Como a Weg se tornou uma máquina de compra de empresas e chegou a 17 países

Companhia fundada em 1961 tornou-se multinacional de equipamentos e concluiu, neste ano, nos EUA, a maior aquisição de sua história, por US$ 400 milhões, somando mais dez fábricas ao portfólio

Por Ivo Ribeiro – Estadão – 10/09/2024 

Em abril de 1961, um eletricista, um administrador e um mecânico se juntaram, em Jaraguá do Sul (SC), para criar uma empresa especializada em fabricar motores elétricos, à qual deram o nome de Eletromotores Jaraguá, em homenagem à cidade. Foi o embrião, 63 anos atrás, da Weg, que se tornou uma multinacional brasileira reconhecida globalmente por atuar na fabricação de equipamentos elétricos, com destaque em motores e automação industrial.

Hoje, a companhia está presente em 17 países (incluindo o Brasil), com 63 unidades industriais, e apresenta um valor de mercado na Bolsa superior a R$ 220 bilhões, com uma receita anual que caminha para R$ 40 bilhões — fechou 2023 com cifra de R$ 32,5 bilhões. A Weg se destaca ter uma taxa de crescimento anual composta de 18% ao longo dos últimos 28 anos, fruto de crescimento orgânico e de aquisições, em suas informações oficiais.

A denominação Weg é referência às iniciais dos nomes dos três fundadores — Werner Ricardo Voigt, Eggon João da Silva e Geraldo Werninghaus. Cada um deles aportou ao negócio iniciante seus conhecimentos e experiências adquiridos até então.

Werner Voigt, Eggon da Silva e Geraldo Werninghaus, fundadores da Weg

Werner Voigt, Eggon da Silva e Geraldo Werninghaus, fundadores da Weg Foto: Weg/Divulgação

Voight, o eletricista, filho de imigrantes alemães da região de Düsseldorf, havia montado oito anos antes uma pequena oficina no centro de Jaraguá do Sul que fazia manutenção de cerca das duas dezenas de veículos motorizados que então circulavam pela cidade e pela região. O negócio prosperou e mostrou o espírito empreendedor do jovem empresário. Foi Voigt quem idealizou o protótipo de um motor que se tornou o produto originário da Weg. A divisão de motores elétricos é até os dias atuais a referência da companhia.

Eggon João da Silva, que nasceu em 1929 no município vizinho de Schroeder, tinha desde cedo o dom para a atividade de administrador. Em 1957, após 14 anos no principal banco do Estado, tornou-se sócio da João Wiest & Cia. Ltda., empresa especializada em fabricar canos de escape para veículos. Quatro anos depois deixou a empresa, que já tinha 150 funcionários, para fundar a Weg. Foi o primeiro presidente da Weg, por quase três décadas.

Geraldo Werninghaus, o mecânico, nasceu em Rio do Sul e começou sua carreira profissional na Werninghaus & Filhos, oficina de seu pai em Joinville. Iniciou o aprendizado de mecânico aos 14 anos. Segundo a companhia, seus conhecimentos em mecânica e sua criatividade para solucionar problemas, somados às habilidades dos colegas, serviram para tornar a empresa uma referência no Brasil. Na fábrica, ele se encarregava da produção propriamente dita, tornando-se um líder nessa área da empresa. Em 1989, ao deixar as funções executivas e passar ao conselho administrativo, experimentou a carreira pública: foi vereador, deputado estadual e prefeito de Jaraguá do Sul.

A companhia não abre o porcentual exato de participação acionária de cada um dos seus donos, atualmente distribuídos em várias dezenas de herdeiros. Em seu site, na área de relações com investidores, a Weg informa que os três ramos familiares controlam 50,09% das ações por meio da holding WPA Participações. Dessa fatia, cada família detém 33,33%. Os membros das famílias têm ainda, diretamente, 14,49% do capital, totalizando 64,58% das ações em poder dos fundadores.

Anne Werninghaus, neta de Geraldo Werninghaus, é apontada como a maior acionista individual da Weg, com uma fortuna estimada pela revista Forbes, no ranking anual deste ano, de R$ 6,96 bilhões. Anne, que não tem atuação na empresa, como a maioria dos demais herdeiros, recebeu do pai grande parte das ações. A publicação lista 29 herdeiros dos três fundadores da Weg (já falecidos) na sua lista de bilionários brasileiros, com patrimônio somado de R$ 95,6 bilhões.

Com a expansão e a diversificação dos negócios e com sua internacionalização, em uma trajetória de mais de seis décadas, a Weg ganhou projeção no mercado de capitais. O papel da companhia, que encerrou agosto valendo R$ 54,15 na B3, neste ano registrou alta de 50,33%, saindo de R$ 36,02 (valor ajustado no fechamento). No período de 12 meses, valorizou 53,5%. No final de agosto, a multinacional brasileira de equipamentos elétricos atingiu valor de mercado de R$ 227,3 bilhões, só perdendo para Petrobras (R$ 540,1 bilhões), Itaú (R$ 335,5 bilhões) e Vale (R$ 270,4 bilhões) e seguida por Ambev (R$ 202,6 bilhões). Ao final de 2023, a Weg contabilizava cerca de 356 mil acionistas.

Motores elétricos é ainda o produto carro-chefe da companhia, que não abre a participação de receita por produtos. Com motores, acionamentos e redutores elétricos formam uma das sete linhas de produtos, seguida por geradores e transformadores de energia, produtos e sistemas para eletrificação, automação e digitalização. A Weg se distribui em quatro divisões de negócio: Equipamentos Eletroeletrônicos Industriais, Geração, Transmissão e Distribuição de Energia (GTD), Motores Comerciais e Appliance e Tintas e Vernizes.

As primeiras aquisições de ativos da Weg no exterior ocorreram no ano de 2000 no México — onde está consolidando uma plataforma industrial de grande porte, visando atender ao mercado da América do Norte, especialmente os Estado Unidos — e na Argentina. De lá para cá, principalmente a partir de 2010, a Weg se tornou uma máquina de compra de ativos, avançando do Brasil para várias partes do mundo: das Américas, com forte posição nos EUA e no México, além do Brasil, Europa (vários países), Ásia, com destaque para China e Índia, até a África.

Nos Estados Unidos, em setembro passado, a companhia fez seu maior investimento de aquisição. Por cerca de US$ 400 milhões (o equivalente a R$ 1,98 bilhão pelo câmbio da época) comprou a fabricante de motores elétricos industriais e geradores Regal Rexnord. Com o negócio, a Weg herdou uma dezena de fábricas nos EUA, Canadá, México, China, Índia, Itália e Países Baixos.

Primeira presidência durou 28 anos

Em 63 anos, até abril, a Weg foi uma empresa de apenas três presidentes executivos. Até 1989, o comando esteve nas mãos de Eggon João da Silva, que ficou 28 anos no cargo. Passou o bastão para o filho Décio da Silva, e os fundadores foram para o conselho de administração. Décio da Silva, em 2008, tornou-se presidente do conselho, e então transferiu a posição para um executivo prata da casa, Harry Schmelzer Jr, que ficou à frente da empresa por 16 anos. Há cinco meses, Alberto Yoshikazu Kuba foi empossado como quarto presidente executivo da Weg.

Dez anos após ser fundada, a Weg abriu o capital na Bolsa de Valores e em 2007 migrou as negociações de seus papéis para o Novo Mercado da B3, juntando-se a empresas que adotam práticas de governança corporativa adicionais às até então exigidas pela legislação brasileira do mercado de capitais. A década de 70 foi marcada pelo processo de expansão no mercado nacional e pelos primeiros passos da empresa no mercado internacional, com início de exportação de motores para países da América Latina.

