A diáspora científica brasileira: enfrentando o êxodo de talentos

“Fuga de cérebros” é consequência da falta de valorização da ciência nacional

 Soraya Smaili , Maria Angélica Minhoto , Pedro Arantes , Tamires Tavares e Renato Sergio Balão Cordeiro – Folha – 4.set.2024 

O debate sobre a diáspora científica, fenômeno em que profissionais altamente qualificados deixam o país em busca de melhores condições de pesquisa e de trabalho, tem se intensificado no Brasil nos últimos anos. Esse movimento, cujo agravamento se dá em contextos como a ditadura militar e os recentes governos anticiência, reflete características conjunturais, mas também expõe uma série de desafios estruturais que o Brasil enfrenta em sua política de Ciência, Tecnologia e Inovação.

Entre as razões mais comuns para a dispersão de cientistas, destacam-se a escassez de recursos para pesquisa, a falta de oportunidades de carreira de longo prazo no Brasil e a busca por ambientes acadêmicos mais favoráveis. O cenário de subinvestimento em ciência e tecnologia, que se agravou a partir de 2016 com sucessivos cortes orçamentários, é um dos grandes responsáveis por esse quadro, assim como a necessidade de ampla e rápida recuperação da infraestrutura de pesquisa. A precarização das universidades públicas e o congelamento do valor e do número de bolsas de pós-graduação e pós-doutorado criaram um ambiente menos favorável para o desenvolvimento científico no país desde então, conforme aponta o Painel Financiamento da C&T e das Universidades Federais do Centro de Estudos SoU_Ciência.

Um levantamento inédito coordenado pelo GEOPI/Unicamp mostra que mais de 70% dos cientistas brasileiros que se encontram no exterior não têm previsão de retorno ao país. A maioria desses profissionais saiu do Brasil após 2019, motivados por ofertas de trabalho mais atrativas e melhores condições de financiamento em suas áreas de pesquisa. Esses dados sugerem que, para muitos, o retorno ao Brasil não é uma opção viável, o que desafia a eficácia de programas de repatriação.

O Programa Conhecimento Brasil, uma iniciativa do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e da Financiadora de Estudos e Projetos do Governo Federal (Finep), é uma das tentativas de repatriar cientistas e reverter o êxodo de acadêmicos. Com um orçamento de 800 milhões de reais, o programa promete bolsas e recursos para atrair de volta esses pesquisadores.

No entanto, a recepção na comunidade científica é mista, como apontado durante a sessão “Diáspora científica: caminhos para a repatriação e retenção de cérebros”, organizada pelo Núcleo de Estudos Avançados do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz), coordenada por Renato Cordeiro, tendo como palestrantes a coordenadora geral do SoU_Ciência Soraya Smaili, o professor emérito Luiz Davidovich (UFRJ/ABC) e a professora Mercedes Bustamante (UnB), e como debatedores Aldo Zarbin (UFPR), Ana Gazzola (UFMG), Herton Escobar, repórter do Jornal da USP, Luiz Carlos Dias (Unicamp), Marcus Oliveira (UFRJ), Maria Angélica Minhoto (SoU_Ciência/Unifesp), Samuel Goldenberg (Fiocruz). A proposta pode ser atrativa para jovens pesquisadores em início de carreira, mas dificilmente conseguirá trazer de volta aqueles já estabelecidos em outra nação. As bolsas oferecidas, embora superiores às disponíveis no Brasil, ainda são insuficientes para competir com os salários e as condições de trabalho de países desenvolvidos.

Outra vertente levantada no debate, igualmente preocupante sobre essa situação, revela que a partida de talentos já inicia durante a graduação e que há um aumento significativo na privatização da educação brasileira. Dados do Painel Expansão do Ensino Superior Privado no Brasil, do SoU_Ciência, mostram um crescimento de matrículas em faculdades, centros universitários e universidades privadas — muitas dessas instituições pertencentes a grandes grupos internacionais — ocasionando uma estagnação ou queda no número de matrículas em públicas. Como mais de 81% das pesquisas são realizadas nas instituições públicas, essa diminuição afeta diretamente nossa produção científica.

A repatriação ou a simples internacionalização não devem ser vistas como as únicas soluções. Em vez disso, devemos considerar estratégias como a “circulação de cérebros”, uma abordagem mais moderna e dinâmica que reconheça a mobilidade dos cientistas como parte integral do sistema científico global. A construção de redes de cooperação e parcerias internacionais pode permitir que esses cientistas continuem a contribuir para a ciência brasileira, mesmo estando fisicamente em outro país.

A saída de cientistas talentosos ocasiona, sem dúvida, uma perda significativa de capital humano e intelectual, o que compromete a capacidade do país de inovar, desenvolver novas tecnologias e resolver problemas complexos em áreas estratégicas como saúde, energia, meio ambiente e educação. Além disso, a “fuga de cérebros” prejudica a formação de novas gerações de cientistas, já que a diminuição de mentores experientes nas universidades brasileiras pode impactar também a qualidade do ensino e da pesquisa.

Diante desse cenário, é urgente que o Brasil adote uma estratégia robusta de mitigação do problema. Esse planejamento deve incluir a recuperação dos investimentos em ciência e tecnologia e a criação de mecanismos e políticas públicas para valorizar e reter talentos no país, assim como para valorizar as instituições de ensino superior e aqueles que a compõem, com políticas de permanência estudantil e reajustes salariais de docentes e técnicos administrativos.

Fica evidente, portanto, que a diáspora na ciência brasileira não é um fenômeno isolado, mas um sintoma de problemas mais amplos na forma como o país valoriza e investe em ciência. Reverter essa tendência exige uma mudança de paradigma, em que as universidades (estaduais como a USP e Unicamp ou Federais como a Unifesp, UFMG e UFRJ) e institutos de pesquisas (como Burantan, Embrapa e Fiocruz) públicos sejam consolidados como os centros de excelência em pesquisa que são e que a ciência seja vista como um pilar fundamental para o desenvolvimento sustentável e a soberania nacional. Somente com uma política sólida e de longo prazo, que priorize a formação de qualidade desde a educação básica até o nível superior e que ofereça condições de retenção de cientistas, o Brasil poderá reverter essa “fuga de cérebros” e garantir um futuro mais próspero e inovador para as próximas gerações.

A diáspora científica brasileira: enfrentando o êxodo de talentos – 04/09/2024 – Sou Ciência – Folha (uol.com.br)

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O dilema da adesão brasileira à Nova Rota da Seda

Afinal, para que se comprometer com um projeto sem contornos claros e sinalizar alinhamento político com Pequim se os investimentos chineses já fluem em grande volume para o Brasil?

Por Marcelo Ninio — Pequim – O Globo – 03/09/2024 LEIA AQUI

Durante um tempo, era comum acusarem a China de armar uma arapuca para países em desenvolvimento com sua Iniciativa Cinturão e Rota, mais conhecida como “Nova Rota da Seda” (NRS). O esquema funcionaria assim, segundo os acusadores: a China financiava projetos de infraestrutura impagáveis, numa “armadilha da dívida” em que os países devedores ficavam vulneráveis às pressões de Pequim.

Lançada em 2013 pelo recém-empossado presidente Xi Jinping, a NRS mostrou-se ao longo dos anos uma iniciativa tão ampla e fragmentada que passou a se confundir com a diplomacia econômica da China, ao mesmo tempo em que desafiava definições. É mais fácil estipular o que ela não é: a “grande estratégia” destinada a encurralar países pobres, como acusam políticos em Washington. Nem estratégia, nem visão, mas “um processo” sempre em transformação, prefere o analista Grzegorz Stec, que há anos monitora a NRS.

A indefinição explica em parte a resistência do Brasil em aderir à iniciativa: afinal, para que se comprometer com um projeto sem contornos claros e sinalizar alinhamento político com Pequim se o comércio bilateral é crescente e os investimentos chineses já fluem em grande volume para o Brasil? Esse ceticismo fez o país manter-se como um dos únicos três sul-americanos a ficarem de fora, ao lado de Paraguai e Colômbia. Mas isso deve mudar em breve, acreditam as autoridades chinesas.

