Índices de engajamento de funcionários caem em todo o mundo

Especialistas acreditam que baixo comprometimento pode ser revertido com o desenvolvimento de líderes “inspiradores”

Por Jacilio Saraiva – Valor – 03/05/2025 

As taxas de engajamento dos funcionários em todo o mundo caíram em 2024, com implicações para o desempenho das empresas. A baixa, de dois pontos percentuais – de 23% em 2023 para 21%, no ano passado – deve custar à economia mundial cerca de US$ 438 bilhões em perdas com produtividade.

Para se ter uma ideia, se o ambiente de trabalho em todos os países estivesse “totalmente comprometido” com os objetivos corporativos, US$ 9,6 trilhões em novos negócios poderiam ser adicionados à economia do planeta, o equivalente a 9% do PIB global.

As informações são do relatório “State of the global workplace/2025” (“Estado do ambiente de trabalho global/2025”, do inglês), que acaba de ser divulgado pela empresa de pesquisas Gallup. O levantamento ouviu 227,3 mil profissionais entre abril e dezembro de 2024, em mais de 160 países, inclusive o Brasil.

De acordo com o estudo, o problema apresenta nuances entre líderes e liderados. Enquanto o engajamento dos gestores teve uma queda mais visível, de 30% para 27%, o índice dos colaboradores, em média, permaneceu sem evolução, em 18%.

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Para os analistas da Gallup, a maior insatisfação entre os gerentes é pressionada por novas prioridades das companhias e pelas expectativas dos times com o trabalho.

“Muitas organizações passaram por mudanças pós-pandemia, caracterizadas pela alta rotatividade de equipes e demissões”, destaca o documento. “Ao mesmo tempo, os empregados enfrentam a redução da flexibilidade nos expedientes. Tudo isso afeta os gestores globais, que ‘lutam’ para que tudo funcione bem.”

Liderança inspiradora

Na avaliação de Nelson Rosamilha, coordenador do MBA em Gerenciamento de Projetos e Agilidade Organizacional, da Trevisan Escola de Negócios, é possível inverter o cenário e escalar a conexão funcional em duas frentes: fortalecendo o relacionamento entre líderes e liderados, e com um ambiente de trabalho baseado em mais segurança psicológica.

“O gestor deve reservar tempo para diálogos individuais sobre progresso e objetivos”, diz o especialista ao Valor. “Nesses encontros, é importante oferecer feedback e coaching contínuos. São conversas que mostram ao profissional que ele é valorizado e tem apoio da chefia para evoluir.”

Segundo Rosamilha, pesquisas da Gallup apontam que cerca de 80% dos funcionários que recebem um feedback significativo semanalmente se mostram “altamente engajados”. “Ou seja, quando o líder demonstra interesse genuíno no desenvolvimento do empregado, o índice de engajamento tende a subir”, analisa.

A segunda sugestão do coordenador, de promover um ambiente de trabalho seguro, precisa contar com a ajuda de uma liderança considerada “inspiradora”.

“O que significa construir confiança com a equipe e dar voz a todos, para que os talentos se sintam seguros para compartilhar ideias e discordar, sem medo de punições”, ensina. “Um chefe inspirador serve de modelo e motiva o time a ir além dos interesses individuais, em prol do bem do grupo.”

De acordo com o pesquisador, estudos provam que o estilo de liderança “inspirador” está associado a uma maior motivação dos liderados. “Quando o funcionário confia no líder e se sente ouvido e encorajado, ‘veste a camisa’ da empresa com mais vontade.”

Rosamilha chama a atenção ainda para uma melhor preparação das chefias que lidam com o baixo comprometimento das equipes.

“No Brasil, muitos gestores estão presos a um modelo antigo de liderança, baseado apenas em cobrança de tarefas e resultados imediatos”, avalia. Outra análise feita pela Gallup indica que somente 44% dos líderes globais receberam um treinamento formal para gerenciar equipes, compara. “Sem preparo, o gestor acaba focando somente no operacional e deixa de lado o desenvolvimento humano, justamente o que mais engaja os times. Falta investimento na preparação das chefias.”

Autonomia nos expedientes

Guilherme Dias, CMO (diretor de marketing) e co-fundador da plataforma de gestão de capital humano Gupy, concorda com o coordenador da Trevisan.

Para aumentar o envolvimento funcional, deve-se investir no desenvolvimento de gestores que inspirem as equipes, argumenta. “Líderes bem preparados, que saibam estabelecer uma boa comunicação, são fundamentais para motivar os colaboradores”, diz. “A presença deles fortalece o comprometimento com a empresa e amplia a produtividade.”

Dias também defende uma melhor promoção da cultura organizacional. “Quando os times entendem e se identificam com os valores da empresa, se sentem mais motivados”, afirma. “A divulgação constante da cultura corporativa, por meio de treinamentos, eventos internos e campanhas de comunicação, reforça o sentimento de pertencimento e de alinhamento com os objetivos estratégicos, essencial para reduzir taxas de rotatividade.”

O diretor ainda destaca outro elemento com poder de integrar os funcionários, mas pouco explorado pelas empresas brasileiras. “É a autonomia, aliada a uma flexibilidade genuína – que vai além do home office e inclui horários adaptáveis – com liberdade na gestão de tarefas e maior controle sobre o ritmo de trabalho”, afirma.

O executivo acredita que esse modelo de produção é mais envolvente porque está ligado ao “empoderamento e à confiança”. “Funcionários com autonomia se sentem mais responsáveis pelos resultados e valorizados pela organização”, analisa. “Além disso, a autonomia está associada a maior produtividade e bem-estar, pois as pessoas conseguem trabalhar alinhadas com seus picos de energia e preferências pessoais, reduzindo o estresse e o risco de burnout.”

Liderança e empatia

Evelin Santos, diretora de recursos humanos da consultoria Robert Half, de seleção de executivos, destaca que programas de cuidado pessoal e de reconhecimento têm potencial de mobilizar o quadro funcional.

“Quando a empresa demonstra preocupação com o bem-estar dos colaboradores, fortalece a confiança e o vínculo emocional”, assegura. “Esse sentimento de cuidado aumenta a motivação e reduz os níveis de estresse.”

Reconhecer o esforço e a dedicação das equipes também é uma forma de reforçar os comportamentos positivos nas empresas, continua. “Além de recompensar grandes conquistas, é preciso valorizar atitudes diárias e a colaboração entre colegas”, ensina. “Funcionários que se sentem reconhecidos tendem a ser mais engajados.”

Santos afirma que quando a falta de interesse pelo trabalho contamina as lideranças, como mostra a pesquisa da Gallup, é hora de ampliar ações de segurança psicológica.

“O que mais desestimula os líderes é a combinação entre a alta pressão por resultados, a falta de espaço para a vulnerabilidade e culturas corporativas que reforçam a ideia de que demonstrar fragilidade é sinônimo de fraqueza”, analisa.

Embora os dirigentes encontrem motivação na realização profissional e no equilíbrio entre vida pessoal e trabalho, muitos não se sentem à vontade para pedir ajuda aos superiores, relata. “Mesmo em posições de liderança, existe o medo de se expor.”

A consultora diz que quando a liderança é vista em uma posição que exige um comportamento de “perfeição constante”, sem margem para dúvidas ou inseguranças, o resultado é o afastamento progressivo do que mais importa: a conexão humana e a construção coletiva de soluções com pares e subordinados. O discurso da resiliência extrema precisa dar lugar a ambientes em que o gestor possa ser apoiado, recomenda.

“Isso passa por incentivar conversas francas, treinamentos sobre liderança empática e a revisão das expectativas depositadas na gestão”, orienta. “O executivo engajado não é aquele que acerta sempre, mas o que tem espaço para se desenvolver, aprender com os erros e pedir ajuda quando necessário.”

