Quem é o dono da vacina?

por Evandro Milet

Em geral, uma vacina leva ao menos de 12 a 18 meses para ficar pronta, mas as farmacêuticas tentam iniciar a produção ainda em 2020. Em mais de uma ocasião, o governo do presidente Donald Trump sugeriu que, apesar de disposto a compartilhar seu conhecimento científico, priorizaria a produção de doses para a população americana. 

O governo dos Estados Unidos assinou um contrato com um grupo farmacêutico de Paris, o Sanofi, para garantir que tenha prioridade na produção de futuras vacinas. Esse acordo provocou indignação na França, forçando a empresa a esclarecer que essa prioridade seria dada apenas para doses de vacinas produzidas em fábricas que o grupo possui nos Estados Unidos. 

O governo americano foi rápido para assegurar acordos de abastecimento com produtores de vacinas. Ele também deu US$ 483 milhões para Moderna acelerar a produção de sua potencial vacina e está apoiando pesquisas da Johnson & Johnson (J&J) . 

E vai investir US$ 1,2 bilhão na farmacêutica AstraZeneca para assegurar o fornecimento de uma potencial vacina que poderá estar disponível já no início de outubro. Pelo acordo, o governo irá bancar um teste da vacina em 30 mil pessoas nos Estados Unidos a partir de meados de julho, além de acelerar a produção de pelo menos 300 milhões de doses de vacina. 

Também o governo britânico informou que vai pagar 65,5 milhões de libras para a AstraZeneca para assegurar 100 milhões de doses para sua população, com 30 milhões de doses disponíveis já em setembro.

A AstraZeneca informou que está em negociações com vários outros governos, assim como entidades internacionais sem fins lucrativos.

 A aplicação em massa da vacina vai liberar as economias dos países que primeiro imunizarem a sua população.  Como ficamos nós brasileiros? No fim da fila?

A vacina será de propriedade das empresas que as desenvolverem e por isso cobrarão caro ou será de propriedade pública? Se não tiverem o lucro que esperam elas se empenharão para encontrar outra em situação semelhante no futuro?

Carlos Alberto Sardenberg, jornalista de O Globo fez um bom resumo:  Mas, afinal

Quem é o dono da vacina?

O acesso às doses exigirá um amplo esforço global, num ambiente de colaboração entre empresas, governos e instituições internacionais

Coluna Carlos Alberto Sardenberg jornal O Globo 21/05/2020 

No início deste ano, a companhia farmacêutica Moderna, com sede em Cambridge, nos EUA, tinha um valor de mercado em torno de US$ 7 bilhões. No início desta semana, bateu US$ 30 bilhões depois de ter informado que obtivera resultados positivos em testes com humanos para a vacina contra o novo coronavírus. Dois dias depois, esse valor caiu uns US$ 2 bilhões, quando cientistas e autoridades sanitárias levantaram algumas questões.

A principal: o teste havia sido limitado a poucas pessoas e ainda na fase 1. Mas a companhia já tinha autorização do governo americano para iniciar a fase 2, com milhares de testes. Estará pronta, se tudo der certo, depois de uma fase 3, lá pelo final deste ano ou início de 2021. Esperanças. Mas, de todo modo, a companhia já adiantou planos de levantar no mercado um aporte de US$ 1,2 bilhão.

A empresa recebeu ajuda do governo americano – algo como 500 milhões de dólares – mas é privada, com ações diluídas em bolsa.

Diversas outras companhias privadas estão trabalhando na vacina antiCovid-19. Há também laboratórios ligados a governos ou a universidades, mas é grande a possibilidade de que empresas privadas cheguem antes aos melhores resultados. E diferentes: as empresas estão desenvolvendo tecnologias diversas — por exemplo, ou enfraquecendo o vírus ou usando partes dele.

Na verdade, a melhor expectativa entre cientistas e autoridades sanitárias é a seguinte: que várias farmacêuticas, cada uma no seu caminho, cheguem a, digamos, quatro ou cinco tipos de vacinas.

Uma primeira razão é econômica. Encontrada a fórmula, será preciso produzir algo como 5 bilhões de doses ou o dobro disso, se forem necessárias duas doses para a imunização completa. Já há empresas reservando instalações para isso, mas o esforço será monumental.

