A Fascinante Escalada da Coreia do Sul: Uma Jornada da Cópia à Criação Tecnológica

Bruno Stefani – Efeito Rede – 18 de julho de 2025

Nerd.Partners | Liderando Transformação e Inovação | Board Member | PhD | Fã do Brasil

Conteúdo do artigo

A impressionante ascensão da Coreia do Sul, de uma nação agrícola devastada pela guerra a uma potência tecnológica global em poucas décadas, é o cerne da obra “Da Imitação à Inovação: A Dinâmica do Aprendizado Tecnológico da Coreia”, de Linsu Kim. Neste livro seminal, Kim desvenda a extraordinária metamorfose das empresas sul-coreanas, que, entre as décadas de 1960 e 1990, navegaram com maestria do simples ato de copiar para o complexo universo da inovação criativa, revelando os alicerces desse salto sem precedentes.

Kim propõe um modelo em três estágios para decifrar essa progressão tecnológica singular. Inicialmente, a Coreia embarcou na fase da imitação duplicativa, um período onde a engenharia reversa de produtos maduros era a tática predominante. O objetivo primordial não era apenas replicar, mas sim dominar as tecnologias existentes, desvendando seus segredos internos. A partir daí, o país avançou para a imitação criativa, um estágio crucial de transição onde a mera cópia deu lugar à adaptação e melhoria das tecnologias estrangeiras. Essa fase, muitas vezes indistinguível da inovação pura em sua essência, frequentemente resultava em produtos que superavam os originais em desempenho e funcionalidade. Finalmente, no ápice dessa jornada, as empresas coreanas atingiram o estágio da inovação genuína, onde passaram a desenvolver suas próprias tecnologias pioneiras, consolidando sua posição no cenário global de pesquisa e desenvolvimento.

Por trás desse sucesso espetacular, Linsu Kim identifica um conjunto de seis fatores interligados que atuaram como catalisadores. A própria Guerra da Coreia, paradoxalmente, serviu como um agente transformador, dissolvendo uma sociedade de classes rígida em uma estrutura mais fluida e meritocrática, aberta a novas ideias e talentos. O governo desempenhou um papel central e orquestrador, delineando e implementando políticas industriais e de ciência e tecnologia que guiaram o desenvolvimento do país com uma visão estratégica de longo prazo. Os poderosos chaebols, grandes conglomerados empresariais como Samsung e Hyundai, emergiram como verdadeiros motores de crescimento, acumulando capital e investindo em tecnologia em uma escala massiva, fundamental para a competitividade global. Além disso, o capital humano provou ser um recurso inestimável; a Coreia investiu incansavelmente em educação, formando uma força de trabalho altamente qualificada, disciplinada e com uma ética de trabalho inabalável, alicerçada nos valores confucianos. A estratégia orientada para exportação impôs uma pressão competitiva vital, forçando as empresas a buscar a excelência tecnológica para sobreviver e prosperar no mercado internacional. Por fim, a construção de crises foi uma tática engenhosa empregada pelo governo e pelos chaebols, que estrategicamente utilizavam momentos de adversidade e metas ambiciosas para acelerar o aprendizado e a adaptação tecnológica, transformando desafios em férteis oportunidades de inovação.

É fundamental compreender que a engenharia reversa na Coreia, conforme Kim demonstra, estava longe de ser um processo passivo de plágio. Era, na verdade, uma atividade intensamente estratégica, que envolvia a busca proposital por informações, uma comunicação e interação eficazes entre as equipes técnicas, e uma colaboração dinâmica com fornecedores, clientes e institutos de P&D. Essa abordagem sistemática permitiu não apenas a assimilação, mas também a adaptação e, crucialmente, a melhoria contínua das tecnologias importadas. A obra de Kim ressalta, com clareza, que a linha divisória entre imitação e inovação é, muitas vezes, tênue e permeável. A “imitação criativa”, em particular, provou ser um catalisador fundamental, permitindo que as empresas coreanas não apenas replicassem, mas superassem consistentemente as tecnologias estrangeiras, impulsionando-as para a vanguarda tecnológica.

“Da Imitação à Inovação” é, sem dúvida, uma contribuição monumental para a literatura sobre desenvolvimento tecnológico em economias emergentes. A minuciosa análise de Kim sobre a experiência coreana serve como um farol para outros países em desenvolvimento que anseiam por acelerar seu progresso tecnológico. O livro enfatiza a vital importância de políticas governamentais integradas, de um investimento substancial e contínuo em educação e pesquisa, e de uma visão estratégica de longo prazo para a inovação. A lição central é clara: a imitação, quando abordada como um processo ativo e estratégico de aprendizado e aprimoramento, pode se tornar o trampolim essencial para a construção de capacidades inovadoras robustas e a conquista da competitividade no palco global.

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Só um em cada 4 brasileiros tem altas habilidades digitais; entenda como isso foi medido

Índice de analfabetismo funcional incorporou atividades que envolvem tecnologia; compra online e busca de filmes foram itens que tinham de ser resolvidos no celular pelos participantes

Por Renata Cafardo – Estadão – 05/05/2025

Só um em cada quatro brasileiros (23%) de 15 a 64 anos tem altas habilidades digitais, independentemente do seu nível de alfabetismo ou educacional. As dificuldades para lidar com as atividades que envolvem tecnologia aparecem mais entre os que têm mais de 40 anos, mas há problemas até mesmo entre os jovens.

Esses são alguns dos resultados do Indicador de Alfabetismo Funcional (Inaf), divulgado nesta segunda-feira, 5, realizado pela consultoria Conhecimento Social, pela Ação Educativa e pela Fundação Itaú. É a primeira vez que a pesquisa mediu também o alfabetismo no contexto digital.

Com o futuro do trabalho cada vez mais focado numa economia digitalizada, as chamadas competências digitais são consideradas essenciais para o desenvolvimento pleno do cidadão e de um País competitivo.