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Com amostra da vida sem internet em Portugal, há os que defendem que governos deveriam organizar apagões mensais

Sem internet, voltaríamos a ser humanos, como os nossos avós. Conversaríamos, olhos nos olhos, inteiros e sem interrupções, trocando histórias e festejando o milagre da vida

Por José Eduardo Agualusa – O Globo – 03/05/2025

Via Lactea vista sobre o Convento de Orada, em Monsaraz, parte da Reserva Dark Sky de Alqueva, na região do Alentejo, em PortugalVia Lactea vista sobre o Convento de Orada, em Monsaraz, parte da Reserva Dark Sky de Alqueva, na região do Alentejo, em Portugal — Foto: Miguel Claro/Visita Alentejo/Divulgação

O apagão em Portugal e Espanha teve um mérito inesperado: acendeu as pessoas.

A longa interrupção de energia elétrica, que, na segunda-feira passada, atingiu a Península Ibérica, trouxe o caos e a inquietação para as grandes cidades — crianças presas em elevadores, escolas fechadas, dezenas de voos cancelados, boatos terríveis, e muita gente assustada, fazendo fila diante das mercearias de bairro para comprar água, vinho tinto, comida enlatada e papel higiênico.

Ao entardecer, porém, o ambiente distendeu-se. Em Lisboa, de onde escrevo esta coluna, vi vizinhos, que nunca antes se haviam cumprimentado, conversando uns com os outros, sentados na calçada. Vi desconhecidos partilhando velas e lanternas; outros oferecendo água e alimentos aos menos prevenidos.

Embora os semáforos tivessem deixado de funcionar não testemunhei nenhum sinal de nervosismo. Os motoristas respeitavam-se uns aos outros. Respeitavam até mesmo os pedestres, até mesmo os ciclistas, numa cortesia rara para os padrões locais. Cheguei a me sentir em Berlim.

As esplanadas encheram-se de gargalhadas, ainda que os bares e restaurantes não tivessem como servir refeições quentes. As pessoas deixaram de olhar para a tela dos celulares — e começaram a prestar atenção umas às outras. Parecia um domingo numa cidade pequena, há 30 ou 40 anos, antes da invenção dos celulares.

Katie Flour, uma chef norte-americana, radicada na capital portuguesa, passou a manhã dessa segunda-feira em casa, assando um cordeiro e preparando saladas para um jantar pop-up num restaurante muito conhecido. Às 11 horas ocorreu o apagão. Ao final da tarde, percebendo que o jantar não iria se realizar, Katie colocou travessas com comida nos bancos de um jardim em frente, acendeu algumas velas, e convidou os vizinhos. Outras pessoas foram aparecendo, e o que poderia ter sido um fracasso se transformou num momento mágico, que Katie nunca mais esquecerá.

Além disso, por algumas horas, libertas da poluição luminosa, as estrelas voltaram. Na noite esplêndida, morna, acolhedora como um abraço, vi jovens deitados de costas, nos parques e nos jardins, apontando com espanto para o desenho das constelações. Talvez fosse a primeira vez que alguns deles viram estrelas.

Vozes mais românticas defendem que os governos deveriam organizar apagões pelo menos uma vez por mês. Não me atrevo a tanto. Contudo, talvez não fosse má ideia cortar o acesso à internet todas as semanas, por exemplo, nas noites de domingo.

Nesses domingos jurássicos voltaríamos a ser simplesmente humanos, como os nossos avós. Conversaríamos, olhos nos olhos, inteiros e sem interrupções, trocando histórias e gargalhadas e festejando a amizade e o milagre da vida. Em vez de tirarmos fotos do jantar para depois as postarmos no Instagram — comeríamos! Em vez de nos abraçarmos para as selfies — nos abraçaríamos! Em vez de nos preocuparmos com os grandes dramas do mundo, estaríamos atentos aos pequenos problemas daqueles que nos são próximos. E isso tudo — atenção! — sob a luz perpétua das estrelas.

Com amostra da vida sem internet em Portugal, há os que defendem que governos deveriam organizar apagões mensais

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Desde 2018, quase 1/3 do Brasil tem dificuldade de entender um texto simples ou de fazer contas

País segue no mesmo patamar desde 2018, com quase um terço da população com dificuldade de entender um texto simples ou fazer contas

Isabela Palhares – Folha – 5.mai.2025 

O Brasil estagnou na redução do analfabetismo funcional e a condição atinge 29% da população de 15 a 64 anos. Esse é o mesmo patamar que o país tinha em 2018 e ainda um recuo em relação a 2009, quando alcançava 27% dos brasileiros.

O resultado é do Inaf (Indicador de Alfabetismo Funcional), estudo coordenado pela Ação Educativa e que teve início em 2001. Até 2009, o indicador seguiu em contínua queda na proporção de analfabetos funcionais no país, mas desde então segue praticamente inalterado.

O estudo entrevistou 2.544 pessoas em todas as regiões do país. As entrevistas foram feitas pessoalmente com a aplicação de testes com perguntas que refletem situações do cotidiano, em diferentes graus de dificuldade. A margem de erro é de 2 pontos percentuais.

O indicador considera que o analfabetismo funcional pode ser dividido em dois níveis: absoluto e rudimentar.

Na última edição, 7% da população dessa faixa etária é considerada analfabeta absoluta, são aqueles que não conseguem ler palavras ou um número de telefone. Outros 22% ficam no nível de alfabetismo rudimentar, que é quando sabem ler e escrever, mas têm dificuldade para entender textos mais longos ou fazer contas com números maiores.

“A alfabetização é um processo contínuo, por isso, consideramos que existem níveis de proficiência dentro dele. É bastante preocupante que a proporção de jovens e adultos brasileiros no analfabetismo funcional esteja estática há tanto tempo. De 2018 para cá, não houve avanço”, diz Ana Lima, coordenadora do estudo.

O estudo indica que a maioria dos analfabetos funcionais são pessoas mais velhas, 65% deles têm entre 40 e 64 anos. Mas há ainda uma proporção significativa entre os jovens de 15 e 29 anos e com os que têm entre 30 e 39 anos, ambos com 17%.

Os dados também indicam uma transformação no cenário educacional brasileiro. Para os pesquisadores, a queda do analfabetismo funcional nos primeiros anos do indicador são reflexo da ampliação do acesso ao ensino fundamental e médio e a ampliação de jovens que concluem a educação básica.

No entanto, a estagnação do indicador nos últimos anos reflete a baixa qualidade da educação brasileira, já que os dados mostram uma proporção grande de pessoas que passaram pela escola e, mesmo assim, não tiveram garantido o direito de serem plenamente alfabetizadas.

O estudo identificou que 17% da população que concluiu o ensino médio ainda está no nível do analfabetismo funcional. Até mesmo entre os que concluíram o ensino superior, 12% estão nessa condição.

“Uma percentual grande da nossa população jovem está saindo da escola condenada a passar a vida toda como analfabetos funcionais. A pandemia justifica uma parte desse problema, já que as escolas ficaram fechadas por dois anos e atrapalhou o aprendizado, mas não é isso”, avalia Ana.

Para ela, só garantir o acesso dos jovens à educação não é suficiente, mas é preciso que o país invista de fato na oferta de um ensino de qualidade e significativo. “Muitos jovens na periferia enxergam a escola como algo que atrapalha a vida deles, como algo sem sentido.”

Ana também destaca que os dados mostram a importância de o país investir na ampliação da EJA (Educação de Jovens e Adultos), que vive nos últimos anos um processo de esvaziamento. Ela avalia ainda a importância de se repensar a oferta dessa modalidade, a qualificando para as demandas atuais.

