Você maratona, eles lucram: veja o que está por trás dos algoritmos

Com números superlativos de usuários e consumo, plataformas de streaming e redes sociais aproveitam a nossa obsessão por consumir conteúdos – e ganham dinheiro com isso

Soraia Alves –  Exame – 29 de outubro de 2024 

Quando a primeira temporada de Making a Murderer estreou na Netflix, em dezembro de 2015, nem a plataforma de streaming esperava tamanha repercussão. “Eu definitivamente fiquei surpreso”, disse Reed Hastings, cofundador e então CEO da empresa, em diferentes entrevistas da época. Antes do sucesso, o projeto, que passou 13 anos sendo estruturado pelos criadores, foi rejeitado por outras companhias, incluindo a HBO.

Na Netflix, porém, o material foi transformado em uma série documental com dez episódios que mostram a saga de um homem americano que passou 18 anos preso e foi libertado depois de um exame de DNA provar sua inocência. A produção foi um sucesso instantâneo e um dos primeiros conteúdos virais da plataforma a ultrapassar nichos de espectadores: (quase) todo mundo viu Making a Murderer. Eu também vi.

E, nove anos depois de acompanhar a série, que foi o primeiro conteúdo no estilo true crime ao qual assisti na plataforma, o gênero continua entre as principais recomendações que o streaming me oferece. Isso porque, de lá para cá, foram diversos conteúdos consumidos com a temática, incluindo o sucesso mais recente da plataforma, Monstros: Irmãos Menendez, minissérie de Ryan Murphy que alcançou 12,3 milhões de visualizações em seu fim de semana de estreia, em setembro deste ano.

Uma “bolha de consumo”

Para muitos especialistas da cultura e da tecnologia, o que explica essa fidelidade que desenvolvemos com um gênero específico no streaming, ou mesmo com uma temática nas redes sociais, é uma tecnologia discreta, mas que há anos é o foco de investimento das big techs: os algoritmos.

“Existe uma discussão constante sobre os algoritmos serem os responsáveis por nos manter dentro de uma bolha de consumo. Realmente, eles funcionam como um cercadinho, nos oferecendo cada vez mais sobre um tema de que gostamos”, analisa Carlos Rafael Neves, professor do curso de ciências de dados e negócios da ESPM. “Mas existe um truque: os algoritmos também conseguem diversificar as sugestões com base em análises de usuários com gostos similares aos seus. Então, ocasionalmente, você vai ampliando o seu nicho de consumo, mas sem sair da bolha.”

Fidelização é realmente o porquê de empresas como Meta, Netflix e Spotify, líderes em seus respectivos mercados, investirem pesado na tecnologia para impulsionar os seus negócios. Segundo Kefreen Batista, vice-presidente de tecnologias da consultoria digital Globant, a ideia é que, ao personalizar a experiência do usuário, “essas empresas conseguem aumentar o engajamento e a fidelização, o que se traduz em receitas, seja por meio de assinaturas, seja por publicidade, seja por vendas de conteúdo”.

Decisões orientadas

Dentro das plataformas de streaming e das redes sociais, os algoritmos são utilizados para processar grandes volumes de dados, realizar análises, identificar padrões e tomar decisões com base nessas informações. Com esses insights, as plataformas conseguem entregar conteúdos, anúncios e experiências específicas para cada usuário.

“De forma geral, todos os algoritmos são semelhantes quanto ao seu modus operandi técnico. Funcionam de forma sequencial e com base na análise das repetições do usuário. Mas cada plataforma vai ter as suas particularidades sobre quais informações são analisadas”, explica Neves.

É difícil estimar quanto as big techs investem exatamente no desenvolvimento de algoritmos, uma vez que as empresas não revelam dados tão específicos. Mas é possível ter uma ideia. No caso da Meta, o CEO Mark Zuckerberg revelou recentemente que a empresa deve investir até 40 bilhões de dólares em tecnologia, especialmente em inteligência artificial, até o fim de 2024.

Parte desses investimentos retorna para a empresa na forma de orientações estratégicas. Como destaca o executivo da Globant, da mesma forma que os algoritmos ditam qual conteú­do as plataformas entregarão para um usuá­rio, eles funcionam como uma bússola que, ao identificar tendências e oportunidades de mercado, orienta sobre onde alocar recursos para desenvolvimento e inovação.

“Ao perceber um aumento no consumo de determinado tipo de conteúdo ou funcionalidade, a empresa pode investir em aprimorar essa área ou desenvolver novas ferramentas relacionadas. Isso permite que as empresas inovem e se adaptem mais rapidamente do que concorrentes menos orientados por dados”, conclui Batista.

A Meta usa bastante essa orientação dentro de seus negócios, especialmente com o Instagram. Você lembra como era o seu feed da rede social há cerca de dez anos? Ao abrir o app, provavelmente você veria postagens de amigos e familiares, todas no formato de fotos e em ordem cronológica. A visão é bem diferente da que temos hoje, com conteúdos que mesclam fotos e vídeos de conhecidos, desconhecidos, influenciadores, celebridades e assuntos que a plataforma sabe que agradam ao usuário.

“Ao identificar tendências como o aumento do consumo de vídeos curtos, a Meta direcionou investimentos para aprimorar recursos como o Reels, competindo diretamente com plataformas como o TikTok. Isso conecta a análise algorítmica com a decisão de investir em formatos que mantenham os usuários engajados”, analisa o executivo da Globant.

Rafael Campos, head de marketing para parceiros da Meta na América Latina, conta que, nos últimos anos, a empresa tem feito mudanças estratégicas com foco nos criadores de conteúdo, especialmente para garantir que criadores de todos os tamanhos tenham a oportunidade de alcançar novos públicos dentro do Instagram. “Um exemplo é a introdução de uma nova forma de classificar recomendações, que favorece a distribuição de conteúdo original e dá mais visibilidade a criadores menores”, conta.

O executivo também explica que o Instagram utiliza uma variedade de algoritmos, classificadores e processos para moldar as ferramentas e experiências dentro do aplicativo. “Não existe um único algoritmo responsável por todas as decisões. Cada área do app, como o Feed, o Explorar e os Reels, conta com algoritmos específicos que são projetados para responder à maneira como os usuários interagem com esses recursos”, explica.

As estratégias têm dado certo. Com mais de 2 bilhões de usuários, o Instagram continua crescendo apesar da rivalidade com seu principal concorrente, o TikTok. Segundo a empresa de análise de mercado Sensor Tower, em 2023 a rede social da Meta teve um crescimento de 20% no número total de downloads, somando 768 milhões.

“Esses impactos estão interconectados, criando um círculo virtuoso onde a melhora da experiência do usuário alimenta o crescimento do negócio, que por sua vez permite mais investimentos em tecnologia algorítmica”, ressalta Batista.

Déjà vu cultural

Entre as tomadas de decisões que orientam as empresas, os algoritmos também ajudam a definir as próprias produções culturais. Desde os seus primeiros conteúdos originais, a Netflix utiliza os dados coletados na plataforma para decidir quais programas e filmes produzir, quais devem ou não ser renovados e com quem eles devem ser compartilhados.

Segundo a companhia, no caso de House of Cards, o primeiro grande hit original da plataforma, a companhia já esperava que a produção seria um sucesso, justamente porque o seu algoritmo havia previsto a popularidade do conteúdo entre os assinantes. Antes mesmo de criar o roteiro, a tecnologia da plataforma indicou o interesse de muitos espectadores por produções com temática política e informou, inclusive, que David Fincher era o nome ideal para produzir e dirigir a série.

Os insights do algoritmo deram certo: em seu lançamento, House of Cards foi a série mais vista nos Estados Unidos e em outros 40 países. Alguns especialistas afirmam que esse hiperfoco na personalização é, na verdade, um problema para a indústria cultural. No livro Filterworld: How Algorithms Flattened Culture, o jornalista e crítico cultural Kyle Chayka afirma que as recomendações algorítmicas alteraram fundamentalmente a forma como consumimos música, cinema, artes visuais, literatura, moda, jornalismo e até comida.

Para ele, os algoritmos não apenas influenciam o que vemos ou ignoramos, mas criam um tipo insosso de déjà vu cultural, no qual estamos sempre consumindo conteúdos semelhantes. “A cultura dos algoritmos é, em última análise, homogênea”, escreve Chayka, “marcada por um senso generalizado de mesmice, mesmo quando seus artefatos não são literalmente os mesmos”.

Podemos ver coisas vindas de diferentes fontes de conteúdo, diz ele, mas elas são cada vez “mais do mesmo”. Isso, portanto, seria o oposto da personalização que as plataformas de streaming e as redes sociais prometem, observa Chayka.

Francisco Chang, VP sênior para a América Latina da Kore.ai, concorda com Chayka. “À medida que mais empresas adotam a personalização, há o risco de saturação. Quando tudo é personalizado, a diferenciação se torna mais difícil, e as expectativas dos consumidores aumentam. As empresas precisam encontrar maneiras de oferecer personalização de valor que vá além do básico e realmente ressoe com as necessidades individuais dos usuários.”

Historiador e autor de best-sellers como Sapiens: Uma Breve História da Humanidade e 21 Lições para o Século 21, Yuval Noah Harari é ainda mais crítico sobre a influência dos algoritmos na cultura. “Eles têm o poder de manipular seus sentimentos e substituir completamente as suas decisões. No TikTok e no Facebook, é um algoritmo que decide quais mensagens receberão mais atenção. E isso molda a opinião pública, a cultura humana”, disse recentemente em entrevista ao jornal espanhol La Vanguardia.

Milhares de usuários, bilhões de dados…

Em setembro, a Netflix revelou em seu Relatório de Engajamento, com dados do primeiro semestre, que os seus assinantes consumiram um total de 94 bilhões de horas de conteúdo na plataforma durante o período. No documento, a empresa atribui o número ao sucesso de suas histórias que, segundo ela, têm mantido os assinantes engajados e satisfeitos — no total, são mais de 18.000 títulos entre filmes, séries e reality shows no streaming.

Anteriormente, ao divulgar os resultados do segundo trimestre de 2024 em julho, a Netflix informou que atingiu a marca de 277,7 milhões de assinantes globalmente. A empresa adicionou mais de 8 milhões de assinantes no segundo trimestre, superando as expectativas de analistas que projetavam metade desse número para o período.

Desde o ano passado, quando implantou uma nova política de cobrança pelo compartilhamento de senhas e um plano mais barato subsidiado por anúncios, a companhia vê o número de assinantes crescer consideravelmente a cada balanço: foram 13,1 milhões de novos usuários no último trimestre de 2023 e 9,3 milhões nos primeiros três meses de 2024.

No caso do Spotify, os números são ainda maiores. De acordo com o último balanço da empresa, divulgado em julho, o streaming de áudio totalizou 626 milhões de usuários ativos mensais (gratuitos e pagos). O número representa um aumento de 14% em relação ao mesmo período de 2023 e alta de 2% em relação aos três primeiros meses do ano.

Desse total de usuários, 246 milhões são assinantes da versão premium da plataforma, número 12% maior em relação ao mesmo período de 2023.

E o dinheiro?

Apesar dos números superlativos, gerar ­lucro não é tão simples para essas companhias. Por muito tempo, a estratégia de negócios das empresas com base em algoritmos era bastante clara: crescimento, aceleração e domínio. Para conquistar os usuários, essas companhias gastaram bastante para oferecer testes gratuitos ao público, criar campanhas de marketing icônicas, encorpar o seu catálogo de produtos e investir muito em pesquisa, desenvolvimento e aprimoramento de seus algoritmos.

A teoria era de que o lucro viria em escala, juntamente com os usuários. Criou-se, então, uma corrida para atingir essa magnitude. No entanto, alcançar milhares de pessoas mostrou não ser exatamente uma garantia para gerar rentabilidade. O streaming continua sendo um negócio caro e com baixa receita por assinante. “Essa é uma equação realmente difícil de fechar, especialmente porque o custo operacional dessas empresas é surreal”, analisa Neves.