Foram três atividades propostas aos entrevistados: a compra de um tênis, a inscrição em um evento e a busca por filmes em um serviço de streaming – essa última teve o menor índice de acertos (9%) mesmo entre os que têm nível mais alto de alfabetismo.

A partir de uma conversa fictícia com um amigo no WhatsApp, que dizia querer assistir a um documentário específico, o participante precisava acessar a plataforma de streaming e ler três sinopses para encontrar qual seria a obra sobre a qual estava sendo questionado.

Segundo a diretora da Conhecimento Social e responsável pela pesquisa, Ana Lucia Lima, a dificuldade maior apareceu na hora de escrever uma mensagem de volta ao amigo fictício, explicando os motivos que o levaram a escolher tal documentário.

“A construção de um texto argumentativo é uma habilidade de letramento”, explica. “A gente queria entender se o digital ajuda ou atrapalha as pessoas a funcionar numa sociedade letrada.”

As três tarefas era respondidas em um celular e tinham, cada uma, 14 atividades do mundo digital. Os níveis de habilidades – baixo, médio e alto – foram definidos a partir da quantidade de acertos (ver abaixo).

Se a pessoa conseguisse, por exemplo, acessar os filmes no streaming, mas não explicar de forma compreensível em mensagem de texto a sua escolha, a pesquisa não considerava que ela havia acertado completamente a atividade.

Os outros itens impunham tarefas como preencher dados em cadastros, fazer pagamento, criar senhas com exigências específicas, anexar fotos.

Segundo ela, há muitas limitações ainda para se entender os símbolos do mundo digital. “É desafiador para algumas pessoas compreender uma outra linguagem, ícones, memes, é quase um vocabulário novo, como se tivesse aprendendo a ler chinês.”

Veja os níveis de habilidades digitais:

  • Baixo – acerta até 1/3 das atividades propostas no celular – 25% dos brasileiros estão nesse nível
  • Médio – acerta até 2/3 das atividades propostas no celular – 53% estão nesse nível
  • Alto – acerta mais de 2/3 das atividades propostas no celular – 23% estão nesse nível

O estudo mostra também que o Brasil tem hoje 29% de analfabetos funcionais, que são aqueles que só conseguem fazer leituras bastante simples de palavras, pequenas frases e números familiares, como o do telefone ou de preços.

Para medir o nível do alfabetismo, os participantes fazem provas escritas sobre questões do cotidiano, tanto relacionadas à Linguagem quanto à Matemática. Entre os analfabetos funcionais, só 3% têm nível alto de habilidades digitais.

A maior parte da população brasileira se encontra no que o índice chama de alfabetismo elementar (36%); são pessoas que conseguem ler textos de extensão média, selecionando informações e fazendo algumas inferências, mas com vocabulário limitado.

Nesse grupo, chama a atenção o fato de 18% estarem no nível alto de habilidades digitais; outros 67% estão no médio, um resultado mais esperado. “Por alguma razão, o ambiente digital abre possibilidades que algumas pessoas não teriam no mundo analógico e elas têm performance melhor”, afirma Ana. Mas há outros 15% que estão no nível mais baixo, o que mostra uma dupla exclusão.

Na população geral, um quarto (25%) está nesse nível inferior e 53% no médio. O estudo aplicou testes a uma amostra de 2,5 mil pessoas, entre dezembro de 2024 e fevereiro de 2025.

Dificuldades entre o mais velhos

Segundo a pesquisa, os mais jovens, de 15 e 29 anos, têm o melhor desempenho no contexto digital, com mais de 30% deles nos níveis altos, independentemente do quanto são alfabetizados. Entre os que têm de 40 a 49 anos, são 17%, e entre 50 e 64 anos, 6%.

A tarefa de selecionar o filme foi a que foi feita com mais facilidade pelos jovens; já os mais velhos se saíram melhor na inscrição a um evento.

Ana explica que ainda não há consenso nas pesquisas sobre como definir de forma clara o letramento digital. E que os dados do Inaf vão contribuir com essa discussão.

“Até pouco tempo se dizia que a pessoa tinha um letramento digital, midiático, quando conseguia produzir algo usando a tecnologia, textos, imagens, tabelas. Mas agora vem a inteligência artificial e produz tudo para você. A tecnologia avança muito rápido e esses conceitos não estão consolidados”, afirma.

O Inaf foi lançado pela primeira vez em 2001 pelo Ibope e pelo Instituto Paulo Montenegro, quando foi medido pela primeira vez o analfabetismo funcional no Brasil. Na primeira edição, eram 39% de analfabetos funcionais no País.

O Inaf havia sido realizado pela última vez em 2018, quando o índice registrado foi o mesmo de 2024, 29%. A pesquisa deste ano foi feita em parceria com a ⁠Fundação Roberto Marinho, ⁠Instituto Unibanco, Unesco e Unicef.

Só um em cada 4 brasileiros tem altas habilidades digitais; entenda como isso foi medido – Estadão

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Dois avanços que passaram despercebidos, mas podem mudar o jogo da IA

Pesquisas recentes podem representar um ponto de virada no desenvolvimento da inteligência artificial geral

TOM BARNETT – Fast Company Brasil – 01-07-2025 

Nem sempre as maiores inovações são as que ganham as manchetes. Dois avanços recentes no campo da inteligência artificial talvez nem viralizem no TikTok ou no YouTube, mas marcam um momento crucial que pode acelerar – e muito – a chegada da chamada inteligência artificial geral (IAG), uma IA que aprende sozinha e é capaz de agir como os seres humanos.

DESPERTANDO OS SENTIDOS: WILDFUSION

Nós, humanos, usamos todos os nossos sentidos para entender e interagir com o mundo – visão, audição, tato, paladar e olfato. Até agora, no entanto, a maioria dos sistemas de IA se baseava quase exclusivamente na visão.

Isso está começando a mudar com o WildFusion, um novo sistema desenvolvido por pesquisadores da Universidade de Duke, nos EUA, que combina visão, tato e vibração.