“Há alguns anos, se associava à EJA como a educação voltada para a alfabetização de adultos. Nosso problema é que agora não temos só apenas aquele idoso que não aprendeu a ler e escrever porque teve que trabalhar na roça quando era criança, agora a gente tem jovens de 16 ou 17 anos saindo da escola sem ser plenamente alfabetizado.”

ALFABETIZAÇÃO NO CONTEXTO DIGITAL

Pela primeira vez, o Inaf também avaliou a inclusão do alfabetismo da população no contexto digital. De uma maneira geral, os dados indicam que 25% dos brasileiros com idade entre 15 e 64 anos têm baixo desempenho em atividades digitais.

Essa proporção, no entanto, aumenta conforme o menor grau de alfabetismo que possuem. Os dados mostram que 40% dos alfabetizados proficientes apresentaram médio ou baixo desempenho em tarefas digitais e 95% dos analfabetos tem um desempenho baixo.

Para avaliar as habilidades digitais, o estudo pediu aos entrevistados que realizassem tarefas corriqueiras usando um celular. Em uma delas, eles precisavam fazer uma compra e pagar via pix. Em outra, eles precisavam fazer um cadastro em um site.

“A grande constatação é que, quanto mais frágil é o alfabetismo tradicional, mais aquela pessoa fica vulnerável no ambiente digital. Incluímos a avaliação do alfabetismo no contexto digital porque cada vez mais as pessoas estão sendo obrigadas a entrar para esse mundo e, se não dominam essas habilidades, acabam até mesmo por perder direitos básicos.”

1/3 do Brasil tem dificuldade de entender um texto simples – 05/05/2025 – Educação – Folha

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Pontes para o futuro

É necessário um esforço mais amplo para alinhar a formação acadêmica às demandas do mercado e reverter a crise na Engenharia

Por Ana Maria Diniz – Valor – 05/05/2025

Fundadora do Instituto Península, que atua na formação de professores, é empresária e conselheira do Todos pela Educação e Parceiros pela Educação

Eu muito tenho escrito sobre a necessidade de reforçar a disciplina de Matemática e das Ciências Exatas em geral na formação de nossos alunos da educação básica. Nos últimos anos, o Brasil vem enfrentando uma preocupante redução no número de estudantes ingressando em cursos de Engenharia, um fenômeno que reflete não apenas o nosso retrocesso educacional, mas é também um entrave ao desenvolvimento do país. Em 2014, 469 mil calouros iniciaram cursos de Engenharia; em 2023, esse número caiu para 358 mil, uma queda de 23%. Dados ainda mais alarmantes mostram que, entre 2014 e 2020, as matrículas em cursos presenciais de Engenharia nas universidades particulares despencaram 44,5%.

Para além da questão do número de formandos em Engenharia, temos que olhar também para as escolhas que os jovens estão fazendo na hora de decidir qual faculdade querem fazer. Existe um descompasso profundo entre as escolhas dos candidatos e as reais demandas do mercado de trabalho. Mas quais são os cursos que estão bombando e ganhado alunos a cada ano? Pedagogia, Administração e Direito, os quais concentram mais de 60% dos formados atualmente. Mas aqui temos que separar o joio do trigo. Muito provavelmente os cursos de Pedagogia e Administração são escolhidos porque são mais fáceis de entrar. Já Direito, provavelmente, é mais difícil de entrar, mas traz uma remuneração melhor e mais tangível para os formados.

De qualquer forma, o fato é que muitos dos formados atualmente acabam em ocupações desalinhadas com suas formações e é muito comum encontramos administradores trabalhando como copeiros, pedagogos trabalhando em supermercado e até advogados atuando como balconistas. Enquanto isso, a Confederação Nacional da indústria (CNI) estima um déficit de 75 mil engenheiros no Brasil, com alta demanda em setores como tecnologia, infraestrutura e energias renováveis.

A raiz desse problema está nas nossas escolas. O Pisa de 2022 revelou que 70% dos estudantes brasileiros de 15 anos têm dificuldades com matemática simples, uma base essencial para carreiras em engenharia. A abordagem rígida e pouco prática do ensino contribui para o desinteresse dos jovens pelas Ciências Exatas. Além disso, a situação econômica do país e a busca por respostas rápidas no mercado de trabalho levam muitos a optarem por cursos de curta duração ou profissões percebidas como “mais simples”, como as que predominam nos cursos de educação a distância (EAD), que hoje respondem por 66% das matrículas no ensino superior. No entanto, o perfil dos alunos de EAD – majoritariamente adultos acima de 24 anos, muitos com lacunas educacionais profundas – não favorece a escolha por engenharia, e a evasão nesses cursos chega a 40%.

As consequências desse cenário são graves. Engenheiros não apenas constroem pontes; eles criam soluções inovadoras para problemas complexos, impulsionando o desenvolvimento econômico e tecnológico. Países como Coreia do Sul e Estados Unidos, que investem fortemente nesses profissionais, colhem os frutos em forma de infraestrutura robusta, avanços tecnológicos e competitividade global. No Brasil, a escassez de engenheiros ameaça setores estratégicos, como energia renovável e tecnologia, e perpetua a dependência de soluções externas.

Outro agravante é a desconexão entre a oferta de cursos e as necessidades do mercado. Enquanto se formam cinco vezes mais pedagogos do que o sistema educacional absorve, há uma carência crítica de professores especializados em Matemática, Física e Química, o que compromete a qualidade da educação básica e cria um ciclo vicioso. Este seria um bom lugar para o governo atuar e criar regulamentações e incentivos para que mais pessoas preparadas tivessem vontade de serem bons professores de matemática, garantiindo assim o aprendizado dos alunos das nossas escolas brasileiras.

Iniciativas como o campus avançado do ITA em Fortaleza, criado em 2024, com turmas iniciais de 25 alunos em cursos de energias renováveis e sistemas de computação, são passos positivos, mas insuficientes para reverter o déficit de engenheiros.

Da mesma forma, o Instituto de Tecnologia e Liderança (Inteli), fundado em 2021 por sócios do BTG Pactual, surge como uma proposta inovadora. Localizado em São Paulo, o Inteli oferece cinco cursos de graduação presenciais de quatro anos: Engenharia de Computação, Engenharia de Software, Ciência da Computação, Sistemas de Informação e Administração com ênfase em tecnologia. Seu diferencial está na metodologia 100% baseada em projetos, inspirada em instituições como MIT e Stanford, onde os alunos trabalham em desafios reais propostos por mais de 80 empresas parceiras, como Vale, IBM e BTG Pactual, desde o primeiro dia. Com foco em competências de computação (inteligência artificial, ciência de dados, cibersegurança), negócios (finanças corporativas, marketing digital) e habilidades comportamentais (comunicação, ética), o Inteli já formou 307 projetos para 57 parceiros e mantém um robusto programa de bolsas, beneficiando mais da metade de seus alunos.

Porém, apesar de projetos como esses, é necessário um esforço mais amplo para alinhar a formação acadêmica às demandas do mercado e reverter a crise na engenharia. Para mudar esse cenário, o Brasil precisa de ações estruturadas. Primeiro, é essencial melhorar o ensino básica, com foco em ciências exatas e metodologias que despertem o interesse dos jovens. Políticas de incentivo, como bolsas de estudo e campanhas de valorização da engenharia, também podem atrair mais estudantes. Por fim, o governo deve alinhar a oferta de cursos superiores às demandas do mercado, regulando melhor a expansão do EAD e priorizando áreas estratégicas.

Quem viveu os anos 80, a década da economia brasileira engolida pela inflação galopante, deve se lembrar do “engenheiro que virou suco” – profissional então recém-formado pelo Mackenzie que, sem achar trabalho, abriu um bar na Avenida Paulista, de mesmo nome. No século 21, quem está, de fato, “virando suco” é a engenharia brasileira. É muito louvável a nossa veia empreendedora que tem sim que ser incentivada! Mas para além dos empreendedores temos que ter engenheiros espalhados por todas as nossas empresas, criando novas tecnologias e soluções para os problemas reais do mundo, pois certamente eles são os mais preparados para isso.

