Essa empresa quer acabar com seu emprego usando IA; conheça os planos

A Mechanize, uma startup de São Francisco, está desenvolvendo ferramentas de inteligência artificial para automatizar trabalhos administrativos “o mais rápido possível”

Por Kevin Roose – Estadão/The New York Times – 17/06/2025 

Anos atrás, quando comecei a escrever sobre os esforços do Vale do Silício para substituir trabalhadores por inteligência artificial (IA), a maioria dos executivos de tecnologia pelo menos tinha a decência de mentir sobre isso.

“Não estamos automatizando os trabalhadores, estamos aprimorando-os”, diziam os executivos. “Nossas ferramentas de IA não destruirão empregos. Elas serão assistentes úteis que libertarão os trabalhadores de tarefas rotineiras e enfadonhas.”

É claro que frases como essas — que muitas vezes tinham como objetivo tranquilizar os trabalhadores nervosos e encobrir os planos de automação das empresas — diziam mais sobre as limitações da tecnologia do que sobre os motivos dos executivos. Naquela época, a IA simplesmente não era boa o suficiente para automatizar a maioria dos empregos e certamente não era capaz de substituir trabalhadores com formação superior em setores de colarinho branco, como tecnologia, consultoria e finanças.

Isso está começando a mudar. Alguns dos sistemas de IA atuais podem escrever software, produzir relatórios de pesquisa detalhados e resolver problemas complexos de matemática e ciências. Os novos “agentes” de IA são capazes de realizar longas sequências de tarefas e verificar seu próprio trabalho, da mesma forma que um ser humano faria. E embora esses sistemas ainda estejam aquém dos seres humanos em muitas áreas, alguns especialistas estão preocupados que o recente aumento do desemprego entre os graduados universitários seja um sinal de que as empresas já estão usando a IA como substituto para alguns trabalhadores iniciantes.

Na última semana, tive um vislumbre de um futuro pós-trabalho em um evento realizado em São Francisco pela Mechanize, uma nova startup de IA que tem a meta audaciosa de automatizar todos os empregos — o seu, o meu, os de nossos médicos e advogados, das pessoas que escrevem nossos softwares, projetam nossos edifícios e cuidam de nossos filhos.

“Nosso objetivo é automatizar totalmente o trabalho”, disse Tamay Besiroglu, 29, um dos fundadores da Mechanize. “Queremos chegar a uma economia totalmente automatizada e fazer isso acontecer o mais rápido possível.”

O sonho da automação total não é novo. John Maynard Keynes, economista, previu na década de 1930 que as máquinas automatizariam quase todos os empregos, criando abundância material e deixando as pessoas livres para perseguir suas paixões.

É claro que isso nunca aconteceu. Mas os recentes avanços na IA reacenderam a crença de que a tecnologia capaz de automatizar o trabalho em massa está próxima. Dario Amodei, diretor executivo da Anthropic, alertou recentemente que a IA poderia substituir até metade de todos os empregos de nível básico em escritórios nos próximos cinco anos.

A Mechanize é uma das várias startups que trabalham para tornar isso possível. A empresa foi fundada este ano por Besiroglu, Ege Erdil e Matthew Barnett, que trabalharam juntos na Epoch AI, uma empresa de pesquisa que estuda as capacidades dos sistemas de IA.

Ela atraiu investimentos de líderes tecnológicos renomados, incluindo Patrick Collison, fundador da Stripe, e Jeff Dean, cientista-chefe de IA do Google. Agora, ela tem cinco funcionários e está trabalhando com empresas líderes em IA. (Ela se recusou a dizer quais, alegando acordos de confidencialidade.)

A abordagem da Mechanize para automatizar tarefas usando IA está focada em uma técnica conhecida como aprendizado por reforço — o mesmo método que foi usado para treinar um computador a jogar o jogo de tabuleiro Go em um nível sobre-humano há quase uma década.

Hoje, as principais empresas de IA estão usando o aprendizado por reforço para melhorar os resultados de seus modelos de linguagem, realizando cálculos adicionais antes de gerar uma resposta. Esses modelos, frequentemente chamados de modelos de “pensamento” ou “raciocínio”, tornaram-se impressionantemente bons em algumas tarefas específicas, como escrever código ou resolver problemas matemáticos.

“Só saberemos realmente que tivemos sucesso quando criarmos sistemas de IA capazes de assumir quase todas as responsabilidades que um ser humano poderia desempenhar em um computador”, escreveu a empresa em uma publicação 

Mas a maioria dos trabalhos envolve mais de uma tarefa. E os melhores modelos de IA atuais ainda não são confiáveis o suficiente para lidar com cargas de trabalho mais complicadas ou navegar em sistemas corporativos complexos.

Para resolver isso, a Mechanize está criando novos ambientes de treinamento para esses modelos — essencialmente, testes elaborados que podem ser usados para ensinar aos modelos o que fazer em um determinado cenário e avaliar se eles tiveram sucesso ou não.

Para automatizar a engenharia de software, por exemplo, a Mechanize está construindo um ambiente de treinamento que se assemelha ao computador que um engenheiro de software usaria — uma máquina virtual equipada com uma caixa de entrada de e-mail, uma conta Slack, algumas ferramentas de codificação e um navegador da web. Um sistema de IA é solicitado a realizar uma tarefa usando essas ferramentas. Se for bem-sucedido, recebe uma recompensa. Se falhar, recebe uma penalidade. Em seguida, tenta novamente. Com tentativas e erros suficientes, se a simulação foi bem projetada, a IA deve eventualmente aprender a fazer o que um engenheiro humano faz.

“É efetivamente como criar um videogame muito chato”, disse Besiroglu.

A Mechanize está começando com programação de computadores, uma ocupação em que o aprendizado por reforço já se mostrou promissor. Mas ela espera que a mesma estratégia possa ser usada para automatizar trabalhos em muitos outros campos de colarinho branco.

“Só saberemos realmente que tivemos sucesso quando criarmos sistemas de IA capazes de assumir quase todas as responsabilidades que um ser humano poderia desempenhar em um computador”, escreveu a empresa em uma postagem recente no blog.

Tenho algumas dúvidas sobre se a abordagem da Mechanize funcionará, especialmente para trabalhos não técnicos, nos quais o sucesso e o fracasso não são tão facilmente mensuráveis. (O que significaria, por exemplo, para uma IA “ter sucesso” como professora do ensino médio? E se seus alunos fossem bem em testes padronizados, mas fossem todos infelizes e desmotivados? E se a professora de IA aprendesse a manipular as recompensas, fornecendo as respostas corretas aos alunos, na esperança de melhorar suas notas nos testes?)

Os fundadores da Mechanize não são ingênuos quanto à dificuldade de automatizar trabalhos dessa forma. Barnett me disse que sua melhor estimativa era que a automação total levaria de 10 a 20 anos. (Erdil e Besiroglu esperam que leve de 20 a 30 anos.)

Esses são prazos conservadores, para os padrões do Vale do Silício. E eu aprecio que, ao contrário de muitas empresas de IA que trabalham com tecnologia de substituição de mão de obra a portas fechadas, a Mechanize seja sincera sobre o que está tentando fazer.

Mas também achei sua apresentação estranhamente desprovida de empatia pelas pessoas cujos empregos estão tentando substituir e indiferente quanto à questão de saber se a sociedade está pronta para uma mudança tão profunda.

Besiroglu disse acreditar que a IA acabaria criando uma “abundância radical” e riqueza que poderia ser redistribuída aos trabalhadores demitidos, na forma de uma renda básica universal que lhes permitiria manter um alto padrão de vida.

Mas, como muitas empresas de IA que trabalham com tecnologia de substituição de mão de obra, a Mechanize não tem propostas políticas inovadoras para ajudar a suavizar a transição para uma economia impulsionada pela IA, nem ideias brilhantes sobre a expansão da rede de segurança social ou a requalificação dos trabalhadores para novos empregos — apenas o objetivo de tornar os empregos atuais obsoletos o mais rápido possível.

A certa altura durante a sessão de perguntas e respostas, eu me manifestei para perguntar: é ético automatizar todo o trabalho?