E mais: as companhias privadas terão a patente — o segredo da fórmula — e obviamente terão que ser remuneradas por isso. Dirão: mas isso é uma insensibilidade, uma crueldade; com centenas de milhares de pessoas morrendo, vai-se proteger o lucro dos acionistas?

Imaginemos que não. As patentes são tornadas públicas e as vacinas já produzidas, confiscadas.

Daqui a alguns anos, aparece outra mutação desse coronavírus — qual companhia vai torrar dinheiro na busca de uma vacina ou de um remédio?

Por outro lado, deixada a coisa por conta do mercado, sem nenhuma intervenção, sabemos o que vai acontecer: os mais ricos serão os primeiros a ter acesso às primeiras vacinas, a preços de rico. Depois, o conhecimento vai se espalhando, surgem outras fórmulas, depois de algum tempo, os genéricos e o medicamento vai alcançando as classes médias. Quanto tempo levaria até alcançar os pobres?

Por isso, cientistas, autoridades sanitárias, empresários, governos e instituições internacionais estão procurando soluções intermediárias. Na OMS, surgiram propostas para que as patentes descobertas sejam de propriedade social, mundial.

É generoso, mas não resolve o problema de remunerar as pesquisas — as atuais e as que serão necessárias no futuro. Bill Gates falou em montar um consórcio de bilionários e grandes empresas que comprariam as vacinas e as distribuiriam nas regiões mais pobres.

Por outro lado, governos também precisarão comprar, mas com preços relativos, como já se faz com medicamentos de controle do HIV. Países mais ricos pagam mais, outros pagam menos.

E os ricos, as pessoas ricas, onde quer que se encontrem, vão pagar do seu bolso ou de seus caros planos de saúde. Aliás, vai ser outra briga: entre os planos e as seguradoras versus os fabricantes — também como já ocorre hoje.

O importante é ter regras e negociações razoáveis, de tal modo a combinar os interesses — melhor, as necessidades das pessoas — e os estímulos para que as empresas formem e contratem os quadros capazes de descobrir essas maravilhas da tecnologia.

Será preciso um amplo esforço global, num ambiente de colaboração entre empresas, governos e instituições internacionais. Acho que, por necessidade, voltaremos a prezar a globalização e a eficiência dos mercados.

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Caos em cadeias de suprimentos provoca desperdício de alimentos

Por Marvin G. Perez, Michael Hirtzer e Deena Shanker, Bloomberg — Nova York e Chicago

18/05/2020 

O desperdício de alimentos ganha novo significado na pandemia. Leite jogado fora em Wisconsin. Ovos esmagados na Nigéria. Uvas podres na Índia. Porcos enterrados em Minnesota. As perturbadoras imagens provocaram indignação no mundo todo. Mas há um dado surpreendente: o desperdício pode não estar acima do normal, já que 30% da produção global de alimentos acaba em aterros sanitários.

A diferença agora é que, em vez de ser jogada fora por consumidores como lixo de cozinha, uma quantidade sem precedentes de alimentos é desperdiçada antes mesmo de chegar aos supermercados.

Culpe o caos nas cadeias de suprimentos. Globalmente, a produção é processada por meio dos chamados métodos “just in time”. A produção das fazendas pode ser transportada para lojas ou restaurantes em apenas alguns dias, e a próxima carga de produtos agrícolas e gado pode estar no lugar destinado imediatamente.

Quando essas cadeias enfrentam desafios ― como foi o caso de caminhões, portos, falta de mão de obra, paralisações de restaurantes e lentidão no comércio ―, há um enorme estoque de suprimentos que nunca chega aos supermercados.

Isso provavelmente terá consequências devastadoras para a segurança alimentar. Os preços poderiam subir ainda mais, já que milhões passam por dificuldades financeiras devido ao impacto da covid-19.

“As pessoas que mal conseguem se alimentar agora enfrentarão ainda mais problemas”, disse Marc Bellemare, coeditor do American Journal of Agricultural Economics. “O que me preocupa é o bem-estar humano.”

Antes da pandemia, cerca de US$ 1 trilhão em produção de alimentos acabava perdida ou desperdiçada. A maior parte disso vinha do lixo doméstico: cerca de 40% nos Estados Unidos. Agora, como as pessoas se programam para ir menos aos supermercados e estão mais preocupadas com os preços, o desperdício das cozinhas deve cair, compensando outras perdas.