Na década seguinte, foi iniciado o processo de expansão e diversificação dos negócios ao mesmo tempo que foram criadas novas unidades de produtos. Com o selo Weg na frente do nome, surgiram as unidades de Acionamentos, Transformadores, Energia, Química (tintas industriais) e Automação (para desenvolver, produzir e comercializar produtos de automação industrial e pacotes elétricos).

Alguns marcos da trajetória da companhia, que ajudaram a consolidar sua expansão e sua internacionalização, levando a Weg a se tornar a gigante que é hoje, foram: na década de 1990 ocorreu a abertura da filial nos EUA e em vários países da Europa; em 1999, a companhia já exportava 29% da produção para 55 países e no Brasil atingia 79% de participação de mercado em motores elétricos; em 2001, o faturamento atinge o primeiro R$ 1 bilhão; a entrada na China em 2025, com a inauguração da primeira fábrica no país asiático; e o início de operações fabris, em 2010, na Índia, outro passo importante.

Em 2011, a empresa vislumbrou um grande potencial de negócios no segmento de geração de energia renovável eólica. No ano seguinte, faz o primeiro fornecimento de um aerogerador com o selo Weg, ao instalar equipamentos em um parque eólico do Nordeste, marcando sua entrada em um mercado dominado por multinacionais./Com Clayton Freitas

Como a Weg se tornou uma máquina de compra de empresas e chegou a 17 países – Estadão

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Em IA, Brasil pensa pequeno, e a Índia sonha gigante

Enquanto montamos um time só com zagueiros, país asiático aposta no ataque

Ronaldo Lemos – Folha – 15.dez.2024 

Uma lição que o Brasil pode aprender com a Índia: a melhor defesa é o ataque. Por exemplo, em questões como tecnologia e inteligência artificial, a posição indiana é o contrário da brasileira. Mas antes de falar nisso vamos analisar a nossa derrota.

A economia brasileira foi por décadas maior que a indiana. Em 2010, o PIB indiano era de US$ 1,73 trilhão, e o brasileiro, de US$ 2,2 trilhões. Esse foi o último ano assim. A partir de 2011 a Índia virou o jogo. O PIB brasileiro ficou igual, e o indiano alcança hoje US$ 3,8 trilhões, mais que o dobro do ano da ultrapassagem.

O que houve? Vários fatores. Um deles é que a Índia foi altiva na ambição de virar liderança tecnológica. Hoje, há empresas indianas globais nesse setor. Já o Brasil assumiu uma postura subalterna. Um exemplo é a aprovação, na semana passada, do projeto de lei sobre inteligência artificial no Senado. A lei aprovada é uma cópia (ou melhor, uma caricatura) da lei europeia. A única exceção é a parte de direitos autorais, que é realmente original.

A parte “europeizada” do texto coloca o país como uma vítima da inteligência artificial. Cria todo um aparato burocrático para conter e regular as empresas de IA, grandes, pequenas ou médias. Dá ao Executivo poderes quase ilimitados para estender a regulação para qualquer setor que utilize IA. E pronto, acaba aí. A lei não trata de temas-chave como o futuro do trabalho, a questão da concorrência e da concentração econômica. E nem de estratégia, isto é, medidas para que o país possa competir globalmente nesse setor.

E a Índia, o que fez? O país acaba de anunciar seu plano chamado “India AI Mission”. Vai investir US$ 1,1 bilhão para se tornar protagonista em IA. A maior parte dos recursos vai ser usada para comprar chips e a infraestrutura necessária para criar inteligência artificial de ponta, em parcerias público-privadas. A ideia é comprar 10 mil chips H200 da Nvidia, os mais avançados. A primeira empresa que já está fazendo isso é a E2E Networks, fundada no estado de Haryana, norte do país.

Outra parcela de 20% dos recursos será aplicada para desenvolver modelos fundacionais (LLMs) locais. Outros 30% serão usados para apoiar startups indianas. O valor a ser aplicado em regulação e burocracias envolvendo IA é de apenas 0,2%. Enquanto o Brasil montou um time só com zagueiros, a Índia aposta no ataque.

A razão para isso não é irresponsabilidade. Ao contrário. A Índia identificou claramente que o maior risco que qualquer país corre com a inteligência artificial é que a oferta local de serviços de IA seja feita exclusivamente por empresas do Vale do Silício. Nesse cenário, não importa o quanto a sua regulação seja bem-feita ou a sua burocracia seja reluzente, você estará fora do jogo. Não há perigo maior que esse.

O Brasil também fez um Plano Nacional de IA, que é bem-feito. No entanto, não prevê a compra de chips de IA nem tem a ambição do plano indiano. Resta saber também se sobreviverá ao corte de gastos. Até essa pergunta ser respondida, a Índia já estará ainda mais à frente do Brasil.

Já era – Achar que regulação sozinha protege o país da IA

Já é – Perceber que a melhor forma de proteção é desenvolver IA localmente

Já vem – Câmara dos Deputados analisando em 2025 a lei de inteligência artificial

Em IA, Brasil pensa pequeno, e a Índia sonha gigante – 15/12/2024 – Ronaldo Lemos – Folha

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O começo do fim da realidade

Por Herton Escobar, jornalista especializado em Ciência e Meio Ambiente e repórter especial do “Jornal da USP”

Herton Escobar – Jornal da USP – 13/12/2024 

Se você curte imagens de gatinhos, passarinhos e outros bichinhos fofinhos nas redes sociais, deve ter visto um vídeo que viralizou recentemente no Instagram (e possivelmente em outras plataformas), de uma mamãe papagaio fazendo uma “cabaninha” com as asas para proteger seus filhotes da chuva. Coisa mais linda desse mundo! O vídeo foi replicado amplamente e recebeu milhões de visualizações em vários perfis da plataforma. “O amor de uma mãe não tem limites”, diz a legenda de uma das postagens.

Só tem um problema: o vídeo é uma mentira, criada 100% por inteligência artificial (IA) e totalmente desconectada da realidade. A mamãe papagaio é de uma espécie que não existe, os filhotes são de algum tipo de gavião que provavelmente não existe, também, e o ninho parece ser de um beija-flor (não de papagaio nem de gavião). Aliás, papagaios não constroem ninhos; eles nidificam em ocos de árvores e outras cavidades naturais. E essa postura de proteger os filhotes da chuva com as asas não existe na natureza, segundo o especialista Luís Fábio Silveira, curador de ornitologia do Museu de Zoologia da USP, com quem conversei antes de escrever esse texto. “Tá tudo errado nessa porcaria”, resumiu ele.

Seria menos mal se a imagem estivesse claramente identificada como IA. Algumas postagens até tinham uma notinha de rodapé, mas a maioria, não. (O Instagram tem um botão que permite adicionar um “rótulo de IA” na hora de postar; mas é algo muito discreto, e não é obrigatório.) Aposto que a maioria das pessoas que viram esse vídeo achou que ele era verdadeiro.

“Mas e daí? É só uma imagem fofinha que vai alegrar o dia das pessoas. Que mal isso pode causar?” Se fosse apenas esse vídeo, tudo bem. O problema é que esse é apenas um entre milhões de vídeos, fotos, áudios, textos e outros conteúdos falsos que estão inundando as redes sociais em uma escala cada vez maior e com uma qualidade cada vez melhor — ou seja, cada vez mais difíceis de serem identificados como falsos. O meu Instagram está repleto deles, incluindo dezenas de variações desse vídeo da mamãe papagaio protegendo os filhotes da chuva, além de muitos vídeos de monstros marinhos que não existem, de polvos e peixes gigantes que não existem, de filhotes de urso polar subindo a bordo de embarcações para abraçar as pessoas como se fossem cachorros, de robôs humanoides fazendo coisas impressionantes que ainda não são capazes de fazer, e por aí vai.