O Spotify, por exemplo, está há 18 anos no mercado, mas caminha para ter o seu primeiro ano de lucro apenas agora em 2024. Em declaração no início do ano, a empresa revelou que paga cerca de 70% de sua receita aos detentores de direitos autorais. O valor teria triplicado nos últimos seis anos, segundo a empresa, e em 2023 totalizou 9 bilhões de dólares em pagamentos da plataforma à indústria musical.

O ano de 2024 pode representar uma virada nesse cenário para o Spotify. Somando os dois primeiros trimestres do ano, a companhia, avaliada em 74 bilhões de dólares, teve mais de 500 milhões de dólares em lucro líquido registrado. A projeção de Wall Street é de que mais 630 milhões de dólares sejam somados no segundo semestre, o que faria a companhia finalmente ter o seu primeiro ano lucrativo.

Essa lucratividade está diretamente ligada aos assinantes premium do serviço. Para o CEO do Spotify, Daniel Ek, o atual bom momento da empresa se deve aos aumentos de preços em todos os principais mercados e à expansão de “ofertas de assinatura para consumidores que podem estar procurando por diferentes tipos de conteúdo”, como destacou o executivo durante a teleconferência de resultados do segundo trimestre.

A companhia também fez mudanças importantes, incluindo diversas demissões entre 2022 e 2023. A meta é atingir 1 bilhão de assinantes até 2030.

Uma vitória parcial

E 2024 também parece ser o ano em que a ­Netflix “reviveu” financeiramente para o mercado. Em janeiro, o Bank of America chegou a dizer que a companhia “venceu a guerra do streaming”, especialmente comparando a empresa com players tradicionais que tentam rivalizar com ela, como a Disney e a Warner. “Nem todas as empresas de mídia serão capazes de alcançar o nível global e a escala da Netflix em streaming”, escreveu a analista Jessica Reif Ehrlich.

Um dos grandes gargalos da companhia ao longo dos anos tem sido o alto custo de suas produções originais: em 2022, no auge dos gastos, o orçamento do streaming bateu 26 bilhões de dólares. O ano de 2022 foi crítico para a companhia. Depois de dez anos apresentando um crescimento que a tornou uma queridinha de Wall Street, a Netflix surpreendeu o mercado ao anunciar que estava perdendo milhares de assinantes.

O período marcou o início de uma mudança estratégica que acabou expandindo a liderança da Netflix sobre outros streamings. Desde que passou a proibir o compartilhamento de senhas, no ano passado, o preço das ações da empresa subiram mais de 300%, estabelecendo novos recordes para a companhia.

Com a recuperação, a Netflix lançou um negócio de anúncios do zero, investiu em sua divisão de games e expandiu as experiências ao vivo em torno de programas populares, como Bridgerton e Round 6. Tudo isso enquanto a empresa também passava por uma grande mudança de gestão: Reed Hastings se aposentou como executivo-chefe em 2023 e foi substituído por Greg Peters, que divide o papel com Ted Sarandos.

O resultado foi positivo. No último trimestre, as margens operacionais da empresa aumentaram para 27,2%, um ganho de 4,9 pontos percentuais ano a ano.

Novos desafios para o lucro

Apesar do cenário, a alta avaliação da ­Net­flix tem levantado discussões sobre ações supervalorizadas e avaliações esticadas, especialmente porque a empresa mantém uma margem bruta (a diferença entre sua receita e o custo dos produtos vendidos) de 44%. Em comparação, a margem bruta da Meta, por exemplo, foi de 80% no ano passado.

Não ajuda a Netflix ter informado recentemente que, a partir do ano que vem, não vai mais publicar seu número de assinantes. Aos acionistas, Peters justificou a decisão dizendo que ela “reflete a evolução do negócio e é consistente com a forma como gerenciamos internamente o engajamento, a receita e o lucro”.

A chegada da IA generativa também representa um desafio para as plataformas com base em algoritmos. Neste ano, a Netflix adicionou a inteligência artificial generativa à lista de possíveis fatores de risco em seu relatório anual.

“Novos desenvolvimentos tecnológicos, incluindo o desenvolvimento e o uso de inteligência artificial generativa, estão evoluindo rapidamente. Se nossos concorrentes obtiverem vantagem ao usar tais tecnologias, nossa capacidade de competir de forma eficaz e nossos resultados operacionais poderão ser afetados negativamente”, diz o texto.

Para Kefreen Batista, da Globant, o receio da Netflix tem fundamento. “Acredito que veremos mais integração da IA e aprendizado de máquina para proporcionar experiências mais imersivas e interativas, incluindo recomendações ainda mais precisas, conteúdos adaptativos e a incorporação de tecnologias como realidade aumentada e virtual”, analisa.

As tentativas de órgãos como a União Europeia para aumentar as regulações digitais, com foco em aumentar a segurança sobre os dados dos usuários, também representam um impasse para as empresas com base em algoritmos. Para os especialistas, quanto mais as empresas pretenderem lucrar, mais elas apostarão no aprendizado de máquina. “Quanto mais dados essas empresas tiverem, melhores serão os resultados que elas emitirão”, observa Chayka.

O resultado da briga entre big techs e regulamentação é bastante incerto, mas o professor da ESPM tem sua aposta: “Para essas companhias, revelar todos os dados que os seus algoritmos analisam é revelar os seus segredos empresariais. É como oferecer o passo a passo de uma receita de bolo para os concorrentes. Isso dificilmente vai acontecer”.

Para Chang, mesmo que a transparência sobre o uso de dados não seja total, ela deve aumentar nos próximos anos. “O futuro da personalização será definido por aqueles que conseguirem equilibrar inovação com responsabilidade. As empresas que forem capazes de oferecer experiências personalizadas que respeitem a privacidade e a ética estarão em uma posição privilegiada para liderar essa nova era de interações digitais.”

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 Nova geração de nativos algorítmicos viverá em simbiose com IA

Inteligência artificial, presente desde o início da vida, será interface fundamental de humanos com o mundo

 Stephanie Jorge e Caio Túlio Costa – Folha – 7.nov.2024 

Stephanie Jorge

Publicitária, pós-graduada em ciência de dados pela USP e fundadora do Torabit, plataforma de monitoramento digital

Caio Túlio Costa

Jornalista, doutor em comunicação pela USP e fundador do Torabit. Foi editor da Ilustrada, secretário de Redação, correspondente em Paris e ombudsman da Folha e o primeiro diretor do UOL

[RESUMO] Autores argumentam que, depois da passagem dos nativos analógicos para os nativos digitais, a humanidade vive hoje a transição para a era dos nativos algorítmicos, geração que será moldada pela influência determinante da inteligência artificial. A transformação pode criar uma nova identidade humana, em que a tecnologia deixará de ser uma ferramenta externa para se tornar parte intrínseca da experiência individual.

As expressões nativos analógicos e nativos digitais já fazem parte do vocabulário comum. Não são apenas jargões técnicos ou acadêmicos —as pessoas se reconhecem nesses termos.

A geração analógica nos lembra de tempos em que os jornais eram impressos em papel, livros físicos ocupavam muito espaço nas estantes e as interações sociais dependiam de encontros presenciais ou de ligações telefônicas que, muitas vezes, exigiam paciência até que alguém estivesse disponível. Era uma época em que carros só funcionavam com motoristas humanos, e as crianças corriam pelas ruas, longe das telas que definem as infâncias contemporâneas.

O termo nativo digital apareceu pela primeira vez em 2001, cunhado por Marc Prensky, escritor americano e especialista em educação, no artigo “Digital natives, digital immigrants“. Ele falava de gerações que nasceram em um mundo no qual computadores, videogames e, mais tarde, a internet, se tornaram parte integral da vida cotidiana.

As crianças que nasceram após os anos 1980 não conhecem outra realidade que não seja definida pela presença constante da tecnologia. Elas não precisaram aprender a “entrar” nesse mundo digital, porque já nasceram dentro dele. Assim como um peixe não percebe a água ao seu redor, os nativos digitais raramente se questionam sobre a onipresença dos dispositivos, redes sociais ou algoritmos que moldam suas experiências.

Os nativos analógicos vieram de uma época em que o progresso tecnológico caminhava em outro ritmo. Eles cresceram sem a internet, sem smartphones, sem a constante interação com telas. Suas vidas eram marcadas por tecnologias que hoje parecem primitivas: máquinas de escrever, televisões de tubo e telefones fixos.

Para essa geração, o salto para o digital representou uma transformação drástica, e muitos se viram obrigados a se adaptar a novas e desconhecidas realidades tecnológicas. Isso não foi um processo simples; exigiu aprendizado, adaptação e carregou, em muitos casos, resistência. Lidar com a transição para o digital foi mais do que aprender a usar um novo dispositivo —foi uma mudança de mentalidade, uma reconfiguração da maneira como se comunicavam, trabalhavam e viviam.

Mas, agora, algo novo está emergindo. Se os nativos digitais nasceram integrados ao mundo da tecnologia e os nativos analógicos tiveram de se adaptar, estamos à beira de uma nova transição: a era dos nativos algorítmicos. Essa nova geração crescerá em um ambiente onde a IA (inteligência artificial) estará presente desde os primeiros momentos de suas vidas.

Diferente dos nativos digitais, que aprenderam a interagir com smartphones e redes sociais, os nativos algorítmicos terão suas vidas profundamente moldadas e direcionadas por algoritmos. Não será apenas uma questão de usar a tecnologia como ferramenta —ela será um elemento intrínseco de sua formação e de suas experiências diárias.

Essas crianças não apenas usarão a tecnologia, elas viverão em simbiose com ela. Para elas, assistentes virtuais, veículos autônomos e algoritmos que personalizam suas interações serão tão comuns quanto os smartphones são para os nativos digitais de hoje. Desde os primeiros meses de vida, algoritmos irão ajustar suas experiências de aprendizagem, suas interações sociais e até suas escolhas de vida. O que para nós ainda é uma ideia embrionária —a inteligência artificial influenciando decisões— será, para esses novos humanos, algo tão rotineiro quanto a luz elétrica o foi para as gerações passadas.

Pense nas pequenas crianças nativas digitais de hoje, muitas delas embaladas ao som e às imagens estroboscópicas da “Galinha Pintadinha“, transmitidas pela tela de um tablet. Elas se familiarizam com o toque em uma tela de vidro antes mesmo de aprenderem a segurar um lápis. Os nativos algorítmicos viverão em um mundo em que a IA estará presente desde o primeiro dia de suas vidas, adaptando-se a seus ritmos, preferências e necessidades. Não será apenas uma questão de entretenimento —a IA se tornará uma interface fundamental entre o ser humano e o mundo.

Talvez, no futuro, esses nativos algorítmicos olhem para nós, seus pais e avós, e perguntem com uma certa incredulidade: “Vocês realmente precisavam fazer todas as suas escolhas sozinhos? Decidiram suas carreiras, seus relacionamentos, suas finanças sem consultar um algoritmo?”. E nós, talvez com um misto de nostalgia e estranheza, responderemos: “Sim, e algumas vezes até acertávamos”.

Se os nativos analógicos tiveram que enfrentar a revolução digital e os nativos digitais se adaptaram a ela sem esforço, agora estamos diante de uma geração que será completamente moldada pela inteligência artificial. Podemos chamá-los de geração sintética. Aqui, não estamos falando apenas de uma geração que usará a IA para tomar decisões triviais ou facilitar a vida cotidiana. A IA será uma presença profunda e constante, influenciando, talvez até determinando, a maneira como esses novos humanos pensam, aprendem e interagem entre si e com o mundo.

Se, por um lado, a integração contínua da IA na nossa vida pode parecer que vai melhorar muitos aspectos da experiência humana, vamos fazer uma reflexão pelo terreno da comunicação, apenas uma entre milhares de áreas que precisam ser reconsideradas à luz da IA.

Hoje, os nativos digitais preferem se comunicar por texto ou áudio gravado. Para eles, receber uma ligação por voz de alguém, ao vivo, é quase que uma infelicidade, é visto como algo sem propósito, algo do passado.

