China põe foco em superar gargalos que freiam avanço de sua indústria

Apesar de sua habilidade, país não consegue solucionar fragilidades em dezenas de pontos tidos como pilares imprescindíveis da manufatura moderna

Por Edward White e Harry Dempsey — Valor/Financial Times – 08/07/2025

No início dos anos 50, quando o Partido Comunista se propôs a reconstruir uma China devastada por anos de guerra, Mao Tsé-tung, o herói revolucionário e presidente do partido, fez uma avaliação muito franca sobre o estado desalentador da indústria nacional: “Podemos fazer mesas e cadeiras, xícaras e bules… Mas não podemos produzir um único automóvel, avião, tanque ou trator.”

Em pouco tempo, a Fábrica de Tratores Nº 1 e uma fábrica de rolamentos adjacente foram estabelecidas em Luoyang, uma cidade muito antiga da Província de Henan, na região central do país. Esse era um dos 156 projetos industriais previstos no Primeiro Plano Quinquenal do partido, de acordo com Karina Khasnulina, da Universidade de Leipzig. Apenas uns poucos anos depois, em 1958, o primeiro trator de manufatura chinesa, batizado de Dongfang Hong – “O Oriente é Vermelho” – saía da linha de montagem.

Passados 70 anos, a China hoje é uma potência mundial, a segunda maior economia do mundo e uma das duas verdadeiras superpotências militares. E ainda assim, como seus líderes em Pequim têm plena consciência, o país não conseguiu superar dezenas de “gargalos” industriais.

De um ponto de vista ocidental, a boa notícia é que, em última análise, esses gargalos têm dificultado o esforço da China para alcançar a independência e a deixam vulnerável à pressão dos EUA em uma época de guerras comerciais e controles de exportação.

Esses obstáculos incluem não só os chips de computador de ponta, como também uma série de componentes e materiais obscuros que são pilares imprescindíveis da manufatura moderna.

A má notícia, ao menos para o Ocidente e suas empresas, é que a China está resolvendo esses problemas de maneira metódica e sistemática e tem usado ferramentas como a inteligência artificial para avançar de maneira mais rápida.

As principais empresas europeias, japonesas e americanas, que costumavam estar protegidas da concorrência da China por causa dos problemas de qualidade e de produção inconsistente das fábricas chinesas, hoje estão em alerta máximo.

“O que nos deveria fazer parar para pensar é que a dinâmica da dependência tecnológica da China em relação ao Ocidente está mudando muito rápido”, diz Elisa Hörhager, representante-chefe na China da Bundesverband der Deutschen Industrie (BDI), a federação representativa dos interesses das indústrias alemãs na China.

“Muitas empresas estrangeiras ainda têm uma clara vantagem quando se trata de produtos industriais de grande qualidade, graças à sua reputação em termos de precisão e excelência em engenharia. Mas as concorrentes chinesas caminham rápido para alcançá-las.”

Vários gargalos, como a manufatura de semicondutores avançados, ainda estão a anos, se não a décadas, de serem superados, mas outros parecem estar perto de uma solução. Entre eles, produtos como fibra de carbono usada na aviação e rolamentos.

No mês passado, o presidente da China, Xi Jinping, escolheu as instalações da encarnação atual da fábrica da era Mao em Luoyang, hoje operada pelo estatal Luoyang Bearing Group, para lançar um chamamento à China para resolver todos os eventuais gargalos que ainda restam.

A visita do líder mais poderoso da China desde Mao a Luoyang foi tanto simbólica como oportuna.

Sucessivos presidentes americanos têm expandido de forma contínua os controles de exportação para restringir o acesso a tecnologias de ponta, temerosos de que o poderio tecnológico da China beneficie as forças armadas do país e ameace a segurança nacional dos EUA.

Para Kyle Chan, pesquisador especializado em política industrial chinesa da Universidade de Princeton, esses controles – ou a ameaça de impô-los – levaram Pequim a investir mais recursos na mitigação de suas vulnerabilidades do que faria se a situação fosse diferente.

A motivação para Xi buscar a autossuficiência industrial da China só se intensificou desde que o presidente Donald Trump voltou à Casa Branca e deu início a uma guerra comercial mundial que ameaça acelerar o desacoplamento das duas maiores economias do mundo.

“Desde a nossa velha dependência de fósforos, sabão e ferro importados para nos tornarmos hoje o maior país manufatureiro do mundo, com o leque mais completo de categorias industriais, temos seguido o caminho certo”, disse Xi a engenheiros e técnicos de rolamentos em Luoyang.

“A China precisa continuar a aprimorar nosso setor manufatureiro, insistir na autossuficiência e no autoaperfeiçoamento [e] dominar as tecnologias de base fundamentais.”

A China deve aprimorar seu setor manufatureiro e dominar as tecnologias de base”

— Xi Jinping

Em um parque empresarial sem nada de particular nos arredores de Hangzhou, no leste da China, há sinais de que uma revolução industrial silenciosa está em andamento.

Uma equipe de engenheiros chineses da DeepVision Technology está reaproveitando uma tecnologia de processamento de imagem desenvolvida originalmente para cirurgias gástricas para resolver um problema que tem frustrado teimosamente os engenheiros chineses há décadas: como fabricar rolamentos de alta qualidade e em grande escala.

Rolamentos de alta qualidade são cruciais para reduzir o atrito em todo tipo de equipamentos, desde trens de alta velocidade e máquinas de perfuração de túneis até veículos elétricos, robôs humanoides e drones.

Cosimo Ries, analista de energia da consultoria Trivium China, chama atenção para o fato de que, no caso de máquinas como as turbinas eólicas de alto mar – que hoje são construídas com quase 200 metros de altura e precisam durar em torno de 25 anos -, os fabricantes de rolamentos lidam com “exigências de confiabilidade inacreditáveis”, pois seus produtos precisam aguentar pesos e pressões “enormes”.

A China é de longe o maior mercado individual de rolamentos do planeta. Mas em termos mundiais as empresas que dominam o setor, avaliado em US$ 53 bilhões, são a sueca SKF, a alemã Schaeffler, o grupo americano Timken e as japonesas NSK, NTN e JTEKT.

As seis maiores fabricantes respondem por cerca de 55% do mercado mundial de rolamentos, de acordo com o relatório anual da SKF, que tem sede em Gotemburgo. A fatia dos grupos chineses é de cerca de 25%.

Um estudo de 2020 realizado por pesquisadores da Universidade de Ciência e Tecnologia de Wuhan observou uma “disparidade significativa” entre as empresas chinesas e suas rivais suecas e japonesas em termos de controle do grau de defeitos microestruturais e da precisão dimensional. De acordo com um ensaio investigativo do grupo chinês de investimento Kai Yuan Securities, publicado quatro anos depois, produtos de média e alta qualidade ainda respondiam por apenas cerca de 20% da produção total dos fabricantes chineses de rolamentos.

Em um escritório no alto de sua fábrica, Wang Shuailin, o animado fundador da DeepVision, de 38 anos, conta de maneira resumida como sua equipe combina um chip de inteligência artificial com sensores de imagem para identificar defeitos de formato, tamanho e estrutura em um rolamento que pode medir tão pouco como 2 micrômetros – 0,002 milímetros.

O sistema de inspeção da DeepVision, segundo ele, tem melhorado radicalmente o controle de qualidade para seus clientes, entre os quais a fábrica de Luoyang.

Wang diz que um cliente chinês viu sua “taxa de qualificação”, ou seja, a porcentagem de rolamentos que fabrica e são bons o suficiente para serem vendidos a clientes, saltar de menos de 90% para 97%.

Outro cliente, que antes recebia até 400 reclamações de clientes por ano a respeito da qualidade de seus produtos, hoje recebe apenas duas ou três, ao mesmo tempo em que os requisitos de pessoal para fazer a inspeção caíram de 150 para apenas algumas pessoas.

“Existe um estereótipo injustificado de que a China não tem competência para produzir esses tipos de máquinas de alta precisão”, afirma Wang.

Ele admite que as rivais estrangeiras acumularam vantagens tecnológicas por um longo período de tempo, mas acredita que, quando se trata da introdução da inteligência artificial na manufatura, iniciada por volta de 2017, 2018, todas estão “começando do mesmo patamar”.

“E hoje a China tem adotado essas tecnologias mais rápido, portanto nossos produtos serão melhores”, acrescenta.

Uma pesquisa da consultoria China Policy, encomendada pela BDI e publicada em maio, mostrou que as 4 milhões de fábricas chinesas estão apenas começando a perceber o impacto causado pelo tipo de aplicação industrial da inteligência artificial apresentada pela DeepVision.

Mas isso pode mudar logo, já que Pequim estabeleceu a meta de alcançar um nível avançado de manufatura inteligente na maioria das grandes fábricas nos próximos 10 anos.

Mesmo assim, no cenário atual os maiores fornecedores estrangeiros de rolamentos mantêm uma vantagem técnica expressiva sobre a China.

Isso é verdade em especial no caso da produção de componentes vitais para máquinas que precisam funcionar por longos períodos e em ambientes ou temperaturas extremos, como no espaço ou em instalações químicas. Mas mesmo as empresas mais dominantes do setor estão preocupadas com o avanço chinês.

Vivian Wang, chefe de marketing da SKF na China, cita como exemplo a história das vendas de rolamentos na China por seu grupo, que começou em torno de 1912, logo depois do fim da Dinastia Qing, que durou 268 anos. Ela salienta a forte presença do grupo no país, com nove instalações fabris, 6 mil funcionários e um alto índice de uso de cadeias de fornecimento locais em todas as suas operações.

“Reconhecemos as capacidades crescentes de nossas concorrentes, inclusive as da China, mas agimos a partir de uma posição de vantagem”, afirma.

Sadatsune Kazama, vice-gerente geral de design de produtos para rolamentos da NTN, que tem sede em Osaka e é a quarta maior fabricante de rolamentos do mundo, diz que hoje os grupos chineses estão no mesmo nível dos líderes do setor em termos de tecnologia de manufatura, mas ainda ficam atrás deles quando se trata de capacidades de design.

“As pessoas costumavam ter a impressão de que os produtos chineses, e não só os rolamentos, eram baratos, mas de menor qualidade… Acho que hoje em dia já não há muita diferença.”

De qualquer forma, ele argumenta que as empresas japonesas ainda são superiores em critérios de qualidade, confiabilidade e suporte pós-venda de longo prazo. “Fabricamos rolamentos há 100 anos e temos feito isso com base na vasta experiência que acumulamos.”

Uma autoridade da área de política industrial do governo japonês, que pediu para não ter seu nome revelado, sugere que a qualidade chinesa ainda precisa passar pela prova do tempo.

“É incrível o quanto a China evoluiu. Mas não faz nem 20 anos que os chineses começaram a fabricar tecnologia de precisão. Os produtos precisam durar mais de 30 anos, portanto ainda não sabemos qual a durabilidade de seus produtos”, explica. (Tradução de Lilian Carmona)

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Drones submersos: como os narcossubmarinos não tripulados poderão redefinir o tráfico internacional de drogas

O que começou há décadas como uma tática de contrainsurgência logística evoluiu para uma ameaça sofisticada e eficiente

Roberto Uchôa de Oliveira Santos – Folha – 6.jul.2025 

Pesquisador e doutorando, Centro de Estudos Sociais, Universidade de Coimbra

The Conversation

A guerra global contra as drogas entrou numa nova e inquietante fase. Em julho de 2025, a apreensão do primeiro narcossubmarino não tripulado e guiado remotamente, feita pela Marinha da Colômbia, assinalou mais do que uma operação bem-sucedida contra o narcotráfico. Representou também a materialização de uma mudança de paradigma tecnológico e estratégico. O que começou há décadas como uma tática de contrainsurgência logística dos cartéis colombianos evoluiu para uma ameaça sofisticada que agora visa diretamente o tráfico transoceânico, com uma eficiência sem precedentes.

A imagem mostra duas embarcações ancoradas em um corpo d'água. A embarcação à esquerda é longa e estreita, com uma cor verde desgastada, enquanto a embarcação à direita é mais compacta e de cor cinza, com um nome visível na lateral. Ambas estão próximas uma da outra, refletindo na água calma.

Submarino capturado pela Marinha do México no estado de Guerrero, na costa do Pacífico, com 3,5 toneladas de cocaína – 27.jun.25 – AFP/Mexican Navy

A evolução de uma ameaça submersa

O conceito de narcossubmarino nasceu da necessidade. No final do século 20, a intensificação da vigilância em portos e aeroportos forçou os cartéis colombianos a procurar um novo domínio para o transporte de cocaína: o ambiente submarino. As primeiras embarcações, construídas em estaleiros clandestinos nas profundezas da selva, eram rudimentares. Com o tempo, evoluíram para semissubmersíveis de propulsão própria (SPSS), projetados para navegar com um perfil mínimo acima da água, tornando-os quase invisíveis a olho nu e de difícil detecção por radar.