O robô usado nos testes tem quatro patas e é equipado com câmeras, microfones e sensores táteis. Ele é capaz, por exemplo, de identificar o tipo de superfície em que pisa – como folhas secas ou areia molhada – a partir do som e medir a pressão e a resistência para manter o equilíbrio.

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Todas essas informações são integradas em uma única representação, que vai sendo refinada à medida que o robô acumula novas experiências. O plano da equipe é ir além e permitir que o sistema perceba também variações de temperatura e umidade.

Ao integrar dados sensoriais mais diversos, a IA dá um passo importante em direção a uma forma de inteligência mais ampla, parecida com a nossa.

UMA IA QUE APRENDE A APRENDER

O segundo avanço vem de uma parceria entre as universidades de Surrey, no Reino Unido, e de Hamburgo, na Alemanha. Ainda em fase inicial, a pesquisa abre caminho para que robôs sociais – aqueles que interagem com humanos – aprendam sozinhos, com pouca intervenção humana.

A chave está em ensiná-los a direcionar o olhar de forma parecida com o que fazemos em situações sociais. Por exemplo: ao conversar com alguém, aprendemos a olhar para o rosto da pessoa ou para o objeto que ela aponta, e não para os pés dela ou para o nada.

Robôs não sabem disso naturalmente – precisam ser treinados. E, até agora, esse tipo de aprendizado exigia supervisão humana constante. Com a nova abordagem, os robôs usam simulações para observar, analisar e – o mais importante – melhorar suas interações sociais por conta própria.

Esse avanço representa um passo significativo para a robótica social e pode acelerar de forma decisiva o desenvolvimento da inteligência artificial geral. Afinal, uma IA capaz de aprender sozinha tem potencial para evoluir em velocidade exponencial – o que pode ser tanto empolgante quanto preocupante, dependendo do ponto de vista.

MENOS ESPETÁCULO, MAIS EVOLUÇÃO

Robôs que dançam ou cães robóticos são impressionantes, mas ainda se encaixam na categoria de IA estreita – aquela projetada para executar tarefas específicas.

Esses exemplos chamam atenção, mas os dois avanços apresentados aqui mudam completamente o jogo: mostram novos caminhos para a IA perceber o mundo e aprender com ele de forma contínua. Isso tem potencial para transformar radicalmente nossa relação com a tecnologia.

Somados aos esforços de pesquisadores e inovadores pelo mundo, esses desenvolvimentos representam um ponto de virada no desenvolvimento da inteligência artificial geral. Pode ser que estejamos nos aproximando do momento em que os passos lentos de hoje se tornarão uma verdadeira corrida rumo ao futuro.


SOBRE O AUTOR

Tom Barnett é sócio e chief data officer do escritório de advocacia Jackson Lewis. saiba mais

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Se quisermos saber como será o fim do dinheiro, basta olhar para um país que está vivendo isso: a China

História de Viny Mathias • 22 h • 4 minutos de leitura

Se você for a uma loja na China, provavelmente descobrirá que não pode pagar com dinheiro. Os logos azul e verde do Alipay (Ant Group) e do WeChat Pay (Tencent) dominam tudo, relegando as moedas e notas tradicionais a um papel secundário por anos. Enquanto no Ocidente debatemos o que fazer com o dinheiro e a Europa pondera o que acontecerá com o euro digital, na China isso já é bem claro.

Supermercados, cafés, táxis ou transporte público são alguns dos muitos tipos de estabelecimentos onde os chineses já pagam com Alipay ou WeChat Pay. Onde quer que o pagamento seja necessário, os símbolos azul e verde desses aplicativos dominam tudo e, de fato, muitos estabelecimentos nem sequer têm caixa registradora. De acordo com o jornal Le Monde, muitos táxis e estabelecimentos locais se recusam a aceitar pagamentos em dinheiro e, se o fazem, nem dão troco aos clientes.

Apenas os idosos pagam em dinheiro. Ma Dian, um vendedor de frutas e verduras em Hubei, contou ao Le Monde como vivenciou o desaparecimento dos pagamentos em dinheiro. “Só aceito dinheiro para ajudar os idosos. Abaixo dos 80 anos, praticamente todos já fizeram a troca. Acima dos 80, é muito mais difícil se adaptar”. Os idosos são os mais afetados e precisam pedir ajuda aos familiares devido à dificuldade que enfrentam para fazer pagamentos móveis com Alipay ou WeChat Pay.

Os códigos QR que vemos com frequência em bares e restaurantes por aqui para olhar o cardápio (vida longa ao cardápio físico, aliás) estão por toda parte na China. Lá, os estabelecimentos têm códigos estáticos ou dinâmicos que os clientes escaneiam. Se for um código estático, o cliente geralmente precisa inserir o valor a ser pago. Com códigos dinâmicos, o valor é exibido automaticamente. A etapa final é a autenticação com uma senha, reconhecimento facial ou impressão digital. Embora o Alipay e o WeChat Pay inicialmente usassem códigos diferentes em alguns casos, códigos QR unificados agora são usados ​​para ambos os aplicativos — cabe ao cliente escolher qual usar em seu celular.

Bancos estão perdendo a relevância

A presença absoluta desses dois sistemas de pagamento digital fez com que os bancos chineses (de propriedade do governo) também desempenhassem um papel secundário para muitos clientes. É necessária uma conta bancária para vinculá-los a esses aplicativos, mas seus aplicativos e serviços móveis são completamente ofuscados pelo Alipay e pelo WeChat Pay, com os quais os usuários fazem praticamente tudo na área de pagamentos e transações financeiras. Como John Engen observou no American Banker, os bancos são frequentemente reduzidos a “atores passivos”.

Embora tanto a Alibaba (da qual a Ant Group é filiada) quanto a Tencent tenham conseguido controlar essas transações, o governo chinês já demonstrou que elas continuam sendo entidades passíveis de punições severas. Isso aconteceu em 2020, quando a Ant Group estava prestes a abrir o capital. O fundador do grupo, Jack Ma, criticou seu governo na época, o que levou ao cancelamento do IPO e ao banimento de um dos principais empreendedores da China por anos.