No texto, os chamados emojis são essenciais. Eles facilitam a comunicação instantânea, permitindo que uma lágrima, um sorriso ou uma explosão de raiva sejam transmitidos em segundos. Contudo, essa mesma facilidade que agiliza a troca de mensagens pode ser também uma forma de empobrecimento da linguagem. As palavras, que antes carregavam consigo nuances emocionais, subjetividades e camadas de significado, agora são frequentemente substituídas por um ícone que, embora universal, é limitado em sua capacidade de transmitir as sutilezas da condição humana.

Mas a geração sintética pode vivenciar algo muito diferente. Um dos efeitos colaterais positivos —e provavelmente não intencionais— dessa fusão com a IA poderá ser o retorno a uma linguagem correta, mais rica e detalhada. Enquanto os nativos digitais se acostumaram com abreviações, ícones e atalhos emocionais, os nativos algorítmicos terão assistentes de IA que não só revisarão suas mensagens, mas também as aprimorarão. Cada interação será uma oportunidade de aprendizado linguístico, onde algoritmos irão sugerir não apenas correções gramaticais, mas melhorias de estilo, vocabulário e até mesmo a escolha de palavras que melhor refletem o que se deseja comunicar.

Imagine um jovem digitando celeremente “To indo. A gnt se vê dps” e a IA sugerindo: “Estou a caminho. Nos encontraremos mais tarde”. Esse processo contínuo de refinamento não apenas corrigirá erros, mas reeducará o usuário, oferecendo-lhe a possibilidade de expressar-se de forma mais clara, elaborada e, paradoxalmente, mais humana.

Esse possível aprimoramento, contudo, levanta questões importantes sobre o futuro da espontaneidade humana. Se nossas palavras, decisões e até pensamentos forem continuamente modelados e otimizados por algoritmos, até que ponto nossa voz continuará sendo verdadeiramente nossa? A experiência humana, com todas as suas contradições e incertezas, é marcada justamente pelo erro, pela imprevisibilidade, pela tentativa. Se cada palavra, cada gesto for calibrado para a versão “ideal”, o que será feito de nossa autenticidade? A geração sintética terá uma voz híbrida, uma fusão do humano com o algoritmo.

Eles poderão ser mais precisos, mais articulados, mas, talvez, menos imprevisíveis. É possível que se tornem mais eficientes em transmitir o que sentem e pensam, mas, ao mesmo tempo, menos espontâneos, menos surpreendentes —características tão intrinsecamente humanas.

Essa dualidade na comunicação é apenas um reflexo do que pode acontecer em todos os aspectos da existência. A presença constante da IA em nossas vidas claramente não trará apenas benefícios, mas também nos forçará a confrontar esse paradoxo fundamental: até que ponto estamos dispostos a trocar a imperfeição humana por uma versão otimizada de nós mesmos?

Talvez já estejamos caminhando para um ponto em que não seremos mais apenas Homo sapiens —o homem sábio—, mas algo novo, algo que reflita essa integração cada vez mais profunda com a tecnologia. Podemos estar diante do surgimento do Homo aineticus, um ser cuja sabedoria não é apenas resultado de sua cognição biológica, mas da união entre a inteligência humana e a artificial.

Este artigo tem como objetivo propor semanticamente três denominações possíveis para essa nova e futura realidade, além de deixar registrado, pela primeira vez, essas novas classificações que passam a ser publicadas aqui pela primeira vez. Assim, ficam informalmente patenteadas:

  • “Aineticus”, criação baseada na fusão de dois conceitos: AI, primeira sílaba, sigla de inteligência artificial em inglês, que representa o elemento tecnológico que permeia todas as interações dessa nova era; e “neticus”, derivado do termo grego “kinesis”, que significa movimento, ação ou dinâmica, simbolizando a transformação na relação entre humanos e máquinas;
  • Geração sintética: denominação para aqueles que crescerão em um ambiente onde a IA participa ativamente de todas as esferas da vida;
  • Nativos algorítmicos: aqueles cuja vida será profundamente influenciada por algoritmos, em todos os aspectos. Não será mais uma questão de escolha, mas de coexistência.

Essas três denominações servem para nos lembrar que estamos apenas começando a compreender a profundidade das mudanças que estão por vir. Não é mais uma questão de se adaptar ao digital ou de aprender a conviver com o algoritmo. Estamos diante da criação de uma nova identidade humana, uma redefinição do que significa viver e existir em um mundo onde a inteligência artificial não será mais uma ferramenta externa, mas uma parte intrínseca do próprio tecido da experiência humana.

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Enterrar fiação elétrica é opção complexa e sem definição de quem paga o custo, dizem especialistas

História de LUCAS LACERDA • Folha – 21/10/2024

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Assim como após o apagão que atingiu São Paulo em novembro de 2023, o enterramento de fios voltou à baila como principal solução para minimizar o impacto de temporais como o do último dia 11, quando ventos fortes derrubaram árvores sobre a rede elétrica deixando 3,1 milhões de imóveis sem luz na Grande São Paulo.

Embora tenha vantagens na resistência contra ventanias, a decisão envolve um alto custo —que será compartilhado com quem pode não aproveitar a melhoria— e dificuldades logísticas, como a complexa operação de mobilizar muitas equipes para obras que podem durar anos, segundo especialistas ouvidos pela reportagem.

Uma rede majoritariamente subterrânea é um sonho distante, segundo o engenheiro Juliano Gonçalves, especialista em redes de energia. Entre 2003 e 2006, ele participou do projeto que enterrou cinco quilômetros de fios em trechos das avenidas Nove de Julho, Rebouças, Faria Lima, Cidade Jardim e da rua Oscar Freire.

“Virou canteiro de obra, um caos no trânsito, e foram três anos para fazer cinco quilômetros. Um exército na distribuidora foi mobilizado, tivemos de contratar empresas, abrir calçada e pavimento.” Ainda foram necessárias intervenções nas casas de quem morava nas regiões com fiação enterrada, para adaptar o abastecimento do poste para o duto.

Vídeo relacionado: Trocar fiação elétrica de postes por rede subterrânea esbarra no alto custo, avalia engenheiro (Dailymotion)

A distribuidora, na época, era a Eletropaulo. De acordo com o engenheiro, a opção pela rede aérea é histórica. Atualmente, somente 6% da área de concessão da Enel que inclui a capital paulista tem a fiação subterrânea.

Outra barreira é o financiamento. Apenas para enterrar a rede elétrica na região central de São Paulo seriam necessários R$ 20 bilhões. Para o diretor executivo de regulação da Associação Brasileira de Distribuidores de Energia Elétrica (Abradee), Ricardo Brandão, o modelo de financiamento dessa intervenção também precisaria de uma definição mais clara.

Se o custo for repassado às distribuidoras, todos os consumidores da área de concessão terão de pagar pelo enterramento, mesmo que ele se dê em apenas alguns trechos. “Determinadas regiões serão beneficiadas e toda a área de concessão paga pelo aumento da tarifa”, diz Brandão.

Para ele, o melhor desenho é fazer mudanças pontuais de forma planejada e usar recursos públicos federais, estaduais ou municipais.

São Paulo tem uma lei que obriga a distribuidora a enterrar seus cabos, mas é judicialmente impedida de aplicar a regra. Uma das possibilidades, sugerida e escanteada pelo prefeito Ricardo Nunes (MDB) em 2023, foi o uso da contribuição de melhoria. Neste caso, moradores de um determinado local considerado importante para o enterramento decidiriam por maioria pagar pelas obras.

Se o enterramento parece uma realidade distante, os especialistas apontam a modernização da rede atual, com o investimento em automação, digitalização e monitoramento eletrônico, como opção para minimizar as interrupções no fornecimento de energia.

Uma medida, segundo Gonçalves, é o uso de chaves automáticas de manobra. Esses equipamentos permitem isolar uma área com dano causado por uma queda de árvore, por exemplo, e manter o fornecimento no restante da rede.

Isso garante flexibilidade como a usada em cidades como Nova York, que geram uma “malha quase infinita” para manobras, diz o engenheiro, entre as subestações que abastecem diferentes bairros.

Somada a essa instalação de chaves automáticas, a digitalização da rede pode ajudar no monitoramento remoto, que permite o controle a distância da rede da cidade.

O ideal para São Paulo pode estar numa convivência melhor entre rede elétrica e árvores. Para Brandão, é preciso avançar na gestão arbórea na cidade, inclusive com substituições planejadas do tipo de árvore para reduzir os riscos de acidente, e com mais integração entre órgãos públicos e as empresas para o serviço de poda de galhos e retirada de exemplares que apresentam risco de queda.

Já Gonçalves afirma que, com temporais mais frequentes, será preciso ampliar as forças de trabalho —medida que as empresas têm feito e vão aprofundar por meio do compartilhamento de equipes.

Com tarefas específicas e protocolos rígidos, ele aponta que a Enel, no caso de São Paulo, deve ter que ampliar seus quadros. “Reconstruir a rede toda não vai dar, então [a solução] passa por contratar mais gente e ir melhorando a rede.”

Enterrar fiação elétrica é opção complexa e sem definição de quem paga o custo, dizem especialistas

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O agro 4.0 entra em campo

Tecnologia de ponta surge como aliada para aumento da produtividade em harmonia com a sustentabilidade; a conectividade plena é o desafio em tempos de 5G

Marcus Lopes – Exame – 29 de outubro de 2024 

Até 2050, a população mundial deverá aumentar cerca de 20% e atingir 9,7 bilhões de pessoas, segundo projeções das Nações Unidas, o que exigirá aumento gradual da produção alimentar, para garantir o prato de comida para toda essa gente. Ao mesmo tempo que cresce a demanda por alimentos, os produtores agropecuários são pressionados a melhorar a produtividade sem expandir áreas de plantio e pastos para os rebanhos de animais, em nome da sustentabilidade ambiental e preservação das áreas verdes nativas.

A adoção de novas tecnologias e formas de automação na era 4.0 é considerada essencial para resolver essa complexa equação alimentar e aumentar a produtividade no campo, dispensando a ocupação de novas terras e com vistas à proteção do meio ambiente. Aliar a tecnologia de ponta à produtividade rural não é algo recente. Começou a partir da segunda metade do século 20, com a chamada Revolução Verde, que levou intensa mecanização ao setor agrícola, por meio da adoção de novos maquinários, práticas de manejo e diversificados tipos de sementes.

A Revolução Verde trouxe ganhos expressivos à agroindústria, em um processo contínuo de inovação ao longo das décadas, que foi turbinado após o advento da internet. Ferramentas como drones de pulverização, tratores e irrigadores sofisticados equipados com computadores de última geração, sensores, imagens de satélite e equipamentos dotados de inteligência artificial (IA) expandem as fronteiras tecnológicas e provocam uma nova revolução no campo, desta vez com o auxílio dos algoritmos.

“Para compatibilizar a necessidade do aumento de produção com a manutenção ou redução das áreas cultivadas, podemos contar com tecnologias como a agricultura de precisão”, explica Marina Pereira, gerente de pesquisa e desenvolvimento da Associação Brasileira de Automação ­— GS1 Brasil. Segundo ela, a automação e a tecnologia de ponta despontam como ferramentas potencializadoras para dar tração e escala aos produtores, impulsionando a eficiência e o desempenho produtivo.

“Com a crescente demanda global por alimentos, a agropecuária enfrenta o desafio de aumentar a produtividade de forma sustentável, com menos impactos ambientais”, justifica Pereira. Ao otimizarem o uso de recursos, reduzirem o impacto ambiental e aumentarem a eficiência, explica a gerente da GS1 Brasil, tecnologias inseridas no conceito 4.0 podem contribuir para a garantia da segurança alimentar global e a preservação do meio ambiente às futuras gerações.

Estudos mostram os avanços e a disseminação da tecnologia no meio rural. Desde 2019, a GS1 Brasil acompanha, por meio do Índice Agrotech, a evolução na adoção da automação, tecnologia e digitalização dos processos de produção da agricultura e pecuária no Brasil. A pesquisa anual avalia desde o avanço na utilização de maquinários e equipamentos automatizados até a coleta e integração da informação aos sistemas de gestão.

