifos e coisas parecidas, tem 3.500 anos. E depois evoluiu para a Linear B. Entre a linear B, em 1.500 antes de Cristo, e Platão demorou 1.200 anos. Mas entre a Inteligência Artificial online e o equivalente a um Platão contemporâneo, vai levar algo como 1.200 dias. Não é 1.200 meses nem 1.200 semanas. É 1.200 dias! 

Estamos chegando num ponto onde eu posso chegar para uma inteligência artificial e dizer, “faça uma teoria para mim, para isso, para esse cenário aqui e faça uma teoria que serve para esse tipo de objetivo.” E ela faz. Entendeu? Isso é uma coisa que não se esperava que tivesse acontecendo agora e aí sim, tem uma surpresa, até para o pessoal da área. Que conhece esse assunto há muito tempo. Tem um ‘puta que pariu’ aqui. 

Mas temos a questão dos erros, das alucinações. Isso vai acabar então? Os erros não vão acabar e justamente eles vão criar um conjunto muito grande de oportunidades para evolução. A gente nunca vai ter um modelo capaz de entender um universo como um todo, isso é computacionalmente impossível. Não tem essa história de vamos fazer um troço que entende o mundo todinho e nos diz a resposta para o sentido da vida. Mas vai fazer com que a gente continue evoluindo em larga escala e numa velocidade que talvez a gente nunca tenha visto. 

Isso está acontecendo com o Gemini, do Google? O ChatGPT saiu tão na frente e saiu tão do nada que ninguém esperava que aquilo acontecesse. O que aconteceu é que a Microsoft pulou direto na oportunidade, foi lá e botou US$ 10 bilhões em um movimento defensivo. Só para a gente lembrar, lá no começo, a Microsoft fez a mesma coisa com o Facebook, ela olhou assim e pensou eu nunca vou fazer isso então eu vou entrar aqui. Ela comprou uma cláusula de bloquear investimentos de outros. Ninguém pode comprar Facebook porque a Microsoft não deixaria, ela tem uma opção de compra para ela mesmo. E ela fez a mesma coisa com a OpenAI. 

E aí o que aconteceu com Google, Facebook, Apple? Eles têm que lançar alguma coisa. No caso do Google, isso é ainda mais dramático porque muda o seu modelo de negócio. Imagina você e eu fazendo a seguinte pergunta: Me explica a história das línguas escritas. O Google me responde com 50.000 links. O ChatGPT me explica a história das línguas escritas em uma resposta. 

Mas em que ponto estamos na sua escala de evolução da IA? Nós estamos alguma coisa como 400 dias depois do ponto de partida. E ainda estamos confundindo um bocado de coisa, a começar pelo que é inteligência humana. Até bem pouco tempo, tínhamos duas dimensões dessa inteligência da sociedade: a inteligência de cada um de nós e a inteligência social, que é a inteligência dos grupos ou de rede de pessoas. E aí vem a inteligência artificial. 

Ela não é uma tecnologia. Ela não é uma plataforma. Ela é uma nova dimensão da inteligência, e eu acho que as pessoas estão se perdendo aqui ao achar que tem uma ferramenta em que você bota os processos como eles já existem. Não. A gente agora tem um outro conjunto de inteligências a nosso dispor, se a gente assim quiser, que além de ser cada um de nós e nós em rede, são agentes inteligentes e desincorporados. Onde estamos é só o começo. Porque o que define a competência desses agentes inteligentes é uma medida chamada tokens por interação. 

Qual é a quantidade máxima de informação à qual o modelo pode prestar atenção de forma coerente, que mantém um fluxo de informação como se duas pessoas estivessem conversando? Estamos hoje em milhares de tokens por interação. A versão atual de Gemini, a paga, trabalha com 700 mil tokens. Em um ano e meio evoluímos para centenas de milhares de tokens. Se você for ver o que Gemini é capaz, ele é capaz de fazer coisas do outro mundo. Mas estou falando do outro mundo mesmo, comparado com o que o ChatGPT faz. Por quê? Porque a zona de atenção dele é muito maior. Ele processa um conjunto muito maior de dados. A zona de contexto informacional é do tamanho de 60% da Enciclopédia Britânica inteira. Nós estamos falando de 40 milhões de palavras. E estamos indo para um modelo de bilhões de tokens onde ele captura quase toda a informação relevante já produzida pela humanidade. 