A China quer sua moeda digital

O banco central chinês busca a criação de uma moeda digital há anos. Seu renminbi (yuan) digital está alcançando mais do que apenas uma alternativa ao dólar: está criando um sistema paralelo. O objetivo é ter uma alternativa à popularidade das criptomoedas, mas controlada pelas autoridades chinesas. Embora o lançamento dessa moeda digital esteja em andamento há anos, sua proeminência é muito limitada e, por enquanto, tanto o Alipay quanto o WeChat Pay continuam a dominar.

Ambas as plataformas, que antes dificultavam a vida dos turistas, adaptaram-se gradualmente às suas necessidades. Há cerca de dois anos, tanto o Alipay quanto o WeChat Pay permitem que visitantes estrangeiros criem uma conta nesses aplicativos e a vinculem a um cartão de crédito. No ano passado, os limites de transação também foram aumentados, passando de US$ 1.000 para US$ 5.000 no Alipay, por exemplo.

O WeChat Pay ainda oferece acesso a uma espécie de carteira que você pode preencher para não precisar vincular seu cartão de crédito ao aplicativo, permitindo que você faça pequenos pagamentos. O acesso à Internet é necessário para esses pagamentos, e comprar um SIM ou eSIM local para obter um número chinês (para validações de SMS, por exemplo) é especialmente recomendado para facilitar esses tipos de transações.

Se quisermos saber como será o fim do dinheiro, basta olhar para um país que está vivendo isso: a China 

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📊 Mais de 40% dos formandos na China estão em cursos de STEM — Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática.

Anderson Correia – Linkedin – Julho 2025

Presidente do IPT | Professor Titular e ex-Reitor do ITA | Top 1 em Educação no Linkedin

Nos Estados Unidos, essa proporção gira em torno de 20%.

No Brasil, apenas 17%.

Esses dados ajudam a explicar por que algumas economias avançam mais rapidamente do que outras. O progresso tecnológico não nasce por decreto: é consequência direta de investimento em educação científica e formação de capital humano.

Em números absolutos, a diferença é ainda mais expressiva.

A China formou cerca de 3,57 milhões de profissionais em STEM no ano de 2020.

Os Estados Unidos, 820 mil.

O Brasil, 238 mil.

Ou seja: a China forma quase 4 vezes mais profissionais dessas áreas do que os EUA — e aproximadamente 15 vezes mais que o Brasil.

📌 E não é apenas sobre orçamento. É sobre prioridade.

Um exemplo claro é o Irã: mesmo sob sanções econômicas severas, o país forma 33% de seus graduados em STEM — quase o dobro da taxa brasileira.

Nos Estados Unidos, há ainda outro fator agravante: uma parte relevante dos formandos em STEM são estudantes internacionais. Com as restrições migratórias recentes, esse número tende a diminuir — o que pode comprometer a base de talentos técnicos do país.

🇧🇷 Já no Brasil, o desafio é duplo:

Primeiro, formar mais profissionais nessas áreas.

Depois, garantir que eles encontrem oportunidades reais de desenvolvimento e permaneçam no país.

Quem passou por um curso de engenharia ou áreas correlatas sabe: a evasão é alta. Muitos desistem no meio do caminho — em boa parte por conta de deficiências na educação básica, que dificultam o aprendizado em disciplinas mais exigentes. Mas também porque os alunos fogem de cursos que possuem pouca demanda de mercado.

📉 E como se já não bastassem os obstáculos internos, o cenário se agravou com o tarifaço anunciado pelos EUA, que impacta diretamente empresas brasileiras como Embraer, WEG, Braskem, Marcopolo, Suzano — justamente aquelas que mais contratam engenheiros e investem em inovação tecnológica.

Essas tarifas não prejudicam só a exportação. Elas afetam a inovação, a pesquisa aplicada e a formação técnica nacional.

Formar talentos é essencial. Mas proteger e valorizar esses talentos é uma escolha. Uma decisão estratégica.

Ative para ver a imagem maior.

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Substituição de empregos por IA ainda vai demorar

Tecnologia turbina habilidades de trabalhadores, mas é preciso cautela com sinais alarmantes

Álvaro Machado Dias – Folha – 13.jul.2025

Neurocientista, professor livre-docente da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) e sócio do Instituto Locomotiva e da WeMind

O Brasil teve em 2024 a menor taxa anual de desemprego já registrada (6,6%), índice que neste ano caiu um pouco mais. Nos Estados Unidos (4,1%), no Reino Unido (4,6%) e na China (5,2%), as taxas atuais também são benignas. É a calmaria antes da tempestade, sugerem as manchetes internacionais sobre o início da grande crise do emprego causada pela IA.

A minha leitura é diferente: os sinais alarmantes detectados têm outra fonte; impactos estatisticamente relevantes ainda demoram vários anos. Ademais, prognósticos sobre os efeitos da IA tendem a subestimar as otimizações produtivas existentes e é preciso cautela na transposição para o Brasil.

A sirene soou pelas demissões nas multinacionais de tecnologia, onde a IA está gerando seus efeitos mais notáveis. Porém, é preciso considerar que houve excesso de contratações nos anos anteriores e que a percepção de que a IA limpará a TI permite que a empresa demita seus programadores e contrate os exonerados pelo vizinho por bem menos.

A questão mais profunda é que a IA atual otimiza a produtividade em detrimento da acurácia. Quando a precisão importa menos, pode ter autonomia; quando o rigor define o jogo, torna-se acessória. Isso explica por que o jornalismo investigativo, jurado de morte, segue incólume, enquanto o copy para redes sociais foi parar na UTI. Programar está no meio do caminho.

A grande aposta para a eliminação em massa dos empregos corporativos é que a IA faça o trabalho dos executivos de entrada. Porém, se a cada dez compras de suprimentos uma dá errado, surge um problema que tende a custar mais do que a diferença entre tokens e um mau salário, que justamente é a otimização principal do capitalismo, refinada ao longo de séculos.