Alguns analistas dizem que o desperdício total ainda pode ser “potencialmente” maior este ano, mas nenhum entrevistado tem certeza de que a estimativa deve se materializar.

Consumidores têm escolhido itens com maior validade, preparam listas de compras para reduzir o tempo que passam no supermercado e se tornaram mais conscientes sobre hábitos culinários.

Dados do Reino Unido mostram que quase metade dos entrevistados disse que está jogando menos alimentos fora, de acordo com pesquisa encomendada pelo grupo ambiental Hubbub.

https://valor.globo.com/agronegocios/noticia/2020/05/18/caos-em-cadeias-de-suprimentos-provoca-desperdicio-de-alimentos.ghtml

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Paixão e inteligência artificial

por Evandro Milet

Para quem está confinado, cinema inteligente é ótima opção de diversão. Her(Ela), é um filme americano de comédia dramática, ficção científica e romance de 2013 escrito, dirigido e produzido por Spike Jonze. O filme gira em torno de um homem solitário que desenvolve uma relação com um um aplicativo no estilo assistente pessoal como a Alexa da Amazon, Siri da Apple ou Cortana da Microsoft, com personalidade, voz feminina e baseada em inteligência artificial(IA). A voz sensual de Scarlett Johansson como Samantha, nome que o próprio aplicativo escolheu depois de consultar instantaneamente um catálogo de nomes próprios, ajuda a compor uma personagem feminina cativante, inteligente e competente até para ajudá-lo nas atividades profissionais. O resultado é uma paixão recíproca e improvável, com todas as situações normais da relação envolvendo emoções, inclusive ciúmes e sexo.

Samantha vai aprendendo ao longo da relação, sabe tudo consultando seus big data e gera uma crise quando o solitário descobre que ela mantém a mesma relação com centenas de pessoas simultaneamente, afinal é apenas um programa de computador(perdão pelo spoiler).

Essa ficção aponta para a maior preocupação de gente importante como o físico Stephen Hawking e o mega empresário Elon Musk: até onde pode ir o desenvolvimento da IA em atitudes e raciocínios que ultrapassem os seres humanos. “O desenvolvimento da IA total poderia significar o fim da raça humana”, afirmou Hawking em um evento. Musk, criador da Tesla, pioneira no desenvolvimento de veículos elétricos e baterias poderosas, acredita que, a longo prazo, a IA se torne “nossa maior ameaça existencial”. Musk diz que só há 5 a 10% de probabilidade de se conseguir desenvolver uma solução de IA segura e que esses sistemas de IA ultra-inteligente serão tão avançados que nós humanos seremos como animais de estimação ou gatos domésticos. 

Kevin Kelly, no seu livro “Inevitável”, afirma que não estamos apenas redefinindo o que é IA, estamos redefinindo o que significa “ser humano”. Kelly continua dizendo que conforme processos mecânicos passaram a replicar comportamentos e habilidades até então considerados exclusivos dos humanos, tivemos de repensar o que nos diferencia das máquinas. À medida que avançamos com a IA seremos forçados, cada vez mais, a abrir mão de coisas que supostamente são próprias dos seres humanos. Não seremos mais a única mente capaz de jogar xadrez(já não somos), pilotar um avião, compor música ou inventar uma lei matemática – será doloroso e triste. Teremos uma crise de identidade, continuamente nos perguntando para que serve o ser humano, conclui ele. Talvez como animal de estimação da Scarlett Johansson, pensaria algum marmanjo. 

A indústria de jogos está bombando

por Evandro Milet

Há um segmento que está passando pela crise econômica gerada pelo novo coronavirus sem prejuízos: a indústria de games. Os gastos feitos por consumidores do mundo todo com jogos digitais em março deste ano atingiram a cifra de US$ 10 bilhões, o maior total mensal de todos os tempos e um reflexo direto do isolamento social em prática em boa parte do mundo.

Espera-se que os jogos gerem mais de US$ 160 bilhões em receita em 2020, o que seria mais do que o dobro do registrado mundialmente pela indústria musical (cerca de US$ 19 bilhões) e pelas bilheterias mundiais (cerca de US$ 43 bilhões) juntas.