Ainda há tempo de reverter essa trajetória. Cabe ao Brasil decidir se quer ser um país que anda para trás ou um que constrói pontes para o futuro.

*Ana Maria Diniz é fundadora do Instituto Península, que atua na formação de professores; empresária e conselheira do Todos pela Educação e Parceiros pela Educação.

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Quem vai vencer a corrida para desenvolver um robô humanoide?

Carrie King e Ben Morris – BBC News – 3 maio 2025

É uma manhã ensolarada de primavera em Hanover, na Alemanha, e estou a caminho de um encontro com um robô.

Fui convidado para ver o G1, um robô humanoide construído pela empresa chinesa Unitree, na Hannover Messe, uma das maiores feiras industriais do mundo.

Com cerca de 1,30 m de altura, o G1 é menor e mais acessível do que outros robôs humanoides do mercado e possui uma amplitude de movimento e destreza tão fluidas que vídeos dele realizando números de dança e artes marciais viralizaram.

Hoje, o G1 está sendo controlado remotamente por Pedro Zheng, gerente de vendas da Unitree. Ele explica que os clientes devem programar cada G1 para funções autônomas.

Transeuntes param e tentam ativamente interagir com o G1, o que não se pode dizer de muitas das outras máquinas exibidas na sala de conferências cavernosa.

Eles estendem a mão para cumprimentá-lo, fazem movimentos bruscos para ver se ele responde, riem quando o G1 acena ou se inclina para trás, pedem desculpas se esbarram nele. Há algo em seu formato humano que, por mais estranho que seja, tranquiliza as pessoas.

A Unitree é apenas uma das dezenas de empresas ao redor do mundo que desenvolvem robôs com forma humana.

O potencial é enorme – para as empresas, promete uma força de trabalho que não precisa de férias ou aumentos salariais.

Também pode ser o eletrodoméstico definitivo. Afinal, quem não gostaria de uma máquina que lavasse roupa e enchesse a máquina de lavar louça?

Mas a tecnologia ainda está um pouco distante. Embora braços robóticos e robôs móveis sejam comuns em fábricas e armazéns há décadas, as condições nesses locais de trabalho podem ser controladas e os trabalhadores podem ser mantidos em segurança.

Introduzir um robô humanoide em um ambiente menos previsível, como um restaurante ou uma casa, é um problema muito mais difícil.

Para serem úteis, robôs humanoides teriam que ser fortes, mas isso também os torna potencialmente perigosos – simplesmente cair na hora errada pode ser perigoso.

Muito trabalho precisa ser feito na inteligência artificial (IA) que controlaria tal máquina.

“A IA simplesmente ainda não atingiu o ponto de virada”, disse um porta-voz da Unitree à BBC.

“A IA robótica atual considera a lógica e o raciocínio básicos – como para entender e concluir tarefas complexas de forma lógica – um desafio”, disseram eles.

No momento, o G1 é comercializado para instituições de pesquisa e empresas de tecnologia, que podem usar o software de código aberto da Unitree para desenvolvimento.

Por enquanto, os empreendedores estão concentrando seus esforços em robôs humanoides para armazéns e fábricas.

O mais famoso desses empresários é Elon Musk. Sua montadora, a Tesla, está desenvolvendo um robô humanoide chamado Optimus.

Em janeiro, ele afirmou que “vários milhares” serão construídos este ano e espera que eles façam “coisas úteis” nas fábricas da Tesla.

Outras montadoras estão seguindo um caminho semelhante.

A BMW introduziu recentemente robôs humanoides em uma fábrica nos EUA. Enquanto isso, a montadora sul-coreana Hyundai encomendou dezenas de milhares de robôs da Boston Dynamics, a empresa de robôs que comprou em 2021.

Se ampliarmos a definição para robôs com dois braços, mas que se impulsionam sobre rodas, ele analisa mais de 100 empresas.

Andersson acredita que as empresas chinesas provavelmente dominarão o mercado.

“A cadeia de suprimentos e todo o ecossistema de robótica na China são enormes, e é muito fácil aperfeiçoar desenvolvimentos e fazer P&D [pesquisa e desenvolvimento]”, diz Andersson.

A Unitree demonstra essa vantagem: seu G1 é barato (para um robô), com um preço anunciado de US$ 16 mil (R$ 90,9 mil).

Além disso, Andersson ressalta que o investimento favorece os países asiáticos.

Em um relatório recente, a STIQ observa que quase 60% de todo o financiamento para robôs humanoides foi captado na Ásia, com os EUA atraindo a maior parte do restante.

As empresas chinesas têm o benefício adicional do apoio do governo nacional e local.

Por exemplo, em Xangai, há um centro de treinamento para robôs apoiado pelo Estado, onde dezenas de robôs humanoides estão aprendendo a realizar tarefas.

Então, como os fabricantes de robôs americanos e europeus podem competir com isso?

Bren Pierce, com sede em Bristol, fundou três empresas de robótica e a mais recente, a Kinisi, acaba de lançar o robô KR1.

Embora o robô tenha sido projetado e desenvolvido no Reino Unido, ele será fabricado na Ásia.

“O problema que você enfrenta como empresa europeia ou americana é que você tem que comprar todos esses subcomponentes da China para começar”, diz Pierce.

“Então se torna estúpido comprar motores, comprar baterias, comprar resistores, transportá-los para o outro lado do mundo para montá-los, quando você poderia simplesmente juntá-los na fonte, que fica na Ásia.”

Além de fabricar seus robôs na Ásia, Pierce está mantendo os custos baixos ao não optar pela forma humanoide completa.

Projetado para armazéns e fábricas, o KR1 não tem pernas.

“Todos esses lugares têm piso plano. Por que você iria querer o gasto adicional de um formato tão complexo… quando você pode simplesmente colocá-lo em uma base móvel?”, ele pergunta.

Sempre que possível, seu KR1 é construído com componentes produzidos em série — as rodas são as mesmas que você encontraria em uma scooter elétrica.

“Minha filosofia é comprar o máximo de coisas possível prontas. Então, todos os nossos motores, baterias, computadores e câmeras são peças disponíveis comercialmente e produzidas em série”, diz ele.

Assim como seus concorrentes na Unitree, Pierce diz que o verdadeiro “ingrediente secreto” é o software que permite que o robô trabalhe com humanos.

“Muitas empresas lançam robôs de alta tecnologia, mas aí você precisa de um doutorado em robótica para poder realmente instalá-los e usá-los”, diz ele.

“O que estamos tentando projetar é um robô muito simples de usar, onde um trabalhador comum de armazém ou fábrica possa aprender a usá-lo em poucas horas”, diz Pierce.

Ele afirma que o KR1 consegue executar uma tarefa após ser guiado por um humano 20 ou 30 vezes.

O KR1 será entregue a clientes-piloto para testes este ano.

Será que os robôs algum dia sairão das fábricas e chegarão às casas? Até mesmo o otimista Pierce diz que isso ainda está longe de acontecer.

“Meu sonho de longo prazo nos últimos 20 anos tem sido construir um robô que faça tudo”, diz o empreendedor.

“Foi a isso que dediquei meu doutorado. Acho que esse é o objetivo final, mas é uma tarefa muito complicada”, diz Pierce.

“Ainda acho que eles chegarão lá, mas isso levará pelo menos 10 a 15 anos.”

Esta reportagem foi traduzida e revisada por nossos jornalistas utilizando o auxílio de IA na tradução, como parte de um projeto piloto.