“De 2019 a 2023, o índice de automação no campo evoluiu, de maneira geral, 29% na agricultura e 28% na pecuária”, diz Pereira. A edição mais recente do estudo foi divulgada em setembro deste ano. No total, foram ouvidos 449 representantes de propriedades rurais, de todos os portes e espalhados por todo o país.

Outro estudo divulgado no segundo semestre deste ano, elaborado pela consultoria McKinsey, mostra que os produtores brasileiros de algodão e de grãos despontam como os que mais utilizam tecnologias de ponta em suas propriedades. No caso do algodão, 90% dos que se dedicam à cultura afirmaram que utilizam pelo menos um tipo de agtech no dia a dia, como equipamentos de agricultura de alta precisão, softwares de gestão, tecnologias com sensores remotos e automação robótica.

No geral, o índice de produtores rurais brasileiros que utilizam pelo menos um modelo de tecnologia focada nas operações saltou de 42% dos entrevistados em 2022 para 55% em 2024. Aí estão incluídos produtores de grãos, café, frutas, hortaliças e cana-de-açúcar. “Os agricultores veem a melhoria da produção por meio de produtos e equipamentos inovadores como a principal oportunidade de aumentar os lucros”, diz trecho do relatório da McKinsey.

O levantamento da consultoria, em que foram ouvidos 757 agricultores no total, mostra que os esforços em agronomia digital estão concentrados, principalmente, no controle de doenças, pragas e ervas-daninhas que ­ameaçam as lavouras. Quase metade dos entrevistados — 43% — diz adotar atualmente algum mecanismo tecnológico na proteção de suas plantações contra os agressores naturais. Outros 23% destacam o uso da agricultura de precisão — aplicação de fertilizantes e pulverizadores — e, por fim, 22% estão conectados a programas sofisticados de gestão agrícola.

“A tecnologia e a automação são essenciais em todos os processos no campo para que haja aumento da produtividade de forma responsável e sustentável. A agricultura hoje é um setor de ponta, porque a tecnologia está presente para auxiliar os agricultores”, diz Bruno Visconti, gerente de ciência e inovação da ­Corteva Agriscience.

As áreas de pastagens no Brasil, explica Visconti, são caracterizadas por grande número de espécies de plantas daninhas, por causa do clima tropical. Muitas vezes, a identificação e o monitoramento das plantas invasoras no pasto são feitos manualmente, em um processo que pode ser longo e demorado, o que compromete a eficiência nas tomadas de decisões, principalmente nas regiões mais distantes e de difícil acesso por estradas e outros meios.

A Corteva desenvolveu a LandVisor, uma solução digital para identificação e classificação das espécies de ervas-daninhas existentes nos pastos brasileiros. O objetivo é o monitoramento em grande escala das áreas, por meio de uma combinação de imagens de satélite e uso de drones. Com os dados nas mãos, o pecuarista identifica com maior precisão a ervadaninha no pasto e a melhor forma de manejo para a solução do problema.

Os criadores modernos também podem, graças à tecnologia, controlar a movimentação e o comportamento de seus rebanhos bovinos na palma da mão. A Belgo Arames já investiu 3 milhões de reais na startup ­Instabov, que desenvolveu um sistema de monitoramento preciso por meio de um sistema de geolocalização que emite sinais de GPS para uma antena instalada na fazenda.

A partir de uma coleira instalada no pescoço do animal, o produtor controla, pelo aplicativo instalado no seu smartphone, a localização, o deslocamento e até o número de passos dados pelo boi. “A tecnologia permite que os dados sejam computados pela torre sem que os colares estejam conectados à internet, já que funcionam à base de uma bateria com durabilidade de cinco anos, e com atualizações a cada 10 minutos, o que facilita a empregabilidade no ambiente rural”, explica Hamilton Lana, diretor de produtos comerciais da Belgo Arames. Atualmente, são monitoradas 1.000 cabeças de gado pelo sistema, mas até 2025 a meta é atingir 6.000 colares acoplados em rebanhos.

A armazenagem de grãos ganha métodos sofisticados de controle (Kepler Weber/Divulgação)

De olho nas tendências do agronegócio 4.0, grandes empresas agropecuárias estão investindo pesado em tecnologia. Considerada uma das maiores produtoras de commodities do mundo, em especial no cultivo de grãos, a SLC Agrícola criou, em 2019, o seu próprio Centro de Inteligência Agrícola (CIA). No total, em cinco anos, foram investidos mais de 16,1 milhões de reais em um ambiente digital de pesquisa que atua com agricultura de precisão, sistemas integrados de gestão e tecnologias para automação.

O trabalho dos técnicos especializados do CIA é oferecer suporte tecnológico e novas ações para a melhoria da produtividade em todos os setores de atuação da companhia, que incluem, além de uma área plantada superior a 650.000 hectares (safra 2023/2024), criações de gado, produção e comércio de sementes de soja e de algodão.

“O CIA surge na transição da agricultura 3.0, que emprega a agricultura de precisão e soft­wares de gestão, para a agricultura 4.0, com o uso de big data, de sensores e imagens de satélite”, explica Ronei Sana, gerente de agricultura digital da SLC Agrícola. Segundo ele, o CIA colabora para a estratégia da companhia, que é buscar na inovação o game changer, ou seja, procurar a máxima eficiência de cada tecnologia, visando o uso racional de insumos e o aumento de produtividade.

“Como consequência, cria-se um círculo virtuoso de redução de custos e do impacto ambiental”, afirma Sana. Diariamente, são disponibilizados aos gestores do grupo cerca de 30 indicadores táticos e operacionais, por meio de reuniões, relatórios e metas a serem atingidas. Em cada fazenda são apresentadas, em tempo real, soluções de planejamento, controle de produção e agricultura digital.

O esforço e os investimentos tiveram bons resultados. No ano passado foram economizados 82 milhões de reais nas receitas do grupo, graças aos processos gerados a partir de projetos e mecanismos desenvolvidos pelo CIA. Para 2024, a projeção é de uma economia ainda maior: cerca de 90 milhões de reais.

Um exemplo de uso racional é a utilização de sensores em pulverizadores, que possibilitam a identificação da erva daninha e aplicam o herbicida em tempo real, evitando a aplicação na área total. “A economia do produto, nesse caso, é de 73%, em média”, diz Sana. As práticas desenvolvidas pelo CIA também contribuíram para a redução no consumo de insumos, água e cerca de 115 toneladas de embalagens, em cinco anos.

As metas da SLC para os próximos anos estão ligadas ao monitoramento das operações agrícolas, cada vez mais integradas com informações de clima, pragas, ervas daninhas, doenças, qualidade do solo e otimização operacional. “Tecnologias como inteligência artificial, o uso de drones e robôs vão proporcionar automação cada vez maior de processos e alavancar as prescrições agronômicas, tornando a agricultura cada vez mais preditiva”, explica Sana, destacando também as metas de redução de gases de efeito estufa, por meio da utilização de equipamentos elétricos, como os drones.

IA no campo

Em épocas de eventos climáticos extremos, a inteligência artificial (IA) entra em campo para auxiliar o produtor a lidar com as oscilações — e os eventuais prejuízos — resultantes das mudanças de clima. Desde 2012, o Centro de Tecnologia Canavieira (CTC), empresa global de ciência dedicada à cana-de-açúcar com sede em Piracicaba, no interior de São Paulo, tem direcionado esforços a programas de melhoramento genético de plantas para ambientes com condições restritivas e climas mais extremos.

“As variedades resultantes dessa tecnologia apresentam características aprimoradas, incluindo melhor performance em ambientes de estresse abiótico, como maior tolerância à seca e eficiência no uso de água e nutrientes, fatores cruciais para enfrentar os cenários futuros de mudanças climáticas”, explica César Barros, CEO do CTC.

A partir de 800 experimentos realizados ao longo de dez anos, utilizando dados meteorológicos diários e informações sobre produtividade do solo, o CTC desenvolveu uma ferramenta que utiliza a inteligência artificial para prever, em uma localidade como uma usina ou fazenda, qual variedade de cana terá melhor desempenho em um ciclo específico, seja uma safra no início, no meio, seja no final. Em um ano de El Niño intenso, por exemplo, a ferramenta avalia qual tipo de cana deve ser plantado naquele solo e períodos específicos, sem perder em produtividade durante a incidência do fenômeno climático.

Para o pesquisador do Insper Agro Global, Leandro Gilio, o Brasil tem uma tendência maior a adotar novas tecnologias, em parte pelo próprio perfil dos agricultores brasileiros, principalmente nas grandes propriedades e empresas agropecuárias. “Enquanto o perfil dos produtores de países competidores do Brasil, como Estados Unidos e Europa, passa por um processo de envelhecimento, aqui os produtores são mais jovens e com tendência maior a adotar novas tecnologias, elevando a produtividade do agro”, diz Gilio.

Head de inovação e gestão do planejamento estratégico da SLC Agrícola, Frederico ­Logemann confirma essa tendência. “O Brasil tem sido referência em difusão de novas tecnologias para o agro. Isso tem muito a ver com a idade média do produtor rural brasileiro, ante o americano e o europeu, e com o tamanho das propriedades, principalmente no Cerrado, onde atuamos”, diz Logemann.

Os desafios e os gargalos, entretanto, são proporcionais às grandes extensões brasileiras. Um deles é a armazenagem. Novamente, a tecnologia exerce papel fundamental. Desde a seleção das sementes até o pós-colheita, unidades de beneficiamento e armazenagem de grãos conectadas e dotadas de alta tecnologia e automação serão decisivas para melhor conservação e fluxo dos grãos.

“O grão precisa seguir padrões de temperatura e umidade para não perder valor. Sensores e softwares com IoT permitem, por exemplo, fazer uma leitura segura sobre a qualidade e o volume armazenado”, explica Bernardo Nogueira, CEO da Kepler Weber, uma das principais gestoras do país em estocagem de safras. A empresa conta com unidades de beneficiamento e armazenagem nas fazendas monitoradas e operadas à distância. Softwares permitem até 98% de precisão no controle de volume dentro de um silo.

Além de conferir maior segurança no monitoramento do volume e da qualidade dos grãos, a tecnologia reduz a necessidade de pessoas trabalhando em uma unidade armazenadora. “O software também proporciona uma visualização em 3D das unidades de armazenagem, permitindo que os clientes acompanhem, em tempo real, a distribuição e a movimentação dos grãos em cada silo”, explica Nogueira.

Conectividade

Num país de dimensões continentais e áreas de difícil acesso, a conectividade é um desafio que ainda deve ser superado para que a tecnologia de ponta deslanche de maneira efetiva por todo o território, em especial nas áreas agrícolas mais remotas. O Índice Agrotech 2024 mostra que 77% das fazendas brasileiras possuem acesso à internet, mas apenas 42% delas têm cobertura de sinal em toda a propriedade.

“É fundamental que o campo tenha uma rede de qualidade, com cobertura ampla que atenda a todas as áreas das fazendas, permitindo a conexão automática de máquinas e equipamentos com softwares de controle e gestão”, afirma Marina Pereira, da GS1 Brasil. “Quando a conexão é limitada ou de má qualidade, há obstáculos na adoção de inovações, no monitoramento em tempo real e nas tomadas de decisões com base em dados atualizados”, completa.

Para minimizar a carência de sinal, grandes empresas agropecuárias investem em parcerias com operadoras para a expansão do sinal em suas propriedades. A BrasilAgro, gigante no setor de produção de grãos, fez uma parceria com a TIM Brasil para levar conectividade 4G para mais de 45.000 hectares em duas fazendas próprias, no sul do Maranhão, a partir da cidade de São Raimundo das Mangabeiras. “Essa iniciativa não só facilitou a gestão remota das operações como também abriu caminho para a expansão de tecnologias digitais em outras áreas agrícolas de nossas operações”, diz André Guillaumon, CEO da BrasilAgro.

