Que setores da economia brasileira vão bombar em 2024? Tecnologia e atacarejos regionais são aposta

Com a queda da taxa de juros no mundo todo, expectativa é que investidores retomem aportes em novos negócios

Por Lílian Cunha – Estadão – 09/01/2024 

Depois de um 2023 morno, com poucos aportes de investidores devido às instabilidades do cenário global, 2024 promete ser de recuperação. Setores ligados à tecnologia e relacionados ao consumo doméstico são os que devem atrair maiores investimentos neste ano, segundo especialistas consultados pelo Estadão.

Além das crises geopolíticas, com guerra entre Rússia e Ucrânia e Israel e Hamas, o mundo enfrentou um cenário de elevada taxas de juros, o que provocou uma mudança no fluxo do dinheiro. Em vez de aplicar os recursos em empresas, muitos investidores preferiram a estabilidade dos títulos públicos, como aqueles emitidos pelo governo americano. O grosso do fluxo mundial de investimento foi exatamente para os bonds americanos.

No Brasil, o enredo não foi diferente. Com uma taxa básica de juros (Selic) de 13,75% durante todo o primeiro semestre (o ciclo de queda dos juros começou em agosto), os investidores que colocam dinheiro em fundos de private equity (que compram participação em empresas) deram uma brecada em suas investidas. A preferência foi investir em renda fixa. “Também tivemos uma troca do governo federal e isso gerou um receio no mercado que só foi se dissipando ao longo dos meses”, diz o sócio do Pátria Investimentos, José Augusto Teixeira.

O juro alto atrapalha a captação de recursos, diz Piero Minardi, da ABVCAP Foto: Paulo Fridman/Bloomberg via Getty Images

Mas este ano promete uma virada. Isso porque a queda nos juros no Brasil e a possibilidade de um início de cortes nas taxas americanas pode “tirar da toca” o dinheiro que está nessas aplicações de renda fixa e fazê-lo voltar para a economia real. A expectativa do mercado em geral é que, até maio ou junho, os cortes nos juros americanos comecem. Aqui, a previsão é que a Selic chegue ao final do ano entre 10% e 8%.

“O juro alto atrapalha a captação de recursos. Se essas previsões realmente se tornarem realidade, teremos um retorno”, diz o vice-presidente da Associação Brasileira de Private Equity e Venture Capital (ABVCAP), Piero Minardi, diretor da Warburg Pincus, que investe em empresas de tecnologia.

Os gastos do governo e uma possível pressão inflacionária são os únicos empecilhos com potencial para jogar areia na engrenagem da queda de juros, segundo ele.

E para onde o dinheiro deve ir?

Os negócios que mais devem chamar atenção são aqueles ligados à tecnologia. “Na verdade, são empresas de todos os setores, mas com soluções tecnológicas para melhorar a produtividade”, diz o cofundador da aceleradora de statups Strive, Tiago Galli, ex-sócio do C6 Bank.

O Pátria Investimentos, gestora de ativos em private equity, por exemplo, está de olho em oportunidades tecnológicas no setor de agronegócio. “Empresas na área de agricultura que promovam tecnificação para ajudar pequenos e médios produtores a fazer uma melhor gestão do plantio, que os auxiliem a serem mais preditivos diante das mudanças climáticas estão no nosso foco”, diz o sócio do Pátria responsável por novos investimentos e private equity, Luiz Felipe Cruz.

Ainda na seara da tecnologia, os especialistas dizem que empresas da área de saúde também devem atrair investimentos. “São as healthcares que se propõem a resolver, com tecnologia e até inteligência artificial, os problemas de custos altos desse setor”, diz Minardi.

Qual será o aplicativo que mais fará sucesso?

Na área das empresas de tecnologia, o próximo “killer app” – a aplicação que será uma das mais buscadas – estará no campo da identificação, segundo Galli. “Aplicativos que ajudem a provar que você é você mesmo. Ou que o conteúdo que você está vendo é real ou é fake. Nessa escalada de golpes com inteligência artificial, isso é mais do que necessário”, diz ele.

E o setor financeiro?

Na área das “fintechs”, as companhias de tecnologia que atuam no setor financeiro, espera-se uma grande consolidação. A expectativa é que haja junção entre bancos digitais, por exemplo. Ou a verticalização de serviços, que é a atuação em nichos específicos, como seguros, saúde, a simplificação da jornada de pagamentos nos e-commerces, como começar uma compra no Instagram e finalizá-la no WhatsApp. “Esse é um setor mais maduro, então é natural que haja esse tipo de movimentação”, diz Galli.

Olhando para dentro

Setores ligados ao consumo doméstico também devem atrair investimentos. São empresas que estão muito desgastadas com a alta dos juros, que não só fez essas companhias se endividarem, mas que também afastou os consumidores das compras.

Com as taxas caindo, o endividamento das empresas e do consumidor fica mais ameno. E, por isso, a atividade nessas companhias deve melhorar. Nesse campo, segundo o Pátria, estão, por exemplo, os atacarejos (principalmente na região Nordeste), os supermercados regionais e aqueles que atuam em um raio de atendimento restrito a poucos bairros, em grandes cidades, como São Paulo. Esse tipo de varejo deve passar por uma expansão este ano, segundo Cruz.

Com essa retomada do consumo doméstico, Minardi também aposta em empresas de educação com foco em ensino básico e fundamental, e em varejo especializado, como o voltado ao setor pet, farmacêutico e de luxo.

Infraestrutura

Com o Novo Marco Legal do Saneamento, aprovado em julho de 2022, os fundos também estão de olho nessa área de investimentos que – com certeza – é uma das mais atrasadas no País: mais de 100 milhões de brasileiros não têm esgoto e mais de 4,4 milhões não têm banheiro em casa, segundo relatório do Instituto Trata Brasil, divulgado em novembro.

“Essa é uma área muito carente desde sempre e que nunca teve investimentos por falta de regulação”, diz Marcelo Souza, sócio e diretor do setor de energia do Pátria.

Empresas de energia – principalmente as renováveis, como solar e eólica – e também de tratamento de resíduos e lixo – por conta das mudanças climáticas extremas também devem ser aceleradas, afirma Souza.

E com a expansão das redes 5G, espera-se investimentos também em torres e data centers para sustentar a demanda criada em relação à infraestrutura e armazenamento de dados.

https://www.estadao.com.br/economia/negocios/setores-economia-bombar-2024-tecnologia-atacarejo-aposta/

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Brasil precisa romper monotonia da produção do campo

Para o filósofo Ricardo Abramovay, o Brasil precisa repensar modelos de produção

O Globo Rural – 27/12/2023 

‘Romper com a monotonia da nossa oferta agropecuária é dificílimo, mas isso precisa ser debatido. Esse sistema não é sustentável’, afirma filósofo Ricardo Abramovay ‘Romper com a monotonia da nossa oferta agropecuária é dificílimo, mas isso precisa ser debatido. Esse sistema não é sustentável’, afirma filósofo Ricardo Abramovay — Foto: Divulgação Mapa

O Brasil precisa debater como romper com a “monotonia” da oferta agropecuária, afirma o filósofo Ricardo Abramovay . “O fato de termos 65% da superfície agrícola brasileira ocupada por um só produto não é sustentável”, alerta Abramovay, um estudioso de clima e da Amazônia. “É preciso fazer uma reflexão estratégica sobre o sistema agropecuário não mais à luz do que foi a Revolução Verde, mas agora, na era do Antropoceno”.