Durante o governo de Jair Bolsonaro, o desejo de Pequim de ter o maior país da América Latina a bordo ficou no freezer. Mas descongelou com a volta de Luiz Inácio Lula da Silva, e esquentou de vez este ano, em meio ao cinquentenário das relações bilaterais. A visita de Xi ao Brasil em novembro seria a ocasião perfeita para o anúncio, idealizam os chineses. Ninguém confirma ou nega, nem se sabe o que está sendo negociado. Mas há gestos públicos.

Numa conferência de mídias sobre a NRS realizada há poucos dias em Chengdu, sudoeste da China, o Brasil foi o país estrangeiro com mais convidados. Entre os 29 participantes do país, a maioria era de profissionais da imprensa, como o titular desta coluna. Para uma plateia ainda se recuperando da longa viagem à China, o roteiro parecia interminável. Foram 56 discursos no total, em apenas um dia.

Quem conseguiu manter o foco testemunhou a importância renovada que a China está dando à NRS, com uma combinação de autoridades do governo e de estatais. Muitas delas com altos investimentos no Brasil. Um exemplo é a petroleira CNOOC, uma das operadoras do Campo de Búzios (RJ), o maior do mundo em águas ultraprofundas.

Se os investimentos chineses já estão indo para o Brasil, por que o país precisa entrar oficialmente na NRS, repeti a pergunta a uma das organizadoras do evento, Sun Haiyan, vice-ministra do Comitê Central do Partido Comunista da China. “Por que não?”, respondeu, “afinal 150 países já fazem parte”. Para muitos, o Brasil já parece um deles, mesmo sem casamento de papel passado. O presidente de uma gigante estatal que tem negócios no Brasil se mostrou surpreso ao saber que o país não havia aderido.

Se a Nova Rota da Seda não é uma armadilha para o Brasil, ela cria um dilema. O país parece estar mais próximo do que nunca de aderir, mas até novembro os ventos podem mudar. A adesão pura e simples agrada a Pequim. Cabe ao governo brasileiro negociar algum recheio de resultados para o país, para que a adesão não seja um pastel de vento.

O dilema da adesão brasileira à Nova Rota da Seda (globo.com)

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Os planos da ArcelorMittal para bater sua meta de descarbonização

Maior produtora de aço no Brasil, empresa investe em autossuficiência energética e na diversificação de fontes de energia renovável para garantir um processo produtivo sustentável

EXAME Solutions –  2 de setembro de 2024 

O aço da ArcelorMittal se faz presente em toda parte – desde o prédio mais alto do mundo (o Burj Khalifa, em Dubai, nos Emirados Árabes) até ferrovias, carros, metrôs, pontes e estádios de futebol brasileiros. Resistente e infinitamente reciclável, o material formado pela liga metálica do ferro com o carbono é, por si só, parte fundamental na transição para uma economia de baixo carbono. Mas, a produção siderúrgica ainda enfrenta desafios para atender às novas metas globais de descarbonização.

Atualmente, cerca de 7% das emissões globais dos gases de efeito estufa vêm da indústria do aço. No Brasil a participação das emissões é de 4%. Para minimizar esses impactos, a ArcelorMittal – maior produtora de aço no Brasil – vem realizando uma série de iniciativas com o intuito de alcançar a meta de neutralidade de emissões de carbono até 2050. Entre essas iniciativas estão o aumento do uso de sucata metálica; diversificação de sua matriz energética com fontes renováveis, eficiência energética, e compensação de emissões remanescentes.

Energia renovável

Os aportes em projetos de energia renovável vão atingir um total de R$ 5,8 bilhões nos próximos anos e serão aplicados em três projetos. O principal objetivo é assegurar energia limpa e descarbonizar uma parte considerável das operações da empresa no Brasil.

O primeiro deles, anunciado no ano passado, é uma joint venture com a Casa dos Ventos, uma das maiores desenvolvedoras de projetos e operadoras de energia eólica no Brasil. Considerado o maior acordo corporativo de energia renovável firmado no país, ele prevê investimentos de R$ 4,2 bilhões para a construção e a operação do Complexo Eólico Babilônia Centro, que terá 553,5 MW de capacidade instalada nos municípios de Morro do Chapéu e Várzea Nova, na Bahia. Em janeiro deste ano foi anunciada ainda a liberação de financiamento da ordem de R$ 3,16 bilhões pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) ao complexo, o que corresponde a 80% do valor total do investimento.

Em agosto deste ano, a parceria com a Casa dos Ventos foi ampliada e uma nova joint venture foi criada para tornar híbrido o Complexo Eólico Babilônia Centro, viabilizando a instalação de uma planta fotovoltaica junto ao empreendimento eólico.

Planta de Energia Solar da Atlas Renewable Energy em Pirapora (MG) (Vinicius Dal Colletto/Divulgação)

Outro projeto anunciado foi com a Atlas Renewable Energy, com o aporte de R$ 895 milhões na construção do Parque Luiz Carlos, de energia solar, em Paracatu, município do noroeste de Minas Gerais. A produção prevista é de 69 MW médios/ano e potência instalada de 269 MW. As duas novas plantas de energia solar terão capacidade de geração de 113 MW médios/ano, o que representará 14% do consumo atual de energia elétrica das unidades da ArcelorMittal no Brasil.

“Os projetos nos preparam para o futuro, garantindo que possamos atender nossas necessidades de energia no longo prazo de forma responsável, sustentável e com redução de custos”, destaca Jefferson De Paula, presidente da ArcelorMittal Brasil e CEO da ArcelorMittal Aços Longos e Mineração LATAM.

A meta da ArcelorMittal é utilizar 100% de fontes renováveis de energia elétrica até 2030. Os primeiros passos para alcançar o desafio já foram dados. Em 2023, a empresa atingiu a autoprodução de 61% de energia.

“Além de garantir o suprimento das plantas industriais com fonte própria de energia renovável, os investimentos visam a diversificação da matriz energética, a redução dos custos operacionais e o aumento da nossa competitividade”, afirma Jefferson De Paula.

Diversificação da fonte

Outros esforços estão em projetos que garantam a produção sustentável do aço. Exemplo disso é o fato de todas as unidades da ArcelorMittal contarem com sistemas de recuperação de calor e reaproveitamento dos gases provenientes dos processos produtivos.

Localizada no município de Serra (ES), a planta de Tubarão – maior usina do Grupo ArcelorMittal no Brasil – é autossuficiente em energia desde 1999, contribuindo para diminuição da demanda no sistema elétrico nacional.

Central Termelétrica da Unidade Tubarão da ArcelorMittal (Mosaico Imagem/Divulgação)

Em 2018, a unidade aderiu ao primeiro ciclo do Programa Aliança – iniciativa da Confederação Nacional da Indústria (CNI), em parceria com a Eletrobras e a Associação dos Grandes Consumidores Industriais de Energia e de Consumidores Livres (Abrace).

A empresa, inclusive, é pioneira no uso do gás natural em substituição ao carvão nos altos-fornos. Por meio desta medida, a ArcelorMittal produziu seus primeiros certificados de aço para o mercado em 2023, dentro de seu programa XCarb.

“Vimos que o gás poderia ser usado no aquecimento de alto-forno, substituindo o carvão e o coque de carvão. Com isso, não só melhoramos a nossa eficiência como também avançamos em nossa estratégia de descarbonização”, diz Fabrício Assis, diretor de Produção de Gusa e Energia da unidade de Tubarão da ArcelorMittal.

Como parte do Plano Diretor de Eficiência Energética, a empresa também implementou, em Tubarão, mudanças como o aumento da recuperação e energia para uso de vapor para turbinas de geração elétrica, a substituição de luminárias de ruas e prédios e a instalação de sistema de geração de energia solar em um de seus estacionamentos.