A Claro oferece programas para ampliar a conectividade no campo. Entre eles o Campo Conectado, cujo objetivo é oferecer soluções para diferentes perfis de produtores rurais, dos familiares aos de grande porte. Lançado no final de 2020, o projeto, desenvolvido em parceria com a John Deere, tem o propósito de levar a conectividade e a agricultura 4.0 ao campo brasileiro, com base em um modelo no qual o produtor não precisa fazer investimentos próprios em infraestrutura de telecomunicações. “Já são cerca de 7 milhões de hectares conectados por meio da colaboração, área equivalente às dimensões da Holanda e da Bélgica juntas”, explica Eduardo Polidoro, diretor de IoT da Claro.

Além das coberturas 4G e 4.5G, os produtores, segundo Polidoro, podem contar com redes CAT-M e NB-IoT (internet das coisas), que permitem habilitar novas soluções com base em sensores, para viabilizar a automação de equipamentos, com foco no conceito de fazenda conectada.

“A expansão da conectividade ainda é um desafio no agro, mas já houve muitos avanços”, diz Gilio, do Insper, que destaca outro desafio: a falta de mão de obra qualificada para lidar com os avanços tecnológicos no campo. “A demanda de mão de obra é uma carência não só no agronegócio mas em qualquer setor da economia”, diz o pesquisador, que também chama a atenção para a sustentabilidade. “O desafio hoje não é apenas aumentar a produtividade, mas conciliar esse aumento de produção com a sustentabilidade ambiental.”

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Como as cidades-fábrica dos EUA tentam se reerguer após serem destruídas pelo ‘choque da China’

Comunidades que sofreram com o fechamento de fábricas nas últimas décadas estão agora recebendo novos investimentos e criando novos empregos

Por Peter S. Goodman – Estadão/The New York Times – 03/11/2024 

Durante a maior parte do último meio século, a vida econômica no coração do Estado da Carolina do Norte, nos Estados Unidos, foi dominada por fechamentos de fábricas, desemprego e expectativas desanimadoras. As fábricas têxteis e de móveis foram prejudicadas pelas importações a preços baixos do México e da China. Os empregos no processamento de tabaco desapareceram.

No entanto, nos últimos anos, uma infusão de investimentos em setores de ponta, como biotecnologia, chips de computador e veículos elétricos, mudou a sorte de comunidades que há muito tempo estavam em dificuldades.

A Carolina do Norte é um exemplo notável dessa tendência, mas uma história semelhante está ocorrendo em outros lugares. Das faixas industriais do Meio-Oeste americano às cidades fabris do Sul, as áreas que sofreram os maiores impactos do comércio estão agora capturando as maiores parcelas de investimento em setores que estão se movendo para a frente, de acordo com uma pesquisa da Brookings Institution, uma organização de pesquisa de políticas públicas em Washington.

Os pesquisadores da Brookings examinaram as promessas de investimento privado nos Estados Unidos, usando dados compilados pelo governo de Joe Biden como parte de sua campanha para subsidiar a produção nacional de chips de computador e veículos elétricos. Eles também utilizaram um banco de dados do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT, na sigla em inglês) que rastreia investimentos em energia limpa. Nos últimos três anos, foram prometidos US$ 736 bilhões em investimentos para esses setores-chave, segundo os pesquisadores.

Quando mapearam os investimentos, a equipe da Brookings concluiu que quase um terço do total está indo para comunidades que sofreram os piores efeitos do chamado “Choque da China” – o fechamento de fábricas que se seguiu à entrada da China no sistema de comércio global em 2001.

“Ainda há uma orientação para a produção nesses lugares”, disse Mark Muro, membro sênior da Brookings Metro e um dos autores do estudo. Mesmo com o avanço da tecnologia e a mudança dos produtos, as áreas tradicionais de manufatura tendem a reter a perspicácia e as habilidades necessárias para produzir, disse ele.

Antes de uma eleição presidencial que pode depender de sentimentos econômicos, as descobertas parecem reforçar o caso da chamada política industrial, na qual o governo subsidia setores estratégicos. A campanha tem apresentado concepções contrastantes sobre como os Estados Unidos devem gerenciar as oportunidades e os desafios do comércio internacional.

O ex-presidente Donald Trump descreveu a China como uma ameaça mortal para os meios de subsistência dos americanos, ao mesmo tempo em que prometeu impor tarifas pesadas sobre as importações do país asiático. Os economistas alertam que esse caminho corre o risco de elevar os preços de muitos produtos e, ao mesmo tempo, minar a competitividade das fábricas nos Estados Unidos que dependem de componentes importados para fabricar seus produtos.

O governo Biden – ao mesmo tempo em que mantém e avança em muitas das tarifas impostas por Trump – também adotou subsídios em setores estratégicos para incentivar a produção americana. Os economistas criticaram essa abordagem como uma forma de protecionismo comercial que põe em risco as alianças americanas. Os riscos políticos são aumentados pela realidade de que os benefícios provavelmente levarão anos e bilhões de dólares em investimentos para aparecerem.

No ano passado, o presidente Biden (C) visitou uma instalação da Wolfspeed em Durham, Carolina do Norte, com o presidente-executivo da empresa, Gregg Lowe (E) e o governador Roy Cooper Foto: Al Drago/NYT

Mas a pesquisa da Brookings sugere que os benefícios de subsidiar esses setores podem estar em andamento, pelo menos em lugares como o condado de Chatham, na Carolina do Norte.

Durante décadas, o condado sofreu as consequências do desaparecimento da fabricação de móveis e dos empregos no setor têxtil. Em grande parte, perdeu o boom da biotecnologia que ocorreu a nordeste, na área de Raleigh-Durham.

Entre 1992 e 2023, a participação da manufatura no total de empregos no condado de Chatham caiu de 47% para 10%, de acordo com dados do NC Budget & Tax Center.

No entanto, o condado tem aproveitado sua abundância de terras urbanizáveis e seu legado como centro de manufatura para atrair grandes investimentos.

Em junho de 2023, a Wolfspeed, uma empresa que fabrica matérias-primas para chips de computador usados em veículos elétricos, iniciou a construção de uma fábrica que ocupará 1,8 mil metros quadrados na cidade de Siler City, onde vivem cerca de 8 mil pessoas.

Com um investimento de US$ 5 bilhões, a nova fábrica obteve recentemente a aprovação do Departamento de Comércio para um subsídio federal de US$ 750 milhões sob o Chips and Science Act – uma peça central da campanha do governo Biden para fabricar chips de computador nos Estados Unidos.

“Isso nos permitirá construir as linhas de fabricação mais rapidamente”, disse o CEO da Wolfspeed, Gregg Lowe.

Em Michigan, outro Estado há muito caracterizado pela diminuição do setor, as perspectivas estão sendo reavivadas por investimentos em fábricas de veículos elétricos e baterias.

Em Flint, local de nascimento da General Motors, uma empresa com sede em Chicago chamada NanoGraf está construindo uma fábrica para produzir componentes para baterias. Recentemente, ela recebeu um subsídio de US$ 60 milhões do Departamento de Energia.

A fábrica está sendo erguida em um terreno que anteriormente abrigava a Buick City, um complexo fabril onde 30 mil pessoas trabalhavam no auge da indústria automobilística americana.

Os líderes da empresa também apreciaram o poder simbólico do avanço dos veículos elétricos no mesmo terreno que foi essencial para o surgimento dos carros movidos a gasolina no século anterior.

“Trata-se de revitalizar a comunidade”, disse Francis Wang, CEO da empresa. “Estamos transformando o Cinturão da Ferrugem no Cinturão da Bateria”.

Como as cidades-fábrica dos EUA tentam se reerguer após serem destruídas pelo ‘choque da China’ – Estadão

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Saúde digital: veja como a tecnologia vem sendo usada para transformar e salvar vidas

Nos últimos cinco anos, o avanço de soluções como telemedicina, inteligência artificial e startups de saúde tem impulsionado uma revolução no setor, aproximando o Brasil de um futuro mais eficiente e integrado

Flavio Sampaio – Exame –  29 de outubro de 2024 

Se o mercado de tecnologia em saúde no Brasil fosse um paciente, o prognóstico seria muito animador. As inovações implementadas nos últimos cinco anos, como telemedicina, inteligência artificial e preditiva, prontuários eletrônicos e sistemas integrados hospitalares, trazem boas esperanças para um futuro mais saudável para o país.

“O Brasil está muito bem no cenário de inovação em saúde”, diz o radiologista Gustavo Meirelles, fundador da Inovação em Saúde, comunidade de profissionais que debate os principais avanços desse setor. Num país dividido entre a saúde pública (atendendo a 75% da população), e a privada (os outros 25%), Meirelles se diz otimista com o potencial que temos adiante. “Há muitas frentes sendo desbravadas, aprimoradas. Além disso, o brasileiro é empreendedor, gosta de criar novidades. Há inúmeras startups brasileiras conquistando o mundo”, afirma. Levantamento feito pela Liga Ventures, a maior rede de inovação aberta da América Latina, em parceria com a Unimed Fesp, identificou 536 startups do setor de saúde ativas no país.

A Ionic Health saiu de São José dos Campos para conquistar o mundo. Fundada em 2019, no Parque Tecnológico da cidade do interior paulista, a startup criou soluções automatizadas para monitorar, acessar, educar e teleoperar sistemas de saúde de forma remota. “Diante da escassez de radiologistas e da crescente demanda por procedimentos de imagem, essa tecnologia facilita a colaboração entre locais e especialistas, melhorando a eficiência e o atendimento ao paciente”, explica Meirelles. Em 2023, a americana GE HealthCare selou um acordo com a Ionic Health para distribuir globalmente sua tecnologia.

Medicina na tela

A tragédia da pandemia de covid-19 acelerou investimentos e muitos avanços no setor da saúde. Em 2019, 14 bilhões de dólares eram investidos globalmente em inovação na saúde, de acordo com levantamento da americana StartUp Health. Em 2020 esse valor saltou para 22 bilhões de dólares e no ano seguinte atingiu 44 bilhões de dólares. Além da turbinada nos investimentos, a covid permitiu diversas mudanças regulatórias, como a regulamentação da telessaúde. Segundo a Global Market Insights, somente o mercado mundial de telemedicina deve bater 175,5 bilhões de dólares até 2026.

Caio Soares, Chief Medical Officer da ­Teladoc no Brasil, healthtech americana líder global em serviços médicos não presenciais, lembra que em 2018 sua equipe comemorou minguadas 50 teleconsultas realizadas num mês. Dois anos depois, durante a primeira onda da pandemia, esse número saltou para 600. Em junho de 2021, eram mais de 12.000 atendimentos num único dia. Hoje a Teladoc tem 6 milhões de vidas cobertas no Brasil e deve bater 1 milhão de consultas anuais até o fim de 2024. “Dos nossos casos, 90% são resolvidos logo na primeira interação”, explica Soares. “Isso é um impacto muito positivo para todo o sistema de saúde. Reduz deslocamentos, prioriza quem realmente precisa de algo urgente, salva vidas”, finaliza.

O executivo, que também é fundador da Saúde Digital Brasil, associação que reúne os maiores players de saúde digital do país, comemora os avanços da telemedicina no Brasil. No início do ano, durante uma expedição médica na terra indígena do Xingu da qual fez parte, viu uma jovem mãe de 22 anos prostrada no chão, com uma grande infecção no braço. Graças à tecnologia da telemedicina e dos satélites de comunicação, o médico se conectou a um especialista baseado em São Paulo para analisar o caso. “Ela estava em choque e precisaria ir para um hospital em até 24 horas, caso contrário morreria. Com ajuda do Exército, ela foi transferida e recebeu o atendimento necessário a tempo”, comemora.

Integração de dados

Pioneiro no uso de tecnologias de ponta — foi o primeiro hospital a ter uma máquina de ressonância magnética no Brasil, em 1986, e um robô cirúrgico, em 2008 —, o Hospital Israelita Albert Einstein tem hoje 458 colaboradores envolvidos diretamente com inovação. A corrida tecnológica extrapolou as fronteiras do hospital fundado no bairro do Morumbi, em São Paulo. No ano passado, foi inaugurado um novo centro de inovação em Goiânia, e no primeiro semestre de 2024, outro em Manaus.