A operação Maré Negra, em novembro de 2019, que culminou na primeira apreensão de um narcossubmarino na Europa, ofereceu um vislumbre das condições desumanas a bordo. Uma tripulação de três homens navegou quase 6.500 quilômetros do Brasil à Espanha numa embarcação artesanal de 22 metros, o Che. Durante quase um mês, enfrentaram tempestades, saneamento inexistente e um ambiente claustrofóbico, motivados por uma carga de três toneladas de cocaína avaliada em centenas de milhões de euros. Este caso ilustra o modelo de negócio de alto risco das organizações criminosas, onde as tripulações são tratadas como ativos descartáveis.

O pivô Transatlântico: a Europa como destino primário

Enquanto as rotas do Pacífico para os Estados Unidos permanecem ativas, a última década testemunhou um monumental pivô estratégico em direção ao mercado europeu. Impulsionadas por preços mais elevados e margens de lucro maiores, as organizações criminosas estabeleceram uma robusta ponte transatlântica. As apreensões de cocaína na Europa superam agora as dos Estados Unidos, confirmando a mudança de foco.

Nesta nova geografia, o Brasil tornou-se um “pivô” logístico fundamental. A sua vasta costa atlântica e a presença do PCC (Primeiro Comando da Capital) criaram a plataforma de lançamento perfeita. O narcotráfico moderno opera agora num ecossistema descentralizado, semelhante a uma franquia global. Cartéis colombianos atuam como “produtores”, enquanto o PCC se estabeleceu como o principal “franqueado” de logística para o Atlântico, com presença estabelecida na África e na Europa para facilitar a distribuição.

A Península Ibérica é o principal portal de entrada. A costa acidentada da Galícia, em Espanha, tornou-se um destino ideal. Após a interceptação do Che em 2019, um segundo submarino, o Poseidon, foi descoberto em março de 2023. Embora vazio, a descoberta de lanchas rápidas (“narcolanchas”) nas proximidades sugere que a sua carga foi transferida com sucesso em alto-mar antes de a embarcação ser afundada, demonstrando um método operacional refinado.

Portugal consolidou-se como outro ponto de entrada crucial. Em março de 2025, a operação Nautilus interceptou um semissubmersível a 900 quilômetros dos Açores com uma carga massiva de 6,6 toneladas de cocaína. A interdição, realizada em pleno oceano, foi um sucesso notável, impedindo que a tripulação multinacional, composta por brasileiros, um colombiano e um espanhol, afundasse a embarcação. A rota, partindo da foz do rio Amazonas no Brasil com destino a Portugal, sublinha a natureza e a escala destas operações transnacionais.

A mudança de paradigma: a era do ‘submarino fantasma’ não tripulado

A apreensão do primeiro “drone submersível” do narcotráfico em julho de 2025, no Caribe colombiano, representa uma ruptura tecnológica. A embarcação, atribuída ao Clã do Golfo, foi encontrada vazia, provavelmente numa “fase de teste”. Esta descoberta confirmou os receios dos serviços de inteligência, que há anos monitorizavam os esforços das organizações criminosas transnacionais para desenvolver submarinos não tripulados.

A sofisticação do protótipo reside na sua tecnologia. Equipado com uma antena de internet via satélite da Starlink, podia ser pilotado remotamente a partir de qualquer lugar do mundo, um salto quântico em relação aos sistemas de comunicação anteriores. O seu design hidrodinâmico e de baixo perfil torna-o extremamente furtivo e quase imune à detecção por radar.

A transição para sistemas não tripulados altera drasticamente a análise de risco-recompensa para as organizações criminosas. A principal vantagem é a eliminação do risco humano. Em caso de captura, a perda é puramente material; não há tripulação para ser presa e interrogada.

O elo mais fraco da cadeia operacional é removido, criando enormes obstáculos processuais e tornando a atribuição de responsabilidade penal quase impossível. Livres das restrições biológicas, estes UUVs (Veículos submarinos não tripulados) podem realizar missões mais longas e arriscadas, tornando o modelo de negócio global mais eficiente e resiliente.

O campo de batalha assimétrico e o futuro da narcoguerra

A luta contra os narcossubmarinos é um exemplo clássico de guerra assimétrica. A sua construção em fibra de vidro e o design de baixo perfil tornam-nos “quase invisíveis” aos sistemas de radar e sonar. A Guarda Costeira dos EUA estima que apenas um em cada quatro é interceptado, uma taxa que permite que um volume massivo de drogas chegue ao seu destino.

Dada a dificuldade de detecção, a estratégia mais viável é uma abordagem focada em inteligência para desmantelar as redes em terra, através da cooperação internacional, do controle de materiais precursores e do rastreio financeiro. No entanto, a ameaça continua a evoluir. As trajetórias futuras apontam para o uso de enxames de UUVs para saturar as defesas, navegação autônoma alimentada por IA para evitar patrulhas, e embarcações totalmente elétricas e submersíveis, que seriam virtualmente indetectáveis.

O narcossubmarino evoluiu de uma ferramenta tática improvisada para uma arma estratégica de primeira ordem no arsenal do crime organizado transnacional. A chegada dos sistemas não tripulados marca o início de uma nova era de narcoguerra, onde a tecnologia, a furtividade e a negação plausível conferem uma vantagem assimétrica avassaladora às organizações criminosas transnacionais.

A resposta dos Estados não pode ser reativa. É necessária uma transição urgente de uma estratégia de interdição física para uma de disrupção de redes, baseada em inteligência, domínio tecnológico e inovação jurídica. O fracasso em adaptar-se a esta nova realidade submersa garantirá que as organizações criminosas continuem a navegar, invisíveis e impunes, sob as ondas da segurança global.

Como narcossubmarinos podem redefinir o tráfico de drogas – 06/07/2025 – Cotidiano – Folha

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Brasil tem menos calouros em Engenharias do que há dez anos e maioria entra em cursos EAD

Graduações a distância viram opção mais acessível, mas especialistas se preocupam com a garantia de experiências práticas e qualidade da oferta; governo prepara novas regras para a modalidade

Por Isabela Moya – Estadão – 20/01/2025

Em dez anos, o Brasil viu diminuir em 23% o total de calouros nas Engenharias, que prepara profissionais para áreas cruciais no desenvolvimento do País, como transição energética e uso da inteligência artificial. Em 2014, eram 469,4 mil ingressantes em graduações da área, número que caiu para 358,4 mil em 2023, último ano com dados disponíveis.

Entre os motivos para o baixo interesse está a dificuldade em Matemática e a dificuldade de tornar as aulas mais conectadas com a vida real. Especialistas veem o risco de apagão de profissionais em alguns setores.

Além de menor quantidade, o perfil mudou – são cada vez mais cursos a distância (EAD). Em 2014, era de 5,9% a fração de ingressantes na modalidade – e saltou para 54% após uma década. Em 2023, pela primeira vez, o EAD superou o presencial – o Ministério da Educação (MEC) prepara novas regras para as graduações remotas.

Nesta semana, os estudantes que fizeram do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) estão escolhendo seus cursos no Sistema de Seleção Unificada (Sisu), plataforma que reúne as vagas em universidades públicas.

Em 2023, número de calouros em cursos de Engenharia a distância superou o total de ingressantes em graduações presenciais pela primeira vez 

Diferentemente de cursos como Direito ou Medicina, um engenheiro pode se formar quase totalmente a distância. A exigência é de 10% da carga horária em atividades de extensão (nos polos ou em campo) e avaliações presenciais, além do estágio.

O EAD, que abrange cursos com grade curricular de 41% a 100% a distância, ganhou força após a flexibilização de regras para abrir graduações em 2017, e a pandemia, que fez os alunos experimentarem aulas remotas.

É opção mais barata e acessível, principalmente para quem mora em áreas distantes, mas sofre questionamentos sobre sua qualidade. O Conselho Federal de Engenharia e Agronomia (Confea) defende uma cota mínima de classes presenciais (leia mais abaixo).

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Os motivos para escolher Engenharia a distância não diferem do que é visto em outras áreas: flexibilidade de horários, comodidade, preço mais baixo e chance de conciliar com o trabalho.

É o caso de Millena Silva, do 9º semestre de Engenharia Ambiental. Ela saiu de Pindamonhangaba (SP) para estudar na Universidade Federal do Pampa (Unipampa), no Rio Grande do Sul, em 2019. No 2º ano da graduação, o coronavírus impôs aulas remotas.

Em 2022, na volta do presencial, Milena não retornou por questões financeiras – viver em outro Estado era caro e ela conseguiu trabalho na cidade natal -, além de ter se adaptado ao ensino remoto. Pediu transferência para uma faculdade particular a distância.

“O que sinto falta é que no presencial tinha bastante contato com laboratórios”, diz ela, de 26 anos. “Para mim, que já tive experiência no laboratório e nas visitas em campo, foi mais tranquilo o EAD. Mas para quem tem o primeiro contato a distância é mais complicado.”

A jovem afirma também que o estágio ajuda a ter contato com a prática. Mesmo assim, não recomenda entrar direto no remoto. “Tem de ser focado no que quer para estudar a distância, gerenciar a rotina”, continua.

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Quem escolhe o EAD?

Acima dos 30 anos, casados, que já trabalham e com renda familiar de até 3 salários mínimos – este é o perfil dos alunos da Universidade Virtual do Estado de São Paulo (Univesp), instituição pública EAD. Nas faculdades presenciais, a maioria é mais jovem, entra sem emprego, e tem renda maior.

A Univesp tem Engenharias de Computação e de Produção. As aulas são assíncronas (gravadas, para assistir quando puder), mas as avaliações são presenciais. Há seis disciplinas de extensão acadêmica, que devem ser presenciais em campo por meio de projetos com a comunidade, para ter experiência prática.

Para o engenheiro Marcos Borges, presidente da Univesp, a inclusão é uma vantagem: alunos de diferentes regiões do Estado, incluindo cidades com poucos habitantes, onde não há outras faculdades. “A gente consegue com EAD criar riqueza na cidade. Vai formar engenheiro lá (em cidades pequenas)”, diz.

Estamos em 370 municípios (paulistas) – desses, 220 não têm faculdade presencial. Ou eles estudam EAD ou não estudam em nível superior. Isso em São Paulo, um Estado super-rico.

Marcos Borges, presidente da Univesp

O MEC estima que em 2024 o total de matriculados no EAD em todas graduações supere o de alunos do presencial. Para as engenharias, essa transformação leva mais tempo, por ser um curso mais longo.

Engenheiro vira uber? ‘Perda de essência da profissão’, diz presidente de entidade dos Politécnicos

O governo, porém, diz que vai propor em breve um novo marco regulatório: “referenciais de qualidade, decreto, portarias e instrumentos de avaliação que, certamente, provocarão alterações das regras de oferta de todos os cursos de graduação a distância, não só para os de Engenharia”, segundo a pasta.

O Conselho de Engenharia e Agronomia é contrário à formação 100% online. “O ensino remoto permite a democratização do ensino, mas dentro disso há a preocupação com a qualidade e a capacidade do profissional”, diz Vinicius Marchese, presidente da entidade. “São profissões que incorrem em risco à vida.” Para o Confea, o ensino híbrido – combinação do remoto com o presencial – é boa alternativa.

Já na visão do presidente da Univesp, uma cota obrigatória de aulas presenciais é inviável para parte da população”, como a “mãe solo que não tem com quem deixar a criança, o aluno surdo que precisa do Libras, o aluno cego que precisa da legenda, o aluno que tem autismo e se sente desconfortável no meio de muita gente”. Para ele, a mudança nessa direção “tira o sonho de milhares”.

“Tem EAD bom e ruim, assim como presencial bom e ruim”, afirma Borges. “O MEC tem de atuar para evitar abusos de cursos que não têm a menor qualidade, que não ensinam nada. Mas isso não é específico do EAD nem mesmo do EAD privado. É de faculdades não sérias”.

E por que há menos jovens interessados na área?

Segundo a professora da Escola Politécnica da USP Roseli Lopes, a queda de interesse pelas Engenharias é fenômeno global, que ocorre pelo fato de ser um curso considerado difícil, com duração de ao menos cinco anos. E hoje há oferta grande de outras possibilidades com inserção mais rápida no mercado de trabalho.