Um vídeo postado recentemente por um perfil de ativismo contra a poluição plástica mostra um pinguim com um anel plástico enroscado no pescoço sendo resgatado por um moço sorridente, que se aproxima dele com um peixe na mão e retira o anel. A cena termina com o pinguim pulando de alegria e acenando para as câmeras ao lado do homem como se estivesse num show de circo. Bonitinho, mas mentiroso. Não há qualquer aviso na imagem ou na legenda de que se trata de um vídeo gerado por IA. O problema da poluição plástica é real, e gravíssimo (como descrevo neste podcast), mas o comportamento do pinguim é totalmente irreal. Vários usuários criticaram o uso não identificado da IA na postagem, mas o perfil rebateu dizendo que os fins justificam os meios, porque o objetivo é chamar atenção para o impacto dos plásticos na biodiversidade.

Eu discordo. No médio e longo prazo, o uso de imagens falsas para tratar de problemas reais pode ser um tiro pela culatra, à medida que vai dessensibilizar as pessoas para a real natureza do problema que se deseja enfrentar. Depois de ver milhares de vídeos fofinhos de animais sendo resgatados ou fazendo coisas incríveis nas redes sociais, será que as pessoas ainda vão se sensibilizar com imagens do mundo real, que tendem a ser menos espetaculares do que aquelas produzidas por IA? Pior ainda: será que as pessoas vão acreditar nas imagens reais? Afinal de contas, se todas aquelas outras imagens foram criadas por IA, quem garante que essa também não foi? A realidade vai parecer tão sem graça, comparada ao que se vê nas redes sociais, que ninguém mais se interessar com ela.

O ponto crítico é que a linha que separa a realidade da ficção no mundo digital está sendo completamente borrada pela IA. Já escrevi sobre isso aqui antes, mas a velocidade com que essas tecnologias estão avançando e se popularizando é realmente assustadora. Estamos próximos — se é que já não chegamos lá — de um ponto em que vai se tornar quase impossível saber se uma imagem é real ou não. Tão perigoso quanto acreditar em mentiras é deixar de acreditar na verdade. Se o papagaio daquele vídeo não existe, quem garante que aquela imagem da Amazônia em chamas também não é falsa? Quem garante que aquela geleira está realmente derretendo? Que aquele político realmente pegou aquela mala de dinheiro? E por aí vai. Nesse novo estado de esquizofrenia digital coletiva, toda e qualquer realidade se torna questionável.

Isso abre brechas enormes para a propagação de mentiras e teorias conspiratórias; e é claro que muita gente vai se aproveitar dessa confusão. Quando Kamala Harris se lançou candidata à presidência nos Estados Unidos e começou a atrair multidões para os seus comícios, por exemplo, Donald Trump alegou que as imagens dos eventos eram geradas por IA. Lógico que era mentira, mas muita gente acreditou. Quem garante que não?

Vou dar um outro exemplo preocupante. No início deste ano a Samsung lançou um novo modelo de IA integrado aos seus dispositivos, chamado Galaxy AI, que permite fazer uma série de coisas — entre elas, edição de imagens — com extrema facilidade. O comercial de lançamento mostra uma mãe utilizando a tecnologia para “editar” (adulterar, seria o termo mais correto) uma foto do seu filho em uma peça de teatro na escola. Ela move as duas crianças que estavam mais à frente do palco para as laterais e puxa o seu filho para o primeiro plano, deixando-o isolado como protagonista no centro da cena.

Assim como no caso dos passarinhos, tudo muito fofo e aparentemente inofensivo. Mas imagine só o seguinte: quando essas crianças da “geração IA” ficarem mais velhas e olharem para suas fotos de infância, como vão saber se aquelas imagens são reais ou não? Como vão saber o que realmente aconteceu? Em que lugar do palco elas realmente estavam? Imagine a dissonância cognitiva que vai se formar entre as memórias biológicas e as lembranças digitais adulteradas da história de vida das pessoas.

Agora imagine essas tecnologias de edição de imagem, cada vez mais sofisticadas e acessíveis, sendo usadas em larga escala para adulterar a realidade de milhões de fotos e vídeos que são publicados todos os dias nas redes sociais, que é onde a maior parte das pessoas convive e se relaciona com o mundo atualmente. Quando você olhar o perfil de alguém no Instagram, no TikTok ou seja lá onde for, como vai saber se aquelas imagens são reais? Se aquela pessoa realmente foi àqueles lugares que diz que foi e fez aquelas coisas que diz que fez? Em resumo: como vamos saber quem as pessoas realmente são? Como vamos saber o que realmente está acontecendo? O que aconteceu no passado? Se aquele bicho realmente existe? Se aquele problema é realmente tão grave quanto parece?

Podemos pensar no consumo de IA via redes sociais como equivalente ao consumo de alimentos ultraprocessados na nossa dieta: tudo bem comer um pouco de vez em quando, mas não exagere, para não prejudicar sua saúde (mental, nesse caso). O ponto fundamental é a rotulagem: as pessoas precisam saber o que estão consumindo. Não importa quão nobre seja a intenção — combater a poluição plástica ou gerar empatia pela biodiversidade —, esconder o fato de que um conteúdo foi gerado por IA é desonestidade. É uma mentira contada na forma de imagem.

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(As opiniões expressas pelos articulistas do Jornal da USP são de inteira responsabilidade de seus autores e não refletem opiniões do veículo nem posições institucionais da Universidade de São Paulo. Acesse aqui nossos parâmetros editoriais para artigos de opinião.)

O começo do fim da realidade – Jornal da USP

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Qianfan: conheça a ‘Starlink da China’ que planeja ‘megaconstelação’ de satélites para desafiar Musk

A companhia enviou três cargas para a órbita da Terra e ao todo soma 54 satélites em funcionamento

Por João Pedro Adania – Estadão – 15/12/2024

Implementar uma ‘megaconstelação’ de milhares de satélites é o plano da SpaceSail, uma empresa controlada pelo governo chinês que tem o objetivo de fornecer internet global de alta velocidade, proposta similar à Starlink, de Elon Musk. A tal constelação tem nome: Qianfan (ou mil velas, em tradução livre).

Funciona assim: satélites são posicionados em órbita baixa (LEO) de modo a operar em altitudes entre 300 km e 2 mil quilômetros da superfície terrestre. Por isso, conseguem fornecer internet de alta velocidade e baixa latência, além de abranger locais inacessíveis por meio terrestre.

Com robusto investimento do governo em tecnologia aeroespacial, a estatal – subsidiária da Shanghai Spacecom Satellite Technology (SSST) – recebeu aporte de US$ 933 milhões (cerca de R$ 5,6 bilhões). Ela também não esconde a ambição de oferecer cobertura global de internet até 2027 e possuir uma frota de 14 mil satélites em órbita na Terra antes da próxima década.

O cronograma, porém, está longe do combinado, os chineses previam ter 600 satélites até o fim de 2024. A companhia enviou três cargas para a órbita da Terra e ao todo soma 54 satélites em funcionamento. Os dois primeiros foguetes levaram 18 satélites cada um, entre agosto e outubro.

A decolagem mais recente aconteceu em 5 de dezembro, quando um LongMarch6A partiu do Centro de Satélites de Taiyuan, província de Xanxim, no norte da China.