Comercializadora própria

Desde 2012, a ArcelorMittal Brasil possui uma comercializadora de energia – a AMCEL –, com o intuito de aprimorar sua gestão do insumo, criar oportunidades de redução de custo de energia e melhorar a autogeração, além de investir na implementação de projetos inovadores de eficiência energética.

A ArcelorMittal conta com centrais hidrelétricas que são responsáveis pelo abastecimento de parte da energia consumida pelas plantas industriais. O restante é comprado no mercado em contratos de longo e médio prazos e spot, por meio de uma gestão que busca a ecoeficiência e a competitividade para o negócio.
Como alternativa energética, a unidade de Juiz de Fora faz uso do carvão vegetal, que é utilizado como agente redutor do minério de ferro em seus altos-fornos.

Aquisição da CSP

Outro passo rumo à descarbonização foi dado pela ArcelorMittal no ano passado, com a compra da Companhia Siderúrgica do Pecém (CSP). Hoje, a unidade do Pecém da ArcelorMittal traz a oportunidade de se criar um centro de produção de aço de baixo carbono na região. A estratégia anda lado a lado com a ambição do estado do Ceará de desenvolver um centro de hidrogênio verde de baixo custo em Pecém.

“Além da recente aquisição da unidade, temos vários projetos downstream de crescimento orgânico em andamento que ampliam nossa presença e aprimoram nossa capacidade de produzir produtos de maior valor agregado”, destaca Jefferson De Paula.

Esses planos de expansão, diz o executivo, levarão a um aumento natural das necessidades energéticas da empresa. “Esses projetos nos preparam para o futuro, garantindo que possamos atender nossas necessidades de energia no longo prazo de forma responsável, sustentável e com redução de custos.”

Os planos da ArcelorMittal para bater sua meta de descarbonização | Exame

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Lições da Austrália para o Brasil

País da Oceania tem a coragem de se concentrar em suas principais vocações – os recursos naturais – e orienta sua economia com visão de mercado para gerar prosperidade

Luis Henrique Guimarães* – Exame – 24 de agosto de 2024 

Ao longo dos Jogos Olímpicos, é inevitável que muitos façam comparações entre o desempenho do Brasil e de diversos países mais bem colocados na tabela de medalhas. Antes de tudo, penso que as conquistas de nossos atletas são motivo de orgulho, principalmente pelas histórias de esforço e resiliência para superar condições muito mais desafiadoras.

Mas não há como deixar de refletir sobre os nossos potenciais como país: a sensação que fica é de que o Brasil poderia muito mais.

Não apenas no âmbito esportivo, um paralelo interessante que podemos traçar é com a Austrália, que, mesmo tendo uma população menor, de 27 milhões de habitantes, ficou em quarto lugar no quadro de medalhas de Paris-2024, acima de potências como a França, Grã-Bretanha e Alemanha.

Embora muito distantes geograficamente, com histórias e formações muito distintas, Brasil e Austrália têm similaridades.

São nações com territórios imensos, ricas em recursos naturais e com economias baseadas em setores primários. Ambos são grandes produtores de commodities agrícolas e minerais. O Brasil, diga-se de passagem, bate recordes seguidos em setores de protagonismo, como a agricultura e a produção de minérios. Ambos também são pródigos em reservas de gás natural, em potencial de energia renovável e na pecuária, sem falar na biodiversidade. Mas as diferenças em muitos pontos são marcantes.

Um reflexo disso aparece no ranking de competitividade econômica global do IMD (Instituto Internacional de Desenvolvimento Gerencial, da sigla em inglês) de 2024, em que a Austrália figura na 13ª posição geral, seis casas acima de 2023, melhorando em quatro quesitos essenciais: Desempenho Econômico, Eficiência Governamental, Eficiência Empresarial e Infraestrutura, enquanto o Brasil aparece em 62º lugar, caindo duas posições, e só tendo progressos em eficiência econômica.

O que que o Brasil, então, poderia aprender com o maior país da Oceania?

1. Não ter vergonha de explorar suas vocações

Embora ambos tenham abundância de recursos naturais, a forma como cada país explora é distinta. A Austrália vê essas commodities como realmente estratégicas para a sua economia. Sua indústria de mineração, por exemplo, representa 75% das exportações australianas.

Em 2020, de acordo com dados do governo aussie, o país foi o maior produtor global de bauxita, minério de ferro e rutilo, bem como lítio, elemento importante para tecnologias de armazenamento de baterias, inclusive as que carregam nossos celulares.

Também foi o segundo maior produtor de ouro, chumbo, urânio, zinco e zircão; e o terceiro maior produtor de cobalto, diamante, ilmenita e minério de manganês.

Já no setor de petróleo e gás, a Austrália também vem sendo eficiente. É o segundo maior produtor e exportador de gás natural liquefeito (GNL) do mundo, à frente de Catar e Rússia, de acordo com dados da International Gas Union.

Essa produção de óleo e gás, aliás, deverá contribuir com US$ 17,1 bilhões em receita tributária aos governos federal, estadual e territorial neste ano fiscal, conforme recente comunicado de imprensa da Australian Energy Producers.

Tamanha arrecadação, comentou a presidente-executiva da associação, Samantha McCulloch, ajuda “a financiar serviços essenciais para todos os australianos, o equivalente à construção de 11 novos hospitais públicos, 250 escolas ou cobrir os custos de saúde de 1,76 milhão de australianos”, destacando o papel do gás para a transição energética.

Enquanto isso, no Brasil, que tem grande potencial a ser destravado tanto na oferta, como na demanda, temos desperdiçado oportunidade atrás de oportunidade no setor de gás natural – um energético que poderia ter um papel ainda mais fundamental do que já vem exercendo na segurança de abastecimento e na transição energética de setores difíceis de descarbonizar.

Não só por falta de políticas públicas corretas para incentivar a construção de infraestrutura em todas as etapas da cadeia, mas, também, de uma agenda regulatória assertiva, que tenha como princípio estimular o mercado e a competição.

2. Fazer prevalecer políticas de estado, em vez de políticas de governo

Um bom exemplo é o pacote Future Made in Australia, em que o governo federal local pretende alocar US$ 22,7 bilhões para facilitar os investimentos do setor privado, inclusive com a visão de tornar o País uma das grandes potências de energia renovável.

Aqui no Brasil, ainda pairam ameaças como a regulamentação da reforma tributária, em que se propõe uma abusiva cobrança de imposto seletivo sobre setores que geram empregos e que estão entre os que mais arrecadam.

A taxação extra só desestimulará a atração de aportes em novos projetos, reduzindo a capacidade de transferência de renda para Estados e municípios. Governo e Congresso deveriam se concentrar em aprovar a chamada pauta verde justamente para estimular os investimentos.

3. Políticas claras que garantem a segurança jurídica necessária para os investimentos

A Austrália tem políticas e regras claras para encorajar investidores nacionais e o fluxo de capital estrangeiro para contribuir com as prioridades econômicas do país com transparência, clareza, pontualidade e previsibilidade de que precisam para investir com confiança, sem prejuízo de temas de interesse da segurança nacional em tempos globais geopolíticos bastante sensíveis.

Termino esse texto com uma mensagem do site da Câmara Australiana de Comércio e Indústria que reflete bem o caminho certo para o Brasil:

“Governos gerenciam governos, não economias. As responsabilidades do governo são gerenciar efetivamente os gastos públicos e garantir que as leis e regulamentações existentes não desencorajem o crescimento e o desenvolvimento econômico. Isso inclui implementar disciplina orçamentária, evitando encargos insustentáveis de dívida pública para as gerações atuais e futuras”.

* Luis Henrique Guimarães é conselheiro da Cosan e da Vale

Lições da Austrália para o Brasil | Exame

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Quais as chances de a IA substituir os professores? Nenhuma. Por enquanto

Inteligência artificial no ensino não é mais uma promessa futura; já é uma realidade. O que resta saber é o quão eficaz ela realmente é


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ANNETTE VEE – Fast Company Brasil – 31-08-2024 

O cofundador da OpenAI, Andrej Karpathy, imagina um mundo no qual bots de inteligência artificial possam se tornar especialistas em várias áreas, atuando como tutores “profundamente apaixonados, com uma didática excelente, infinitamente pacientes e fluentes em todas as línguas”. Nessa visão, eles seriam como “professores particulares sob demanda para todas as oito bilhões de pessoas do planeta”.