“A certificação de Engenharia tem o objetivo de formar profissionais com maior grau de responsabilidade que vão, inclusive, coordenar equipes de pessoas com formação técnica”, diz ela, diretora da Associação Brasileira de Ensino de Engenharia (Abenge).

Para reverter esse desinteresse, o Confea quer atualizar a grade curricular para tornar os cursos mais atrativos. A ideia é incluir mais disciplinas práticas e promover interdisciplinaridade por meio da interação não só entre Engenharias, como também outras profissões, como as da Saúde.

“Os cursos não podem ser chatos, onde o jovem de hoje, a geração Z, fica três ou quatros anos estudando teoria, para enxergar onde vai aplicar na prática”, diz o presidente do conselho.

“É preciso trazer problemas da vida real, com impacto nas comunidades; aproximação maior com a indústria, em projetos de inovação nas empresas; ensinar habilidades sociais e incentivar o trabalho em equipe”, acrescenta Roseli.

TechLab do Insper é um espaço usado pelo curso de Engenharia voltado para a indústria 4.0, conceito de produção que engloba novas tecnologias .Atividades práticas são vistas, por alguns especialistas, como essenciais para a formação

TechLab do Insper é um espaço usado pelo curso de Engenharia voltado para a indústria 4.0, conceito de produção que engloba novas tecnologias .Atividades práticas são vistas, por alguns especialistas, como essenciais para a formação Foto: Daniel Teixeira/Estadão

Coordenador das engenharias Química e de Materiais da Universidade Presbiteriana Mackenzie, Renato Meneghetti defende também mais projetos de extensão universitária. Ressalta ainda que a “aprendizagem passiva”, sem “mão na massa”, contribui para a evasão.

Outro fator que afasta os jovens é a defasagem em Matemática, especialmente após a pandemia. O Brasil é um dos países com piores índices de aprendizado na disciplina.

Muitas faculdades fazem reforço das matérias básicas para recuperar a aprendizagem e nivelar os calouros. “Se não toma medida nesse aspecto, o estudante com déficit reprova, reprova, e se transforma em evasão”, afirma Meneghetti, que diz ver lacunas até de alunos vindos de “bons colégios”.

Na Univesp, a disciplina de Cálculo não é dada no 1º semestre. No lugar, há revisão dos conteúdos de Matemática de nível de ensino médio.

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Somada à baixa de recém-formados, há migração de engenheiros para outras áreas, como o mercado financeiro, onde há maior remuneração.

“Corre o risco de ter apagão profissional. Temos uma agenda de sustentabilidade, de energias renováveis, eletrificação, que passa pelas áreas de engenharia. E colocamos cada vez menos profissionais novos no mercado”, completa Meneghetti.

Desde 2014, houve queda no interesse pelas Engenharias, que teve leve recuperação só em 2022. Especialistas afirmam que disciplinas mais práticas podem elevar interesse dos jovens na área e reduzir evasão

Desde 2014, houve queda no interesse pelas Engenharias, que teve leve recuperação só em 2022. Especialistas afirmam que disciplinas mais práticas podem elevar interesse dos jovens na área e reduzir evasão Foto: Gastão Guedes/Fatec

Escolheu Engenharia no Sisu? Entenda por que área tem recebido nº menor de novos alunos – Estadão

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A fusão do trabalho humano e máquinas inteligentes nas organizações. Você está preparado?

O assunto está no radar de todos os setores de atividades, e o desafio da escassez de talentos digitais está presente em todas as áreas do conhecimento

Por Marisa Eboli – Estadão – 25/06/2025

Em praticamente todas as áreas do conhecimento, houve um crescimento significativo da preocupação com a Inteligência Artificial (IA). Esse aumento não se limita ao campo da tecnologia, mas se estende a disciplinas como Direito, Medicina, Educação, Filosofia, Ciências Sociais, Artes e até mesmo Teologia. A IA provocou uma transformação transversal, exigindo reflexões éticas, políticas, sociais e filosóficas em todos os domínios do saber.

Embora a IA exista como campo de estudo formal desde 1956, quando o termo foi cunhado, suas ideias fundamentais são ainda mais antigas. Sem retornar à Antiguidade, basta voltarmos ao século XVII, quando filósofos como Descartes e Leibniz já especulavam sobre o pensamento como um processo mecânico. No século XIX, Ada Lovelace escreveu o primeiro algoritmo publicado destinado a ser processado por uma máquina — a máquina analítica de Charles Babbage — antecipando a lógica dos programas modernos.

Já os fundamentos da Inteligência Artificial moderna remetem a Alan Turing, que foi o primeiro a indagar se máquinas poderiam pensar. O Teste de Turing foi um experimento teórico por ele proposto, para avaliar se uma máquina podia exibir comportamento inteligente indistinguível do de um ser humano. “As máquinas podem pensar?” — é a pergunta que abre seu famoso artigo Computing Machinery and Intelligence (1950). Suas ideias são as raízes mais profundas da IA contemporânea.

Foi a partir de 2010, contudo, que ocorreu uma verdadeira explosão do deep learning, big data, assistentes de voz (como Siri e Alexa), diagnósticos médicos automatizados, carros autônomos, sistemas generativos como o ChatGPT, entre outros.

Desde 1999, ou seja, há mais de duas décadas, dedico-me a atividades de ensino, pesquisa, publicação de artigos e aplicação de projetos em organizações relativos à Educação Corporativa (EC) no Brasil. Atualmente, essas atividades são desenvolvidas no âmbito do Programa de Gestão da Educação Corporativa da FIA (PROGEC-FIA).

Em todas as minhas áreas de atuação relacionadas à EC, a importância da Inteligência Artificial e a correspondente preocupação associada ao tema vem crescendo de forma notável.

O artigo “The Transformer CLO”, publicado pela Harvard Business Review (2020), discute uma profunda transformação no papel do Chief Learning Officer (CLO), ou Gestor de Educação Corporativa. Seus autores, Abbie Lundberg e George Westerman, identificam e definem o perfil do Transformer CLO, que vai muito além da responsabilidade por capacitações. Entre outros aspectos, os autores enfatizam que os CLOs devem liderar o desenvolvimento de competências digitais essenciais para preparar as organizações para um ambiente de transformação contínua. Essas competências não se limitam ao domínio técnico, mas envolvem mentalidade, comportamentos e fluência digital.

O artigo ilustra as argumentações com casos reais de várias empresas. Destaca, por exemplo, o caso do DBS Bank, que formulou uma estratégia para desenvolver, em todos os seus funcionários, sete habilidades vitais para um mundo digital: comunicação digital, metodologias ágeis, modelos de negócios digitais, compliance e riscos, pensamento de jornada, tecnologias digitais e pensamento orientado a dados.

As sete competências do DBS Bank revelam exatamente o que Lundberg & Westerman chamam de ‘competências digitais essenciais.

Nos projetos de consultoria que tenho realizado pelo PROGEC-FIA, para conceber e modelar Universidades Corporativas (UCs) ou Sistemas de Educação Corporativa (SECs), invariavelmente aparece, como uma competência estratégica a ser desenvolvida pela empresa, a Transformação Digital, o que dá origem à criação de uma academia ou escola dentro da UC.

Sempre atenta ao assunto, li recentemente o livro The Year in Tech, 2025: The Insights You Need, da Harvard Business Review (2024). Trata-se de um compêndio dos melhores artigos publicados pela HBR ao longo de 2024, sobre as tecnologias de maior impacto. O livro mostra que devemos esperar uma aceleração na tendência de fusão entre humanos e máquinas, impulsionada pelo papel cada vez mais abrangente da IA, em sinergia com outras tecnologias — da IA generativa ao futuro do trabalho, da biometria à computação espacial, de veículos elétricos à inovação industrial e sustentabilidade.

A obra traça um caminho claro em direção ao que os autores chamam de uma realidade empresarial “humanizada”, onde a fusão de humanos e máquinas inteligentes ocorre de forma integrada e em larga escala. À medida que essa convergência se acelera, novas oportunidades surgirão, juntamente com riscos crescentes.

Embora seja difícil prever o ritmo da mudança organizacional, os autores destacam que uma coisa é certa:

“Este ano, você verá uma fusão crescente e contínua da tecnologia de IA e do trabalho humano em sua organização.”

Todos os artigos da coletânea são instigantes, e recomendo a leitura, mas o capítulo que mais me interessou foi justamente o intitulado “Usando Academias Digitais para Preencher a Lacuna de Habilidades”, escrito por Rubén Mancha e Salvatore Parise.

Segundo os autores:

“Hoje, o problema que a maioria das empresas enfrenta ao executar sua transformação digital não é o acesso à tecnologia, mas a escassez de profissionais com habilidades em ciência digital e de dados. A demanda está crescendo mais rápido do que a oferta. Em outras palavras, o recrutamento só leva sua empresa até certo ponto. Para chegar ao fim do caminho, as empresas precisam se comprometer com treinamento e qualificação, dando aos funcionários oportunidades de aprender sobre tecnologias e espaço para experimentá-las (e fracassar).”

Eles acrescentam que, embora existam benefícios comprovados nos esforços internos de qualificação — como inovação, produtividade, transformação digital, engajamento e retenção de talentos — há também limitações. A aprendizagem autodirigida, por exemplo, pode aumentar a carga de trabalho dos indivíduos, sendo um esforço raramente reconhecido ou recompensado pelas organizações.

Em uma pesquisa conduzida sobre iniciativas de requalificação, os autores descobriram que as academias digitais estão entre as abordagens mais eficazes para eliminar a lacuna de competências digitais. De acordo com eles:

“Uma academia digital visa catalisar a forma como os funcionários interagem com a ciência digital e de dados, e liderar a transformação de processos, produtos e serviços.”

Eles destacam que, em geral, essas academias compartilham algumas características fundamentais:

  • São específicas para a cultura e a narrativa da empresa;
  • Ofertam programas educacionais altamente experienciais, levando em conta a dinâmica das equipes, apesar da diversidade de duração e conteúdo;
  • Abrangem toda a organização, atendendo desde novos funcionários até líderes e altos executivos;
  • Ajudam a criar e reforçar uma cultura de tecnologia e inovação, de forma que treinamentos genéricos dificilmente conseguem alcançar.

Os autores relatam cases de academias digitais desenvolvidas por empresas como DuPont, Gestamp e Deloitte, o que ajuda a compreender como essas iniciativas funcionam e o que é necessário considerar ao projetá-las.

As Academias de Transformação Digital destacadas no livro representam uma abordagem proativa e sistêmica para capacitação, alinhando o aprendizado às reais necessidades organizacionais atuais e futuras.

Em minha prática profissional vejo algo semelhante quando da estruturação de UCs que possuem Academias de Transformação Digital. Só acrescentaria que muitas delas também incluem criatividade, metodologias e aspectos comportamentais ligados à inovação. Com frequência objetivam promover de maneira integrada a inovação, a transformação digital e a inteligência de dados para a gerar valor para a empresa.

Como mencionado no início deste ensaio, o assunto está no radar de todos os setores de atividades, e o desafio da escassez de talentos digitais está presente em todas as áreas do conhecimento. Há um déficit que o recrutamento externo, por si só, não resolve. Por isso, as academias internas têm se mostrado uma solução eficaz.

E na organização em que você trabalha? Já existe uma Academia de Transformação Digital?Se existisse, você acredita que ela alavancaria seu sucesso profissional e sua carreira?

Opinião por Marisa Eboli

Doutora em Administração pela Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP e Especialista em Educação Corporativa. É Professora de Graduação e do Mestrado Profissional na FIA Business School.

A fusão do trabalho humano e máquinas inteligentes nas organizações. Você está preparado? – Estadão

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Inovação e Desenvolvimento: a trajetória chinesa

Carta IEDI

Edição 1317

Publicado em: 18/06/2025

Inovação e Desenvolvimento: a trajetória chinesa

Sumário

Recentemente, além de “fábrica do mundo”, a China vem se firmando como um polo inovativo incontornável. O país tornou-se líder global na produção de painéis solares, veículos e baterias elétricas, Huawei inaugurou em 2024 um centro de P&D com mais de cem edifícios em Xangai e DeepSeek deu prova, no início deste ano de 2025, dos avanços chineses em IA, isso tudo apesar das progressivas restrições e sanções do Ocidente a mercados e a insumos avançados.

Estes exemplos indicam o sucesso da estratégia Made in China 2025, lançada em 2015, e de outras ações que a sucederam. Em grande parte, é a este processo que os países ocidentais – e não apenas os EUA – estão respondendo com medidas que vêm transformando a governança do comércio mundial e do investimento transfronteiriço, como o Instituto já abordou em outras oportunidades, como nas Cartas n. 1004, 1088, 1154, 1168.