Abramovay participou do debate “Transição de Sistemas Alimentares: o Caminho para uma Economia Sustentável”, promovido há poucos dias, em São Paulo, pela Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura. A entidade, formada em 2015, reúne mais de 350 representantes do setor privado, financeiro, da academia e da sociedade civil preocupados em inserir o Brasil na economia de baixo carbono.

Abramovay, professor titular da cátedra Josué de Castro, da Universidade de São Paulo, referia-se ao processo de transformação da agricultura em escala global que se deu por meio do desenvolvimento de novos meios tecnológicos na produção nas décadas de 1960 e 1970 — a Revolução Verde. E falou sobre a nova era geológica em que estamos, marcada pelo impacto do homem no planeta — o Antropoceno.

“Romper com a monotonia da nossa oferta agropecuária é dificílimo, mas isso precisa ser debatido”, afirmou Abramovay, sugerindo a criação de um grupo na Coalizão que dê início a essa discussão. José Carlos da Fonseca, cofacilitador da Coalizão Brasil e CEO da Associação Brasileira de Embalagens em Papel, completou: “A humanidade tem mais de 400 produtos cultiváveis. Mas mais de 90% da nossa alimentação está concentrada em apenas 15 produtos”.

Abramovay lembrou que o cenário é ainda pior, com 50% da alimentação humana concentrada em quatro produtos. “A monotonia não se refere apenas à produção agrícola, mas se exprime também na produção animal”, seguiu. A avicultura está concentrada em poucas raças, e documentos que discutem o tema se omitem em relação a problemas socioambientais da produção de aves e suínos. “Como esses setores não são altamente emissores de gases-estufa, somem da discussão global”, diz.

O ponto central da palestra de Abramovay foi a declaração “Agricultura Sustentável, Sistemas Alimentares Resilientes e Mudanças Climáticas” apresentado na COP 28, a conferência da ONU sobre clima que aconteceu em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos.

O documento político, assinado por 160 países, inclusive o Brasil, reconhece o impacto do clima nos sistemas alimentares e na agricultura e diz que é preciso aumentar a resiliência, promover segurança alimentar e apoiar agricultores. “A declaração diz que a agricultura tem de ser sustentável — às vezes, falar o óbvio é importante — e que é um absurdo ter forme no mundo. Mas tem duas lacunas imperdoáveis”, seguiu o professor.

Uma delas é a discussão sobre a monotonia dos sistemas agropecuários. A outra, o predomínio cada vez maior dos alimentos ultraprocessados. “A característica fundamental dos sistemas alimentares contemporâneos é o fato de que são compostos cada vez mais por produtos ultraprocessados que estão na raiz das doenças que mais matam no mundo. Matam mais do que a fome e originam a pandemia global de obesidade”.

Abramovay lembrou que 60% das calorias ingeridas nos Estados Unidos e no Reino Unido vêm de produtos ultraprocessados e que 40% da população americana é obesa. Em 1970, 5% das crianças eram obesas; hoje, são 20% — ou 19 milhões de pessoas entre 2 anos e 19 anos. “Se não falarmos disso, estamos falando de um setor, que é a agricultura, mas não estamos falando de alimentação. A indústria está fora dessa conversa, que conseguiu incluir o setor de transformação agrícola. Mas o que se consome está fora do debate”, disse, criticando a declaração da COP 28.

Abramovay citou o mais recente relatório do Fórum Econômico Mundial, publicado no início de dezembro. “Faz um diagnóstico fulminante dos prejuízos que os produtos ultraprocessados estão causando à saúde humana globalmente e os prejuízos daí decorrentes para os orçamentos de saúde pública”.

https://globorural.globo.com/agricultura/noticia/2023/12/brasil-precisa-romper-monotonia-da-producao-do-campo.ghtml

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PicPay: o ecossistema de inovação na prática

Por Evandro Milet – Portal ES360 em 07/01/2024

O Picpay é o maior caso de sucesso das startups capixabas, mas como foi o alinhamento dos planetas, digo, do ecossistema, para esse sucesso? O storytelling, ou a contação de histórias, pode ser a melhor maneira de entender como a articulação das instituições provocou esse resultado.

Para a inovação acontecer é comum falar na hélice tríplice – empresas, governo e academia -, mas para um ecossistema de inovação acontecer são necessárias mais pás nessa hélice, como essa história pretende demonstrar, com menos detalhes do que deveria para ser justo, porém tentando preservar o veio principal. 

Para ter um início, é importante falar da Tecvitória, primeira incubadora do Espírito Santo, criada em 1995, em prédio cedido pela Ufes. No Conselho de administração desse habitat de inovação, em momentos diferentes, várias instituições da hélice tríplice e além: Xerox, Petrobras, CST(ArcelorMittal), Aracruz(Suzano), Vale, Bandes, Prefeitura de Vitória, Sebrae, Findes, Governo do Estado, Ufes e Ifes. E um apoio inicial do Softex, ONG patrocinada pelo Ministério de Ciência e Tecnologia.

Pouco operante até o ano 2000, a Tecvitória acelera o passo, abrigando muitas startups, inclusive a Imatic, de Dárcio Stehling e outros, vindos da Ufes e que havia recebido recursos da Fapes. Em 2007, o Sebrae e a CDV(hoje CDTIV) da Prefeitura de Vitória, assinam projeto conjunto para criar o CE3D, Centro de Excelência em Tecnologia 3D, para apoiar o desenvolvimento de projetos de máquinas apoiados pela engenharia mais sofisticada da época. O local para abrigar o CE3D é a Tecvitória e o Centro recebe equipamentos comprados e softwares de ponta cedidos gratuitamente por fornecedores, interessados na sua disseminação.

Para um projeto piloto do CE3D é convidada a Rochaz, empresa de Iconha, interessada em projetar e construir um tear multifios para o setor de rochas, tecnologia novidade na época. Para tocar o projeto pela Rochaz, se instala na Tecvitória Diogo Roberte, filho do proprietário, com equipe contratada inclusive fora do Estado.

Nessa época, era comum o corte de energia na região da Tecvitória. Para passar o tempo sem energia para os equipamentos, rolava um futebol de bola de meia, que junto com o cafezinho e o pão de queijo, aproximava pessoas com projetos diferentes, mas perfis complementares e muita vontade de ganhar dinheiro. O ambiente juntou Dárcio e Diogo e surgiu a ideia vencedora do Picpay, apoiada por investidores, embora o projeto da máquina multifios não tenha dado certo.

Nessa pequena história fica claro que um ecossistema de inovação funciona com uma hélice de muitas pás: academia, grandes empresas, governos, startups, investidores, financiadores, instituições de apoio, ambientes de inovação, ONGs, associações empresariais e órgãos de imprensa que fazem a informação circular. Mostra também a importância dos ambientes de inovação no seu papel de aproximar pessoas e ideias, sejam incubadoras, aceleradoras ou parques tecnológicos. Quem pensa que o mundo virtual resolve essa aproximação, não sabe o efeito de uma pelada de bola de meia no escuro.

https://es360.com.br/coluna-inovacao/post/picpay-o-ecossistema-de-inovacao-na-pratica/

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Qual o resultado depois de 20 anos do conceito de inovação aberta?

