Desafio do humor: empresas de tecnologia buscam tornar chatbots mais engraçados

O motivo é deixar usuários engajados com a IA por mais tempo. Contudo, não é uma tarefa fácil criar uma IA sutilmente boa em piadas

André Lopes – Exame – 24 de junho de 2024 

Empresas líderes em tecnologia estão se dedicando a um dos maiores desafios da inteligência artificial: tornar os chatbots mais engraçados.

O Google DeepMind, um dos maiores laboratórios de pesquisa em IA do mundo, tem focado em desenvolver inteligências artificiais que abordem problemas globais, desde a previsão de condições meteorológicas extremas até o desenvolvimento de novos tratamentos médicos. Recentemente, pesquisadores da empresa se depararam com um desafio peculiar: descobrir se a IA pode contar boas piadas.

Em um artigo publicado neste mês, um grupo de pesquisadores do DeepMind, incluindo dois que fazem comédia improvisada nas horas vagas, convidou 20 comediantes para compartilhar suas experiências usando chatbots avançados para escrever piadas. Os resultados foram contundentes. Os entrevistados consideraram as piadas geradas por IA insossas, pouco originais e excessivamente politicamente corretas.

Um dos comediantes comparou o humor da IA ao “material de comédia dos anos 1950, mas um pouco menos racista.” Alguns humoristas acharam a IA útil para criar um primeiro rascunho, mas poucos se sentiram felizes com o material produzido.

O DeepMind não é a única empresa de tecnologia pensando no senso de humor da IA, ou na falta dele. A xAI de Elon Musk posicionou o Grok como a alternativa mais engraçada aos chatbots rivais. A Anthropic lançou esta semana um novo modelo de IA, o Claude 3.5 Sonnet, que promete ser significativamente melhor em captar nuances e humor, entre outras melhorias.

Em uma recente demonstração da OpenAI, um usuário contou uma piada de “pai” para a versão mais recente e habilitada por voz do GPT para ver se a ferramenta a apreciava. O chatbot riu, embora não de maneira totalmente convincente.

Daniela Amodei, presidente e cofundadora da Anthropic, comentou que o humor é um desafio difícil de superar. Ela admitiu que o Claude ainda não tem a qualidade de um comediante profissional, mas afirmou que houve melhorias significativas.

Para as empresas de tecnologia, fazer a IA engraçada é um negócio sério. O foco atual é desenvolver chatbots conversacionais que possam lidar com consultas cada vez mais complexas dos usuários e serem agradáveis o suficiente para que os usuários continuem a interagir com eles em casa e no trabalho.

Em experimentos próprios com alguns dos principais chatbots, o humor gerado pela IA mostrou-se limitado. Por exemplo, ao pedir que Grok contasse uma piada sobre o CEO da OpenAI, Sam Altman, a resposta foi a opção mais seca possível: “Por que Sam Altman atravessou a rua? Para chegar ao outro lado da revolução da IA!”

Quando foi a vez do ChatGPT da OpenAI, do Gemini do Google e do Claude da Anthropic, as respostas foram igualmente desanimadoras. Claude usou o mesmo esquema da “travessia da rua”, com um final diferente: “Para pivotar para o outro lado!”

O Gemini foi um pouco mais original: “Sam Altman entra em um bar e pede uma rodada de drinks para todos. O bartender diz, ‘Uau, que generoso! Qual a ocasião?’ Sam responde, ‘Apenas comemorando a conquista da inteligência artificial geral… novamente.'”

Diante desses resultados, é tentador concluir que os chatbots precisam ser um pouco mais ousados, com o risco de aumentar o efeito diverso que piadas possuem na sociedade.

https://exame.com/inteligencia-artificial/desafio-do-humor-empresas-de-tecnologia-buscam-tornar-chatbots-mais-engracados/

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Como a Holanda evitou alagamentos do mar e dos rios?

Por João Lara Mesquita – Estadão/Mar sem Fim – 19 de junho de 2024

Como a Holanda evitou alagamentos do mar e dos rios?

Recentemente um grupo de holandeses esteve no Rio Grande do Sul para analisar a situação e propor alternativas ao governo do Estado. Eles atenderam um pedido do Departamento Municipal de Água e Esgotos de Porto Alegre depois da tragédia. Os holandeses fazem parte do programa Redução de Risco de Desastres (Disaster Risk Reduction-DRRS), com sede em Haia, vinculado à Agência Empresarial Holandesa. A Holanda, ou Países Baixos, é pequena – pouco menor que o Espírito Santo (41,543 km² x 46,077 km²), entretanto é o país mais densamente povoado da Europa, com 17 milhões de habitantes. Um terço de sua área fica abaixo do nível do mar. As diferenças geográficas entre Holanda e Rio Grande do Sul são imensas, mas ambos lutam contra o avanço da água. Enquanto aguardamos as sugestões, que tal conhecermos como a Holanda recuperou suas terras?

A inundações fizeram parte da história da Holanda. Pintura de Willem Schellinks retrata a ruptura de um dique na aldeia de Houtewael, perto de Amesterdã, em 1651. Imagem: Domínio público.

“Deus fez o mundo, mas nós (holandeses) fizemos a Holanda”

Esta frase é repetida à exaustão pela população, e com razão, afinal, até agora eles venceram uma batalha contra os elementos; a imensa  força dos oceanos.

A diferença brutal, o que era mar em 1330, é terra firme hoje. Imagem, K. Cantner, AGI.

Como? Usando um de seus principais recursos naturais, o vento. Hoje, os Países Baixos têm o dobro do tamanho que tinham há 400 anos.

A barragem O Houtribdijk, com 30 quilômetros, entre as cidades de Enkhuizen e Lelystad, foi concluída em 1975 como parte de um projeto iniciado por volta de 1920 para represar e recuperar terras da enseada pouco profunda do Zuiderzee. Imagem, Snempaa.

O principal plano foi isolar seções do mar pouco profundo com centenas de quilômetros de barragens e diques. Depois, drenar cada uma, pedaço por pedaço, até construir um país maior. Durante séculos, os holandeses construíram moinhos de vento. Mais de mil sobreviveram, e muitos ainda funcionam, informa o Ricksteves.

Barragem Oosterscheldekering durante uma tempestade. É preciso ser muito forte para resistir à força do Mar do Norte. Imagem, Rens Jacobs / Beeldbank V&W. – rijkswaterstaat.nl..

Metade dos 17 milhões de habitantes vivem em áreas de risco

A Phys.org  acrescentou que mais da metade dos 17 milhões de habitantes vivem em áreas de risco de baixa altitude. Contudo, graças ao trabalho árduo, perseverança e muito conhecimento técnico, eles se aconchegam com segurança atrás de uma engenhosa rede de 17.500 quilômetros de diques, dunas e barragens.

Mapa com os locais de diques assinalados. A legenda usada é : Sem diques, os Países Baixos seriam inundados. Imagem, Domínio Público.

Em 2023, o Fórum Econômico Mundial enviou uma delegação para visitar as várias alternativas adotadas pelos holandeses. Em seguida, publicou uma matéria mostrando como o país usa soluções baseadas na natureza para melhorar a segurança.

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Um dos bons exemplos é a constante reposição de areia ao longo da costa de Kijkduin, em Haia, que recebeu o nome de Sand Motor. 

‘O Vale do Silício holandês é a sua experiência em engenharia’

A expertise dos holandeses, adquirida através dos tempos, hoje vale muito. Segundo a Earth Magazine, a experiência em gestão da água é tão antiga quanto a própria Holanda. À medida que os mares globais sobem, os holandeses ainda estão na linha de frente para lidar com inundações e aumento do nível do mar. Essa proeza não está apenas ajudando-os em seus próprios esforços, agora eles “são consultados por todo o mundo, quando vendem sua experiência em engenharia”, diz o jornalista Jeff Goodell, autor do livro de 2017 The Water Will Come: Rising Seas, Sinking Cities, and the Remaking of the Civilized World.

Uma resenha do livro diz que ‘a cada fissura nos grandes mantos de gelo do Ártico e da Antártida, e a cada aumento do termômetro da Terra, estamos nos aproximando de uma catástrofe generalizada’. Para o autor, ‘nosso mundo foi construído para um clima que não existe mais’. Ou seja, quanto mais cedo começarmos a tomar medidas, melhor. E o Brasil está muito atrasado.

Eles estão “tentando exportar essa experiência; é a sua indústria em crescimento. É o seu Vale do Silício.” E as cidades costeiras nos EUA e em outros lugares esperam que a engenhosidade holandesa funcione para elas também para combater os mares invasores.

Como funciona o Sand Motor, que protege a costa norte do país?

Enquanto a tradicional e frequente extração de areia para manter a linha costeira é dispendiosa e tem impactos ambientais negativos, a Sand Motor utiliza processos naturais que criam novos habitats e oportunidades de recreio e desenvolvimento econômico. Em vez de proceder ao abastecimento frequente de areia ao longo da costa, eles depositam um grande volume de areia offshore em Kijkduin. Enquanto isso, o vento, as ondas e o movimento das marés distribuem naturalmente a areia, principalmente na direção norte, o que ajuda a atingir o nível de risco de inundação estabelecido por lei.

O controle dos rios

Esta parte é interessante porque é o mesmo problema de Porto Alegre, Pelotas, e outras cidades cercadas por lagos, em que vários rios deságuam, aumentando muito o volume de água depois dos eventos extremos que ainda castigam o Rio Grande do Sul.

E achamos a resposta no Dutchwater. Matéria de fevereiro de 2021 mostrava que o sistema acabava de passar incólume, depois de uma temporada anormal de chuvas.

Na semana passada, os diques de verão dos dois grandes rios Reno e Mosa, nos Países Baixos, transbordaram e os diques de inverno, muito mais altos, tiveram de ser transpostos. Este acontecimento, que ocorre uma vez em cada cinco anos, não só proporcionou vistas espetaculares, como também mostrou o conceito típico neerlandês de planícies aluviais controladas, dando mais espaço aos rios para fluírem nos períodos de pico de descarga.

O de cima é o dique do verão. Abaixo, o do inverno. Imagem, Dutchwater.

As descargas máximas dos rios que chegam da Alemanha (Reno) e da Bélgica (Mosa) fazem com que os diques baixos de verão do Reno e do Mosa, nos Países Baixos, transbordem facilmente. Nesse caso, os diques de inverno, muito mais altos, assumem a proteção das zonas do delta propensas a inundações. Algumas das quais se situam abaixo do nível do mar.