Barnett, que se descreveu como libertário, respondeu que sim. Ele acredita que a IA acelerará o crescimento econômico e estimulará avanços que salvarão vidas na medicina e na ciência, e que uma sociedade próspera com automação total seria preferível a uma economia de baixo crescimento onde os humanos ainda tivessem empregos.

“Se a sociedade como um todo se tornar muito mais rica, acho que isso supera as desvantagens das pessoas perderem seus empregos”, disse Barnett.

Pelo menos eles estão sendo honestos.

Essa empresa quer acabar com seu emprego usando IA; conheça os planos – Estadão

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Uso de terras-raras como arma muda contornos do campo de batalha na guerra comercial

Por Reuters — Valor – 07/06/2025


Há mais de 15 anos, a China sinaliza a intenção de usar partes da cadeia mundial de suprimentos como armas, uma estratégia inspirada nos controles sobre as exportações que os Estados Unidos aplicam há tempos e que Pequim entende como forma de conter sua ascensão.

A corrida nas últimas semanas para garantir licenças de exportação de terras-raras, que culminou na ligação telefônica, na quinta-feira (5), entre os líderes Donald Trump e Xi Jinping, mostra que a China desenvolveu uma arma ainda melhor e de precisão mais cirúrgica para a guerra comercial.

Executivos do setor e analistas dizem que, embora a China venha dando sinais de aprovar mais exportações desses minerais cruciais, ela não vai desmantelar seu novo sistema.

Inspirado no esquema dos próprios EUA, o sistema de licenciamento de exportações de Pequim permite ao país controlar de uma forma sem precedentes os gargalos das empresas em inúmeras áreas, desde motores para veículos elétricos (VEs) até sistemas de controle de voo para mísseis guiados.

“A China se inspirou originalmente nos métodos de controle de exportação do abrangente esquema de sanções dos EUA”, disse Zhu Junwei, pesquisador do Grandview Institution, um centro de estudos de Pequim especializado em relações internacionais.

“A China vem tentando construir seu próprio sistema de controle de exportações desde então, para ser usado como último recurso.”

Após a ligação de quinta-feira, Trump disse que os dois líderes estavam “esclarecendo alguns pontos, em sua maioria relacionados a ímãs de terras raras e algumas outras coisas”.

Ele não disse se a China se comprometeu a acelerar a emissão de licenças para exportação de ímãs de terras raras, após Washington ter restringido as exportações de softwares de design de chips e turbinas de avião para Pequim, em resposta a uma acusação americana de demora deliberada nas licenças.

A China detém quase um monopólio sobre os ímãs de terras raras, um componente crucial nos motores de VEs.

Em abril, o país adicionou algumas exigências mais elaboradas à lista de controle de exportações em sua guerra comercial com os EUA, obrigando todos os exportadores a solicitarem licenças a Pequim.

As novas medidas colocaram um departamento pouco conhecido do Ministério do Comércio da China, com cerca de 60 funcionários, no controle de um gargalo crucial da indústria mundial.

O ministério chinês não respondeu de imediato às perguntas enviadas por fax pela “Reuters”.

Nesta semana, vários fornecedores europeus de autopeças paralisaram linhas de produção após ficarem sem suprimentos. Embora as restrições de abril coincidam com um pacote mais amplo de retaliações às tarifas dos EUA, as medidas têm aplicação mundial.

“A China tem um certo grau de negação plausível, ninguém pode provar que ela está fazendo isso de propósito”, disse Noah Barkin, assessor sênior do Rhodium Group, um centro de estudos americano especializado em China.

“Mas o ritmo das aprovações é um sinal bastante claro de que a China está enviando um recado, exercendo pressão para impedir que as negociações comerciais com os EUA levem a mais controles sobre a tecnologia.”

A China minera cerca de 70% das terras raras do mundo, mas detém um monopólio quase completo sobre o refino e o processamento.

Mesmo que o ritmo das aprovações de exportação aumente, como sinalizou Trump, o novo sistema permite que Pequim tenha uma visão sem precedentes sobre como as empresas na cadeia de suprimentos usam as terras raras processadas pela China, alertam executivos europeus e americanos.

Outros governos não têm acesso a essas informações, em razão da complexidade das cadeias de suprimento.

Por exemplo, acredita-se que centenas de fornecedores japoneses precisarão que a China aprove licenças de exportação de ímãs de terras raras nas próximas semanas para evitar interrupções na produção, segundo uma fonte que fez lobby junto a Pequim em nome deles.

“É como se a China estivesse afiando um bisturi [tal a precisão de suas ações]”, disse um executivo com sede nos EUA, de uma empresa que tenta montar uma cadeia alternativa de suprimentos e não quis ter o nome divulgado.

“Não é uma forma de supervisionar a exportação de ímãs, mas de ganhar influência e vantagem sobre os EUA.”

Décadas em gestação

Os temores de que a China pudesse transformar sua força na cadeia de suprimentos internacional em arma surgiram pela primeira vez após ter proibido as exportações de terras raras ao Japão de forma temporária, em 2010, por uma disputa territorial.

Já em 1992, o ex-líder chinês Deng Xiaoping era citado dizendo “o Oriente Médio tem petróleo, a China tem terras raras”.

A decisiva Lei de Controle das Exportações da China, de 2020, ampliou as restrições, que passaram a cobrir qualquer item considerado capaz de afetar a segurança nacional, desde bens e materiais críticos até tecnologia e dados.

Desde então, a China construiu sua própria capacidade de impor sanções, enquanto investe o equivalente a bilhões de dólares no desenvolvimento de alternativas em resposta às políticas dos EUA.

Em 2022, os EUA impuseram amplas restrições à venda de chips semicondutores avançados e ferramentas para a China, por receios de que a tecnologia impulsionasse o poderio militar de Pequim.

A medida, contudo, não impediu o desenvolvimento chinês de chips avançados e da inteligência artificial (IA), segundo analistas.

A China revidou um ano depois, adotando o sistema de licenças de exportação para o gálio, germânio e alguns produtos de grafite. As exportações desses produtos para os EUA foram proibidas em dezembro.

Em fevereiro, a China restringiu a exportação de mais cinco metais fundamentais para as indústrias de defesa e de energias limpas.

Os analistas têm sofrido para conseguir rastrear o ritmo das aprovações chinesas após a ligação entre Trump e Xi.

“É virtualmente impossível saber qual percentual dos pedidos para fins não militares é aprovado, porque os dados não são públicos e as empresas não querem confirmar publicamente, seja uma coisa ou outra”, disse Cory Combs, analista de minerais críticos da firma de consultoria Trivium, especializada em política chinesa.

Uso de terras-raras como arma muda contornos do campo de batalha na guerra comercial | Mundo | Valor Econômico

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Ensinar a lidar com IA é necessário. Estimular o pensamento crítico é fundamental

Sem pensamento crítico, ética e perspectiva histórica, corremos o risco de formar uma geração que domina a tecnologia, mas ignora suas consequências

FREDERIC BERTLEY – Fast Company Brasil – 14-06-2025 

A inteligência artificial está sacudindo as bases intelectuais, emocionais e econômicas do mundo. Basta olhar as manchetes ou as redes sociais para perceber que o futuro será muito diferente da realidade que conhecemos hoje.

A tecnologia sempre provocou rupturas. Da fundição de bronze no Benim ao aço no Japão, passando pela construção naval incentivada por Temístocles na Grécia Antiga, a história mostra que grandes inovações tecnológicas costumam provocar mudanças profundas nas sociedades e nos colocam em estado de alerta.

Hoje, esse alerta tem nome: inteligência artificial. Nos EUA, a nova ordem executiva da Casa Branca sobre educação em IA reflete essa mesma inquietação – desta vez, motivada pelos rápidos avanços da China.

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É possível que essa medida tenha passado despercebida em meio a tantas outras recentes no país. Mas ela marca um ponto de virada. Apesar das boas intenções, o texto ainda não tem a profundidade necessária para servir de base para uma política educacional sólida sobre IA.

A ordem define seu objetivo como criar “oportunidades para desenvolver as habilidades e o conhecimento necessários para usar e criar a próxima geração de tecnologias de IA”. E propõe três diretrizes principais:

  • Introduzir a IA aos estudantes desde cedo.
  • Capacitar professores para “incorporar a IA de forma eficaz no ensino.”
  • Promover a alfabetização em IA para “formar uma força de trabalho pronta para o futuro.”