Duas décadas de inovação aberta mostraram que as maiores barreiras à sua realização estão dentro, e não fora das organizações

Henry Chesbrough – MIT Sloan Review – 06 de Janeiro/2023

Há vinte anos eu apresentei o conceito de inovação aberta em um artigo publicado pela MIT Sloan Management Review. Passado esse tempo, qual o saldo? Vimos algumas empresas aproveitarem bem a ideia, ao mesmo tempo que outras enfrentaram dificuldades. Uma surpresa que tivemos ao observar as organizações ao longo do tempo foi que os maiores obstáculos ao sucesso da inovação aberta estavam dentro delas mesmas.

A inovação aberta se baseia na combinação colaborativa de fontes externas (como clientes, startups, plataformas de crowdsourcing e universidades, por exemplo) para a geração de ideias de novos produtos e serviços.

Definindo de forma mais exata, é um processo de inovação compartilhado, com o conhecimento se movendo entre as organizações, com motivações lucrativas ou não. Para inovar, é preciso que o conhecimento se desloque de sua origem para onde ele é necessário. É comum que isso se reflita na movimentação de pessoas que detêm esse conhecimento, para que, juntas, criem algo novo. Em outras situações, pode ser preciso montar novas estruturas e fluxos de trabalho para incentivar e organizar essa migração do conhecimento.

Para que a inovação aberta seja bem-sucedida, as organizações devem saber mobilizar e dar acesso a esse conteúdo entre todas as áreas, sejam elas funcionais, geográficas ou departamentais, mesmo compartimentadas, para que consigam desenhar, desenvolver e apresentar as novidades desejadas pelo consumidor.

Há muito o que comemorar sobre esses vinte anos de inovação aberta. Muitos estudos mostram que ela aumenta o desempenho financeiro. Análises de dados obtidos da Community Innovation Survey identificaram que as organizações com maior número de fontes externas de conhecimento têm melhor desempenho em inovação, mantidos outros fatores.

Uma pesquisa com 125 grandes corporações também mostrou que a inovação aberta traz resultados superiores às que não fazem uso do conceito. Mesmo com essas demonstrações de sucesso, ainda há muito a ser feito. Para que a inovação aberta dê certo, não basta encontrar possíveis fontes úteis de conhecimento, acessá-las, negociar alternativas de cooperação entre elas, para então incorporar esse conteúdo a novos produtos e serviços inovadores.

Onde moram os entraves

Estudos mais aprofundados dizem, na verdade, que as maiores dificuldades encontradas pelas organizações para usar a inovação aberta residem em seu interior, não fora delas. Colaboração e coordenação com agentes externos exigem, com frequência, que sejam feitas mudanças nos fluxos de trabalho, o que pode gerar reações defensivas por parte dos responsáveis internos pela inovação.

Um artigo recente comprovou a resistência interna à inovação aberta. No estudo de Hila Lifshitz Assaf sobre a adoção dessa prática na NASA, ela se debruçou sobre o uso de crowdsourcing na geração de novas ideias. Uma dessas ideias permitiu à agência uma melhora significativa da previsão de erupções solares. Contudo, os engenheiros do Johnson Space Center, não conseguiam trabalhar com os resultados obtidos de fora da NASA. Sua identificação com a organização e seu próprio papel pareciam ameaçados pelo que a inovação aberta poderia produzir.

As delimitações organizacionais que facilitam o foco e a especialização em atividades críticas podem se tornar barreiras quando produzem feudos, ou áreas isoladas entre si. O conhecimento útil circula dentro da área, mas não entre elas, sejam funcionais, departamentais ou geográficas.

Vejamos o exemplo de um programa corporativo que investe capital de risco em novas tecnologias e mercados, montando um portfólio de startups. Se as unidades de negócio convencionais da empresa olharem para essas novas estruturas como imaturas, distantes e arriscadas demais para atrair sua atenção e compromisso, o conhecimento que o programa gera não conseguirá penetrar em qualquer dessas unidades, que poderiam alavancar e escalar esse conteúdo.

As delimitações organizacionais que facilitam o foco e a especialização em atividades críticas podem se tornar barreiras quando produzem áreas isoladas entre si

A Intel enfrentou repetidamente esse problema ao trabalhar com startups promissoras e, para resolvê-lo, criou uma nova unidade, a New Business Initiatives (NBI). As equipes da NBI desenvolviam o relacionamento com as startups e então tentavam conectá-las às unidades de negócio da Intel usando dinheiro e conhecimento para reduzir o atrito.

O dinheiro oferecia recursos instantâneos para que a unidade se integrasse ao projeto, enquanto anteriormente era preciso aguardar o ano fiscal seguinte. No entanto, a equipe da NBI que tinha conquistado a oportunidade se dissolvia assim que o projeto era transferido para a unidade de destino. Uma vez que esta última assumia o projeto, surgiam questões, mas não havia mais a equipe à qual recorrer.

A solução encontrada pela NBI foi transferir um membro dessa equipe para acompanhar o projeto junto à unidade de negócio por um prazo de seis a nove meses. Essa pessoa tinha as respostas necessárias ou sabia como encontrá-las quando necessário.

Há outras formas de superar as barreiras impostas pelo isolamento entre áreas. Uma delas, simples, mas efetiva, é facilitar que as pessoas participem de oportunidades rotativas em outras áreas da organização. Por exemplo, um gestor de uma unidade de negócios poderia passar de seis a doze meses em uma das startups e vice-versa.

Essa circulação ajuda não só na construção de contatos e experiências em uma área como a levá-los consigo para sua posição regular. Uma organização que faz circular de 5 a 10% de seus funcionários em um intervalo de três anos terá muito mais facilidade de encontrar e fazer uso de determinado conhecimento na maior parte das áreas e estará bem-posicionada para fazer mudanças internas que irão alavancar seu uso efetivo.

Uma estratégia complementar para superar essa compartimentalização das estruturas é fazer dos executivos os responsáveis pelos principais clientes da organização. A Cisco fez isso com regularidade, de forma que cada membro do C-level tivesse a função de gerir uma área e administrar a relação da empresa com alguns de seus maiores clientes. Como as demandas de inovação da clientela invariavelmente envolvia mudanças em diversas áreas, isso forçava os executivos a pensarem na Cisco como um todo. Tais oportunidades de inovação não teriam como ir adiante sem que setores importantes entendessem seu papel na criação, no desenvolvimento e na entrega de novos produtos e serviços e quais mudanças em seu trabalho precisariam ser feitas para tal.

Um líder funcional facilitando a colaboração entre áreas diferentes para um cliente certamente irá cruzar com outro líder funcional fazendo o mesmo para outro cliente. Se os bônus desses executivos estiverem parcialmente atrelados às vendas de produtos e serviços das respectivas contas, a integração entre departamentos e o compartilhamento de informações serão estimulados.

Além dos muros da empresa

Outro mecanismo que faz com que o conhecimento cruze as fronteiras entre os feudos organizacionais é o de permitir que pessoas de cada grupo, função ou departamento busque o que necessita fora da empresa, se não houver resposta internamente.

A Haier, fabricante chinesa de linha branca, criou o Rendanheyi, um sistema sofisticado de contratação de conhecimento tanto interno quanto externo, e que cria um mercado dentro da empresa para o fornecimento e aquisição de produtos e serviços que futuros produtos da Haier precisem para sair do papel. Esse sistema substitui a maior parte dos feudos que antes restringiam essa circulação.

