A fábrica secreta dos EUA que expõe contradição em planos de Trump

Faisal Islam – BBC News – 23 maio 2025

Entre os cactos do deserto do Arizona, nos arredores de Phoenix, está surgindo um complexo extraordinário de edifícios que vai moldar o futuro da economia global e do mundo.

É a construção de uma fábrica para os semicondutores mais avançados do mundo — que, em algum momento, vai produzir em massa os chips mais avançados do mundo. Este trabalho está sendo realizado nos Estados Unidos pela primeira vez, e a empresa taiwanesa responsável promete investir ainda mais bilhões aqui, em uma iniciativa que visa evitar a ameaça de tarifas sobre chips importados.

Na minha opinião, esta é a fábrica mais importante do mundo, e está sendo construída por uma empresa da qual você talvez não tenha ouvido falar: a TSMC, Taiwan Semiconductor Manufacturing Company. Ela produz 90% dos semicondutores avançados do mundo.

Até agora, todos eles eram fabricados na ilha de Taiwan, que fica a 160 quilômetros a leste da China continental. O chip da Apple no seu iPhone, os chips da Nvidia que alimentam suas consultas do ChatGPT, os chips em seu laptop ou rede de computadores, todos são fabricados pela TSMC.

Sua unidade “Fab 21”, no Arizona, é fortemente vigiada. Papel em branco ou dispositivos pessoais não são permitidos por precaução, para evitar o vazamento de informações confidenciais. Ela abriga algumas das propriedades intelectuais mais importantes do mundo, e o processo de fabricação destes chips é um dos mais complexos e intensivos da manufatura global.

Eles guardam bem os segredos que se encontram em seu interior. Clientes importantes, como a Apple e a Nvidia, confiam nesta companhia para proteger seus designs para futuros produtos.

Mas depois de meses de solicitações, a TSMC permitiu que a BBC desse uma espiada na transferência parcial do que alguns argumentam ser a fabricação mais crítica, cara, complexa e importante do mundo.

Garota-propaganda da política de Trump

O presidente americano, Donald Trump, certamente parece pensar assim. Ele menciona com frequência a fábrica quando tem uma oportunidade. “A TSMC é a maior que existe”, ele afirmou. “Perdemos gradualmente o negócio de chips, e agora está quase exclusivamente em Taiwan. Eles roubaram de nós.” Este é um dos refrões frequentes do republicano.

A recente decisão da TSMC de expandir seus investimentos nos EUA em mais US$ 100 bilhões é algo que Trump atribui às suas ameaças de tarifas sobre Taiwan e o negócio global de semicondutores.

A expansão da fábrica no Arizona, anunciada em março, é, segundo ele, efeito das suas políticas econômicas — em especial, o incentivo a empresas estrangeiras para transferirem fábricas para os EUA a fim de evitar tarifas pesadas.

A China também está observando atentamente os acontecimentos. A proeza de Taiwan na fabricação de chips faz parte do que seu governo chama de “Escudo de Silício“, contra uma invasão um tanto temida. Embora a estratégia original fosse tornar Taiwan indispensável nesta área de tecnologia essencial, as dificuldades na cadeia de suprimentos durante a pandemia de covid-19 mudaram a dinâmica, uma vez que confiar em um único país parecia ser um risco maior.

A China reivindica Taiwan, que tem governo próprio, como seu território, mas Taiwan se considera independente da China continental.

Portanto, muitas correntes da economia mundial, da tecnologia de ponta e da geopolítica fluem por esta fábrica — e nela reside a contradição essencial da política econômica e diplomática de Trump.

Ele vê esta fábrica como um exemplo do America First (“EUA em primeiro lugar”, em tradução livre) e da preservação da superioridade econômica e militar sobre a China. No entanto, a fabricação destes milagres modernos em miniatura, na vanguarda da física e da química, depende inerentemente de uma combinação das melhores tecnologias de todo o mundo.

O ambiente mais limpo do planeta

Greg Jackson, um dos gerentes do complexo, me leva em um carrinho de golfe. As fábricas são praticamente uma cópia fiel das instalações da TSMC em Taiwan, onde ele recebeu treinamento. “Eu diria que essas instalações são provavelmente algumas das mais avançadas e complexas do mundo”, diz ele.

“É uma dicotomia e tanto. Você tem chips muito, muito pequenos, com estruturas muito pequenas, e é preciso uma instalação enorme com toda a infraestrutura para poder fabricá-los… A complexidade e a quantidade de sistemas necessários são impressionantes.”

Dentro do “Gowning Building”, os trabalhadores vestem roupas de proteção antes de atravessar uma ponte que supostamente gera o ambiente mais limpo da Terra, a fim de proteger a produção destes extraordinários transistores microscópicos que criam os microchips que são o alicerce de tudo.

O engenheiro Konstantinos Ninios me mostra algumas das primeiras produções da TSMC Arizona: um wafer de silício com o que é conhecido como “chips de 4 nanômetros”.

“Este é o wafer mais avançado dos EUA atualmente”, ele explica. “[Ele] contém cerca de 10 a 14 trilhões de transistores… Todo o processo envolve de 3 mil a 4 mil etapas.”

Se você pudesse, de alguma forma, encolher seu corpo na mesma escala e entrar no wafer, ele diz que as muitas camadas diferentes se pareceriam com ruas e arranha-céus muito altos.

Manipulação de átomos

A TSMC foi fundada a pedido do governo taiwanês em 1987, quando o executivo do setor de chips Morris Chang foi orientado a abrir o negócio. A ideia era se tornar uma instalação dedicada a microchips, fabricando designs de outras empresas. O sucesso foi estrondoso.

O que impulsiona o avanço da tecnologia é a miniaturização dos menores recursos dos chips. Atualmente, seu tamanho é medido em bilionésimos de metro ou nanômetros. Este avanço permitiu que os telefones celulares se tornassem smartphones, e agora está definindo o ritmo para a implantação em massa da inteligência artificial.

Isso requer um custo e uma complexidade incríveis por meio do uso de “luz ultravioleta (UV) extrema”. Ela é usada para gravar os intrincados pilares da nossa existência moderna em um processo chamado “litografia”.

A dependência mundial da TSMC é baseada em máquinas altamente especializadas do tamanho de um ônibus, que, por sua vez, são fornecidas quase que totalmente por uma empresa holandesa chamada ASML, inclusive no Arizona.

Estas máquinas disparam luz ultravioleta dezenas de milhares de vezes por meio de gotas de estanho fundido, o que gera um plasma, que é então refratado por uma série de espelhos especializados.

O processo quase totalmente automatizado para cada wafer de silício é repetido milhares de vezes em camadas ao longo de meses, até que o wafer de US$ 1 milhão para chips de silício de 4 nm (cada nanômetro corresponde à bilonésima parte de um metro) seja formado.

“Imagine uma partícula ou uma partícula de poeira caindo nisso”, diz Ninios. “Os transistores não vão funcionar. Portanto, tudo isso aqui é mais limpo do que o centro cirúrgico de um hospital.”

Cautela em Taiwan

Taiwan não tem acesso especial às matérias-primas — mas tem o know-how para permanecer anos à frente de outras empresas no intrincado processo de produção destes alicerces atômicos da vida moderna.

Alguns membros do governo taiwanês são cautelosos em relação à expansão da fronteira desta tecnologia para fora da ilha. Trump não perdeu tempo em afirmar que a decisão da empresa de levar seu mais alto nível de tecnologia para os EUA se deveu às suas políticas econômicas.

Ele disse que isso não teria acontecido sem o poder das tarifas planejadas sobre Taiwan e semicondutores. As pessoas com quem conversei na TSMC foram diplomáticas em relação a esta afirmação.

Grande parte disso já estava planejado e subsidiado pela Lei de Chips do ex-presidente dos EUA, Joe Biden.

Na entrada do prédio, há fotos que mostram a visita de Biden em 2022, com o canteiro de obras coberto de estrelas e listras, e uma faixa em que se lê: “Um futuro Made in EUA”.

“A cadeia de suprimentos de semicondutores é global”, diz Rose Castanares, presidente da TSMC Arizona. “Não há um único país neste momento que seja capaz de fazer tudo, desde produtos químicos até fabricação de wafers e embalagens, e por isso é muito difícil desfazer tudo isso tão rápido.”

Cadeias de suprimentos ‘não vermelhas’ para deter a China

Quanto à cadeia de suprimentos de semicondutores, as tarifas não vão ajudar. A cadeia de suprimentos se estende por todo o mundo. Sejam os wafers de silício do Japão, as máquinas da Holanda ou os espelhos da Alemanha, são necessários todos os tipos de materiais do mundo todo. Agora, eles podem enfrentar taxas de importação.

Dito isso, o CEO da TSMC foi rápido ao confirmar a expansão da unidade nos EUA em um evento com Trump na Casa Branca. Nas últimas semanas, a elite tecnológica dos EUA — de Tim Cook, da Apple, a Jensen Huang, da Nvidia — tem se revezado para dizer ao mundo que a TSMC Arizona agora vai produzir muitos dos chips em seus produtos nos EUA.

O setor global de chips é bastante sensível ao ciclo econômico, mas sua tecnologia de ponta desfruta de margens bastante saudáveis, o que poderia amortecer algumas destas tarifas planejadas.

Há muitas entrelinhas geopolíticas aqui. A fábrica está no centro da estratégia dos EUA para obter supremacia tecnológica, na área de inteligência artificial e econômica sobre a China.