Para dominar o entretenimento digital, a Amazon está investindo centenas de milhões de dólares para se tornar um dos principais criadores e distribuidores de games do mundo. A gigante de Jeff Bezos anunciou para 20/5 seu primeiro jogo de grande orçamento. Um ambicioso game de ficção científica, Crucible é a ponta de lança de uma aposta grande da varejista para ser uma potência em mais um segmento. 

A empresa também está desenvolvendo uma plataforma de jogos em nuvem completa, com o codinome Project Tempo. E trabalha em novos jogos que são transmitidos em seu popular serviço de streaming Twitch, no qual jogadores podem jogar com telespectadores em tempo real. Esse serviço teve aumento de 50% de março para abril. O esforço é o investimento mais significativo da Amazon em entretenimento original desde que se tornou o maior produtor de séries e filmes de streaming. A Amazon também está mirando rivais estratégicos como o Google e a Microsoft, que expandiram suas áreas de games nos últimos anos. O serviço Game Pass da Microsoft(o Netflix dos games) registrou 10 milhões de usuários em março.

Games são produtos que nascem de forma internacional. Jogar não requer idioma. Além disso, o game que você comprou pode até ter sido lançado por uma empresa norte-americana, mas ele certamente passou pelas mãos de desenvolvedores, animadores, criadores e demais profissionais de qualquer lugar do mundo. 

Há vários tipos de jogos: entretenimento, educacionais, empresariais ou de propaganda. 

No Brasil, essa indústria é composta em sua imensa maioria por pequenas e médias empresas. Das 375 empresas do ramo no País, cerca de 96,8% têm faturamento abaixo de R$ 3,6 milhões, segundo o II Censo da Indústria Brasileira de Jogos Digitais realizado pela Associação Brasileira de Games (Abragames), em 2018.

Como exemplo, hoje 18/5, às 22h estréia a série “Lincoln Rhyme – The Hunt for the Bone Collector”, no canal a cabo AXN. E a MITO GAMES, startup incubada na TecVitória, criou uma experiência interativa, um game do tipo propaganda, para divulgar essa nova série. 

O trabalho remoto é uma realidade do setor. A produção de um game não precisa ser interrompida se é tudo virtual, diferentemente de um filme e pode ser desenvolvido em casa. Já existem empresas que trabalham 100% remotas. Muitas usam desenvolvedores brasileiros diretamente conectados com empresas fora do Brasil. Em Vitória, Luis Gualandi, um jovem universitário, já desenvolveu, em casa, jogos para plataformas internacionais com mais de milhão de usuários.

Nesse momento, o mundo demanda produtos de entretenimento. Quem tem projeto para ser lançado agora vai ter uma vantagem comercial absurda, pois as plataformas de publicação estão batendo recorde de usuários jogando e de vendas. O mundo quer mais conteúdo por conta do isolamento social. E mesmo que a demanda caia depois da pandemia, muitos novos jogadores foram incorporados a essa mania.

Crônica confinada: ih!-commerce e outros perrengues

Por Evandro Milet

Quando vamos novamente comer uma fatia de bolo de aniversário depois de alguém ter soprado a velinha? Por falar em aniversário, uma ampla pesquisa do Google sobre mudanças no comportamento do público desde março, quando o vírus passou a assustar os brasileiros, entrega que “pizza” e “brigadeiro” estiveram entre as palavras mais buscadas por internautas. Não se sabe como vamos sair dessa pandemia, se mais solidários ou não, mas certamente muitos com alguns quilos a mais. Quando formos liberados vai haver corrida para academias. Mas como correr na esteira se as gotas de suor do vizinho de exercício se espalham longe, agora que entendemos tudo de coronavírus? E como tem especialistas em coronavírus na internet. Tem sempre um médico não-sei-de-onde para dizer que tudo está errado em um vídeo que recebemos dezenas de vezes de todos os lados. Se falar de cloroquina então, fica a dúvida se o remédio é de direita ou de esquerda em debates raivosos, com argumentos onde a ciência passa longe. E coitada da ciência – e da razão -, o iluminismo ainda não chegou na internet. O ambiente está perfeito, até peste tem, e mais terra plana, negação de vacinas, mistura de Estado com igreja, execução sumária de bandidos e elogio à torturadores. Tentei mostrar a extrapolação de uma curva exponencial de contaminados e disseram que era adivinhação. Se não é a idade média de volta pode ser a idade mídia que nos afoga de informação. Alguém já disse que se informar pela internet é como beber água em um hidrante. Mas água é problema. A pandemia encontrou 35 milhões de brasileiros sem água encanada enquanto a principal arma contra o vírus é lavar as mãos. Saneamento em geral é problema. Pelo menos há uma cultura de higienização sendo espalhada. Material de limpeza é item dos mais vendidos nos supermercados que, por sua vez se enrolam com o delivery. Na internet um cliente reclamava que na ida presencial ao supermercado foi avisado que o ítem desejado só era vendido no delivery. Dali mesmo ligou o telefone e conseguiu levar o produto. Deve ser o ih!-commerce, vários dias para entregar e muita coisa errada. A internet porém é a salvação para dias de confinamento. Os artistas já não podem fazer shows ao vivo, descobriram as lives. Recordes de audiência revelaram uma preferência nacional: das dez maiores lives da história do YouTube, todas realizadas desde abril deste ano, sete são brasileiras. O ranking é liderado por sertanejos: Marília Mendonça, com 3,3 milhões de acessos em 8 de abril, é seguida de Jorge & Mateus, com 3,2 milhões quatro dias antes. A taça da live é nossa. Alguns fatores explicam o fenômeno das lives: o consumo de música local no país é um dos maiores do planeta, 70% do mercado. Brasileiro ouve música brasileira. Confinamento patriótico.