Subestimar as otimizações existentes é o erro do momento. Em geral, isso ocorre porque a conformidade é exagerada; mas há também casos em que excessos de conformidade são sumariamente ignorados.

Considere a tese da eliminação dos motoristas por frotas de veículos autônomos, que para operarem precisam demonstrar segurança quase absoluta. Mas, afinal, por que as pessoas não atravessam a Rebouças sem olhar? Porque temem ser atropeladas por algum míope como eu.

Imagine como seria o trânsito se todos soubessem que podem se jogar na frente dos carros, já que eles sempre pararão. Agora, acrescente a vantagem competitiva dos taxistas e motoboys, cientes de que podem cortar essas máquinas ao seu bel-prazer, e eis um antídoto à ilusão substitutiva. Motoristas, profissionais ou não, são otimizadores do caos e a sua extinção por essas bandas só virá quando a lei a determinar, o que levará décadas.

Dia sim, dia não, sai um artigo mostrando que IAs generativas são melhores do que médicos, engenheiros civis ou advogados e que essas áreas vão micar. Porém, no Brasil, as profissões tradicionais têm reservas de mercado asseguradas pelos conselhos de classe, que agem como máfias, não importando quem pode servir a sociedade, mas quem tem o carimbo certo.

IAs turbinam habilidades, mas mesmo que triplicássemos a produtividade dos nossos doutores, seguiríamos atrás de países com desemprego a 4%. O pior que pode acontecer é os serviços ficarem bem mais baratos para a população —efeito que a indústria dos diplomas vem produzindo por meio da falta de escrúpulos e ausência de inovação.

Substituição de empregos por IA ainda vai demorar – 13/07/2025 – Álvaro Machado Dias – Folha

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A revolução da chamada “mídia sintética”: é para a gente amar ou odiar?

Estamos entrando em uma nova era dos contadores de histórias: quando o meio fala por si

ASHLEIGH VOGSTAD – Fast Company Brasil – 12-07-2025 

No início dos anos 2000, meu primeiro emprego foi no Cactus Club Café, um restaurante nascido em Vancouver, no Canadá, onde a cultura pop encontrava a arte pop. As paredes exibiam reproduções de Andy Warhol – latas de sopa Campbell’s em serigrafia vibrante, retratos neon de Marilyn Monroe e críticas sociais camufladas em imagens icônicas.

Hoje, olhando para trás, fica claro: Warhol não estava apenas fazendo arte. Estava antecipando a era da mídia sintética.

Com sua técnica de serigrafia industrial, ele produzia imagens em escala e desafiava a própria noção de originalidade. Diluía as fronteiras entre criador e máquina, arte e publicidade. E, mesmo com um processo mecanizado, sua obra ainda tocava o emocional – prova de que, na repetição, algo humano sobrevive.

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De certa forma, Warhol antecipou o momento atual: uma era na qual a narrativa está sendo redefinida não mais pela tinta ou pela impressão, mas por linhas de código.

A NOVA VOZ É ARTIFICIAL

As ferramentas que usamos para contar histórias mudaram. E, com elas, a definição de quem é um contador de histórias. Se, em 1964, Marshall McLuhan dizia que “o meio é a mensagem”, em 2025, o meio é a inteligência artificial.

Para Jensen Huang, CEO da Nvidia, IA é “a automação da automação – um software que cria software”. Já o historiador Yuval Harari vai além: ele alerta que a IA está escrevendo narrativas, moldando crenças – e não apenas analisando dados.

ROSTOS GERADOS POR IA FORAM AVALIADOS COMO MAIS CONFIÁVEIS DO QUE ROSTOS REAIS.

Motores de recomendação se tornaram sacerdotes digitais, decidindo quais histórias escutamos. Quer isso inspire ou assuste, uma coisa é certa: a IA não é só uma ferramenta. É narradora. E narradores sempre foram seguidos.

Ferramentas como o ChatGPT ou o Sora começaram como substitutos limitados da criatividade humana. Mas isso ficou no passado. A IA narrativa de hoje emociona, surpreende – e convence.

ENTRE A MÍDIA SINTÉTICA E O CONTEÚDO “REAL”

Quando nos deparamos com alguma mídia sintética – como vídeos deepfake ou imagens geradas por IA –, o cérebro usa um mecanismo chamado codificação preditiva para identificar inconsistências sutis. É esse circuito que nos ajuda a distinguir o real do artificial. Mas… até quando?

Um estudo recente revelou que rostos gerados por IA foram avaliados como mais confiáveis do que rostos reais. E mesmo assim, algo parece “estranho”. Nossa intuição ainda nos alerta quando algo não é genuinamente humano.

A publicidade já testa esses limites. O comercial de fim de ano da Coca-Cola, feito por IA, buscava homenagear a campanha clássica de 1995, mas foi criticado por parecer “sem alma”.

Já a Land Rover combinou IA e filmagem real em uma peça para o modelo Defender, mostrando o potencial da mídia sintética – e também os dilemas da criatividade híbrida.

Ao mesmo tempo, projetos como o Woebot e o LovingAI mostram que conseguimos nos conectar emocionalmente com máquinas, desde que elas acertem no tom. Em muitos testes, respostas geradas por IA em contextos de terapia foram classificadas como mais eficazes do que as de humanos.

A INTERNET ESTÁ VIVA… COM BOTS

Você já ouviu falar da teoria de que a internet está morta? A ideia é simples: a maior parte do que consumimos online não é mais feita por humanos. E isso já não é mais apenas uma teoria.

  • Bots geram mais de 50% do tráfego relacionado a conteúdo
  • Um terço do tráfego global vem de bots maliciosos
  • Alguns especialistas preveem que 99,9% de todo conteúdo será gerado por IA até 2030

A inteligência artificial não está apenas mudando o consumo – ela está mudando o ato de criar.