Tanto o governo Biden quanto Trump desenvolveram políticas para tentar limitar o acesso chinês à tecnologia de semicondutores de ponta — desde a proibição das exportações para a China das máquinas da ASML até a nova legislação para proibir o uso de chips de inteligência artificial da Huawei em softwares ou tecnologia dos EUA em qualquer lugar do mundo.

O presidente de Taiwan, Lai Ching-te, pediu nesta semana que democracias como o Japão e os EUA desenvolvam cadeias de suprimentos “não vermelhas” para conter a China.

No entanto, nem todo mundo está convencido de que esta estratégia está funcionando. Os tecnólogos chineses têm sido eficazes em contornar as proibições para desenvolver tecnologia local competitiva. E Bill Gates observou esta semana que essas políticas “forçaram os chineses, em termos de fabricação de chips e tudo o mais, a avançar a toda velocidade”.

Trump quer que a TSMC Arizona se torne a pedra fundamental da sua era áurea americana. Mas a história da empresa até o momento talvez seja a expressão máxima do sucesso da globalização moderna.

Portanto, por enquanto, trata-se de uma batalha pela supremacia tecnológica e econômica global, na qual a tecnologia industrial de Taiwan, parte da qual está sendo transferida para o deserto do Arizona, é o ativo essencial

A fábrica secreta dos EUA que expõe contradição em planos de Trump – BBC News Brasil

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A nova regra do jogo: carreiras mais longas, ambientes mais diversos

O futuro do trabalho não será mais sobre juventude ou experiência, mas sobre convivência, troca e complementaridade entre gerações


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MÓRRIS LITVAK – Fast Company Brasil – 12-05-2025 

À medida que vivemos mais, nossas trajetórias profissionais se expandem – e as empresas precisam acompanhar essa mudança, repensando cultura, gestão e inclusão geracional.

Não é mais novidade que estamos vivendo mais. Mas o que nem todo mundo percebe é o impacto profundo que isso tem nas nossas vidas profissionais. Se antes a carreira se concentrava em 30 ou 35 anos, hoje ela pode durar 50 anos ou mais. E isso muda tudo.

Estamos diante de uma nova regra do jogo: as carreiras estão mais longas, o mercado mais diverso em idades e os modelos antigos de gestão simplesmente não dão conta dessa complexidade. Quem não entender isso corre o risco de perder relevância, produtividade e inovação.

Segundo o IBGE, em 2030, o Brasil terá mais pessoas acima dos 60 anos do que crianças até 14. Ou seja, o “país jovem” já não é realidade. E o mercado de trabalho precisa se adaptar.

O FIM DO MODELO LINEAR

Por décadas, seguimos um modelo profissional quase automático: estudar, trabalhar, aposentar. Tudo em linha reta. Mas essa linha está se esticando – e se curvando.

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Hoje, vemos pessoas de 50, 60, 70 anos querendo (e podendo) continuar ativas. Seja empreendendo, mudando de área ou buscando novos aprendizados. Ao mesmo tempo, vemos jovens entrando no mercado com a expectativa de mudar de rota várias vezes.

A carreira deixou de ser linear. Tornou-se cíclica, fluida e mais longa. E isso exige um novo olhar das empresas.

A GERAÇÃO DA TRAVESSIA

Entre os que mais sentem essa mudança estão as pessoas que hoje têm entre 40 e 55 anos. Elas cresceram ouvindo que o sucesso era conquistar estabilidade o mais cedo possível, mas agora vivem uma realidade que exige flexibilidade, reinvenção e atualização constante.

Essa geração está no meio do caminho: viu o mundo analógico virar digital, o emprego vitalício se transformar em múltiplas carreiras e o tempo de contribuição virar tempo de transição. Por isso, também é uma geração com grande potencial de protagonismo – se tiver o suporte certo.

QUATRO GERAÇÕES (OU MAIS) NO MESMO TIME: DESAFIO OU OPORTUNIDADE?

Nunca tivemos tantas gerações convivendo ao mesmo tempo nos ambientes de trabalho. E isso pode ser um caos ou uma potência.

O desafio está em lidar com diferentes ritmos, repertórios e estilos de comunicação. Mas a oportunidade está em combinar experiências: a ousadia dos mais jovens com a visão estratégica dos mais velhos, a fluência digital com a sabedoria analógica.

Um estudo da McKinsey mostra que times diversos – incluindo diversidade etária – têm até 35% mais chances de superar seus concorrentes em performance. Incluir todas as idades é também uma decisão de negócios.

EXEMPLOS QUE INSPIRAM

Felizmente, já existem empresas que estão entendendo essa mudança. Grandes corporações como Assaí, L’Oréal Brasil, TIM, Livelo, Eurofarma e Banco BMG têm desenvolvido programas de contratação, capacitação e retenção de talentos 50+, inclusive com metas afirmativas e programas intergeracionais (veja aqui sobre o selo Age Friendly Employer).

Na Maturi, temos acompanhado de perto esse movimento, com iniciativas que mostram que é possível – e necessário – mudar a mentalidade do RH para incluir o tempo como dimensão da diversidade. E os resultados vão além dos números: há ganhos reais em cultura, inovação e reputação. Veja mais cases de sucesso aqui.

LIFELONG LEARNING: A CHAVE PARA O NOVO MUNDO DO TRABALHO

Uma das principais ferramentas para navegar nessa nova era é o aprendizado contínuo. O chamado lifelong learning precisa deixar de ser tendência para virar prática real.

E aqui, novamente, todas as idades importam: jovens aprendem a se desenvolver com mais consistência, enquanto os mais velhos podem se reinventar, dominar novas tecnologias e manter sua relevância no mercado. Educação ao longo da vida não é luxo, é condição básica para carreiras mais longas.

O QUE PRECISA MUDAR NAS EMPRESAS

Para acompanhar essa transformação, as empresas precisam ajustar três pilares:

NUNCA TIVEMOS TANTAS GERAÇÕES CONVIVENDO AO MESMO TEMPO NOS AMBIENTES DE TRABALHO.

– Cultura: abandonar o etarismo disfarçado de “fit cultural” e valorizar o protagonismo em todas as fases da vida.

– Gestão de pessoas: rever programas de carreira, sucessão, desenvolvimento e até benefícios para abranger ciclos mais longos e rotas menos previsíveis.

– Ambiência: criar espaços (físicos e simbólicos) onde todas as idades se sintam pertencentes, com escuta, respeito e oportunidades reais. Ou seja, promover a integração geracional de forma ativa.

A revolução da longevidade já começou, e ela não diz respeito apenas aos 50+, mas a todos nós. Porque todos, cedo ou tarde, vamos envelhecer. E queremos continuar tendo valor, oportunidades e espaço.

Se as carreiras estão mais longas, os ambientes também precisam se tornar mais generosos.

Mais diversos.

Mais preparados para essa nova era.

O futuro do trabalho não será mais sobre juventude ou experiência, mas sobre convivência, troca e complementaridade entre gerações. E esse futuro já começou.


SOBRE O AUTOR

Mórris Litvak é fundador e CEO da Maturi, plataforma líder no Brasil para profissionais 50+. Engenheiro de Software pela FIAP, com pós-graduação em Gestão da Inovação Social pelo Amani Institute, é um empreendedor social dedicado a promover a diversidade etária nas empresas. Inspirado pela história de sua avó, passou a estudar longevidade, criando a Maturi para conectar profissionais experientes a empresas inovadoras. Mórris também leciona em cursos de pós-graduação em gerontologia nos Hospitais Albert Einstein e Sírio Libanês, e no curso de Diversidade da Escola de Negócios da Aberje.

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Qual é a fórmula para tornar as grandes cidades mais agradáveis, segundo urbanistas e arquitetos

Distanciamento entre as pessoas ocorre por tecnologia, violência e desigualdade de acesso, e pode piorar com a emergência climática, mas há solução

Por Ana Luiza Tieghi -Valor – 02/05/2025

Imagine ruas que pulsam com vida, onde os deslocamentos se tornam encontros, onde a natureza se transforma em um refúgio em meio ao concreto, e onde a distância social se encurta em favor de laços pessoais. Em meio ao ritmo alucinado das metrópoles, quando o crescimento costuma atropelar o planejamento, arquitetos e urbanistas criam propostas que poderiam enriquecer os espaços públicos. As soluções variam, mas um ponto comum emerge como essencial: a chave para cidades mais agradáveis e resilientes está na humanização e na reconexão entre as pessoas.

Pianista de formação, ex-diplomata e sócio de uma empresa de óleo e gás, o paulistano “nascido na avenida Paulista” Philip Yang tem entre seus muitos interesses o urbanismo e a melhoria das cidades. Com dinheiro levantado na venda de parte dos ativos da Petra Energia, ele fundou em 2011 o Instituto de Urbanismo e Estudos para a Metrópole (Urbem), que idealiza projetos principalmente em habitação social, com foco em trazer mais população para áreas que já contam com infraestrutura.

São Paulo está se tornando uma “rosca”, afirma ele. As bordas, que representam a região metropolitana, estão inchando, enquanto o centro se esvazia, e isso ocorre mesmo com o boom de construção nas áreas mais centrais da cidade dos últimos anos. Há mais prédios, mas não necessariamente mais população.