A Carta IEDI de hoje retoma a discussão sobre a estratégia de desenvolvimento industrial da China baseada em ciência, tecnologia e inovação, a partir de dois estudos recentes, um da Johns Hopkins University, intitulado “Innovation Policies, Technology Parks, and Development in China”, e outro do Oxford Institute for Energy Studies: “China’s green industrial policy: lessons for innovation”.

O primeiro artigo, de autoria de María José Haro Sly, resgata a trajetória chinesa enfatizando o desenvolvimento de parques industriais de alta tecnologia, que hoje somam 169 e representam 12% do PIB, e a transformação do país em um grande player em tecnologias de ponta, com gastos governamentais em P&D subindo de 0,9% do PIB em 2000 para 2,3% em 2020.

Segundo a autora, desde 2006, as competências inovativas internas da China vêm sendo reforçadas pelo governo em seus planos estratégicos, tendo como marcos importantes a iniciativa Made in China e o 14º Plano Quinquenal, em que a inovação foi colocada no centro do processo de desenvolvimento e modernização da China.

Haro Sly destaca que há um entendimento do papel dos parques industriais como o mecanismo concreto e o locus do processo de inovação na China. Os parques industriais são igualmente vistos como uma ferramenta-chave para a estratégia de internacionalização (going out) da tecnologia chinesa.

Transferir os motores da inovação de organizações públicas de pesquisa para setores industriais, empregar os investimentos públicos em P&D para ensejar a capacidade de inovação dos setores industriais e melhorar a comercialização de resultados das pesquisas básicas e aplicadas são objetivos considerados há muito tempo na China.

Exemplo disso é que, diferentemente de outras potências, a China orientou a maior parte (85%) de seus gastos governamentais de P&D para atividades de desenvolvimento experimental relacionado à fabricação e produção, em vez da pesquisa básica ou pesquisa aplicada. Ou seja, apoio à inovação e indústria estão bem integrados.

Para a autora, o Programa Torch, de 1988, evoluiu de modo a tornar-se importante instrumento do governo chinês para orientar o desenvolvimento industrial de alta tecnologia, caracterizando-se pela experimentação institucional e políticas descentralizadas, um esquema de financiamento dominado por empresas, bem como pela inclusão de PMEs não estatais em suas atividades de incubadora. 

Também coordena as zonas industriais de alta tecnologia, estabelecidas com o propósito de transformar conquistas da ciência e tecnologia em uma força produtiva prática e orientadas tanto ao mercado doméstico quanto a mercados estrangeiros.

A partir de 2013, a internacionalização da tecnologia e inovação chinesas tornou-se um objetivo e, em boa medida, vem se dando no âmbito da Iniciativa Cinturão e Rota (BRI), com a construção de parques industriais no exterior. Segundo a autora, há 85 parques industriais chineses no exterior com diferentes orientações estratégicas.

O estudo do Oxford Institute for Energy Studies, realizado pelo pesquisador Anders Hove, analisa um exemplo concreto de engajamento inovativo “autóctone” da China: tecnologias essenciais para a transição energética.

Para Hove, o domínio da China nestas tecnologias (energia solar, baterias, veículos elétricos etc.) não se deve somente a subsídios desleais ou a mão de obra barata. O autor observa que o discurso ocidental, em geral, ignora o papel das políticas industriais estratégicas que fomentaram a inovação, a transferência de tecnologia e o rápido aumento da produção de bens inovadores.

O progresso chinês resultou igualmente das extraordinárias taxas de aprendizado quando as novas tecnologias começaram a atingir escala de fabricação. Subvenções, exigências de conteúdo local, regulação e outros mandatos governamentais foram partes integrantes de políticas industriais para a produção das novas tecnologias em larga escala. 

Com isso, aprendizado pela prática, compartilhamento de conhecimento tácito e interações com fornecedores deram robustez à empreitada chinesa. A despeito do papel estratégico da política pública, entretanto, o autor destaca que a economia de mercado passou a desempenhar um papel maior na determinação dos players vencedores e perdedores. Ou seja, a política industrial e tecnológica se articula com a concorrência de mercado.

A constituição de competência tecnológica e produtiva em veículos elétricos é um exemplo disso mencionado pelo autor. Diferentemente dos painéis solares, a escala de produção de veículos elétricos teve como base o mercado doméstico chinês, mas buscou-se atrair um competidor estrangeiro de peso para o mercado local com o propósito de forçar as empresas nacionais a atualizarem seus produtos, ao mesmo tempo em que poderiam se beneficiar de transbordamentos de conhecimento, trabalhadores e fornecedores locais.

Assim, o tradicional requisito de joint ventures com participantes locais não foi aplicado no caso da Tesla, quando instalou uma fábrica em Xangai, muito embora a disposição da empresa de usar fornecedores chineses tenha sido um fator-chave em favor do afrouxamento dos requisitos de implantação da Tesla no país. 

Ademais, tanto no setor de energia solar como no de veículos elétricos, os governos locais promoveram clusters de manufatura como um caminho para o desenvolvimento industrial. A proximidade geográfica com as cadeias de suprimentos locais e a concorrência intensa contribuíram para acelerar o ritmo da inovação e dos novos ciclos de produtos. Segundo o autor, os modelos de veículos elétricos chineses duram, em média, 1,3 ano no mercado antes de novas versões e 4,2 anos no caso das marcas estrangeiras.

De acordo com o estudo do Oxford Institute, os principais atributos da experiência chinesa na promoção dos setores de energia limpa consistem:

     •  Sinais de política claros do governo indicando que as indústrias de energia limpa são uma prioridade de desenvolvimento.

     •  Requerimentos de conteúdo local e de transferência de tecnologia em troca de acesso ao mercado.

     •  Promoção de polos industriais, favorecendo as interações com fornecedores e levando ao surgimento de players locais de equipamentos. 

     •  Estímulo à aceleração da inovação e novos ciclos de produtos por meio da proximidade com cadeias de suprimentos e concorrência intensa.

     •  Criação de projetos-pilotos para testar políticas e que combinem fabricação com implantação

     •  Requisitos para instalação de projetos pilotos em regiões segundo sua base industrial existente, incentivos de políticas locais e infraestrutura.

     •  Monitoramento do progresso dos projetos e vinculação do suporte futuro a métricas específicas.

Na avaliação do autor, estes atributos não dependem do planejamento central, vantagem de pioneirismo ou mão de obra barata e, por isso, outros países poderiam se inspirar nessas políticas.

Introdução

A Carta IEDI de hoje retoma a discussão sobre a estratégia de desenvolvimento industrial da China baseada em ciência, tecnologia e inovação. Algumas das Cartas IEDI anteriores sobre o tema compreendem as edições de nº 827 “Indústria 4.0 – A iniciativa Made in China 2025” e nº 1094 “O 14º Plano Quinquenal Chinês: transformando a China em potência industrial e tecnológica”. 

Nesta Carta, abordamos dois estudos de diferentes instituições. O primeiro deles é intitulado “Innovation Policies, Technology Parks, and Development in China”, de autoria da pesquisadora da Johns Hopkins University, María José Haro Sly. O segundo artigo tem como título “China’s green industrial policy: Lessons for innovation”, divulgado no The Oxford Institute for Energy Studies, pelo pesquisador Anders Hove. 

Evolução das políticas de C,T&I na China 

Nas últimas décadas, a China fez um progresso notável em ciência, tecnologia e inovação (C,T&I). De um país agrário nos anos 1970, a China se transformou em grande player em tecnologias de ponta, tais como 5G, nanotecnologia, tecnologias verdes, aeroespacial, inteligência artificial etc.. 

Além de se tornar o segundo maior investidor em pesquisa e desenvolvimento (P&D) do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos, a China assumiu a posição de líder em diversos setores industriais intensivos em conhecimento.

Para o governo chinês, a área de ciência e tecnologia foi considerada central, dado que sem o domínio das ciências e tecnologias modernas não seria possível constituir atividades econômicas modernas. De acordo com a autora, a reforma das políticas de C,T&I adotou uma abordagem incremental, caracterizada por uma compreensão progressivamente mais profunda de políticas, transformação sistêmica e inovação institucional. 

O quadro abaixo resume os principais marcos das políticas de C,T&I em cada uma das seis fases identificadas no estudo: a experimental (1978-1985), a de reforma sistêmica (1985-1995), a de aprofundamento da reforma (1996-2006), a da inovação autóctone (2006-2015), a de internacionalização do C&T e a de desenvolvimento liderado pela inovação (iniciada em 2015). 

Nas duas fases iniciais, paralelamente à implantação das Zonas Econômicas Especiais e dos parques industriais tecnológicos, ao treinamento de recursos humanos qualificados e às medidas voltadas para a obtenção de transferência de tecnologia, a China implementou uma estratégia tácita de engenharia reversa, utilizando, sem pagar, conhecimento protegido por direitos de propriedade intelectual. Não obstante a pressão de potências estrangeiras e empresas multinacionais, essa prática, denominada shanzhai, foi amplamente adotada como uma forma alternativa de inovação.

Na fase de aprofundamento da reforma sistêmica (1996-2006), a China estabeleceu uma estratégia nacional abrangente com o propósito de “rejuvenescer a economia da nação com ciência e educação”. Nessa fase, segundo Haro Sly, o país começou a abrir caminho para se tornar a segunda potência tecnológica mundial com os três objetivos principais: 

     •  Aumentar os investimentos em pesquisa e desenvolvimento; 

     •  Orientar esses investimentos fundamentalmente para o desenvolvimento experimental; 

     •  Passar de uma estratégia de inovação de engenharia reversa para uma fase de “inovação autóctone”.

À medida que a estratégia foi implementada, o investimento em P&D aumentou rapidamente. A proporção das despesas brutas governamentais com P&D (GERD) em relação ao produto interno bruto (PIB) passou de 0,57% em 1995 para 0,90% em 2000, 1,33% em 2005 e atingindo 2,3% em 2020.

As novas políticas se concentraram em três áreas: transferir os motores da inovação de organizações públicas de pesquisa para setores industriais; ampliar o GERD e a capacidade de inovação dos setores industriais; e melhorar a comercialização eficiente de resultados das pesquisas básicas e aplicadas. 

De acordo com a autora, para alcançar esses objetivos a China orientou 85% de seu GERD para investimento nas atividades de desenvolvimento experimental relacionado à fabricação e produção, em vez de pesquisa básica ou pesquisa aplicada, que respondem, respectivamente, por 5% e 10% do GERD chinês. Uma estratégia diferente da adotada pelos Estados Unidos, Japão e Cingapura, como mostra a figura abaixo.

A prioridade atribuída ao desenvolvimento de inovações autóctones foi reforçada, no início de 2006, com o lançamento pelo Conselho de Estado chinês do Programa Nacional de Médio e Longo Prazo para Desenvolvimento Científico e Tecnológico (2006–2020). Com o objetivo principal de transformar a China em uma potência mundial em ciência e tecnologia, os princípios orientadores desse programa centravam-se na melhoria da capacidade doméstica de gerar inovação e na realização de saltos tecnológicos em domínios prioritários. 

Anunciado pelo governo chinês em maio de 2015, o plano industrial decenal Made in China 2025 priorizou o aumento da competitividade nacional em indústrias de ponta e a redução da dependência de tecnologias estrangeiras, passando do status de imitador para o de inovador. Para isso, a China se concentrou em ampliar sua capacidade de gerar inovação local, enfatizando a inovação original, a inovação integrada e a “reinovação” com base na assimilação de tecnologia importada.

Reproduzindo trecho de um discurso do líder chinês Xi Jinping na Academia de Ciências da China, em junho de 2015, sobre a importância de dominar as tecnologias críticas para o país realmente ter iniciativa na concorrência e no desenvolvimento, o estudo destaca que “essa concepção é a chave para entender as políticas de ciência, tecnologia e inovação na China na última década e sua concentração em inovação nativa e autônoma, bem como consolidar a posição da China como líder na padronização de tecnologias de ponta em todo o mundo”.

Em 2021, com os lançamentos dos 14º Plano Quinquenal e do Plano de Médio e Longo Prazo para a Ciência e Tecnologia 2021-2035, a inovação foi colocada no centro do processo de desenvolvimento e modernização da China. Desde então, a ciência e a tecnologia têm assumido cada vez mais importância estratégica para o desenvolvimento nacional da China. 