Quem vai vencer a corrida para desenvolver um robô humanoide? – BBC News Brasil

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A IA já chegou para os estagiários. Você provavelmente será o próximo

Novos dados sugerem que os empregos de nível básico estão enfrentando um evento de extinção graças à inteligência artificial. A partir daí, ela só vai subir no organograma.

Por Nick Bilton – Vanity Fair – 25 de abril de 2025(tradução pelo Google)

No fim de semana, um robô de entregas na altura do joelho passou pela cafeteria do meu bairro em Los Angeles, seus “olhos” brancos e brilhantes piscando enquanto se esgueirava entre uma mãe com um carrinho de bebê e um cachorro. Nem a mãe, nem o bebê, nem o cachorro prestaram atenção ao robô. Era simplesmente normal. E, no entanto, não faz muito tempo que as pessoas saíam de cafés, com os celulares em punho, para filmar esses robôs de entrega em movimento, tirando selfies com eles ou simplesmente observando boquiabertas enquanto um robô de verdade entrava no universo. Hoje eu era a única pessoa a levantar os olhos do meu cappuccino. A frase de William Gibson de que “o futuro já está aqui, só não está distribuído uniformemente” nunca soou tão literal. Em outras palavras, a perda de empregos para robôs não está chegando, ela já começou.

Considere o humilde estagiário. Uma pesquisa realizada pela Intelligent.com descobriu que 70% dos gerentes de contratação acreditam que a inteligência artificial pode fazer o trabalho de um estagiário — e isso foi no ano passado. Naquela época, em abril de 2024, 5% dos entrevistados disseram que já ofereceram estágios, mas não os oferecem mais; quase um terço desse subconjunto culpou a IA e sua capacidade de lidar com o trabalho burocrático antes atribuído a jovens de 22 anos que estavam apenas felizes por estarem lá. Um ano depois, os números são impressionantes: a última Atualização do Mercado de Trabalho do Indeed Hiring Lab relatou no início deste mês que as ofertas de estágio em 3 de abril caíram abaixo da linha de base de 2019 e agora estão 11 pontos percentuais abaixo da mesma data em 2024, um sinal claro de que as vagas de estágio estão desaparecendo antes mesmo que a turma de 2025 receba um diploma.

Pessoas no Vale do Silício chamam essa atual substituição de empregos de “arbitragem de pessoal”, que é uma forma tecnológica de dizer: “não precisamos mais de pessoas!” Assistentes de pesquisa? Modelos de linguagem agora podem ingerir relatórios de mercado de 200 páginas, conferir citações, redigir um PowerPoint e executar projetos de pesquisa inteiros — tudo feito na nuvem e entregue ao seu computador em poucos minutos, no máximo. Aquelas chamadas de atendimento ao cliente em que você grita ao telefone e grita “Eu disse telefonista!!!” provavelmente também serão coisa do passado. A Ikea já está substituindo essas funções de suporte por um novo bot de IA chamado Billie, que pode ajudar você com peças faltantes para sua estante ou agendar entregas. Redação, design de storyboard, consultoria em finanças pessoais e uma longa lista de outras funções já estão sendo substituídas pela IA ou estão prestes a ser substituídas.

A mesma dinâmica está se espalhando para todas as áreas do mercado de trabalho. Na Bacia do Permiano, a Chevron está usando tecnologia de IA em plataformas de perfuração que detectam sinais precoces de mudanças de pressão mais rápido do que os humanos, e a empresa se orgulha de que “a IA ajuda a Chevron a extrair mais petróleo por menos”. O JPMorgan Chase implantou IA para analisar contratos de empréstimos comerciais em segundos — trabalho que antes levava 360.000 horas por ano para advogados e agentes de crédito concluir. Mais de 40 anos de trabalho agora são realizados em segundos. 

Departamentos de radiologia estão implementando sistemas de IA que podem detectar anomalias em imagens médicas com uma precisão que rivaliza com a de especialistas humanos. A pesquisa jurídica, antes realizada por exércitos de assistentes jurídicos e associados juniores, está cada vez mais automatizada. Até mesmo as áreas criativas já estão sendo substituídas por IA — agências de publicidade agora usam IA para ajudar a gerar conceitos de campanhas, redação publicitária e designs visuais que antes exigiam equipes de criativos humanos, incluindo Coca-Cola, Heinz e MintMobile.

No entanto, a prova mais tangível de que a força de trabalho humana está alerta anda sobre rodas e, em breve, sobre pernas. Los Angeles se juntou a São Francisco nesta primavera como o mais novo playground para os táxis autônomos da Waymo. A emoção inicial de entrar em um carro sem motorista desaparece rapidamente. Todos que conheço que já pegaram um Waymo dizem a mesma coisa: nunca mais pegarão um Uber dirigido por humanos. “Não preciso falar com ninguém”, celebrou uma amiga após sua viagem inaugural. “Posso peidar, cutucar o nariz, fazer o que eu quiser, e o motorista nunca se ofende. E, honestamente, parece mais seguro do que um humano verificando mensagens de texto.” Ela acrescentou: “E você não precisa dar gorjeta!”

Há dois anos, o Goldman Sachs estimou que a IA generativa sozinha poderia automatizar o equivalente a 300 milhões de empregos em tempo integral em todo o mundo. O Goldman também previu que a IA substituindo humanos poderia aumentar o PIB global em 7%, então acho que há um lado positivo, dependendo de para quem esses 7% forem distribuídos. A McKinsey previu em um relatório de 2017 que potencialmente centenas de milhões de trabalhadores perderiam seus empregos para a automação até 2030.

Escolha qualquer linha do tempo que desejar, a trajetória é clara: primeiro as tarefas, depois os empregos, depois carreiras inteiras, tudo será substituído por máquinas, e isso já está acontecendo.

Os otimistas em tecnologia insistem que cada salto tecnológico eventualmente cria mais empregos do que destrói: a descaroçadora de algodão gerou o engenheiro têxtil, o caixa eletrônico gerou exércitos de designers de produtos financeiros. Isso pode ser verdade ao longo da história, mas não é verdade hoje. Empregos estão desaparecendo em massa e, com a exceção limitada de digitadores rápidos, qualquer novo emprego criado também pode ser substituído pela IA antes que alguém tenha a chance de dominar sua nova área.

Os próximos 12 meses serão impressionantes no que diz respeito à velocidade com que a IA se tornará mais inteligente, rápida e capaz de fazer o que fazemos, só que melhor. OpenAI, Google, Anthropic e Meta estão lançando modelos maiores e mais precisos em um ritmo que rivaliza com as novas listas de tarifas de Donald J. Trump, enquanto empresas chinesas bem financiadas, algumas das quais supostamente são até clones de empresas de IA sediadas nos EUA, estão rapidamente alcançando a inovação americana. Fabricantes de chips não conseguem fabricar silício co

m a rapidez necessária. Capitalistas de risco, entusiasmados com a perspectiva de economia permanente de custos, estão investindo bilhões em qualquer startup cujo discurso combine “GPT-4o” e “arbitragem de número de funcionários” no slide três.

O que me leva — gulp! — à minha própria linha de trabalho. Se um modelo de linguagem pode sintetizar dados de pesquisa, adicionar uma citação de Gibson e produzir uma coluna irônica de mil palavras no estilo impecável da AP, com o que exatamente estou contribuindo além da síndrome do túnel do carpo e da predileção por travessões? A Vanity Fair pode em breve descobrir que seu repórter de tecnologia pode ser substituído por um algoritmo que nunca reclama de edições, nunca apresenta um relatório de despesas e não liga dizendo que está doente — nunca. Porque se o estagiário for realmente o canário na mina de carvão*, eu não estou muito atrás.

*A expressão “canário na mina de carvão” refere-se a um indicador ou alerta precoce de um problema ou perigo iminente, semelhante ao uso histórico de canários em minas de carvão para detectar gases tóxicos. Se um canário morria em uma mina, significava que os mineiros deveriam sair imediatamente, pois o ar era perigoso para respirar. 