Dados do IBGE, levantados pela professora da FAU-USP Susana Pasternak e pelo professor da Unifesp Anderson Kazuo Nakano, mostram que 22,2% dos imóveis no anel central da cidade estão ociosos. A população na área caiu 0,36% de 2010 até 2022, enquanto o número de domicílios na cidade cresceu 2,9%.

Daqui a pouco não teremos mais universos em comum para compartilhar, isso é muito preocupante”

— Philip Yang

Reanimar a região central também seria uma forma de unir as diferentes classes sociais que compõem a cidade. “Há um distanciamento na formação de gostos e de objetos culturais que está fazendo com que, cada vez mais, as pessoas não se reconheçam”, afirma Yang. “Daqui a pouco não teremos mais universos em comum para compartilhar, isso é muito preocupante”.

O centro é a origem da metrópole, o passado que se torna um ponto comum entre todos os moradores. É também um jeito de reduzir os longos deslocamentos entre casa e trabalho.

Os problemas da maior metrópole do país são extensos, mas não são exclusivos da capital paulista. A experiência pessoal da professora Yara Baiardi, uma paulista de Tatuí, ecoa um sentimento comum em várias cidades: a imprevisibilidade do transporte público pode ser um fator limitante da liberdade e da qualidade de vida. Sua vivência em São Paulo, marcada pela espera infindável por ônibus, a levou a uma decisão pragmática, mas que contraria seu ideal de mobilidade.

Docente do Departamento de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Baiardi cresceu fazendo tudo a pé no interior paulista. Depois, morou por 20 anos em São Paulo, onde também “andava muito” e “pegava muito ônibus”. Até que, certa vez, ficou mais de uma hora no ponto, às 22h, aguardando o coletivo, que não chegava. “Para mim, deu, comprei um carro”, lembra.

Em Recife, onde mora desde 2020, a realidade não é diferente. A falta de infraestrutura cicloviária segura e um sistema de transporte público que não atende às necessidades dos estudantes revelam a urgência de uma transformação radical. A pandemia, paradoxalmente, parece ter reforçado o individualismo no transporte, uma oportunidade perdida de investir em alternativas coletivas e sustentáveis.

Na capital pernambucana, também precisa usar o carro – contra a sua vontade. A universidade fica à beira da BR-101 e foi projetada para deslocamentos em automóvel. Baiardi gostaria de poder ir de bicicleta, o que “já mataria a academia”, mas sente que não há segurança para isso.

Seus alunos, futuros urbanistas, recorrem ao carro particular, a caronas ou ao serviço de moto-táxi de aplicativos, mais rápido e mais barato do que outras formas de transporte. “Eles dizem que não pegam ônibus com o laptop na bolsa, e estão se colocando em risco no Uber Moto”, afirma. Muitos têm sua primeira experiência no metrô de Recife – um trem de superfície – na aula de Baiardi.

As cidades morrem quando você tira o sujeito do espaço público, vimos isso quase acontecer na pandemia”

— Miguel Pinto Guimarães

A situação da mobilidade está tão crítica no país que apenas uma “ruptura” daria espaço para a transformação, diz ela. Se a pandemia foi um momento de quebra, esta serviu para privilegiar ainda mais o transporte individual. “Falavam para não pegar transporte público, mas por que não discutimos colocar mais ônibus? Ou, como aconteceu na Europa e em Bogotá, fazer mais ciclovias”, questiona a professora. “Todos os municípios perderam a oportunidade de implementar ciclovias.”

Em seu doutorado, ela pesquisou como a falta de um plano unificado de mobilidade, que envolvesse as três instâncias de poder (federal, estadual e municipal), prejudica o desenvolvimento do sistema de transporte público.

“Não conseguimos fazer um planejamento de mobilidade, porque é cada um pensando em uma caixinha”, diz. Ela defende a criação do Sistema Unificado de Mobilidade (SUM), que poderia funcionar de forma análoga ao SUS, com uma atribuição clara dos deveres de cada poder, e também da adoção de outros modais de transporte, como o VLT (veículo leve sobre trilhos).

Hoje, a maior “novidade” em mobilidade parece ser o carro elétrico. Baiardi lembra, no entanto, que por mais sustentável que seja a matriz energética desses veículos, o lugar que eles ocupam nas cidades é o mesmo do carro a gasolina, assim como os carros de aplicativo. “Isso não resolve o problema do uso do espaço”, ressalta.

O arquiteto carioca Miguel Pinto Guimarães, por sua vez, acalenta o sonho de uma cidade onde a vida transcenda o binômio casa-trabalho. Ele visualiza moradores que se apropriam do espaço público, que encontram prazer nos trajetos, nas interações cotidianas, nos pequenos comércios de rua.

A revitalização do Jardim de Alah, ligação entre Ipanema e Leblon, no Rio de Janeiro, projetada por seu escritório Opy, é um exemplo dessa visão. Por meio de um modelo de concessão à iniciativa privada, inspirado em casos internacionais de sucesso como o Highline em Nova York e a Praça Lisboa no Porto, busca-se transformar um espaço degradado em um ponto de encontro vibrante, com comércio, lazer e áreas verdes. “O morador não pode sair do metrô e subir para o seu apartamento. Tem que ficar no espaço público por mais tempo, ir ao mercado, comprar pão, encontrar um amigo no bar no caminho, chamar a esposa, voltar para casa à meia-noite”, diz.

Sua empresa, que também tem como sócios os arquitetos Sérgio Conde Caldas e João Souza Machado, idealiza e constrói casas e trabalha com urbanismo, como o projeto de remodelação do Jardim de Alah. “O poder público tem uma função muito importante de regrar e fiscalizar, mas o eixo catalisador [das mudanças] tem que ser a iniciativa privada”, afirma.

Machado cita a Praça Lisboa, no Porto, como um espaço “degradado” que floresceu com a intervenção da arquitetura e da iniciativa privada. “Hoje tem uma das livrarias mais bonitas de Portugal, a Lello, voltou a ser um espaço de convívio, com jardim em cima, comércio embaixo e estacionamento abaixo [de tudo]”, diz.

No caso do Jardim de Alah, há ainda um valor nostálgico, já que os três sócios moraram no Leblon e frequentam a área desde crianças – o que não significa que as lembranças são boas. “Eu ia ao [clube] Monte Líbano jogar vôlei quando era garoto, era uma aventura, tinha que ir em bando, porque era um lugar onde as pessoas eram assaltadas”, lembra Caldas. “E assim segue”.

Para ter mais segurança nas cidades, é preciso ter ruas mais “vivas”, e projetos urbanísticos podem colaborar para isso. “As cidades morrem quando você tira o sujeito do espaço público, vimos isso quase acontecer na pandemia, inclusive no Rio”, afirma Guimarães.

O trio de arquitetos da Opy afirma que o projeto trará mais verde e equipamentos públicos, desmitificando a ideia de privatização do espaço. Para eles, a iniciativa privada, com a devida regulação e fiscalização do poder público, pode ser a força motriz para a requalificação urbana. Ruas vivas, com movimento constante, são também sinônimo de mais segurança para todos.

Em Belém, os arquitetos Luis Guedes e Pablo do Vale, do escritório Guá, buscam inspiração nas soluções engenhosas das comunidades ribeirinhas da Amazônia. Suas casas, construídas com materiais locais e adaptadas ao ritmo das águas e ao clima equatorial, oferecem lições valiosas de sustentabilidade e conforto.

A parceria do escritório com os “carpinteiros-arquitetos” da Ilha do Combú, nos arredores de Belém, resultou na coleção de móveis Pallas, um reconhecimento da expertise local e um impulso para a economia da comunidade. A pesquisa com argilas da Amazônia e outros materiais regionais reforça o valor da ancestralidade e a urgência de adaptar a arquitetura urbana a esses conhecimentos.

A influência europeia na arquitetura de Belém, herança do ciclo da borracha, por vezes ofuscou a riqueza das soluções vernaculares. No entanto, um movimento de valorização da identidade nortista ganha força, impulsionado também pela proximidade da COP 30. A dupla questiona a adoção de soluções inadequadas ao clima local, como telhados de cerâmica ou amianto, em detrimento do conforto térmico proporcionado pelo tradicional telhado de palha. A arquitetura ribeirinha, com seus beirais generosos e casas elevadas, oferece um manual de adaptação bioclimática que merece ser revisitado.

O paisagista Benedito Abbud defende a importância do planejamento e da manutenção do espaço público, citando Curitiba e Maringá como exemplos de excelência. Ele também aposta no desenvolvimento de espaços de uso público dentro de empreendimentos privados, como no Brascan Century Plaza e no futuro Cidade Matarazzo, que seriam fontes de “gentilezas urbanas”, promovendo a convivência e o bem-estar.

Para Abbud, o contato com a natureza nas cidades proporciona uma “sustentabilidade pessoal”, um momento de pausa e reconexão consigo mesmo. A arborização urbana, além de embelezar, contribui para o conforto térmico e a qualidade do ar. Ele sugere a criação de maquetes urbanas interativas para que a população possa compreender e participar do planejamento da cidade do futuro.

O incentivo às fachadas ativas é apontado pelo arquiteto Arthur Casas como uma medida inteligente para revitalizar áreas próximas a corredores de transporte público, aumentando a circulação de pessoas e a sensação de segurança. Essa política resgata o espírito do urbanismo modernista, presente em ícones como o Copan e o Conjunto Nacional, que integravam comércio, trabalho e moradia.