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Este conceito típico de prevenção de inundações, com planícies aluviais transbordantes entre um dique de verão e um de inverno, dá muito mais espaço ao rio para descarregar rapidamente grandes volumes de água para o Mar do Norte.

Como monitoram as cabeceiras de rios, volume de chuva e neve, e outros

O quartel general fica no centro nacional neerlandês de gestão da água (WMCN). Lá, os técnicos monitoram o nível da água em todos os locais, simultaneamente, e de muito perto. Nas últimas fortes chuvas, os responsáveis pela gestão das cheias voltaram a pôr as mãos na massa.

Acompanhamos a precipitação e a neve em toda a bacia hidrográfica do Reno e do Mosa. Assim, poderemos antecipar os picos antes de chegarem à fronteira holandesa”, explica Harold van Waveren.

Preparados para todos os cenários, os especialistas vivem os seus melhores momentos nestas circunstâncias. É agora que o programa de prevenção, no valor de um bilhão de euros, pode provar o seu valor, juntamente com os gestores que antecipam os níveis de água nos locais de risco.

Uma importante tarefa do WMCN é abrir os grandes açudes, bem como as comportas costeiras para levar o volume de água para o Mar do Norte o mais rapidamente possível.

Uma das opções de controle das cheias consiste em abrir o açude de Driel, no Baixo Reno, para que o volume máximo passe mais rapidamente. (foto- Autoridade Regional da Água de Rivierenland).

Cada gestor sabe exatamente o que fazer na hora do perigo

Todos os gestores nacionais e regionais das inundações sabem o que fazer, dada a previsão de determinados volume máximos”, acrescenta Van Waveren.

Ok, sabemos que um bilhão de euros é muito dinheiro, mas a questão não é esta. É imperativo ter sempre em ordem a manutenção e o perfeito funcionamento, tanto das comportas para o mar, como das que levam a água aos açudes. E muito, muito treinamento como deixaram claro, é preciso que todos saibam exatamente o que fazer nas horas críticas.

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Holanda, Singapura e Veneza, o que eles têm em comum?

O trabalho vitorioso dos holandeses para conter a água do mar está nas manchetes da mídia internacional. New York Times, The Guardian, Euronews, Reuters, entre outros, já publicaram inúmeras matérias. Ao mesmo tempo, a ONU elogia dois países por seus esforços: a Holanda, e Singapura, cuja estratégia já foi motivo de nosso comentário. São países diferentes, em continentes dispares, mas há algumas coincidências entre ambos.

Segundo a ONU, sendo uma pequena cidade-estado insular de baixa altitude com 719,9 km2, Singapura é naturalmente vulnerável ao impacto das alterações climáticas. Com uma população de 5,6 milhões de habitantes, é um dos países mais densamente povoados do mundo.

Mas há mais, segundo a ONU. Ambos desenvolveram sistemas de modelização de alta resolução para a previsão do tempo e do clima, e treinaram intensamente os responsáveis. Além disso,  cerca de 70% da costa de Singapura já tem barreiras feitas pelo homem para proteção. A estratégia do país para o reforço indispensável dos recursos naturais é o replantio de florestas de mangue em toda a faixa costeira, além de reforçar as já existentes.

Finalmente, Veneza também enfrenta o problema usando comportas especiais, dado a especificidade da cidade construída em meio a 118 ilhas no meio de uma laguna (550 km²) no norte da Itália.

Há muitas outras medidas que contribuem para o sucesso

Antes de encerrar, é preciso lembrar que as medidas acima são talvez as mais importantes. Fizemos um resumo mas os links selecionados se aprofundam em cada medida, caso seja de seu interesse.

Por fim, o Mar Sem Fim tem feito o possível para chamar a atenção do ministério do Meio Ambiente sobre o uso dos recursos naturais na proteção da linha da costa mas, enquanto o mundo planta árvores de mangue e protege suas dunas, o Brasil segue desmatando e permitindo ocupação de dunas.

A ver quando, e se, Marina Silva vai acordar.

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Agricultura de precisão: o que é e por que tem sido tão importante para a produção de alimentos

Entenda como esse conceito está transformando o futuro no campo, tornando a atividade agrícola mais eficiente, econômica e sustentável

EXAME Solutions – Publicado em 24 de junho de 2024 

Reconhecido como um gigante no cenário agrícola mundial, o agronegócio brasileiro vive um momento particular de transformação, alavancado pelo uso de tecnologia no campo. Sobretudo pela adoção crescente da agricultura de precisão (AP), o ganho de produtividade nos últimos anos é expressivo: em 2023, o agro bateu recordes de produção, com 15% de crescimento, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). 

Um estudo da McKinsey & Company indicou que cerca de 50% dos agricultores do país já adotam ou estão dispostos a incorporar tecnologias agrícolas de precisão nas suas operações. Entre as grandes oportunidades para o futuro, a agricultura de precisão aparece em primeiro lugar na visão dos produtores, com um terço das respostas em um outro levantamento, da KPMG com a SAE Brasil. 

O país aposta tanto no potencial da AP para fortalecer sua posição como um dos maiores produtores de alimentos do mundo que até instituiu uma política nacional de incentivo à sua prática. 

A Lei Nº 14.475, sancionada em dezembro de 2022, tem como diretrizes o apoio à inovação; a sustentabilidade ambiental, social e econômica; o desenvolvimento tecnológico; a ampliação de rede de pesquisa, desenvolvimento e inovação do setor; o estímulo à ampliação da rede e da infraestrutura de conexão de internet nas áreas rurais; a articulação entre entes públicos e setor privado; e a divulgação das linhas de crédito para financiamento da agricultura e pecuária de precisão.

O que é agricultura de precisão?

É um conjunto de tecnologias e ferramentas avançadas, baseadas em dados e sistemas de geoposicionamento, que permite ao produtor rural fazer um gerenciamento controlado e preciso das lavouras. 

Com essa abordagem, em vez de lidar de modo uniforme com o cultivo (no planejamento de defensivos, fertilizantes e irrigação, por exemplo), o agricultor consegue trabalhar de forma localizada e personalizada cada ponto da propriedade agrícola, considerando a variabilidade do solo, como teor de nutrientes, compactação, produtividade e afins. 

Que ferramentas e tecnologias são essas?

São combinados diversos recursos, entre eles o Sistema de Posicionamento Global (GPS na sigla em inglês), para localização exata de equipamentos e geração de mapas de produtividade, por exemplo; Sistema de Informações Geográficas (GIS), para armazenar dados geográficos; e máquinas de aplicação localizada de insumos a taxas variáveis. 

Os processos podem ser mesclados, entre outras coisas, com sensoriamento (sensores de solo, de plantas e remotos) para detectar a diversidade e mudanças do solo e do clima; drones (captura de imagens de alta resolução, identificação de pragas e deficiências nutricionais); Big Data (análise de dados); Internet das Coisas (integração de sensores e outros dispositivos); e inteligência artificial (análise de dados em tempo real para adequar a aplicação de recursos, previsão de safras, detecção de doenças nas plantas, piloto automático em máquinas).

Como tem evoluído a AP no país?

A ideia de melhorar o rendimento da produção levando em conta as particularidades do solo não é recente, mas apenas as soluções avançadas existentes hoje possibilitaram que isso fosse colocado em prática de maneira efetiva. 

Segundo a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), a agricultura de precisão foi introduzida no Brasil em meados dos anos de 1990, porém, os avanços significativos só aconteceram a partir de 2000, quando o uso do GPS, elemento-chave no processo, foi amplamente difundido.

De lá para cá, a AP evoluiu rapidamente, com relatórios cada vez mais detalhados e incorporação de fábrica de tecnologias embarcadas no maquinário agrícola. Hoje, com o progresso acelerado da inteligência artificial, a agricultura de precisão está dando um salto ainda maior, com monitoramento preventivo das lavouras e equipamentos autônomos, por exemplo, que ajudam a tomar decisões mais assertivas e executar as operações em campo com exatidão.

Quais as vantagens da agricultura de precisão?

Essa abordagem personalizada traz valiosos benefícios, tendo em vista a demanda global pelo aumento da produção de alimentos. As vantagens incluem melhoria do planejamento e monitoramento das atividades de campo, otimização dos custos, minimização dos impactos ambientais negativos e, principalmente, aumento da eficiência produtiva.

Um levantamento feito pelo departamento técnico da Federação da Agricultura e Pecuária do Mato Grosso do Sul (Famasul) mostrou que, dependendo do nível tecnológico da propriedade antes da implantação da agricultura de precisão, a elevação da produtividade pode chegar a cerca de 30%, e quase um quarto, em média, dos insumos pode ser economizado.

A coleta e o processamento de dados de forma tão completa tornam mais segura a tomada de decisão dos produtores, que conseguem ter ações direcionadas, aplicando insumos somente onde é necessário realmente, conforme a necessidade do solo. 

Isso evita o desperdício e reduz o uso de pesticidas e fertilizantes, conciliando produtividade e sustentabilidade. É possível também entender, dentro das etapas de crescimento das plantas, qual o momento ideal para todo tipo de atividade – como planejar o sistema de irrigação, por exemplo – ou distinguir automaticamente a presença de ervas daninhas no meio da plantação. 

Essa visão agiliza os processos, criando mapeamentos das operações de lavoura: onde e como fazer a semeadura, a distribuição de insumos e a colheita. Depois, máquinas automatizadas, com sistemas de orientação integrados a um GPS, executam as tarefas mapeadas de forma inteligente evitando falhas e sobreposições, como pulverizar defensivos duas vezes no mesmo local.

Um exemplo é o pulverizador autônomo da multinacional brasileira Jacto, que usa inteligência artificial na operação, aliada a câmeras, laser e sinal de GPS, para trafegar de forma independente dentro da cultura de citros. A máquina ainda conta os frutos enquanto executa a tarefa, dando uma estimativa de produtividade. 

Se a propriedade tem mais de uma unidade, os equipamentos podem compartilhar os mapas de aplicação, para identificar onde o outro já aplicou e, assim, evitar sobreposições. E com a tecnologia de precisão de taxa variável, podem aplicar diferentes doses na área a ser pulverizada dependendo da necessidade identificada previamente, otimizando e reduzindo a aplicação de defensivos.