Parques Industriais Tecnológicos como locus de inovação

Haro Sly destaca que há um entendimento do papel dos parques industriais como o mecanismo concreto e o locus do processo de inovação na China. Papel crítico que o 14º Plano Quinquenal sugeriu que continuarão a desempenhar. Os parques industriais são igualmente uma ferramenta-chave para a estratégia de internacionalização (going out) da tecnologia chinesa.

Na avaliação da autora, o Programa Torch, criado em 1988, na fase de reforma sistêmica, sob a égide do Ministério da Ciência e Tecnologia (MOST), é um elemento central no desenvolvimento industrial de alta tecnologia da China. Criado, com a missão de estimular a construção de parques industriais, o Programa Torch evoluiu ao longo das últimas décadas, tornando-se um dos principais programas utilizados pelo governo chinês para orientar o desenvolvimento industrial de alta tecnologia.

O Programa promove a comercialização de conquistas de C&T, a industrialização de resultados de P&D e a internacionalização de indústrias de alta tecnologia. Seus principais instrumentos são: os parques industriais de ciência e tecnologia, as incubadoras de negócios baseadas em tecnologia e o Fundo de Inovação para Pequenas e Médias Empresas (PMEs) baseadas em tecnologia. O governo chinês oferece suporte financeiro às empresas por meio de fundos especiais, incluindo assistência para a construção de infraestrutura de incubadora.

Desde a sua origem, o Programa Torch se caracteriza, de acordo com o estudo, por fortes elementos de experimentação institucional e políticas descentralizadas, um esquema de financiamento dominado por empresas, bem como uma inclusão de longa data de PMEs não estatais em suas atividades de incubadora. O programa também coordena as zonas industriais de alta tecnologia, responsáveis por forte contribuição para as exportações chinesas de produtos intensivos em tecnologia e de maior valor agregado.

As novas zonas de desenvolvimento industrial de alta tecnologia são baseadas em inteligência intensiva e um ambiente aberto. Estabelecidas com o propósito de transformar conquistas da ciência e tecnologia em uma força produtiva prática, essas novas zonas de desenvolvimento industrial abrigam parques industriais orientados aos mercados domésticos e estrangeiros e ao desenvolvimento das novas indústrias de alta tecnologia da China. 

Exemplos mencionados no artigo são o parque industrial Suzhou, localizado na zona de desenvolvimento tecnológico e econômico de Guangzhou, e o parque industrial de ciência e tecnologia Nanjing, na zona nacional de desenvolvimento industrial de alta tecnologia.

Os parques combinam infraestrutura material e logística com aspectos econômicos, legais e de gestão suave para favorecer a inovação. A China possui vários tipos de parques que diferem em termos de administração, escala/escopo e indústrias-alvo. 

Atualmente, o país conta com mais de 1.500 parques industriais nacionais ou provinciais, incluindo 169 parques de alta tecnologia (High Techparks). Esses últimos respondem por aproximadamente 12% do PIB da China e 18% das exportações. Segundo a autora, a expectativa do 14º Plano Quinquenal de 2021 é elevar acima de 17% do PIB chinês a contribuição dos clusters de tecnologias emergentes de importância estratégica. 

Com estratégia de internacionalização da tecnologia e inovação chinesas, iniciada em 2013, no âmbito da Iniciativa Cinturão e Rota (BRI), a construção de parques industriais no exterior tornou-se um instrumento-chave. 

Nesse processo, a Academia Chinesa de Ciências (CAS) desempenhou um papel ativo, fornecendo mais de 1,8 bilhões de yuans (cerca de US$ 268 milhões) para a construção de projetos de ciência e tecnologia em cooperação entre a China e os países participantes da Iniciativa Cinturão e Rota. Igualmente, treinou quase 5 mil talentos científicos e tecnológicos de alto nível para países e regiões participantes da BRI, incluindo mais de 1.500 pessoas com mestrado e doutorado em ciência e engenharia. Muito dos quais retornaram aos seus países de origem para construção da BRI. 

A CAS também cooperou com mais de 100 empresas de alta tecnologia e instituições de pesquisa para estabelecer a Belt and Road Industry Alliance para servir ao desenvolvimento econômico e social regional. Para Haro Sly, este programa constitui uma nova fase da estratégia chinesa de desenvolvimento e terá impactos no redesenho da ciência, tecnologia e inovação do mundo.

Embora apresentem características diferenciadas, em termos gerais, esses parques industriais instalados em países participantes da BRI são uma exportação de um cluster industrial chinês para promover o investimento estrangeiro direto no exterior. 

A maioria dos parques é promovida e desenvolvida em conjunto por governos ou empresas chinesas e estrangeiras. Esses parques geralmente têm melhor infraestrutura, uma cadeia de valor mais integrada e indústrias com características distintas, que podem impulsionar o desenvolvimento completo.

Nos dias atuais, há 85 parques industriais chineses no exterior, dos quais 53 localizados em 20 países da Ásia, 19 em onze países da África e treze em seis países da Europa, incluindo Bélgica (1), França (1) , Hungria (2) e Rússia (6). Esses parques podem ser orientados para processamento e manufatura, agricultura, comércio e logística, utilização de recursos, tecnologia, pesquisa e desenvolvimento, ou podem ser abrangentes (combinando diferentes orientações).

Inovação chinesa

De acordo com Haro Sly, utilizado pela primeira vez em 1994, o termo inovação “autóctone” ou “nativa” ou “autodeterminada” (zizhu chuangxin) tornou-se amplamente utilizado a partir do lançamento do Programa Nacional de Médio e Longo Prazo para Desenvolvimento Científico e Tecnológico (2006–2020), já mencionado. Esse conceito refere-se: “a aprimorar a inovação original, a inovação integrada e a ‘reinovação’, com base na assimilação e absorção de tecnologia importada, a fim de melhorar a capacidade de inovação nacional chinesa.” 

Segundo a autora, inicialmente, o governo chinês estabeleceu negociações com fabricantes estrangeiros que operavam no país para que, em troca de acesso preferencial ao mercado, realizassem transferências de tecnologia para parceiros locais. Contudo, o investimento estrangeiro não trouxe a transferência de tecnologia visível em larga escala que o governo chinês esperava.

Diante da realidade concreta da baixa escala de, ou mesmo nenhuma, transferência tecnológica de países desenvolvidos para países em desenvolvimento, o governo chinês elaborou estratégias de desenvolvimento de tecnologias nativas. A autora destaca que o país asiático entendeu o papel do Estado na promoção da inovação, bem como a importância da inovação nativa no fechamento da lacuna de renda entre países desenvolvidos e em desenvolvimento. 

Ciente que o processo de redução do gap tecnológico e de renda em relação aos países desenvolvidos não ocorreria apenas com o aumento dos investimentos em P&D ou meramente pela incorporação de mais pesquisadores, o governo chinês implementou estratégias orientando esses investimentos para o desenvolvimento experimental em vez de promover a pesquisa básica motivada pela curiosidade apenas para fins científicos.

Desse modo, a política industrial passou a ser projetada com base na antecipação de demandas nacionais prioritárias e no investimento estatal correspondente. 

Para explicitar a prioridade atribuída à inovação nativa original como motor do desenvolvimento, o slogan do plano industrial Made in China 2025, lançado em 2015, foi posteriormente atualizado, segundo a autora. O slogan da política “fabricado na China” foi substituído por “projetado e criado na China”, mais adequado ao objetivo do país de passar de imitador a inovador de produtos, bens e tecnologias.

Com objetivo de promover avanços na indústria manufatureira, e, em particular, aumentar a competitividade nacional em indústrias de tecnologias avançadas mediante inovações industriais e assim garantir que os produtos industriais do país alcancem patamares elevados nas cadeias internacionais de valor, o Plano Made in China, identificou dez setores de tecnologia avançada como prioridades críticas: novas tecnologias da informação; máquinas-ferramentas e robôs de controle numérico de ponta; equipamento aeroespacial; equipamentos de engenharia oceânica e embarcações de ponta; equipamentos de transporte ferroviário de ponta; veículos com eficiência energética e novas fontes de energia; equipamentos elétricos; máquinas agrícolas; novos materiais; biomedicina e equipamentos médicos de ponta.

A estratégia governamental chinesa tem se mostrado bem-sucedida. O forte vínculo entre o design de políticas públicas, o sistema de C,T&I e o setor produtivo tornou possível transformar estruturalmente a produção e avançar em todas as cadeias de valor. A China já lidera vários setores industriais de alta tecnologia, superando os Estados Unidos. 

De acordo com Haro Sly, a abordagem estratégica da China para a inovação, que confere ao Estado um papel estratégico e enfatiza os parques industriais, tem sido fundamental em seu avanço tecnológico. Todavia, esse rápido progresso suscitou igualmente suspeitas e contestações de potências mundiais estabelecidas, obrigando a China a seguir por um caminho complexo para manter seu desenvolvimento econômico e sua liderança tecnológica.

Na avaliação da autora, o rápido avanço tecnológico, a intenção explícita do governo chinês de começar a impor normas internacionais nos novos domínios tecnológicos e a crescente competitividade dos bens e produtos de alta tecnologia chineses continuarão a criar suspeitas entre os países centrais estabelecidos. Exemplo emblemático desse processo foram as sanções à Huawei e a crescente pressão dos Estados Unidos para conter a expansão chinesa na tecnologia 5G. 

Conclui-se o estudo, afirmado que “encontrar um equilíbrio complexo entre as sanções ocidentais e continuar o processo de desenvolvimento econômico, catching-up e inovação autônoma, ao mesmo tempo em que evita qualquer possibilidade de conflito direto, determinará a consolidação da hegemonia chinesa na corrida tecnológica no século XXI”.

Lições da política industrial de energia limpa chinesa

O pesquisador do Instituto para Estudos de Energia de Oxford (OIES), Anders Hove, destaca que o domínio da China na fabricação de energia limpa __ energia solar, baterias e, mais recentemente, veículos elétricos __,  tecnologias essenciais para a transição energética, coincidiu com uma forte ênfase na inovação autóctone. 

Segundo o autor, esse aspecto é frequentemente ignorado no discurso ocidental, que atribui as vantagens competitivas da indústria chinesa de energia limpa aos subsídios governamentais e à mão de obra de baixo custo. 

Para Hove, o domínio da China na produção de energia limpa (solar, baterias, veículos elétricos) não se deve somente a subsídios desleais ou mão de obra barata. Em vez disso, é resultado de políticas industriais estratégicas que fomentaram a inovação, a transferência de tecnologia e o rápido aumento da produção. Entre as políticas industriais explícitas, aquelas que promovem a transferência de tecnologia, a localização da produção e o agrupamento industrial têm sido notavelmente eficazes. 

O progresso no domínio da energia limpa na China resultou igualmente das extraordinárias taxas de aprendizado quando as novas tecnologias começaram a atingir escala de fabricação. Com aprendizado pela prática, compartilhamento de conhecimento tácito e interações com fornecedores, a China se destacou.

Todavia, na vanguarda da política industrial, outro fator foi igualmente importante: as políticas de implantação que permitiram que essas indústrias atingissem escala. O autor ressalta que, obviamente, a implantação em escala não poderia ter acontecido se essas tecnologias ainda estivessem no laboratório ou ainda com preços extremamente elevados. Subvenções e mandatos governamentais também foram partes integrantes das políticas industriais. 

Mesmo após a adesão do país à Organização Mundial do Comércio, o Estado chinês nunca deixou de planejar e orientar o desenvolvimento econômico, moldando o investimento em todos os níveis. Porém, a economia de mercado passou a desempenhar um papel maior na determinação de vencedores e perdedores.

Cada um dos quatro principais campos tecnológicos de energia limpa (solar, eólica, baterias e VEs), nos quais a China está agora na liderança ou próxima dos líderes, seguiu um caminho de crescimento diferente, com sua própria combinação única de suporte político e aumento de escala de fabricação. 

Para a energia solar, que se beneficiou de linhas de produção prontas para uso que facilitaram a entrada de novas empresas no estágio inicial, os governos locais ofereceram incentivos para que as empresas montassem laboratórios de pesquisa. Inúmeros cientistas-líderes no exterior foram atraídos a retornar à China para desenvolver a tecnologia em parceria com participantes locais.

Para a energia solar, o caminho liderado pela exportação foi inicialmente crucial, enquanto na área de energia eólica os formuladores de políticas chineses buscaram investimentos e assistência ao desenvolvimento do exterior. Porém, uma vez que as tecnologias atingiram escala e se aproximaram dos principais limites econômicos, os formuladores de políticas mudaram a ênfase para a implantação doméstica por meio de subsídios orientados à demanda – ou seja, tarifas feed-in, inspiradas nas políticas adotadas em países europeus. 