Casas ressalta a importância de uma curadoria cuidadosa dos estabelecimentos que ocupam essas fachadas ativas, para que agreguem valor aos empreendimentos e ao entorno. Ele enxerga nessas fachadas uma oportunidade de valorização imobiliária e de fortalecimento do comércio de rua. Se mal empregadas, no entanto, podem ter o efeito inverso.

A busca por cidades mais agradáveis passa também pela resiliência climática e pela adaptação das moradias ao seu entorno. Para o Guá, a arquitetura amazônica tradicional oferece soluções bioclimáticas eficazes e sustentáveis.

Arthur Casas lamenta o abandono de conhecimentos básicos de conforto térmico em favor do ar-condicionado, uma solução que, apesar de difundida, contribui para o consumo excessivo de energia e a emissão de poluentes. Seu escritório resgata tecnologias modernistas como os brises. Ele defende, ainda, as construções pré-fabricadas, como aquelas que usam madeira engenheirada, como alternativas mais sustentáveis e eficientes.

A Opy também aposta na madeira engenheirada, um material com apelo estético e sustentável, e na integração de áreas de convivência nas residências, buscando resgatar os laços familiares em um mundo cada vez mais digital.

As próprias moradias estão em transformação, com a redução do tamanho dos imóveis e a integração de espaços. Casas aponta a necessidade de repensar a obrigatoriedade de um banheiro por quarto em apartamentos menores, priorizando a funcionalidade e o bem-estar.

O futuro das cidades passa também pela prevenção de desastres naturais. Philip Yang destaca o conceito de “cidades-esponja” adotado na China, com soluções baseadas na natureza para a gestão de águas pluviais. Abbud defende a modernização dos sistemas de drenagem urbana. Para Yang, um planejamento urbano mais inteligente é uma ferramenta poderosa para reduzir a desigualdade social, por meio da oferta de bens coletivos de qualidade.

Em um futuro onde a sofisticação se traduz em bem-estar, em conexões humanas genuínas e em respeito ao meio ambiente, o novo olhar sobre o urbanismo nos convida a reimaginar nossas cidades como espaços de vida plenos e inspiradores.

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Revolução da Internet via satélite não está chegando sozinha: vem com uma boa cota de lixo que pode virar um problemão no futuro

História de Viny Mathias – msn –  24/05/2025

É um pássaro, é um avião… não. Hoje em dia, é bem provável que o que você vê no céu e não consegue identificar seja um satélite. Ou pior: poeira de um satélite vaporizado que parece uma estrela cadente. E nós os veremos cada vez mais porque estamos enchendo o céu com satélites. Sem ir mais longe, a SpaceX de Elon Musk sozinha tem mais de 7.000 satélites em órbita para a Starlink operar e um plano para atingir 42.000 unidades no céu.

A SpaceX pode ser a frota de satélites mais famosa, mas está longe de ser a única: a Kuiper, da Amazon, já começou a lançar seus próprios satélites e planeja competir de igual para igual com o serviço de Elon Musk. Só no ano passado, 2.800 satélites foram implantados, um aumento notável em relação aos 500 de 2019, como destaca o astrofísico Jonathan McDowell à Bloomberg. E a tendência continua a aumentar: até 2030, o número de satélites deverá aumentar de 60.000 para 100.000.

A atmosfera funciona como um incinerador de resíduos

Revolução da Internet via satélite não está chegando sozinha: vem com uma boa cota de lixo que pode virar um problemão no futuro

Revolução da Internet via satélite não está chegando sozinha: vem com uma boa cota de lixo que pode virar um problemão no futuro

Atmosfera da Terra não suportará tanto satélite (Imagem: Starlink)

O problema desse número tão alto é que os satélites não duram para sempre: eles têm uma vida útil (menor do que parece). Na verdade, a vida útil de um Starlink é de apenas cinco anos. E o que acontece com um satélite quando ele não é mais útil? Ele vira pó, literalmente. Mas não qualquer poeira, e sim uma poeira poluente. “Houston, temos um problema”.

Quando um satélite não é mais útil, a atmosfera atua como um incinerador de resíduos, vaporizando-os. O descarte de máquinas que atendem ou produzem um produto ou serviço é comum em qualquer atividade industrial, resultando na geração de resíduos, cada um exigindo seu próprio gerenciamento. Existe legislação em vigor em geral, mas no espaço nos deparamos com um “buraco negro” regulatório: as leis regulam apenas a poluição causada por atividades humanas próximas à superfície da Terra.

Partículas de satélite estão acabando na atmosfera e, embora sua presença ainda não seja um problema hoje, a tendência da indústria tem sido observada com preocupação pela comunidade científica. Assim como o dióxido de carbono e outros compostos destroem a camada de ozônio quando sobem, os poluentes que aparecem quando vaporizam caem. Todos eles atingem a atmosfera e a poluem.

Os primeiros passos foram amplamente discutidos e vários acordos foram alcançados, mas o estudo da poluição estratosférica é algo novo. Eles começaram há cerca de cinco anos e já mostraram que saturar a atmosfera com fuligem de combustível de foguete e partículas de satélite pode reverter todo o progresso feito na reparação da camada de ozônio.

Detritos que permanecem na atmosfera

Simplificando, os satélites “aposentados” vaporizam ao passar pela atmosfera, decompondo-se em diferentes elementos, principalmente alumínio, com um pouco de cobre e lítio. Entretanto, eles não poluem apenas quando descem, mas também quando sobem até a estratosfera terrestre para entrarem em órbita. O querosene usado nos lançamentos queima de forma menos eficiente à medida que sobe, gerando poluição por fuligem e carbono negro. Na Terra, sabe-se que essa substância se deposita nas calotas polares e nas geleiras, absorvendo calor e acelerando seu derretimento.

Essa corrida dos satélites está fazendo com que a fuligem suba ainda mais, com 80% permanecendo agora 15 quilômetros abaixo da superfície, o que, de acordo com um estudo de 2022, significa que ela esquenta 500 vezes mais do que se estivesse no nível do solo. Novos elementos químicos como cobre, chumbo e lítio estão aparecendo na alta atmosfera, originários da vaporização de satélites e superando os níveis esperados da poeira cósmica, como mostra um estudo de 2023. Mas se há um elemento preocupante, é o aumento do alumínio, essencial na fabricação de foguetes e satélites.

Embora não se saiba qual a porcentagem de presença deles devido a segredos industriais, a estimativa gira em torno de 35 a 45%. Combinado com oxigênio, forma óxido de alumínio ou alumina, capaz de destruir a camada de ozônio por meio de reações químicas. Somente em 2022, foram produzidas 17 toneladas de alumina, 30% dos níveis naturais gerados pelas megaconstelações. É claro que seu tamanho afeta diretamente a velocidade com que caem e, portanto, seu impacto ambiental.

Por fim, não podemos esquecer o calor gerado pela destruição de satélites, um efeito colateral que também modifica a atmosfera, ameaçando a camada de ozônio. Assim, as temperaturas chegam a 1.925°C, o suficiente para quebrar as moléculas de nitrogênio, cuja presença na atmosfera gira em torno de 80%. Os átomos podem se combinar com o oxigênio para formar óxidos de nitrogênio, também uma substância que pode destruir moléculas de ozônio.

Em plena fase de crescimento e expansão dos satélites, esta indústria está em ascensão e, embora as próprias empresas tenham consciência de que cada vez mais estudos científicos estão sendo realizados sobre o assunto, hoje estamos longe de termos uma legislação ambiental espacial sobre o assunto. De fato, a legislação americana favorece o atual processo de queima na atmosfera. Mas há outras alternativas no horizonte, como criar um cemitério ou órbita de design (buscando outros materiais ou reduzindo o tamanho) ou até mesmo estender sua vida útil.

Revolução da Internet via satélite não está chegando sozinha: vem com uma boa cota de lixo que pode virar um problemão no futuro

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O Walmart já está se preparando para o cliente do futuro: o agente de compras com IA

Em entrevista ao Wall Street Journal, o diretor de tecnologia da gigante do varejo diz que, em vez de focar em anúncios que atraem humanos, o desafio será conquistar os algoritmos desses agentes virtuais.

Carolina Ingizza –  Exame – 18 de maio de 2025 

O varejo precisa se preparar para um novo tipo de cliente: invisível, automatizado e exigente. O Walmart já começou a agir para conquistar esse freguês do futuro — um agente de inteligência artificial(IA) que faz compras em nome do consumidor.

A IA já começa a redesenhar a jornada de compra. Há quem deixe o Google de lado para buscar diretamente no ChatGPT. Para alguns especialistas, ferramentas como essa podem substituir os buscadores tradicionais em até quatro anos — abrindo novas rotas de acesso ao cliente final.

Programados para agir por conta própria, esses algoritmos já transformaram a forma como buscamos produtos. Agora, caminham para um salto ainda mais disruptivo: fazer compras completas — do carrinho ao pagamento — sem nenhuma intervenção humana.

O Walmart tenta se antecipar a essa tendência. Hari Vasudev, diretor de tecnologia da empresa nos Estados Unidos, disse em entrevista ao Wall Street Journal (WSJ) que a “publicidade terá que evoluir”. Em vez de focar em anúncios que atraem humanos, o desafio será conquistar os algoritmos desses agentes virtuais.

“Será necessário repensar como anunciamos, descrevemos e até precificamos os produtos”, disse Robert Hetu, vice-presidente da consultoria Gartner, ao WSJ. 