Esses e outros recursos cada vez mais avançados estão revolucionando a agricultura, fazendo dela uma atividade mais eficiente, econômica e sustentável, à medida que as informações sobre conceitos, técnicas e vantagens chegam ao produtor rural. Para os especialistas, este já é um caminho sem volta, dada a urgente necessidade de elevação da produção de alimentos no mundo.

Nos cálculos da Organização das Nações Unidas (ONU), a população mundial será de 9,7 bilhões de pessoas em 2050. Para compensar esse crescimento, segundo a agência de alimentos e agricultura da ONU (FAO), será preciso um aumento de 70 % na produção agrícola. É aí que a agricultura de precisão ganha força, como o caminho possível para o futuro superpovoado que nos aguarda.

https://exame.com/agro/agricultura-de-precisao-o-que-e-e-por-que-tem-sido-tao-importante-para-a-producao-de-alimentos/

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A ascensão científica da China assusta os EUA

Matéria de capa da revista britânica The Economist esmiúça o que levou o país asiático a acelerar o desenvolvimento tecnológico e a inovação que preocupa Washington

Por Iara Vidal – Revista Forum – 16/6/2024 

Em meio à escala da rivalidade entre duas superpotências, a China e os Estados Unidos, há algo em comum entre elas: ambas reconhecem a importância da inovação como segredo para a superioridade geopolítica, econômica e militar.

A matéria de capa da revista britânica The Economist  desta semana esmiúça o porquê Washington está assustado com os avanços da ciência e da tecnologia liderados por Pequim.

A publicação, considerada uma das “bíblias” do liberalismo e do discurso anti-China, reconhece a força chinesa na ciência global com a mancheteThe rise of Chinese science: Welcome or worrying?” (A ascensão da ciência chinesa: Bem-vinda ou preocupante?, em tradução livre).

O texto ressalta que o presidente chinês, Xi Jinping, espera que a ciência e a tecnologia ajudem seu país a ultrapassar os Estados Unidos. Na tentativa de impedir que a China ganhe vantagem tecnológica, os políticos dos EUA têm usado uma combinação de controles de exportação e sanções.

A estratégia dos EUA tem poucas chances de dar certo, pondera a The Economist, que classifica a abordagem estadunidense como equivocada. “Se os Estados Unidos querem manter sua liderança — e obter o máximo benefício da pesquisa dos talentosos cientistas chineses — fariam melhor em focar menos em conter a ciência chinesa e mais em se impulsionar adiante”, observa.

Ciência para segurança alimentar

Um dos feitos da China que surpreende os autores do texto da revista britânica é o trabalho da Academia Chinesa de Ciências (CAS, da sigla) em Pequim, que é a maior organização de pesquisa do mundo com atuação em diversas áreas, desde a biologia vegetal até a física de supercondutores.

Na área de biologia das culturas alimentares, chama a atenção a enormidade de estudos. Nos últimos anos, cientistas chineses descobriram um gene que, quando removido, aumenta o comprimento e o peso dos grãos de trigo; outro que melhora a capacidade de culturas como sorgo e milheto crescerem em solos salinos; e um que pode aumentar a produção de milho em cerca de 10%.

No outono do ano passado, agricultores em Guizhou, província no sudoeste da China, completaram a segunda colheita de arroz gigante geneticamente modificado desenvolvido por cientistas da CAS.

Esses estudos são resultado do empenho liderado pelo Partido Comunista Chinês (PCCh) para impulsionar a pesquisa agrícola, considerada como crucial para garantir a segurança alimentar do país, e transformá-la como uma prioridade para os cientistas chineses.

Na última década, a qualidade e a quantidade de pesquisas sobre culturas produzidas na China cresceram imensamente, e agora o país é amplamente considerado um líder na área.

Medida do sucesso na ciência

Uma maneira de medir a qualidade da pesquisa científica de um país é contabilizar o número de artigos de alto impacto produzidos a cada ano — ou seja, publicações que são citadas com mais frequência por outros cientistas em seus próprios trabalhos posteriores.

Em 2003, os Estados Unidos produziram 20 vezes mais desses artigos de alto impacto do que a China, de acordo com dados da Clarivate, uma empresa de análise científica. Em 2013, os EUA produziram cerca de quatro vezes o número de principais artigos, e, no lançamento mais recente dos dados, que examina artigos de 2022, a China superou tanto os Estados Unidos quanto toda a União Europeia (UE).

A China lidera o mundo no Índice Nature, criado pela prestigiada revista de mesmo nome para contabilizar o número de artigos publicados em um conjunto de revistas de renome. Para serem selecionados, os artigos devem ser aprovados por um painel de revisores que avaliam a qualidade, novidade e potencial impacto do estudo.

Quando o Índice Nature foi lançado, em 2014, a China ocupava a segunda posição, contribuindo com menos de um terço dos artigos elegíveis em comparação com os Estados Unidos. Em 2023, a China alcançou o primeiro lugar. De acordo com o Leiden Ranking, que avalia o volume de produção científica, seis universidades ou instituições chinesas estão agora entre as dez melhores do mundo. Pelo Índice Nature, são sete instituições.

Essas universidades chinesas, como Shanghai Jiao Tong, Zhejiang e Peking (Beida), estão começando a ser mencionadas ao lado de instituições ocidentais renomadas como Cambridge, Harvard e ETH Zurich. A Tsinghua está na liderança mundial em ciência e tecnologia. Essa conquista extraordinária foi alcançada em apenas uma geração.

Em especial ao longo da última década, cientistas chineses ganharam vantagem nessas duas medidas amplamente observadas de ciência de alta qualidade, e o crescimento da pesquisa de ponta no país não mostra sinais de desaceleração. A antiga ordem mundial da ciência, dominada por América, Europa e Japão, está chegando ao fim.

Conquistas da China na ciência

Atualmente, a China lidera o mundo nas ciências físicas, química e ciências da Terra e ambientais. A pesquisa aplicada é um ponto forte da potência asiática, que domina publicações sobre painéis solares de perovskita, que são potencialmente mais eficientes do que as células de silício convencionais na conversão de luz solar em eletricidade.

Químicos chineses desenvolveram um novo método para extrair hidrogênio da água do mar usando uma membrana especializada para separar água pura, que pode ser dividida por eletrólise. Em maio de 2023, foi anunciado que cientistas, em colaboração com uma empresa estatal de energia chinesa, desenvolveram uma fazenda flutuante piloto de hidrogênio na costa sudeste do país.

A China também produz mais patentes do que qualquer outro país. Com sua base industrial forte, combinada com energia barata, isso permite uma produção em larga escala rápida de inovações físicas, como materiais.

O país também demonstra seu poder científico de maneiras mais visíveis. No início deste mês, a nave espacial robótica Chang’e-6 da China pousou em uma cratera gigante no lado escuro da Lua, coletou amostras de rochas, plantou uma bandeira chinesa e partiu de volta para a Terra. Se retornar com sucesso no final do mês, será a primeira missão a trazer de volta amostras desse lado difícil de alcançar da Lua.

Estrutura da ciência chinesa

A reformulação da ciência chinesa foi alcançada focando em três áreas: investimento, equipamentos e pessoas. Em termos reais, os gastos da China em pesquisa e desenvolvimento (P&D) cresceram 16 vezes desde 2000.

Segundo os dados mais recentes da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), de 2021, a China ainda está atrás dos EUA em gastos totais em P&D, com 668 bilhões de dólares, em comparação com 806 bilhões de dólares dos EUA em paridade de poder de compra.

No entanto, em termos de gastos apenas por universidades e instituições governamentais, a China ultrapassou os EUA. Nesses locais, os EUA ainda gastam cerca de 50% a mais em pesquisa básica, mas a China está investindo fortemente em pesquisa aplicada e desenvolvimento experimental.

Os investimentos são cuidadosamente direcionados para áreas estratégicas. Em 2006, o PCCh publicou sua visão para o desenvolvimento científico nos próximos 15 anos. Desde então, os planos quinquenais de desenvolvimento do partido incluíram projetos científicos.

O plano atual, publicado em 2021, visa impulsionar pesquisas em tecnologias quânticas, inteligência artificial (IA), semicondutores, neurociências, genética e biotecnologia, medicina regenerativa e exploração de áreas “fronteiriças” como espaço profundo, oceanos profundos e os polos da Terra.

Formação de cientistas

O desenvolvimento científico na China tem sido impulsionado por iniciativas como o “Projeto 211”, o “Programa 985” e a “China Nine League”, que forneceram financiamento a laboratórios selecionados para aprimorar suas capacidades de pesquisa.

Universidades chinesas oferecem bônus significativos aos funcionários, estimados em uma média de 44 mil dólares, podendo chegar até 165 mil dólares, para publicações em revistas internacionais de alto impacto.

Entre 2000 e 2019, mais de 6 milhões de estudantes chineses foram estudar no exterior, retornando recentemente em grande número com novas habilidades e conhecimentos. Dados da OCDE indicam que, desde o final dos anos 2000, mais cientistas estão voltando para a China do que saindo. Atualmente, a China emprega mais pesquisadores do que os Estados Unidos e a União Europeia juntos.

Programas de incentivo, como o “Youth Thousand Talents” lançado em 2010, oferecem bônus únicos de até 150 mil dólares e subsídios de até 420 mil dólares para montar laboratórios. Esse programa atraiu jovens pesquisadores de alta qualidade, que rapidamente se tornaram líderes em suas áreas.

Equipamentos e infraestrutura

A China tem investido pesadamente em equipamentos científicos. Em 2019, o país já tinha um inventário impressionante de hardware, incluindo supercomputadores, o maior radiotelescópio de abertura preenchida do mundo e um detector subterrâneo de matéria escura.

Desde então, a lista só cresceu, com a adição do detector de raios cósmicos ultra-alta energia mais sensível do mundo, o campo magnético de estado estacionário mais forte e, em breve, um dos detectores de neutrinos mais sensíveis do mundo.

Laboratórios individuais nas principais instituições chinesas estão bem equipados, com máquinas em instituições acadêmicas chinesas mais impressionantes e expansivas do que as dos EUA. No Advanced Biofoundry do Shenzhen Institute of Advanced Technology, por exemplo, há um edifício incrível com quatro andares de robôs.

Com universidades chinesas cada vez mais equipadas com tecnologia de ponta e pesquisadores de elite, além de salários competitivos, as instituições ocidentais tornam-se menos atraentes para jovens cientistas chineses. O resultado é que os estudantes na China não veem os EUA como uma ‘Meca científica’ da mesma forma que seus orientadores poderiam ter visto.