Com o Rendanheyi, os departamentos se transformam em microempresas dentro da corporação, com a liberdade de contratar qualquer pessoa de dentro da organização (e, ocasionalmente, de fora), para que os objetivos sejam atingidos.

Como resultado, o sistema aumentou a velocidade da inovação e abriu a organização para uma maior colaboração externa, além de facilitar a abertura de novos negócios.

Por fim, vinte anos de inovação aberta revelaram que muitos dos maiores desafios para o modelo vinham da própria organização buscar sozinha pela inovação, em lugar de procurar e negociar em outras fontes.

Ultrapassar os feudos é essencial para a inovação aberta dê certo, um conceito que deixou sua marca. No LinkedIn de hoje vamos encontrar centenas de milhares de pessoas com a expressão “inovação aberta” ou “open innovation” em algum ponto de seu currículo. Vinte anos depois de sua conceituação, estamos prontos para ver quão longe ela pode chegar.

Autoria

Henry Chesbrough

Henry Chesbrough é professor de Inovação Aberta e Sustentabilidade na Universitá Luiss Guido Carli, em Roma, e diretor do Garwood Center for Corporate Innovation, na University of California, Berkeley.

https://mitsloanreview.com.br/post/qual-o-resultado-depois-de-20-anos-do-conceito-de-inovacao-aberta

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Algoritmos que espalham fake news são triviais em relação ao que nos aguarda no futuro da IA

Perder noção dos avanços da tecnologia é realmente um risco

Por Pedro Doria – Estadão – 04/01/2024 

Este que começa é o ano dois da Era da Inteligência Artificial (IA). Vai ser, mais ou menos até o fim da década, uma montanha-russa. O risco, porém, conforme a tecnologia avança, é de não percebermos. Às vezes é assim com tecnologia: a cada ano os computadores vão ficando um pouquinho mais rápidos, as câmeras dos celulares um tantinho mais nítidas, e perdemos a noção dos saltos. Perder esta noção, com IA, é realmente um risco.

Sundar Pichai, CEO do Google, costuma comparar IA com eletricidade. Porque IA não é como o computador ou o celular, aquelas coisas que ligamos à rede elétrica. Inteligência artificial é, e será cada vez mais, a infraestrutura do mundo.

Claro, neste ano e no próximo veremos cada vez mais avanços em vídeos. Aí veremos surgir, em 2025 ou um pouco adiante, os resultados dos primeiros modelos de IA voltados não para imagens ou palavras, mas para química, para física. Pediremos não que criem fotografias perfeitas ou resumos corretos, mas que projetem aviões ou remédios.

Mas aos poucos, sem estardalhaço, IAs vão lentamente ser integradas aos processos internos das empresas, nos equipamentos urbanos, na burocracia dos Estados. Cada vez mais tomarão decisões. Vão avaliar os sensores de tempo, o volume de água nos bueiros, as imagens captadas pelas câmeras de segurança nas ruas. Tomarão decisões de compra de papel higiênico com base no inventário corrente. Decidirão que município recebe que verba, e quando. No início será assim: IAs nos livrarão das pequenas decisões cotidianas. Aquilo que é óbvio, gastando tempo precioso no qual poderíamos criar. Inteligências artificiais muito raramente cometerão aqueles pequenos erros que nós cometemos e, assim, tudo vai começar a funcionar de maneira mais fluida.

Ocorre que nada disso é inocente. Cada pequena decisão tem efeitos diversos. Para um sistema desses permitir a vigilância total de cada cidadão é simples. Mesmo sem tanto, é certo que o Estado ou empresas muito, muito grandes terão monopólio de acesso a dados, ou conclusões a partir de dados, que pessoas comuns não têm. É poder como nunca houve.

O caso de mentira publicada pelo canal de fofocas Choquei!, que levou ao suicídio a jovem Jéssica Canuto próximo do Natal, vai despertar novamente o debate sobre regulamentação das redes sociais. No entanto, todo este debate está sendo levado como se o problema estivesse nas decisões individuais dos donos do canal ou seus parceiros. Tire o Choquei, coisa igual vai entrar no lugar. O algoritmo produz o sucesso deste tipo de conteúdo.

Dez anos após Twitter e Facebook terem adotado algoritmos para distribuir conteúdo, a maioria das pessoas ainda não conseguiu compreender que a infraestrutura tecnológica fará sempre com que fake news existam. O algoritmo incentiva nosso pior comportamento. E são algoritmos triviais perante a IA que temos hoje.

https://www.estadao.com.br/link/pedro-doria/algoritmos-que-espalham-fake-news-sao-triviais-em-relacao-ao-que-nos-aguarda-no-futuro-da-ia/

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Quais serão as dez competências executivas mais procuradas em 2024?

Liderança transformacional, consciência digital e capacidade de comunicação são algumas das características que devem ajudar a impulsionar a carreira em um mercado altamente competitivo

André Freire – Exame – Publicado em 4 de janeiro/2023

Iniciamos 2024 com a expectativa de que seja um ano mais positivo para o mercado executivo. Com um prognóstico muito melhor, já comprovado com os resultados do final do ano, listo a seguir dez competências que deverão ser as mais buscadas pelas empresas nesse ano que entra:

  1. Liderança transformacional: líderes capazes de inspirar, motivar e conduzir equipes através de mudanças significativas serão cada vez mais importantes, dado o ritmo acelerado das transformações nos negócios;
  2. Inteligência emocional: habilidades interpessoais, empatia e a capacidade de compreender e gerenciar as emoções próprias e dos outros continuarão a ser cruciais para o sucesso em ambientes de trabalho colaborativos;
  3. Pensamento estratégico: a capacidade de pensar de forma estratégica, antecipar tendências e tomar decisões orientadas para o futuro será uma competência fundamental para líderes e executivos;
  4. Adaptabilidade e resiliência: em um mundo empresarial dinâmico, a capacidade de se adaptar a mudanças e superar desafios é essencial para a liderança eficaz;
  5. Consciência digital: a competência para entender e adotar tecnologias emergentes, bem como liderar a transformação digital nas organizações, será cada vez mais necessária;
  6. Pensamento analítico e tomada de decisão baseada em dados: a capacidade de analisar dados complexos e utilizar informações para tomar decisões informadas continuará sendo uma competência crítica;
  7. Habilidade de comunicação: com a crescente importância das relações públicas, novos formatos de equipes descentralizados e modelos híbridos de trabalho, a comunicação eficaz, tanto interna quanto externa, será essencial para líderes executivos;
  8. Colaboração e trabalho em equipe: em ambientes de trabalho cada vez mais colaborativos, a habilidade de trabalhar eficazmente em equipes multifuncionais será fundamental;
  9. Habilidade de aprendizado contínuo: a capacidade de aprender rapidamente, adquirir novas habilidades e se manter atualizado em um ambiente em constante mudança será uma competência valiosa;
  10. Responsabilidade social e sustentabilidade: líderes que demonstram um compromisso sólido com práticas empresariais éticas, responsabilidade social corporativa e sustentabilidade serão cada vez mais procurados.

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André Freire

Colunista

André é sócio-diretor da EXEC, consultoria de projetos de seleção de C-Level, estrutura de governança, montagem de conselhos e programas de desenvolvimento de lideranças. Atua como Presidente do Conselho da ONG Make-a-Wish e membro do YPO.