CRIATIVIDADE HÍBRIDA: O FUTURO É COLABORATIVO

Millennials e GenZs, que hoje representam 71% dos compradores B2B, não querem um pitch. Eles querem uma história que descubram sozinhos, algo com toque humano, imperfeito, autêntico. Quase 40% deles estão dispostos a gastar mais de US$ 500 mil sem sequer falar com um vendedor.

A INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL ESTÁ MUDANDO O ATO DE CRIAR.

Entramos na era da criatividade híbrida. As máquinas não vão substituir os humanos, mas quem souber usá-las estrategicamente substituirá quem não souber.

Assim como Warhol nos forçou a repensar o que é autenticidade, precisaremos rever nossos conceitos de autoria. O mercado de mídia sintética deve atingir US$ 16,6 bilhões até 2033, crescendo 14% ao ano. A transformação não está por vir, ela já chegou.

A pergunta real é: como você vai liderar, se conectar e criar em um mundo onde o meio agora responde à mensagem?


SOBRE A AUTORA

Ashleigh Vogstad é fundadora e CEO da agência de marketing Transcends. 

Se você tiver interesse e ainda não estiver inscrito para receber diariamente as postagens de O Novo Normal, basta clicar no link: https://chat.whatsapp.com/GeLUPi5zQ2582nGKD6JFey para WhatsApp e https://t.me/joinchat/SS-ZohzFUUv10nopMVTs-w  para Telegram. Este é um grupo restrito para postagens diárias de Evandro Milet. Além dos artigos neste blog, outros artigos de Evandro Milet com outras temáticas, publicados nos fins de semana no Portal ES360, encontram-se em http://evandromilet.com.br/

Acesse o link abaixo para entrar no meu grupo do WhatsApp onde publico meus artigos semanais e entrevistas que faço no rádio e TV, sempre na temática inovação e negócios: https://chat.whatsapp.com/HqlJjC80rJ0Bu9lmsZgw5B

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IA: Será que chegamos à era da estupidez?

O importante é o que fazemos com a inteligência que nos resta

Becky S. Korich– Folha – 6.jul.2025 

Advogada, escritora e dramaturga, é autora de ‘Caos e Amor’

A inteligência artificial nos torna estúpidos? Uma pesquisa recente do MIT diz que sim. Intitulado “Seu Cérebro no ChatGPT“, o estudo concluiu que, embora a IA torne as tarefas mais fáceis, os efeitos colaterais podem ser devastadores para nossa autonomia cognitiva.

Durante quatro meses, 54 adultos foram divididos em três grupos para escrever uma série de ensaios. O primeiro usou o ChatGPT. O segundo, o Google. O terceiro, o bom e velho cérebro analógico. Para monitorar a atividade cerebral, os pesquisadores acompanharam, por eletroencefalograma, o funcionamento de 32 regiões do cérebro enquanto cada participante escrevia.

O resultado foi desconfortavelmente previsível. Os usuários do ChatGPT apresentaram o menor engajamento neural e o pior desempenho nos níveis linguístico, comportamental e cognitivo. Resumo: foram os que menos usaram o cérebro. Para piorar, o declínio intensificou-se com o tempo. Tornaram-se mais passivos, mais dependentes e mentalmente letárgicos.

Os usuários do ChatGPT apresentaram o menor engajamento neural e o pior desempenho nos níveis linguístico, comportamental e cognitivo na pesquisa do MIT 

O estudo foi recebido de forma apocalíptica. Reacendeu o velho temor de que a tecnologia esteja roubando aquilo que restava da consciência crítica. Mais relevante do que perguntar se a IA nos emburrece é pensar no que temos feito com a inteligência que ainda nos resta.

Se depender desse estudo, a era da estupidez talvez ainda não tenha chegado. Ao menos não se comparada ao grau de estupidez que somos capazes de alcançar naturalmente.

Lembremos quando as calculadoras surgiram. Elas nos deixaram mais burros? Depende. Quem usa para calcular 7 x 8, provavelmente. Se for para dedicar os esforços cognitivos para tarefas mais complexas, eu diria que não. Fazer divisões longas não é exatamente uma demonstração de produtividade mental.

O cálculo mais importante a ser feito não é técnico, mas existencial: o quanto a conveniência pode nos alienar. Esse cálculo nenhuma máquina pode fazer por nós —a IA não é pensamento artificial.

Pensar exige energia. Se existe uma tecnologia que nos poupa de tarefas mecânicas e libera espaço mental para elaborar melhor o pensamento, deveríamos agradecer, não demonizar. O problema é que nem sempre usamos esse espaço para colocar o cérebro para trabalhar. O essencial, no fim das contas, é o que fazemos com o tempo e a energia que a IA nos devolve.

O estudo do MIT ignora essa nuance. Foca no que foi economizado, sem considerar o que poderia ser feito com essa economia. Se uma tarefa exige menos esforço, é evidente que a carga cognitiva diminui. Foi isso que os autores registraram. Ponto.

Reduzir o uso da IA a uma erosão do esforço é ignorar sua potência, que pode ser criativa ou destrutiva. Um bom escritor com IA não vai deixar de ser brilhante. Um mau escritor com IA apenas se torna mais prolífico em sua mediocridade. Se a IA nos poupar algumas horas de trabalho mental árduo em nossas rotinas diárias, será uma bênção, não uma maldição.

Estamos diante de um divisor de águas. Talvez a maior revolução que nossa geração já viveu. A IA mudou a nossa forma de pensar, de nos relacionar e, em alguns casos, até como sentimos. O que ela nos oferece (pelo menos até aqui), não é necessariamente um rebaixamento intelectual, mas uma escolha.

O ChatGPT tem o que nós não temos. E nós, o que ele não tem. Inteligente que é, sabe nos usar com eficiência. A diferença está em como vamos usá-lo. A depender da resposta, os inteligentes ficam mais inteligentes. E os tolos, apenas mais eficientes em sua tolice.