No segmento de energia eólica, o governo chinês implementou requisitos de conteúdo doméstico para empresas internacionais que forneciam equipamentos para projetos eólicos apoiados pelo Mecanismo de Desenvolvimento Limpo. Segundo Hove, essa exigência desempenhou um papel crítico no desenvolvimento de expertise local em energia eólica na China.

No segmento de baterias para veículos elétricos, o licenciamento de patentes foi um fator importante. No campo tecnológico de química de baterias de níquel-manganês-cobalto (NMC), as empresas chinesas conseguiram licenciar tecnologias estrangeiras, encorajar empresas dos Estados Unidos e de outros países a estabelecer joint ventures com parceiros chineses. 

Já na tecnologia concorrente de baterias de lítio-ferro-fosfato (LFP), a China obteve, segundo Hove, uma vantagem descomunal ao vencer, em 2010, a concessionária de energia elétrica canadense Hydro-Quebec em disputa de reivindicação de patente LFP. E em 2013, a fabricante chinesa de autopeças Wanxiang, uma empresa com fortes ligações com o governo, adquiriu a startup americana A123 de baterias LFP.

Também no caso dos veículos elétricos, o programa de Veículos de Nova Energia, lançado em 2009, continha estruturas sofisticadas projetadas para garantir não apenas a transferência de tecnologia, mas o surgimento de players e inovação nacionais. 

Para evitar duplicação e desperdícios, a China estabeleceu requisitos para regiões que abrigariam projetos-piloto de VE, limitando alguns incentivos de política às regiões selecionadas com base em sua estrutura industrial existente, incentivos de política local para promover VEs e infraestrutura de recarga. Depois de designar regiões-piloto, o governo chinês monitorou o progresso em cada uma dessas frentes, vinculando o suporte futuro do governo central a métricas relacionadas a cada uma. 

A obtenção de apoio financeiro governamental para produção de VE e baterias para VE estavam vinculados à transferência de tecnologia, e as empresas beneficiárias qualificadas tinham que demonstrar domínio de um dos três elementos principais da fabricação de VE: baterias, motores ou sistemas de controle. 

Para baterias com densidade de energia adequada para VEs (acima de 110 Wh/kg), foi definido conteúdo nacional mínimo de 50%. Igualmente, foram instituidas listas para empresas produtoras de baterias qualificadas para receber subsídios do programa Veículos de Nova Energia.

Essas políticas levaram as montadoras chinesas a transferir as compras de baterias dos principais fornecedores japoneses e coreanos para participantes nacionais. Posteriormente, em 2017, os requisitos para as empresas beneficiárias foram ampliados, exigindo que as empresas nacionais demonstrassem domínio de todas as áreas principais da produção de VE, descartando a especialização da cadeia de fornecimento chinesa em apenas um elemento da fabricação de VEs o que favoreceu a integração vertical.

No domínio tecnológico dos VEs, os líderes chineses identificaram uma oportunidade e buscaram alavancar a crescente capacidade de fabricação de baterias da China para ultrapassar as montadoras estrangeiras. Em contraste com energia solar, o impulso para a ampliação da escala de produção dos veículos elétricos orginou-se no mercado doméstico. Só recentemente começou a mudar para incluir exportações. 

De acordo com Hove, embora já existissem inúmeras empresas chinesas de VE, o requisito de joint ventures com participantes locais no setor automotivo, em vigor desde a década de 2000, não foi aplicado no caso da Tesla, a principal empresa de VE no mundo em 2019, quando instalou uma fábrica em Xangai. Nesse caso, o governo chinês adotou a estratégia de atrair um concorrente forte para o mercado local com o propósito de forçar as empresas domésticas a atualizarem seus produtos, ao mesmo tempo em que, potencialmente, se beneficiariam de transbordamentos de conhecimento de trabalhadores e fornecedores locais. 

Segundo o autor, a disposição da Tesla de usar componentes chineses foi um fator-chave que levou à decisão de Xangai de fazer lobby junto ao governo central em favor do afrouxamento das restrições para trazer a Tesla. Atualmente, 95% dos fornecedores da Tesla Shanghai são chineses.

O pesquisador da OIES ressalta que a abordagem holística da política chinesa de incentivos aos veículos elétricos é muito diferente das políticas implementadas em outros países, onde os subsídios para compra de VE são uma coisa, o suporte para fabricantes é outra, e o suporte para ampliação da infraestrura de recarga é ainda mais estanque. Como resultado de um política compartimentada, os fabricantes ou fornecedores podem estar localizados em regiões com infraestrutura precária de recarga e baixa adoção de VEs, levando a um ciclo vicioso no qual os fabricantes relatam que a demanda do mercado local não consegue suportar uma expansão rápida.

Tanto no setor de energia solar quanto no de veículos elétricos, os governos locais promoveram corretamente clusters de manufatura como um caminho para o desenvolvimento industrial. No setor de energia solar, no qual as empresas europeias e norte-americanas inicialmente forneceram linhas de produção de ponta, enquanto empresas chinesas se concentraram na produção em massa, as interações com fornecedores permitiram o rápido surgimento de fornecedores locais de ferramentas e equipamentos que gradualmente suplantaram os líderes internacionais.

No segmento dos veículos elétricos também, a proximidade geográfica com as cadeias de suprimentos locais e a concorrência intensa contribuíram para acelerar o ritmo da inovação e dos novos ciclos de produtos, que são essenciais para o crescimento e a manutenção da participação de mercado nos ambientes ultracompetitivos da China. Segundo o autor, os modelos de veículos elétricos chineses têm em média apenas 1,3 ano de vida útil no mercado antes que atualizações ou novas versões sejam lançadas, em comparação com o ciclo de 4,2 anos das marcas estrangeiras.

Em todos os quatro segmentos de energia limpa, os formuladores de políticas sinalizaram que essas indústrias eram uma prioridade de desenvolvimento. Como indústrias emergentes estratégicas se beneficiaram de capital de baixo custo, projetos-piloto e foram alvos de metas e mandatos para implantação. Essa sinalização forneceu um indicador crítico para autoridades locais, empresas estatais de energia e empreendedores de que uma maior exposição a esses campos estratégicos seria recompensada.

Anders Hove salienta, contudo, que a consistência do apoio político na China não é absoluta. Segundo ele, os subsídios foram cortados da noite para o dia para a energia solar quando o mercado se tornou superaquecido. Subsídios para VE também foram suprimidos diante de alegações de fraude.

Principais elementos da política industrial verde da China

Segundo o estudo do Oxford Institute, os principais atributos da política industrial utilizadas na promoção dos setores de energia limpa na China podem ser resumidas da seguinte maneira:

     •  Sinalização de política e políticas de implantação. Sinais de política claros do governo indicando que as indústrias de energia limpa são uma prioridade de desenvolvimento. Subsídios orientados à demanda para atingir escala e se aproximar de limites econômicos.

     •  Exigência de transferência de tecnologia, com requisitos explícitos e implícitos para empresas estrangeiras compartilharem tecnologia com players nacionais em troca de acesso ao mercado e incentivos para criarem laboratórios de pesquisa locais. Do ponto de vista das potências ocidentais, essa exigência é um dos aspectos mais controversos da política industrial chinesa. Exemplos: energia eólica (requisito implícito em conjunto com requisitos explícitos de conteúdo nacional), setor automotivo (joint ventures com participantes locais) e tecnologia de baterias (licenciamento de patentes estrangeiras e joint ventures). 

     •  Requerimentos de conteúdo local, com requisitos de conteúdo doméstico em troca de acesso ao mercado, concessão de subsídios para produção de EV e baterias vinculados à transferência de tecnologia para as empresas que demonstrem domínio dos principais elementos da produção de EV. Criação de “listas brancas” para empresas de baterias qualificadas para subvenções, excluindo inicialmente empresas estrangeiras, que foram eliminadas em 2019, momento em que a China já dominava as cadeias de fornecimento de baterias. 

     •  Clusters industriais. Além da promoção de polos industriais por governos locais, as interações com fornecedores levam ao surgimento de fornecedores locais de ferramentas e equipamentos. Proximidade com cadeias de suprimentos e concorrência intensa acelerando a inovação e novos ciclos de produtos.

     •  Programas-piloto que combinam fabricação com implantação. Criação de projetos-pilotos para testar políticas de energia limpa. Requisitos para regiões-piloto de EV com base na fabricação existente, incentivos de políticas locais e infraestrutura de carregamento. Monitoramento do progresso e vinculação do suporte futuro a métricas específicas.

Na avaliação do autor, as ferramentas de política industrial da China não dependem de planejamento central, vantagem de pioneirismo ou mão de obra barata. Outros países podem emular essas políticas, estabelecendo, notadamente, exigência de transferência de tecnologia, políticas de conteúdo doméstico e suporte para clusters industriais. 

Ele destaca que a Europa já está adotando ativamente muitas políticas industriais inspiradas no modelo chinês para veículos elétricos. Isso inclui licenciamento, requisitos de transferência de tecnologia e políticas de conteúdo doméstico. A Europa já considera exigir transferência de tecnologia e licenciamento como condição para a empresa receber subvenções. Requisitos de conteúdo doméstico para minerais críticos e baterias estão em discussão.

Anders Hove também sugere que integração vertical, aglomeração geográfica e interações com fornecedores são essenciais para manter as vantagens conquistadas. Trabalhar com fornecedores chineses pode garantir acesso à tecnologia e aos processos mais recentes.

Segundo ele, as próprias empresas chinesas também estão aprendendo a lição sobre os benefícios da integração vertical à medida que se expandem para o exterior. A líder em fabricação de baterias CATL, que já possui fábrica na Europa, anunciou recentemente planos para estabelecer um fundo de US$ 1,5 bilhão para investir em peças e fornecedores locais no continente europeu, porque os fornecedores locais não atendem às suas necessidades ou não conseguem responder com rapidez suficiente às suas exigências de volume de produção e qualidade.

IEDI – Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial

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Minerais críticos, satélites, energia e data centers: os interesses dos EUA no Brasil

Segundo membros da CNI, que estiveram em missão recente ao país, empresas americanas demonstraram interesse em projetos ligados a esses setores. Entidade articula agenda bilateral para facilitar novos aportes

Luciano Pádua – Exame – 17 de maio de 2025 

NOVA YORK* – Os investidores dos Estados Unidos querem ampliar sua presença econômica no Brasil em áreas de interesse estratégico. Em conversas recentes com representantes da Confederação Nacional da Indústria (CNI), autoridades e empresários americanos destacaram quatro setores prioritários para novos investimentos no país: minerais críticos, tecnologia de satélites, energia e data centers.

“Eles já colocaram as áreas de interesse: minerais críticos, satélites, energia e data centers”, diz à EXAME Frederico Lamego, superintendente de Relações Internacionais da CNI durante evento da entidade em Nova York nesta semana.

Além dos recursos naturais, há uma ênfase em infraestrutura digital e energética. O interesse em data centers está diretamente ligado à agenda de energia limpa do Brasil, avalia a CNI, considerada atrativa pelos investidores diante da demanda crescente por soluções sustentáveis.

Investimentos em data centers são vistos como uma possibilidade muito forte.”Ainda mais com a nossa agenda verde de enegia”, afirma Léo de Castro, vice-presidente da CNI.

Segundo os executivos, o setor privado americano sinalizou de forma clara o desejo de sair da tradicional pauta — centrada em etanol, aço e alumínio — e ampliar as possibilidades de cooperação. O objetivo agora é abrir uma base mais ampla de negociações e atrair investimentos com transferência de tecnologia.

“A mensagem que os americanos colocaram para a gente é que precisamos sair de uma discussão do etanol, do aço e do alumínio para ampliar uma base de negociação que seja benéfica para os dois lados”, afirma Lamego.

Castro aponta que a agenda da CNI no país é um gesto de “boa vizinhança” para apontar que o país que cooperar em outros níveis. “É um gesto de dizer que a gente quer cooperar, que está trabalhando junto e quer achar caminhos comuns tanto para o trade quanto para o investimento”, diz.

Por muitos anos, ressalta o vice-presidente, o investimento americano foi para a Ásia. “Queremos atrair o investimento americano para o Brasil”, afirma.

Essa atração, avaliam, precisa vir acompanhada de uma agenda de transferência de tecnologia.

Pauta exportadora para os EUA

Para os membros da comitiva da indústria, os americanos parecem interessados em trabalhar com o Brasil. A pauta exportadora para a maior economia do mundo é de particular interesse da CNI, uma vez que é formada pela indústria de base.

“Mais de 50% da pauta exportadora brasileira para os EUA é de produtos semi ou manufaturados. Então, o peso da indústria é maior”, diz Lamego.