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Como o governo de Taiwan criou a TSMC, maior fabricante de semicondutores do mundo

* escrito por Samuel Velasco – www.paulogala.com.br

O início da década de 1970 representou um grande desafio para Taiwan. Sua economia, então, era formada principalmente por produtos agrícolas e montagem eletrônica simples – exportações de baixo valor e facilmente substituíveis. O Estado criou um fabricante de semicondutores de última geração de classe mundial, a partir de um plano de fomento da indústria nacional que se diferenciava do seguido pela Coréia do Sul e outros “Tigres”. 

O governo viu a indústria de semicondutores como caminho para complexificação de sua economia, investindo na indústria de montagem de eletrônicos, dominada pelos EUA e pelo Japão. Taiwan tinha algumas fábricas de montagem de eletrônicos, semelhante à Zona Franca de Manaus, mas aquelas eram apenas para tarefas de montagem de baixo valor agregado e sem tecnologia “enraizada” no país. Ao tentarem ascender na cadeia de valor no setor de semicondutores, as empresas taiwanesas encontraram barreiras de entrada muito altas e uma reputação internacional que não favorecia as exportações: ninguém via os produtos taiwaneses como duráveis ou de qualidade.

Sun Yun-suan, ministro de assuntos econômicos e Wu Ta-You, diretor do Conselho Nacional de Ciência, defendiam o financiamento de pesquisa aplicada em engenharia elétrica relacionadas a semicondutores, a fim de nacionalizar a tecnologia em Taiwan. Visando ajudar as empresas privadas a entrarem no mercado tecnologicamente avançado e intensivo em capital da indústria de fabricação de semicondutores, Taiwan fundou o Instituto de Pesquisa de Tecnologia Industrial (ITRI). 

A intenção deste laboratório com financiamento estatal era fazer pesquisa científica aplicada com a intenção de eventualmente incubar seus projetos como empresas privadas. O Instituto de Pesquisa de Tecnologia Industrial (ITRI) se concentrou em convidar empresas estrangeiras dos Estados Unidos ou da Europa para ensinar aos engenheiros locais tecnologias específicas de semicondutores, ou seja, o famoso acordo de transferência de tecnologia tão polêmico atualmente. 

A RCA, dos EUA, ganhou a licitação de 1976 e procedeu a convidar uma equipe de cerca de 40 engenheiros taiwaneses para uma de suas fábricas, para ensinar-lhes não apenas a ciência bruta dos semicondutores, mas também as técnicas de gerenciamento e conhecimento industrial para sua manufatura. No entanto, a RCA não forneceu a Taiwan sua tecnologia de ponta, mas sim tecnologia já ultrapassada nos EUA, porém, alguns anos depois, a RCA abandonou completamente a indústria de semicondutores e deixou Taiwan com uma licença para todas as suas tecnologias.  Taiwan focou no aprendizado sobre uma tecnologia conhecida como semicondutores de óxido de metal complementar (CMOS). CMOS ainda não havia amadurecido e seu mercado era limitado, mas viria a se tornar a tecnologia dominante de processo de fabricação de semicondutores nas décadas seguintes.

Basicamente, o governo de Taiwan agiu como um capitalista de risco e escolheu apoiar algumas startups. A maior parte dos aficionados por tecnologia conhece a Taiwan Semiconductor Manufacturing Company (TSMC), mas poucas pessoas sabem que a TSMC não foi a primeira grande fabricante de chips de Taiwan. Essa honraria cabia à United Microelectronics Corporation (UMC). Em 1980, os cientistas e engenheiros do ITRI aproveitaram o conhecimento que ganharam com seu estágio na RCA e ajudaram a fundar a UMC. 

O governo forneceu à UMC a tecnologia, ajudou a recrutar talentos para preencher as posições da empresa e até intermediou seu primeiro negócio. A UMC logo se tornou o fabricante de semicondutores mais lucrativa de Taiwan, mas a UMC falhou em ser o sucesso que o país queria: ela não conseguia competir no setor globalmente e se viu produzindo chips de baixo nível para brinquedos e relógios. O ITRI logo criaria duas outras empresas que buscavam projetar chips, mas ambas não conseguiram criar raízes e foram adquiridas por concorrentes.

TSMC significa Taiwan Semiconductor Manufacturing Company. A TSMC, com sua sede e operações primárias localizadas em Hsinchu Science Park em Taiwan, é a maior fábrica independente de semicondutores do mundo – tornando-se uma peça central no mundo da fabricação de silício sem fábrica. Não se pode contar a história da TSMC sem contar a história de seu fundador: Dr. Morris Chang, conhecido como o “pai dos semicondutores”. 

Morris Chang nasceu na China e concluiu seu doutorado em engenharia elétrica pelo MIT e Stanford. Ele passou 25 anos na Texas Instruments trabalhando com projetos avançados de semicondutores e processos de fabricação. Ele ingressou no Instituto de pesquisa sem fins lucrativos ITRI em 1986 como presidente e, em seguida, usou essa plataforma para estabelecer a primeira planta de fabricação de wafer de semicondutores da TSMC no campus do ITRI. A TSMC foi fundada em 1987, quando ele tinha 56 anos. Tudo começou como uma colaboração entre o governo de Taiwan, a gigante tecnológica Philips, bem como investidores privados com interesse em tecnologia de semicondutores.

A TSMC representou um novo modelo de negócios inovador que revolucionou o mercado de semicondutores existente. A TSMC entrou no mercado com tecnologia muito mais avançada do que UMC, o que lhe deu uma vantagem no mercado. Essa tecnologia veio da Europa. A empresa holandesa Phillips, forneceu informações tecnológicas sobre o processo de 1,5 mícron que constituiria o produto principal da TSMC. Hoje, o principal fornecedor de máquinas de litografia com luz ultravioleta extrema (EUV) é a ASML, também da Holanda. O ITRI contratou trabalhadores taiwaneses altamente qualificados para usar e operar adequadamente o processo de 1,5 mícron da Phillips. 

O governo de Taiwan investiu algum dinheiro, mas também queria o envolvimento de investidores privados porque acreditava fortemente na seleção que o mercado fazia de suas startups. A Philips recebeu a parte substancial das ações da TSMC. A Intel e a Texas Instruments tiveram a chance de investir, mas foram rejeitadas. Magnatas taiwaneses foram ordenados a investir no setor de semicondutores, a maioria a contragosto, mas o governo os forçou. Wang Yung-ching, da Formosa Plastics Corporation, teve de comprar 5% da TSMC por ordem do Estado. Ele vendeu todas as suas ações alguns anos após a compra. 

A TSMC desde o início focou no mercado internacional de exportação, por determinação estatal. Já a UMC começou focando no mercado doméstico, que era protegido pelo governo de Taiwan. O mercado doméstico protegido permitiu o rápido desenvolvimento de know-how, e também criou um ecossistema de fornecedores satélite em torno da indústria de semicondutores. Quando a TSMC começou a competir no mercado internacional, a maior parte do trabalho braçal já havia sido feito pela UMC e outras empresas “fracassadas”, patrocinadas pelo governo. No mercado interno taiwanês, o governo poderia ajudá-las, mas o que aconteceu foi que o mercado interno tornou a UMC muito confortável. A empresa cresceu, mas não se tornou de classe mundial.

O ITRI tinha uma estratégia muito específica para desenvolver a indústria de semicondutores. Pequenas empresas se aglomeraram guiadas em massa pelo Estado. Isso se deu em contraste com a estratégia da Coreia do Sul onde o governo daria muito dinheiro para empresas especiais (campeões nacionais), para que elas dominassem um setor específico. 