No entanto, a estreia da SpaceSail teve sabor agridoce: o primeiro foguete explodiu após liberar os dispositivos na órbita. O acidente, alardeado pelo Comando Espacial dos Estados Unidos, causou uma nuvem de lixo espacial. Na ocasião, cerca de 700 detritos foram identificados pela consultoria Leolabs, nos quais apenas os maiores que 10 centímetros de diâmetro podem ser monitorados. Uma segunda empresa de monitoramento de satélites e soluções, a Slingshot, divulgou fotos da explosão e se comprometeu a monitorar 50 pedaços de detritos que representam perigo significativo para outros satélites.

O contexto em que o plano de internet global chinês começou não podia ser mais desafiador: a SpaceX lidera esse mercado com quase 7 mil satélites em órbita e permissão regulatória para lançar outros 12 mil nos próximos anos. Além disso, a empresa de Musk registrou um pedido no International Telecommunication Union (ITU) que aumenta essa carga para mais 30 mil satélites. Ou seja, ela pode ter 42 mil novos dispositivos ao redor do planeta.

Como a SpaceSail pode mudar a telecomunicação?

Quando um novo player entra para valer na competição, o consumidor sempre tende a sair na vantagem. O preço fala mais alto na hora de comparar serviços parecidos, e concorrente é o que não falta no cenário de telecomunicação.

“Os preços devem baixar com certeza e eu acho que eles vão começar a fazer preços diferentes em mercados diferentes”, diz Eduardo Pellanda, professor e pesquisador de Comunicação Digital da PUC – RS. “Hoje, o preço da Starlink é muito homogeneizado no mundo”. Existem três pacotes de assinatura da companhia de Musk, o mais barato garante um ponto fixo de conexão, os outros são móveis e mudam de valor conforme a necessidade.

Além de Musk e os chineses, Jeff Bezos também se interessou por uma fatia do mercado e a Amazon lançou o Projeto Kuiper – tão igual aos outros que quem começou foi um ex-funcionário da Starlink. Com serviço programado para entrar em operação em meados de 2025, a começar pela Argentina e depois avançar por Brasil, Chile, Uruguai, Peru, Equador e Colômbia.

Nova corrida espacial

A Starlink, mesmo que em posição confortável em relação às outras empresas, já começa a esgotar a capacidade em algumas regiões como o Brasil. O remédio, portanto, é lançar mais satélites.

Tanto o serviço chinês quanto a Starlink estão focadas no cliente de locais onde a internet ‘tradicional’ não chega. “Essas constelações são focadas em áreas remotas e rurais, onde a infraestrutura terrestre não chega, oferecendo conectividade de internet onde não há alternativa”, diz Eduardo Tude, presidente da consultoria Teleco. “Ela não tem capacidade para substituir a rede de internet urbana já instalada. É como se fosse uma antena de celular, tem uma capacidade para atender no máximo mil ou duas mil pessoas”.

Foi com esse pensamento que a SpaceSail testou seu modelo de negócio. Os primeiros a se conectarem à rede foram os habitantes do interior rural da China, onde cerca de 300 milhões de pessoas não têm acesso regular à internet.

De agricultores a soldados, além de feitos científicos e a boa vontade em levar conexão em áreas inacessíveis, as redes via satélite já provaram a sua eficiência em siuações extremas, como guerras. A Starlink garantiu conexão rápida aos combatentes ucranianos em meio à guerra contra a Rússia, o que motivou a SpaceX a criar uma divisão dedicada a assuntos militares, a Starshield. A China, por óbvio, sabe disso e quer emular o feito em seu território.

No Brasil, um acordo assinado em novembro pelo governo e a SpaceSail autoriza o posicionamento de satélites para fornecer a rede em território nacional, da mesma forma que a Telebrás e a estatal chinesa vão compartilhar informações sobre demandas futuras de mercado.

Essas empresas, portanto, são fundamentais no xadrez geopolítico dos países. Além da China, a companhia de Musk é proibida de operar, no Irã e na Rússia. “A Qianfan não entra nos Estados Unidos por causa dessa questão geopolítica”, diz Tude.

A Qianfan – às vezes chamada de “G60 Starlink” em referência a uma estrada no sul da China onde militares projetam construir um hub de empresas espaciais – não é a única a lançar satélites para o espaço. Em 2020, a constelação Guowang por meio de um documento enviado para a União Internacional de Telecomunicações indicou comportar 13 mil satélites em um único projeto.

Qianfan: conheça a ‘Starlink da China’ que planeja ‘megaconstelação’ de satélites para desafiar Musk – Estadão

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Como é viver na Finlândia, o país mais feliz do mundo

Pela sétima vez consecutiva, Finlândia ficou em primeiro lugar no Relatório Mundial da Felicidade (ONU) em 2024

Por Ana Flávia Pilar — Helsinque, Finlândia – O Globo – 14/12/2024O 

O guia de turismo Matti Nia, de 32 anos, diz que ninguém ficou mais surpreso que os finlandeses quando a Finlândia foi anunciada, há sete anos, como o país mais feliz do mundo.

— Todos passaram a se perguntar: “sou o único aqui que não está feliz aqui?” — conta, em tom de brincadeira. — Temos meses praticamente sem sol. É escuro e muito deprimente.

A Finlândia foi escolhida como o país mais feliz do mundo pela sétima vez consecutiva no Relatório Mundial da Felicidade (ONU) em 2024, mas esse reconhecimento está mais relacionado a indicadores de qualidade de vida, e não às pessoas estarem realmente felizes.

A verdade é que o país conta com um arcabouço de medidas de bem-estar social que garante amplo acesso a serviços públicos de qualidade, em áreas como saúde, educação e lazer.

Matt menciona, por exemplo, que o governo oferece um programa de auxílio financeiro permanente para desempregados. Enquanto não encontram um novo emprego, essas pessoas têm reuniões mensais com um representante do Ministério do Trabalho para desenvolver novos conhecimentos. Se alguém não conseguir pagar seu aluguel, o governo cobre até 80% do valor. Por isso não se encontra pessoas vivendo nas ruas.

— Temos um bom sistema educacional, níveis elevados de igualdade de gênero, ótima qualidade do ar, boa qualidade da água da torneira e, o mais importante, temos saunas, o que deixa todo mundo mais feliz — conta Nia.

Saunas estão presentes em qualquer esquina do país. O governo estima que há dois milhões de saunas na Finlândia para uma população de 5,3 milhões de habitantes. As saunas são uma das formas mais comuns de lazer para a população local — e, embora os finlandeses sejam introvertidos, muitos se sentem à vontade para interagir e conversar nesses locais.

Maternidade e primeira infância

Dizem também que a Finlândia é o melhor lugar do mundo para se tornar mãe, relata Nia. Gestantes recebem um valor mensal do governo durante a gravidez e após o nascimento da criança. Além disso, ganham uma cesta de produtos, como brinquedos, roupas e até cama.

O país concede também licença parental, o que permitiu ao professor Kleber Carrilho, de 46 anos, estar presente nos primeiros meses de vida do filho. Ambos os pais recebem auxílio financeiro por 160 dias depois do nascimento da criança.

Para Kleber, o sistema de saúde, especialmente nos cuidados com gestantes e na primeira infância, é uma das maiores vantagens em viver na Finlândia.

— Claro que há aspectos negativos. Se você é adulto e está doente, precisa ligar antes para saber se pode ir ao hospital. Mas (investir em cuidados para a infância) foi a maneira que o país encontrou para lidar com recursos limitados — diz Kleber.

Além do sistema de saúde, outro aspecto que contribui para a qualidade de vida no país são as opções de lazer gratuitas. Em Helsinque, as bibliotecas comunitárias, por exemplo, oferecem muito mais do que livros: é possível pegar emprestado filmes, instrumentos musicais, equipamentos esportivos, além de utilizar computadores de última geração e impressoras 3D.