No último ano, o Einstein investiu 240 milhões de reais (5% de sua receita) em inovações tecnológicas. A verba foi aplicada em startups, pesquisas clínicas, robótica, prontuário digital, transformação digital e em projetos do Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional do Sistema Único de Saúde (Proadi-SUS), aliança entre seis hospitais referência e o Ministério da Saúde.

“Pouca gente sabe que o Einstein cuida de mais gente no sistema público do que no sistema privado”, explica Rodrigo Demarch, diretor de inovação da instituição. Segundo o executivo, que também é médico geriatra, essa integração entre o sistema público e o privado tem um potencial de transformação gigante. “A construção de um sistema de saúde que seja, de fato, sustentável, que consiga entregar a maior qualidade possível de serviço para o maior número de pessoas só é possível com tecnologia”, diz.

Em julho, o time liderado por Demarch implementou, ainda em fase de testes, uma plataforma que usa IA e IA generativa à jornada clínica do paciente. Intitulada HStory, a ferramenta integra dados dos pacientes que estão espalhados por oito sistemas da instituição, como assistência hospitalar, diagnóstica, preventiva e ambulatorial. “Agora o médico pode entender exatamente o que já se passou com cada indivíduo. E ali já existem prompts predefinidos que permitem ao médico fazer determinadas perguntas relacionadas ao diagnóstico, ao possível prognóstico, às alternativas terapêuticas e diagnósticas. Funciona como um suporte à decisão clínica mesmo”, afirma Demarch.

Em 2017, o Einstein criou também uma incubadora de startups de saúde. Hoje, a Eretz.bio tornou-se um hub de inovação, fomentando o empreendedorismo do setor no Brasil. A iniciativa já avaliou mais de 2.500 empresas ao longo desses anos, das quais 140 foram aceleradas pela incubadora. Atual­mente, 42 ­startups integram o ecossistema da Eretz.bio, divididas em saúde digital, dispositivos médicos, biotecnologia e edtech. Ao longo desses sete anos, o Einstein decidiu ser sócio de apenas 13 startups. A Anestech é uma delas.

Cockpit na sala cirúrgica

Desde menino o gaúcho Diógenes Silva foi um aficionado por tecnologia. Em 1982, aos 8 anos, começou a ler e programar. Quando fez 10, seu pai o apresentou um computador TK2000 — algo transformador em sua vida. Já na faculdade de medicina de Santa Maria (RS), Silva era um dos únicos alunos a levar consigo um computador e uma impressora matricial na mochila. Não era um laptop, mas um 286, desktop mesmo. “Lembro-me de quando fui à secretaria pedir para ter um e-mail da faculdade. Além de não conseguir, tive de escutar que um aluno de medicina jamais precisaria de um e-mail na vida”, diz Silva.

Já formado, o anestesista percebeu que os avanços tecnológicos das outras especialidades eram enormes, com exceção da sua. “Em 1894, o anestesista documentava a pressão, a frequência cardíaca e a temperatura do paciente. Tudo na mão, no pulso. Hoje o anestesista está na cabine de um Boeing, monitorizando a pressão do sangue venoso, sangue arterial, atividade cerebral. E tudo isso deve ser documentado de 5 em 5 minutos”, explica Silva.

Trocando em miúdos, o anestesista tem de ficar com uma caneta e um papel nas mãos para inserir os dados do paciente a cada 5 minutos. Como uma cópia fica com ele e a outra fica com o hospital, em muitos lugares ainda é usado o papel-carbono. Em uma cirurgia de 8 horas, são 96 anotações. “O pior de tudo é que não leva a análise alguma. Não melhora a economia do hospital nem a assistência ao paciente. Só dá retrabalho para o anestesista. Foi isso que a gente resolveu mudar”, diz.

Em 2012, a primeira versão da Anestech foi testada. Em 2015, Silva apresentou sua ideia ao Einstein, numa época em que o Eretz.bio nem havia começado. Com o apoio da incubadora do hospital, oito versões da ferramenta foram redesenhadas até que, em 2018, a novidade fosse lançada no mercado. “Em 12 anos de história, já conquistamos 121 clientes, 6.700 anestesiologistas usuários e 2,4 milhões de procedimentos registrados. Com a digitalização dos procedimentos, 17,2 toneladas de papel deixaram de ser consumidas”, celebra Silva. “Mas o melhor é saber que o médico anestesista foca seu tempo na coisa mais importante, que é o paciente”, conclui.

A solução integra prontuários eletrônicos de pacientes, monitores multiparâmetros e sistemas de gestão hospitalar, facilitando o acompanhamento do paciente desde a fase pré-anestésica até a recuperação. Com mais de 50 indicadores, permite a análise detalhada de procedimentos realizados, consumo de gases e fármacos, tempo de ocupação das salas cirúrgicas e destino dos pacientes pós-cirurgia, fornecendo insights valiosos para a gestão hospitalar.

Orquestra saudável

Na Prevent Senior, sistema de saúde verticalizado, a ideia é oferecer uma jornada completa para seus pacientes, desde o atendimento inicial até o acompanhamento pós-tratamento. Segundo Fabrício Próspero Machado, diretor de inovação e tecnologia da empresa, o objetivo da companhia é incorporar tecnologias que otimizem cada etapa do processo médico-paciente, equilibrando custos e qualidade.

Desde 2009, a Prevent Senior utiliza ferramentas de inteligência artificial para auxiliar nas tomadas de decisões. Esse sistema analisa exames de imagem, como radiografias e mamografias, indicando possíveis achados adicionais para médicos, especialmente em situa­ções de pronto-socorro e junto com médicos não especialistas.

A equipe comandada por Machado, que é radiologista e pianista amador, lançou neste ano a Symfony — ferramenta que organiza e resume os prontuários médicos dos pacientes, desenvolvida internamente. Com isso, médicos conseguem visualizar de maneira simplificada o histórico completo do paciente antes da consulta. Isso permite que eles dediquem mais tempo às atividades que agregam maior valor ao paciente, como o diálogo e a compreensão das necessidades individuais. “Brincamos aqui que o médico faz a harmonia para o paciente fazer a melodia. É o que o Symfony propõe, orquestrar essa relação”, diz. Na esteira do que o Einstein já fez, o próximo passo é ter um sistema que separe os dados da história ambulatorial, hospitalar e diagnóstica de cada paciente.

Caio Soares, da Teladoc Brasil: teleconsultas mudaram o acesso à saúde (Teladoc Brasil/Divulgação)

Escala universal

Com 212.583.750 vidas em sua “carteira de clientes”, a totalidade dos habitantes do Brasil, o Sistema Único de Saúde (SUS) é o maior sistema público de saúde do mundo. Pela Constituição, o SUS deve ser universal a todos os brasileiros, sem custo. Mais do que prover saúde universal, o desafio é também prover saúde digital.

Desde 2023, Ana Estela Haddad comanda a Secretaria de Informação e Saúde Digital (Seidigi), Secretaria do Ministério da Saúde que reuniu três departamentos que antes trabalhavam de forma separada: Departamento de Informação e Informática do SUS (Datasus), Departamento de Monitoramento, Avaliação e Disseminação de Informações Estratégicas em Saúde (Demas) e Departamento de Saúde Digital e Inovação (Desd). “O SUS faz cerca de 2,8 bilhões de atendimentos por ano. Esse é um exemplo da escala que temos por aqui”, afirma Haddad.

Para Ana Haddad, “escala” é a palavra-chave. Em março deste ano, ela lançou o programa SUS Digital, com foco na transformação digital do sistema, oferecendo ferramentas para os gestores e profissionais de saúde trabalharem. Somente neste ano, foram destinados 464 milhões de reais para sua implementação, dos quais 88% direcionados aos municípios de pequeno porte, com até 50.000 habitantes. É a primeira vez que o governo brasileiro tem um programa nacional com recursos para fomentar o ecossistema de saúde digital. “Tivemos a adesão de todos os 5.570 municípios brasileiros”, comemora.

Entre as principais metas do SUS Digital estão a ampliação do prontuário eletrônico, integração dos sistemas de informação, aumento do acesso do paciente a seus dados de saúde, extensão da telessaúde para populações indígenas e quilombolas, além do fortalecimento da Rede Nacional de Dados em Saúde (RNDS). “Tivemos um apagão de informações durante o último governo”, afirma a secretária, que também é professora titular do Departamento de Ortodontia da Universidade de São Paulo e criadora do pioneiro programa Telessaúde Brasil Redes, em 2006.

Na ponta dos usuários, a corrida digital também está aquecida. O novo app Meu SUS Digital já é o aplicativo de governo mais baixado do país. Com mais de 50 milhões de downloads­ e 4,5 milhões de usuários ativos, com ele é possível consultar o histórico clínico, acessar a carteira de vacinação digital, verificar resultados de exames laboratoriais, como os testes de covid-19, e até acompanhar a posição na fila do Sistema Nacional de Transplantes.

Ana Haddad vê a transformação digital não apenas como implementação de tecnologia, mas de ampliação de acesso. “Para combater os vazios assistenciais, levar saúde para quem precisa e ainda não tem, melhorar a qualidade do que a gente já oferece. Queremos prover um acompanhamento personalizado, principalmente aos pacientes crônicos, para que eles possam ter um telemonitoramento e ir à unidade somente quando realmente precisarem, levando maior conforto. Do ponto de vista da vigilância, poderemos ter cada vez mais predição e nos prepararmos para futuras emergências sanitárias”, finaliza.

Saúde digital: veja como a tecnologia vem sendo usada para transformar e salvas vidas | Exame

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Megaobra na China estaria afetando a rotação da Terra? Veja explicação científica

Suspeitas têm origem em um estudo da Nasa de 2005, que investigou os efeitos do terremoto e do tsunami do Oceano Índico de 2004 na rotação da Terra

Por El Tiempo/ O Globo – 01/11/2024 

Hidrelétrica de Três Gargantas, construída no Rio Yang-tséHidrelétrica de Três Gargantas, construída no Rio Yang-tsé — Foto: A Barragem das Três Gargantas, localizada na província de Hubei, na China, gerou um debate inusitado na comunidade científica devido à sua possível influência na rotação da Terra. Essa estrutura monumental, projetada para controlar enchentes, facilitar o transporte fluvial e gerar energia, se estende por mais de dois quilômetros e chega a 180 metros de altura.

Desde a sua inauguração em 2014, posicionou-se como a maior barragem do mundo, tanto pelo seu tamanho como pela sua capacidade de contenção. O volume de água retido nesta megaobra tem levado os investigadores a explorar os seus efeitos na distribuição da massa terrestre, visto que esta influência pode alterar, ainda que de forma sutil, o movimento rotacional do planeta.

Um relatório da IFLScience detalha que o deslocamento de um volume tão considerável de água influencia o momento de inércia da Terra, uma mudança que, por sua vez, afeta a sua rotação.

Estudos anteriores que explicariam o fenômeno

Segundo o Huffington Post, “o deslocamento alterou a distribuição da massa da Terra, impactando seu momento de inércia e, consequentemente, sua rotação”. Estas suspeitas têm origem em um estudo da Nasa de 2005, que investigou os efeitos do terremoto e do tsunami do Oceano Índico de 2004 na rotação da Terra.

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Nesse caso, o movimento das placas tectônicas reconfigurou a massa do planeta e reduziu a duração de um dia em 2,68 microssegundos, indicando que qualquer evento que provoque deslocamentos massivos de água ou terra pode afetar sutilmente a rotação.

Projeções de mudança na duração do dia

O geofísico da Nasa Benjamin Fong Chao já havia alertado em 2005 que a Barragem das Três Gargantas, com capacidade para reter 40km³ de água, poderia estender a duração de um dia em aproximadamente 0,06 microssegundos.

Além disso, o especialista sugeriu que a construção da barragem poderia deslocar a posição do polo terrestre em cerca de 2 centímetros. Embora essas variações sejam imperceptíveis no cotidiano, elas são relevantes do ponto de vista geofísico, pois representam alterações causadas por uma estrutura construída pelo homem.

