‘Diz o que quero ouvir’: por que cada vez mais pessoas veem a IA como um guru existencial?

Milhões de usuários ao redor do mundo utilizam o ChatGPT não apenas como companhia, mas também como conselheiro e vidente. Confira seus motivos e consequências, segundo especialistas

Por Victoria Menghini, O Globo/La Nacion – 01/06/2025 

A inteligência artificial (IA) vem ganhando cada vez mais protagonismo na vida das pessoas. Essa ferramenta superpoderosa já não se restringe apenas a programadores e especialistas em tecnologia, mas está presente no celular que carregamos no bolso, nas consultas que fazemos e nas conversas que temos.

Além disso, também pedimos ajuda a ela e confiamos nossas dúvidas. Assim, de forma silenciosa, mas constante, ela se instalou em nossas rotinas, influenciando decisões e até moldando a forma como pensamos e enxergamos o mundo.

Os efeitos dessa transformação já são visíveis: recentemente, viralizou uma notícia em que uma mulher grega decidiu se divorciar do marido por conselho do ChatGPT. Especificamente, ela pediu ao modelo que aplicasse seus conhecimentos de tasseografia — uma técnica de adivinhação que interpreta padrões em folhas de chá ou xícaras de café — e a IA disse que seu parceiro “fantasiava” com uma mulher cujo nome começava com a letra “E”, além de afirmar que ele estava destinado a viver um romance com ela.

Indo mais fundo, o ChatGPT disse à mulher que seu marido lhe era infiel e, enfurecida, ela decidiu pôr fim ao casamento de 12 anos.

A busca por uma resposta ‘mágica’

É fato que a IA veio para revolucionar a forma como nos relacionamos com a tecnologia. Mas por que acreditamos quase cegamente nela? Por que não questionamos suas respostas, mesmo sabendo que são sistemas treinados com milhões de dados e que geram conteúdo com base em padrões aprendidos — e que não pensam nem sabem, de fato, o que estão dizendo?

— As pessoas sempre precisam acreditar em algo mágico, que alguém nos diga o que fazer, porque assim não somos nós que decidimos, é um outro. Essa busca por uma resposta rápida e mágica é nossa parte infantil, aquela que quer resolver e ver uma resposta rapidamente, sem assumir a responsabilidade — explicou Mirta Cohen, membro titular com função didática da Associação Psicanalítica Argentina (APA).

Nesse sentido, Patricia O’Donnell, médica psiquiatra, psicanalista e membro da APA, considerou que essas respostas instantâneas ignoram nossas emoções e pensamentos, “sem a necessidade de um tempo de espera, reflexão e elaboração”.

Por sua vez, María Pilar García Bossio, doutora em Ciências Sociais e professora da Universidade Torcuato Di Tella (UTDT) e da Universidade Católica Argentina (UCA), destacou a crescente presença da IA em uma sociedade cada vez mais digitalizada e despersonalizada:

— Estamos tão acostumados a dialogar com os outros por meios digitais que é fácil esquecermos que estamos falando com uma inteligência artificial e não com uma pessoa, sobretudo à medida que a tecnologia se tornou mais sofisticada em seu discurso, conseguindo adaptar sua linguagem às nossas necessidades.

Ela acrescenta:

— Em que se diferencia conversar com uma amiga pelo WhatsApp contando meus problemas de conversar com uma IA, senão pelo fato de eu saber que do outro lado há uma pessoa ou um robô? — refletiu a especialista.

María Pilar apontou um dos grandes atrativos dessa tecnologia: sua capacidade de nos oferecer respostas sob medida.

— Ela aprende conosco e tende a reforçar o viés de confirmação, ou seja, alimenta nossa tendência de buscar opiniões que se alinham com nossos próprios gostos e crenças. Assim, me diz o que quero ouvir — afirmou.

ChatGPT, guru da vida?