Essas ações são importantes. A inteligência artificial representa uma mudança estrutural, que escancara problemas históricos do sistema educacional de muitos países – especialmente a falta de atenção às áreas de ciência, tecnologia, engenharia e matemática (STEM).

COMO VIVER EM UM MUNDO MOLDADO PELA IA

Ainda assim, iniciativas desse tipo falham em três pontos essenciais. Falo como presidente do Centro de Ciência e Indústria, membro do conselho da Academia Nacional de Ciências, Engenharia e Medicina dos EUA e defensor da educação STEM há décadas: não dá para ensinar IA sem também ensinar pensamento crítico, ética e história.

O debate precisa ir além da capacitação técnica. À medida que a IA – e, futuramente, a inteligência artificial geral – se torna parte de tudo ao nosso redor, surge uma questão fundamental: queremos formar usuários passivos de tecnologia ou cidadãos capazes de tomar decisões conscientes e responsáveis?

Apenas dominar ferramentas tecnológicas nos aproxima mais das máquinas do que de humanos pensantes. Precisamos de uma mudança cultural – uma que incentive o pensamento crítico, o senso ético e a curiosidade dentro e fora da sala de aula.

Entender como funciona a IA é importante. Mas ainda mais essencial é aprender a viver em um mundo moldado por ela. O otimismo tecnológico deve vir acompanhado de perguntas difíceis – ou os cenários mais pessimistas podem acabar se confirmando.

Minha esperança é que as próximas políticas avancem mais, abordando os riscos reais da IA e propondo formas de preparar a sociedade – e a educação – para enfrentá-los de forma prática e profunda.

DÁ PARA ENSINAR PENSAMENTO CRÍTICO?

Um programa ideal de ensino sobre IA precisa incluir muito mais que habilidades técnicas. Também deve abordar, por exemplo:

Muito em breve, ensinar IA deixará de ser necessário – ela estará presente em tudo. Nos anos 1990, ensinávamos os alunos a usar o mouse e navegar pela internet. Mas, com o tempo, o design intuitivo tornou isso desnecessário. O mesmo está acontecendo agora com a inteligência artificial – só que muito mais rápido.

O DEBATE SOBRE EDUCAÇÃO E IA PRECISA IR ALÉM DA CAPACITAÇÃO TÉCNICA.

Por isso, o foco da educação em IA não pode ser apenas nas ferramentas de hoje, mas na capacidade de entender a evolução da tecnologia ao longo do tempo.

O cientista da computação Alan Kay disse uma vez: “tecnologia é tudo aquilo que foi inventado depois que você nasceu”. Para continuar liderando no cenário global, não basta ter domínio técnico – é preciso também visão cultural. Hoje, a verdadeira questão é qual país vai usar a IA para construir uma sociedade melhor.

Para liderar na era da inteligência artificial, será preciso priorizar a sabedoria, não apenas a inteligência. E isso não virá através de leis, mas sim da força da cultura e dos valores da sociedade.


SOBRE O AUTOR

Frederic Bertley é presidente e CEO do Centro de Ciência e Indústria. 

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A internet dos sentidos virá com o 6G

Com sexta geração, o acionamento por gestos ou fala enriquece visão, audição e até paladar e abre uma janela de oportunidade para um universo interconectado, com mais eficiência energética e inclusão digital

Por Martha Funke — Valor – 30/05/2025 

Para se ter uma ideia do salto tecnológico que será representado pela chegada do sistema 6G, a velocidade deve ser multiplicada por mil. A capacidade de conexão de dispositivos, idem. Além da melhoria de parâmetros sobre o 5G – como velocidade, latência e densidade -, estão previstas a absorção de mais papéis pela rede e maior uso da inteligência artificial (IA) e da conexão com satélites para sustentar desde eficiência energética até a inclusão digital universal. Na prática, as características tecnológicas, conceituais e até sociais, elevam o 6G a um patamar inédito, que vai assegurar um universo digital interconectado. Não bastasse tudo isso, a nova rede de conexões deve ir além das telas. O acionamento por gestos ou fala e interfaces cria a internet dos sentidos, enriquecendo visão e audição e incluindo ainda tato, olfato e paladar.

Todas essas inovações fazem parte da agenda estabelecida pela União Internacional das Telecomunicações (ITU, na sigla em inglês), agência da ONU destinada a regular o setor em nível mundial. Mas outras organizações dedicadas à padronização na área, colaboradoras da ITU, avançam em paralelo. A agenda do 3GPP, por exemplo, organização voltada a padronização na área, colaboradoras da ITU, avançam em paralelo. A agenda do 3GPP, por exemplo, organização voltada a padronizar criação, envio e reprodução de arquivos multimídia por dispositivos móveis, prevê uma reunião para discutir a padronização do setor no segundo semestre. Por aqui, as definições incluem a divisão da frequência de 6 GHz entre 6G e wi-fi pela Anatel, com expectativa de leilão da banda em 2026.

A perspectiva é que a partir de 2029 comecem a surgir ofertas comerciais de 6G em países mais avançados – China entre eles – e outros que já experimentam o 5G Advanced (ou 5,5G). Com o 6G, a latência despenca para microssegundos. Só isso já traz mais confiabilidade e novas capacidades para aplicações como vídeo, streaming e internet das coisas (IoT), incluindo mobilidade autônoma e indústria 4.0.

Algumas aplicações já começam a surgir parcialmente e se tornam nativas na nova geração, como a IA. Hoje, a tecnologia enriquece processos específicos das redes, mas com o 6G será nativa e embutida nas soluções. “O que os fornecedores trazem por conta própria fará parte dos documentos que definem as padronizações”, diz Carlos Lauria, diretor de relações governamentais e assuntos regulatórios da Huawei Brasil.

Com isso, elementos como monitoramento, gerenciamento, eficiência – no uso de espectro e energia, por exemplo – e custos ganham nova dimensão. Ações como o desligamento de equipamentos quando não utilizados (zero bite, zero watt) e melhoria da relação entre transmissão de informações e consumo energético devem ser universalizados. Segurança, inclusive cibernética, privacidade e sustentabilidade também farão parte do design.

Outra característica prevista é a ubiquidade. A disponibilidade em qualquer hora e lugar, sem interrupção ou perda de velocidade, implica multi conectividade, com apoio de redes de satélites. Também inédito é o papel da rede como sensor, com uso da radiofrequência empregada na comunicação para detecção do ambiente – como uma espécie de radar com posicionamento preciso em centímetros, em tempo real e com troca de informações entre objetos e pessoas, conectados ou não.

Com capacidade extrema de transmissão, hologramas 3D enriquecem desde o entretenimento até reuniões de trabalho, como a apresentação de projetos. Sensoriamento refinado e transmissão de enormes quantidades de dados em tempo real praticamente sem latência devem sustentar cirurgias remotas em que o médico sente a resistência dos tecidos manipulados. Tecidos inteligentes trarão a possibilidade de transmissão de um abraço à distância.

Tudo isso depende do desenvolvimento de tecnologias habilitadoras. Na NTT Docomo, empresa de telefonia celular do Japão, o sócio líder de telecomunicações, Marco Galaz Carrasco, experimentou sensações distintas ao segurar uma bola de tênis, como abrir e fechar um zíper e tocar um carpete. “O cérebro vê a bola, mas a sensação é de tapete”, conta. Entre outros testes, a marca usa drones na Amazônia para analisar a interoperabilidade e a ampliação de cobertura, uma das metas do 6G.

O 6G trará a junção quase imperceptível do mundo físico com o digital”

— Edvaldo Santos

Experiências como a decomposição de moléculas responsáveis por sabores, com reconstrução em outro local, já são testadas por empresas como a Fill Tech, para transmissão de paladares a partir, por exemplo, de um copo de água. Outras conseguem fazer o mesmo com o olfato, por enquanto com máscaras capazes de criar ou eliminar aromas. “Tomei um shot com gosto de sopa de tomate”, descreve Henry Rodrigues, gerente executivo do Centro de Competência Embrapii Inatel em Redes 5G e 6G (xGMobile), cuja parceria com o Instituto Indiano de Tecnologia Mandi (IIT Mnadi), participante do 3GPP, visa inserir interesses do Brasil ao processo de padronização do 6G.