A atividade humana tem gerado alterações no planeta que também afetam a sua rotação, como as alterações climáticas.

Este fenômeno altera a distribuição da massa da Terra, e, por isso, alguns cientistas consideram que, se este impacto continuar, em um futuro próximo poderão ser necessários ajustes nos sistemas de medição do tempo de alta precisão, como os relógios atômicos, para ter em conta o que é chamado de “segundo bissexto negativo”.

Megaobra na China estaria afetando a rotação da Terra? Veja explicação científica

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Hotmart FIRE 2024 mostra como o Brasil está dominando o mercado de Creator Economy

A nona edição do festival, em BH, trouxe insights, tendências e especialistas que acreditam no poder brasileiro na criação de conteúdo

Por EXAME Solutions e Soraia Alves –  04/09/2024

Para quem ainda tem dúvidas sobre o impacto da Creator Economy nos negócios, os números globais reforçam a importância desse ecossistema dentro do mercado digital. Segundo o mais recente relatório do Goldman Sachs, o setor gera, anualmente, cerca de US$ 250 bilhões. Até 2027, a expectativa é que esse valor chegue a US$ 480 bilhões.

O segmento, formado por criadores de conteúdo, influenciadores digitais e empreendedores cujo modelo de negócios envolve a monetização pela venda de conteúdos próprios, está em um estágio de profissionalização que reflete o amadurecimento do setor.

Uma pessoa-unicórnio

Alguns especialistas avaliam, inclusive, que a Economia dos Criadores de Conteúdo será a responsável pelo surgimento da pessoa-unicórnio. O conceito, já abordado por Sam Altman, CEO da OpenAI, afirma que depois das startups unicórnio, aquelas que atingem um valor de mercado superior a US$ 1 bilhão, empreendedores digitais poderão fazer a jornada do CPF ao CNPJ para atingir a mesma avaliação.

Neste contexto, o Brasil é um forte candidato para o surgimento de uma pessoa-unicórnio dentro da Creator Economy. Embora seja difícil cravar quantos produtores de conteúdo existem no país, já que o mercado está em constante crescimento, um estudo de 2023 realizado pela Meta, e divulgado pela consultoria YOUPIX, afirma que dos cerca de 300 milhões de criadores no mundo, 20 milhões são brasileiros.

Insights, tendências e networking

O comportamento dos brasileiros é um fator que ajuda no crescimento da Economia de Criadores de Conteúdo no país. Segundo dados do DataReportal, presentes no estudo, A presença brasileira na Creator Economy, realizado em fevereiro pela Hotmart, os brasileiros ficam o dobro do tempo nas redes sociais em comparação com o restante do mundo.

Também estamos acima da média mundial quando o assunto é acompanhar influenciadores ou experts pela internet (41,7% ante 22,1%).

De olho neste cenário, desde 2011, a Hotmart acompanha de perto a perspectiva dos negócios digitais na Creator Economy com um ecossistema completo para quem quer monetizar no ambiente digital.

Hotmart FIRE

Desde 2015, a companhia realiza o Hotmart FIRE, festival que tem como objetivo trazer debates, tendências e estimular o networking entre creators, empresas e especialistas do setor.

Neste ano, o evento aconteceu entre 29 e 31 de agosto, em Belo Horizonte, totalizando mais de 100 horas de conteúdo sobre negócios, estratégias e marketing digital para cerca de 8 mil participantes.

A tradição do Hotmart FIRE também atrai um grande público internacional. Neste ano, 27 países tiveram representantes inscritos. Não à toa, o festival é um dos maiores da indústria dos criadores da América Latina.

Eventos do tipo são lugares perfeitos para compartilhar e conhecer pessoas, mas também para entender como transformar uma boa ideia em negócio de verdade. “Em toda edição, sempre vemos muitas pessoas que estão começando, de diferentes mercados e querendo construir algo novo e diferente. Mas também vemos muita gente experiente, que vem para compartilhar dicas e experiências, o que é muito rico sempre”, avalia João Pedro Resende, CEO e cofundador da Hotmart.

Um exemplo de veterano presente na edição deste ano do Hotmart FIRE é o britânico Neil Patel. Conhecido como um dos nomes mais relevantes do marketing digital, o especialista compartilhou insights com um público atento para anotar as dicas. Segundo o fundador da NP Digital, o mercado digital brasileiro é ótimo, mas focar um alcance global é essencial. Além disso, ter paciência é fundamental para atingir resultados.

Profissionalização para conseguir destaque

Ainda que o mercado nacional de produtores de conteúdo esteja mais aquecido do que nunca, se destacar em meio à concorrência é sempre um desafio. O diferencial, no entanto, está na profissionalização do negócio. Essa é a dica de quem já atingiu o sucesso – e uma monetização de respeito –, caso de Priscila Zillo Sobral, especialista em marketing e estratégias do mercado online e cofundadora do Grupo Permaneo.

Ao lado do marido, Pedro Sobral, Priscila criou a empresa que é pioneira no conceito ‘ed-mkt-tech’, que une educação, marketing digital e tecnologia para desenvolver ecossistemas de valor em diversos nichos de mercado. Hoje, a companhia conta com uma equipe de mais de 250 profissionais e um faturamento anual na casa dos nove dígitos.

Formada em Direito, Priscila começou sua trajetória empreendedora em 2012, ao criar um curso online no qual preparava estudantes para o Concurso de Admissão à Carreira de Diplomata. Em seguida, se especializou no mercado de produtos digitais, coordenando mais de 350 lançamentos de produtores de conteúdo.

“Um mercado saturado é aquele que já foi de forma profissional e estratégica tão explorado, que não tem espaço para mais ninguém entrar. Todas as margens de lucro começam a cair e todas as soluções são muito semelhantes. Esse não é o cenário da Creator Economy”, analisa Priscila, em conversa com a EXAME. “O estágio, hoje, é de uma grande corrida. Ainda existe espaço para muitas pessoas despontarem, mas existe a necessidade de profissionalização. O criador precisa de uma arquitetura empresarial e estruturada como um modelo de negócio sustentável no longo prazo”, indica.

Segundo a Hotmart, atualmente, 77% dos creators que já estão em um estágio avançado na carreira contam com uma equipe própria formada por, no mínimo, quatro funcionários.

A IA na era dos criadores de conteúdo

Outro insight abordado por palestrantes de todos os cinco palcos do Hotmart FIRE 2024 foi a tendência global de aplicação da Inteligência Artificial (IA) generativa também no setor.

Dados da pesquisa Creator Economy in 3D, realizada pela Deloitte, mostra que 94% das marcas que trabalham com criadores de conteúdo estão usando ou têm planos de usar IA generativa para gerar conteúdo. Dessas marcas, 55% já usam a tecnologia de alguma forma.

“A IA foi um dos grandes destaques do evento neste ano, especialmente porque muitos palestrantes tocaram no assunto. Nós mesmos, de olho na movimentação do mercado, lançamos duas iniciativas com Inteligência Artificial para ajudar na trajetória dos creators”, analisa o CEO da Hotmart.

A primeira solução mencionada por Resende, e anunciada durante o festival, é a nova versão do Hotmart Tutor, que funciona como um assistente inteligente que usa aprendizado de máquina para absorver os conteúdos produzidos e responder dúvidas dos alunos em tempo real.

A ferramenta fica disponível 24 horas por dia, via chat. Segundo a empresa, o Hotmart Tutor já está disponível para todos os usuários da Hotmart no Brasil.

A segunda solução foi pensada para dublagem automática e lip sync personalizada. A tecnologia foi desenvolvida em parceria com a Reshape, empresa especializada em tecnologias de IA, como tradução automática, transcrição e dublagem, e adquirida pela Hotmart em janeiro.

A ideia é que a ferramenta, que ainda está em testes, ajude os creators a desenvolver conteúdos em diversos idiomas, ampliando o alcance e impulsionando a internacionalização dos negócios.

A internacionalização dos conteúdos, inclusive, foi uma das dicas sugeridas por Neil Patel aos empreendedores digitais brasileiros. Para o especialista, não é raro consumirmos conteúdos em idiomas que, muitas vezes, nem entendemos completamente. Conseguir ‘vender’ esse material em outros idiomas só vai aumentar o alcance.

Segundo a Hotmart, mais de 1 milhão de conteúdos já foram gerados por IA dentro de sua plataforma. Com as novas ferramentas, a ideia é que os criadores de conteúdo consigam explorar ainda mais um mercado que está em constante crescimento por meio de produtos digitais que já nascem globais.

Vem aí o Hotmart FIRE 2025

Quem quiser saber mais sobre o mercado da Creator Economy já pode se preparar para a edição comemorativa de dez anos do Hotmart FIRE. Os ingressos já estão disponíveis neste link.

Hotmart FIRE 2024 mostra como o Brasil está dominando o mercado de Creator Economy | Reportagens especiais | Exame

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A startup de 152 anos: o que a tecnologia de pneu inteligente diz sobre o futuro da italiana Pirelli

Andrea Casaluci, CEO da Pirelli, tem como missão manter os consumidores de luxo e conquistar a geração Z

Leo Branco – Exame – 18 de outubro de 2024 

No início de setembro, a fabricante italiana de pneus Pirelli chamou a atenção da imprensa global com um lançamento típico de uma big tech. Em parceria com a alemã Bosch, a Pirelli está colocando no mercado um pneu com sensores capazes de levantar dados sobre o estado de conservação do material e as condições de uso da estrada. O objetivo é ajudar o motorista a planejar a próxima ida ao mecânico — e, assim, evitar o risco de ficar parado na estrada por causa de um pneu furado.

Apelidado de “pneu inteligente”, o anúncio é um dos destaques do primeiro ano de gestão do engenheiro italiano Andrea ­Casaluci como CEO da Pirelli. Casaluci sucedeu a Giorgio Bruno, que assumiu em 2022 depois da ida de Marco Tronchetti Provera, um dos principais investidores da companhia, para o conselho de administração (atualmente ele é vice-chairman).

Guinada em direção ao luxo

Em 20 anos no comando, Tronchetti Provera mudou profundamente a companhia. Aberta em Milão em 1872 para fabricar cabos para telecomunicações, a Pirelli virou um nome conhecido ao redor do planeta pelos pneus para todo tipo de carro — sobretudo no Brasil, onde possui uma das maiores redes de distribuidores da empresa pelo mundo.

Nas últimas décadas, sobretudo na gestão de Tronchetti Provera, a Pirelli deu uma guinada em direção ao mercado de luxo. Hoje, a marca fornece pneus para montadoras de alguns dos carros mais caros do planeta, como a italiana Ferrari e a inglesa Bentley. Além disso, patrocina o Calendário Pirelli. Ao longo de 60 anos, o produto reuniu alguns dos melhores fotógrafos e modelos do mundo. Por trás da estratégia está a associação de design e estilo, um traço comum a outras companhias com DNA italiano. Tudo isso preservou o apelo global da marca diante da expansão de concorrentes asiáticos. Sob outra ótica, tornou a ­Pirelli uma das empresas mais sólidas da Itália, com valor de mercado ao redor de 5,5 bilhões de euros, aproximadamente 30 bilhões de reais.

Daqui para a frente, Casaluci quer fazer do pneu o protagonista da corrida pelos carros autônomos. Em paralelo, ele está de olho nas mudanças geracionais. Com jovens críticos ao papel dos carros nas mudanças climáticas, o novo CEO quer ampliar o uso da borracha natural, vinda de plantações certificadas, para cortar o uso de materiais sintéticos pouco ou nada biodegradáveis. “Gostamos de definir a ­Pirelli como uma startup de 152 anos”, disse Casaluci à EXAME, direto do seu escritório, em Milão. “Estamos sempre olhando para o futuro e tentando antecipar tendências.”

Por que investir numa parceria com a alemã Bosch numa tecnologia de “pneu inteligente”?