Além disso, as varejistas correm o risco de perder o controle da relação direta com o cliente, caso o processo de compra migre totalmente para plataformas terceirizadas por IA, como o Operator, da OpenAI (dona do ChatGPT).

Walmart aposta em IA

A gigante americana está desenvolvendo seus próprios agentes de compra, disponíveis no aplicativo e no site da empresa. Além de executar tarefas simples, como reabastecer a cesta de supermercado semanal, esses bots também conseguem ajudar com pedidos mais criativos, como “quero planejar uma festa com tema unicórnio para minha filha”, explicou o diretor de tecnologia do Walmart ao WSJ.

Segundo Vasudev, para que esses agentes atuem com eficiência total, será preciso criar protocolos que viabilizem a comunicação entre os bots próprios dos varejistas e os dos agentes terceirizados.

Enquanto isso não acontece, os algoritmos de outras empresas podem simplesmente navegar pelos sites das lojas sem interação direta, como um consumidor que decide passear sozinho pela loja.

Nesse modelo, os lojistas podem ficar reféns dos algoritmos, que tendem a priorizar o menor preço ou páginas com melhor ranqueamento nas buscas, inclusive anúncios pagos.

“O jeito que o bot compra é diferente do jeito que o humano compra”, reforça Hetu. Imagens chamativas e apelos emocionais, típicos do marketing tradicional, podem perder força nesse cenário em que os bots priorizam dados objetivos e respondem a estímulos muito diferentes.

“Isso vai levar tempo para se transformar”, pondera Hetu, lembrando que mais de 80% das compras nos Estados Unidos ainda acontecem em lojas físicas.

O movimento do Walmart mostra que se adaptar ao futuro digital exige mais do que tecnologia. É preciso repensar a estratégia de venda como um todo. Afinal, os clientes do futuro serão uma combinação de humanos e bots, e entender essa dinâmica será vital para continuar relevante no varejo.

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Voracidade elétrica

Expansão de data centers para atender ao avanço da IA é uma grande oportunidade de curto prazo para o Brasil

Por Geoberto Espírito Santo – Valor – 19/05/2025

Os analistas de energia sempre pensaram que o aumento da demanda global de energia seria impulsionado pela industrialização e pelo crescimento populacional, mas não é o que tem sido observado nos últimos dois anos. Esse impulso já dá sinais de que as empresas de tecnologia serão esse carro-chefe, haja vistas o lançamento de complexas tecnologias, como inteligência artificial (IA) e aprendizado de máquina. Essa tendência foi confirmada em uma pesquisa realizada pela consultoria McKinsey, que detectou 72% das companhias pesquisadas usando IA em pelo menos uma de suas funções comerciais.

Alimentar essas tecnologias complexas com energia não é simples. Uma solicitação feita por IA utiliza muito mais energia elétrica do que uma pesquisa típica pela internet. A Electric Power Research Institute, empresa de pesquisa para fins específicos, diz que uma solicitação feita através do ChatGPT usa 2,9 watts-hora, quando pela internet uma consulta tradicional gasta 0,3 watts-hora. Assim, se a IA passar a ser integrada a todos os aspectos de nossas vidas online, deveremos ter na próxima década um enorme crescimento da demanda de energia.

Os investidores globais em data centers estão ampliando a sua capacidade de processamento e armazenamento de dados para suportar o avanço da inteligência artificial no mundo. A IA e a inteligência artificial generativa (GenIA) vão aumentar em 160% o consumo de energia elétrica dos data centers até 2027, mas o que se avalia é que 40% deles estarão limitados pela disponibilidade de energia. As centrais convencionais atuais têm densidade de potência de 4 a 10 kW/rack e as futuras vão exigir 30 a 100 kW/rack. Nesse período, a projeção para eles operarem os seus servidores otimizados para IA vão demandar 500 TWh em 2027, o que significa 2,6 vezes mais do que o nível de 2023.

Existem dois tipos de instalação de data centers: inferência e treinamento. Os data centers de inferência são aqueles que possuem os algoritmos da IA para atendimento das interações dos usuários nos chats. Os de treinamento são aqueles responsáveis pelo recebimento e tratamento de todas as informações dos data centers de inferência, para aperfeiçoar os algoritmos e devolvê-los para que sejam tomadas as providências de modificações. Além de serem os data centers que demandam maior quantidade de energia, os de treinamento possuem outra característica fundamental: não requerem latência crítica, podendo assim serem instalados em qualquer lugar do mundo, distantes dos usuários.

Até 2030, a demanda de energia por data centers nos EUA deve atingir 606 terawatts-hora (TWh), o equivalente a 11,7% da demanda total de energia naquele país. Essa demanda por energia em 2023 foi de 147 TWh e fez com que as grandes empresas de tecnologia passassem a fazer parcerias com as empresas de energia para desenvolver suas próprias fontes de alimentação dedicadas, deixando de lado as redes das concessionárias.

A rigor, os data centers não podem ficar nem um segundo sem energia. Outro desdobramento dessa postura é que tanto os governos como os consumidores pedem diariamente que as empresas sejam socialmente mais responsáveis, o que pode impulsionar essas grandes da tecnologia a investir na capacidade de energia limpa para alimentar suas operações. Nos anos de 2023 e 2024 o setor de tecnologia foi responsável por mais de 68% dos 200 negócios de capacidade renovável.

Nos EUA, há uma demora de 5 a 8 anos para haver a conexão na rede da concessionária e as agências reguladoras estão sugerindo que as empresas gerem a sua própria e energia. A Microsoft tenta viabilizar a sua geração com gás natural e captura de carbono. A Google e a Amazon optaram pela energia nuclear modular. A startup chinesa HiCloud já inaugurou um data center subaquático, para gastar menos energia com refrigeração. Outras empresas de tecnologia estão estudando apoiar sua expansão em energia renovável, fazendo testes e dimensionando tecnologias de energias promissoras, geotérmica avançada, tecnologias eólicas e solares avançadas e energia hidrelétrica. O que ainda não está claro é se essas grandes empresas de tecnologia vão impulsionar seus crescimentos em combustíveis fósseis, energias renováveis ou energia nuclear.

A energia consumida por um data center moderno pode fazer o suprimento de uma cidade com 80 mil consumidores. Na Europa, existe uma restrição para novas conexões de data centers, com a maioria dos países priorizando o consumo de energia pela população. Em Portugal, a solicitação é para 1,2 GW. Na Holanda o governo não permite instalações de data centers. Essa é uma grande oportunidade de curto prazo para o Brasil, pois temos uma potência instalada de 244 GW para uma demanda média de 85 GW e máxima registrada de 102 GW no primeiro trimestre deste ano. A maioria dessa disponibilidade é de fonte renovável e energia de baixo custo, condições fundamentais que são observadas pelos investidores.

Atualmente, temos mais de 130 data centers em operação no Brasil e, segundo dados da Associação Brasileira de Data Centers (ABDC), temos uma base instalada de 800 MW e um planejamento para instalação de 1.659 MW, sendo que 186 MW já estão em construção. No Ministério de Minas e Energia (MME), existem pedidos de conexão à rede básica de 9 GW para cargas de data centers e os pedidos de conexão são nos Estados de Bahia, Ceará, Rio Grande do Sul e São Paulo.

O eixo do poder está se deslocando dos produtores de petróleo e gás para países detentores de recursos e tecnologia das cadeias de valor de energias de baixo carbono.

O Brasil tem a maior disponibilidade hídrica do mundo, é o segundo maior produtor de energia hidrelétrica, segundo maior produtor de biocombustíveis, maior produtor de etanol de cana-de-açúcar, terceiro maior produtor de biodiesel, oitavo maior produtor de petróleo e reconhecido líder produtor e exportador de commodities minerais, domina o ciclo completo do enriquecimento do urânio, razão pela qual é posicionado como uma das principais potências energéticas do mundo.

O PNE 2055 leva muito em consideração as mudanças geopolíticas como reflexo da aceleração da transição energética e o que se impõe no planejamento energético nacional é a necessidade de resiliência e segurança energética.

Geoberto Espírito Santo é engenheiro e personal energy GES Consultoria, Engenharia e Serviços.

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Cultura de inovação: é hora de tirar as empresas do ‘modo avião’

Mudar o DNA organizacional exige estrutura, governança e incentivos claros

MIT Sloan Management Review Brasil + Cubo Itaú – 17 de março de 2025

Imagine que empresas sejam como smartphones de última geração: cheias de potencial, mas muitas operam no “modo avião”. Funcionam, mas estão desconectadas do mundo, incapazes de explorar plenamente suas capacidades.

Essa é a realidade de muitas organizações quando se trata de inovação. O hype é grande, mas a execução muitas vezes falha.

Criar uma cultura de inovação vai além de adotar novas tecnologias. Envolve mudar a mentalidade, simplificar processos e conectar talentos ao impacto.

Requer também alcançar um equilíbrio entre resultados mais imediatos e o desbravamento de caminhos que só serão mais rentáveis a médio e longo prazos. É o que chamamos de ambidestria organizacional.

Na pista do mercado, enquanto algumas empresas decolam, outras seguem taxiando, presas a uma cultura que inibe a experimentação e o aprendizado. Afinal, o que impede tantas companhias de realmente voar?

Os maiores vilões da cultura de inovação

Se inovar fosse fácil, todas as empresas seriam disruptivas. Mas os desafios são reais. Para cada obstáculo, existe um caminho para superá-lo.