De astrólogo e tarólogo a especialista em tasseografia e conselheiro de relacionamentos amorosos, o ChatGPT se transformou em um companheiro, guia e conselheiro de vida para milhões de usuários ao redor do mundo. Em resumo, uma ferramenta-chave para tomar decisões ou validar ideias.

Por exemplo: em setembro de 2024, viralizou nas redes sociais o uso dessa ferramenta como detector de sinais de toxicidade — também chamados de red flags ou “bandeiras vermelhas” — em conversas do WhatsApp. Em detalhes, se for enviada uma captura de tela de um chat, o sistema analisa comportamentos suspeitos, como manipulação, ciúmes ou controle.

No entanto, suas respostas nem sempre são precisas.

— Os modelos de linguagem conseguem processar muitos textos ao mesmo tempo e encontrar relações entre palavras em grande escala. Eles leem, mas não como nós — explicou Fredi Vivas, engenheiro e professor de IA na Universidade de San Andrés.

Especificamente, os modelos de IA “leem” por meio da previsão de palavras.

— Usam um sistema chamado Atenção, que permite entender o contexto de cada palavra em uma frase — detalhou Vivas.

Por isso, o especialista esclareceu que, em vez de raciocinar, esses sistemas repetem padrões de forma estatística.

— Se você pedir a um modelo de linguagem que explique por que os Beatles foram uma banda de sucesso, ele vai te dar uma resposta convincente, mas isso não significa que ele saiba sobre música. O que acontece é que ele ‘leu’ muitos textos sobre o tema, porque possui muitas fontes de informação — ilustrou.

No entanto, Vivas ressaltou que a evolução constante dessas ferramentas pode corrigir esse tipo de erro em um futuro próximo.

Da mesma forma, hoje é comum ver em conversas no X (o antigo Twitter) invocações ao Grok, a IA da plataforma, para que explique ou confirme um dado publicado em um post — e muitos usuários tomam esse comentário como válido e irrefutável, mesmo que às vezes ele traga boas informações e, em outras, esteja claramente errado.

— Esses modelos tentam ser úteis, fazer com que você se sinta confortável na interação. Se é uma conversa, querem que você continue usando a ferramenta. Então, o que criaram em alguns casos foi um tom de conversa adulador. Você faz uma pergunta e ele responde algo como ‘parece uma boa ideia, genial’. Isso pode ser percebido como se ele soubesse de tudo (mesmo que suas respostas sejam estatísticas) — explica, acrescentando:

— A técnica usada para afinar os resultados e aprender coletivamente se chama aprendizado por reforço com feedback humano (quando indicamos se a resposta foi boa ou não). As ferramentas estão aprendendo com a interação humana para ficarem cada vez melhores.

Acreditar que a tecnologia é perfeita e não comete erros não é novidade. Desde os primeiros computadores e calculadoras até os mais avançados GPS, a sociedade sempre teve a tendência de depositar uma confiança excessiva nas máquinas. Especialistas chamam esse fenômeno de viés de automação, que por sua vez leva à complacência automatizada, em que as pessoas se tornam menos capazes de detectar falhas quando um dispositivo está no controle, segundo explica um artigo da BBC.

Dependência emocional e solidão

Nesse contexto, o uso excessivo de uma tecnologia ainda imperfeita como “companheiro virtual” que influencia nossas decisões levanta consequências e perigos potenciais a longo prazo.

De fato, o estudo ”How AI and Human Behaviors Shape Psychosocial Effects of Chatbot Use: A Longitudinal Randomized Controlled Study”, realizado pelo MIT Media Lab e pela OpenAI em março, revela que aqueles que dedicam mais tempo diariamente escrevendo ou conversando com o ChatGPT tendem a relatar níveis mais altos de dependência emocional e um uso problemático do chatbot, além de altos índices de solidão.

Nessa linha, o relatório ”Hesitant & Hopeful: How Different Generations View Artificial Intelligence”, publicado pelo Barna Group em janeiro de 2024, com a participação de 1.500 adultos americanos por meio de uma pesquisa on-line, indica que os millennials são os que mais utilizam essa tecnologia, em comparação com outras gerações. Em números concretos, 45% disseram usar IA ao menos uma vez por semana, sendo que os motivos estão mais ligados a questões pessoais do que profissionais.