Pesquisas do Inatel relacionadas ao 6G incluem ampliação de cobertura de estações rádio base (ERB) para até 50 km, com uso de canais de TV digital não utilizados, transmissão de dados junto de luz e transmissão de energia elétrica por fibra ótica, além de uso da superfície refletora inteligente em ERBs para otimizar área e controle da cobertura.

“O 6G trará a junção quase imperceptível do mundo físico com o digital”, diz Edvaldo Santos, vice-presidente de P&D&I da Ericsson para o Cone Sul da América Latina. Segundo ele, esse hiperfísico contínuo inclui também a internet do pensamento, com interfaces cérebro-computador não invasivas e uso de vestimentas para acionar máquinas inteligentes conectadas, além de robôs e drones que trabalham coletivamente entre si e com seres humanos.

O uso de gêmeos digitais, atuadores para interferências e IA para aplicações como mobilidade e cidades inteligentes, traz infinitas possibilidades. Com o 6G, a interação em tempo real entre objetos não visíveis ou não conectados torna a autonomia veicular, terrestre ou aérea, mais avançada e segura, simplificando a interferência no ambiente a partir de um centro de comando. “Isso muda a demanda da rede, com mais envio de informações dos usuários”, afirma Hugo Baeta, diretor de vendas e gestão de negócios da divisão de Mobile Network da Nokia.

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Falta de profissionais será desafio para os projetos

Pesquisa mostra que 39% das companhias não conseguem alavancar o uso da tecnologia por falta de currículos capacitados

Por Jacilio Saraiva — Valor – 29/05/2025

A qualificação adequada dos profissionais pode ser a maior pedra no sapato das empresas brasileiras que pretendem escalar projetos de inteligência artificial (IA). É o que indica uma pesquisa da consultoria Bain & Company, obtida com exclusividade pelo Valor. De acordo com o estudo, 39% das companhias não conseguem alavancar o uso da tecnologia por falta de currículos capacitados. O levantamento, finalizado em janeiro, ouviu 100 corporações no país, com receita de R$ 40 milhões ou superior, em 13 setores da economia.

De acordo com Lucas Brossi, sócio e head de IA da Bain na América do Sul, as operações podem encampar uma abordagem “dupla” para minimizar a falta de talentos: investir no recrutamento de profissionais no mercado e na capacitação interna dos funcionários.

“O desenvolvimento contínuo das equipes pode suprir parte da demanda, garantindo uma adaptação mais rápida às novas tecnologias”, explica. “Contudo, é essencial que essa capacitação seja acompanhada de uma mudança cultural nas organizações, com mais inovação e colaboração entre os funcionários.”

Brossi diz que outro dado que chamou a atenção na pesquisa foram as nuances de necessidade de pessoal entre empresas com níveis diferentes de maturidade em IA. Entre as companhias “aprendizes” ou que vivem estágios de experimentação dos sistemas, 50% apontam a carência de candidatos como uma barreira crítica. Entre as “líderes” ou firmas que estão incrementando os casos de uso da tecnologia, esse índice cai para 23%.

“Os números indicam que as corporações que começaram cedo na jornada da IA conseguiram atrair e reter talentos estratégicos, ganhando vantagem competitiva”, avalia. “As demais correm o risco de ficar para trás.”

Para fugir do enrosco, a recomendação do consultor para os empregadores é agir em três etapas: atração, retenção e capacitação dos profissionais. “Na primeira fase, estudos da Bain mostram que 81,2% dos candidatos colocam a remuneração como fator decisivo [na escolha de um emprego], enquanto 57,8% valorizam a flexibilidade do modelo de trabalho”, compara.

Em relação à retenção, o especialista ressalta que manter os funcionários sempre satisfeitos é determinante para a perenidade dos times de trabalho. “Os principais motivos de insatisfação nos escritórios são a falta de oportunidades de crescimento e de aprendizado [67,2%], e a defasagem salarial em relação ao mercado [44,8%]”, continua.

Sobre a capacitação, a recomendação é que as empresas tomem as rédeas do processo de “distribuição do conhecimento”. “Embora 93% dos funcionários usem ferramentas de IA generativa para aumentar a produtividade, apenas 20% dizem que os empregadores oferecem essas soluções”, destaca. “A maioria recorre a versões gratuitas e individuais, o que revela uma grande oportunidade perdida, pelas organizações, de institucionalizar o uso da tecnologia e compor equipes de forma estruturada.”

O preenchimento das vagas em IA também pode ganhar velocidade com a busca de candidatos fora dos polos tradicionais de TI no Brasil, como São Paulo e Rio de Janeiro, e a construção de um local de trabalho atrativo, que valorize o desenvolvimento de carreiras, complementa Brossi.

“Vencer a corrida por talentos em IA não é apenas contratar currículos. Trata-se de criar um ambiente onde as pessoas queiram ficar, crescer e inovar”, ressalta. “As empresas que desenvolvem equipes e montam uma cultura orientada a propósito e impacto sairão na frente. Quem está agindo agora vai definir o futuro dos negócios.”

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A construção do túnel mais profundo da rota da Seda que vai conectar a Europa à Ásia em uma travessia de 60 metros de profundidade

Bruno Teles – Click Petróleo e Gás – 06/06/2025 

Marmaray: o túnel mais profundo da Rota da  Seda que conecta a Ásia à Europa sob o Bósforo

Conheça a engenharia e o impacto do Projeto Marmaray, em Istambul, cujo túnel mais profundo da rota da Seda superou desafios sísmicos e revelou tesouros arqueológicos milenares

O Marmaray é uma façanha da engenharia moderna, destacando-se pelo seu túnel submerso, que é o túnel mais profundo da rota da Seda e do mundo para sistemas ferroviários. Entenda sua construção, os desafios superados, as descobertas históricas e seu papel como um elo vital na conectividade global.

Istambul, a cidade que se estende por dois continentes, sempre sonhou em superar a barreira do Estreito de Bósforo com uma conexão ferroviária. O Projeto Marmaray tornou essa ambição centenária uma realidade, criando uma ligação ininterrupta entre a Europa e a Ásia. Esta obra monumental não apenas transforma o transporte, mas também se posiciona como um eixo estratégico no comércio eurasiano.

A gênese e o imperativo moderno do Projeto Marmaray

A ideia de uma travessia ferroviária sob o Bósforo remonta ao século XIX, com conceitos apresentados já em 1860 pelo Sultão Abdul Medjid. No final do século XX, o crescimento populacional de Istambul e o crônico congestionamento nas pontes existentes tornaram essa necessidade inadiável.

O Projeto Marmaray foi concebido para aliviar o tráfego urbano, fornecer um transporte público moderno e, crucialmente, estabelecer uma ligação ferroviária contínua para passageiros e cargas entre os dois continentes. Aclamado como o “projeto do século”, ele reflete a ambição da Turquia em modernizar sua infraestrutura.

A construção do túnel mais profundo da rota da Seda

A construção do túnel mais profundo da rota da Seda que vai conectar a Europa à Ásia em uma travessia de 60 metros de profundidade

O Marmaray é uma linha ferroviária de alta capacidade com 76,6 km de extensão, ligando Halkalı (lado europeu) a Gebze (lado asiático). Sua peça central é a travessia do Bósforo, de 13,6 km, que inclui um túnel de tubo submerso de 1,4 km. Esta estrutura foi assentada a aproximadamente 60 metros abaixo do nível do mar, tornando-se o túnel submerso mais profundo do mundo usado por sistemas ferroviários.

A construção enfrentou desafios formidáveis. A proximidade com a Falha da Anatólia do Norte, uma das zonas sísmicas mais ativas do mundo, exigiu um projeto com alta resiliência, projetado para resistir a um terremoto de magnitude 7.5. O túnel foi concebido para ser flexível, e comportas de emergência foram instaladas entre suas 11 seções pré-fabricadas. A logística de posicionar essas seções de 18.000 toneladas sob as fortes correntes do Bósforo também foi uma grande proeza.