AI Has Already Come for the Interns. You’re Probably Next | Vanity Fair

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Como o Brasil se tornou recordista em participação de competições de Matemática?

Prova Canguru tem mais de 1,5 milhão de inscritos, entre alunos de escolas particulares e públicas; avaliação é focada em resolução de problemas e não em memorização; OBMEP é aplicada em 99,9% das cidades do País

Por Renata Cafardo – Estadão – 07/04/2025 | 14h30

Atualização: 07/04/2025 | 17h51

A nova matemática

Competições matemáticas

Competições matemáticas têm ganhado força no País nos últimos anos, numa perspectiva de tornar a disciplina mais acessível e instigante para as crianças e adolescentes. Além da Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas (OBMEP), que já tem 20 anos, a prova internacional Canguru de Matemática bate recorde de inscritos no Brasil. Pesquisas mostram impactos positivos na aprendizagem de estudantes e escolas participantes.

No ano passado, o total foi de 1,3 milhão de alunos na Canguru e aumento de 248% no número de escolas inscritas, cerca de 7 mil. É o país com a maior quantidades de estudantes entre os centenas que fazem o exame no mundo.

A estimativa para este ano – a Canguru está sendo realizada em março e abril – é de 1,8 milhão de estudantes. Entre eles, há alunos de escolas públicas, mas também muitas instituições particulares de elite, com perfil humanista, menos voltadas para o espírito competitivo.

Medalhas da Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas (Obmep), 2024.  Foto: Divulgação/Obmep

Medalhas da Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas (Obmep), 2024. Foto: Divulgação/Obmep Foto: Divulgação/Obmep

A OBMEP também teve em 2025 o maior número de escolas e cidades inscritas já registradas em duas décadas de história. A prova é realizada em 99,93% do municípios do País, por 18,6 milhões de estudantes.

Cristina Diaz, CEO da Upmat Educacional, que organiza a Canguru no País, explica que a ideia é fazer uma “grande celebração da Matemática” e diz que os resultados podem ser usados da forma que a escola entender melhor.

“Algumas dão diplomas, medalhas, colocam em outdoor. Outras só levam as questões para debater na sala de aula”, afirma. “O objetivo é que crianças do mundo todo percam o medo da Matemática.”

O exame é o mesmo em todos os países, só traduzidos para língua local, e feito por um grupo de especialistas internacionais. A ideia é uma prova que não é focada em conteúdo e, sim, na resolução de problemas e raciocínio lógico, independentemente da idade ou série do estudante.

É algo semelhante ao que aparece também em provas como o Pisa, feito pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), e que o Brasil fica sempre entre as últimas colocações.

As questões abordam identificação de padrões ou desafios em situações que fazem sentido para as crianças e adolescentes, que estão do 3º ano do fundamental até o último do ensino médio. “Não depende se a criança teve fração na escola ou não, não é uma prova curricular”, explica Cristina.

“Os desafios da Canguru são muito inteligentes, são abertos, obrigam a criança a pensar, o que importa não é a resposta correta somente”, diz a diretora da Escola Vera Cruz, Regina Scarpa, cujos alunos participam da prova de forma voluntária. Os que se saem melhor recebem medalhas. Para ela, competições como a Canguru mobilizam as crianças e jovens para o interesse e estudo da Matemática.

O nome Canguru é em homenagem a um professor australiano que inventou uma prova divertida de matemática nos anos 1990. Cristina acredita que a avaliação está muito conectada à ideia de uma disciplina que é criativa e sem decorebas.

Como o Estadão mostrou, cresce no Brasil e no mundo uma nova abordagem para o ensino da Matemática, que estimula a descoberta, pensamento lógico, criar hipóteses e encontrar o resultado da sua própria maneira. E, além disso, mudar as atitudes diante da disciplina e acabar com a crença de que só algumas pessoas têm jeito para a Matemática. “A gente decora, passa no vestibular, entra na faculdade e vai deixando buracos na vida adulta”, diz Cristina.

Vagas na USP e na Unicamp para medalhistas

Mais antiga, a OBMEP já abre oportunidades até para ingresso no ensino superior. A Universidade de São Paulo (USP) e a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), duas das maiores do País, têm vagas específicas para medalhistas dessa e de outras olimpíadas de conhecimento.

O Impa Tech, um bacharelado federal em Matemática da Tecnologia e Inovação do Instituto de Matemática Pura e Aplicada (Impa), no Rio de Janeiro, reserva 80% das vagas para estudantes medalhistas em olimpíadas científicas.

Pesquisas que já investigaram os efeitos da participação na olimpíada mostram impacto significativo na aprendizagem dos alunos e da escola. Uma delas diz que o benefício aumenta conforme a maior quantidade de vezes que a instituição inscreve seus alunos para a competição.

“O efeito se dá porque as escolas envolvidas com a OBMEP por um período maior de tempo modificaram seu projeto pedagógico para o ensino de Matemática, incluindo na sua rotina atividades que oportunizam o aprendizado dessa disciplina”, diz o estudo realizado pelos pesquisadores Camila M. Machado Soares e Elisabette Leo, sob supervisão do professor emérito da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Francisco Soares.

A pesquisa afirma ainda que os professores também se qualificam melhor porque se envolvem mais com o ensino da Matemática e aponta que as premiações despertam maior interesse de todos os alunos pela disciplina.

Como o Brasil se tornou recordista em participação de competições de Matemática? – Estadão

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Textos feitos por IA: se você não se dá ao trabalho de escrever, por que eu vou ler?

Seja em um e-mail privado ou em um post no LinkedIn, precisamos admitir que usar descaradamente IA para escrever pode ser uma falta de educação

MARK WILSON – Fast Company Brasil – 01-05-2025 

Sou jornalista e, antes, costumava dedicar os primeiros 30 minutos do meu dia a consumir feeds de notícias. Agora, esse hábito mudou: esses minutos são dedicados ao LinkedIn.

Esse é o curso natural da tecnologia e busco um público interessado em textos baseados em reflexão cuidadosa. Descobri que essa pseudo rede social – que eu achava constrangedora – está, na verdade, cheia de pessoas inteligentes, que vão aparecer se eu estiver disposto a dedicar um tempo extra compartilhando meus textos com elas.

Estamos agora na era dos especialistas de LinkedIn que escrevem com IA. Sua especialidade é pegar uma matéria e jogar no ChatGPT, pedindo para resumi-la em um post engraçadinho para o LinkedIn. O próprio LinkedIn tem um assistente de escrita que incentiva as pessoas a “reescrever com IA” para produzir esse tipo de conteúdo.

Eles pegam os pensamentos e pesquisas de outros, reconstroem e apresentam como se fossem seus. Mesmo quando citam referências em links, ainda assim o novo texto parece uma colcha de retalhos. Ou um bife transformado em carne processada.

Mas, sinceramente, não é esse tipo de plágio o que mais me incomoda. Aliás, o LinkedIn não é o único lugar onde você encontra pessoas publicando textos escritos por IA.

Além do uso excessivo desse recurso para resumir reuniões do Zoom, posso perceber que os e-mails de apresentações de empresas e projetos que recebo estão cada vez mais sendo escritos com a ajuda da IA, enquanto empresas como a Microsoft promovem o Copilot para ajudar a redigir memorandos corporativos (e posts no LinkedIn!).

O BOTÃO ONIPRESENTE DA IA PROMETENDO FAZER QUALQUER COISA POR VOCÊ É CERTAMENTE TENTADOR.

Parece que todo designer que conheço está usando IA para escrever sobre seus projetos. O Canva acaba de lançar ferramentas para escrever anúncios em massa para você em praticamente todos os idiomas do mundo.