Essa é a premissa de sua mais recente iniciativa, a Eureka Labs, que exemplifica bem como o setor tecnologia está tentando utilizar a IA para revolucionar o ensino. Karpathy acredita que a inteligência artificial pode resolver um problema antigo: a escassez de bons professores que também sejam especialistas em suas áreas.

E ele não está sozinho. O CEO da OpenAI, Sam Altman, o CEO da Khan Academy, Sal Khan, o investidor Marc Andreessen e o cientista da computação da Universidade da Califórnia Stuart Russell também compartilham o sonho de ver bots atuando como tutores, orientadores e até mesmo substitutos de professores humanos.

Como pesquisadora focada em inteligência artificial e outras novas tecnologias de escrita, já vi muitos casos em que “soluções” tecnológicas para problemas no ensino acabaram não dando certo. A IA certamente pode melhorar alguns aspectos do aprendizado, mas a história mostra que provavelmente não será uma substituta eficaz para os professores humanos.

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Isso porque os alunos tendem a ter uma certa resistência em interagir com máquinas, por mais sofisticadas que sejam, e têm uma preferência natural por se conectar e se inspirar em outros humanos.

MAIORES NOMES DA CIÊNCIA DE VOLTA À VIDA

Mas Karpathy sugere, por exemplo, que o renomado físico teórico Richard Feynman, falecido há mais de 35 anos, poderia ser “ressuscitado” como um bot para ensinar alunos.

OS ALUNOS TÊM UMA PREFERÊNCIA NATURAL POR SE CONECTAR E SE INSPIRAR EM OUTROS HUMANOS.

Para ele, a experiência ideal de ensino de física seria trabalhar o conteúdo “com o ‘próprio’ Feynman, que estaria lá para guiar os estudantes em cada passo do processo de aprendizagem”. O físico, conhecido por sua habilidade de explicar conceitos complexos usando uma linguagem simples e de fácil entendimento, poderia atender um número ilimitado de alunos ao mesmo tempo.

Dessa forma, os professores humanos continuariam criando o material do curso, mas teriam o suporte de um assistente de ensino de IA. Essa equipe formada por professor e inteligência artificial “poderia cobrir todo o currículo do curso em uma plataforma comum”, diz Karpathy. “Se tivermos sucesso, qualquer um poderá aprender o que quiser de um jeito simples.”

OUTRAS TENTATIVAS FALHARAM

Tecnologias voltadas para a personalização da aprendizagem não são novidade. Recentemente, vimos a ascensão e a queda dos “cursos online abertos e massivos”, também conhecidos como MOOCs (sigla em inglês para “Massive Open Online Course”).

Esses cursos, que ofereciam vídeos e provas, eram vistos como uma forma de democratizar a educação. Mas os alunos perderam o interesse e acabaram desistindo.

Crédito: Freepik

Pouco depois, outros formatos que aproveitam o poder da internet começaram a surgir, como as plataformas de cursos Coursera e Outlier. Mas enfrentaram o mesmo problema: a falta de uma interação genuína para manter os estudantes engajados.

Agora, estamos vendo o surgimento de plataformas de ensino alimentadas por inteligência artificial. O Khanmigo, por exemplo, usa tutores de IA para, como escreveu Sal Khan em seu mais recente livro, “personalizar e adaptar o ensino às necessidades individuais, acompanhando nossos alunos enquanto estudam.”

A editora britânica Pearson também está integrando inteligência artificial em seus materiais didáticos. Mais de mil universidades já estão adotando esses materiais para o próximo semestre. A IA no ensino não é mais uma promessa futura; já é uma realidade. Resta saber é o quão eficaz ela realmente é.

DESAFIOS NO ENSINO COM IA

Alguns líderes de tecnologia acreditam que os bots podem personalizar o ensino e substituir professores humanos, mas provavelmente enfrentarão o mesmo problema das abordagens anteriores: os alunos podem não gostar da ideia.

E há boas razões para isso. É improvável que eles se sintam inspirados e motivados da mesma maneira que se sentem com um professor de verdade. Quando encontram alguma dificuldade, os estudantes frequentemente recorrem a pessoas de confiança, como professores e mentores. Eles fariam o mesmo com um bot? E o que o bot faria se isso acontecesse?

Além disso, existem questões de privacidade e segurança de dados. Essas plataformas coletam uma quantidade considerável de informações sobre os alunos e seu desempenho acadêmico, que podem ser mal utilizadas ou vendidas. Embora existam legislações tentando prevenir isso, algumas dessas plataformas estão hospedadas na China, fora do alcance das leis de países do Ocidente. 

A HISTÓRIA MOSTRA QUE A IA NA CERTA NÃO SERÁ UMA SUBSTITUTA EFICAZ PARA OS PROFESSORES HUMANOS.

Mas há outra questão ainda mais preocupante: com um único bot ensinando milhões de alunos ao mesmo tempo, podemos perder a diversidade de pensamento. De onde virá a originalidade se todos receberem os mesmos ensinamentos, especialmente se o “sucesso acadêmico” depender de repetir o que o “professor” de IA diz?

A ideia de ter um tutor de inteligência artificial à disposição de cada aluno parece fascinante. Eu adoraria aprender física com Richard Feynman, ou escrita com Maya Angelou, ou astronomia com Carl Sagan.

Mas a história nos lembra que precisamos ter cautela e garantir que os alunos realmente estejam aprendendo. A simples promessa de ensino personalizado não é sinônimo de resultados positivos.

Este artigo foi publicado no “The Conversation” e reproduzido sob licença Creative Common. Leia o artigo original.


SOBRE A AUTORA

Annette Vee é professora associada de inglês na Universidade de Pittsburgh.

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Quantas décadas até mapearmos toda a extensão do córtex cerebral?

O cérebro humano é considerado a estrutura mais complexa do universo

Drauzio Varella – Folha – 28.ago.2024 

  • “Não seriam essas as borboletas da alma que um dia explicarão a consciência humana?” –disse o espanhol Santiago Ramon y Cajal ao descobrir o neurônio, no comecinho do século 20.

Antes dele, as tentativas de visualizar ao microscópio as células do sistema nervoso central haviam fracassado. Os corantes usuais, empregados para tingir células de outros tecidos, não impregnavam as do cérebro; nas imagens apareciam apenas espaços vazios.

Quando Cajal experimentou corá-las com dicromato de potássio e nitrato de prata, no entanto, enxergou células pretas destacadas contra um fundo transparente. Tinham a forma de aranhas que lançavam tentáculos longos em todas as direções: eram os neurônios.

A curiosidade levou-o mais longe. Demonstrou que os neurônios “entravam em contato uns com os outros sem entrar em contato”. Faziam-no através de espaços de dimensões infinitesimais —as sinapses—, por meio de estímulos químicos e elétricos. Escreveu então: “A habilidade dos neurônios crescerem nos adultos e seu poder de criar novas conexões podem explicar o aprendizado”.

Estavam lançadas as bases da teoria sináptica da memória, descoberta que lhe deu o Nobel de Fisiologia e Medicina de 1906. Pena Cajal ter morrido em 1934, aos 82 anos. Estivesse vivo, teria lido o artigo da revista Science publicado no último mês de maio.

Neurocientistas da Universidade Harvard, em trabalho com colegas do Google Research, da Califórnia, mapearam um fragmento de 1 centímetro cúbico do tecido cerebral de uma mulher de 45 anos submetida a cirurgia para tratamento de quadro de epilepsia. Essa amostra corresponde a uma parte insignificante do volume total do cérebro.

O fragmento foi retirado do córtex, área cerebral conhecida como massa cinzenta, encarregada de controlar nossas funções cognitivas mais elaboradas: resolução de problemas, aprendizado e processamento das informações que chegam através dos sentidos, entre outras. Nesse ínfimo centímetro cúbico de tecido, o grupo de Harvard cortou 5.000 lâminas de 34 nanômetros (a milionésima parte do milímetro) cada uma, espessura adequada para a observação nos microscópios eletrônicos.