Conquistas em Inteligência Artificial

Em 2019, apenas 34% dos estudantes chineses que trabalhavam na área de inteligência artificial permaneceram no país para estudos de pós-graduação ou trabalho. Esse número subiu para 58% em 2022, segundo dados do AI Talent Tracker da MacroPolo, um think-tank estadunidense. Em comparação, nos EUA, esse percentual era de cerca de 98% em 2022.

Atualmente, a China contribui com cerca de 40% dos artigos de pesquisa mundiais em IA, em contraste com aproximadamente 10% dos EUA e 15% da União Europeia e Reino Unido combinados. Um dos artigos de pesquisa mais citados de todos os tempos, demonstrando como redes neurais profundas podem ser treinadas para reconhecimento de imagens, foi escrito por pesquisadores de IA trabalhando na China, embora para a Microsoft, uma empresa dos EUA.

Crescimento em pesquisa e desenvolvimento

O crescimento na qualidade e quantidade da ciência chinesa parece improvável de parar tão cedo. Os gastos com pesquisa em ciência e tecnologia continuam aumentando, com o governo anunciando um aumento de 10% no financiamento para 2024.

Em 2020, as universidades chinesas concederam 1,4 milhão de diplomas em engenharia, sete vezes mais do que os EUA. A China agora educou, no nível de graduação, 2,5 vezes mais pesquisadores de IA de primeira linha do que os EUA. Até 2025, espera-se que as universidades chinesas produzam quase o dobro de doutores em ciência e tecnologia em comparação com os EUA.

https://revistaforum.com.br/global/chinaemfoco/2024/6/16/ascenso-cientifica-da-china-assusta-os-eua-160587.html

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Vale a pena tentar: ler só por prazer fará de você uma pessoa melhor

As experiências que a leitura proporciona podem nos ajudar a reconhecer como uma mesma situação pode afetar as pessoas de diferentes maneiras

Crédito Freepik


Veja Também

Art Markman – Fast Company Brasil – 22-06-2024 

De vez em quando, conseguimos ter um momento livre, seja durante as férias, em uma tarde de fim de semana ou antes de dormir. Nessas horas, procure deixar o celular de lado e pegar um livro.

Leia algo que você realmente goste. Não escolha com base no que acha que deveria estar lendo. Ficção, não-ficção, biografia – qualquer coisa que escolher está ótimo. Apenas escolha algo que vai te fazer querer continuar.

Quando alguém lê por prazer, acaba se tornando uma pessoa melhor, tanto na vida pessoal quanto profissional. Existem várias razões pelas quais a leitura pode ter um impacto maior do que outros meios de comunicação.

O TEMPO IMPORTA

Filmes e programas de TV são maravilhosos, mas as histórias nestas mídias são espremidas em doses rápidas e intervalos curtos de tempo. Livros proporcionam uma experiência mais tranquila. Mesmo um livro curto pode levar cinco horas para ser lido.

Essa imersão mais profunda nos dá tempo para pensar e viver com o impacto da narrativa. Uma obra de não-ficção pode nos transportar para um outro momento na história, para a vida de uma figura famosa, ou nos apresentar a um novo campo do conhecimento.

A literatura nos dá a chance de ver o mundo da perspectiva de alguém que passou por situações diferentes das nossas.

A ficção pode nos conectar com alguém muito diferente, que vive em circunstâncias muito distintas e experimenta emoções que não são comuns para nós. Ter tempo para refletir sobre esses elementos ao longo de dias ou semanas aprofunda o impacto que eles podem ter na forma como pensamos.

Embora tenhamos sido ensinados a otimizar o nosso tempo ao máximo, mudar a maneira como pensamos sobre algo é um processo naturalmente lento, que requer conviver com informações que diferem do que acreditamos. Ler nos prepara para isso.

NOVAS PERSPECTIVAS

A profundidade das nossas perspectivas se reflete na intensidade das nossas respostas emocionais. E a leitura tem três benefícios que podem nos ajudar a calibrar nossas reações.

Primeiro, ela nos apresenta uma variedade de eventos que vão além do que experimentamos por conta própria. Isso permite que coloquemos na balança o que estamos enfrentando no momento.

Em segundo lugar, frequentemente oferece insights sobre como outras pessoas lidam com situações. Por fim, quando não conseguimos nos desligar de algo do trabalho que está nos causando estresse, ela tem o poder de nos afastar um pouco da realidade.

INDO ALÉM DE NÓS MESMOS

Uma coisa que a leitura faz é permitir enxergar as outras pessoas de maneira diferente. A literatura frequentemente nos dá a chance de ver o mundo da perspectiva de alguém com características próprias que passou por situações diferentes das nossas.

A imersão profunda proporcionada pela leitura nos dá tempo para pensar e viver com o impacto da narrativa.

Biografias e ficções muitas vezes tratam de experiências que já vivemos. Isso nos ajuda a ver como certas características e situações afetam nosso comportamento e o de outras pessoas, o que reduz a diferença entre como nos vemos e como vemos os outros.

Em última análise, as experiências que a leitura nos proporciona podem nos fazer ter mais empatia e nos ajudar a reconhecer como uma mesma situação pode afetar as pessoas de diferentes maneiras.

VENDO O CONTEXTO

Todo evento é influenciado por mais do que apenas a situação imediata. No trabalho, uma ação específica pode ser certa ou errada, dependendo do contexto. Grandes líderes muitas vezes conseguem identificar fatores contextuais importantes e adaptar seus planos para se adequar a eles.

Infelizmente, o mundo não vem com um manual do que devemos considerar para decidir o que fazer. Aprendemos a nos adaptar às circunstâncias por meio de vários elementos, como experiência, mentores e conhecimento. E a leitura é outra fonte fantástica de aprendizado contextual.

A literatura pode mostrar que ações bem-intencionadas podem ter consequências negativas. Histórias de negócios bem-sucedidos podem apontar aspectos críticos do contexto. Biografias podem revelar como líderes importantes identificaram elementos que poderiam afetar resultados importantes.

Ler por prazer nos dá a chance de viver em outros contextos por um tempo, e isso pode nos ajudar a reconhecer fatores que poderiam mudar as ações que escolhemos tomar nas nossas próprias vidas.


SOBRE O AUTOR

Art Markman é PhD e professor de psicologia e marketing na Universidade do Texas e diretor-fundador do Programa nas Dimensões Humanas das Organizações.

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Ranking aponta o Brasil como o terceiro maior mercado mundial de energia solar

Informação consta do relatório “Global Market Outlook For Solar Power 2024”; no ranking, o país só perde para China e Estados Unidos

Avanço: o Brasil adicionou, em 2023, 15,4 gigawatts (GW) de potência pico da fonte solar fotovoltaica, representando cerca de 4% de todo o mercado mundial no período

Paula Pacheco – Exame – 21 de junho de 2024 

Recém-divulgado, o relatório “Global Market Outlook For Solar Power 2024 – 2028”, elaborado pela SolarPower Europe, aponta o Brasil como o terceiro maior mercado mundial de energia solar no último ano, atrás apenas da China e dos Estados Unidos.

O Brasil adicionou, em 2023, 15,4 gigawatts (GW) de potência pico da fonte solar fotovoltaica, representando cerca de 4% de todo o mercado mundial no período, segundo a Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (Absolar).

Os dados levam em consideração a somatória das grandes usinas solares e dos sistemas de geração própria solar de pequeno e médio portes, em telhados e fachadas de edifícios e em pequenos terrenos, com base na potência total adicionada ao longo de 2023.

Ranking mundial da fonte solar fotovoltaica – comparativo entre 2022 e 2023

Ranking mundial da fonte solar fotovoltaica

Fonte: SolarPower Europe, 2024 (Reprodução)

Metodologia

Ainda segundo explicação da Absolar, o estudo da SolarPower Europe está padronizado para a unidade de potência pico (GWp) e não a potência nominal instalada (GWac), que é o modelo mais utilizado nos dados divulgados publicamente pelos órgãos oficiais brasileiros. Segundo balanço da Absolar, no ano passado, foram adicionados cerca de 12 GWac da fonte solar, que representam os 15,4 GWp descritos no relatório da entidade europeia.

A expansão da tecnologia fotovoltaica coloca o Brasil em posição de destaque na geopolítica global de transição energética, avalia a associação. A fonte solar é a segunda maior na matriz elétrica nacional, com 43 GW em operação no país e participação equivalente a 18,2% da matriz elétrica nacional.

Rodrigo Sauaia, CEO da Absolar, afirma que a energia solar fotovoltaica é atualmente a fonte mais competitiva do país e se posiciona como uma forte propulsora do desenvolvimento social, econômico e ambiental.

“O crescimento acelerado da energia solar é tendência mundial e o avanço brasileiro nesta área é destaque internacional. O Brasil possui um dos melhores recursos solares do planeta e assume cada vez mais protagonismo neste processo de transição energética e combate ao aquecimento global”, diz Sauaia.

Já Ronaldo Koloszuk, presidente do Conselho de Administração da entidade, ressalta que, além de ser uma fonte competitiva e limpa, a maior inserção da energia solar é fundamental para o país reforçar a sua economia e impulsionar a sustentabilidade no Brasil e no mundo. “A fonte solar é um verdadeiro motor de desenvolvimento sustentável, que atrai capital, traz divisas, gera grandes oportunidades de negócios, cria novos empregos verdes e amplia a renda dos cidadãos.”

https://exame.com/esg/ranking-aponta-o-brasil-como-o-terceiro-maior-mercado-mundial-de-energia-solar/

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Chatbots espertos viram copiloto de atendentes de calls centers de empresas

Companhias utilizam soluções baseadas no GPT-4o, o ‘cérebro’ do ChatGPT, em sistemas de call center

Por Lucas Agrela – Estadão – 20/06/2024

Com a explosão da inteligência artificial (IA) generativa, imaginava-se que atendentes de call center seriam os primeiros substituídos por chatbots espertos, como o ChatGPT. No entanto, a tecnologia, por enquanto, é aliada desses trabalhadores, funcionando como uma espécie de copiloto no atendimento. Em vez de substituir os humanos no mercado de trabalho, a ideia é que os chatbots auxiliem os atendentes para serem mais ágeis e eficazes ao resolver demandas de clientes.