Em Taiwan, ao contrário, o Estado criou uma infinidade de pequenas empresas em diferentes partes da cadeia de produção de semicondutores, e lhes deu um impulso inicial, providenciou recursos humanos e de base, inclusive casas para os empreendedores e trabalhadores do setor, em especial no Hsinchu Science Park, a partir de 1980. As empresas de semicondutores eram tributadas em menos de 2%. 

No início da década de 1990, uma vez que essas empresas começaram a participar do mercado global, o governo taiwanês não as inflava com subsídios nem tentava protegê-las da concorrência, em outras palavras, nenhuma tarifa protetora para lhes dar um mercado interno cativo, isso fez com que várias empresas falissem. Além disso, o governo não tentou apoiar uma empresa específica depois que ela começou a falir. 

Embora o Estado não tenha investido em “campeões nacionais”, trabalhou para ajudar a indústria como um todo, inclusive priorizando o fornecimento de energia elétrica para as imediações do Hsinchu Science Park. Hoje, a TSMC é responsável por 28% da produção de semicondutores no mundo, e anunciou recentemente um investimento em expansão de capacidade produtiva de 100 bilhões de dólares. A UMC vem em 2º lugar, com 13% do mercado. A TSMC contou com apoio estatal desde sua fundação, foi protegida pelo governo taiwanês, recebeu aporte de investimentos obrigatórios de investidores contrariados, e aprendeu a partir de empresas no mercado doméstico que falharam durante o período de “catching up”.

referências:

Beyond Late Development – Taiwan’s Upgrading Policies – Alice H. Amsden, Wan-wen Chu

https://www.nap.edu/read/18448/chapter/14?fbclid=IwAR186ar4oowRgVhrd_GpSfaz19bzma8DMut3c7eWtAX5TiQfIiGxSA4_vFc

https://www.researchgate.net/publication/236763456_A_Taiwan_Research_Institute_as_a_Technology_Business_Incubator_ITRI_and_Its_Spin-Offs

Referência: https://www.paulogala.com.br/como-o-estado-criou-a-tsmc-maior-fabricante-de-semicondutores-do-mundo/

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Principais jornais dos EUA mantêm negociações conturbadas com criadora do ChatGPT

Grandes veículos tentam licenciar conteúdo para OpenAI, mas acordo sobre preço e termos de uso gera ruído

Benjamin Mullin – Folha/ The New York Times- 30.dez.2023 

Há meses, alguns dos maiores players da indústria de mídia dos Estados Unidos têm mantido conversas confidenciais com a OpenAI sobre uma questão complicada: o preço e os termos para licenciar seu conteúdo para a empresa de inteligência artificial.

O véu sobre essas negociações foi levantado esta semana quando o The New York Times processou a OpenAI e a Microsoft por violação de direitos autorais, alegando que as empresas usaram seu conteúdo sem permissão para desenvolver produtos de IA.

O Times afirmou que, antes de processar, tentou por meses chegar a um acordo com as empresas. Outras organizações de notícias, incluindo a Gannett, a maior empresa de jornais dos Estados Unidos; a News Corp., proprietária do The Wall Street Journal; e a IAC, a gigante digital por trás do The Daily Beast e da editora de revistas Dotdash Meredith, têm mantido conversas com a OpenAI, disseram três pessoas próximas às negociações, que pediram anonimato para discutir as conversas confidenciais.

A News/Media Alliance, que representa mais de 2.200 organizações de notícias na América do Norte, também tem conversado com a OpenAI sobre a criação de um acordo que atenda aos interesses de seus membros, disse uma pessoa familiarizada com as conversas.

A Microsoft, que é a maior investidora da OpenAI e está incorporando a tecnologia da startup de inteligência em artificial em seus produtos, também participou de encontros de negociação.

Empresas como a OpenAI e a Microsoft têm buscado acordos de licenciamento com organizações de notícias para treinar sistemas de IA capazes de produzir textos semelhantes aos escritos por humanos.

Em comunicado, a OpenAI afirmou que respeita os direitos dos criadores e proprietários de conteúdo e acredita que eles devem se beneficiar da tecnologia de IA, citando seus acordos com a Associated Press e o conglomerado editorial alemão Axel Springer.

Os editores de notícias mantêm relações precárias com empresas de tecnologia desde que perderam grande parte de seus negócios tradicionais de publicidade para novos concorrentes como o Google e o Facebook, e os executivos de publicação estão cautelosos em vender seu conteúdo por um preço muito baixo.

Há também o medo de que as aplicações de IA possam fornecer informações imprecisas citando seus artigos.

O acordo com a AP, anunciado em julho, permite que a OpenAI licencie o arquivo de artigos de notícias da AP.

A Axel Springer, cujas holdings incluem o Politico e o Business Insider, foi além: neste mês, fechou um acordo de vários anos que deu à OpenAI acesso ao seu arquivo de notícias e permitiu que a empresa de IA usasse artigos recém-publicados em aplicativos como o ChatGPT. O acordo, que inclui uma “taxa de desempenho” com base em quanto a OpenAI usa seu conteúdo, vale mais de US$ 10 milhões por ano, disse uma pessoa familiarizada com o acordo.

https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2023/12/principais-jornais-dos-eua-mantem-negociacoes-conturbadas-com-criadora-do-chatgpt.shtml

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O smart money vai ficar mais smart: qual será a cara do corporate venture capital, o CVC, em 2024

Em vez de apenas virar sócia de startups e comprar a tecnologia delas, as grandes empresas querem replicar sua cultura

Por Daniel Giussani e Marcos Bonfim – Exame –  21 de dezembro de 2023 

A simbiose entre startups e grandes empresas ficará ainda mais aprofundada no Brasil em 2024. Após dois anos de investidores do venture capital reticentes em assinar cheques a negócios ainda incipientes, a saída encontrada por muitos “startupeiros” foi recorrer ao crédito oriundo de grandes corporações. 

Chamado de corporate venture capital, ou CVC, esse tipo de financiamento costuma sair do papel quando uma empresa de grande porte tem interesse numa tecnologia criada por uma startup e que demoraria muito tempo para ser desenvolvida dentro de casa.

Para além de ser sócia, a grande empresa pode virar cliente da start­up ou mesmo apresentar novos clientes. Não é raro os times de investidora e investida trabalharem em conjunto em programas de inovação aberta. É, também, uma chance de ouro para grandes empresas fisgarem talentos.

Em meio ao inverno das start­ups, o corporate venture capital está bombando no Brasil. Os dados mais recentes, de 2022, indicam aportes desse tipo que somam 925 milhões de dólares, de acordo com levantamento do Distrito, uma plataforma com dados sobre startups. O número é mais que o triplo do patamar de 2020, quando esses investimentos somaram 261 milhões de dólares. O período coincidiu com a abertura de 70% dos fundos para CVC com atuação no país.

Em 2024, para além de servir de boia a empreendedores ávidos por recursos, o CVC ganhará importância como fonte de in­sights para a estratégia das start­ups. É uma mudança importante na relação de poder entre startups e corporações.

Até pouco tempo, era comum entre executivos de corporações o desejo de copiar o modo de gestão das startups. Após a crise de o venture capital derreter o valor da grande maioria das empresas de tecnologia, agora são as startups que estão calçando a sandália da humildade e prestando mais atenção aos modelos de negócios das corporações.