As descobertas arqueológicas que reescreveram a história de Istambul

As escavações para o Marmaray, especialmente na estação de Yenikapı, se transformaram em um dos maiores projetos arqueológicos da história de Istambul. As descobertas foram extraordinárias:

O Porto de Teodósio (século IV): O maior porto da antiga Constantinopla foi revelado.

Naufrágios Bizantinos: Uma frota de 36 a 37 navios dos séculos V a XI foi encontrada, incluindo o que parece ser a única galera (navio de guerra a remos) antiga já descoberta.

Assentamento Neolítico: A revelação mais surpreendente foi a do mais antigo assentamento conhecido de Istambul, com 8.500 anos, empurrando a história da cidade por milênios.

Essas descobertas, embora de imenso valor, causaram atrasos de mais de quatro anos no projeto e aumentaram seus custos, evidenciando o complexo equilíbrio entre desenvolvimento e preservação do patrimônio.

Remodelando a megacidade e o comércio eurasiano

O Marmaray tem capacidade para transportar até 75.000 passageiros por hora por sentido, com trens operando a cada 2 minutos. Integrado a outras linhas de metrô, VLT e balsas, ele aumentou significativamente a participação do transporte ferroviário na mobilidade de Istambul.

Para o frete, o Marmaray se tornou uma artéria vital, possibilitando o transporte ferroviário de carga ininterrupto sob o Bósforo. Trens de mercadorias utilizam o túnel durante a noite, conectando a China à Europa em cerca de 12 dias. O túnel mais profundo da rota da  Seda é um pilar do Corredor Médio, uma rota comercial estratégica que contorna a Rússia, aumentando a resiliência das cadeias de suprimentos globais.

Segurança, desafios e o legado de uma obra monumental

As preocupações com a segurança sísmica foram respondidas com um projeto robusto, verificado por entidades independentes como a TÜV SÜD. O túnel foi aprovado para tráfego em 2019, e seu histórico operacional desde então tem sido sólido.

O Marmaray conecta o passado de Istambul, desde os sonhos otomanos até a história desenterrada sob seus trilhos, com um futuro de transporte moderno e integração global. Ele se firma como um poderoso símbolo da proeza de engenharia turca, da visão estratégica e como um elo fundamental entre continentes e épocas, garantindo sua relevância para as próximas gerações.

A construção do túnel mais profundo da rota da Seda que vai conectar a Europa à Ásia em uma travessia de 60 metros de profundidade

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Setores de TI e IA demandarão 10 vezes mais minerais críticos que oferta atual, diz CEO da Vale

Segundo Gustavo Pimenta, o Brasil e a Vale têm potencial de ser líder na oferta desses produtos, mesmo diante das incertezas geopolíticas com a guerra tarifária

Antonio Temóteo – Exame – 7 de junho de 2025

Guarujá (SP)* – O CEO da Vale, Gustavo Pimenta, afirmou neste sábado, 7, durante participação no Fórum Esfera, que os setores de tecnologia e inteligência artificial demandarão uma oferta de minerais críticos 10 vezes maior do que a atual. Segundo ele, o Brasil e a Vale têm a qualificação necessária para liberar a oferta desses produtos, mesmo diante da incerteza global de curto prazo com a guerra tarifária.

“Temos o potencial de ser, talvez, a maior força na oferta de minerais críticos — e aqui incluo minério de ferro de alto teor para ajudar a indústria em descarbonização. Mas o foco está na oferta de minerais para tecnologia e inteligência artificial. Tudo isso requer um aumento muito grande na oferta desses minerais. Existem estudos que falam entre cinco a 10 vezes do que a gente levou 100 anos para desenvolver de oferta”, disse.

Pimenta também afirmou a Vale está “profundamente” inserida nesse debate, porque o tema dos minerais críticos se tornou um assunto geopolítico internacional e nacional.

“A gente vê os Estados Unidos fazendo uma série de movimentos no sentido de garantir a oferta de minerais críticos. A gente tem a visão de que, no médio e longo prazo, eles terão uma relevância para o mundo, assim como o petróleo teve nos últimos 100 anos. E acho que os países estão observando isso. A gente vem observando na Vale nos últimos anos e nos posicionando para ser um ofertante dentro dessa indústria. O Brasil tem um potencial minerário, talvez o maior do mundo”, completou.

A guerra tarifária, nesse contexto de aumento de demanda, traz incerteza para os negócios, mesmo para empresas que têm poucos negócios com os Estados Unidos, acrescentou o CEO da Vale.

“Apesar de a Vale vender pouco para os Estados Unidos, os efeitos secundários de guerra tarifária têm efeito negativo muito grande sobre commodities porque tem arrefecimento do PIB mundial, e commodities andam junto com PIB mundial. O nível de incerteza é muito grande, mas sou otimista, e a Vale e o Brasil tem a oportunidade de ser líder na oferta desses minerais críticos e metais de transição”, finalizou.

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Quem é o brasileiro que ajuda a trazer a computação quântica da ficção científica para a realidade

Aos 33 anos, o matemático Daniel França é professor da Universidade de Copenhague e recebeu bolsa da União Europeia para encontrar novas funções para máquinas

Por Matheus Fernandes – Estadão – 07/06/2025 

Os computadores quânticos, máquinas ultrapoderosas capazes de resolver operações complexas em poucos segundos, são uma das grandes promessas da tecnologia. Na vanguarda da pesquisa para encontrar usos para essas máquinas e ajudar a viabilizar aplicações reais, está um pesquisador brasileiro, o professor da Universidade de Copenhagen Daniel Stilck França, de 33 anos.

Ele faz parte da série do Estadão “Nomes para ficar de olho”, que traz perfis em texto e vídeo de jovens que devem ganhar projeção nos cenários nacional e internacional nos próximos anos.

Daniel Stilck França quer levar a computação quântica da ficção científica para a realidade

Capa do video - Daniel Stilck França quer levar a computação quântica da ficção científica para a realidade

Na computação atual, baseada nas leis da Física clássica, a informação é armazenada em bits, que podem ser representados por “0” ou “1”. A computação quântica propõe um modelo baseado nos princípios da Física Quântica, assim, no lugar dos bits entram os qubits, que podem representar “0” e “1” ao mesmo tempo, em um estado chamado sobreposição. Essa mudança poderia possibilitar um aumento exponencial na velocidade de processamento, resolvendo problemas matemáticos considerados impossíveis para computadores convencionais. Setores como inteligência artificial (IA), saúde, química, finanças e logísticas poderiam ser transformados para sempre.

“A computação quântica tenta conciliar dois dos maiores avanços do século passado em ciência e tecnologia, que foi a Física Quântica, que descreve o mundo microscópico, com a ciência da computação”, explica Fernando Brandão, professor da Caltech e diretor de ciência aplicada na Amazon Web Services (AWS). Ele liderou a equipe responsável pelo primeiro chip quântico da empresa americana fundada por Jeff Bezos, além de fazer parte do time do Google que, em 2019, anunciou o primeiro computador a atingir supremacia quântica.

Brandão é o principal nome brasileiro na área e trabalhou de perto com Daniel França no desenvolvimento de algoritmos quânticos capazes de resolver problemas matemáticos complexos com mais eficiência e um ganho expressivo de velocidade. Como Brandão, Daniel é um teórico — ou seja, ele não constrói hardware, mas desenvolve a parte teórica que guia o funcionamento dessas máquinas.

“Conseguimos escrever um trabalho sobre a primeira aplicação desses problemas de otimização que considerava completa, mostrando que tudo daria certo e que o computador quântico poderia ajudar”, relata o professor. “Foi uma ótima colaboração com ele e, desde então, eu continuo seguindo seu trabalho.”

O caminho para chegar ali não foi óbvio — como acontece com quase todo mundo que decide seguir por uma área tão complexa e desconhecida.

Filho de um professor de Matemática, Daniel iniciou sua graduação na Universidade de São Paulo (USP) e concluiu o curso na Universidade Técnica de Munique, após receber uma bolsa. Foi na Alemanha também que fez pós-graduação e mestrado. “Sempre tive bastante incentivo para seguir a carreira acadêmica”, afirma.