Na Vivo, a IA generativa já é utilizada por 11 mil funcionários e é capaz de reduzir o tempo de atendimento em 9% para consumidores e em 4% para empresas. Chamada I.Ajuda, a tecnologia da Vivo foi criada com base no GPT-3.5 e no GPT-4o, versões, respectivamente, mais básica e mais sofisticada dos cérebros do ChatGPT. A solução é construída com base na IA da Microsoft, o Azure OpenAI Service.

“Fomos a primeira empresa a comprar capacidade reservada para o call center. Isso permite atender o público em horários de pico”, diz Adriana Lika Shimomura, diretora de tecnologia e dados da Vivo.

Lika conta que, devido a aquisições de outras empresas, os sistemas da operadora de telecomunicações é complexo e a IA ajuda a simplificar o acesso do atendente. A IA da Vivo foi treinada com 2,4 mil documentos. “A IA reduz muito o erro humano porque mostra o procedimento correto. Ela é importante, especialmente, para os atendentes novos”, diz.

Em um caso de problema na internet de um cliente, a IA lista as possíveis causas, como instabilidade regional, instabilidade específica ou não pagamento de fatura, e fornece as soluções para o atendente informar ao consumidor. As informações aparecem na tela para o operador em, no máximo, 10 segundos. O próximo passo da Vivo com a IA será a implementação da transcrição de voz para texto para transcrever as conversas e analisar pontos a melhorar, além de sugerir ofertas que possivelmente sejam do interesse do cliente.

De acordo com estimativa da consultoria Statista, o mercado de inteligência artificial no Brasil está em uma forte trajetória de crescimento. Em 2024, o faturamento do setor deve atingir US$ 3,61 bilhões (R$ 19,6 bilhões), um salto anual de 35%. Entre os anos de 2024 e 2030, a estimativa é de uma taxa de crescimento anual de 28,61%, levando a uma receita total de US$ 16,34 bilhões até o fim da década. Para efeito de comparação, o mercado de IA nos Estados Unidos, o maior do mundo, tem projeção de atingir faturamento US$ 50,16 bilhões neste ano.

Focada em atendimento ao cliente, a Zendesk também oferece uma solução similar aos operadores do seu sistema, que processa 8 bilhões de solicitações diárias. Chamada Zendesk IA, a ferramenta digital permite tanto automatizar determinadas rotinas de atendimento quanto capacitar agentes para realizar o atendimento ao cliente de forma eficaz, oferecendo informações e contexto de uso dos procedimentos. As soluções de atendimento da empresa já permitem unificar os diferentes canais de atendimento, como redes sociais e WhatsApp, em uma única plataforma para o operador.

Também especializada no atendimento ao cliente, a Blip conta com uma solução de IA para o atendente, chamada Blip Copilot. Ela funciona como espécie de assistente virtual, auxiliando na execução de funções como operações de atendimento ou vendas e classificação os tickets por prioridade. Além disso, a plataforma fornece ao operador contextos sobre o consumidor e respostas precisas baseadas no contexto da conversa.

“A funcionalidade otimiza a eficiência operacional da equipe de atendimento, levando ganhos como a redução do tempo médio de atendimento, contexto mais rápido e preciso, respostas mais completas com agilidade, mais eficiência e assertividade. Isso só é possível por meio do uso das nossas features de resumos inteligentes e sugestão de respostas”, afirma o head de inteligência artificial da Blip, William Colen.

Ameaça para o futuro

O movimento de IAs como copilotos, no entanto, não deve evitar substituição no mercado de trabalho. O CEO da plataforma de inteligência conversacional WeClever, Rodolfo Reis, afirma que a IA deve ser tanto uma ajudante quanto substituta do profissional humano. “No futuro, acredito que teremos uma discussão sobre a necessidade de informar o consumidor de que ele está falando com uma IA”, afirma.

A própria WeClever reduziu o número de funcionários e transformou parte da sua equipe de consultores de atendimento em profissionais de design de conversas, utilizando o conhecimento adquirido pelos profissionais para ensinar a IA. Ou seja, os atendentes passam a ajudar no treinamento de sistemas de IA.

Na visão da Zendesk, 80% das interações com clientes serão resolvidas sem um agente humano nos próximos dois ou três anos e a IA estará envolvida em 100% dos seus processos.

A ideia de tirar os profissionais humanos de camadas de atendimento que podem ser facilmente automatizadas, por exemplo, é bastante difundida no mercado atualmente. Mas isso não deve parar por aí. O número de funcionários necessários para atender clientes mesmo em solicitações mais complexas deve continuar a diminuir. Isso já afeta inclusive as Big Techs, as maiores empresas de tecnologia do mundo.

A revista Fortune mostrou que, nos EUA, funcionários da Amazon temem que o treinamento que fazem para o software de atendimento ao cliente chamado AC3 seja um trabalho que levará à extinção dos seus empregos. “Antes era voltado para o funcionário e agora é voltada para o cliente”, disse à Fortune um funcionário do atendimento ao cliente. A Amazon não comentou o caso.

A troca de funcionários por tecnologias de atendimento já acontece no primeiro contato com os clientes há algum tempo, seja com chatbots ou com sistemas telefônicos. Mas isso deve avançar com a IA generativa. “Nos níveis macro, conseguimos substituir o atendimento humano em totalidade, otimizamos a quantidade de pessoas no atendimento, que passaram a ser mais especialistas do que profissionais de triagem. Em topo e meio de funil, o humano ficará cada vez mais achatado. O quanto ainda não podemos dimensionar”, afirma Reis, da WeClever.

Porém, o executivo diz que a IA ainda não é capaz de exibir empatia pelo cliente, como um ser humano pode ter, o que dificulta o entendimento em conversas mais complexas. Além disso, alerta que as empresas precisam tomar cuidados importantes ao utilizar esse tipo de tecnologia.

“O grande desafio é em relação à privacidade, à alucinação e à assertividade. A IA não pode ser ofensiva nem passar uma informação incorreta”, diz.

Custo e cuidados

O professor da Escola de Matemática Aplicada da Fundação Getulio Vargas (EMAp), Alexandre Rademaker, afirma que o uso da IA generativa nas empresas traz baixo custo e consistência no atendimento ao cliente. A padronização do atendimento pode, inclusive, melhorar a percepção de qualidade junto aos consumidores. Mas faz um alerta.

“Não basta instalar e IA e pronto. É um processo constante. Conforme ela é usada, novos dados são capturados diariamente. Por isso, os dados precisam ser constantemente realimentados para que a máquina esteja atualizada. Assim como qualquer empresa tem treinamento constante dos funcionários”, diz.

Mesmo tarefas de treinamento de IA, como a função de designer de conversas, geram temor de funcionários por estarem treinando seus futuros substitutos – ainda que seja necessário um treinamento recorrente, pode haver cortes de equipe.

Para Rademaker, as áreas que devem ser mais impactadas pela IA generativa nos próximos anos são atendimento ao cliente, pesquisa, simulações e descoberta de novos materiais.

https://www.estadao.com.br/link/empresas/chatbots-espertos-viram-copiloto-de-atendentes-de-calls-centers-de-empresas/

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Como a IA está revolucionando o desenvolvimento de medicamentos

Em laboratórios de alta tecnologia, os funcionários estão gerando dados para treinar algoritmos de IA a fim de projetar medicamentos melhores e mais rápidos

Por Steve Lohr – Estadão/The New York Times 19/06/2024 

O laboratório da Terray Therapeutics é uma sinfonia de automação miniaturizada. Robôs zunem transportando minúsculos tubos de fluidos para suas estações. Cientistas com jalecos azuis, luvas esterilizadas e óculos de proteção monitoram as máquinas.

Mas a verdadeira ação está acontecendo em nanoescala: proteínas em solução se combinam com moléculas químicas mantidas em poços minúsculos em chips de silício personalizados que são como forminhas de brigadeiro microscópicas. Cada interação é registrada, milhões e milhões por dia, gerando 50 terabytes de dados brutos diariamente – o equivalente a mais de 12 mil filmes.

O laboratório, com cerca de dois terços do tamanho de um campo de futebol, é uma fábrica de dados para a descoberta e o desenvolvimento de medicamentos assistidos por inteligência artificial (IA) em Monrovia, Califórnia. Ele faz parte de uma onda de empresas jovens e startups que tentam aproveitar a inteligência artificial (IA) para produzir medicamentos mais eficazes e mais rapidamente.

As empresas estão aproveitando a nova tecnologia – que aprende com enormes quantidades de dados para gerar respostas – para tentar refazer a descoberta de medicamentos. Elas estão mudando o campo de um trabalho artesanal meticuloso para uma precisão mais automatizada, uma mudança alimentada pela IA que aprende e fica mais inteligente.

“Quando você tem o tipo certo de dados, a IA pode trabalhar e se tornar muito, muito boa”, disse Jacob Berlin, cofundador e executivo-chefe da Terray.

Oportunidade

A maioria dos primeiros usos comerciais da IA generativa, que pode produzir de tudo, desde poesia até programas de computador, tem sido para ajudar a eliminar o trabalho penoso das tarefas rotineiras de escritório, atendimento ao cliente e elaboração de códigos. No entanto, a descoberta e o desenvolvimento de medicamentos é um setor enorme que, segundo os especialistas, está pronto para receber uma transformação da IA.

A IA é uma “oportunidade única no século” para o setor farmacêutico, de acordo com a empresa de consultoria McKinsey & Company.

Assim como os populares chatbots, como o ChatGPT, são treinados com base em textos da internet, e os geradores de imagens, como o DALL-E, aprendem com grandes quantidades de fotos e vídeos, a IA para a descoberta de medicamentos se baseia em dados. E são dados muito especializados – informações moleculares, estruturas de proteínas e medições de interações bioquímicas. A IA aprende com padrões nos dados para sugerir possíveis candidatos a medicamentos úteis, como se estivesse combinando chaves químicas com as fechaduras de proteínas certas.

Como a IA para o desenvolvimento de medicamentos é alimentada por dados científicos precisos, as “alucinações” tóxicas são muito menos prováveis do que com chatbots mais amplamente treinados. E qualquer medicamento em potencial deve passar por testes extensivos em laboratórios e em testes clínicos antes de ser aprovado para os pacientes.