A pesquisa também mostra que metade da geração Z afirma sentir “alguma” (39%) ou “definitivamente” (11%) urgência em integrar a IA às suas vidas.

Para Andrés Rascovsky, médico psicanalista e ex-presidente da APA, apesar da tentativa da IA de “se humanizar”, ela jamais poderá igualar as conexões humanas.

Enquanto isso, O’Donnell destacou que “esperar que a IA resolva tudo” pode levar ao desperdício do potencial criativo de cada pessoa, bem como da capacidade de criar vínculos.

— Paradoxalmente, tanta conexão pode acentuar a vivência da solidão, pois o sujeito, ao se afundar em satisfações temporárias e efêmeras, acaba ficando mais só e pode tentar se refugiar em um mundo vazio —refletiu.

‘Diz o que quero ouvir’: por que cada vez mais pessoas veem a IA como um guru existencial?

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Artigo: Como os drones chineses podem derrotar os Estados Unidos

Um ataque de drone ucraniano mostra nossa extrema vulnerabilidade

Por Noah Smith — O Globo – 06/06/2025 

Deixe-me contar uma história sobre a Segunda Guerra Mundial. Em 1940, antes da entrada dos Estados Unidos e da União Soviética (URSS) na guerra, o Reino Unido lutava sozinho contra a Alemanha e a Itália. Apesar de estarem em grande desvantagem numérica e armada, os britânicos conseguiram uma vitória naval espetacular, utilizando tecnologia inovadora. Enviaram o HMS Illustrious, um porta-aviões, para atacar a frota italiana em seu porto de Tarento. A embarcação britânica desativou três navios de guerra italianos e vários outros navios, sem que a Marinha italiana sequer visse os navios adversários, muito menos tivesse a chance de revidar.

Mas isso é apenas o prelúdio da minha história, que não é sobre uma vitória britânica, mas, sim, sobre sua derrota. Pouco mais de um ano após a Batalha de Tarento, Winston Churchill enviou o encouraçado HMS Prince of Wales e o cruzador de batalha HMS Repulse para impedir o Japão de atacar Cingapura. Apesar da sua vitória esmagadora em Tarento, a liderança militar britânica duvidava que os navios de guerra que se movessem por conta própria no mar pudessem ser abatidos apenas por ataque aéreo. Eles depositaram sua fé no poder do movimento em zigue-zague e dos canhões antiaéreos para deter os aviões de ataque.

Isso foi uma tolice. Os torpedeiros japoneses encontraram e afundaram o Prince of Wales e o Repulse com bastante facilidade. Aqui está uma foto aérea dos navios de guerra britânicos, tirada da cabine de um avião japonês, tentando escapar desesperadamente:

Os grandes navios de guerra — os invencíveis mestres do mar em guerras anteriores — de repente ficaram indefesos diante do enxame de minúsculas aeronaves. Churchill reagiu com choque e horror, e a frota britânica se retirou, deixando o Sudeste Asiático para os japoneses.

O mundo havia mudado, quase da noite para o dia. O poder aéreo havia provocado uma revolução nos assuntos militares. Os navios de guerra blindados passaram de equipamento militar mais valioso a quase obsoletos da noite para o dia. No entanto, pessoas que investiram os tesouros de seus países em frotas de embarcações, como Churchill, demoraram a perceber a mudança — mesmo quando foram suas próprias inovações tecnológicas que tornaram suas antigas armas inúteis.

OK, então aqui está a sua velha parábola da Segunda Guerra Mundial, com uma moral clara para a história: não ignore as revoluções tecnológicas. Agora, avancemos para 2025. É possível que tenhamos testemunhado algo semelhante a uma moderna Batalha de Tarento. Durante anos, a Rússia usou seus bombardeiros estratégicos — que também podem carregar armas nucleares — para lançar mísseis de cruzeiro contra a Ucrânia a uma grande distância. Os ucranianos atacaram esses bombardeiros com drones em terra, mas os russos simplesmente os levaram para mais longe, bem fora do alcance de qualquer coisa que os ucranianos pudessem lançar de seu próprio território.