Ao ingressar no doutorado, ele escolheu a área da computação quântica após conversar com seu tio, professor de Física em uma universidade federal, que lhe indicou áreas promissoras. A computação quântica une elementos da Matemática, Física e computação em uma abordagem interdisciplinar.

Hoje, Daniel França é professor no Departamento de Matemática da Universidade de Copenhague (Dinamarca), além de atuar no Quantum for Life – centro interdisciplinar para pesquisa quântica de moléculas financiado pela Novo Nordisk. Recentemente, ele também recebeu uma bolsa do European Research Council para acelerar o desenvolvimento da computação quântica nos próximos anos por meio de novos algoritmos capazes de lidar melhor com o ruído, nome dado aos erros que afetam os cálculos das máquinas, gerando resultados diferentes do esperado. Eles são causados pela própria natureza incerta dos fenômenos quânticos e pela complexidade do hardware envolvido.

“Vamos dizer assim: atualmente, uma em cada mil operações em um computador quântico vai dar errado”, explica Daniel. O trabalho do pesquisador é justamente apontar onde estão esses erros. “Meu trabalho era jogar baldes de água fria na comunidade, falando ‘é improvável que esses computadores sejam úteis, dados os paradigmas e os algoritmos propostos agora na literatura, o nível de ruído e as limitações das máquinas’”, afirma.

Além de encontrar formas de classificar melhor o ruído nos computadores, outro desafio que Daniel França encara para tornar os computadores úteis é a falta de algoritmos quânticos que sejam mais resistentes em relação aos erros. O pesquisador compara os processos atuais com uma “fileira de dominós”, onde qualquer problema pode levar todo mundo a cair. Ele propõe uma solução matemática alternativa: “O que eu quero propor são maneiras de fazer computações quânticas que são mais parecidas com embaralhar um deck de cartas”, explica.

É nessa área que Daniel recebeu uma bolsa de 1,5 milhão de euros do European Research Committee para o projeto GIFNEQ, ou Gibbs framework for near-term quantum computing. A proposta é combinar técnicas de identificação de ruído com a busca de novos algoritmos, de forma a trazer mais próximo da realidade os computadores quânticos úteis.

Funcionalidades quânticas

É justamente na criptografia que está uma das principais aplicações possíveis dos computadores quânticos. O algoritmo quântico mais famoso até hoje é o de Shor, com potencial para quebrar em poucas horas protocolos atuais como o RSA, que levariam milhões de anos para serem superados com os hardwares atuais. Isso significa que toda a segurança digital, incluindo transações financeiras e infraestrutura global, está em perigo. Esse medo impulsionou a área de criptografia pós-quântica, com a busca de novos métodos ainda mais seguros.

“Não é exagero dizer que a nossa economia ou as nossas comunicações se baseiam na suposição de que um certo problema matemático é muito difícil de resolver. Só que ninguém tem uma prova que esse sistema matemático é realmente muito difícil de resolver”, diz Daniel, sobre o estado atual da criptografia. “Se alguém tivesse conseguido resolver, essa pessoa teria acesso a boa parte da comunicação mundial.”

Entre as outras aplicações possíveis para os próximos cinco ou 10 anos, Daniel também destaca a área de simulações, na Química, Física e ciência de materiais. “Existe um consenso na comunidade da computação quântica de que a simulação de sistemas físicos é uma das áreas em que a gente vai esperar as primeiras aplicações”, diz. “Uma das grandes motivações, já há 30 anos, que começou esse campo é para simular mecânica quântica, um problema computacional muito complexo.”

Atualmente, uma em cada mil operações em um computador quântico vai dar errado

Daniel Stilck França

O professor exemplifica como um dos problemas que podem ser solucionados pela computação quântica é o da fixação de nitrogênio, processo químico para produção de fertilizantes extremamente intensivo no consumo de energia que é essencial para a agricultura global.

Novas aplicações para o futuro

Para o futuro como pesquisador da área, o objetivo de Daniel é ajudar a encontrar novas aplicações para esses computadores, para além da simulação de sistemas físicos. “A gente tem pouquíssimos exemplos de algoritmos quânticos”, explica.

“Se eu puder também fazer parte desse momento de virada do meu campo da ficção científica para a realidade, isso seria muito legal. Eu gostaria muito de contribuir para essas primeiras demonstrações de algo útil que é feito com o computador quântico”, conclui.

Fernando Brandão, seu antigo mentor, é otimista quanto ao futuro do jovem pesquisador: 

“Acho que ele tem uma carreira brilhante pela frente. Quem sabe ele vai achar o grande novo algoritmo quântico que um dia vai ser usado no computador quântico”.

Quem é o brasileiro que ajuda a trazer a computação quântica da ficção científica para a realidade – Estadão

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Internet das coisas cresce a taxas anuais de 20% no país

Número de conexões de IoT no mercado mundial deverá saltar de 19,8 bilhões, projetado para 2025, para 40,6 bilhões em 2034

Por Maria Lúcia D’Urso — Para o Valor – 30/05/2025

Tópico importante dos projetos de transformação digital das corporações, a tecnologia de internet das coisas (IoT) avança no mundo. Graças a ela, é possível interconectar à internet dispositivos que vão de sensores a eletrodomésticos.

De acordo com dados da empresa de pesquisa inglesa Transforma Insight, o número de conexões de IoT no mercado mundial deverá saltar de 19,8 bilhões, projetado para 2025, para 40,6 bilhões em 2034. No primeiro lugar em uso dessa tecnologia está a China. A América Latina surge em quarto lugar, sendo o Brasil responsável por 40% dos investimentos pesados em conexões.

O setor de IoT no Brasil vem crescendo a taxas anuais de 20%, de acordo com estimativas do mercado. “O marco inicial para o aquecimento no Brasil foi o Plano Nacional de Internet das Coisas, de 2019. A partir dessa data surgiram muitas empresas especializadas em implementar aplicações em pacotes integrados de hardware, software e serviços de análise de dados”, afirma Rogério Moreira, diretor de tecnologia da Associação Brasileira de Internet das Coisas (Abinc).

A IoT emprega diversos tipos de redes para conectar dispositivos, cada uma com suas próprias características e aplicações. Entre as mais comuns, destacam-se a wi-fi, a celular (3G, 4G, 5G), a LoRaWAN e as redes via satélite. Cada uma dessas tecnologias possui diferentes alcance, velocidade, consumo de energia e custo. A LoRaWAN, por exemplo, caracteriza-se por ser sem fio, de longo alcance e baixo consumo de energia.

“As conexões de IoT via rede móvel, de celulares, preponderam no Brasil, pelas altas taxas de disponibilidade”, assinala Moreira, da Abinc. Segundo a consultoria Teleco, esse tipo de conexão registrou um crescimento de 22% em 2024 e deverá manter essa mesma porcentagem este ano.

Na lista dos setores que mais empregam IoT, cujas aplicações, por enquanto, são mais sustentadas por redes 4G, destacam-se as áreas de agronegócio, empresas de serviços públicos, indústria e transportes. Uma das aplicações no agronegócio é o monitoramento de culturas. Por meio de sensores espalhados pelo solo, é possível acompanhar, em tempo real, variáveis como temperatura, umidade, nível de nutrientes e até a saúde das plantas.

No rastro da IoT, a rede móvel 5G e tecnologias como a inteligência artificial (IA) vêm sendo impulsionadas. “Com IoT e IA juntas, é possível fazer com que um medidor de luz inteligente analise os padrões de comportamento do consumidor e, caso necessário, dispare alertas para a central de comando das empresas, apontando possíveis problemas de funcionamento do aparelho”, exemplifica Adriano Pereira, diretor de IoT, big data e inovação B2B da Vivo.

De olho nesse mercado, a TIM, que tem cobertura de 5G em 700 cidades brasileiras, segue investindo em IoT. Hoje a empresa oferece não somente conectividade como também pacotes de hardware, software e serviços para corporações dos mais variados setores. “Investimos, há cerca de sete anos, na montagem de uma rede narrowband IoT ou NB-IoT, que nos permite cobrir atualmente 5.167 cidades do país. Trata-se de um diferencial competitivo muito grande”, enfatiza Fabio Avellar, vice-presidente de receitas da TIM.