Empresas como a Terray estão construindo grandes laboratórios de alta tecnologia para gerar as informações que ajudam a treinar a IA, o que permite a experimentação rápida e a capacidade de identificar padrões e fazer previsões sobre o que pode funcionar.

A IA generativa pode então projetar digitalmente uma molécula de medicamento. Esse projeto é traduzido, em um laboratório automatizado de alta velocidade, para uma molécula física e testado quanto à sua interação com uma proteína-alvo. Os resultados – positivos ou negativos – são registrados e alimentam o software de IA para aprimorar seu próximo projeto, acelerando o processo geral.

Longo caminho

Embora alguns medicamentos desenvolvidos por IA estejam em testes clínicos, ainda é cedo para uma conclusão.

“A IA generativa está transformando o campo, mas o processo de desenvolvimento de medicamentos é confuso e muito humano”, disse David Baker, bioquímico e diretor do Institute for Protein Design da Universidade de Washington.

Tradicionalmente, o desenvolvimento de medicamentos tem sido um empreendimento caro, demorado e de acerto ou erro. Os estudos sobre o custo do desenvolvimento de um medicamento e da realização de testes clínicos até a aprovação final variam muito. Mas a despesa total é estimada em US$ 1 bilhão, em média. O processo leva de 10 a 15 anos. E quase 90% dos medicamentos candidatos que entram em testes clínicos em humanos fracassam, geralmente por falta de eficácia ou efeitos colaterais imprevistos.

Os jovens desenvolvedores de medicamentos de IA estão se esforçando para usar sua tecnologia para melhorar essas chances e, ao mesmo tempo, reduzir o tempo e o dinheiro.

Sua fonte mais consistente de financiamento vem das gigantes farmacêuticas, que há muito tempo atuam como parceiros e banqueiros de empreendimentos de pesquisa menores. Os atuais fabricantes de medicamentos com IA geralmente se concentram na aceleração dos estágios pré-clínicos de desenvolvimento, que, convencionalmente, levam de quatro a sete anos. Alguns podem tentar entrar em testes clínicos por conta própria. Mas é nesse estágio que as grandes corporações farmacêuticas geralmente assumem o controle, operando os caros testes em humanos, que podem levar mais sete anos.

Para as empresas farmacêuticas estabelecidas, a estratégia de parceria é um caminho de custo relativamente baixo para explorar a inovação.

“Para elas, é como pegar um Uber para levá-lo a algum lugar em vez de ter que comprar um carro”, disse Gerardo Ubaghs Carrión, ex-banqueiro de investimentos em biotecnologia do Bank of America Securities.

As principais empresas farmacêuticas pagam a seus parceiros de pesquisa para que atinjam marcos em direção a candidatos a medicamentos, o que pode chegar a centenas de milhões de dólares ao longo dos anos. E se um medicamento for aprovado e se tornar um sucesso comercial, haverá um fluxo de receita de royalties.

Empresas como Terray, Recursion Pharmaceuticals, Schrödinger e Isomorphic Labs estão buscando avanços. Mas há, em linhas gerais, dois caminhos diferentes – aqueles que estão construindo grandes laboratórios e aqueles que não estão.

A Isomorphic, o spinout de descoberta de medicamentos do Google DeepMind, o grupo central de IA da gigante da tecnologia, acredita que quanto melhor for a IA, menos dados serão necessários. E está apostando em sua capacidade de software.

Em 2021, o Google DeepMind lançou um software que previa com precisão as formas em que as cadeias de aminoácidos se dobrariam como proteínas. Essas formas tridimensionais determinam o funcionamento de uma proteína. Isso foi um impulso para a compreensão biológica e útil para a descoberta de medicamentos, uma vez que as proteínas determinam o comportamento de todos os seres vivos.

No mês passado, o Google DeepMind e a Isomorphic anunciaram que seu mais recente modelo de IA, o AlphaFold 3, pode prever como as moléculas e as proteínas irão interagir – uma etapa adicional no projeto de medicamentos.

“Estamos nos concentrando na abordagem computacional”, disse Max Jaderberg, diretor de IA da Isomorphic. “Acreditamos que há um enorme potencial a ser desbloqueado.”

A Terray, como a maioria das startups de desenvolvimento de medicamentos, é um subproduto de anos de pesquisa científica combinada com desenvolvimentos mais recentes em IA.

Jacob Berlin, o executivo-chefe, que obteve seu Ph.D. em química pela Caltech, buscou avanços em nanotecnologia e química ao longo de sua carreira. A Terray surgiu de um projeto acadêmico iniciado há mais de uma década no centro de câncer City of Hope, perto de Los Angeles, onde Jacob Berlin tinha um grupo de pesquisa.

A Terray está se concentrando no desenvolvimento de medicamentos de moléculas pequenas, basicamente qualquer medicamento que uma pessoa possa ingerir em um comprimido, como aspirina e estatinas. As pílulas são fáceis de tomar e de produção barata.

Os laboratórios elegantes de Terray estão muito longe dos velhos tempos da academia, quando os dados eram armazenados em planilhas do Excel e a automação era um objetivo distante.

“Eu era o robô”, lembrou Kathleen Elison, cofundadora e cientista sênior da Terray.

Mas em 2018, quando a Terray foi fundada, as tecnologias necessárias para construir seu laboratório de dados de estilo industrial estavam progredindo rapidamente. A Terray contou com os avanços de fabricantes externos para produzir os chips em microescala que a Terray projeta. Seus laboratórios estão repletos de equipamentos automatizados, mas quase todos são personalizados, o que é possível graças aos avanços na tecnologia de impressão 3D.

Desde o início, a equipe da Terray reconheceu que a IA seria crucial para dar sentido aos seus armazenamentos de dados, mas o potencial da IA generativa no desenvolvimento de medicamentos só se tornou aparente mais tarde – embora antes de o ChatGPT se tornar um sucesso em 2022.

Narbe Mardirossian, cientista sênior da Amgen, tornou-se diretor de tecnologia da Terray em 2020, em parte devido à riqueza de dados gerados em laboratório. Sob o comando de Narbe Mardirossian, a Terray desenvolveu suas equipes de ciência de dados e criou um modelo de IA para traduzir dados químicos em matemática e vice-versa. A empresa lançou uma versão de código aberto.

A Terray tem acordos de parceria com a Bristol Myers Squibb e a Calico Life Sciences, uma subsidiária da Alphabet, empresa controladora do Google, que se concentra em doenças relacionadas à idade. Os termos desses acordos não foram divulgados.

Para expandir, a Terray precisará de fundos além de seus US$ 80 milhões em financiamento de risco, disse Eli Berlin, irmão mais novo de Jacob Berlin. Ele deixou um emprego em private equity para se tornar cofundador e diretor financeiro e operacional da startup, convencido de que a tecnologia poderia abrir as portas para um negócio lucrativo.

A Terray está desenvolvendo novos medicamentos para doenças inflamatórias, incluindo lúpus, psoríase e artrite reumatoide. A empresa, segundo Jacob Berlin, espera ter medicamentos em testes clínicos até o início de 2026.

As inovações na fabricação de medicamentos da Terray e de suas congêneres podem acelerar o processo, mas só até certo ponto.

“O teste definitivo para nós, e para o campo em geral, é se daqui a 10 anos você olhar para trás e puder dizer que a taxa de sucesso clínico aumentou muito e que temos medicamentos melhores para a saúde humana”, disse Jacob Berlin.

https://www.estadao.com.br/link/cultura-digital/como-a-ia-esta-revolucionando-o-desenvolvimento-de-medicamentos/

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Seis maneiras como a IA mudará a guerra e o mundo

Inteligência artificial pode fortalecer autocracias e dar a big techs uma influência desproporcional, mas também pode nivelar mercado

Hal Brands – Folha/Bloomberg – 16.jun.2024 

É colunista da Bloomberg e professor da cátedra Henry Kissinger de estudos internacionais avançados da Universidade Johns Hopkins. Bloomberg 

A inteligência artificial mudará nossas vidas de inúmeras maneiras: como os governos servem seus cidadãos; como dirigimos (e somos dirigidos); como administramos e, espera-se, guardamos nossas finanças; como os médicos diagnosticam e tratam doenças; até mesmo como meus alunos pesquisam e escrevem seus ensaios. Mas quão revolucionária será a IA? Ela irá desequilibrar o poder global? Permitirá que as autocracias dominem o mundo? Tornará a guerra tão rápida e feroz que se tornará incontrolável? Em suma, a IA alterará fundamentalmente os ritmos dos debates mundiais? 

É claro que é cedo demais para dizer definitivamente: Os efeitos da IA dependerão, em última instância, das decisões que líderes e nações tomarem, e a tecnologia às vezes toma rumos surpreendentes. Mas mesmo enquanto somos impressionados e preocupados com a próxima versão do ChatGPT, precisamos lidar com seis questões mais profundas sobre os assuntos internacionais na era da IA. E precisamos considerar uma possibilidade surpreendente: talvez a IA não mude o mundo tanto quanto esperamos. 

1) A IA TORNARÁ A GUERRA INCONTROLÁVEL? 

Considere uma afirmação —que a inteligência artificial tornará o conflito mais letal e mais difícil de conter. Analistas imaginam um futuro em que máquinas possam pilotar caças com mais habilidade do que humanos, ciberataques habilitados por IA devastem redes inimigas, e algoritmos avançados acelerem a velocidade das decisões. Alguns alertam que a tomada de decisões automatizada poderia desencadear uma escalada rápida —até mesmo uma escalada nuclear— que deixaria os formuladores de políticas se perguntando o que aconteceu. 

Se planos de guerra e horários de trens causaram a Primeira Guerra Mundial, talvez a IA cause a Terceira Guerra Mundial. Que a IA mudará a guerra é inegável. Desde possibilitar a manutenção preditiva de hardware até facilitar melhorias surpreendentes no direcionamento de precisão, as possibilidades são muitas. Um único F-35, liderando um enxame de drones semiautônomos, poderia empunhar o poder de fogo de uma asa inteira de bombardeiros. Como concluiu a Comissão de Segurança Nacional sobre Inteligência Artificial em 2021, uma “nova era de conflito” será dominada pelo lado que se apoderar de “novas formas de guerra”. 