Tudo isso é ok. Tem muita fumaça, mas o ambiente ainda não pegou fogo. Nem toda apresentação ou pitch de vendas precisa ser um soneto shakespeariano. Mesmo especialistas em linguagem dirão que a maior parte dos escritos não passam de fórmulas. É por isso que tecnologias preditivas de autocompletar textos têm sido tão precisas por tanto tempo.

Eu costumava ter medo de que a IA nos aprisionasse em nosso próprio universo. Agora, imagino um futuro bem mais ordinário. Nele, eu uso a IA para escrever algo para você e você pede para a sua IA resumir.

Depois, sua IA escreve de volta. E aí a minha IA resume sua resposta. Por que não foi tudo resumido desde o começo? Qual é a necessidade de alguém chegar a formular qualquer pensamento completo?

LEVA MAIS TEMPO PARA SE LER TEXTOS FEITOS POR IA DO QUE PARA ESCREVER

O que é tão insultante para mim nesses textos gerados por IA é que eles levam menos tempo e consideração para serem produzidos do que para serem lidos. Você está, pela natureza do compartilhamento dessas palavras automatizadas, sinalizando para mim que se importa menos com o meu tempo e atenção do que com o seu próprio.

Claro, você é livre para acreditar nisso o quanto quiser – na sua própria cabeça. Só não jogue isso na minha caixa de entrada ou no meu feed. Porque isso é falta de educação.

De certa forma, uma imagem ou anúncio gerado por IA é menos ofensivo para mim, porque olhamos para a maioria dos anúncios digitais por um segundo ou menos (com apenas 4% capturando nossa atenção por dois segundos inteiros).

Para o pessoal do marketing e design gráfico, por favor, não cancelem seus planos de fim de semana para obter 10 microssegundos a mais do meu engajamento! Quem se importa? (Desculpe, eu realmente gosto de um bom anúncio.)

Mas a leitura simplesmente leva mais tempo do que o processamento visual. Exige mais do público. Apresentar a um amigo ou colega uma mensagem que uma IA escreveu é como convidá-lo para o jantar e esquentar uma lasanha congelada nos microondas.

Um post de IA no LinkedIn é como levar esse mesmo jantar requentado para uma confraternização. Você deveria se envergonhar em ambos os casos. Não pela falta de habilidade ou prática em juntar palavras, mas pela falta de respeito por nem sequer tentar.

ESTAMOS NA ERA DOS ESPECIALISTAS DE LINKEDIN QUE ESCREVEM COM IA.

Agora, para ser justo, reconheço que esse erro não é totalmente sua culpa. O botão onipresente da IA prometendo fazer qualquer coisa por você é certamente tentador. E empresas como OpenAI, Google e Microsoft estão incentivando esse comportamento enquanto esperam provar que valeu a pena seu investimento em ferramentas de IA.

Elas vão nos viciar em automação mesmo quando é indelicado, porque não existe plano de negócios no mundo baseado em moderação.

A verdade, porém, é uma só: se algo não vale a pena o seu trabalho de escrever, então por que raios vai valer a pena eu ler?


SOBRE O AUTOR

Mark Wilson é redator sênior da Fast Company. Escreve sobre design, tecnologia e cultura há quase 15 anos.

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Duolingo vai demitir e substituir humanos por IA; entenda mudanças

Empresa afirmou que as mudanças não afetarão equipes no Brasil

Por Mariana Cury – Estadão – 30/04/2025 

Nesta segunda-feira, 28, o CEO do Duolingo, Luis von Ahn, anunciou, por meio de um e-mail, que foi publicado no LinkedIn, que a empresa substituirá alguns colaboradores por inteligência artificial (IA). A mudança será feita em cargos que a IA consegue desenvolver sem o auxílio humano. Segundo ele, a empresa usará a estratégia de “AI first”, ou seja, tratará a tecnologia como prioridade.

O CEO acredita que o uso das IAs não é apenas uma forma de otimizar serviço, mas também, uma maneira de “aproximar a empresa de sua missão”.

Em nota ao Estadão, a empresa afirmou que as mudanças não afetarão as operações ou a equipe do Duolingo Brasil.

De acordo com ele, as mudanças feitas com IA beneficiarão os alunos da plataforma. “Uma das melhores decisões que tomamos recentemente foi a substituição de um processo lento e manual de criação de conteúdo por um processo alimentado por IA. Sem a IA, levaríamos décadas para expandir nosso conteúdo para mais alunos. Devemos isso aos nossos alunos para que eles recebam esse conteúdo o mais rápido possível”, disse na publicação.

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Ele também comparou a decisão atual com uma de 2012, em que o Duolingo priorizou o desenvolvimento de seu aplicativo para smartphones, o que foi essencial para popularização da plataforma de estudos de línguas ao redor do mundo. Além disso, disse que as mudanças serão uma forma dos funcionários de “focarem em problemas reais, e não em tarefas repetitivas”.

A decisão de Von Ahn lembra as declarações recentes do CEO do Shopify, Tobi Lütke, em que disse que antes dos funcionários solicitarem mais recursos, eles precisam provar “o motivo que pelo qual as IAs não podem exercer essas necessidades”. Nesse mesmo sentido, novas contratações no Duolingo só serão feitas se a tecnologia não conseguir realizar determinado serviço.

Leia na íntegra a publicação do CEO

Eu já disse isso nas perguntas e respostas e em muitas reuniões, mas quero tornar isso oficial: O Duolingo vai priorizar a IA.

A IA já está mudando a forma como o trabalho é feito. Não se trata de uma questão de se ou quando. Isso está acontecendo agora. Quando há uma mudança tão grande, a pior coisa que se pode fazer é esperar. Em 2012, apostamos no celular. Enquanto outros se concentravam em aplicativos móveis complementares para sites, decidimos desenvolver a tecnologia móvel primeiro porque vimos que era o futuro. Essa decisão nos ajudou a ganhar o prêmio de Aplicativo do Ano para iPhone em 2013 e desbloqueou o crescimento orgânico boca a boca que se seguiu.

Apostar no celular fez toda a diferença. Estamos tomando uma decisão semelhante agora e, desta vez, a mudança de plataforma é a IA.

A IA não é apenas um aumento de produtividade. Ela nos ajuda a chegar mais perto de nossa missão. Para ensinar bem, precisamos criar uma quantidade enorme de conteúdo, e fazer isso manualmente não tem escala. Uma das melhores decisões que tomamos recentemente foi a substituição de um processo lento e manual de criação de conteúdo por um processo alimentado por IA. Sem a IA, levaríamos décadas para expandir nosso conteúdo para mais alunos. Devemos isso aos nossos alunos para que eles recebam esse conteúdo o mais rápido possível.

A IA também nos ajuda a criar recursos como a chamada de vídeo, que antes eram impossíveis de criar. Pela primeira vez, ensinar tão bem quanto os melhores tutores humanos está ao nosso alcance.

Ser a IA em primeiro lugar significa que precisaremos repensar grande parte da forma como trabalhamos. Fazer pequenos ajustes em sistemas projetados para humanos não nos levará a isso. Em muitos casos, precisaremos começar do zero. Não vamos reconstruir tudo da noite para o dia, e algumas coisas – como fazer com que a IA entenda nossa base de código – levarão tempo. No entanto, não podemos esperar até que a tecnologia esteja 100% perfeita. Preferimos agir com urgência e sofrer pequenos impactos ocasionais na qualidade do que agir lentamente e perder o momento.