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O que os brasileiros querem aprender na quarentena

Publicado em Valor Econômico – 14/05/2020

Nos últimos dois meses, o confinamento fez disparar a procura por cursos on-line, dos mais variados temas. Das aulas de desenho à metodologia Scrum, a busca por conhecimento rápido virou febre na maior parte dos países. A Udemy, maior plataforma de cursos virtuais do mundo, gratuitos ou com preços bem acessíveis, registrou um aumento de 425% nas matrículas globais apenas nesse período. No Brasil, esse crescimento foi de 95%.

Por aqui, a maior procura foi por cursos que ensinam a fazer marketing pelo Instagram (103%), edição de vídeos (102%) e desenho (84%). Enquanto isso, os alemães preferiram ensinamentos sobre marketing digital (186%), os franceses sobre o mercado financeiro (223%), os americanos sobre ilustração (326%), os mexicanos sobre análise financeira (235%) e os indianos buscaram habilidades de comunicação (606%). Há temas mais leves, como a busca por habilidades musicais. Espanhóis optaram por cursos de piano, enquanto os italianos procuraram os de guitarra.

Em todos os países, o interesse predominantes foi por temas ligados às habilidades comportamentais, chamadas soft skills, segundo Sérgio Agudo, diretor de negócios para a America Latina na Udemy. O que pode incluir liderança até mindfulness, uma mania global.

A plataforma Udemy é uma EduTech criada em 2010 em São Francisco, na Califórnia. Atualmente, possui mais de 50 milhões de alunos globais e reúne 57 mil especialistas, de 190 países, que ministram mais de 150 mil cursos on-line, em 65 idiomas. Antes da pandemia, entre os tópicos mais populares apareciam estudos de programação e ciência de dados.

Agudo explica que no braço do negócio voltado à companhias que buscam treinamento para funcionários, o Udemy for Business, a grande corrida na pandemia foi por cursos relacionados ao teletrabalho, cujas matrículas cresceram 215 vezes e os que ensinam a fazer a gestão de times virtuais, que aumentaram 15 vezes.

Nos últimos dois meses, o número de cursos novos mais do que dobrou globalmente, e segundo o diretor, a tendência é que eles continuem a crescer. Agudo lembra que além de ser uma opção ao ensino tradicional, a plataforma pode se transformar em uma ferramenta de trabalho para quem ficou desempregado ou está com tempo livre durante a quarentena e quer experimentar novas habilidades, como ensinar.

O executivo conta que para ter um curso aprovado, o profissional precisa mandar um trecho do que pretende ensinar em vídeo para que seja feita uma curadoria sobre a qualidade do conteúdo, do som e da imagem.

Em uma segunda fase, se for aprovado, ele vai receber instruções de como melhorar o que apresentou inicialmente. Se conseguir chegar à terceira fase, quem vai dizer se o curso funciona é o usuário. “Ele vai dar estrelinhas e os cursos mais bem avaliados sobem na busca do site”, diz.