Não há, contudo, nada fundamentalmente novo aqui. A história da guerra ao longo dos séculos é uma em que a inovação regularmente torna o combate mais rápido e intenso. Portanto, pense duas vezes antes de aceitar a proposição de que a IA tornará a escalada incontrolável. Os EUA e a China discutiram um acordo para não automatizar seus processos de comando e controle nuclear —um compromisso que Washington fez independentemente— pelo simples motivo de que os estados têm fortes incentivos para não abrir mão do controle sobre armas cujo uso poderia colocar em perigo sua própria sobrevivência. 

O comportamento da Rússia, incluindo o desenvolvimento de torpedos armados com armas nucleares que eventualmente poderiam operar autonomamente, é uma preocupação maior. Mas mesmo durante a Guerra Fria, quando Moscou construiu um sistema destinado a garantir a retaliação nuclear mesmo se sua liderança fosse eliminada, nunca desligou os controles humanos. Espere que as grandes potências de hoje explorem agressivamente as possibilidades militares que a IA apresenta —enquanto tentam manter as decisões mais críticas nas mãos humanas. Na verdade, a IA poderia reduzir o risco de escalada vertiginosa, ajudando os tomadores de decisão a enxergar através da névoa da crise e da guerra. 

O Pentágono acredita que ferramentas de inteligência e análise habilitadas por IA podem ajudar os humanos a filtrar informações confusas ou fragmentadas sobre os preparativos de guerra de um inimigo, ou mesmo se um temido ataque de míssil está de fato em andamento. Isso não é ficção científica: A assistência da IA teria ajudado analistas de inteligência dos EUA a descobrir a invasão do presidente russo Vladimir Putin à Ucrânia em 2022. Nesse sentido, a IA pode mitigar a incerteza e o medo que levam as pessoas a reações extremas. Ao fornecer aos formuladores de políticas uma compreensão maior dos eventos, a IA também pode melhorar sua capacidade de gerenciá-los. 

2) A IA AJUDARÁ AUTOCRACIAS COMO A CHINA A CONTROLAR O MUNDO? 

E quanto a um pesadelo relacionado —que a IA ajudará as forças da tirania a controlar o futuro? Analistas como Yuval Noah Harari alertaram que a inteligência artificial reduzirá os custos e aumentará os retornos da repressão. Os serviços de inteligência equipados com IA precisarão de menos mão de obra para decifrar as vastas quantidades de informações que coletam sobre suas populações —permitindo-lhes, por exemplo, mapear precisamente e desmantelar impiedosamente redes de protesto. Eles usarão tecnologia de reconhecimento facial habilitada por IA para monitorar e controlar seus cidadãos, enquanto empregam desinformação criada por IA para desacreditar críticos em casa e no exterior. 

Ao tornar a autocracia cada vez mais eficiente, a IA poderia permitir que os ditadores dominem a era que se inicia. Isso é certamente o que a China espera. O governo do presidente Xi Jinping desenvolveu um sistema de “pontuação social” que utiliza inteligência artificial, reconhecimento facial e big data para garantir a confiabilidade de seus cidadãos —regulando seu acesso a tudo, desde empréstimos com juros baixos até passagens de avião. A vigilância onipresente assistida por IA transformou Xinjiang em um modelo distópico de repressão moderna. 

Pequim pretende assumir as “alturas estratégicas de comando” da inovação porque acredita que a IA pode fortalecer seu sistema interno e seu poder militar. Está utilizando o poder do estado não liberal para direcionar dinheiro e talento para tecnologias avançadas. No entanto, não é garantido que as autocracias sairão na frente. Acreditar que a IA favorece fundamentalmente a autocracia é acreditar que alguns dos mais vitais e duradouros facilitadores da inovação —como fluxos abertos de informação e tolerância ao dissenso— já não são tão importantes. No entanto, a autocracia já está limitando o potencial da China. 

Construir modelos de linguagem grandes e poderosos requer enormes conjuntos de informações. Mas se esses inputs estiverem contaminados ou enviesados porque a internet da China é tão fortemente censurada, a qualidade dos outputs sofrerá. Um sistema cada vez mais repressivo também terá dificuldade, ao longo do tempo, em atrair os melhores talentos: é significativo que 38% dos principais pesquisadores de IA nos EUA sejam originalmente da China. E a tecnologia inteligente ainda deve ser usada pelas instituições governamentais da China, que estão se tornando progressivamente menos inteligentes —ou seja, menos competentes tecnicamente— à medida que o sistema político se torna cada vez mais subserviente a um imperador vitalício. A China será uma concorrente tecnológica formidável. Mas mesmo na era da IA, Xi e seus irmãos não liberais podem ter dificuldade em escapar do arrasto competitivo que a autocracia cria. 

3) A IA FAVORECERÁ OS MELHORES OU OS DEMAIS? 

Algumas tecnologias diminuem a lacuna entre as sociedades mais e menos avançadas tecnologicamente. Armas nucleares, por exemplo, permitem que países relativamente pequenos, como a Coreia do Norte, compensem as vantagens militares e econômicas de uma superpotência e seus aliados. Outras ampliam a divisão: no século XIX, rifles de repetição, metralhadoras e navios a vapor permitiram que as sociedades europeias subjugassem vastas áreas do mundo.

Em alguns aspectos, a IA empoderará os mais fracos. Autoridades dos EUA se preocupam que modelos de linguagem grandes possam ajudar terroristas com kits de ciência rudimentares a construir armas biológicas. Estados rebeldes, como o Irã, podem usar a IA para coordenar enxames de drones contra navios de guerra dos EUA no Golfo Pérsico. De forma mais benigna, a IA poderia expandir o acesso a serviços básicos de saúde no Sul Global, gerando grandes retornos em aumento da expectativa de vida e produtividade econômica. 

Em outros aspectos, no entanto, a IA será um jogo de ricos. Desenvolver IA de ponta é absurdamente caro. Treinar grandes modelos de linguagem pode exigir investimentos maciços e acesso a uma quantidade finita de cientistas e engenheiros de ponta —sem mencionar quantidades impressionantes de eletricidade. Algumas estimativas colocam o custo da infraestrutura que suporta o chatbot de IA da Microsoft Bing em US$ 4 bilhões. Quase qualquer um pode ser um usuário de IA —mas ser um criador requer recursos abundantes. É por isso que as potências intermediárias que estão fazendo grandes avanços em IA, como Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos, têm bolsos muito fundos. Muitos dos primeiros líderes na corrida da IA são gigantes da tecnologia (Alphabet, Microsoft, Meta, IBM, Nvidia e outros) ou empresas com acesso ao seu dinheiro (OpenAI). E os EUA, com seu setor de tecnologia vibrante e bem financiado, ainda lideram o campo. 

O que é verdadeiro no setor privado também pode ser verdadeiro no campo da guerra. No início, os benefícios militares das novas tecnologias podem fluir de forma desproporcional para países com orçamentos de defesa generosos necessários para desenvolver e implantar novas capacidades em escala. Tudo isso pode mudar: Lideranças iniciais nem sempre se traduzem em vantagens duradouras. Novatos, sejam empresas ou países, já perturbaram outros campos antes. Por enquanto, no entanto, a IA pode fazer mais para reforçar do que revolucionar o equilíbrio de poder. 

4) A IA IRÁ FRATURAR OU FORTALECER COALIZÕES? 

Como a inteligência artificial afeta o equilíbrio de poder depende de como ela afeta as coalizões globais. Conforme analistas do Centro de Segurança e Tecnologias Emergentes da Universidade de Georgetown documentaram, os EUA e seus aliados podem superar em muito a China em gastos com tecnologias avançadas —mas apenas se combinarem seus recursos. A melhor esperança de Pequim é que o mundo livre se divida em relação à IA. Desvendando IA Um guia do New York Times em formato de newsletter para você entender como funciona a IA Carregando… Pode acontecer. Washington preocupa-se que a abordagem emergente da Europa à regulamentação da IA generativa possa sufocar a inovação: Nesse sentido, a IA está destacando abordagens divergentes dos EUA e da Europa em relação a mercados e riscos. 

Outra democracia-chave, a Índia, prefere autonomia estratégica à alinhamento estratégico —tanto em tecnologia quanto em geopolítica, prefere seguir seu próprio caminho. Enquanto isso, alguns dos parceiros não democráticos de Washington, nomeadamente Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos, exploraram laços tecnológicos mais estreitos com Pequim. Mas é prematuro concluir que a IA irá transformar fundamentalmente as alianças dos EUA. Em alguns casos, os EUA estão usando com sucesso essas alianças como ferramentas de competição tecnológica: Veja como Washington convenceu Japão e Holanda a limitar o acesso da China a semicondutores de alta qualidade. 

Os EUA também estão alavancando parcerias de segurança com Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos para impor limites em suas relações tecnológicas com Pequim, e para promover parcerias de IA entre empresas americanas e dos Emirados Árabes Unidos. Nesse sentido, alinhamentos geopolíticos estão moldando o desenvolvimento da IA, em vez do contrário. Mais fundamentalmente, as preferências dos países em relação à IA estão relacionadas às suas preferências em relação à ordem doméstica e internacional. Portanto, quaisquer diferenças que os EUA e a Europa tenham podem ser insignificantes em comparação com seus medos compartilhados do que acontecerá se a China avançar para a supremacia. Europa e América podem, por fim, encontrar um caminho para uma maior alinhamento em questões de IA —assim como a hostilidade compartilhada ao poder dos EUA está levando China e Rússia a cooperar mais estreitamente nas aplicações militares da tecnologia hoje. 

5) A IA IRÁ DOMAR OU INFLAMAR A RIVALIDADE ENTRE GRANDES POTÊNCIAS? 

Muitas dessas questões estão relacionadas a como a IA afetará a intensidade da competição entre o Ocidente liderado pelos EUA e as potências autocráticas lideradas pela China. Ninguém realmente sabe se a IA desenfreada poderia realmente ameaçar a humanidade. Mas riscos existenciais compartilhados às vezes fazem com que estranhos se unam. 

Durante a Guerra Fria original, os EUA e a União Soviética cooperaram para gerenciar os perigos associados às armas nucleares. Durante a nova Guerra Fria, talvez Washington e Pequim encontrem um propósito comum em impedir que a IA seja usada para propósitos malévolos, como bioterrorismo ou ameaçar países em ambos os lados das divisões geopolíticas atuais. No entanto, a analogia funciona nos dois sentidos, porque as armas nucleares também tornaram a Guerra Fria mais intensa e assustadora. Washington e Moscou tiveram que navegar por confrontos de alto risco, como a Crise dos Mísseis em Cuba e várias crises em Berlim, antes de uma estabilidade precária se estabelecer. 