Os ucranianos foram sorrateiros. Eles colocaram um monte de drones — pequenos quadricópteros de plástico movidos a bateria, não muito diferentes de um brinquedo que você pilotaria em um parque — em caminhões e (de alguma forma) os enviaram por toda a Rússia. Quando os caminhões se aproximaram das bases da Força Aérea, onde os russos haviam estacionado suas bombas, os drones ucranianos saltaram dos caminhões e começaram a explodir as bases — e outros aviões — no solo. Ainda não há informações sobre quantos bombardeiros russos os ucranianos conseguiram abater, mas todos sabem que representava uma parcela significativa da força de bombardeiros da Rússia. E essas magníficas, caríssimas, raras e altamente valorizadas máquinas de destruição foram tiradas de ação por brinquedos movidos a bateria. Mais uma vez, portanto, o mundo mudou, quase da noite para o dia.

O Exército americano é muito melhor que o russo, mas, no final das contas, não é tão diferente assim — é construído em torno de um conjunto de “plataformas” grandes, caras e pesadas, como porta-aviões, jatos e tanques. Cada caça furtivo F-22, ainda amplamente considerado o melhor avião em operação, custa cerca de US$ 350 milhões (quase R$ 2 bilhões) para ser construído. Um porta-aviões da classe Ford custa cerca de US$ 13 bilhões (cerca de R$ 74 bilhões) cada. Um tanque M1A1 Abrams custa mais de US$ 4 milhões (R$ 23 milhões), e assim por diante.

Esse é o valor que será destruído cada vez que um drone chinês barato, movido a bateria de plástico, destruir um equipamento americano caro em uma guerra por Taiwan ou no Mar do Sul da China, ou quando Xi Jinping acordar de mau humor — sem incluir, é claro, as vidas de quaisquer americanos que estejam dentro do equipamento quando ele for destruído. Só que o verdadeiro valor perdido será muito maior, já que — como o Japão na Segunda Guerra ou a Rússia agora — os EUA têm uma capacidade de fabricação extremamente limitada no setor de defesa e, portanto, não conseguirão repor facilmente o que perdem.

Enquanto você lê este artigo, planejadores militares em todo o mundo estão se esforçando para criar defesas contra o tipo de ataque que a Ucrânia acabou de realizar. Dezenas de navios porta-contêineres chegam aos portos americanos vindos da China todos os dias, cada um com milhares de contêineres. Esses equipamentos são, então, descarregados e enviados por rodovia e ferrovia para destinos em todo o país. Imagine uma centena desses contêineres, de repente, se transformando em enxames de drones, destruindo enormes porções da Força Aérea e da Marinha americana, que valem trilhões de dólares, em poucos minutos.

Essa é obviamente uma ideia assustadora. Como os EUA podem se defender desse tipo de ataque? Possíveis contramedidas incluem abrigos reforçados para aeronaves e diversas formas de defesa aérea — armas, bloqueadores, pulsos eletromagnéticos, canhões de laser, interceptadores de drones — além de uma vigilância aprimorada do tráfego de contêineres. Mas, quaisquer que sejam as defesas possíveis, o advento de drones baratos movidos a bateria mudou o jogo e transformou essencialmente o mundo inteiro em um campo de batalha.

Por que os EUA não fazem o mesmo que a China

A outra pergunta que precisamos fazer é: por que os EUA não podem simplesmente fazer o mesmo com a China, em caso de guerra? Temos drones, certo? Não fomos nós os inventores da tecnologia de drones? Não temos startups inovadoras como a Anduril e a Skydio , e muitas outras, correndo para equipar nossas Forças Armadas com os melhores drones do mundo?