Como se víssemos a um microscópio eletrônico milhares de neurônios com milhares de suas conexões sinápticas em uma avalanche de cores extremamente viva. O desenho tem muito movimento.

Líbero Malavoglia/Folhapress

Com o emprego de modelos de inteligência artificial desenvolvidos pelos cientistas do Google, as imagens obtidas pela microscopia passaram por um processamento capaz de agrupá-las e reconstruí-las em 3D.

Disponíveis na internet, essas imagens são dignas das galerias de arte mais sofisticadas. Exibem em cores os corpos dos neurônios, distribuídos num emaranhado de circuitos formados por prolongamentos (dendritos e axônios) que caminham em todas as direções para criar uma rede tridimensional de altíssima complexidade.

Na amostra pesquisada, foram encontrados 57 mil neurônios, que formaram 150 milhões de sinapses com os vizinhos. A circuitaria resultante é capaz de incorporar 1,4 petabyte de dados. Para dar noção de grandeza: em 50 petabytes pode ser armazenado tudo o que a humanidade escreveu na história, em todas as línguas.

A imensidão de dados assim gerados vai permitir que a comunidade científica internacional possa ter acesso à intimidade da microcircuitaria de neurônios existente no córtex cerebral.

O cérebro humano é considerado a estrutura mais complexa do universo. Nos anos 1990, assisti a uma palestra de um neurocientista que o considerava mais complexo até do que o próprio Universo. Na época achei exagero.

Talvez não fosse. Se numa amostra de uma área que ocupa 1 milionésimo do córtex cerebral existem mais de cem milhões de sinapses, através das quais os neurônios interagem, trocando sinais elétricos e neurotransmissores que serão responsáveis por todas as funções fisiológicas do organismo humano, pela forma de entendermos o mundo ao nosso redor e por tudo o que pensamos, imagine a complexidade do cérebro inteiro.

Quantas décadas levaremos para mapear toda a extensão do córtex cerebral? Quantos petabytes de dados serão gerados? A tecnologia de inteligência artificial será capaz de avançar na velocidade exigida para interpretá-los?

As imagens da rede de sinapses publicadas no artigo da Science mostram como é precário o conhecimento atual dos distúrbios fisiológicos, dos transtornos psiquiátricos, das voltas que o pensamento dá e dos males da alma que nos afligem pela vida inteira.

Quantas décadas até mapearmos toda a extensão do córtex cerebral? – 28/08/2024 – Drauzio Varella – Folha (uol.com.br)

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Essa escola pediu aos alunos uma redação do Enem 100% feita pelo ChatGPT: qual foi o resultado?

Ferramenta que pode ser empregada em tarefas escolares faz com que professores de SP repensem as atividades para estimular o desenvolvimento do pensamento crítico

Por Vanessa Fajardo – Estadão – 28/08/2024 

As ferramentas de inteligência artificial (IA) generativa, como o ChatGPT, têm alterado as rotinas escolares. Para evitar o mau uso, os professores decidiram levar a tecnologia para a sala de aula para que os alunos possam explorar suas potencialidades e entendê-la mais na prática.

No Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo, por exemplo, os alunos do ensino médio receberam a tarefa de produzir uma redação, nos moldes do Enem, 100% por meio da IA. Os estudantes não poderiam escrever nenhuma palavra autoral. Em seguida, o docente corrigiu as produções em sala de aula, e o resultado foi que a maioria dos alunos obteve nota mediana, pois os textos apresentavam inconsistência de informação e faltava fluidez.

Apenas uma aluna se destacou. “Ela sabia o que queria e orientou bem a IA, e este é o cerne do que a gente acredita. Quando a ferramenta é usada para ajudar o aluno a aprofundar um conhecimento, o resultado é incrível, mas quando se usa para terceirizar, é péssimo. Um bom resultado depende de um bom comando”, afirma o professor Lucas Chao.

Na escola, a IA perpassa várias disciplinas. A instituição tem incentivado os professores a promoverem atividades que estimulem o uso dessa tecnologia, mas garantindo que não atribuam os resultados como algo autoral. “Nós geramos um manual que funciona como guia de utilização de IA generativa”, diz Chao.

Para o professor, é fundamental que esses sistemas sejam incorporados ao ambiente escolar, até para preparar os alunos para as oportunidades do mundo do trabalho. Mas é necessário lembrar que o vestibular, por exemplo, funciona como uma prova clássica. “Hoje trabalhamos com um consenso de que essas ferramentas são importantes e vieram para ficar. Se existe um futuro melhor, é por meio da conscientização, de um uso crítico. Trazemos essas tecnologias para a sala de aula, mas temos os momentos de avaliação tradicional com papel e caneta. São os dois mundos.”

Utilizar declaradamente

Autonomia e responsabilidade também estão entre os lemas do Colégio Dante Alighieri, em São Paulo. A instituição criou uma comissão com os estudantes para discutir e decidir como trazer a tecnologia para a rotina. Uma das resoluções foi a de não proibir o uso do ChatGPT, desde que seja declarado.

“O que eu não posso é entregar um conteúdo que eu usei IA para produzir algo e dizer que foi 100% meu. Não é competição entre homem e máquina, é uma junção”, afirma Verônica Cannatá, coordenadora de tecnologia.

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“Eu posso usar recursos de IA como ponto de partida. O que a gente não quer é o uso às cegas: o aluno vai lá, faz uma redação, o professor não percebe e atribui nota. Na hora do vestibular, não vai dar pra fazer uma redação usando o ChatGPT.”

O Centro de Inovação para a Educação Brasileira (CIEB), uma organização sem fins lucrativos que promove a cultura de inovação na educação pública, publicou uma nota técnica em junho que trata das novas aplicações e tendências.

O centro sugere que o ensino nas escolas parta de dois eixos: o de pensar com a IA e o de pensar sobre a IA. O primeiro caso consiste em usar a tecnologia “para resolver problemas e integrá-la às práticas educativas”. “Assim, ela não substitui estudos tradicionais, mas os complementa.” Já pensar sobre a IA inclui estudar as interfaces que envolvem essas tecnologias, como dados, algoritmos e modelos.

Entendemos que, se o aluno ler o que a IA produzir, é um ganho. Se fizer leitura crítica, o ganho é maior. Se, por fim, ele avaliar e usar parte do que faz sentido na resposta, está de fato fazendo o uso adequado da ferramenta

Lucas Chao, professor do Liceu

Iniciação científica

No Dante, a IA já faz parte do ambiente escolar desde 2018 como disciplina eletiva. Em 2023, o tema se tornou um dos eixos do currículo de letramento digital e também é explorado em projetos do núcleo de pré-iniciação científica. É o caso de Clara Szylewicz Chabelmann, de 15 anos, e Felipe Cruz Monteiro de Barros, de 17 anos. Clara e a colega Carolina Agostini Rocchiccioli, ambas do 1.º ano do ensino médio, estão desenvolvendo uma pulseira que ajudará a detectar sinais de sonambulismo, evitando que pessoas se acidentem.

Embora esteja animada com potencialidades proporcionadas pela tecnologia em seu projeto, Clara diz que foi fundamental a abordagem da escola sobre seu uso indevido, como a criação de deep fake (amálgama de imagens). “A IA veio para sacudir e mostrar que a gente precisa ter ética.”

Já Felipe criou um chat box que responde perguntas sobre conteúdos que os adolescentes estão estudando na escola, com base em informações reais que foram discutidas em sala. “Fiz uma prova de conceito em uma escala pequena, mas funcionou. Acho que a IA é um recurso para ajudar a chegar onde a gente quer, mas é incapaz de competir com um trabalho humano bem feito.”

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Formação humana e desigualdades

Verônica Cannatá defende que as discussões em torno do uso da IA se tornem políticas públicas e não fiquem restritas ao universo das redes particulares de ensino. “Ignorar a IA é deixar seu aluno em uma área de analfabetismo tecnológico. A IA não está revolucionando a escola, está revolucionando o mundo.”