Dados da CNI apontam que cada US$ 1 bilhão exportado para os EUA gera 24.000 empregos no Brasil, cifra muito maior do que a mesma comparação das exportações da China.

“Esse é o desafio endereçado para a política industrial: avançarmos na indústria de transformação. Os EUA são um grande mercado importante nosso para indústria de transformação e a China é um grande concorrente na disputa desse mercado também”, diz Castro.

Estratégia do governo Trump

Segundo os relatos de autoridades americanas, a prioridade do país no momento é fechar acordo com Índia, Coreia do Sul, Reino Unido (já feito), Japão e União Europeia, especialmente após o entendimento avançado com os ingleses, que deve ser utilizado como base para outros acordos. Com o bloco europeu a negociação está em estágio menos avançado.

“Se ele consegue estabelecer dois ou três acordos com países do G8, é bem  possível que essa regra tenha o efeito dominó”, diz Lamengo. “É uma transformação da ordem econômica mundial para uma ordem que é do multilateralismo para uma ordem na qual o bilateralismo não vai ter uma predominância.”

A impressão é de que o governo Trump foca prioritariamente em sua base, formada por pessoas de classe média baixa com renda estagnada há mais de 20 anos e que não consegue poupar.

Seria uma espécie de agenda rápida, com resultados até setembro deste ano, para agradar essa base diante da aproximação das eleições de meio de mandato (midterm).

Caso os republicanos saiam sem maioria em novembro de 2026, o governo Trump pode passar seus últimos dois anos se esquivando de torpedos da oposição, como investigações sobre as ações tomadas no início do mandato.

Canal direto com os EUA e atração de talentos

A CNI também estuda institucionalizar um canal direto com o Departamento de Comércio dos Estados Unidos. Uma das ideias é por meio da iniciativa Select USA, que atualmente promove oportunidades nos EUA para empresas estrangeiras e o funciona sob o guarda-chuva do departamento de comércio norte-americano

Uma das ideias apresentadas é articular um ponto focal do Select USA dentro da CNI. Esse canal pode funcionar como um local para investimentos do Brasil nos EUA, e no fluxo contrário também. Empresas como Gerdau, Randon e JBS já mantêm operações relevantes no mercado americano e devem expandir suas atividades neste ano, por exemplo.

A indústria de máquinas e equipamentos — que tem nos Estados Unidos 25% do seu faturamento — também se destaca como potencial beneficiada no novo ciclo de aproximação bilateral.

Paralelamente, a indústria tenta construir também uma agenda de intercâmbio de talentos. Os executivos se reuniram com a comunidade científica brasileira em Massachusetts, onde ficam as universidades Harvard e MIT.

“Precisamos pensar nessa agenda que, hoje, está no mundo, e até pensar num programa de atração de talentos”, disse Lamego.

*O jornalista viajou a convite da Apex Partners

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Ainda vale a pena programar? O que os cursos de ciência da computação devem ensinar na era da IA

Universidades dos EUA estão se esforçando para entender as implicações da transformação da tecnologia pela IA generativa

Por Steve Lohr – Estadão/The New York Times – 02/07/2025 

A Universidade Carnegie Mellon tem merecida reputação de ser uma das melhores faculdades de ciência da computação dos EUA. Seus formandos vão trabalhar em grandes empresas de tecnologia, startups e laboratórios de pesquisa em todo o mundo.

Apesar de todo o sucesso, o corpo docente do departamento está planejando um encontro neste verão para repensar o que a faculdade deve ensinar para se adaptar ao rápido avanço da inteligência artificial (IA) generativa.

O ensino da ciência da computação provavelmente se concentrará menos na codificação e mais no pensamento computacional e na alfabetização em IA, disse Mary Lou Maher, diretora da Computing Research Association 

A tecnologia “abalou mesmo o ensino da ciência da computação”, diz Thomas Cortina, professor e reitor associado dos programas de graduação da universidade. A ciência da computação, mais do que qualquer outro campo de estudo, está sendo desafiada pela IA generativa.

A IA por trás de chatbots como o ChatGPT está ganhando espaço no meio acadêmico. Mas essa tecnologia chegou ainda mais rapidamente e com mais força à ciência da computação, que foca no desenvolvimento de código, a linguagem dos computadores.

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Grandes empresas de tecnologia e startups lançaram assistentes de IA que podem gerar código — e eles estão se tornando cada vez mais potentes. Em janeiro, Mark Zuckerberg, CEO da Meta, estimou que a tecnologia terá ainda neste ano o mesmo desempenho de um engenheiro de software de nível médio.

Assim, os programas de ciência da computação nas universidades de todo os EUA estão se esforçando para entender as implicações da transformação tecnológica, debatendo o que deve continuar a ser ensinando na era da IA. As ideias variam desde dar menos ênfase ao domínio das linguagens de programação até concentrar esforços em cursos híbridos projetados para incorporar a computação em todas as profissões, enquanto os educadores ponderam como serão os empregos do futuro na economia de IA.

“Estamos vendo a ponta do iceberg da IA”, diz Jeannette Wing, professora de ciência da computação e vice-presidente executiva de pesquisa da Universidade de Columbia.

O que aumenta a urgência da questão é que o mercado para empregos de tecnologia se tornou mais restrito nos últimos anos. Os formados em ciência da computação estão descobrindo que as vagas, antes abundantes, agora são escassas. As empresas de tecnologia já confiam mais na IA para alguns aspectos da programação, eliminando trabalhos de nível básico.

Alguns educadores acreditam que curso poderia se ampliar para se tornar mais parecida com as graduações em humanas, com maior ênfase no pensamento crítico e nas habilidades de comunicação.

A Fundação Nacional de Ciência dos EUA (NSF, na sigla em inglês) está financiando um programa, o Level Up AI, para reunir educadores e pesquisadores de universidades e faculdades com o objetivo de avançar em direção a uma visão compartilhada dos fundamentos da educação em IA. O projeto de 18 meses, administrado pela Associação de Pesquisa em Computação, organização sem fins lucrativos de pesquisa e educação, em parceria com a Universidade Estadual do Novo México, está organizando conferências e mesas redondas e produzindo artigos para compartilhar recursos e melhores práticas.

A iniciativa apoiada pela NSF foi criada devido a “uma sensação de urgência de que precisamos de muito mais estudantes de computação — e mais pessoas — que conheçam a IA na força de trabalho”, diz Mary Lou Maher, cientista da computação e diretora da Associação de Pesquisa em Computação.

O futuro da educação em ciência da computação, diz Maher, provavelmente se concentrará menos em programação e mais em pensamento computacional e letramento em IA. O pensamento computacional envolve dividir os problemas em tarefas menores, desenvolver soluções passo a passo e usar dados para chegar a conclusões baseadas em evidências.

O letramento em IA é a compreensão — em diferentes níveis de profundidade para alunos de diferentes níveis — de como a tecnologia funciona, como usá-la de forma responsável e como ela está afetando a sociedade. Cultivar o ceticismo informado, diz ela, deve ser uma meta.

Na Carnegie Mellon, enquanto os membros do corpo docente se preparam para sua reunião, Cortina opina que o curso deve incluir instrução nos fundamentos tradicionais da computação e nos princípios da IA, seguidos por muita experiência prática em projeto de software usando as novas ferramentas.

“Acho que esse é o caminho”, disse ele. “Mas precisamos de uma mudança mais profunda no currículo?”

Atualmente, cada professor de ciência da computação decide se permite que os alunos usem IA. No ano passado, a Carnegie Mellon aprovou o uso da tecnologia em cursos introdutórios. Inicialmente, diz Cortina, muitos dos alunos consideravam a IA uma “solução mágica” para concluir rapidamente as lições de casa, que envolvem desenvolver programas.

“Mas eles não entendiam metade do código”, diz ele, levando muitos a perceberem o valor de saber escrever e revisar códigos por conta própria. “Os alunos estão se reiniciando.”

Isso é verdade para muitos alunos de ciência da computação que estão adotando as novas ferramentas de IA. Eles dizem que usam as soluções para construir protótipos de programas protótipos, para corrigir erros no código e para responder perguntas como se fossem tutores. Mas eles relutam em confiar demais nos algoritmos, temendo que isso diminua sua habilidade em computação.

Muitos estudantes dizem que enviam de 100 a 200 candidaturas para estágios e primeiros empregos. Connor Drake, que será aluno do último ano na Universidade da Carolina do Norte, em Charlotte, no segundo semestre, se considera sortudo, pois conseguiu uma entrevista após se candidatar para apenas 30 vagas. Ele recebeu uma oferta de emprego como estagiário de segurança cibernética na Duke Energy, uma grande empresa de serviços públicos, em Charlotte.

“Um diploma de ciência da computação costumava ser um bilhete dourado para a terra prometida dos empregos”, disse Drake, 22 anos. “Esse não é mais o caso.”

A estratégia de Drake para se proteger da IA é expandir seu conjunto de habilidades. Além de seu curso de ciência da computação, ele estudou ciências políticas com especialização em estudos de segurança e inteligência – um campo em que sua experiência em segurança cibernética poderia muito bem ser aplicada. Ele também é presidente de um clube de segurança cibernética da universidade.

Drake, assim como outros estudantes de ciência da computação, foi forçado a se adaptar a um mercado de trabalho de tecnologia cada vez mais difícil. Vários fatores, segundo especialistas em trabalho, estão em ação. As grandes empresas de tecnologia, em particular, reduziram suas contratações nos últimos anos, um recuo acentuado em relação aos anos de expansão da era da pandemia. A exceção é o recrutamento de um número relativamente pequeno dos mais cobiçados especialistas em IA, para os quais estão sendo ofertados pacotes salariais altíssimos.

Mas a maioria dos trabalhadores de tecnologia não trabalha para empresas do setor. O emprego mais comum para os trabalhadores em ocupações de tecnologia, de modo geral, se manteve estável até recentemente – uma queda de 6% desde fevereiro, de acordo com as estatísticas do governo.

Os empregadores enviaram um sinal mais nítido com um recuo significativo nas listas de empregos em tecnologia. Nos últimos três anos, houve uma queda de 65% nas empresas que procuram trabalhadores com dois anos de experiência ou menos, de acordo com uma análise da CompTIA, uma organização de pesquisa e educação em tecnologia. O declínio nas listagens de profissionais de tecnologia com todos os níveis de experiência caiu 58%.

“Estamos vendo principalmente uma redução pós-pandêmica das contratações e o impacto da atual incerteza econômica”, disse Tim Herbert, diretor de pesquisa da CompTIA. “Ainda não temos um efeito claro da IA”.

Embora o caminho à frente para a educação em ciência da computação possa ser incerto, o mercado de software assistido por IA está pronto para crescer, dizem os especialistas. A IA é uma ferramenta de produtividade, e cada nova onda de computação – o computador pessoal, a internet, o smartphone – aumentou a demanda por software e por programadores.

Desta vez, dizem eles, o resultado pode ser uma explosão de democratização da tecnologia, já que as ferramentas do tipo chatbot são usadas por pessoas de áreas que vão da medicina ao marketing para criar seus próprios programas, personalizados para seu setor, alimentados por conjuntos de dados específicos do setor.

“O crescimento dos empregos em engenharia de software pode diminuir, mas o número total de pessoas envolvidas em programação aumentará”, diz Alex Aiken, professor de ciência da computação da Universidade Stanford.

Ainda vale a pena programar? O que os cursos de ciência da computação devem ensinar na era da IA – Estadão

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Revolução silenciosa: drones do tamanho de insetos equipados com IA podem espionar, operar e cultivar; entenda

China apresentou drone espião do tamanho de um mosquito e se une ao avanço global dos microveículos aéreos não tripulados

Por Filipe Vidon — O Globo – 28/06/2025 

RoboBees: microrrobôs voadores autônomosRoboBees: microrrobôs voadores autônomos — Foto: Divulgação/Wyss Um drone do tamanho de um mosquito, revelado recentemente por um laboratório militar na Universidade Nacional de Tecnologia de Defesa (NUDT), na província de Hunan, na China, está sendo apontado como um marco no desenvolvimento de tecnologias de vigilância e espionagem.

Embora desperte preocupações sobre uso militar, essa mesma tecnologia de miniaturização extrema, combinada com inteligência artificial, também vem abrindo caminho para avanços na medicina de precisão, com microrrobôs cirúrgicos, e na agricultura, com drones polinizadores inspirados em insetos.