Quem já está com o novo ‘mindset’

No fundo, ambos estão falando a mesma língua com mais frequência. “Avançamos em relação às expectativas de ambos os lados para a geração de valor entre corporações e startups”, diz Leo Monte, presidente da Associação Brasileira de Corporate Venture Capital, criada em novembro de 2023 na esteira do boom desse tipo de investimento.

O alinhamento de expectativas é um passo importante. Muitos programas de inovação aberta morrem na praia pela falta de compreensão da liderança das corporações sobre o que esperar das startups — e em quanto tempo chegam os resultados. Nos Estados Unidos, 31% dos CVCs foram dissolvidos entre 2020 e 2023, de acordo com dados de Ilya A. Strebulaev, professor da Universidade Stanford dedicado ao tema. A desconexão entre as partes é a principal causa para o fracasso.

Daqui para a frente, a toada nas grandes empresas é replicar nas start­ups boa parte da cultura corporativa responsável pelo sucesso delas. Em outras palavras, o smart money, jargão das startups para o investidor que tem lugar de fala nos rumos do negócio investido, ficará ainda mais smart. Alguns exemplos disso já estão pipocando aqui e ali.

Um bom exemplo vem da gaúcha Randon, uma das líderes globais em autopeças. A poucos quilômetros da sede da corporação, em Caxias do Sul, a Randon abriu o Conexo, um misto de coworking e universidade para start­ups, como as investidas da Randon Ventures, o braço do grupo para start­ups.

“É uma área para o desenvolvimento de pessoas”, diz Daniel Ely, vice-presidente da Randoncorp, a holding do grupo. “Queremos que as startups venham até nosso espaço, se conectem com nosso ecossistema e consigam se desenvolver conosco.”

Na Ambev, os executivos da companhia são incumbidos da missão de mostrar às startups quais são as áreas de negócio. Na língua do gigante de bebidas, eles viram “padrinhos” dos startupeiros. “Nós temos muitos ativos além de dinheiro para dar às startups, certo? Sentar com o VP da Ambev por 2 horas e tirar dúvidas tem muito valor e nós precisamos desse tempo”, disse Luciana Sater, head de investimentos da Ambev, num evento recente sobre CVC.

Daniel Giussani

Repórter de Negócios

Formado em jornalismo pela UFRGS, escreve sobre negócios e empresas desde 2019. Foi repórter em coluna de economia no jornal Zero Hora e na Rádio Gaúcha. Está na Exame desde 2023

Marcos Bonfim

Repórter de Negócios

Formado em jornalismo pela PUC-SP e com pós em Política e Relações Internacionais pela FESPSP, escreve sobre negócios desde 2022. Acumula passagens por veículos como Meio & Mensagem, Propmark e UOL

https://exame.com/revista-exame/o-smart-money-vai-ficar-mais-smart/

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Executivos contam por que decidiram ampliar investimentos em 2024

‘Adoraria ter previsibilidade, mas o que vamos fazer? Ficar de braços cruzados’, diz diretor de incorporadora de shoppings. Em 2023, crescimento do PIB veio do consumo, sem grandes aportes em novos projetos por parte das empresas.

Por Vinicius Neder – O Globo – 31/12/2023 

A expectativa de que o alívio nas taxas de juros, não só no Brasil, mas no mundo como um todo, continuará em 2024 tenderá a melhorar o cenário para os investimentos, mas executivos de empresas de portes e atividades variadas focam no retorno de seus projetos para defender suas decisões de investir.

Se em 2023 o crescimento da economia foi ancorado basicamente no consumo das famílias – sem grandes aportes em novos projetos por parte das empresas – as companhias miram seus próprios negócios quando relatam os motivos para apostar em ampliações de suas operações neste ano de 2024.

Para Armando d’Almeida Neto, diretor vice-presidente Financeiro e de Relações com Investidores da Multiplan, não dá para esperar o cenário melhorar para investir.

– Óbvio que adoraria ter previsibilidade, estabilidade, regras claras, mas quando olhamos, e não é uma particularidade do Brasil, vemos grande volatilidade, flutuações, temas geopolíticos. O que vamos fazer? Ficar de braços cruzados esperando?

BYD e a paixão por carros do Brasil

A chinesa BYD, maior fabricante de carros elétricos do mundo, pretende investir ao menos R$ 1,5 bilhão no Brasil em 2024. E esse valor é o piso, disse Alexandre Baldy, presidente do Conselho de Administração da subsidiária brasileira da companhia.

Esse valor inclui parte dos R$ 3 bilhões anunciados para a aquisição e adaptação da fábrica da Bahia, que antes pertencia à Ford – as obras na fábrica começarão em fevereiro, com previsão de começar a produzir em dezembro de 2024. E também haverá aportes na abertura de concessionárias e campanhas publicitárias.

Baldy destaca que o brasileiro tem nos carros uma paixão e é aberto a inovações, garantindo uma “aceitação enorme” para os carros da BYD. À venda no Brasil desde julho, modelos como o Dolphin e o Song Plus já venderam 12,4 mil unidades no acumulado até novembro.

Apenas naquele mês, a BYD foi a 11ª marca mais vendida do país, conforme os dados de emplacamentos, compilados pela Fenabrave, federação de revendedores.

– E tem um potencial de ser um hub para a América Latina, porque o Brasil tem um acordo bilateral com México, tem a facilidade do Mercosul. É uma conjugação de fatores – acrescenta o executivo, lembrando que países como Chile, Bolívia, Argentina e Brasil também se destacam por reservas de minerais críticos para as baterias dos carros, como o lítio, importante para a estratégia de verticalização da fabricante chinesa.

Suzano e o papel higiênico na Ásia

A Suzano, maior fabricante global de celulose de fibra curta (usada para fazer papel branco, papel higiênico e demais produtos de higiene) aplicará R$ 16,5 bilhões em 2024 no Brasil. Do total, R$ 4,6 bilhões vão para concluir mais uma fábrica em Mato Grosso do Sul, prevista para ser inaugurada em meados do ano que vem – o Projeto Cerrado, que inclui também as florestas ao lado da nova planta, consumirá R$ 22,2 bilhões.

Segundo o diretor-executivo de Finanças e Relações com Investidores, Marcelo Bacci, justificam os aportes bilionários o fato de que a indústria de celulose de fibra curta brasileira é a mais competitiva do mundo.

As condições de clima, solo, disponibilidade de terras e o desenvolvimento de espécies adaptadas de eucalipto garantem a maior produtividade e os menores custos de um insumo cuja demanda cresce estruturalmente. Afinal, quanto mais pessoas saem da pobreza, especialmente na Ásia, mais se consome papel higiênico, lenços de papel, fraldas e produtos simulares.

Se os juros elevados atrapalham menos, porque a Suzano levanta financiamentos no exterior e buscou operações na época de juros baixos do início da pandemia de Covid-19, o ambiente de negócios pouco amigável e a infraestrutura deficiente atrapalham os investimentos. Eles poderiam ser maiores e mais rentáveis, não fosse o chamado custo-Brasil.

– Fazemos muito investimento em infraestrutura, e parte importante desse investimento tem a ver com isso, porque não existe infraestrutura pública adequada no Brasil. Quando fazemos uma fábrica de celulose, construímos uma infinidade de estradas por dentro das fazendas para chegar à fábrica, porque a infraestrutura viária pública não dá conta. Fazemos estradas próprias – afirma Bacci, ressaltando que parte importante do investimento no Projeto Cerrado foi para a construção de um terminal portuário, no Porto de Santos:

– O Brasil é muito competitivo, apesar dessas coisas. Pode melhorar.