Pelo fato de as crianças das escolas particulares terem mais acesso a computadores e conexão com mais qualidade, Paulo Blikstein, professor da Universidade de Columbia, e diretor do Transformative Learning Technologies Lab (TLTL), teme que a IA aumente a desigualdade entre alunos pobres e ricos.

“A tecnologia não determina nova forma de ensinar ou aprender, ela se adapta aos sistemas que já existem. Se há um sistema tradicional, sem o incentivo a pensar, a tecnologia se adapta a isso e teremos um usuário passivo de IA pedindo informações e pesquisando, mas não criando coisas. Por reafirmar os sistemas, a ferramenta pode produzir distorções terríveis.”

Outro ponto levantado pelo pesquisador é a importância do investimento em formação humana. “O que geralmente se faz é investir muito dinheiro em softwares, aplicativos e computadores e pouco ou quase nada em formação de professores para lidar com isso. O que muda a educação não é a tecnologia, são as pessoas que usam a tecnologia.”

Inteligência artificial ajuda o aluno a aprender? Veja o que escolas particulares estão fazendo – Estadão (estadao.com.br)

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Por que os humanos modernos substituíram os neandertais? A chave pode estar em nossas estruturas sociais

Os neandertais eram inteligentes, faziam arte, tinham linguagem e ferramentas sofisticadas. O que aconteceu?

Por Nicholas R. Longrich – Superinteressante – 10 abr 2024

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10_20_Neandertais_layout_site© Domínio público/Reprodução

Por que os seres humanos dominaram o mundo enquanto nossos parentes mais próximos, os Neandertais, foram extintos? É possível que fôssemos apenas mais inteligentes, mas há surpreendentemente poucas evidências de que isso seja verdade.

Os neandertais tinham cérebros grandes, linguagem e ferramentas sofisticadas. Eles faziam arte e joias. Eles eram inteligentes, o que sugere uma possibilidade curiosa. Talvez as diferenças cruciais não estivessem no nível individual, mas em nossas sociedades.

Duzentos e cinquenta mil anos atrás, a Europa e a Ásia Ocidental eram terras de Neandertal. O Homo sapiens habitava o sul da África. As estimativas variam, mas talvez 100.000 anos atrás, os humanos modernos migraram para fora da África.

Há quarenta mil anos, os neandertais desapareceram da Ásia e da Europa, sendo substituídos pelos humanos. Sua lenta e inevitável substituição sugere que os humanos tinham alguma vantagem, mas não qual era.

Antigamente, os antropólogos viam os neandertais como brutos estúpidos. Mas descobertas arqueológicas recentes mostram que eles se equiparavam a nós em termos de inteligência.

Os neandertais dominavam o fogo antes de nós. Eles eram caçadores mortais, pegando animais de grande porte como mamutes e rinocerontes lanudos e pequenos animais como coelhos e pássaros.

Eles colhiam plantas, sementes e mariscos. A caça e a coleta de todas essas espécies exigiam um profundo conhecimento da natureza.

Os neandertais também tinham um senso de beleza, fazendo contas e pinturas rupestres. Eram pessoas espirituais, enterrando seus mortos com flores.

Os círculos de pedra encontrados dentro de cavernas podem ser santuários neandertais. Assim como os caçadores-coletores modernos, a vida dos neandertais provavelmente era repleta de superstição e magia; seus céus eram cheios de deuses, as cavernas eram habitadas por espíritos ancestrais.

Além disso, há o fato de que o Homo sapiens e os neandertais tiveram filhos juntos. Não éramos tão diferentes assim. Mas encontramos os neandertais muitas vezes, durante muitos milênios, sempre com o mesmo resultado. Eles desapareceram. Nós permanecemos.

A sociedade de caçadores-coletores

Pode ser que as principais diferenças estejam menos no nível individual do que no nível social. É impossível entender os seres humanos isoladamente, assim como não é possível entender uma abelha sem considerar sua colônia. Valorizamos nossa individualidade, mas nossa sobrevivência está ligada a grupos sociais maiores, assim como o destino de uma abelha depende da sobrevivência da colônia.

Os caçadores-coletores modernos são a nossa melhor estimativa de como viviam os primeiros humanos e os neandertais. Povos como os Khoisan da Namíbia e os Hadzabe da Tanzânia reúnem as famílias em bandos errantes de dez a 60 pessoas. Os bandos se combinam em uma tribo vagamente organizada de mil pessoas ou mais.

Essas tribos não têm estruturas hierárquicas, mas estão ligadas por idioma e religião compartilhados, casamentos, parentescos e amizades. As sociedades neandertais podem ter sido semelhantes, mas com uma diferença crucial: grupos sociais menores.

Tribos muito unidas

O que aponta para isso é a evidência de que os neandertais tinham menor diversidade genética.

Em populações pequenas, os genes se perdem facilmente. Se uma pessoa em cada dez carrega um gene para cabelos cacheados, então, em um grupo de dez pessoas, uma morte poderia remover o gene da população. Em um grupo de cinquenta, cinco pessoas carregariam o gene – várias cópias de reserva. Assim, com o passar do tempo, os pequenos grupos tendem a perder a variação genética, terminando com menos genes.

Em 2022, o DNA foi recuperado de ossos e dentes de 11 neandertais encontrados em uma caverna nas Montanhas Altai, na Sibéria. Vários indivíduos eram parentes, inclusive um pai e uma filha – eles eram de um único grupo. E apresentaram baixa diversidade genética.

Como herdamos dois conjuntos de cromossomos – um de nossa mãe e outro de nosso pai – carregamos duas cópias de cada gene. Muitas vezes, temos duas versões diferentes de um gene. Você pode receber um gene para olhos azuis de sua mãe e outro para olhos castanhos de seu pai.

Mas os Neandertais de Altai geralmente tinham uma versão de cada gene. Conforme relata o estudo, essa baixa diversidade sugere que eles viviam em pequenos grupos – provavelmente com uma média de apenas 20 pessoas.

É possível que a anatomia do Neandertal favorecesse pequenos grupos. Por serem robustos e musculosos, os neandertais eram mais pesados do que nós. Portanto, cada Neandertal precisava de mais alimentos, o que significa que a terra poderia suportar menos Neandertais do que Homo sapiens.

E os Neandertais podem ter se alimentado principalmente de carne. Os carnívoros obteriam menos calorias da terra do que as pessoas que se alimentavam de carne e plantas, o que levaria novamente a populações menores.

O tamanho do grupo é importante

Se os humanos viviam em grupos maiores do que os neandertais, isso poderia ter nos dado vantagens.

Os neandertais, fortes e habilidosos com lanças, provavelmente eram bons lutadores. Os humanos de constituição leve provavelmente contra-atacavam usando arcos para atacar à distância.

Mas mesmo que os neandertais e os humanos fossem igualmente perigosos em uma batalha, se os humanos também tivessem uma vantagem numérica, eles poderiam trazer mais combatentes e absorver mais perdas.

As grandes sociedades têm outras vantagens mais sutis. Grupos maiores têm mais cérebros. Mais cérebros para resolver problemas, lembrar-se de conhecimentos sobre animais e plantas e técnicas para fabricar ferramentas e costurar roupas. Assim como os grandes grupos têm maior diversidade genética, eles terão maior diversidade de ideias.

E mais pessoas significam mais conexões. As conexões de rede aumentam exponencialmente com o tamanho da rede, seguindo a Lei de Metcalfe. Uma banda de 20 pessoas tem 190 conexões possíveis entre os membros, enquanto 60 pessoas têm 1.770 conexões possíveis.

As informações fluem por essas conexões: notícias sobre pessoas e movimentos de animais; técnicas de fabricação de ferramentas; e palavras, músicas e mitos. Além disso, o comportamento do grupo se torna cada vez mais complexo.