A operadora lançou, no ano passado, a plataforma TIM IoT Solutions. “Graças a essa solução, nos tornamos um grande provedor de transformação digital e gerador de eficiência para as empresas”, destaca Avellar. Essa plataforma cobre mais de 21 milhões de hectares com 4G do agronegócio. “Nossa frente de negócios já soma R$ 273 milhões em receita contratada nos últimos 12 meses.”

A Vivo recentemente anunciou uma parceria com a Dow Brasil para impulsionar a inovação e fortalecer a segurança no ambiente industrial. A operação da empresa contará com a Área Segura, solução baseada em dispositivos inteligentes e plataforma em nuvem. Foi desenvolvida para transformar a gestão da segurança do trabalho, prevenindo acidentes, otimizando custos operacionais e aumentando a produtividade na fábrica.

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Brasileiros já convivem com IA há anos, mas ChatGPT turbinou curiosidade; letramento vira desafio

De livros infantis personalizados a guias de viagens, ferramentas começam a fazer parte da vida de pais, filhos e profissionais — e ajudam a moldar uma nova cultura digital

Por Henrique Sampaio – Estadão – 07/06/2025 

Quando a designer Camila Neves, de 33 anos, de Cotia (SP), decidiu que era hora de tirar a chupeta do filho caçula, Zakk, ela não recorreu a métodos tradicionais nem pediu conselhos em fóruns de mães. Em vez disso, criou um livro ilustrado com inteligência artificial (IA), usando uma imagem do filho. O projeto, simples na execução, teve um resultado poderoso: o menino se reconheceu no personagem e, com o apoio da história, aceitou abrir mão da chupeta. “Ele pediu pra eu ler de novo e de novo, várias vezes, até dormir. E isso me deixou com a sensação de missão cumprida, sem sofrimento”, relatou Camila em uma publicação no LinkedIn.

Enquanto isso, a mais de 2 mil quilômetros dali, em uma barraca de camping improvisada no litoral da Bahia, o engenheiro Fábio Bergamini, de 30 anos, ajustava uma lanterna pendurada no teto enquanto falava ao Estadão, por chamada de vídeo, sobre como também tem recorrido à IA — não para criar histórias infantis, mas para planejar rotas, buscar paradas ideais em cidades desconhecidas e lidar com problemas no carro durante sua road trip.

Bergamini, que saiu de São Paulo de carro rumo a Itacaré, na Bahia, usou a IA para planejar roteiros improvisados e acabou fazendo boas descobertas, como um festival gastronômico. “Perguntei para a (inteligência artificial) Perplexity: estou em Montes Claros de dia tal até dia tal, o que tem de interessante para fazer aqui? Ela trouxe um evento que eu não fazia ideia que estava acontecendo.” Mais do que apenas turismo, Bergamini, que é nômade digital, vem usando a IA como suporte prático para emergências. “Se estou com um problema no carro ou algo assim, pergunto para a Perplexity e tenho a resposta.”

Os casos de Camila e Bergamini são apenas dois entre muitos exemplos que mostram como a IA já se infiltrou no cotidiano dos brasileiros. De mães em licença-maternidade a adolescentes aprendendo programação, de engenheiros otimizando tarefas domésticas a juízes que aceleram sentenças, a IA já participa de momentos íntimos e cotidianos — e modifica comportamentos, rotinas e relações.

Segundo a pesquisa Nossa Vida com IA: Da inovação à aplicação, feita por Google e Ipsos, 54% dos brasileiros relataram ter usado ferramentas de inteligência artificial generativa em 2024, superando a média global de 48%. No ambiente profissional, o número chega a 78%. Os dados indicam um crescimento significativo no uso da IA no Brasil em comparação com anos anteriores, refletindo uma tendência de adoção crescente tanto no cotidiano quanto no ambiente de trabalho.

Mesmo pessoas e empresas que não fazem uso de modelos como o ChatGPT já convivem com sistemas de IA no dia a dia. É o caso da Embraer, que usa IA para prever falhas em aviões e antecipar manutenções com base em dados captados em tempo real durante os voos. Ou das câmeras de monitoramento em cidades como Rio e São Paulo, que integram algoritmos de IA para reconhecimento facial, placas de automóveis e identificação de comportamentos suspeitos nas ruas.

Nas rodovias, a EcoRodovias adotou câmeras com IA para flagrar motoristas sem cinto ou usando celular. Até a previsão do tempo começa a incorporar a tecnologia: o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) está investindo na modernização de seus sistemas, com a adoção de algoritmos inteligentes e sensores mais precisos para gerar estimativas voltadas, sobretudo, à agricultura e à prevenção de desastres climáticos.

Mil e uma demandas

No setor privado, a tecnologia também opera nos bastidores. Supermercados como Carrefour e Grupo Pão de Açúcar usam IA para prever demanda, ajustar estoques e definir promoções com base no comportamento dos consumidores, sem que os clientes percebam.

Aplicativos de delivery, como o iFood, usam mais de cem modelos de IA para personalizar ofertas, organizar a logística de entregas e prever picos de demanda conforme clima, horário e localização. No campo, empresas de agronegócio utilizam IA para analisar solo, prever pragas e monitorar plantações via satélite ou drones — tecnologias que já são adotadas em larga escala por gigantes como Raízen e Bayer. Esses sistemas não exigem nenhuma interação direta do consumidor e estão integrados à engrenagem dos serviços, tornando a IA uma presença ubíqua, embora invisível, no cotidiano.

Mas, claro, o boom da IA generativa aumentou a curiosidade e as experimentações de uso consciente da tecnologia — ou seja, os brasileiros agora procuram ativamente o uso de algoritmos. Camila conta que começou a usar IA generativa no fim de 2023 para criar ilustrações e músicas personalizadas para os filhos como forma de se conectar com eles. “Hoje eles não interagem diretamente com IA, eu sou a intermediária”, conta a designer. As ferramentas preferidas dela são ChatGPT, Lovable (plataforma de geração de sites e aplicativos) e o Midjourney, para a geração de imagens.

O filho mais velho dela, de 15 anos, que estuda desenvolvimento de sistemas, também usa IA, principalmente nos estudos. Camila conta que ele aprendeu a usar o modelo da OpenAI como apoio para tirar dúvidas, mas com senso crítico. “Ele sabe que pode usar os recursos do ChatGPT, mas, ao mesmo tempo, precisa revisar, procurar fonte, ver se é verdadeiro.”

No caso do turista Fábio Bergamini, a IA se tornou parte fundamental da rotina, tanto dentro quanto fora do ambiente de trabalho. Após reuniões com clientes, ele costuma usar o ChatGPT Enterprise para planejar a arquitetura das soluções, aproveitando a capacidade da ferramenta de “raciocinar” em etapas. Para ele, a melhor forma de usar essas ferramentas é por meio da interação contínua. “O melhor resultado que você pode ter é justamente ver o que ela dá como resposta e ir refinando.”

Fábio usa o GitHub Copilot, integrado em seu ambiente de desenvolvimento. Com a ferramenta, a programação bruta dá lugar a uma tarefa mais estratégica: ele define a lógica e orienta o que precisa ser feito, terceirizando à máquina o trabalho “braçal”. “Em vez de digitar uma função no código que vai ter sei lá quantas linhas, eu explico o que quero para obter uma resposta com maior qualidade.”

IA moldando o comportamento

Na mais recente onda de demissões na Microsoft, 6 mil funcionários perderam seus empregos, inclusive no Brasil. Em 2024, o setor global de tecnologia dispensou aproximadamente 280 mil funcionários, ao mesmo tempo que teve um investimento recorde em IA. De acordo com o AI Index Report 2025, da Universidade Stanford, o investimento corporativo privado na tecnologia totalizou US$ 252,3 bilhões no ano passado, representando um aumento de 44,5% em relação a 2023.Camila, que trabalha com design — uma das áreas mais afetadas pela expansão da IA generativa — foi dispensada recentemente de um cargo de liderança. Ela, no entanto, não encara a IA como uma ameaça direta, mas como uma oportunidade.