A ideia não é fazer silêncio e estudar, como no Brasil, mas aproveitar as salas para reunir amigos e trazer a família, como costuma fazer Kleber.

Mercado de trabalho

Ele também considera a dinâmica de trabalho na Finlândia mais saudável e menos intensa do que no Brasil, com jornadas de apenas 7 horas por dia. Lá, CEOs ganham mais que trabalhadores iniciantes, mas sem grandes disparidades, e o imposto sobre a renda é elevado nas faixas mais altas, conta.

A experiência de Cleber Gonçalves, de 50 anos, mostra como o mercado de trabalho e os planos de carreira finlandeses funcionam para reduzir desigualdades. Não é possível avançar tão rapidamente na carreira. Em 2007, ele conseguiu sua primeira oportunidade no país para trabalhar em uma multinacional de informática:

— Ganhei promoções nesses três primeiros anos, mas cheguei em um ponto em que não me promoveram mais. Acharam que eu estava evoluindo rápido demais.

Ele percebeu como sua rotina de trabalho era mais tranquila, com demandas finalizadas ainda no meio da semana — um contraste com a intensidade do cotidiano em empresas paulistanas. Perder menos tempo em engarrafamentos também foi importante na sua escolha em permanecer na Finlândia: passou a ter hobbies, ir para a academia regularmente e começou a produzir cerveja em casa apenas para passar o tempo.

— Minha qualidade de vida melhorou por conta desse tempo que se ganha. Ou melhor, esse tempo que não se perde.

Em 2016, abriu sua cervejaria. Atualmente, Cleber produz entre 25 mil e 30 mil litros por mês e já lançou mais de 350 rótulos com frutas tropicais, doces e temperos nórdicos.

— Todos os brasileiros sentem falta do Brasil, mas muitos não querem voltar. Não é porque não sentem falta, mas pelas coisas que se tem aqui e não se tem lá: tempo, qualidade de vida, dinheiro, trabalho mais recompensador. Tenho muitos amigos finlandeses, mas nunca os vejo. Ninguém te liga. Mesmo com pessoas mais próximas, eles pouco mantêm contato, vendo duas a três vezes ao ano.

Como é viver na Finlândia, o país mais feliz do mundo

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A nova geração de dirigíveis que promete transformar as viagens aéreas

História de Laura Hall – BBC Travel – 13/12/2024

Empresas estão desenvolvendo dirigíveis modernos como alternativa verde para o transporte aéreo de carga e passageiros.

Empresas estão desenvolvendo dirigíveis modernos como alternativa verde para o transporte aéreo de carga e passageiros.© HAV

Tecnicamente falando, o dirigível é basicamente um carregamento de ar quente: uma aeronave com propulsão própria, tipicamente em forma de charuto, composta de um imenso balão cheio de gases quase sem peso que o elevam no ar. E inclui um carro ou gôndola fixada ao balão, para transportar passageiros, carga e a tripulação.

É verdade que os dirigíveis nos remetem a imagens do passado, em preto e branco. Afinal, eles foram populares no início do século 20, antes do progresso da aviação como a conhecemos. Mas, agora, eles estão voltando.

Modernos avanços tecnológicos, aliados à necessidade de desenvolver a aviação em um momento em que ela luta lentamente para se tornar carbono zero, levaram os engenheiros aeronáuticos a examinar o retorno do dirigível.

Desde a época do seu auge, foram desenvolvidos novos materiais, como formas inovadoras de nylon ultraleve, que possibilitam a fabricação de um novo tipo de aeronave.

E a substituição do hidrogênio inflamável por hélio permitiu o desenvolvimento de dirigíveis mais seguros, para evitar a repetição do desastre do Hindenburg — a aeronave alemã de luxo que explodiu em 1937 no exato momento em que era filmada ao vivo.

Os novos avanços e os padrões mais rigorosos da aviação atual significam que o único ponto em comum entre o Hindenburg e as novas aeronaves, na verdade, é o seu formato — além de que ambos fazem uso de um gás mais leve do que o ar.

Como o dirigível voa tipicamente a cerca de 100-130 km/h, ele nunca irá atingir a velocidade de um avião a jato. Mas ele está sendo estudado como meio de transporte lento, como os navios de cruzeiro e os trens noturnos, onde a experiência do passageiro compensa a baixa velocidade.

Os dirigíveis voam a altitudes menores que os aviões, com cabines despressurizadas. Nelas, você pode abrir a janela e olhar para fora, o que oferece mais conforto para os passageiros.

O grande balão também consome muito menos energia e pode vir a ser operado com motores elétricos para decolar e durante a pilotagem. Com isso, o dirigível seria uma forma de transporte aéreo sem emissão de carbono.

“Que bom que estamos testando diferentes ideias e inovações”, afirma o especialista em aviação Thomas Thessen, professor da Universidade de Aalborg, na Dinamarca, e analista-chefe da Scandinavian Airlines. “Explorar diversas soluções é fundamental para melhorar a aviação e torná-la mais sustentável no futuro.”

“A principal vantagem que vejo é que eles podem ficar no ar por muito tempo, além da sua capacidade de voar verticalmente.”

Os dirigíveis voam a uma altitude menor do que um avião, com cabines não pressurizadas e vistas panorâmicas

Os dirigíveis voam a uma altitude menor do que um avião, com cabines não pressurizadas e vistas panorâmicas© HAV

Os dirigíveis não precisam de pistas de pouso e decolagem. Eles podem decolar e aterrissar em qualquer lugar onde haja um espaço plano suficientemente grande para eles. Pode ser um local simples como um campo aberto, desde que exista algo onde eles possam ficar presos.

Isso significa que eles podem ajudar a resgatar pessoas, no caso de desastres naturais, quando pode não haver internet e telefonia disponíveis.

O maior dirigível do mundo é o LTA Pathfinder 1. Atualmente, ele está em fase de testes no Vale do Silício, na Califórnia.

O zeppelin de nova geração tem 124,5 m de comprimento por 20 metros de largura. Seu tamanho é equivalente a quatro dirigíveis da Goodyear e ele é mais longo que três Boeings 737.

Um dos poucos fabricantes de dirigíveis do mundo a postos para entrar no mercado de aviação é a LTA — abreviação de “mais leve que o ar”, em inglês.

A companhia foi fundada por Sergey Brin, ex-presidente da Alphabet, a empresa dona do Google. Ela acredita que os dirigíveis da nova geração possam reduzir a pegada de carbono da aviação, utilizando hélio no interior do balão para se manterem no ar, no lugar de um motor a jato emissor de carbono, e motores muito menores para impulsão.

Os dirigíveis podem ser usados para transporte de carga ponto a ponto mais eficiente (não entre aeroportos) e auxílio humanitário. A aeronave pode oferecer apoio a equipes de resgate, fornecendo suprimentos mesmo em locais onde houver danos às pistas de aterrissagem, portos e estradas.

A LTA não está totalmente sozinha. A empresa francesa Flying Whales (“baleias voadoras”, em inglês) também desenvolve atualmente dirigíveis cargueiros. Seu objetivo é reduzir o impacto ambiental do transporte de carga.

Já a companhia britânica Hybrid Air Vehicles (HAV) se dedica ao desenvolvimento de um dirigível híbrido (com motores elétricos, além do hélio) para oferecer viagens aéreas sem emissão de carbono.

A aviação sustentável ainda tem um longo caminho a percorrer até se tornar uma solução de transporte de massa. Mas estes progressos representam uma pequena revolução nos ares.

Ao lado do combustível de aviação sustentável e dos aviões elétricos, a nova geração de dirigíveis oferece uma alternativa para a aviação atual e seu uso intensivo de carbono.