Começamos esse projeto há 25 anos. A intenção dos nossos engenheiros é criar um pneu capaz de “conversar” com o carro. Os pneus são o único ponto de contato de um automóvel com o solo. Eles têm dados únicos para o motorista. Por ali é possível entender se um asfalto é bom ou não. Ou, então, se o solo está seco ou molhado, duas condições capazes de mudar a forma de dirigir. O estado de conservação do pneu em si diz muito sobre o estilo de direção. Então, colocamos muitos sensores em nossos pneus para coletar esses dados. Em junção com uma tecnologia da ­­Bosch, desenvolvemos algoritmos para influenciar a experiência do motorista. Imagine saber com antecedência quando é o melhor momento para trocar o pneu. Esse tipo de informação ajudará o motorista a tomar boas decisões e a não desperdiçar dinheiro com a troca de pneus ainda em boas condições.

A tecnologia já está disponível?

O pneu inteligente já está disponível em alguns veículos da Pagani, marca italiana de veículos de alto desempenho. Ela tem um volume pequeno de produção, o que nos permite testar a tecnologia para, então, acelerar a adoção. Ao mesmo tempo, estamos em conversas com as principais montadoras do mundo. A nossa expectativa é fechar parcerias com elas para que o pneu inteligente esteja embarcado em seus próximos lançamentos em breve.

É uma tecnologia que deverá chegar logo aos veículos populares?

A estratégia da Pirelli sempre é a de focar primeiro os segmentos de ponta, ou high end. Esse tipo de consumidor é mais exigente e isso nos força a entregar o melhor produto. Quando a tecnologia ganha maturidade e seus custos de produção diminuem, aí colocamos esforços para ganhar tração em outros segmentos. Numa linha do tempo, estimo que a partir de 2026 muitas linhas produtivas de veículos já estarão trabalhando com a nossa tecnologia. Até o fim da década teremos uma presença maciça de sensores nos pneus para contar o que está acontecendo com os nossos carros — e de algoritmos para prever decisões importantes, como o momento certo de levar o veículo ao mecânico.

A indústria automotiva passa por duas mudanças profundas: os carros elétricos e a direção autônoma. Como ambas mudam o modelo de negócios da Pirelli?

Estamos atentos a ambas e, de certa forma, o anúncio dos pneus inteligentes é um exemplo disso. A direção autônoma tem a ver com a capacidade de coletar dados de todos os pontos de um carro para permitir ao próprio carro guiar-se sozinho com segurança. Antes de chegar ao ponto de um carro estar 100% autônomo o tempo inteiro, há muitos outros cenários possíveis. Vamos conviver com algum grau de autonomia combinada com a atenção humana na direção por algum tempo. Tudo isso enquanto a indústria automotiva desenvolve tecnologias mais robustas para os carros autônomos. Estamos confiantes de que a nossa parceria com a Bosch vai trazer muita inovação para as montadoras. Os pneus vão acabar sendo os protagonistas do desenvolvimento dos carros autônomos.

A corrida pelos carros elétricos provocará um impacto semelhante?

Aí eu vejo uma grande oportunidade para todas as empresas de pneus, incluindo a Pirelli. Os carros elétricos são mais pesados por causa das baterias e do layout diferente de seus motores. Esse tipo de veículo depende de pneus com muito mais aderência ao solo, uma vez que o torque do motor elétrico é mais potente que o de combustão. Para manter o desempenho do carro sem comprometer a aceleração, por exemplo, será preciso muita tecnologia. E, ainda por cima, fabricantes como a Pirelli vão precisar atentar para o barulho dos pneus. Os motores de carros elétricos são muito silenciosos. A tração dos pneus também deverá ser. Tudo isso vai trazer muita oportunidade para a Pirelli.

Apesar dos avanços em direção aos veículos elétricos, há ainda quem coloque em dúvida a total substituição dos motores a combustão. Eles terão alguma sobrevida?

Os veículos elétricos são, atualmente, a tecnologia dominante do mundo e continuarão sendo pelos próximos anos. O que vamos ver é um ritmo de adoção diferente ao redor do globo. Na China eles já são dominantes. A Europa está no meio dessa transformação. Apesar de a proibição dos veículos a combustão, antes prevista para 2035, ter sido postergada, eu ainda acredito que os carros elétricos serão dominantes na Europa em pouco tempo.

O que dizer das Américas e, sobretudo, do Brasil?

O Brasil tem uma história de sucesso com biocombustíveis como o etanol. Eles poderão ser a fonte de energia dominante junto com a elétrica na indústria automotiva brasileira. É uma situação diversa à dos Estados Unidos, onde eu vejo uma menor adesão aos veículos elétricos do que na Europa e na China.

A China virou, nos últimos anos, o maior fabricante de pneus do mundo. Boa parte da produção, focada no mercado automotivo popular, vai parar em outros países, como o Brasil. A competição dos chineses é um desafio para o setor?

O Brasil hoje está importando duas vezes mais pneus da China do que importava há dois anos. Os chineses dominam hoje praticamente metade do mercado brasileiro desse setor. É uma pena por duas razões. A primeira é o fato de empregos brasileiros estarem sendo ceifados por causa das importações. A segunda, e em alguns sentidos até mais preocupante, é pela [falta de] qualidade dos produtos chineses. E o tema da qualidade do pneu tem a ver com a questão da segurança nas estradas. É muito importante, então, proteger a produção local de pneus pela geração de empregos e pela segurança nas estradas brasileiras. No mês passado, o governo brasileiro aumentou a alíquota de importação de pneus de 16% para 25% por 12 meses. Vejo a medida como extremamente importante, mas talvez não seja suficiente. Eu aconselharia manter essa política de proteção do mercado brasileiro por mais tempo.

Quão importante é o Brasil para a Pirelli — e o que esperar do país daqui para a frente?

A Pirelli chegou ao Brasil em 1929. É uma história longa. Nos sentimos em casa no país. Toda vez que viajo para o Brasil vejo a importância da marca. As duas fábricas brasileiras estão entre as mais desenvolvidas da empresa no mundo, além de termos um dos centros de pesquisa e desenvolvimento mais relevantes. Nossa fatia de mercado no país entre os SUVs e os carros premium é perto de 50%. Olhando para a frente, estou muito otimista. O Brasil tem um estoque de carros que precisa de renovação. Ao olhar para a quantidade de investimentos anunciados pelas montadoras no Brasil, estou muito confiante de que a renovação da frota vai andar junto com um movimento de “premiunização” dos veículos. Será muito importante se tudo isso estiver combinado a uma estratégia de sustentabilidade.

Cemitério de pneus em Manaus: a Pirelli vê na sustentabilidade um caminho para conquistar consumidores jovens (João Viana/Fotos Públicas)

A propósito da sustentabilidade, o fato de muitos jovens da geração Z estarem abrindo mão do sonho de ter um carro por causa do impacto sobre o clima preocupa uma empresa como a Pirelli?

Pensamos muito, porque essa geração é o nosso futuro. Gostamos de definir a Pirelli como uma startup de 152 anos, porque estamos sempre olhando para o futuro e tentando antecipar tendências. Para ser honesto, não estou preocupado com a questão geracional. Não é verdade que a geração Z não vai precisar de carros. Ela vai precisar, mas terá uma percepção diferente. Para esses jovens, a sustentabilidade é de suma importância, o que é bom. Eles estão mais interessados em conforto do que em desempenho, mas amam design. E também estão cada vez mais interessados em competições de automobilismo. A Fórmula 1 está se tornando cada vez mais popular entre eles, por exemplo. O que realmente decidimos fazer é continuar sendo o líder global nos automóveis de luxo e de alto desempenho. Ao mesmo tempo, queremos ser referência em sustentabilidade. Temos a meta de neutralidade de carbono mais ambiciosa da indústria até 2030. Queremos chegar ao net zero [compensação total das emissões de carbono] até 2040. Temos uma meta ambiciosa de uso de materiais de base biológica e reciclados em nossos produtos. Em 2025, vamos produzir 100% dos nossos produtos com energia proveniente de fontes renováveis — isso já acontece nas fábricas das Américas e da Europa. Dessa forma, procuramos falar com todos os consumidores de todas as gerações, porque é possível ser o único fornecedor da Fórmula 1 e, ao mesmo tempo, ser o líder global em sustentabilidade. E a Pirelli está provando que isso é possível para atender às duas ambições da nova geração.

É possível haver um pneu 100% verde?

Estamos muito perto de conseguir reciclar 100% dos pneus usados em alguns mercados, como a Europa. Hoje, muitos dos materiais dos pneus são sintéticos e de difícil absorção na natureza. Queremos melhorar a porcentagem de borracha natural, em vez de borracha sintética, porque é uma base biológica. Então, para proteger a floresta e evitar qualquer tipo de impacto descontrolado na natureza, temos certeza de que a borracha natural que compramos vem de rastreabilidade total. E por meio de uma certificação, a FSC, garantimos o total respeito às plantações, evitando qualquer tipo de desmatamento.

Sua gestão à frente da Pirelli completou um ano. O que esperar daqui em diante?

O modelo de negócios da Pirelli é muito simples. Queremos continuar sendo o líder global no mercado de alto valor, focando apenas negócios de consumo, e nos tornando cada vez mais um ponto de referência na transição para a sustentabilidade. Se você me perguntar como vejo o título do futuro, seremos sustentáveis e conectados. É exatamente isso que estamos tentando fazer na Pirelli, e ela está conseguindo cumprir.

A startup de 152 anos: o que a tecnologia de pneu inteligente diz sobre o futuro da italiana Pirelli | Exame

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China perdeu mais de um terço de seus bilionários nos últimos três anos

O novo homem mais rico da China é o empresário Zhang Yiming, o fundador de 41 anos da empresa proprietária da plataforma de vídeos curtos TikTok e de sua equivalente chinesa Douyin, traz o Hurun

Por Pedro Borg – Valor – 29/10/2024 

O número de bilionários em dólares na China caiu mais de um terço nos últimos três anos, segundo lista compilada pela empresa de pesquisas Hurun, que anualmente relata os mais ricos do país. O resultado reflete o aumento do controle do governo na economia, além de um mercado de ações fraco, decorrente de uma crise imobiliária persistente.

“A Lista de Ricos da China da Hurun encolheu por um terceiro ano consecutivo, algo sem precedentes, pois a economia e os mercados de ações da China tiveram um ano difícil”, disse Rupert Hoogewerf, presidente e principal pesquisador do Hurun Report, em comunicado. “O número de indivíduos na lista caiu 12% no último ano, para pouco menos de 1.100 pessoas, e 25% desde o ponto recorde em 2021, quando conseguimos identificar 1.465 indivíduos com patrimônio de 5 bilhões de yuans (cerca de US$ 700 milhões).”

Desde que atingiu o pico de 1.185 em 2021, o Hurun informou que o número de bilionários em dólares foi reduzido para 753, com a queda de 36% de pessoas na lista, superando uma queda de 10% no valor do renminbi em relação ao dólar no mesmo período.

Somente no último ano, o número de bilionários em dólares na China caiu 16%, enquanto o renminbi depreciou apenas 2,5% em relação ao dólar.

A queda no setor imobiliário chinês também ficou clara na lista, que teve grande mudança de nomes nos últimos tempos. Segundo a Hurun, “metade dos empreendedores da lista deste ano não estavam na lista há apenas cinco anos, e 8 em cada 10 não estavam lá há 10 anos”.

“A velha guarda, representada por desenvolvedores imobiliários, deu lugar a uma nova guarda de tecnologia, novas energias, eletrônicos de consumo, especialmente smartphones, comércio eletrônico, especialmente o comércio eletrônico transfronteiriço, produtos de consumo e saúde”, disse a Hurun em relatório.

O novo homem mais rico da China é o empresário Zhang Yiming, o fundador de 41 anos da empresa proprietária da plataforma de vídeos curtos TikTok e de sua equivalente chinesa Douyin. Ele se tornou pela primeira vez a pessoa mais rica do país, com uma fortuna avaliada em US$ 49 bilhões, segundo a Hurun.

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China perdeu mais de um terço de seus bilionários nos últimos três anos | Mundo | Valor Econômico

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