Hoje, o controle de armas de IA parece ser ainda mais desafiador do que o controle de armas nucleares, porque o desenvolvimento de IA é tão difícil de monitorar e os benefícios da vantagem unilateral são tão tentadores. Portanto, mesmo que os EUA e a China iniciem um diálogo incipiente sobre IA, a tecnologia está acelerando sua competição. A IA está no centro de uma guerra tecnológica sino-americana, à medida que a China usa métodos justos e sujos para acelerar seu próprio desenvolvimento e os EUA implementam controles de exportação, restrições de investimento e outras medidas para bloquear o caminho de Pequim. 

Se a China não puder acelerar seu progresso tecnológico, diz Xi, ela corre o risco de ser “estrangulada” por Washington. A IA também está alimentando uma luta pela superioridade militar no Pacífico Ocidental: A Iniciativa Replicadora do Pentágono prevê o uso de milhares de drones habilitados por IA para aniquilar uma frota de invasão chinesa em direção a Taiwan. Poderes rivais eventualmente encontrarão maneiras de cooperar, talvez tacitamente, sobre os perigos mútuos que a IA representa. Mas uma tecnologia transformadora intensificará muitos aspectos de sua rivalidade entre agora e então. 

6) A IA TORNARÁ O SETOR PRIVADO SUPERIOR AO PÚBLICO? 

A IA, sem dúvida, mudará o equilíbrio de influência entre os setores público e privado. As analogias entre a IA e as armas nucleares podem ser esclarecedoras, mas apenas até certo ponto: a ideia de um Projeto Manhattan para a IA é enganosa porque é um campo onde o dinheiro, a inovação e o talento são encontrados predominantemente no setor privado. As empresas na vanguarda da IA estão se tornando atores geopolíticos poderosos —e os governos sabem disso. 

Quando Elon Musk e outros especialistas defenderam uma moratória no desenvolvimento de modelos avançados de IA em 2023, Washington instou as empresas de tecnologia a não pararem —porque fazê-lo simplesmente ajudaria a China a alcançar os EUA. A política governamental pode acelerar ou retardar a inovação. Mas em grande medida, as perspectivas estratégicas da América dependem das conquistas das empresas privadas. 

É importante não levar esse argumento longe demais. A fusão civil-militar da China visa garantir que o estado possa direcionar e explorar a inovação do setor privado. Embora os EUA, como democracia, não possam realmente imitar essa abordagem, a concentração de grande poder nas empresas privadas trará uma resposta do governo. Washington está participando, embora hesitante, de um debate sobre a melhor forma de regular a IA para fomentar a inovação, ao mesmo tempo em que limita usos malignos e acidentes catastróficos. 

O braço longo do poder estatal está ativo de outras maneiras também: os EUA nunca permitiriam que investidores chineses comprassem as principais empresas de IA do país, e está restringindo o investimento americano nos setores de IA de estados adversários. E quando o Silicon Valley Bank, que detinha os depósitos de muitas empresas e investidores do setor de tecnologia, caminhava para a insolvência, preocupações geopolíticas ajudaram a iniciar um resgate do governo. 

Também se espera, nos próximos anos, uma ênfase maior do governo em ajudar o Pentágono a estimular o desenvolvimento de tecnologias militarmente relevantes —e tornar mais fácil transformar a inovação do setor privado em armas vencedoras de guerra. Quanto mais estrategicamente relevante a IA for, menos dispostos os governos estarão a simplesmente deixar o mercado fazer seu trabalho. Não podemos prever o futuro: a IA pode chegar a um beco sem saída, ou pode acelerar além das expectativas de qualquer pessoa. 

Além disso, a tecnologia não é uma força autônoma. Seu desenvolvimento e efeitos serão moldados por decisões em Washington e ao redor do mundo. Por enquanto, a chave é fazer as perguntas certas, porque isso nos ajuda a entender as apostas dessas decisões. Isso nos ajuda a imaginar os vários futuros que a IA poderia moldar. Não menos importante, ilustra que talvez a IA não cause um terremoto geopolítico afinal. 

Certamente, há motivos para temer que a IA torne a guerra incontrolável, desequilibre o poder, frature as alianças dos EUA ou favoreça fundamentalmente as autocracias sobre as democracias. Mas também há boas razões para suspeitar que não o fará. Isso não é para aconselhar a complacência. Evitar resultados mais perigosos exigirá esforços enérgicos e escolhas inteligentes. De fato, o valor principal deste exercício é mostrar que uma ampla gama de cenários é possível – e os piores não se fecharão simplesmente. 

Se a IA favorece a autocracia ou a democracia depende, em parte, de se os EUA adotam políticas de imigração esclarecidas que ajudam a reter talentos de alto nível. Se a IA reforça ou fratura as alianças dos EUA depende de se Washington trata essas alianças como ativos a serem protegidos ou como fardos a serem descartados. Se a IA mantém ou mina a hierarquia internacional existente, e o quanto ela muda a relação entre o setor privado e o estado, depende de quão sabiamente os EUA e outros países regulamentam seu desenvolvimento e uso. O que não há dúvida é que a IA abre perspectivas inspiradoras e possibilidades terríveis. O objetivo da América deve ser inovar de forma implacável e responsável o suficiente para que a ordem mundial basicamente favorável não mude fundamentalmente —mesmo quando a tecnologia o fizer. 

https://www1.folha.uol.com.br/tec/2024/06/seis-maneiras-como-a-ia-mudara-a-guerra-e-o-mundo.shtml

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Na ArcelorMittal, startups e inovação vão ter que dar bilhão no balanço

Por Rennan Setti – O Globo – 17/06/2024 

Maior produtora de aço do Brasil, a ArcelorMittal decidiu que seus investimentos em startups e outras iniciativas de inovação — como aplicações de inteligência artificial (IA) — terão que ter impacto concreto no balanço. A siderúrgica contratou a consultoria Boston Consulting Group (BCG) para ajudá-la a elaborar um plano que prevê a geração de cerca de R$ 1 bilhão adicional em Ebitda, o lucro antes de impostos, juros e depreciação, até 2028. A cifra equivale a 11% do Ebitda registrado pela companhia no Brasil no ano passado.

A siderúrgica colocou no papel 60 projetos. Da cifra total, R$ 635 milhões terão que ser gerados por redução de custo e ganhos de eficiência. Já o relacionamento com startups, entre novos negócios desenvolvidos em parceria e o portfólio de empresas inovadoras investidas, vai agregar R$ 365 milhões no balanço, prevê o plano. Já este ano, as iniciativas terão que entregar R$ 135 milhões em resultado.

— Não é um sonho ou algo abstrato, decidimos elaborar um plano claro e definido, com metas que precisam ser alcançadas. Porque nosso objetivo não é inovar por inovar, tem que haver resultado — afirma Jefferson de Paula, presidente no Brasil da companhia, multinacional com sede em Luxemburgo e controlada por uma família indiana.

Inteligência artificial

A ArcelorMittal se aproximou de startups de maneira mais incisiva em 2018, quando abriu em Nova Lima (MG) o Açolab. De acordo com o CEO, o laboratório de “inovação aberta” foi criado para acelerar os processos de uma companhia cujas dimensões — são 126 mil funcionários pelo mundo — acabam tornando-a mais lenta. Ele calcula que o Açolab tenha proporcionado contato com 6 mil startups brasileiras.

Em 2021, o relacionamento estreitou com a criação do Açolab Ventures, com R$ 100 milhões para investir nas startups. Cerca de metade do dinheiro já foi investido em seis startups desde então, entre elas Modularis (construção modular) e Vertown (gestão de resíduos).

— Esse tipo de iniciativa nos ajuda até em termos de recursos humanos. Hoje em dia, se você se posiciona somente como uma indústria tradicional, é difícil atrair os melhores jovens profissionais. Você fica para trás — justifica o CEO.

A eficiência é uma das aspirações dessa proximidade com startups. Jefferson de Paula cita o exemplo da Sipremo, que usa inteligência artificial para monitorar as florestas de eucalipto e pinus da siderúrgica em Minas Gerais — a companhia produz carvão vegetal para atenuar a pegada ambiental dos seus altos-fornos.

— O sistema nos ajuda a analisar o solo e saber onde o pesticida é necessário para controlar pragas. Sozinha, a aplicação reduziu em 40% nosso custo com essa operação — acrescenta.

Jefferson de Paula diz que uma das ambições do plano é fazer valer a aposta em inteligência artificial. A companhia tem aberto laboratórios que lidam com o tema, como o iNO.VC, que fica na unidade do Espírito Santo. Caberá a uma ferramenta de IA, por exemplo, reduzir em R$ 25 milhões os custos associados a problemas no laminador de aço da planta de Resende (RJ). A siderúrgica criou um modelo preditivo e vai expandir a tecnologia para todos os laminadores da empresa no Brasil.

‘Não tem como o Brasil não crescer’

A inovação terá que entrar no balanço no momento em que a ArcelorMittal e outras siderúrgicas são pressionadas pela enxurrada de aço chinês no mercado nacional. No ano passado, o Ebitda da ArcelorMittal no Brasil encolheu 38% nesse cenário. No fim de abril, após queixas do setor, o governo anunciou cotas para a importação de aço, com imposto aumentado para 25% sobre o excedente.

— Não foi o que a gente queria. A gente pedia uma tarifa de 25%, sem cota. Mas foi um passo importante. Falamos com Lula, Alckmin e Haddad, e o governo se comprometeu a fazer um acompanhamento. Ele está sensível e, caso não esteja funcionando, se comprometeu a tomar outras medidas — diz o CEO, que também preside o conselho do Instituto Aço Brasil.

A despeito da pressão do aço chinês, a ArcelorMittal Brasil está implementando um plano de investimento de R$ 25 bilhões. Na cifra estão a compra da antiga Companhia Siderúrgica do Pecém (Ceará), que era controlada pela Vale e foi adquirida por R$ 11,2 bilhões no ano passado; e a joint-venture de geração eólica com a Casa dos Ventos, um projeto de R$ 4,2 bilhões.

— A infraestrutura aqui é muito ruim, isso vai demandar muito aço. O consumo anual é de 108 quilos por habitante, contra 220 da média mundial. Uma hora, vamos chegar à média. Vai demorar cinco, dez anos? Não sei. Mas não tem como o Brasil não crescer — conclui.

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