Na covid-19, a plataforma fez uma seleção dos cursos gratuitos mais bem avaliados (www.udemy.com/pt/courses/free). Entre os brasileiros, os que mais se destacam nesse momento são os de trabalho remoto, Zoom para reuniões on-line profissionais e produtividade no home office.

Zoom fatigue: o esgotamento provocado pelo excesso de videoconferências

Sobretudo como ferramenta de trabalho, os encontros on-line andam causando cansaço mental que já tem nome

Por André Lopes – Publicado em 15 maio 2020

É provável que nunca tantos tenham ficado tão próximos mesmo estando distantes. O motivo para esse paradoxo, claro, é a pandemia do novo coronavírus — que, de resto, vem virando de cabeça para baixo outras incontáveis facetas da vida social. Mas, se é verdade que tecnologias como a da videoconferência — que permite vizinhança na distância — não surgiram com a Covid-19, foi devido à sua propagação, e à necessidade de isolamento social para contê-la, que tais ferramentas explodiram mundo afora.

Em poucos meses, aplicativos mais antigos como Skype e Hangouts, e os novatos Houseparty e Zoom, transformaram-se em acessórios indispensáveis para o dia a dia — seja para permitir que parentes e amigos joguem conversa fora, seja, sobretudo, para viabilizar a prática de home office e do ensino a distância compulsório. Não sem cobrar um alto preço — e, isso, insista-se, em um período reduzidíssimo de tempo. O preço: um inédito cansaço mental — que já ganhou até nome (em inglês): Zoom fatigue.

Do que se trata? O termo, que, num primeiro momento, faz menção a um dos mais populares aplicativos de videoconferência, revela uma fadiga, como o próprio nome indica, a que o cérebro se vê submetido após uma sucessão de sessões diante da tela. O fenômeno se dá em especial no caso do trabalho remoto. Com o contato presencial anulado, a necessidade de chamadas para novas interações cresce, fazendo com que, no fim do expediente, a pessoa sinta como se houvesse passado o dia em uma longa e interminável reunião.

Para os estudiosos do comportamento humano, o esgotamento pode ser explicado com facilidade. Durante um diálogo, o cérebro não se concentra apenas nas palavras. Ele recolhe — como se fizesse, digamos, um “zoom” — significados adicionais a partir de dezenas de sugestões não verbais, como olhares, movimentos do corpo e até a frequência respiratória. Essas manifestações ajudam a criar uma percepção holística do que está sendo transmitido e do que é esperado em resposta do ouvinte. “Como somos animais sociais, perceber essas pistas no contato direto é natural, requer pouco esforço cognitivo e pode estabelecer as bases para relações mais íntimas como a amizade”, afirma o psicólogo carioca Alberto Filgueiras, do Instituto de Psicologia da Uerj. “Contudo, no caso de uma chamada de vídeo, essa habilidade é parcialmente prejudicada”, explica ele. “Além disso, a imagem da galeria onde todos os participantes da reunião aparecem desafia a visão central do cérebro, forçando-o a decodificar tantos indivíduos simultaneamente que nada é absorvido de maneira significativa, o que gera tensão — e stress.”

Outro problema são os travamentos e dessincronias que ocorrem durante as chamadas. Segundo um estudo feito por acadêmicos alemães em 2014, um pequeno intervalo de 1,2 segundo entre a voz e a imagem é capaz de trazer à mente, com maior frequência, a impressão de que a outra pessoa é menos amigável ou está desatenta à conversa. Nesse sentido, até a ligação telefônica tradicional parece ser menos cansativa para o cérebro, o que recomenda fortemente seu uso — aliás, retomado com força nestes dias de surto epidêmico.

É possível que em algum momento surjam recursos que atenuem o cansaço mental que as videochamadas têm provocado. Ou que acabemos nos acostumando com ele. Até lá, se a Zoom fatigue bater, e houver oportunidade, desligue a câmera. E desligue-se um pouco.