Estaremos implementando algumas restrições construtivas para ajudar a orientar essa mudança:

Gradualmente, deixaremos de usar prestadores de serviços para fazer o trabalho que a IA pode realizar

O uso de IA fará parte do que procuramos nas contratações

O uso da IA fará parte do que avaliamos nas avaliações de desempenho

O número de funcionários só será concedido se uma equipe não puder automatizar mais do seu trabalho

A maioria das funções terá iniciativas específicas para mudar fundamentalmente a forma como trabalham

Dito isso, o Duolingo continuará sendo uma empresa que se preocupa profundamente com seus funcionários. Não se trata de substituir Duos por IA. Trata-se de remover gargalos para que possamos fazer mais com as duplas excelentes que já temos. Queremos que você se concentre no trabalho criativo e em problemas reais, não em tarefas repetitivas. Vamos apoiá-lo com mais treinamento, orientação e ferramentas para IA em sua função.

Mudanças podem ser assustadoras, mas estou confiante de que esse será um grande passo para o Duolingo. Isso nos ajudará a cumprir melhor nossa missão – e, para os Duos, isso significa ficar à frente da curva no uso dessa tecnologia para fazer as coisas.

*Mariana Cury é estagiária sob supervisão do editor Bruno Romani

Duolingo vai demitir e substituir humanos por IA; entenda mudanças – Estadão

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Robô humanoide sai dos laboratórios e começa a chegar ao chão de fábrica: veja como funciona

Turbinada por inteligência artificial (IA), uma nova leva dessas máquinas já estão operando, ainda em teste, em empresas como Mercedes-Benz, BMW e Amazon

Por Juliana Causin — O Globo – 27/04/2025

Rôbos da chinesa Ubtech trabalhandoRôbos da chinesa Ubtech trabalhando — Foto: Divulgação

Feitos à imagem e semelhança de seus criadores, eles são bípedes, têm braços articulados, mãos que manipulam objetos e circuitos que aprendem a tomar decisões. Também têm sensores, câmeras e microfones para entender o ambiente ao redor. Forjados em laboratórios ao longo de décadas, os robôs humanoides começam a chegar aos ambientes de trabalho reais para atuar com humanos.

Turbinada por inteligência artificial (IA), uma nova leva dessas máquinas está em testes em montadoras como Mercedes-Benz e BMW e nos centros de distribuição da varejista on-line Amazon nos EUA. São máquinas versáteis, que também poderiam ser úteis para substituir humanos em tarefas insalubres ou repetitivas, cujo desenvolvimento abre nova trincheira na batalha entre EUA e China, já que os principais desenvolvedores são destes dois países.

Segundo o Goldman Sachs, esse mercado deve alcançar US$ 38 bilhões (R$ 215 bilhões) até 2035, com uma redução de 40% no custo atual das máquinas. Desde 2023, os preços de um robô humanoide saíram da faixa entre US$ 50 mil e US$ 250 mil por unidade para algo entre US$ 30 mil e US$ 150 mil.

Essas máquinas inteligentes também poderiam ser a solução para empresas com escassez de mão de obra na manufatura, inclusive a avançada. Robôs que imitam humanos já existem há tempos, mas a inclusão de modelos de IA mais potentes está fazendo a diferença ao aprimorar habilidades, dispensar o controle remoto ou evitar programação constante por um humano. Os humanoides agora têm capacidade de aprender e executar tarefas complexas.

Esther Colombini, professora de robótica e IA do Instituto de Computação da Unicamp, explica que a escolha pelo formato humano não é estética, mas funcional:

— Se a operação acontece em uma estrutura física feita para humanos, posso introduzi-los nesses ambientes sem precisar de adaptações.

A pesquisadora ressalta que robótica e inteligência artificial “sempre andaram juntas”, mas os avanços recentes na IA deram mais capacidade de identificar objetos, reconhecer pessoas e se locomover. Um dos expoentes dessa aliança é o Apollo, humanoide da americana Apptronik, testado desde março pela Mercedes na Alemanha. Com 1,73 metro de altura e 72 quilos, ele transporta kits de peças para montagem de carros de uma linha para a outra.

Plataforma de Hardware

Segundo a Apptronik, a IA permitiu ao robô se tornar uma espécie de “plataforma” de hardware, comparável a um iPhone: ele vem com funções básicas instaladas, mas pode ganhar novas habilidades de acordo com o emprego.

Outras montadoras investem nisso. A BMW adotou em sua operação nos EUA os robôs da Figure AI. A americana Tesla, de Elon Musk, trabalha na fabricação dos humanoides Optimus para atuarem na montadora e fora dela.

A chinesa BYD e a coreana Hyundai, que controla a Boston Dynamics, também têm projetos na área.

A Amazon começou a testar o robô bípede Digit, da Agility Robotics, em galpões dos EUA em 2023. Os primeiros resultados indicam que ele otimiza o movimento de itens e contêineres em espaços complexos, como corredores estreitos e áreas de difícil acesso para os 750 mil robôs tradicionais que já operam regularmente, diz Thomas Kampel, diretor de Comunicação Corporativa da empresa no Brasil.

Pras Velagapudi, diretor de Tecnologia da Agility, diz que a IA permite que cada unidade do Digit se beneficie do aprendizado dos outros robôs da frota, numa evolução coletiva.

— À medida que esses modelos (de IA) avançam, oferecem a possibilidade de reduzir consideravelmente o esforço necessário para ensinar um robô a realizar uma nova tarefa, um dos principais obstáculos à adoção pelos clientes — afirma o executivo, admitindo, no entanto, que ainda há um desafio de confiabilidade em relação à IA.

Além das fábricas, Andréa Janer, CEO da consultoria Oxygen, diz que humanoides avançam em outras frentes, como em tarefas domésticas ou só fazendo companhia, potencializados pela chamada “IA corporificada”:

— Em vez de você interagir por texto ou voz (com IA), você vai ter uma figura que pode te ajudar a resolver problemas. Seria um terceiro passo da IA.

Uma das empresas que quer liderar o segmento de robôs “domésticos” é a norueguesa 1X, criadora do Neo Gamma, feito para executar tarefas como aspirar o chão, regar plantas e servir café. Sim, como a robô de avental dos Jetsons. A startup anunciou que começaria os primeiros testes em casas neste ano.

Para Colombini, da Unicamp, a tecnologia ainda está longe da maturidade necessária para humanoides atuarem de forma autônoma e segura em indústrias e residências. Além de desafios operacionais, ela cita dilemas éticos e regulatórios:

— Você confiaria em deixar uma máquina de 70 quilos de metal sozinha com seu filho pequeno ou seus cachorros?

Chineses à frente

Nessa corrida tecnológica, a China parece despontar. No início deste ano, um relatório do Morgan Stanley mapeou as cem principais empresas e setores ligados a toda a cadeia de desenvolvimento de robôs humanoides: 73% das companhias envolvidas estão na Ásia, sendo 56% na China.

“A China continua a mostrar o progresso mais impressionante em robótica humanoide, onde as startups estão se beneficiando de cadeias de suprimentos estabelecidas, oportunidades de adoção local e altos níveis de apoio do governo”, avaliam os analistas.

Assim como aconteceu com carros elétricos e IA, a China incluiu os humanoides em sua estratégia de crescimento. Em 2023, o governo lançou seu primeiro plano específico para a área, com a meta de, neste ano, ter robôs em produção massiva, com “duas a três empresas com influência global”. Em 2027, Pequim quer ter humanoides “profundamente integrados à economia real”.

Entre as principais fabricantes chinesas de humanoides, estão Ubtech, Unitree e Agibot. Há uma semana, 21 humanoides foram colocados à prova (literalmente) em uma meia maratona nas ruas da capital chinesa. Um exemplar do Centro de Inovação em Robótica Humanoide de Pequim venceu a prova de 21 quilômetros em 2h40. Nada mau.

— Os chineses não querem só liderar do ponto de vista tecnológico, mas trazer o robô para um patamar de preço acessível. Falam em máquinas de US$ 30 mil até 2030, o que seria um feito enorme — avalia José Rizzo, líder de Industry X na Accenture Brasil.

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