Com asas minúsculas e três “perninhas” finas como fios de cabelo, o aparelho foi exibido em uma reportagem da CCTV 7, o canal militar da televisão estatal chinesa. Segundo os pesquisadores, sua missão principal será atuar em operações de reconhecimento e infiltração sigilosa.

A apresentação pública do microdrone chinês levanta uma série de questões sobre os rumos tecnológicos e éticos da chamada guerra invisível. Em tempos de tensão geopolítica crescente, o surgimento de equipamentos com esse nível de miniaturização acende um alerta sobre os limites entre segurança e vigilância indiscriminada.

China revela 'drone espião do tamanho de um mosquito' — Foto: ReproduçãoChina revela ‘drone espião do tamanho de um mosquito’ — Foto: Reprodução

Silêncio, sigilo e alcance estratégico

Drones do tipo mosquito, apesar de limitados em poder ofensivo, têm um potencial estratégico imenso em ações de coleta de dados. Por seu tamanho reduzido e operação silenciosa, são especialmente projetados para ambientes de difícil acesso, como o interior de instalações militares, governamentais ou empresariais de alta segurança.

Em áreas urbanas densas ou cenários de guerra híbrida, um microdrone pode se infiltrar em prédios sem chamar atenção, posicionar-se em salas de reunião, ou mesmo seguir um alvo específico sem ser detectado. Segundo os especialistas, o risco de se tornarem ferramentas de espionagem em escala nunca antes vista é real e crescente.

Apesar do entusiasmo em torno da novidade chinesa, os desafios técnicos ainda são relevantes. A redução extrema de tamanho exige componentes mínimos, como sensores e baterias ultracompactas, que limitam o tempo de voo. Além disso, o controle remoto do drone ainda requer que o operador esteja a curta distância para manter a conexão, o que reduz a aplicabilidade em missões de longo alcance.

Inspirados pela biologia de uma abelha, pesquisadores do Instituto Wyss estão desenvolvendo RoboBees — Foto: Instituto Wyss da Universidade de Harvard

Corrida global pelos microdrones

Além do uso desses equipamentos em ações de segurança, essa tecnologia já está sendo desenvolvida para agricultura de precisão, monitoramento ambiental, medicina e inspeção de infraestruturas. Nesse cenário, o drone chinês não é o primeiro a se inspirar no mundo dos insetos.

A Universidade de Harvard desenvolve há anos o projeto RoboBee, que utiliza drones em miniatura com formato de abelha para missões de busca, resgate e polinização artificial. Alguns modelos já são capazes de voar e até nadar.

Para viabilizar a construção dos RoboBees, cientistas do Instituto Wyss criaram técnicas inovadoras de fabricação conhecidas como tecnologias microeletromecânicas Pop-Up (MEMs). Esse método de fabricação permite construir microrrobôs tridimensionais a partir de estruturas planas, ampliando significativamente os limites atuais do design e da engenharia robótica.

Utilizando materiais leves e dobradiças microscópicas, as peças se erguem automaticamente em formas complexas ao serem liberadas da base. Essa técnica facilita a produção precisa e em larga escala desses robôs em miniatura.

Pesquisadores do Instituto Wyss desenvolveram métodos de fabricação inovadores, as chamadas tecnologias microeletromecânicas Pop-Up (MEMs) — Foto: Instituto Wyss da Universidade de HarvardPesquisadores do Instituto Wyss desenvolveram métodos de fabricação inovadores, as chamadas tecnologias microeletromecânicas Pop-Up (MEMs) — Foto: Instituto Wyss da Universidade de Harvard

No setor militar, microdrones do tamanho da palma da mão também foram criados na Noruega e amplamente adotados por forças armadas do Reino Unido, dos Estados Unidos e da Ucrânia. Desde o início da invasão russa em 2022, unidades ucranianas de operações especiais têm usado os “Black Hornet” em áreas como Kursk para reconhecimento e mapeamento em tempo real.

— Trata-se de uma corrida multidisciplinar que une controle remoto, sensores microscópicos e inteligência artificia — definiu um estudante da NUDT durante a apresentação do projeto.

Revolução silenciosa: drones do tamanho de insetos equipados com IA podem espionar, operar e cultivar; entenda

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Disseminação da IA estimula novos data centers no Brasil

País oferece vantagens e quer atrair mais projetos internacionais; mercado mundial do segmento deve crescer em média 7% em 2025

Por Martha Funke — Para o Valor – 30/05/2025

Investimentos bilionários em data centers (DC) prometem colocar o Brasil na rota da inteligência artificial (IA) global. Ainda impulsionado por digitalização e computação em nuvem, o mercado mira instalações mais parrudas para exportar serviços como processamento para treinamento de IA generativa.

O cenário é favorecido pela Nova Política de Data Centers, apresentada em maio. Além de vantagens locais, como disponibilidade de energia limpa e renovável, espaço e segurança geopolítica, a ideia é oferecer benefícios à importação de equipamentos, cuja tarifa hoje é pouco mais de 50%, e à exportação de serviços do setor, com antecipação dos efeitos da reforma tributária para o setor digital.

O regime, batizado de Redata, deve ser concedido a empresas que cumprirem metas de sustentabilidade e investimentos em pesquisas sobre DCs, com contribuição de 2% da receita para o Fundo Nacional de Desenvolvimento Industrial e Tecnológico (FNDIT). Nas contas do Ministério da Fazenda, o potencial alcança R$ 2 trilhões em investimentos em dez anos e pode reverter a balança atual, com 60% da carga digital do país rodando no exterior.

Por enquanto, o mercado brasileiro de DC se fortalece com expansão de “regiões” e “zonas” de nuvem (capacidade de processamento local) das empresas de “hiperescala” (companhias do porte de AWS e Microsoft, por exemplo). Nos dados da consultoria IDC, o avanço foi de 19,7% em 2024 e deve ficar em 17,9% este ano, somando US$ 1,39 bilhão. “Os clientes estão mais criteriosos”, avalia Luciano Saboia, diretor de pesquisa e consultoria para o setor de telecomunicações da IDC. O mercado mundial de DC deve crescer em média 7% em 2025.

“A nova onda de investimento com IA está no começo. Ainda não há demanda”, diz Renato Pasquini, vice-presidente global de pesquisa da consultoria Frost & Sullivan. Mas os provedores antecipam o movimento. Um dos destaques é o retorno do Pátria Investimentos – depois da venda da Odata (em 2023) -, com a Omnia. O fundo planeja investir em DCs voltados à IA, com densidade energética na casa dos 100 MW, que em média exigem investimento de R$ 1 bilhão em infraestrutura, detalha o CEO da Omnia, Rodrigo Abreu.

Segundo ele, a vocação é o mercado local e, eventualmente, cargas globais de processamento de IA. A empresa já tem desenvolvimentos no Brasil e em outros países da América Latina e seu primeiro projeto deve começar a ser construído aqui ainda este ano.

Uma das implicações da magnitude dos novos projetos é a necessidade de conexão direta com a rede de transmissão de energia e a inserção dos DCs no sistema integrado nacional. A questão levou a Aneel a aprovar, em maio, novas regras para o acesso de grandes consumidores de energia à rede básica.

A demanda energética estimula a instalação de DCs em regiões com energia disponível. A entrante RT-One mira redução de encargos para custos competitivos. Uma das estratégias prevê parcerias para se classificar como autoprodutora de energia e cortar até 40% na conta. Outra é buscar Zonas de Processamento de Exportação (ZPE), áreas de livre-comércio para produção e exportação de bens e serviços sem IPI, Pis-Cofins e impostos de importação para insumos e matérias-primas.

A empresa já fechou parceria com a Supermicro para equipamentos, a exemplo de GPUs, e elegeu áreas como Uberaba (MG) e Maringá (PR), cuja ZPE aguarda autorização federal, para trazer processamento de IA para o Brasil. O CEO Fernando Palamone estima que 95% da IA nacional sejam processados no exterior, já que o parque nacional sequer dispõe hoje de equipamentos suficientes. Em Maringá a meta é ocupar um terreno adquirido pela prefeitura para criar uma zona industrial. Os investimentos alcançam R$ 6 bilhões em sete anos, em 400 mil m2 e 400 MW de TI, com consumo energético total de 480 MW, mais do que o dobro da cidade. Na primeira fase serão 80 MW, em parceria com a concessionária local, Copel.

Outra que aposta em infraestrutura para IA global, a Scala tem 6 GW em conexões de energia garantida para suportar expansão. A empresa possui 13 DCs em operação, dos quais dez no Brasil, e mais cinco em construção, três deles por aqui. Já investiu R$ 12 bilhões entre Brasil, Chile, México e Colômbia e prevê mais R$ 24 bilhões.

O destaque fica por conta da “cidade” de DCs em Eldorado do Sul (RS), em terreno de 11 milhões de m2, com investimentos de US$ 50 bilhões e carga total de 4,75 GW. “Mais do que o Estado do Rio de Janeiro”, compara Christiana Weisshuhn, vice-presidente de marketing e comunicação da Scala. Outra instalação está sendo construída em Fortaleza (CE), com 7,2 MW.

Fortaleza é um dos destaques da Tecto, empresa pertencente à V.Tal que está investindo US$ 1 bilhão em DCs em várias regiões. O data center cearense Mega Lobster terá 20 MW de potência, com conexão à estação de cabos submarinos e ao ponto de troca de tráfego local, um dos principais do país. Em Santana do Parnaíba (SP), projeto de DC hiperescala deve alcançar 200 MW, para IA, machine learning e nuvem, detalha o diretor comercial André Busnardo.

Mais uma que aposta no modelo “cidade” de DCs é a Elea, que está investindo R$ 5 bilhões na sua AI City no Rio de Janeiro (RJ), aproveitando infraestrutura construída para a Olimpíada. O projeto prevê até 3,2GW de capacidade energética, com 80 MW entregues em 2026. São Bernardo do Campo (SP) recebe cerca de US$ 300 milhões para agregar mais 32 MW até o ano que vem e Alphaville (SP) segue plano semelhante, descreve o CEO Alessandro Lombardi.

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O plano da Amazon para controlar o ‘caos do marketplace’

O volume alto de anúncios de baixa performance atrapalha as vendas e desafio sonho da “loja infinita”

Laura Pancini – Exame – 31 de maio de 2025 

Quando criou a Amazon, Jeff Bezos imaginava um marketplace onde o cliente encontraria “qualquer coisa e tudo o que quisesse comprar online”. Hoje, essa busca pelo catálogo infinito esbarra em um problema: são tantas ofertas que o cliente pode se perder e a experiência de compra fica confusa desestimulando as vendas.

A gigante do e-commerce lançou, então, o projeto interno “Bend the Curve”, que já eliminou mais de 24 bilhões de anúncios considerados “não produtivos”. A iniciativa tem o objetivo de organizar o catálogo digital e controlar os custos crescentes da infraestrutura de nuvem.

Por que agora?

Liderada pelo CEO Andy Jassy desde 2021, a estratégia marca uma mudança de foco para além do crescimento acelerado do marketplace. O objetivo é dar um basta na expansão desenfreada de anúncios pouco relevantes — desde produtos com estoque inexistente até listagens desatualizadas há mais de dois anos, que não geram vendas ou causam confusão entre os consumidores.

O equilíbrio entre oferecer uma variedade quase infinita e manter a qualidade do catálogo é delicado. Pesquisas internacionais indicam uma queda na satisfação dos consumidores com o portfólio da empresa — que atingiu o menor índice em 12 anos, segundo levantamento realizado pela Evercore ISI.

Além da exclusão de anúncios, o programa criou um mecanismo de limitação para novos cadastros de produtos por vendedores com desempenho fraco. Em 2024, foram encontrados cerca de 12 mil vendedores ativos com catálogos com mais de 100 mil produtos e nenhuma venda registrada. Eles tiveram o limite de criação de novas listagens bloqueado, o que impediu a entrada de mais de 110 milhões de anúncios considerados improdutivos.

Esse esforço gerou uma economia direta de mais de US$ 22 milhões em custos com servidores da Amazon Web Services (AWS) em 2024, com previsão de US$ 36 milhões adicionais em 2025. Mesmo com o aumento previsto de 27% no orçamento da AWS para 2025, a iniciativa visa desacelerar o ritmo de crescimento dos custos operacionais na nuvem.

A iniciativa, no entanto, não está isenta de desafios. Alguns vendedores expressaram confusão sobre o escopo das restrições, chegando a acreditar que suas contas foram completamente bloqueadas, quando o foco são apenas as listagens consideradas “não produtivas”. Segundo o portal Business Insider, a Amazon promete aprimorar a comunicação para evitar mal-entendidos.

O plano da Amazon para controlar o ‘caos do marketplace’ | Exame

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