Publicado em VEJA de 20 de maio de 2020, edição nº 2687

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O comércio e as cavernas: diferenças entre mulheres e homens

por Evandro Milet – publicado em 10/12/2018

Nós vivemos como caçadores e coletores mais de 90% da nossa história. Nessa época remota passávamos apenas dez a vinte horas por semana caçando e coletando os alimentos necessários para sobreviver. Os coletores, em geral mulheres, respondiam por 80% a 90% do esforço e da produção. Os caçadores forneciam principalmente uma proteína extra. É portanto ancestral a maior capacidade do homem em avaliar distâncias, pela necessidade de calcular a distância até a presa. Em compensação as mulheres são melhores em avaliar os arredores imediatos porque precisavam escolher melhor o que coletavam. Um tomate ou um cogumelo não podiam sair correndo, mas elas precisavam saber avaliar detalhes como o grau de amadurecimento, cor e formato para saber se o ítem era comestível, estragado ou venenoso. O caçador precisava apenas ser rápido na caça. Ele não tinha tempo para avaliar nuances. Uma vez abatido o animal, os caçadores precisavam carregá-lo e chegar logo em casa, já que a presa fresca e eles mesmos eram alvos atraentes para outros predadores.

Qual a semelhança desses comportamentos com a maneira como homens e mulheres fazem compras hoje? Scott Galloway faz a comparação em “Os Quatro”, como introdução à estratégia da Amazon. As mulheres tocam o tecido para sentir a textura, experimentam os sapatos para ver se combinam com o vestido, pedem para ver os ítens em cores diferentes, e às vezes não levam nada. Portanto amigos, não adianta se desesperar: a coisa é ancestral e está gravada no cérebro delas. Os homens, por outro lado, veem algo capaz de matar a sua fome, o abatem(compram) e voltam para a caverna(casa) o mais rápido possível.

Uma pesquisa com 2.000 pessoas na Inglaterra, feita em 2013, revelou que os homens ficam entediados depois de 26 minutos fazendo compras, e as mulheres só depois de duas horas. A pesquisa mostrou que 80% dos homens não gostam de fazer compras com suas parceiras e que 45% evitam isso completamente – apesar dos riscos. Quase metade das saídas para compras de um casal acaba em discussão, com os homens irritados, porque eles compraram logo o que queriam, enquanto as parceiras continuavam olhando e demorando para tomar decisões.

Portanto, a abordagem de homens e mulheres, seja no comércio de rua ou shopping, seja no comércio eletrônico, deve ser feita levando esses aspectos em consideração. Os sites de comércio eletrônico para homens devem prover uma navegação clara por categorias de produtos e os das mulheres devem vender uma emoção e permitir nuances e detalhes. Afinal, está gravado no nosso DNA desde o tempo das cavernas.

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Carros autônomos: Para quando?

por Evandro Milet

As empresas de tecnologia prometeram que os carros autônomos e totalmente funcionais estariam rodando normalmente nas estradas até 2020 e se encaminhando para revolucionar o transporte e transformar a economia. Mas uma década depois que o Google lançou um protótipo de carro autônomo com grande alarde global, a tecnologia ainda está longe de estar pronta e muitos investidores estão preocupados em despejar mais dinheiro nela – exatamente quando o mundo poderia se beneficiar de carros que transportam pessoas e entregam encomendas sem um motorista humano.

As empresas que fizeram essas promessas estão agora enroladas: para aperfeiçoar sua tecnologia, elas precisam testá-la nas estradas. Mas eles precisam de pelo menos duas pessoas nos carros para evitar acidentes. Devido às regras de distanciamento social destinadas a manter as pessoas seguras durante a pandemia de coronavírus, isso geralmente não é possível. Muitos desses carros estão simplesmente parados em estacionamentos.

A start-up Argo AI, apoiada por US $ 1 bilhão da Ford e outros US $ 1 bilhão da Volkswagen não consegue dar sequência nos testes  de estrada. A parada geral causada pela pandemia acelerou um abalo da indústria que já estava começando a acontecer. Muitas empresas automobilísticas não têm receita e os custos operacionais são extraordinariamente altos. As startups de veículos autônomos gastam em média US $ 1,6 milhão por mês – quatro vezes o que gastam fintechs ou healthtechs.

A curva foi acentuada a partir de 2016, quando uma bolha de investimento em tecnologia autônoma começou. A General Motors adquiriu a Cruise, uma empresa iniciante de três anos e 40 pessoas, por aproximadamente US $ 1 bilhão. Poucos meses depois, a Uber anunciou que pagaria cerca de US $ 680 milhões pela Otto, uma empresa de caminhões autônoma com seis meses apenas de existência.