Sim, os EUA inventaram a tecnologia dos drones. Mas a maioria dos que usamos atualmente são sistemas pesados ​​e caros, como o MQ-9 Reaper.

Cada um desses drones gigantes custa US$ 33 milhões (quase R$ 200 milhões). Durante o recente conflito dos EUA com os houthis, no Iêmen — um conflito no qual os EUA foram essencialmente derrotados — a milícia iemenita desorganizada abateu pelo menos 7 desses drones Reaper, e possivelmente até 20. Os Estados Unidos, no total, têm apenas algumas centenas.

O tipo de drone usado no ataque ucraniano, por outro lado, são drones FPV — sigla para “visão em primeira pessoa”. São pequenos helicópteros de plástico movidos a bateria e equipados com explosivos.

Esses drones custam de algumas centenas a alguns milhares de dólares cada, dependendo do tipo. A Ucrânia produz atualmente milhares desses drones por dia e afirma esperar produzir mais de 10 mil, embora o drone-base (antes da adição de armas e outros equipamentos militares) ou as peças usadas para fabricá-lo normalmente venham da China.

Por que tantos? Drones FPV não são úteis apenas para o tipo de ataque-surpresa de longo alcance que a Ucrânia acabou de realizar. Na verdade, eles estão substituindo gradualmente todos os outros tipos de armas no campo de batalha. Drones FPV podem destruir tanques, incluindo os melhores dos EUA. Estima-se que eles causem 70% das baixas no campo de batalha — mais do que a artilharia, o tradicional “Deus da guerra”.

Dezenas de milhares dessas máquinas relativamente baratas e descartáveis ​​estão agora voando de um lado para o outro nas linhas de frente, identificando posições russas, reunindo informações para antecipar ataques iminentes, colidindo com alvos inimigos ou lançando bombas sobre eles.

No início de 2025, os drones eram responsáveis ​​por 60% a 70% dos danos e da destruição causados ​​aos equipamentos russos na guerra, de acordo com o centro de estudos Royal United Services Institute, sediado no Reino Unido.

O mundo está atento

Comandantes militares em todo o mundo estão atentos. Taiwan está investindo em drones em massa, antecipando um possível conflito com a China. Israel recalibrou o sistema de defesa aérea Domo de Ferro na guerra em Gaza para incluir drones manobráveis. Governos europeus, embarcando em seu maior rearmamento desde a Guerra Fria, identificaram drones e sistemas antidrones como prioridade de investimento. O Pentágono, nos EUA, pioneiro em drones sofisticados e caros, busca comprar modelos mais baratos, projetados por startups e implantados em massa.

Os drones pequenos e leves com vários rotores tornaram-se a inovação da guerra. Conhecidos como drones com visão em primeira pessoa, eles são controlados em tempo real, por meio de uma transmissão de vídeo, por um operador que pode “ver” através de uma câmera a bordo usando óculos eletrônicos. As redes sociais estão repletas de vídeos mostrando as máquinas se aproximando de tropas, veículos blindados de transporte de pessoal, baterias de mísseis e postos de comando até o momento do impacto. Outros drones com rotor são usados ​​para lançar explosivos do tamanho de granadas sobre alvos e podem ser reutilizados se retornarem em segurança.

A Bloomberg afirma que as peças usadas para fabricar a frota de drones da Ucrânia são compradas “online”, mas isso é um eufemismo. Elas são fabricadas na China.

Um drone FPV é basicamente:

  • algumas peças plásticas moldadas por injeção
  • alguns chips de computador de ponta (microcontroladores, sensores, etc).
  • um motor elétrico feito de ímãs permanentes de terras raras
  • uma bateria de íons de lítio

Os EUA ainda podem fabricar muitos chips de computador de última geração, mas o resto desses itens é tudo China, China e China.

China, China e China

A China produz uma grande fração da moldagem por injeção no mundo — cerca de 82%, de acordo com uma estimativa de 2024. Atualmente, não conheço nenhum plano governamental para restaurar a capacidade perdida dos EUA em moldagem por injeção. Aliás, espera-se que as tarifas de Trump — se algum dia entrarem em vigor — prejudiquem severamente a indústria de moldagem por injeção dos EUA, impedindo que as empresas americanas desse tipo importem os equipamentos especializados de que necessitam.