Então o contexto conversacional com esses modelos, por exemplo, ali no fim da década, olhando para 2030, essa inteligência vai estar acessível no interface conversacional, não é no laboratório da Nasa ou da Google ou da Microsoft. Então você vai ter o equivalente, por exemplo, a toda a literatura em língua portuguesa, tudo que os jornais já publicaram, tudo que já foi feito em português no mundo inteiro vai estar disponível no interface conversacional para você elaborar coisas com ela. No médio prazo, nós estamos falando de 2040, vai haver modelos que lidam com trilhões de tokens por interação. Esses modelos vão começar a fazer completamente sozinhos os modelos de mundo. E na medida em que o mundo for mudando ao redor deles, eles vão estendendo não probabilisticamente, ou seja, eles não vão chutar as respostas com uma certa probabilidade, eles vão mudar as regras, eles próprios, para entender o que é esse novo mundo que está lá fora. E como as empresas estão lidando? 

As empresas tendem a simplificar dramaticamente a IA e começam a ter uns problemas não triviais. Quer ver um? O chatbot habilitado por Inteligência Artificial da Air Canada. Ele foi colocado online para tirar pessoas da frente de atendimento e reduzir custos de atendimento 24 horas. O que fez o chatbot? Pariu, do nada, uma política de reembolso para um cliente. E o cliente exigiu o cumprimento. A causa foi parar na Justiça e a Air Canada alegou que foi um erro de sistema. A Justiça disse que não tem nada de erro de sistema, que a empresa botou o robô no ar e tinha que pagar ao cliente, de acordo com a política de reembolso que o chatbot criou. Qual é o problema? O problema é que a empresa não entendeu o que é a IA. Se você resolver botar na linha de frente um robô, de repente, o cliente vai fazer perguntas que podem levar a respostas completamente estapafúrdias, pelas quais o negócio vai ser responsabilizado. 

As empresas não entenderam que você não está olhando para algum ambiente de processamento de informação clássico, que é determinístico como quando você bota o CRM, um sistema de estoque ou de logística em que você escreve algumas regras para esse comportamento digital. O que a gente está falando aqui agora é um sistema que você não sabe a priori o que ele vai responder. Eu mesmo tenho vários agentes inteligentes – robozinhos que eu criei – que escrevem texto, e um deles é especialista em Direito. Outro dia ele me surpreendeu criando um pedaço da Constituição Brasileira. Eu tinha entregue a ele a Constituição todinha – e mesmo assim ele inventou um trecho. 

Então tem uma diferença fundamental aqui. Isso não é um sistema de informação exato, é um sistema de informação criativo e esse problema da criatividade é o que vai fazer a diferença. Os líderes empresariais devem estar todos de cabelo em pé sem saber o que fazer. A oportunidade agora não é você dizer, ‘eu vou demitir o meu call center e botar um agente IA.’ Muito longe disso. A oportunidade agora é descobrir como eu posso usar pessoas e agentes inteligentes em redes. Não substituir trabalhos repetitivos cognitivos por IA. Isso pode aumentar a complexidade dos problemas das empresas. A questão é expandir a inteligência. Porque se for uma substituição simples, o próprio CEO poderá ser substituído em algum momento. Este é um ponto que deixa todo mundo nervoso, já que a IA substitui um nível técnico mais elevado. 