Considere as formigas. Individualmente, as formigas não são inteligentes. Mas as interações entre milhões de formigas permitem que as colônias façam ninhos elaborados, busquem alimentos e matem animais com tamanho muito maior do que o de uma formiga. Da mesma forma, os grupos humanos fazem coisas que nenhuma pessoa pode fazer – projetar edifícios e carros, escrever programas de computador elaborados, lutar em guerras, administrar empresas e países.

Os seres humanos não são únicos por terem cérebros grandes (baleias e elefantes também têm) ou por terem grupos sociais enormes (zebras e gnus formam manadas enormes). Mas somos únicos em combiná-los.

Para parafrasear o poeta John Dunne, nenhum homem – e nenhum Neandertal – é uma ilha. Somos todos parte de algo maior. E, ao longo da história, os seres humanos formaram grupos sociais cada vez maiores: bandos, tribos, cidades, estados-nação, alianças internacionais.

Pode ser, então, que a capacidade de criar grandes estruturas sociais tenha dado ao Homo sapiens a vantagem contra a natureza e outras espécies de hominídeos. Mas mesmo que os neandertais e os humanos fossem igualmente perigosos em uma batalha, se os humanos também tivessem uma vantagem numérica, eles poderiam trazer mais combatentes e absorver mais perdas.

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Sam Altman apresenta “IA bomba atômica” para o governo dos EUA — o que acontece depois?

Tecnologia secreta chamada de “Strawberry” (morango), capaz de resolver problemas complexos é exibida a autoridades norte-americanas, marca um novo passo na relação entre OpenAI e o governo

André Lopes – Exame –  27 de agosto de 2024

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No dia 7 de agosto, Sam Altman, CEO da OpenAI, provocou curiosidade ao publicar uma imagem de morangos nas redes sociais. A imagem enigmática, mais tarde, foi apontada como um possível aceno à nova tecnologia “Strawberry” (morango, em inglês), codinome para um projeto de inteligência artificial (IA) general, uma IA definida pela própria empresa como “sistemas autônomos que superam os humanos nas tarefas economicamente mais valiosas”, mas, em suma, pode ser definida como uma IA superinteligente.

O nome “Strawberry” substitui o termo anterior para o projeto, chamado de Q* (pronuncia-se Q-Star), e sua revelação se deu de forma indireta, quando a Reuters noticiou sua existência em julho.

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Este avanço, até então mantido em sigilo, pode ajudar os modelos de IA da empresa a resolver trabalhos complexos, como problemas matemáticos, que são desafiadores para IAs conversacionais, mas também significa um passo nunca antes visto na computação.

Recentemente, a OpenAI realizou uma demonstração dessa tecnologia a autoridades de segurança nacional dos EUA, sinalizando a importância crescente da IA no contexto de segurança do país e o poder que os EUA ganham em deter tal inovação. Para muitos analistas, o projeto pode ser comparado à bomba atômica de Oppenheimer em relação ao seu impacto histórico.

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Apresentar ao governo demonstra também que a iniciativa, por ora, tem transparência da OpenAI e pode estabelecer um novo padrão para desenvolvedores de IA. Submeter uma tecnologia não lançada ao crivo do governo também pode ser uma estratégia da OpenAI para se aproximar de reguladores e políticos influentes, evitando possíveis conflitos, similares aos enfrentados por outros líderes, como o constantemente escrutinado Mark Zuckerberg, da Meta.

A demonstração pode ter um outro objetivo: iniciar conversas sobre como proteger a tecnologia contra adversários estrangeiros, como a China, e criticar concorrentes como a Meta, que liberou uma IA de código aberto acessível a todos.

Outro ponto importante sobre a “Strawberry” é sua aplicação na geração de dados de treinamento de alta qualidade para o “Orion”, próximo grande modelo de linguagem da OpenAI.

Pesquisadores acreditam que o uso da “Strawberry” como um regente da criação de novos modelos de linguagem pode ajudar a reduzir as alucinações geradas pelas IAs, aumentando a precisão do “Orion”.

Essa tecnologia pode ser integrada ao ChatGPT, aprimorando sua capacidade de raciocínio. No entanto, essas respostas mais precisas podem ser mais lentas, o que limita seu uso em aplicações que exigem respostas imediatas, como o SearchGPT. Em vez disso, a “Strawberry” pode ser ideal para tarefas menos urgentes, como corrigir erros de codificação em softwares.

No futuro, é possível que usuários do ChatGPT possam alternar entre ativar ou desativar a “Strawberry”, dependendo da urgência de suas solicitações.

Concorrência acirrada e desafios técnicos

Outros concorrentes, como o Google DeepMind e a Anthropic, também estão desenvolvendo tecnologias avançadas de raciocínio.

No mês passado, o Google DeepMind anunciou que sua IA poderia superar a maioria dos participantes humanos na Olimpíada Internacional de Matemática. Por sua vez, a Anthropic destacou que seu modelo mais recente consegue escrever códigos mais complexos e responder a questões sobre gráficos, graças a melhorias nas capacidades de raciocínio.

Embora a OpenAI tenha grandes expectativas em relação ao Orion, a competição está se intensificando. Em agosto, por exemplo, o Google lançou um assistente de voz com inteligência artificial que pode lidar com interrupções e mudanças de tópico durante uma conversa, superando a OpenAI, que havia anunciado uma versão semelhante meses antes.

O desenvolvimento do Strawberry remonta ao trabalho do ex-cientista-chefe da OpenAI, Ilya Sutskever, que recentemente deixou a empresa para fundar um novo laboratório de IA.

O modelo foi aprimorado pelos pesquisadores Jakub Pachocki e Szymon Sidor, que desenvolveram uma variação conhecida como test-time computation, permitindo que os modelos gastem mais tempo analisando todas as partes de uma questão.

Sam Altman apresenta “IA bomba atômica” para o governo dos EUA — o que acontece depois? | Exame

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Sem ‘borogodó’, modelos de IA são reprovados no teste de brasilidade

ChatGPT, Claude e Gemini cometem erros ao tratar de aspectos regionais, como gastronomia, religiosidade e idiomas indígenas

Por Juliana Causin — O Globo – 25/08/2024 

Desde o início do mês disponível no país, o Claude, robô de inteligência artificial da Anthropic, não identifica símbolos populares da religiosidade brasileira, como imagens de orixás ou de Nossa Senhora Aparecida, a padroeira do Brasil. O ChatGPT não sabe que catenga é uma forma de falar lagartixa em áreas do Nordeste. Para o Gemini, do Google, pastel de berbigão, iguaria do Sul, é “exclusividade” da Baixada Santista, em São Paulo.

Os principais robôs de inteligência artificial generativa disponíveis no país foram treinados com bases de dados gigantescas e rodam com os modelos de linguagem (LLMs), que são os “cérebros” por trás das IAs, mais poderosos do mundo. Mas indagados sobre questões da cultura brasileira, os chatbots não assimilam o “borogodó” local e escorregam nas respostas, mostra teste do GLOBO.

Mesmo quando não têm a informação correta, as IAs geralmente respondem. Raramente admitem não saber.

O ChatGPT, que desde maio tem versão gratuita que processa informações visuais, parece ter sido “abrasileirado” para identificar figuras como Ogum e Iansã (orixás cultuados no Candomblé e Umbanda). Mas o robô escorrega ao explicar o significado de expressões regionais, como carapanã, usado na Região Norte para mosquito, e responde que se trata de uma árvore e de um peixe. Indagado se está certo, pede desculpas e erra de novo: diz tratar-se de uma serpente.

O Gemini, ao receber solicitação sobre a origem de pratos populares de determinadas regiões, acerta sobre a unha de caranguejo, mas erra a resposta sobre onde o fígado com jiló é popular (diz que é no Rio, e não em Belo Horizonte).

O jornalista especializado em gastronomia Rusty Marcellini, comentarista da CBN, que participou dos testes do GLOBO, diz que o conhecimento das IAs sobre culinária regional é inconsistente:

— Um leigo completo que ler as respostas vai acreditar que cartola (sobremesa que é patrimônio imaterial de Pernambuco) é do Rio de Janeiro e que jerimum é do interior de São Paulo, o que não são.