1. A síndrome do ‘sempre fizemos assim’ → Cultura de aprendizado 

Empresas resistentes à mudança lembram motoristas que insistem em usar mapas de papel no mundo do GPS — você até chega ao destino, mas com muito mais esforço. Para reverter esse quadro, promover uma cultura de aprendizado contínuo, incentivar a experimentação e valorizar quem desafia o status quo são passos essenciais. Programas de capacitação, formação de comunidades de prática e mentorias internas também são ferramentas eficazes.

2. Cultura de culpabilização → Segurança psicológica 

O medo do erro paralisa a inovação. Empresas inovadoras tratam erros como aprendizado, não como fracasso. Isso não significa permitir negligência, mas sim criar um ambiente onde a dinâmica de testar e aprender seja valorizada. Estruturas que promovem feedback contínuo e revisões pós-implementação ajudam a consolidar essa cultura.

3. Desconexão estratégica → Inovação alinhada ao negócio 

Projetos inovadores isolados do core business estão fadados à extinção. Para evitar esse problema, é fundamental estruturar a inovação com governança clara e integrá-la à visão de longo prazo da organização. Programas de inovação bem-sucedidos são aqueles que não operam à margem, mas sim como parte da engrenagem principal do negócio. E se engana quem acredita que exista uma “receita de bolo” para isso. Cada organização está em um estágio de amadurecimento do processo de inovação, e todo esse desenvolvimento também requer engajamento das diferentes áreas da empresa.

4. Falta de tempo e recursos → Priorizando a inovação 

Dizer “não temos tempo para inovar” é como alegar falta de tempo para se exercitar. Empresas precisam definir áreas prioritárias, criar rituais de inovação e estabelecer KPIs para sair do discurso e entrar na prática. Reservar espaço para hackathons e programas de intraempreendedorismo e tempos de dedicação exclusiva são alternativas importantes para isso.

Transformando cultura em DNA organizacional

Cultura de inovação não se resume a frases inspiradoras ou salas coloridas com pufes. Exige estrutura, governança e incentivos claros. Como criar essa cultura de forma consistente?

1. Governança: o GPS da inovação 

Sem direção, a inovação se perde. Criar comitês, conselhos e programas internos garante accountability e direção estratégica. Isso não deve engessar a criatividade, mas sim equilibrar autonomia e controle, garantindo que ideias não fiquem apenas no papel.

2. Liderança com propósito 

Líderes precisam praticar o que pregam. Se querem equipes inovadoras, devem ser os primeiros a incentivar a experimentação, aceitar falhas e celebrar aprendizados. Exemplo e coerência são essenciais para que a cultura permeie a organização.

3. Ambidestria organizacional 

Empresas inovadoras equilibram eficiência operacional (exploit) com exploração de novas oportunidades (explore). Mas a pressão por resultados de curto prazo pode sufocar a inovação. Estruturas dedicadas e abordagens como times de P&D e parcerias externas ajudam a sustentar esse equilíbrio.

4. Incentivos alinhados à cultura 

Recompensar a inovação é essencial. Visibilidade, crescimento profissional e reconhecimento são incentivos poderosos para isso. Criar métricas que valorizem o aprendizado e programas de reconhecimento para ideias implementadas são maneiras eficazes de estimular a inovação de forma contínua.

Como medir uma cultura inovadora?

Se você não mede, você não gerencia — e isso vale para a cultura também. Medir cultura pode parecer subjetivo, mas existem formas práticas de avaliar seu impacto.

  • Engajamento dos colaboradores: eles têm espaço para contribuir com ideias?
  • Taxa de experimentação: quantos projetos-piloto foram testados e o que foi aprendido?
  • Impacto no cliente: as inovações geram valor real percebido pelos consumidores? Estão impactando NPS e taxa de recompra, por exemplo?
  • Velocidade de execução: quanto tempo leva para transformar uma ideia em solução?

Cultura não é só sobre inovação — é sobre pessoas

Medir é importante, mas cultura não se resume a números e indicadores. No centro de qualquer cultura inovadora estão as pessoas: seus comportamentos, suas interações e sua disposição para desafiar o status quo.

Um erro comum que todos cometemos é pensar que a responsabilidade pela cultura está apenas na área de inovação, nos altos executivos, ou na área de pessoas, as quais geralmente são incumbidas de apoiar o treinamento e desenvolvimento no tema. Trata-se de um grande equívoco. A cultura deve ser construída coletivamente — por líderes, colaboradores engajados e até parceiros externos.

É algo  que startups muitas vezes possuem no DNA desde o início: em suas equipes pequenas, todos têm voz ativa nas decisões estratégicas. Já grandes corporações precisam lutar contra silos organizacionais para criar um ambiente colaborativo onde ideias fluam livremente.

Resultados quando tudo dá certo

Quando uma cultura de inovação está bem implementada, os resultados são transformadores:

• colaboradores mais engajados;

• maior agilidade para responder às mudanças do mercado;

• criação constante de novos produtos ou serviços;

• reputação como líder inovador no setor.

Mas talvez o maior benefício seja intangível: um senso coletivo de propósito e resiliência que prepara a organização para qualquer desafio futuro.

Milhas para a inovação

Se as empresas fossem smartphones, quantas estariam conectadas ao 5G da inovação? Quantas ainda operam no modo avião, esperando o “momento certo” para inovar?

A verdadeira cultura de inovação não se mede apenas em KPIs — ela se manifesta na disposição de questionar, de experimentar e de criar impacto real. Empresas que saem do modo avião e cultivam um ecossistema com inovação contínua definem o padrão do futuro.

O que impede sua empresa de se conectar ao futuro? O que você, como gestor, líder, empreendedor está fazendo hoje para garantir que sua organização não seja uma mera espectadora da próxima revolução? A resposta a essas perguntas não está apenas nos planos estratégicos ou nos discursos inspiradores, mas nas ações concretas que você decide tomar a partir de agora.

Artigo escrito por Otavio Thomé, head de inovação, P&D e novas tecnologias na Copa Energia. 

Cultura de inovação: é hora de tirar as empresas do ‘modo avião’ – MIT Sloan Management Review Brasil

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Agente de IA vai libertar usuários para atividades de seu interesse, diz CEO do Google ao ‘Estadão’

Ao Estadão, Sundar Pichai explicou que nova etapa da tecnologia vai economizar tempo – e pode chegar em breve

Por Bruna Arimathea – Estadão – 22/05/2025

MOUNTAIN VIEW – A inteligência artificial (IA) generativa caminhou a passos largos desde que se tornou uma ferramenta popular. Agora, a próxima fase da evolução da tecnologia são os agentes de IA, que prometem automatizar muitas das atividades que ainda precisamos dar algum tipo de comando para os chatbots. Para Sundar Pichai, CEO do Google, os agentes serão mais do que facilitadores de tarefas do dia a dia: eles vão poder, também, ser “libertadores” e permitir que o usuário possa concentrar seu tempo em atividades que são de seu maior interesse.

“É uma área de fronteira empolgante. Para os consumidores, acho que isso vai melhorar a experiência do usuário, reduzir o atrito, economizar tempo e libertar as pessoas para fazer as coisas que mais lhes interessam”, afirmou Pichai ao Estadão, durante uma coletiva de imprensa no Google I/O, principal evento da empresa.

Agentes de IA são programas com capacidade de realizar tarefas de maneira autônoma, com pouca ou nenhuma supervisão humana. Eles têm capacidade de interpretar dados e tomar decisões, o que abre as portas para automações complexas, que antes não eram possíveis.

Nesta semana, o Google anunciou que o Gemini, por exemplo, vai ganhar uma ferramenta chamada Agent Mode, que permite que a IA possa percorrer vários apps para encontrar um resultado para o comando do usuário. O recurso vai estar dentro do app da IA.

Outro segmento explorado pela empresa, chamado Projeto Mariner, visa apenas o desenvolvimento de agentes de IA. Um exemplo é o uso de um agente na busca para procurar produtos específicos na área de compras da plataforma. Será possível monitorar preços, salvar produtos e receber notificações quando um item tiver redução no preço, por exemplo. A partir disso, o chamado Agentic Checkout gera um carrinho de compras direto no Google Pay, sem que o usuário precise acessar o site específico da loja em que deseja comprar o produto.

“Tem pessoas que gostam do processo de compra. Algumas delas gostam de navegar e gastar tempo (comprando). Há pessoas, como eu, que só querem comprar e pronto. Isso permitirá que as pessoas passem o tempo que quiserem da forma que quiserem”, explicou Pichai.

Pichai citou, ainda, que protocolos de integração de serviços, como o A2A, que fornece uma maneira padronizada para que os agentes colaborem, independentemente do fornecedor, e o MCP, que padroniza como as aplicações fornecem contexto para LLMs, estão evoluindo de forma cada vez mais rápida.

Para aplicativos do Workspace, como Gmail, Google Meet, Docs e Drive, a ideia do Google é trazer elementos de agentes de IA para acessar os serviços e personalizar atividades. Uma das coisas apresentadas é a possibilidade de respostas personalizadas no e-mail, por exemplo.

“Esses agentes estão se tornando mais disponíveis, assim como estamos tornando-os mais disponíveis em diferentes frentes. Como você disse, é fundamental que pensemos em sistemas agênticos, sistemas que podem realizar tarefas que podem ser úteis para você, e a melhor maneira de ajudar você é, obviamente, responder às suas perguntas, mas também realizar as tarefas para as quais você realmente gostaria de ajuda. Então estamos chegando a esse estágio”, afirmou Koray Kavukcuoglu, CTO do Google DeepMind, ao Estadão.