Não estamos falando do chão de fábrica como em outras revoluções tecnológicas, não é? O que a gente descobriu é que o funcionário de chão de fábrica é muito difícil de ser substituído. Por exemplo, o motorista nas ruas de Nova Déli ou na periferia do Rio de Janeiro, São Paulo e Recife. Essas pessoas são extremamente difíceis de serem substituídas. Por quê? Porque elas trabalham com o contexto mutante e muito difícil de ser codificado. Imagina você ser um carro autônomo na Maré, no Rio de Janeiro, ou no Complexo do Alemão… É totalmente diferente das ruas, das cidades, do interior da Alemanha, onde tudo é previsível. Todas as placas de trânsito têm o mesmo tamanho, e inclusive ficam na mesma altura. 

Mas em que contexto as empresas vão usar a IA? A gente vai começar a usar a inteligência artificial para criar mercados de uma pessoa. Eu vou conseguir capturar tanta informação sobre a pessoa e manter essa informação coerente com um discurso interativo, que eventualmente cada pessoa poderá ser tratada como um mercado de propósito específico. Não haverá mais categorias “professores universitários que têm 70 anos”. Vai ter a categoria Silvio Meira. E o tipo de atendimento que eu vou ter é totalmente diferente do tipo de atendimento que outro professor de computação – que também tem 70 anos e mora no Recife no mesmo bairro que eu – vai ter. 

Eu tenho uma lei para empresas e nuvens. Se você é uma micro pequena e média empresa e você não está na nuvem você é um idiota. Se você é uma empresa grande ou gigantesca, e você está numa nuvem pública de alguém, você também é um idiota. Tem uma coisa aí básica que é o seguinte: se você é uma empresa pequena e resolve processar a sua própria informação, você é um idiota completo, está perdendo tempo com um negócio que é totalmente irrelevante para você. Mas se você é um negócio que faz milhares ou milhões, dezenas de milhares, milhões de transações por dia na nuvem, você é um idiota porque você está jogando fora uma oportunidade de negócio, não só de você participar da nuvem com essas empresas ou fazer serviço para essas empresas que são menores, de pequeno porte. 

Para a inteligência artificial é a mesma coisa. Se você é uma empresa pequena e não está usando a inteligência artificial que está na nuvem aberta, que não vai lhe dar trabalho de treinamento, de configuração, de segurança, você é um idiota. Se você é uma grande empresa, um banco, uma grande rede de varejo, grande negócio de finanças, grande sistema universitário e você está usando um negócio de Inteligência Artificial que está na nuvem, você é um idiota também. Por quê? Porque isso tem custo de transação. Você paga por token consumido e produzido nas interfaces. 

As empresas no Brasil estão efetivamente fazendo alguma coisa ou só olhando por enquanto? Tem muita gente fazendo muita coisa. Todas as empresas onde eu estou no conselho estão trabalhando com modelos de Inteligência Artificial, seja design de soluções, seja na entrega das soluções, seja no desenvolvimento de soluções. Não tem ninguém parado não. Mas o ambiente que eu estou vendo em todos os lugares, onde está sendo feito de maneira responsável, é de aprendizado, de experimentação e de uso com cautela, para ver como esses modelos se comportam do ponto de vista de três coisas: de eficácia, se resolve ou não resolve o problema sem criar um outro problema; de eficiência, resolver muito mais rapidamente; e de economia, custo. 

Mas o fato é, quem estiver parado agora esperando para ver se essa coisa vai funcionar no futuro, achando que agora a IA não resolve nada para sua empresa e vai dar uma olhada só daqui três anos, aí sim, esses têm um problema porque lá na frente vão ter que dar saltos de anos e não vão conseguir entender o cenário competitivo. Se já é difícil entender agora.. É isso. Do jeito que está, já é complicadíssimo. Daqui para frente, vai ficar muito mais complicado. As empresas, de todos os portes e todos os mercados, que vão ter mais sucesso com inteligência artificial são aquelas que vão entender que inteligências artificiais não vieram para substituir pessoas, mas para trabalhar junto com pessoas e grupos de pessoas em prol de modelos de negócios de resolução de problemas. 