Como os dirigíveis não precisam de pistas de pouso, eles podem decolar e aterrissar em qualquer lugar, desde que haja um espaço grande e plano disponível.

Como os dirigíveis não precisam de pistas de pouso, eles podem decolar e aterrissar em qualquer lugar, desde que haja um espaço grande e plano disponível.© HAV

“Dizemos que o Airlander conecta o desconectado”, afirma a chefe de marketing da HAV, Hannah Cunningham.

O Airlander 10 é o primeiro dirigível comercial da empresa — um veículo com formas curvas cheio de hélio, que poderia muito bem estar em uma história em quadrinhos.

Mas ele tem usos distintos. Um deles é conectar ilhas remotas, onde a construção de aeroportos é economicamente inviável.

“Com uma aeronave deste tipo, você não precisa de muita infraestrutura, como um aeroporto ou linha de trem”, explica Cunningham. “Tudo o que você precisa é de uma superfície plana para aterrissar.”

“Ele abre muitas oportunidades de conexão de locais que, atualmente, não estão conectados, como comunidades em lugares como as ilhas e as Highlands da Escócia.”

O Airlander 10 terá quatro motores a querosene. Mas, com seu casco cheio de hélio, ele emite 90% menos CO₂ do que uma aeronave típica. A HAV pretende ter um motor elétrico alimentado a células de combustível de hidrogênio e oferecer voos com zero emissão de carbono até 2030.

O dirigível viaja a uma velocidade máxima de 130 km/h e pode operar como veículo de transporte de passageiros com até 90 pessoas a bordo.

Sua rapidez está longe de se comparar aos aviões — um jato comercial de passageiros comum voa a 770-930 km/h. Mas o dirigível também não pretende substituí-los.

Seu grande benefício é a possibilidade de conectar lugares onde a infraestrutura é muito cara ou há pouca quantidade de passageiros, segundo Cunningham.

Mas os projetos estão caminhando em alta velocidade. No ano passado, a HAV assinou um contrato com a companhia aérea espanhola Air Nostrum, dobrando suas reservas do dirigível Airlander para 20 unidades. A intenção é adotar o dirigível para o transporte de passageiros a partir de 2028, entre as ilhas espanholas e o continente.

Com um local equipado para a construção de aeronaves híbridas e a certificação junto à Autoridade de Aviação Civil a caminho, os dirigíveis poderão ser certificados como seguros para voar e entrar em produção nos próximos quatro anos.

Os dirigíveis voam a baixa altitude, com cabines despressurizadas e cenários espetaculares

Os dirigíveis voam a baixa altitude, com cabines despressurizadas e cenários espetaculares© HAV

Para Thessen, a ideia de ver dirigíveis no céu como os aviões não é realista. “A principal questão da aviação é a velocidade”, explica ele.

“Quando você compara dirigíveis e aviões, os dirigíveis viajam a uma velocidade muito mais próxima dos automóveis. Na minha opinião, eles não podem substituir os aviões, mas podem atender um nicho com viagens mais lentas, como os navios de cruzeiro.”

Thessen considera a possibilidade de atender pessoas fascinadas por viagens lentas. “Se você puder colocar a cabeça para fora da janela e observar a paisagem enquanto viaja lentamente, posso imaginar um pequeno papel para o dirigível, oferecendo uma experiência especial.”

Na Alemanha, este tipo de experiência especial já existe.

Por cerca de 500 euros (cerca de R$ 3,2 mil), a empresa Zeppelin oferece voos de 45 minutos em dirigíveis da Goodyear sobre diversas cidades da região do lago de Constança, no sul da Alemanha — tudo no estilo dos passeios em balões de ar quente.

Já a empresa Ocean Sky Cruises leva a atividade um passo à frente. A pioneira linha aérea de zeppelins de alto luxo oferece a experiência única de uma viagem de Svalbard, na Noruega, até o Polo Norte. Ela usa da melhor maneira a possibilidade de aterrissar o dirigível no gelo, sem necessidade da pista de pouso do aeroporto.

A viagem é estimada em dois dias, com todo o luxo, na gôndola de um dirigível com janelas panorâmicas, belos refeitórios e cabines opulentas, com luxuosas camas ecológicas com vista para os icebergs durante a viagem.

As cabines para esta extraordinária experiência custam cerca de US$ 200 mil (cerca de R$ 1,2 milhão). Mesmo assim, a viagem é um sucesso de vendas, tanto que os únicos assentos restantes estão em lista de espera.

Mas as datas de partida ainda não foram marcadas. Afinal, a aeronave (que se espera seja o Airlander 10) ainda não foi certificada para voar e, por isso, não pode ser adquirida.

Os planos para o futuro incluem uma viagem seguindo o Trópico de Capricórnio, da Costa do Esqueleto, na Namíbia, até as Cataratas de Vitória, na fronteira entre a Zâmbia e o Zimbábue.

O dirigível irá voar lentamente a baixa altitude, sobrevoando paisagens selvagens extraordinárias e parando em locais que dificilmente podem ser atingidos de avião.

Teoricamente, parece incrível; na prática, ainda está longe de acontecer. Os dirigíveis modernos ainda estão nos seus estágios muito iniciais e muitos fatores ainda poderão desviá-los do seu curso.

Será que os dirigíveis irão seguir o caminho dos táxis voadores, falindo antes de saírem do chão? Esta é certamente uma possibilidade.

Mas a LTA pelo menos parece ter capital suficiente para transformar em realidade seus planos de transporte de carga e auxílio humanitário.

E, com as encomendas das linhas aéreas e outros investidores, a HAV está levando adiante seus planos de ter uma aeronave híbrida no ar na próxima década, oferecendo a possibilidade de conectar comunidades remotas que, atualmente, são pouco servidas pelas companhias aéreas.

Para quem gosta de viajar, as inovações verdes do setor certamente são uma boa notícia, por mais específicas que sejam.

Como diz Cunningham, “se quisermos continuar explorando o mundo como fazemos hoje, não podemos destruí-lo”.

A nova geração de dirigíveis que promete transformar as viagens aéreas

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Armazenamento de energia: ingrediente essencial para a expansão de energia limpa

Variação da produção de energia é um desafio crescente com a ampliação das fontes renováveis, como a solar e a eólica

Mario Veiga, Luiz Raphael Lopes, Ricardo Perez e Raphael Chabar – Exame – 12 de dezembro de 2024 

A energia produzida pelas centenas de usinas do país deve igualar a cada minuto o consumo de eletricidade. No passado, o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) alcançava este equilíbrio ajustando continuamente a energia produzida por hidrelétricas e termelétricas.

No entanto, a entrada de usinas eólicas e solares tornou este processo de ajuste mais complexo, pois estas usinas não são controláveis: sua geração depende da intensidade do vento e sol, que varia rapidamente a cada instante. Por esta razão, os operadores em todo o mundo passaram a utilizar recursos de armazenamento, como baterias. De uma maneira muito simplificada, as baterias armazenam a energia renovável quando ela é excessiva e vice-versa: injetam a energia armazenada previamente quando há uma queda na produção renovável.

No caso do sistema brasileiro, este uso de baterias existe há muitas décadas; só que usávamos “baterias de água”, que eram os reservatórios das usinas hidrelétricas; e as fontes renováveis não controláveis eram as chuvas, que se transformavam em vazões nos rios. Quando as primeiras usinas eólicas foram instaladas no Brasil, o ONS usou os reservatórios exatamente como uma bateria, diminuindo a geração hidrelétrica (e, portanto, mantendo os reservatórios mais cheios) quando ventava muito, e vice-versa: esvaziando um pouco mais os reservatórios para aumentar a produção hidrelétrica quando o vento diminuía. Por esta razão, os especialistas do setor criaram a imagem de que os reservatórios passaram a ser “armazéns de energia”, estocando o excesso de energia produzido pelas eólicas. Embora a expressão “estocar vento” seja hoje um “meme” associado à então ministra de Minas e Energia Dilma Roussef, ela é tecnicamente correta.