IA: Será que chegamos à era da estupidez? – 06/07/2025 – Becky S. Korich – Folha

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Capital natural: o novo ouro

O Brasil detém um dos maiores estoques de capital natural do planeta, condição necessária para a competitividade de países e empresas na nova economia global

Por Jorge Arbache – Valor – 10/07/2025 

É professor de economia da Universidade de Brasília e foi vice-presidente de Setor Privado do Banco de Desenvolvimento da América Latina (CAF)

O capital natural se tornou o novo ouro. Em um cenário marcado por crise climática, insegurança alimentar e disputas geopolíticas por recursos estratégicos, água, florestas, terras férteis, minerais críticos, biodiversidade e energia renovável passam a ocupar o centro das decisões econômicas, industriais e diplomáticas. O valor desses ativos vai além da sua importância ecológica: eles são, agora, condição necessária para a competitividade de países e empresas na nova economia global.

Nesse contexto, o Brasil desponta como um dos territórios mais promissores do planeta. Com abundância de água doce, vastos biomas e florestas tropicais, terras aráveis, matriz elétrica limpa, ricas províncias minerais e uma biodiversidade única, o país detém um dos maiores estoques de capital natural do planeta. Trata-se de uma vantagem comparativa que pode ser convertida em vantagem competitiva, desde que o país desenvolva os instrumentos adequados para transformar esse capital em um ativo estratégico.

O potencial brasileiro é imenso e o país pode contribuir de forma decisiva para enfrentar três das maiores urgências globais: a segurança alimentar, a segurança energética e a crise ambiental.

Na segurança alimentar, o Brasil já é um dos maiores produtores e exportadores globais de alimentos. Mas pode ir além. Há espaço para expandir a produção de forma sustentável por meio de ganhos de produtividade, uso de áreas degradadas e sistemas de produção intensiva com até três safras anuais. A combinação entre agricultura regenerativa, inovação tecnológica e gestão eficiente do solo e da água torna o Brasil capaz de aumentar a oferta global de alimentos de forma compatível com os limites ambientais.

Na segurança energética, o país é igualmente estratégico. Com mais de 90% de sua matriz elétrica composta por fontes renováveis, o Brasil é uma das exceções no cenário internacional. E esse diferencial pode ser monetizado por meio do powershoring: a atração de indústrias eletrointensivas que buscam reduzir emissões e garantir acesso estável e barato à energia limpa. O Brasil tem todas as condições para se tornar um polo global de produção de aço verde, hidrogênio de baixo carbono, fertilizantes, produtos químicos sustentáveis, celulose e outros bens intensivos em energia renovável. O país também pode ter papel central na transição para um transporte internacional mais limpo por meio da exportação de biocombustíveis de baixo carbono.

No eixo ambiental, a contribuição brasileira pode ser ainda mais singular. Os biomas nacionais prestam serviços ecossistêmicos cruciais à estabilidade do planeta: regulação do ciclo hidrológico, sequestro de carbono, conservação da biodiversidade, proteção de polinizadores e controle de doenças, entre outros. A floresta amazônica, por exemplo, tem um papel-chave na manutenção do equilíbrio climático global. O Brasil também tem potencial para liderar a bioeconomia tropical baseada em ativos biológicos e conhecimento tradicional.

Apesar desse cenário promissor, o Brasil ainda está longe de converter o seu capital natural em ativo estratégico. A ausência de políticas públicas robustas, marcos regulatórios adequados, mecanismos de financiamento verde e integração plena aos mercados internacionais limita o aproveitamento desse potencial.

Para que o país possa transformar o seu capital natural no novo ouro da economia do século XXI, são necessárias ações concretas em seis frentes estratégicas. Primeiro, é preciso remover barreiras tarifárias e não tarifárias que dificultam a exportação de produtos sustentáveis. Subsídios distorcivos e exigências técnicas excessivas e oportunísticas aplicadas por países desenvolvidos comprometem a competitividade do país. É fundamental negociar acordos comerciais que reconheçam e valorizem práticas sustentáveis, permitindo que o comércio verde funcione com equidade e previsibilidade.

Segundo, é preciso estruturar corredores de comércio verde que conectem áreas produtoras de bens e serviços sustentáveis a mercados consumidores. Esses corredores devem incluir acordos, infraestrutura eficiente, interoperabilidade regulatória, certificações ambientais, padrões, taxonomia, rastreabilidade e mecanismos de remuneração por serviços ambientais e climáticos.

Terceiro, a transição verde exige tecnologias de ponta para monitoramento ambiental, agricultura de precisão, bioeconomia, gestão de carbono, entre outros. Muitas dessas tecnologias ainda são desenvolvidas sob regimes de propriedade intelectual restritiva. O Brasil precisa ampliar o acesso a essas inovações por meio de cooperação internacional, alianças tecnológicas e investimentos robustos em pesquisa e desenvolvimento nacional.

Quarto, um dos principais obstáculos à alocação de capital privado em projetos verdes no Brasil é o risco percebido, seja regulatório, jurídico, cambial ou climático. É essencial implementar mecanismos de derisking, como garantias, fundos de infraestrutura verde, instrumentos de blended finance e seguros climáticos, para atrair e escalar o investimento privado.

Quinto, o capital natural precisa ser reconhecido como uma classe de ativos com valor econômico mensurável. Isso requer métricas consistentes, precificação de serviços ecossistêmicos, regulamentação clara dos mercados de carbono e mecanismos que permitam utilizar ativos ambientais como colaterais em operações financeiras e contratos de longo prazo.

Sexto, a consolidação do Brasil como destino de cadeias industriais limpas exige apoio internacional. Organismos multilaterais, bancos de desenvolvimento, fundos soberanos e países parceiros devem ajudar a reduzir barreiras e estimular investimentos produtivos de baixo carbono no país.