Se eu posso fazer com que cada pessoa trabalhe por dez, eu tenho que ir atrás de 10 vezes mais mercado – e não demitir. Se eu demitir as pessoas do call center, tenho que contratar TI para operar a inteligência artificial que vai conversar com os clientes. Quem souber dar esse salto para o futuro usando Inteligência Artificial para empoderar, para estender, para aumentar a capacidade e o alcance das suas pessoas – mudando também simultaneamente o nível das pessoas – vai sobreviver lá na frente. 

O que nós estamos falando agora é de sobreviver. Só para comparar, algumas empresas que digitalizaram seus modelos de negócio nos últimos 25 anos quebraram. Por que fizeram o quê? Pegaram o modelo de negócio analógico e botaram só uma capa digital. Às vezes só fica mais caro de executar o modelo de negócio. As que sobreviveram, cresceram e se tornaram gigantes foram aquelas que transformaram o modelo de negócio. 

Você pega o Magazine Luiza, onde eu estou no conselho. Lá em 2011, a empresa começou o processo de transformação digital. Transformou funções, métodos, fundações e reescrever do zero digitalmente. O resultado é uma companhia hoje 50 vezes maior do que quando esse processo começou. Não é uma coisa que você pegou e disse ‘ah, vamos informatizar a loja do Magazine Luiza.’ Não. Transformar a loja, transformar o vendedor. Transformar o digital do magalu. Transformar lojista. E aí você faz um negócio completamente diferente. Se o mercado entende ou não entende, isso é outro problema, completamente diferente. O erro que as pessoas podem incorrer com inteligência artificial é exatamente o de pegar os seus processos de negócios pré-IA e artificializar. 

Você precisa estar ciente que tem uma nova dimensão da Inteligência e começar do zero. E é muito difícil para as empresas pensarem. Se já foi difícil com a digitalização.. Mas se você não pensa a partir do zero, você continua executando no passado. Na vasta maioria das empresas contemporâneas, você não tem garantia para o ano que vem do orçamento que você teve no ano passado. Não pode ter, porque senão você não muda, você não vai atrás de melhoria de processo, você não vai atrás de mudança de nada. Então o que está acontecendo agora é uma mudança radical no contexto das inteligências, tem uma nova dimensão das inteligências, quem não tentar entender isso não vai sobreviver nos próximos 15 anos. 

Isso você pode escrever com todas as letras: ou as pessoas e as empresas entendem Inteligência Artificial como uma nova dimensão da inteligência, não como um conjunto de ferramentas, de plataformas de tecnologias, ou elas não vão sobreviver. Tem um ponto de partida aqui que foi a mudança de paradigma da tração animal para o motor a combustão. Você sabe quantas fábricas de carroças, carruagens e ônibus puxados a cavalo conseguiram com sucesso construir um automóvel, uma caminhonete e um ônibus movido no motor a combustão? Zero. 

Porque eles ficaram olhando para o motor e dizendo ah, mas esse negócio é barulhento, quebra muito, precisa de posto de gasolina. E o pessoal do motor a combustão foi lá devagarzinho, faz o motor um pouco melhor, faz o motor um pouco menos de barulhento, faz um motor que quebra menos, faz um motor que consome menos combustível, começa a instalar posto de gasolina… 

Essa transição levou cerca de 30 anos. Quando foi que a internet começou? 1995. Aconteceu tanta coisa de lá para cá que a gente pensa que foi em 1915. Mas foi em 95. No ano que vem a gente vai comemorar 30 anos da internet comercial. Mas ela só virou banda larga em 2005, a gente só tem smartphone desde 2007. Se a gente olhar, só tem 15 anos de internet de verdade, os próximos 15 anos que vão ser acelerados por Inteligência Artificial é que vão ser os anos de impacto mesmo da internet, porque aí o jogo vai mudar completamente. 

Quem ainda sobrevivia mesmo estando escondido da internet, da tecnologia da Informação em algum lugar, não vai sobreviver e isso é fato. Como já disse Peter Drucker, o objetivo final da inovação é sobreviver. Não é criar um produto, mudar processo, nada disso. É sobreviver.

Leia mais em https://braziljournal.com/silvio-meira-estamos-na-era-da-pedra-lascada-da-ia-mas-o-futuro-chega-em-800-dias/ .