Multiplan e o local ideal para um shopping

O portfólio de projetos da incorporadora imobiliária e administradora de shopping centers Multiplan inclui a expansão de sete empreendimentos, para ser entregues entre o segundo semestre de 2024 e a segunda metade de 2027, incluindo o MorumbiShopping, em São Paulo.

A empresa não divulga metas de investimento, mas levando em conta os custos por metro quadrado, o valor total ao longo do período poderia ficar em torno de R$ 1,5 bilhão, estima Armando d’Almeida Neto, diretor vice-presidente Financeiro e de Relações com Investidores da Multiplan.

Segundo o executivo, o principal motivo para a companhia investir é a identificação da demanda por parte dos consumidores, conforme as mudanças de seus hábitos. Haveria, portanto, um crescimento de longo prazo, à medida que comércio e serviços migram das ruas para os shoppings e os empreendimentos se espalham pelo país – apenas 244 das 5.570 cidades brasileiras têm shoppings, informa Almeida Neto.

A estratégia é identificar os melhores locais para atender essa demanda crescente, vislumbrando seu avanço no longo prazo, já que a construção de um empreendimento leva anos.

Achar essas oportunidades, entendendo o consumidor, é mais importante do que o ambiente de negócios ou o nível dos juros, diz o executivo. Em quase 50 anos, a Multiplan já passou por hiperinflação, recessões e a pandemia de Covid-19.

– Óbvio que adoraria ter previsibilidade, estabilidade, regras claras, mas quando olhamos, e não é uma particularidade do Brasil, vemos grande volatilidade, flutuações, temas geopolíticos. O que vamos fazer? Ficar de braços cruzados esperando?

Seacrest de olho no petróleo em terra

A petroleira independente de médio porte Seacrest, que produz petróleo e gás em terra no norte do Espírito Santo, planeja investir US$ 100 milhões em 2024 no Brasil, para perfurar mais poços e abrir novas zonas de produção.

Segundo Juan Alves, vice-presidente de produção e operações da empresa, a motivação está na oportunidade criada pelo boom da exploração em terra no país – impulsionado pelas vendas de campos considerados pequenos pela Petrobras, na estratégia da estatal de se concentrar no pré-sal –, que deu fôlego às petroleiras de médio porte.

A Seacrest adquiriu sua primeira área em 2019, mas começou a operar em 2021. A segunda, em local adjacente, adquiriu em 2022 e começou a operar em abril de 2023. Gastou US$ 700 milhões nas aquisições e tem um plano de investimentos de US$ 400 milhões até 2027.

– Temos certificação de reservas, com auditoria externa, em mais de 300 pontos para perfurar em até 2027 – diz Alves, explicando que os investimentos não são na exploração de novas reservas. – É uma perfuração no meio, de baixo risco. Tenho dois poços produzindo e vou colocar um no meio. Aceleramos a produção o máximo que podemos.

Para o executivo, o boom do petróleo em terra ainda continuará a puxar investimentos, mesmo que a Petrobras tire o pé do acelerador na venda de campos menores.

A próxima fase deverá ser marcada por fusões, aquisições e parcerias entre as pequenas e médias petroleiras, em prol de sinergias na cadeia de fornecedores e na infraestrutura. Por isso, as decisões de investimento deverão ser pouco afetadas pelo cenário econômico, diz Alves:

– A Reforma Tributária, por exemplo, não nos afeta de forma significativa. Só quando cria um imposto de exportação, como na virada do ano (de 2022 para 2023). Somos listados na Bolsa de Oslo, e fomos bastante impactados. Uma ação dessas faz com que repensemos nossos investimentos.

Ibi cria seu ‘anel óptico’

A Ibi, provedor de internet de alta velocidade no leste de Minas Gerais, em cidades como Ipatinga e Governador Valadares, cresceu com o boom da banda larga via fibra óptica, puxado, Brasil afora, por pequenas e médias empresas. Apesar do “cenário desafiador”, a Ibi investiu R$ 10 milhões em 2023 e aportará mais cerca de R$ 5 milhões em 2024, apenas para montar seu próprio “anel óptico”, interligando Minas, Rio e São Paulo, conta Pedro Matias, diretor técnico e operacional do provedor.

O cenário é desafiador, diz o executivo, por causa dos juros elevados e do encarecimento de equipamentos, em meio à pandemia e às turbulências geopolíticas, que encarecem os investimentos, mas há uma perspectiva de crescimento estrutural da demanda, que justifica a aposta.

– Acima de 90% das residências do país já estão providas de acesso à internet. O desafio é nos diferenciar na qualidade, para atrair clientes de outras empresas – diz Matias, acrescentando que também há espaço para mais demanda via substituição tecnológica, de outros tipos de cabo por fibra.

Por isso, a Ibi investirá outros R$ 13 milhões apenas na instalação de novos clientes em 2024, mas o diretor da empresa explica que a decisão de apostar na construção de sua rede própria, o “anel óptico” tem mais a ver com eficiência operacional.

Dado o aumento da base de clientes, é melhor ter a rede própria, em vez de alugar a estrutura de outras operadoras – a rede própria são os equipamentos que transmitem os dados entre os locais onde o provedor atua e o ponto de troca com o exterior, em São Paulo, usando a estrutura de fibra de outras empresas que tenham capacidade ociosa. A capacidade será ampliada em quatro vezes, permitindo dobrar a base de clientes.

– Fazendo essa infraestrutura própria, vamos passar por cidades que, até então, estavam fora da nossa região de atuação, como Belo Horizonte, Juiz de Fora, Rio, São Paulo, Vitória – diz Matias.

CCR investe em estradas concedidas

A operadora de infraestrutura CCR tem um investimento programado de R$ 33 bilhões em todos suas concessões vigentes. Apenas nos nove primeiros meses de 2023, a companhia investiu R$ 4,2 bilhões, 31% acima do investido em todo o ano anterior. O grande destaque são as concessões de rodovias, que deveram ficar com R$ 28 bilhões desse valor total.

Entre os principais projetos está a Via Dutra, cuja concessão foi renovada após a CCR ganhar o novo leilão de licitação, que incluiu na operação a Rio-Santos, trecho da BR-101 que liga o litoral fluminense ao paulista.

Apenas as obras da ampliação da Dutra na região metropolitana de São Paulo e na altura de São José dos Campos, no lado paulista da rodovia, consumirão R$ 2 bilhões e deverão ser concluídas em 2025 e 2026 – no lado fluminense, a nova subida da Serra da Araras receberá R$ 1,2 bilhão, mas, por contrato, ficará pronta apenas em 2028.

Para o presidente da CCR, Miguel Setas, “um cenário macroeconômico favorável facilita a contratação de crédito e estimula o investimento privado em infraestrutura”, mas não é só isso que conta no apetite da companhia por apostar na conquista de mais concessões nos próximos leilões. São levados em conta a modelagem dos contratos, a expectativa de receitas, o tamanho dos investimentos e a segurança jurídica, elenca o executivo, em resposta por escrito ao GLOBO.

https://oglobo.globo.com/economia/noticia/2023/12/31/executivos-contam-por-que-decidiram-ampliar-investimentos-em-2024.ghtml

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