Outro fato interessante é que a capacidade de armazenamento das “baterias de água” é gigantesca comparada com as baterias de lítio. Por exemplo, custaria cerca de US$ 4 trilhões em baterias de lítio para se ter a mesma capacidade de armazenamento de energia de uma única hidrelétrica, a usina de Furnas. Por outro lado, as baterias de lítio podem ser instaladas em qualquer lugar, enquanto as hidrelétricas estão restritas aos locais onde as condições topográficas e de chuva são favoráveis.

Existe ainda um terceiro tipo de armazenamento, intermediário entre as hidrelétricas e as baterias, que são as usinas reversíveis. De maneira simplificada: estas usinas bombeiam água de um reservatório no nível do solo para outro reservatório superior quando há excesso e geram energia revertendo esse fluxo quando há escassez.

Em resumo, o Brasil dispõe de um “portfolio” de recursos de armazenamento em que há um “tradeoff” entre capacidade de armazenamento e flexibilidade de localização. Otimizar este portfolio tanto no planejamento de novos recursos como no seu uso pelo operador é um problema complexo em termos matemáticos. Felizmente, a experiência que o país tinha com a gestão dos reservatórios das hidrelétricas contribuiu para o desenvolvimento de metodologias de gestão de armazenamento, colocando o Brasil em posição de liderança neste tema. Por exemplo, a PSR licencia modelos computacionais que usam estas metodologias avançadas para dezenas de países em todos os continentes, incluindo sistemas como o da Costa Noroeste dos EUA e o Nord Pool europeu, um dos maiores mercados de energia do mundo.

Armazenamento de energia: ingrediente essencial para a expansão de energia limpa | Exame

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O chip quântico do Google que resolve em 5 minutos problema que levaria 10 septilhões de anos

O chip Willow é o avanço da computação quântica, que usa os princípios da física de partículas para criar computador muito poderoso

    Chris Vallance – Folha/BBC NEWS – 10.dez.2024 

    O Google apresentou um novo chip que, segundo a empresa, leva cinco minutos para resolver um problema que atualmente os supercomputadores mais rápidos do mundo levariam dez septilhões (ou 10.000.000.000.000.000.000.000.000) de anos para completar.

    O chip é o mais recente desenvolvimento em um campo conhecido como computação quântica, que busca usar os princípios da física de partículas para criar um novo tipo de computador incrivelmente poderoso.

    O Google afirma que seu novo chip quântico, chamado Willow, incorpora “avanços” importantes” e “pavimenta o caminho para um computador quântico útil em grande escala”.

    No entanto, especialistas dizem que o Willow é, por enquanto, um dispositivo essencialmente experimental, o que significa que um computador quântico poderoso o suficiente para resolver uma ampla gama de problemas do mundo real ainda está a anos (e bilhões de dólares) de distância.

    O DILEMA QUÂNTICO

    Os computadores quânticos funcionam de uma maneira fundamentalmente diferente dos telefones ou notebooks tradicionais.

    Eles aproveitam a mecânica quântica (o comportamento estranho das partículas ultrapequenas) para resolver problemas muito mais rapidamente do que os computadores convencionais.

    Espera-se que os computadores quânticos possam usar essa capacidade para acelerar drasticamente processos complexos, como a criação de novos medicamentos.

    Também há preocupações de que possam ser usados para fins criminosos, como quebrar alguns tipos de criptografia utilizados para proteger dados sensíveis.

    Em fevereiro, a Apple anunciou que a criptografia que protege os chats do iMessage está sendo tornada “à prova quântica” para evitar que computadores quânticos potentes do futuro consigam decifrá-la.

    Hartmut Neven, que lidera o laboratório de inteligência artificial quântica do Google responsável pela criação do Willow, descreve a si mesmo como o “otimista-chefe” do projeto.

    Ele disse à BBC que o Willow seria usado em algumas aplicações práticas, mas se recusou, por enquanto, a dar mais detalhes.

    No entanto, Neven afirmou que um chip como esse, capaz de realizar aplicações comerciais, não estará disponível antes do final da década.

    Inicialmente, essas aplicações envolveriam a simulação de sistemas onde os efeitos quânticos são importantes.

    “Por exemplo, isso é relevante no design de reatores de fusão nuclear, na compreensão do funcionamento de medicamentos e no desenvolvimento farmacêutico, além do desenvolvimento de baterias melhores para automóveis e uma longa lista de tarefas semelhantes”, explicou.

    Neven disse à BBC que o desempenho do Willow significava que ele era o “melhor processador quântico já construído até hoje”.

    No entanto, o professor Alan Woodward, especialista em computação da Universidade de Surrey, na Inglaterra, afirma que os computadores quânticos serão melhores em uma variedade de tarefas do que os computadores “clássicos” atuais, mas não os substituirão.

    Ele alerta contra a supervalorização da importância do feito do Willow em apenas um teste.

    “É preciso ter cuidado para não comparar maçãs com laranjas”, disse à BBC.

    O problema que o Google escolheu como referência de desempenho foi “feito sob medida para um computador quântico”, o que significa que não demonstra “um avanço universal em comparação aos computadores clássicos”.

    Apesar disso, Woodward reconheceu que o Willow representava um progresso significativo, especialmente no campo conhecido como correção de erros.

    De forma bastante simplificada, quanto mais útil é um computador quântico, mais qubits (bits quânticos, a unidade básica de informação na computação quântica) ele possui.

    No entanto, um problema crucial dessa tecnologia é sua propensão a erros, uma tendência que anteriormente aumentava à medida que mais qubits eram adicionados ao chip.

    Os pesquisadores do Google afirmam que conseguiram reverter essa situação, projetando e programando o novo chip de maneira que a taxa de erro fosse reduzida em todo o sistema conforme o número de qubits aumentava.

    Foi um grande “avanço” que resolveu um desafio fundamental que a área enfrentava “há quase 30 anos”, disse Neven.

    Ele comparou o feito com “ter um avião com um único motor: isso pode funcionar, mas dois motores são mais seguros, e quatro motores são ainda mais seguros”.

    Os erros são um obstáculo significativo para criar computadores quânticos mais potentes, e esse desenvolvimento foi “animador para todos os que trabalham para construir um computador quântico prático”, comentou o professor Woodward.

    Contudo, o próprio Google reconhece que, para desenvolver computadores quânticos verdadeiramente úteis, a taxa de erro precisará ser ainda menor do que a apresentada pelo Willow.

    Texto publicado originalmente aqui

    O chip quântico do Google que resolve em 5 minutos problema que levaria 10 septilhões de anos – 10/12/2024 – Tec – Folha

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    QR code: o que é, de onde vem e para onde vai?

    Inspiração veio do tabuleiro do jogo japonês go, que usa pecinhas brancas e pretas

      Marcelo Viana – Folha – 10.dez.2024 

      Diretor-geral do Instituto de Matemática Pura e Aplicada, ganhador do Prêmio Louis D., do Institut de France.

        São esquisitos e, francamente, bem feinhos: afinal não foram feitos para serem vistos por humanos. Até o nome é estranho: o que significa QR mesmo? Ainda assim, estão se tornando rapidamente um dos elementos mais ubíquos na vida dos nossos dias, presente em praticamente todas as áreas de atividade humana.