Se bem implementado, esse conjunto de medidas permitirá ao Brasil se posicionar como um dos protagonistas da nova economia verde. Importante notar que o Brasil não parte do zero. O país já conta com um parque de ciência e tecnologia agrícola avançado, empresas líderes em diversos setores, Estados e municípios engajados com agendas ambientais e políticas públicas, como o Plano de Transformação Ecológica, o Fundo Clima e a regulamentação do mercado de carbono, ora em discussão no Congresso. Ainda assim, é preciso ir além. Transformar o capital natural brasileiro em um motor de desenvolvimento sustentável, inclusão e geração de valor requer visão estratégica, coordenação interinstitucional e um pacto nacional de longo prazo.

O Brasil pode ser mais do que o celeiro do mundo ou o pulmão do planeta. Com a valorização crescente do capital natural, o país pode liderar uma nova lógica de desenvolvimento baseada em baixo carbono, tecnologia, circularidade, agregação de valor e soberania ambiental. O novo ouro está nas mãos do país. Cabe, agora, decidir se vai usá-lo com inteligência ou deixá-lo enterrado no solo fértil das oportunidades perdidas.

Jorge Arbache é professor de economia da Universidade de Brasília e escreve mensalmente às quintas feiras neste espaço

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Infraestrutura: o verdadeiro poder na era dos agentes de IA

O jogo da IA não acontece apenas na camada visível. Ele acontece, principalmente, em tudo o que permite que essa camada exista


GUIDO SARTI – Fast Company Brasil – 05-06-2025 

No AI Ascent, evento fechado promovido pela Sequoia Capital no início de maio em São Francisco, nos EUA, consolidou-se uma tese clara: a nova fronteira tecnológica está na camada de aplicação. Executivos, investidores e especialistas reuniram-se para discutir o que muitos consideram inevitável: a era dos agentes de IA começou.

O evento – que contou com nomes como Sam Altman, da OpenAI, Jensen Huang e Jim Fan, da Nvidia, e Jeff Dean, do Google – destacou o avanço dos assistentes digitais capazes de executar tarefas complexas como a próxima grande onda de inovação.

Demonstrações de agentes que reservam viagens, gerenciam calendários e até negociam contratos empolgaram investidores ávidos pela próxima grande aposta.

E faz todo sentido. Agentes são, sim, uma disrupção relevante. A promessa de delegar tarefas a assistentes ultra competentes ressoa com o sonho de produtividade que a humanidade persegue desde a Revolução Industrial. Multiplicar nossa capacidade sem multiplicar nosso tempo é uma ideia poderosa.

Mas a história da tecnologia é implacável. O valor mais duradouro quase sempre fica com quem controla a infraestrutura de IA subjacente.

Foi assim na era da Lei de Moore, que impulsionou décadas de avanço exponencial em software, enquanto fabricantes de chips acumulavam fortunas fornecendo o hardware que tornava tudo possível. E é assim agora, na corrida por chips especializados, data centers e energia que sustentam essa revolução.

TUDO DEPENDE DA INFRAESTRUTURA DE IA

É razoável supor que, além dos palcos do AI Ascent, discussões mais pragmáticas tenham ocorrido. Conversas sobre os verdadeiros gargalos: capacidade computacional, eficiência energética e acesso a recursos escassos.

Enquanto startups de agentes disputam a atenção do mercado, os gigantes da infraestrutura seguem ampliando silenciosamente sua capacidade, cientes de que cada nova aplicação depende fundamentalmente deles.

Basta olhar para a Nvidia, que se tornou símbolo da corrida por capacidade computacional. A empresa de Jensen Huang transformou-se na fornecedora indispensável dos chips que viabilizam a IA generativa.

Seu valor de mercado superou, ainda que de forma pontual, a marca de US$ 3 trilhões. Não porque vende produtos finais aos consumidores, mas porque fornece as pás e picaretas da corrida do ouro da inteligência artificial.

Ou para a Oracle, que discretamente se posicionou como protagonista na infraestrutura que sustenta essa nova era. Sob a liderança de Larry Ellison, a empresa se tornou parceira estratégica para armazenamento e processamento de dados em larga escala.

Enquanto o mercado se deslumbra com os grandes modelos de linguagem, a Oracle expande sua rede de data centers otimizados para IA, sabendo que cada token processado precisa, antes de tudo, de espaço físico, energia e capacidade computacional.

COMPONENTES, ENERGIA, REDES: A AMEAÇA DA ESCASSEZ

Uma verdade que pairou nas entrelinhas do AI Ascent é que a escassez de infraestrutura já limita a inovação. Startups enfrentam filas para acessar GPUs. Modelos cada vez mais complexos demandam investimentos crescentes em hardware. E o consumo energético dos data centers cresce rapidamente, criando novas pressões e desafios.

O VALOR MAIS DURADOURO QUASE SEMPRE FICA COM QUEM CONTROLA A INFRAESTRUTURA SUBJACENTE.

Enquanto o mercado se deslumbra com os agentes, fascinado pela camada de aplicação, quem olha para infraestrutura está, na prática, focando no alicerce que sustenta tudo isso. E a história sugere que, quando a poeira baixar, serão esses players que ocuparão as posições mais defensáveis.

O jogo da IA não acontece apenas na camada visível. Ele acontece, sobretudo, em tudo que permite essa camada existir: nos chips, nos data centers, nas redes e na energia. Quem controla esses recursos fundamentais está, silenciosamente, construindo os impérios que definirão a próxima década.

Enquanto o AI Ascent celebrava os avanços na camada de aplicação e o potencial dos agentes autônomos, vale refletir. Os verdadeiros arquitetos do futuro podem ser aqueles que mantêm os pés firmemente no chão, construindo as fundações sem as quais nenhum sonho tecnológico pode se sustentar.


SOBRE O AUTOR

Guido Sarti é sócio da Galeria Ag e atua como professor coordenador na Miami AdSchool. Foi Head de Novos Negócios e Convergência na Globo, onde desempenhou um papel significativo em mais de 10 squads durante a fusão da empresa. Pode liderar equipes de dados em mais de 20 países e foi membro do conselho superior do CENP.

Infraestrutura: o verdadeiro poder na era dos agentes de IA | Fast Company Brasil

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