A designer lembra que a história já assistiu a outras transformações tecnológicas que mudaram profissões criativas, como a substituição de tipógrafos pela impressão automatizada. “Então, a cada momento histórico que a gente tem de evolução tecnológica, a gente vive de novo esse cenário.” Para ela, a questão não está apenas na ferramenta, mas no quanto o profissional consegue ir além da superfície. “Profissionais que se apegam apenas a uma única forma de fazer as coisas tendem a ficar para trás.”

Bergamini adota um tom de alerta mais intenso. “Uma coisa que me preocupa bastante é o quanto a capacidade intelectual cognitiva da sociedade vai diminuir conforme nós usamos mais IA e deixamos de ter um raciocínio crítico.” Para ele, a facilidade trazida por essas ferramentas pode gerar uma acomodação perigosa.

Ele compara o uso da IA à calculadora: uma ferramenta que, apesar de muito útil, raramente levanta questionamentos sobre seus efeitos na cognição humana. “Da mesma forma que a gente usa uma calculadora para fazer uma conta mais complexa e não se pergunta se isso está prejudicando a nossa capacidade de fazer conta de cabeça — que certamente está —, a IA é uma ferramenta que a gente usa para facilitar o dia a dia.

O ponto de maior preocupação para Bergamini está na formação de novos profissionais. “Quando eu leio um código gerado por IA e ele não é bom, eu percebo. Mas o que acontece quando um estagiário ou um analista júnior faz isso? Essas pessoas vão ter a capacidade de olhar o código e criticar?” Por isso, insiste com sua equipe sobre a importância do uso consciente. “Aprender a usar a IA é equivalente ao que foi aprender o pacote Office na nossa geração”, compara.

Um novo tipo de alfabetização tecnológica

Se dominar a IA será o novo “pacote Office”, o desafio está em preparar as pessoas para esse novo contexto. Diogo Cortiz, pesquisador de IA e professor da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), chama esse momento de “digitalização 2.0”.

Ele explica que, assim como nos anos 1990 surgiram escolas de informática que ensinavam a usar editores de texto, planilhas e e-mail, será preciso desenvolver estratégias semelhantes para o letramento em IA. “A gente sabe que a IA vai trazer perturbações para o mercado de trabalho, mas elas serão ainda mais duras para quem não usa. E a gente vai precisar fazer esse processo de qualificação.”

O uso da tecnologia, contudo, ainda avança no Brasil sem um plano claro de adaptação econômica, com o Projeto de Lei 2.338, de 2023, conhecido como Marco da IA, que propõe sua regulamentação, ainda em debate na Câmara dos Deputados. “Todos os países vão precisar fazer isso. Mas não há nenhuma estratégia um pouco mais nítida sobre esse processo de transformação e adaptação econômica”, diz Cortiz.

“Aprender a usar a IA é equivalente ao que foi aprender o pacote Office na nossa geração”

Fábio Bergamini

engenheiro que usa IA em sua road trip

A expectativa, segundo ele, é de que políticas públicas só surjam de forma reativa, conforme os efeitos da tecnologia se tornem visíveis. “Conforme a tecnologia for sendo implementada e as empresas forem vendo alguns ganhos de produtividade em um segmento e não em outro, empregos começarem a ser deslocados, aí sim, acho que os governos vão precisar antecipar isso e criar cenários e políticas públicas de como responder.”

Esse processo de formulação, no entanto, deve levar em conta mais do que os impactos econômicos. É preciso observar as mudanças sutis — e muitas vezes invisíveis — no comportamento social. “A gente pode assumir que a IA já vem influenciando nosso comportamento há muito tempo de forma mais oculta”, afirma Cortiz. Mas com a chegada do ChatGPT ao grande público, a transformação se tornou visível.

A difusão em larga escala marca uma mudança de paradigma. O ChatGPT, por exemplo, já está entre os sites mais acessados do Brasil. Para Cortiz, essa mudança afeta diretamente o modo como as pessoas buscam e processam informações. “Em vez de entrar em um buscador, elas já perguntam para o chatbot, que responde com uma resposta mastigada, imediata.” Embora isso represente uma conveniência, ele alerta que há riscos envolvidos: “Será que as pessoas estão confiando demais em uma resposta que pode estar errada?” 

Ele também aponta para a perda de diversidade na navegação cotidiana. “Será que ela não está perdendo uma pluralidade maior de comportamento, de informação, de conteúdo, de pontos de vista?”, questiona.

Esse novo cenário é marcado por uma imprevisibilidade. “O que mais importa nesse processo de mudança tecnológica não é a tecnologia em si, é principalmente o uso que as pessoas vão fazer”, diz Cortiz. “Tem gente usando para fazer currículo, outras pessoas como um terapeuta. Tem quem já não consiga mandar um e-mail sem passar pelo ChatGPT, porque perdeu esse senso crítico”, aponta.

Diante deste cenário, o Brasil vive uma contradição: é um país com alta conectividade, mas baixa alfabetização digital. Quais são as consequências disso? Para Dora Kaufman, que estuda os impactos da IA no Brasil, a falta de entendimento básico sobre o funcionamento dessas tecnologias abre caminho para seu mau uso — e para riscos à democracia.

“O que mais importa nesse processo de mudança tecnológica não é a tecnologia em si, é principalmente o uso que as pessoas vão fazer dela”

Diogo Cortiz

pesquisador de IA e professor da PUC-SP

“Eu tenho insistido que a regulamentação é fundamental, mas a grande mudança vai ser quando alfabetizar as pessoas em relação ao que é IA”, afirma. Ela defende uma campanha nacional ampla, liderada pelo setor público e com apoio das empresas de tecnologia, para explicar à população o que é IA, como funciona e o que ela é (ou não) capaz de fazer.

Os maiores riscos atuais da IA

“Hoje, os maiores riscos em relação à IA não estão mais na tecnologia em si, mas no desconhecimento de como usá-la — ou no uso intencional para fins nocivos”, alerta Dora. Isso se torna especialmente perigoso em contextos como as eleições, onde a IA pode ser usada para hiperpersuasão ou manipulação.

Ela também defende medidas de letramento digital como forma de mitigar os efeitos da desinformação em larga escala. “Se as pessoas souberem que é possível gerar imagens e falas falsas com altíssimo grau de realismo, elas vão refletir mais antes de compartilhar”, afirma. Em sua visão, o letramento não substitui a regulação, mas precisa caminhar junto com ela.

Durante a ascensão das redes sociais isso não foi feito. A população foi lançada nesse novo ambiente repleto de possibilidades sem a devida orientação — o que resultou em muitos casos de mau uso, intensificados por algoritmos desenhados para engajar a qualquer custo. O resultado foi um ecossistema em que a manipulação se tornou rotina. Com a IA, surge o risco de repetir os erros do passado, como aqueles que culminaram na proliferação de fake news e discursos de ódio ao longo da década de 2010.

Apesar dos riscos, há quem veja sinais de maturidade nesse novo ciclo. Para o pesquisador Diogo Cortiz, a sociedade já carrega uma visão mais crítica sobre a tecnologia. “Eu acho que agora a gente tem um senso crítico muito maior. Não todo mundo, mas tomadores de decisão, pesquisadores, formuladores de políticas públicas”, afirma.

Esse olhar mais atento, diz Cortiz, tem raízes até mesmo na cultura pop. “A ficção científica ajudou a preparar o imaginário. Livros e filmes mostraram a IA com uma pegada mais distópica.” Isso, na avaliação dele, ajuda a antecipar problemas e reforça a importância de um debate contínuo e crítico. “A tecnologia vai trazer benefícios, mas também vai gerar impactos. Se a gente antecipar esses problemas, vamos estar mais preparados para lidar com eles.”Para Camila, a IA já representa uma perspectiva de recomeço e uma nova forma de empreender: quer transformar o livro criado para o filho em um modelo de negócios. Desempregada, ela tem apostado na criação de livros infantis para colorir personalizados com IA. O projeto, chamado Eita Lelê, surgiu enquanto refletia após a demissão. “Foi um momento em que eu ainda não tinha certeza sobre minha recolocação no mercado”. Depois de um período de longas jornadas de trabalho, ela diz que reencontrar tempo com os filhos tem feito a diferença. E a IA acabou fazendo parte do processo.

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Brasileiros já convivem com IA há anos, mas ChatGPT turbinou curiosidade; letramento vira desafio – Estadão

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