Tudo isso pode abrir caminhos para uma automação de tarefas cada vez maior e, no futuro, levar a tecnologia à inteligência artificial geral (AGI, na sigla em inglês). Nesse estágio, a ideia é que modelos de IA sejam tão inteligentes que possam entender por si mesmos a necessidade de uma tarefa a ser feita e, integrados a dispositivos, apps e serviços, possam resolver sozinhos como essa tarefa será feita. É uma ideia que Kavukcuoglu já visualiza.

“Muito disso também passa pela compreensão do ambiente local e do ambiente virtual, bem como do desktop. As ferramentas que você usa em sua vida, mas também em sua vida virtual. Portanto, a jornada a partir daqui tem mais a ver com a capacidade de entender melhor esse contexto e de usar melhor essas ferramentas”, explicou o chefe de tecnologia do DeepMind. “É claro que o caminho para a AGI está se tornando cada vez mais possível, pois estamos confiando muito em nossas ferramentas para desenvolver e expandir nossa inteligência. A mesma coisa com os agentes, que podem usar essas ferramentas que criamos para nós mesmos”.

Agente de IA vai libertar usuários para atividades de seu interesse, diz CEO do Google ao ‘Estadão’ – Estadão

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China aposta em robôs humanoides com IA para reinventar a indústria

Com apoio estatal bilionário, startups desenvolvem máquinas capazes de assumir tarefas repetitivas e perigo

Brenda Goh, Eduardo Baptista, Qiaoyi Li – Folha/Reuters – 16.mai.2025 

Em um amplo armazém nos subúrbios de Xangai, dezenas de robôs humanoides são manobrados por seus operadores para realizar tarefas como dobrar uma camiseta, fazer um sanduíche e abrir portas, repetidamente.

Operando 17 horas por dia, o objetivo do local é gerar grandes volumes de dados que seu proprietário, a startup chinesa de humanoides AgiBot, usa para treinar robôs que espera que se tornem onipresentes e mudem como os humanos vivem, trabalham e se divertem.

“Imagine que um dia, em nossa própria fábrica de robôs, nossos robôs estejam se montando sozinhos”, disse Yao Maoqing, sócio da AgiBot.

A importância dos robôs humanoides para Pequim, que busca soluções para questões urgentes, incluindo atritos comerciais com os EUA, declínio populacional e crescimento lento, foi destacada quando o líder chinês Xi Jinping inspecionou os robôs da AgiBot em Xangai no mês passado. Xi comentou brincando durante a visita que talvez as máquinas pudessem jogar em um time de futebol.

Outro desenvolvedor nacional de robôs humanoides, a Unitree, também esteve presente em uma reunião que Xi organizou para empresas privadas no início deste ano, onde ele as incentivou a ajudar a economia da China.

Enquanto os EUA negociam com a China sobre tarifas que o presidente Donald Trump havia imposto para trazer de volta empregos de manufatura aos EUA, Pequim visa uma nova revolução industrial onde muitas tarefas de fábrica seriam realizadas por robôs humanoides.

Nos últimos anos, os robôs humanoides chineses têm demonstrado feitos crescentes de agilidade, incluindo realizar cambalhotas, correr uma meia-maratona e até jogar futebol, como Xi refletiu.

A Reuters conversou com mais de uma dúzia de pessoas, incluindo fabricantes chineses de humanoides, investidores, clientes e analistas, que descreveram como avanços no desenvolvimento de “cérebros” robóticos permitirão que essas máquinas metálicas passem de meros espetáculos para trabalhadores produtivos e autodidatas que poderiam revolucionar a principal potência manufatureira do mundo.

A China visa construir sua vantagem concentrando-se no treinamento de dados e na sofisticação de seus modelos de IA, disseram as pessoas, com alguns afirmando que a perícia da DeepSeek era uma grande ajuda.

Uma implantação bem-sucedida e generalizada desses robôs em pisos de fábricas permitiria à China continuar impulsionando o crescimento econômico e manter sua superioridade manufatureira, tornando o campo uma área de competição com os EUA.

Menos claro é como Pequim administraria o espectro de demissões de trabalhadores de fábricas. A mídia estatal sugeriu que, como em revoluções industriais anteriores, a criação de empregos a longo prazo superaria a dor de curto prazo.

APOIO GOVERNAMENTAL

As autoridades chinesas estão concedendo subsídios generosos para empresas de humanoides. Mais de US$ 20 bilhões foram alocados para o setor no último ano, e Pequim está estabelecendo um fundo de um trilhão de yuans (US$ 137 bilhões) para apoiar startups em áreas como IA e robótica, mostram anúncios oficiais.

O governo também é um comprador-chave, de acordo com uma análise da Reuters de centenas de documentos de licitação. As compras estatais de robôs humanoides e tecnologias relacionadas saltaram para 214 milhões de yuans em 2024, de 4,7 milhões de yuans em 2023.

Alguns analistas preveem que os humanoides poderiam seguir a trajetória dos veículos elétricos, cujos custos caíram drasticamente na última década à medida que os fabricantes entraram no mercado e os subsídios governamentais estimularam a adoção generalizada entre o público chinês.

Três fabricantes chineses de humanoides disseram à Reuters que previam uma redução semelhante de custos pela metade, talvez num ano. Em comparação, o custo dos componentes para os robôs Optimus da Tesla, se todas as suas principais peças forem provenientes de fora da China, é atualmente de US$ 50.000 a US$ 60.000.

“Com sua cadeia de suprimentos abrangente, a China tem uma vantagem em reduzir significativamente o custo de produção de robôs humanoides”, disse Ming Hsun Lee, do Bank of America Securities, estimando que as vendas anuais globais de robôs humanoides poderiam atingir 1 milhão de unidades em 2030. “Esta indústria ainda está em seu estágio inicial de crescimento.”

IA E DADOS

O governo chinês também está investindo pesadamente na coleta de dados, que vários executivos disseram ser o principal ponto de dor do setor, mas também uma área onde a China tinha uma vantagem.

No ano passado, as autoridades de Xangai ajudaram a estabelecer o site de coleta de dados da AgiBot, fornecendo instalações sem aluguel onde cerca de cem robôs operados por 200 humanos trabalham diariamente.

A instalação da AgiBot permite coletar dados de alta qualidade e direcionados, que podem ser usados para treinar seu modelo de IA incorporada, disse Yao.

A MagicLab, outra startup de humanoides, disse em uma entrevista que seu foco nos cérebros dos robôs permitiu que recentemente começasse a implantar protótipos em linhas de produção para tarefas como inspeção de qualidade, manuseio de materiais e montagem.

A vantagem mais clara da China, no entanto, é sua dominação do hardware que compõe um humanoide. O país é capaz de fabricar até 90% dos componentes humanoides, reduzindo as barreiras de entrada.

Como resultado, a China agora responde pela maioria dos fabricantes trabalhando em tais projetos globalmente e domina a cadeia de suprimentos, de acordo com o Morgan Stanley.

O setor viu uma explosão de novas empresas. Em 2024, 31 empresas chinesas apresentaram 36 modelos humanoides concorrentes contra oito por empresas dos EUA.

Pelo menos seis empresas na China, incluindo líderes de mercado como Unitree e UBTech, disseram que entraram em produção em massa ou estão se preparando para fazê-lo este ano.

EMPREGOS EM RISCO?

Embora o setor ainda esteja incipiente, legisladores chineses começaram a discutir as implicações de longo alcance que os robôs humanoides inteligentes poderiam ter para a força de trabalho.

Cerca de 123 milhões de pessoas trabalham na manufatura na China. No Congresso Nacional do Povo deste ano, o especialista em seguridade social Zheng Gongcheng alertou que o desenvolvimento de robôs e IA afetaria cerca de 70% do setor manufatureiro, podendo levar a um declínio nas contribuições para a seguridade social.

Apesar das preocupações sobre o impacto nos empregos, Pequim vê a tecnologia como fundamental para preencher a escassez de mão de obra em áreas como cuidados com idosos. O governo publicou um plano nacional em dezembro incentivando a integração de robôs humanoides no setor.

“Os robôs em cinco ou 10 anos poderiam organizar o quarto de um residente, pegar um pacote ou até transferir pessoas de uma cama para um banheiro”, disse Yao, da AgiBot.

China aposta em robôs humanoides com IA para indústria – 16/05/2025 – Mercado – Folha

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Future Digital Health International Congress: acomodem-se em seus lugares, o Show vai começar

FDHIC 2025 – IAs invadem a Saúde.

Guilherme Hummel – Coordenador Científico da Hospitalar Hub – 12 de maio, 2025

“Até 2030, médicos serão os escribas-copistas da primeira metade do século XV ou os tipógrafos gutenberguianos da segunda metade; tudo dependerá da incorporação de IA à sua prática clínica. No mesmo ano, hospitais, laboratórios, clínicas, seguradoras, operadoras, biomanufatura e o próprio Estado, assim como toda e qualquer organização clínico-assistencial, pública ou privada, estarão utilizando modelos multimodais de interpretação de dados. Dado passa a ser tudo aquilo que deixa ‘rastro inteligível em silício’, não importando se é texto, imagem, vídeo, som, ou o sopro eletroquímico de um neurônio”.