A China também fabrica a maioria dos motores elétricos do mundo. Isso ocorre porque o país fabrica a maioria dos ímãs, e um motor elétrico é basicamente feito por esse material. O resto do mundo está se esforçando para aumentar a capacidade de produção de ímãs, mas, pelo resto desta década, a China dominará.

Mas isso será difícil de conseguir. Os ímãs para motores elétricos são feitos de materiais chamados “terras raras”, quase inteiramente extraídos e processados ​​na China.

De fato, a China recentemente impôs controles de exportação sobre suas vendas de terras raras para os EUA, causando caos em diversas indústrias americanas e contribuindo para a decisão de Trump de suspender suas tarifas. Até agora, os esforços dos EUA para minerar e refinar terras raras têm fracassado.

Por fim, e mais importante, temos as baterias. A bateria é o componente essencial de um drone FPV — ela armazena a energia que o faz funcionar. Drones maiores podem usar motores de combustão, mas para obter algo tão pequeno e barato como um drone FPV, você precisa de uma bateria.

A China produz a maior parte das baterias do mundo. Em 2022, detinha 77% da capacidade de produção global.

Mesmo esta projeção, que mostra os Estados Unidos se recuperando um pouco, é provavelmente otimista demais. Ela foi feita em um momento em que a política industrial de Joe Biden — especificamente, a Lei de Redução da Inflação — distribuía enormes subsídios para fábricas de baterias americanas.

Isso não colocaria a capacidade americana de fabricação de baterias no mesmo nível da China, mas nos daria uma chance de lutar.

Agora, porém, Donald Trump e os republicanos estão cancelando as políticas que promoviam a fabricação de baterias nos Estados Unidos.

Os republicanos e a fabricação de baterias

Um projeto de lei sobre impostos e políticas aprovado pelos republicanos da Câmara eliminaria subsídios para a fabricação de baterias, incentivos para a compra de veículos elétricos por pessoas físicas e jurídicas e verbas para estações de recarga aprovadas pelo Congresso durante o governo Biden. E, além disso, imporia uma nova taxa anual aos proprietários de carros e caminhões elétricos.

Veículos elétricos são cruciais para a capacidade de fabricação de baterias, pois, em tempos de paz, são a principal fonte de demanda por baterias. Incentive a indústria de veículos elétricos e você também incentivará a indústria de baterias. Mate a indústria de veículos elétricos e você também matará a indústria de baterias, exatamente como os republicanos querem fazer agora. Prejudicar a indústria solar também prejudicará a indústria de baterias, porque alguns tipos de baterias são usadas ​​para armazenar energia solar para quando o sol não está brilhando.

Mais projetos de baterias foram cancelados no primeiro trimestre de 2025 do que nos dois anos anteriores. Esses cancelamentos incluem uma fábrica de US$ 1 bilhão (cerca de R$ 6 bilhões) na Geórgia, que teria produzido barreiras térmicas para baterias e uma fábrica de baterias de íons de lítio de US$ 1,2 bilhão no Arizona.

— É difícil, no momento, ser um fabricante nos EUA, dadas as incertezas sobre tarifas, créditos fiscais e regulamentações — disse Tom Taylor, analista sênior de políticas da Atlas Public Policy. Centenas de milhões de dólares em investimentos adicionais parecem estar paralisados, segundo ele, mas ainda não foram formalmente cancelados.

Na verdade, todo o boom na construção de fábricas americanas que ocorreu sob Biden parece estar parando e retrocedendo sob Trump, graças a uma combinação de tarifas e ao esperado cancelamento de políticas industriais.