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O Brasil e a Nova Rota da Seda

País tem mais com o que se preocupar que aderir à iniciativa chinesa


Rodrigo Zeidan – Folha – 15.mar.2024 

Professor da New York University Shanghai (China) e da Fundação Dom Cabral. É doutor em economia pela UFRJ.

Recentemente, a Itália saiu da Nova Rota da Seda, acordo da China com países interessados em aumentar investimentos de Pequim. Já me perguntaram várias vezes, por morar na China, se o Brasil deveria fazer parte desse acordo. A resposta, em bom português, é que não faz diferença.

A Nova Rota da Seda é muito menor do que já foi no passado e hoje funciona mais para emprestar dinheiro para empresas chinesas fazerem obras de infraestrutura em países pobres e de renda média do que qualquer outra coisa.

A ideia da China como grande investidor (ou colonizador, segundo alguns) na África ou na América Latina foi por água abaixo. Primeiro, pelo ataque especulativo contra o yuan pelas estatais chinesas. Depois, pelas tensões geopolíticas, por problemas com dívidas para países amigos e pela desaceleração da economia chinesa.

Em 2013, quando a iniciativa foi criada (então chamada de “One Belt One Road”), as autoridades monetárias chinesas lutavam para expulsar dólares do seu país. No auge da acumulação de reservas cambiais, em 2013 e 2014, o saldo líquido de entrada de dólares na China chegava a US$ 100 bilhões por mês. Sim, por mês, não por ano. Algo que não só era único na história da humanidade —nunca um país recebeu tantos recursos em tão pouco tempo— como parecia que nunca acabaria, pois a economia chinesa era o motor do desenvolvimento mundial.

O Brasil também já passou por algo parecido em 2007 e no início de 2008, quando o Banco Central lutava a todo custo para não deixar o real se valorizar ainda mais; muitos achavam que o real voltaria à paridade com o dólar, mas aí veio a crise financeira global e desvalorizou a moeda brasileira.

O projeto da Nova Rota da Seda

O projeto da Nova Rota da Seda – William Mur/Folhapress

No caso chinês, com a enxurrada de dólares, fazia sentido uma estratégia de “comprar” aliados com projetos gigantescos de infraestrutura ou, em última instância, fazer empréstimos emergenciais para países em dificuldade. Saiu mais de US$ 1 trilhão da economia chinesa desde o início da Nova Rota da Seda, mas grande parte nos primeiros anos, quando as reservas do país bateram em US$ 4 trilhões.

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Mas tudo isso muda em 2015 e 2016, quando empresas estatais chinesas apostaram que o Banco Central não iria conseguir manter a cotação vigente do yuan com o dólar e chegaram a tirar quase US$ 1 trilhão da economia do país em um ano e meio.

No caso italiano, entraram na contabilidade da Nova Rota da Seda projetos superprioritários (com ironia), como a compra de participação nos clube de futebol Milan e Inter de Milão.

A China também não está “comprando” a África (e só alguém muito elitista pode reclamar de projetos de investimentos em países que carecem de infraestrutura básica). O número de trabalhadores chineses no continente caiu 64% desde o auge do programa, em 2015.

Hoje, os projetos da Nova Rota da Seda são pequenos e direcionados, em grande parte, a energias limpas. Mas estar ou não no projeto não faz muita diferença. Se há interesse de empresas chinesas ou do governo, há financiamento dos projetos.

O que o Brasil ganharia assinando o protocolo? Quase nada. O que perderia? Também quase nada. Os EUA torceriam o nariz, e a China poderia adicionar mais um país à sua coleção de 150 que aderiram ao acordo, mas, fora isso, não mudaria muita coisa.

Há coisas mais importantes para nos preocupar do que com a Rota da Seda. Ela nunca passou pelas Américas, afinal.

https://www1.folha.uol.com.br/colunas/rodrigo-zeidan/2024/03/o-brasil-e-a-nova-rota-da-seda.shtml

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