        Em meados dos anos 1970, o modelo UPC (iniciais de “código universal de produto” em inglês) do código de barras estava consolidado e sendo amplamente usado por lojas e cadeias de abastecimento para identificar um número crescente de produtos. O UPC comporta 12 dígitos: um serve para controle e correção de erros, restando 11 para a identificação do produto em questão. Isso significa que existem 100.000.000.000 (cem bilhões) de códigos de barras possíveis. Até hoje foi usado pouco mais de um bilhão, ainda restam muitos para os próximos anos.

        Mas o UPC tem uma séria limitação: a quantidade de informação que pode ser codificada com apenas 11 dígitos é bastante limitada. À medida que os mercados se tornavam mais sofisticados, surgiu a necessidade de incluir informações detalhadas sobre o produto, não apenas o seu número de identificação. Por exemplo, a partir da crise da “vaca louca”, que matou dezenas de pessoas no início deste século, os consumidores passaram a querer conhecer a proveniência da carne bovina: ora, não é possível informar isso em um mero UPC.

        No início da década de 1990, o engenheiro Masahiro Hara, da empresa japonesa Denso, produtora de peças automotivas, enfrentara uma situação vexatória. A Denso vendia kits contendo diferentes tipos de peças e a equipe de Hara se via obrigada a etiquetar a caixa com um monte de códigos de barras, uma para cada tipo. Seria muito melhor dispor de um único código contendo a descrição completa do conteúdo.

        Hara partiu para desenvolver um tipo de código de barras bidimensional (o UPC é unidimensional). A inspiração crucial surgiu enquanto ele observava um tabuleiro de go, o jogo japonês que usa pecinhas brancas e pretas colocadas em uma malha retangular (matriz). Assim nasceu, em 1994, o QR code, formado por uma matriz de quadradinhos brancos ou pretos, cada um representando um dígito binário (branco=0, preto=1).

        O nome foi dado por Hara: QR são as iniciais de “quick response” (resposta rápida, em inglês) e assinalam a rapidez de leitura do novo código. Facilidade de leitura também: enquanto o UPC requer um leitor laser específico, o QR pode ser lido por qualquer câmera digital com software adequado. Quando Apple, Samsung etc. incluíram esse software em nossos celulares, o QR code ficou ao alcance de todos.

        Essas propriedades, aliadas à enorme capacidade de codificação e informação, à sua capacidade para corrigir erros –alguns QR podem ser lidos mesmo com 30% destruídos!– e à decisão da Denso de não cobrar pelo uso, garantiram o sucesso fulgurante do novo código. De notas e moedas até sepulturas, são cada vez mais os setores de atividade em que esses códigos estão presentes. Também não está longe o dia em que o registro médico de cada um de nós estará contido em um QR code.

        E o futuro não para por aqui. Encriptação, para proteger os usuários de códigos maliciosos. E códigos coloridos: libertando o QR da limitação do branco e preto para aumentar ainda mais a sua capacidade de codificar informação. O que mais?

        QR code: o que é, de onde vem e para onde vai? – 10/12/2024 – Marcelo Viana – Folha

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        Ano novo traz expectativa de IA superar inteligência humana

        Os sistemas devem sair trabalhando sem que alguém dê o comando

        Pedro Doria – O Globo – 10/12/2024 

        Na semana passada, Sam Altman se sentou no palco da conferência DealBook, do jornal New York Times. O CEO da OpenAI encarou uma entrevista de pouco mais de meia hora com o jornalista Andrew Ross Sorkin, em que o destaque veio ali pelo meio.

        — A AGI está bastante próxima. Vem, talvez, já no ano que vem — afirmou Altman.

        A sigla em inglês quer dizer inteligência artificial geral. Mais frequentemente, é descrita de forma mais simples: aquele momento em que inteligências artificiais igualam ou superam a humana.

        Uma pausa dramática se faz necessária. Altman sugeriu que IAs podem superar a inteligência humana brevemente. Talvez no ano que vem.

        Só que, simultaneamente, fez algo ainda mais estranho. Tratou o evento como algo pouco extraordinário.

        — Acontecerá antes do que imaginam — afirmou Altman —, mas importará pouco. Muitos dos riscos sobre os quais alertamos com a IA não ocorrerão no momento da AGI. A economia se moverá mais rápido, as coisas se desenvolverão com mais velocidade, mas a partir daí há um longo avanço partindo da AGI até o que chamamos de superinteligência.

        A declaração é estranha e precisa ser decodificada. Há um ano, o próprio Altman fez um tour mundial, com parada no Rio de Janeiro, alertando aos governos que procedessem à regulação rápido perante os riscos de a inteligência artificial ultrapassar as capacidades humanas. Agora, mudou o discurso de forma bastante radical e cria um vácuo, uma distância, entre duas categorias novas. De um lado, AGI; do outro, lá na frente, algo chamado superinteligência.

        A explicação possivelmente começa no contrato que sua empresa, a OpenAI, tem com a Microsoft. A sacada foi do Financial Times. Tendo investido US$ 13 bilhões no desenvolvimento do GPT, a companhia fundada por Bill Gates tem acesso total às tecnologias desenvolvidas pela OpenAI, mas há uma cláusula de ruptura. Esse acesso se encerra quando a AGI for alcançada.

        Evidentemente, os advogados não soltaram a expressão sem defini-la bem. Então, não basta Altman reinterpretar o que quer dizer inteligência artificial geral numa entrevista. O que vale é o que está no contrato:

        — São sistemas autônomos com performance superior à humana na maioria do trabalho com valor econômico.

        Tome o trabalho de um executivo. O serviço de um advogado. A função de um jornalista. A capacidade de diagnóstico de um médico. Quebre essas profissões em uma série de ações. O momento em que uma IA for capaz de desempenhá-las de forma autônoma, melhor que um profissional médio, essa definição de AGI se aplicará.

        É isso que Altman quer dizer com “a economia se moverá mais rápido”, com “as coisas se desenvolverão com mais velocidade”. Boa parte do trabalho intelectual mais braçal seria substituído. Autonomia é uma característica importante nessa equação. Os sistemas devem sair trabalhando sem que alguém dê o comando. Eles são agentes. Têm agência. Percebem quando há trabalho para realizar — e o realizam. Mas isso que ele descreve não é a substituição definitiva de executivos, advogados, jornalistas ou médicos.

        O que sobra é o ato de criação e a capacidade de empatia. A possibilidade de ser original, de resolver problemas novos e também de entender quando é o momento de sorrir. IAs poderão detectar tumores em exames de imagem bastante antes de um médico. Mas não serão tão cedo as entidades mais adequadas para dar a notícia. Ou conviver com pacientes. Um contrato pode, sim, ser redigido por uma IA, assim como o preenchimento de uma planilha ou a redação de uma lista de perguntas. Mas a pergunta que traz a resposta que surpreende, o argumento que convence o juiz num caso muito difícil, tudo aquilo que não está nos dados, que nunca foi feito, isso ainda será exclusivo de seres humanos.

        Altman tem se mostrado um executivo interessante. Cada vez menos é claro e, cada vez mais, é críptico. Fala de um jeito que parece dizer muito, mas exige esforço de interpretação. Sua entrevista com o Times parece ser o lance de abertura numa renegociação de contrato com a Microsoft. Quer mais dinheiro. E a OpenAI precisa de mais dinheiro. Tem mais concorrentes no mercado, e o que faz custa bilhões. Ainda assim, precisará entregar algo que pareça realmente novo e que possa chamar de forma convincente de inteligência artificial geral.

        O ano de 2025 será interessante.

        Ano novo traz expectativa de IA superar inteligência humana

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