O valor dessas transações chegou a cerca de US $ 10 milhões por engenheiro. Uma empresa iniciante com três pessoas, por exemplo, foi avaliada em US $ 30 milhões.

Na semana passada, a Ford, que fechou temporariamente as fábricas por causa do vírus, empurrou o lançamento de seu serviço autônomo de 2021 para 2022.

Na Waymo, a unidade autônoma da empresa-mãe do Google, Alphabet, a pandemia atrasou o trabalho por pelo menos dois meses por causa das regras de distanciamento social e problemas para obter hardware de outros países. 

A pesquisa sobre direção autônoma foi prejudicada, em parte, por uma morte no Arizona. Em março de 2018, um dos veículos autônomos da Uber matou um pedestre. Muitas empresas tiraram seus carros temporariamente da estrada e depois que foi revelado que apenas um técnico estava dentro do carro do Uber, a maioria das empresas resolveu manter duas pessoas em seus veículos de teste o tempo todo.Foi um momento claro em que toda a indústria deixou de ser um mercado em alta para um mercado em baixa. Ficou claro que a tecnologia estava longe de ficar pronta. Os carros ainda cometiam erros de maneiras inesperadas. E resolver os obstáculos de segurança levaria muito mais tempo do que o esperado. Com essas dificuldades muitas empresas quebraram ou foram vendidas para quem tinha caixa para aguentar o tranco. Por exemplo, no ano passado, a Drive.ai, uma start-up apoiada por US $ 77 milhões, foi vendida para a Apple. Ficou claro que o desenvolvimento de veículos autônomos vai exigir muitos recursos só disponíveis para os realmente grandes players.

Marketplace: a terceirização do comércio

por Evandro Milet

O setor de marketplaces movimentou R$ 100 bilhões em 2019 no Brasil e chegará a R$ 162 bilhões, ou mais, em 2022. O modelo de negócio funciona como um shopping center virtual, abrigando lojistas independentes, que ganham exposição e facilidades diversas de acesso ao mercado, em troca de um percentual em torno de 12% das vendas. Algumas plataformas trabalham apenas nesse modelo, enquanto outras agregam o modelo marketplace ao ecommerce normal onde negociam com seus próprios fornecedores. No ecommerce brasileiro o Mercado Livre tinha pouco mais de um terço do varejo online em 2019, seguido por B2W (com 20%), Magalu (cerca de 13%) e Via Varejo (8%), mais recentemente a gigante Amazon que operava levemente ampliou suas atividades no Brasil, incluindo o marketplace.

A B2W, dona de Americanas.com e Submarino, criou o sistema mais completo do mercado de comércio eletrônico entre as empresas de capital nacional (Magazine Luiza e Via Varejo são bem menores). São 55 mil lojistas e 30 milhões de itens à venda na sua plataforma que oferece cardápio completo para um lojista: crédito, logística de armazenagem, embalagem e entrega, SAC, gestão integrada de vendas nessa e outras plataformas, ERP e backoffice e publicidade na rede, caracterizando o que poderia ser chamado de ecommerce-as-a-service. 

As plataformas aceitam vendedores até sem o CNPJ, apenas com CPF, e as internacionais como Amazon e a gigante chinesa Alibaba propiciam espaço para vender em vários países, ampliando exponencialmente a oportunidade de exportação para empresas brasileiras. 

No varejo brasileiro são 5 milhões de empresas com CNPJ e apenas 50.000 vendem online. Com a crise da pandemia, que atingiu duramente o comércio, o Magazine Luiza tirou rapidamente da gaveta o projeto “Parceiro Magalu”, com regras simples de adesão e taxas baixas. Em uma semana, 160 mil trabalhadores autônomos e 15 mil empresas entraram na plataforma vendendo seus produtos. O espaço para pessoas físicas já abrigava 200.000 vendedores. A meta é atingir milhões de pessoas que são autônomas e não podem sair de casa.

Já a Via Varejo, dona das Casas Bahia, Extra.com e Ponto Frio, colocou cerca de 20.000 vendedores, impedidos de ir às lojas, a vender no WhatsApp. A última tendência está na aposta em revendedores pessoas físicas, uma espécie de modernização do vendedor da Avon, que ganha comissão a produto vendido a um amigo, utilizando as populares lives para vender de tudo.

Nesse ambiente de desemprego e isolamento social é um alento e oportunidade para muita gente.