O parágrafo acima poderia ter sido escrito por Johannes Gutenberg (1400–1468), se hoje vivo estivesse. Ele causou o maior giro clero-cêntrico da história da civilização. Seu ‘sistema mecânico de impressão por tipos móveis’ — considerado o invento mais importante do segundo milênio — produziu, entre outras disrupções, a maior reviravolta socioeducacional da humanidade. Seus ‘tipos móveis’ inauguraram a era da alfabetização. Não haveria Renascença, Reforma Protestante, Iluminismo ou Revolução Científica sem esse senhor. Talvez não houvesse nem Inteligência Artificial (IA) sem a sua invenção.

Seu primeiro livro impresso, a “Bíblia de 42 Linhas” (Gutenberg Bible), apareceu em 1455, com tiragem estimada em 180 exemplares. Gutenberg imprimiu cada página repetidamente (trocando os tipos) e assim construiu um monumento bíblico que chegou ao clero local, em Mainz, causando um misto de perplexidade, medo e júbilo. O que se seguiu foi a rápida expansão do ‘sistema de tipos móveis’ por toda a Europa. As tecnologias sempre transformam o mundo em maior ou menor velocidade. A “bússola magnética”, por exemplo, uma tecnologia inventada pelos chineses no século XI (que reinventou a navegação), demorou mais de 300 anos para se sedimentar globalmente. A tecnologia do “moinho de vento” (século XII), por sua vez, consumiu 200 anos até sua total disseminação continental. Sem falar nos “óculos”, que apareceram em 1286, demorando 150 anos para se tornar um elemento de uso comum. Segundo historiadores de alta reputação, em 1500 já havia cerca de mil prensas tipográficas na Europa Ocidental, produzindo mais de 20 milhões de livros. Ou seja, em menos de 45 anos as tipografias de Gutenberg já haviam invadido o Ocidente de forma inequívoca.

Tecnologias têm cada vez mais pressa, como as IAs Generativas, que alcançaram o consenso global em menos de 3 anos. A comparação fenomenológica entre os ‘tipos móveis’ e as ‘IAs’ é gritante. Quando os manuscritos seculares saíram das mãos dos copistas e escribas, engolidos pela tinta dos tipos móveis, o mundo nunca mais voltou a ser o que era. Quando as IAs escaparam dos laboratórios de pesquisa e das tabelas matemáticas, ganhando vida própria, rasgaram a bula do “tudo a seu tempo” e nada mais será igual. Assim, não estamos só falando de tecnologia, mas também de temporalidade. Parece que o ‘tempo mudou de velocidade’ com os LLMs, erguendo uma nova ideia de transitoriedade que nos vincula a uma nova cronologia do cotidiano. IAs possuem uma volatilidade temporal que não só nos conduz, mas impele.

Agostinho de Hipona (354–430), depois Santo Agostinho, foi o primeiro grande pensador a tratar o tempo como um mistério interior. E o fez com uma ambiguidade profundamente existencial: “O que é, pois, o tempo? Se ninguém me pergunta, eu sei; mas se quero explicá-lo a quem me pergunta, já não sei”. Ele foi o primeiro a romper com a ideia do tempo como entidade objetiva ou algo mensurável: “o tempo não é uma substância, não tem corpo e não existe objetivamente como o espaço. Ele é algo que só existe na percepção da alma humana”. Em seu “Livro XI das Confissões”, ele esboça uma tese nunca revogada: “eu me estendo no passado pela memória, no presente pela atenção e no futuro pela expectativa”.

A temporalidade, com a máquina de Gutenberg e as máquinas de IA, tornou-se efêmera, transitando por nossas vidas com velocidades assimétricas e abstratas. O tempo já não é mais o “senhor da razão”, mas o “senhor da racionalização” — uma função subalterna da razão que, por ser mais dócil e rápida, usurpou o protagonismo. Até dois anos atrás, os humanos pareciam raciocinar mais devagar — ou com menos esforço. Hoje, parecem instados a pegar “carona” na velocidade das IAs. Se isso é bom ou ruim, só os anos dirão. O que se percebe é que essa mesma ‘abstração temporal’ já ocorria no século XV, quando a ‘prensa de tipos móveis’ vergou o sentido do tempo (“deixou de ser um rio — contínuo e previsível — e passou a ser um relâmpago”).

Tom Wheeler, pesquisador da Harvard Kennedy School e autor da obra “From Gutenberg to Google and On to AI” (2024), explica: “Gutenberg produziu o que hoje chamaríamos de tecnologia de código aberto — ou seja, um design replicável e aprimorável por outros. Graças à sua capacidade de replicação, meio século após a primeira prensa, todas as grandes cidades europeias já tinham suas próprias gráficas. Resultado: mais livros foram impressos naquele período do que a soma da produção de escribas nos mil anos anteriores”.

No ecossistema de Saúde, o tempo não apenas passou a “voar”, mas vai arrastar consigo uma colossal fúria transformadora. Isso se evidencia no Future Digital Health International Congress (FDHIC 2025), a mais importante vitrine latino-americana de “Aplicações de IA para Saúde”. Mais de 21 empresas de 11 países (EUA, Espanha, Holanda, Dinamarca, Coreia do Sul, Índia, China, Israel, Suécia, Canadá e Argentina) apresentarão suas ‘Health AI Apps’ em uma das maiores mostras mundiais de IA na Saúde. O FDHIC ocorre simultaneamente à Feira HOSPITALAR (São Paulo Expo) dos dias 21 a 23 de maio, com 30 sessões voltadas a mostrar soluções internacionais de“AI Health App” (algumas apresentações virtuais). 

Além disso, seus 9 debates, com 31 lideranças nacionais, abordam temas provocativos sobre a inserção das Inteligências Artificiais nas Cadeias de Saúde. Ao todo, mais de 60 keynotes, conferencistas e debatedores apresentarão 25 horas corridas de conteúdo prático, revelador e exclusivo — sem qualquer transmissão ou reprodução digital, seja durante ou após o congresso.

O tema do FDHIC 2025, “Showtime: Revelando 21 IAs Globais para Saúde 5.0”, realça a importância deste momento no bioma saúde, quando os sistemas de saúde do Ocidente tropeçam em insuficiências estruturais, alta de custeio, filas crescentes nos processos terapêuticos e cirúrgicos, atrasos na predição de doenças crônicas, oncológicas e mentais — sem falar nos surtos epidêmicos que acossam todos os países.

Mudar o mundo da Saúde em menos de cinco anos exige envergadura e destreza. Poucos conseguiram promover uma transformação digital efetiva, alguns se atrasaram e a grande maioria não tem a menor ideia do que fazer. “Showtime” significa: vejam como o mundo está usando as IAs na Saúde — antes que seja tarde demais. Significa também que o tempo para perguntar “o que é?” foi curto — e já passou. A pergunta agora é: “como utilizo?”. Como minha organização pode tirar proveito desse espantoso salto de produtividade sem comprometer a bioética e as regras de privacidade? O FDHIC 2025 se esforça nessa direção: avaliar como o resto do mundo está usando as IAs na Saúde (todas as marcas presentes no evento já somam mais de 100 milhões de usuários).

É importante, para quem estiver na audiência, deixar as ideologias tecnológicas em casa e assistir a um desfile de máquinas cognitivas artificiais que estão mudando a prática médica. Se sua empresa, instituição ou órgão público ainda acha que os LLMs são só um hype, nem chegue perto do FDHIC 2025. O que vai acontecer lá dentro é impróprio para refratários do futuro ou evangelistas da procrastinação.

Nem a prensa de tipos móveis de Gutenberg, tampouco as inteligências artificiais notáveis escapam à resistência. No século XV, das pessoas mais comuns às mais ilustradas, temia-se o abalo que a edição gráfica prenunciava. Os críticos bradavam que a publicação maciça de livros desafiava o controle dos manuscritos das autoridades religiosas e seculares. Refratários reuniam-se em assembleias ruidosas, vociferando que monges e escribas poderiam desaparecer, além de ameaçar o monopólio cultural da elite letrada.

“Precisamos erradicar a impressão, ou a impressão nos erradicará”, alertou o famoso Vigário de Croydon. Não estava só: em 1515, o papa Leão X, incapaz de conter a tecnologia já disseminada, concentrou-se no fluxo das ideias e proibiu a publicação de qualquer livro sem aval eclesiástico. Antes, em 1476, escribas enfurecidos em Paris destruíram várias prensas — inclusive as do teólogo Johann Heynlin, introdutor da tipografia na França. Heréticos do ofício temiam que a nova tecnologia colocasse em risco seu sustento e status; mesmo a fidalguia mais instruída receava que os gutenberguianos minassem o seu papel de guardiã do conhecimento e da cultura. Não será diferente, neste século, com as IAs.

Gutenberg estará presente em espírito no FDHIC 2025, impelindo e encorajando os participantes do evento a mudarem o mundo, como ele fez. Lembrá-lo aqui, 575 anos após o lançamento de seu invento e às vésperas do maior evento de IA do setor nacional de Saúde, é uma poderosa forma de recordar que transformação — do latim (trans + formare = “além da forma”) — não se resume à mera realocação de projetos ou ideias; trata-se, acima de tudo, de impulsão contínua. Gutenberg impulsionou; nós continuamos.

Guilherme S. Hummel
Scientific Coordinator Hospitalar Hub
Head Mentor – EMI (eHealth Mentor Institute)
Curador FDHIC

Future Digital Health International Congress: acomodem-se em seus lugares, o Show vai começar – Saúde Business

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