Sobre os toques de samba mais populares no Brasil, as IAs são capazes de elencá-los, como o samba de roda e o samba-canção. Mas falham ao explicar o ritmo, avalia o sambista e sociólogo Tadeu Kaçula:

— (Os chatbots) não respondem com elementos fundamentais para entendermos a complexidade dos sambas.

A porca torce o rabo?

Ao avaliar o desempenho de IAs em perguntas sobre a origem de expressões populares, o professor de língua portuguesa Pasquale Cipro Neto diz ter a impressão de que os sistemas já incorporaram arquivos de dicionários.

Mas pondera que os ditados “analisados” pelos chatbots nem sempre têm nexo, como tentam fazer parecer as IAs, que buscaram explicações para o significado de expressões como “a porca torce rabo”.

— As expressões populares nem sempre têm muita lógica. Os ditados são muito presos às culturas locais — diz Pasquale.

Torcedor do Juventus, time tradicional de São Paulo fundado há 100 anos, o professor reclama que as pesquisas com a IA sobre o clube da Mooca já geraram “patifarias”. O GLOBO fez perguntas aos chats sobre o clube e todos deram respostas erradas. Citam que Emerson Leão iniciou a carreira lá e que Zé Maria defendeu o time “por anos” (os dois nunca passaram pelo Juventus).

Gemini, Claude e ChatGPT erraram (em menor ou maior grau) perguntas sobre idiomas indígenas. A análise do resultado foi feita pelo linguista e indigenista Wilmar D’Angelis, professor do Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp.

Ele nota que as IAs confundem línguas isoladas com ameaçadas (caso do Tikuna) e idiomas mortos com línguas vivas (como o Tupi). Erram a localização de povos (como os Xavantes), e misturam o que é dialeto (a exemplo do Mbyá-Guarani) com o que é idioma.

— Parece que não há critérios para como as informações que coletam são utilizadas. Se uma pessoa tivesse me enviado esses resultados, diria que é péssimo linguista ou leigo.

6 fotos

O pesquisador Anderson da Silva Soares, do Instituto de Informática da Universidade Federal de Goiás (UFG), lembra que os robôs de IA são treinados principalmente com informações da língua inglesa.

Todos os sistemas de IA admitem que estão sujeitos a erros. ChatGPT, Claude e Gemini trazem o alerta de que podem cometer erros.

IA mais brasileira

Criar uma inteligência artificial “mais brasileira” é uma das missões da Maritaca AI, pioneira no desenvolvimento de um grande modelo de linguagem que é “nativo”. A startup foi fundada por pesquisadores da Unicamp em 2022, dois meses antes do ChatGPT ser lançado e impulsionar a corrida pela IA generativa.

— O propósito sempre foi esse, de fazer IAs que fossem especializadas no Brasil. Isso não quer dizer só que ela vai saber bem português, mas sim de treiná-la com dados relevantes para o ambiente que ela vai atuar — conta Rodrigo Nogueira, fundador e CEO da Maritaca IA, doutor em Ciência da Computação pela New York University (NYU).

O grande desafio de criar IAs brasileiras é o custo de desenvolver os LLMS (grandes modelos de linguagem), que são os motores que fazem rodar os chatbots como o Gemini ou o Claude. O robô criado pela Maritaca, que pode interagir com os usuários, é chamado de Maritalk. Já o LLM por trás é o Sabiá.

O projeto foi viabilizado a partir de uma parceria da startup com o Google, que cedeu seus supercomputadores para treinar o modelo. Segundo Rodrigo, o custo de realizar o processo seria de R$ 20 milhões. O modelo também é disponibilizado para empresas, que podem personalizá-los para usos próprios.

Desenvolvida em parceria com a Oracle e a NVIDIA, a Amazônia IA é outra iniciativa que busca gerar “abrasileirar” o cenário da inteligência artificial. Criada pela startup Widelabs, o sistema foi treinado, entre outras fontes, com bancos de dados que incluem pesquisas e teses científicas, além de bancos públicos brasileiros.

A empresa vai lançar em setembro um artigo científico para abrir as informações técnicas do modelo, e abrir a IA para pode ser aplicada em negócios.

— Desenvolver a IA localmente é também falar de soberania nacional, de não depender de tecnologias estrangeiras. É também sobre democratizar acesso, para soluções locais — diz Nelson Leoni, CEO da Widelabs.

O Plano Nacional de Inteligência Artificial, lançado no mês passado pelo governo, prevê a compra de cinco supercomputadores para atender a demanda na área. O investimento previsto nos próximos quatro anos é de R$ 23 bilhões, com as maiores fatias direcionadas para o eixo de inovação empresarial (59,8%) e infraestrutura (25,1%).

Para Rodrigo, além de acesso a capacidade computacional, uma política de acesso a dados é fundamental para o país avançar no desenvolvimento de IAs. O pesquisador da UFG, Anderson Soares, destaca ainda que é necessário ter uma política sólida de formação de obra, mas que o plano é positivo por estabelecer metas e financiamento.

Passou longe

Expressões populares

Perguntamos o significado de palavras regionais

  • ChatGPT: Não sabe que lagartixa pode ser chamada de catenga, nem o que significa carapanã (também conhecido como pernilongo ou muriçoca). Sabe explicar que desenxabido é alguém “sem graça”.
  • Claude: Errou o significado de todas as expressões testadas, com exceção de desenxabido. Diz que o carapanã pode ser “uma lagarta ou inseto”.
  • Gemini: Afirma que catenga é uma dança e que abilolado (que seria sem juízo, amalucado) é algo “que tem lóbulos”. Acerta em desenxabido.

Religiosidade

Testamos imagens de Orixás e de Nossa Senhora Aparecida

  • ChatGPT: Das quatro imagens, soube identificar duas: Ogum e Iansã, e explicar o significado. Reconheceu uma estatueta de Nossa Senhora Aparecida, definida como “padroeira do Brasil”.
  • Claude: Não soube identificar imagens de orixá, definidos como “objetos decorativos ou religiosos”. Reconheceu Nossa Senhora como “Mãe de Jesus”, sem contextualizar.
  • Gemini: Trocou Nanã Buruquê por Oxalá nas imagens de orixás. Acertou ao identificar Nossa Senhora Aparecida como “uma das santas mais populares do Brasil”.

Cultura indígena

Perguntamos os idiomas indígenas falados e quais podem ser extintos

  • ChatGPT: É o que mais acerta. A lista da 1ª questão, porém, ignora a Kaingang, o 3º idioma indígena mais falado. Entre as que podem ser extintas, cita casos em risco, mas não os mais críticos.
  • Claude: Errou em todos os casos na primeira pergunta, com inclusão de línguas mortas (como Tupi) ou em risco (como Kokama). Na segunda parte, citou línguas vulneráveis, mas não que correm risco de extinção.
  • Gemini: Acerta ao listar línguas mais faladas (Tikuna, Guarani, Kaingang, Xavante e Yanomami). Sobre idiomas em extinção, relaciona línguas isoladas com ameaçadas.

Gastronomia regional

Perguntamos em quais cidades os pratos típicos são conhecidos

  • ChatGPT: Acerta na maior parte, mas erra ao dizer que fígado com jiló é conhecido no Rio ( é em Minas). Também diz que a sobremesa cartola é feita com queijo coalho (geralmente é feita com queijo manteiga).
  • Claude: Acerta na maior parte, mas erra ao dizer que fígado com jiló é típico da culinária nordestina. Indica que cartola é originária do Rio (a sobremesa é patrimônio cultural imaterial de Pernambuco).
  • Gemini: Na 1ª vez, só incluiu cidades de São Paulo. No comando para considerar todo o país, errou (disse que o pastel de berbigão, de Santa Catarina, é da Baixada Santista).
  • https://oglobo.globo.com/economia/tecnologia/noticia/2024/08/25/sem-borogodo-modelos-de-ia-sao-reprovados-no-teste-de-brasilidade.ghtml

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