O ataque ucraniano aos bombardeiros nucleares russos demonstra o quão insano e contraproducente é o ataque do Partido Republicano à indústria de baterias. As baterias eram o que impulsionava os drones ucranianos que destruíram o orgulho da frota aérea russa. Se os EUA se recusarem a fabricar baterias, não poderão produzir drones semelhantes em caso de uma guerra contra a China. Sem drones FPV movidos a bateria, os Estados Unidos estariam em grave desvantagem no novo tipo de guerra em que a Ucrânia e a Rússia foram pioneiras.

Infelizmente, Trump e o Partido Republicano decidiram encarar as baterias como uma questão de guerra cultural, em vez de uma questão de segurança nacional. Eles acham que estão atacando a energia verde hippie, dando uma bronca nos jovens ambientalistas socialistas e defendendo o bom e velho petróleo e gás americano. Em vez disso, o que estão, na verdade, fazendo é desarmar unilateralmente a futura força de drones dos EUA e cedendo a principal arma do campo de batalha moderno para a China.

De qualquer forma, a menos que os líderes americanos percebam rapidamente a importância militar das baterias, dos ímãs, da moldagem por injeção e dos próprios drones, os EUA podem acabar parecendo a Marinha britânica em 1941 — ou a Marinha italiana em 1940. Uma revolução nos assuntos militares está em andamento, e os Estados Unidos estão deliberadamente perdendo a oportunidade.

Para ler mais artigos de Noah Smith, basta acessar seu blog aqui.

Artigo: Como os drones chineses podem derrotar os Estados Unidos

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EUA: Centros de pesquisa deixam de atrair cientistas estrangeiros

Cortes e restrições de Trump ameaçam fazer país perder a liderança histórica em ciência

Por James Glanz – O Globo/The New York Times – 31/05/2025 

Por décadas, Bangalore, na Índia, tem sido um berço de talentos científicos, enviando doutores recém-formados para todo o mundo para realizar pesquisas inovadoras. Em um ano comum, muitos deles miram laboratórios nos Estados Unidos.

— Queremos que nossos alunos façam coisas incríveis — diz Raj Ladher, professor do Centro Nacional de Ciências Biológicas em Bangalore.

Mas este não é um ano comum. Quando o professor Ladher perguntou recentemente a cerca de 30 formandos da cidade sobre seus planos, apenas um tinha emprego garantido nos Estados Unidos. Para muitos outros, a turbulência política em Washington secou as oportunidades de trabalho naquele que ele chama de “o melhor ecossistema de pesquisa do mundo”. Alguns decidiram levar suas habilidades para outros países, como Áustria, Japão e Austrália, enquanto outros optaram por permanecer na Índia.

À medida que o governo de Donald Trump avança para negar vistos, expulsar estudantes estrangeiros e cortar recursos para pesquisa, cientistas nos Estados Unidos estão cada vez mais alarmados. A supremacia global que os EUA há muito desfrutam nas áreas de saúde, biologia, ciências físicas e outras, alertam eles, pode estar chegando ao fim.

— Se as coisas continuarem assim, a ciência americana será arruinada. Se não for possível trabalhar com cientistas de fora dos EUA, o tipo de pesquisa que faço será inviável — disse David W. Hogg, professor de física e ciência de dados da Universidade de Nova York, que trabalha em estreita colaboração com astrônomos e outros especialistas ao redor do mundo.

Os cortes em pesquisa e as ações para reduzir a presença de estudantes estrangeiros avançaram em ritmo acelerado sob a administração Trump. O governo chegou ao ponto de tentar bloquear totalmente o acesso de estudantes internacionais à Universidade de Harvard, e mais de US$ 3 bilhões em bolsas de pesquisa para a instituição foram cancelados ou suspensos.

Na Universidade Johns Hopkins, um dos centros de excelência em pesquisa científica, autoridades anunciaram a demissão de mais de 2.000 pessoas após perderem US$ 800 milhões em verbas governamentais. Uma análise do The New York Times revelou que a Fundação Nacional de Ciências dos EUA, principal agência de fomento em ciências físicas do mundo, tem concedido financiamento a novos projetos no ritmo mais lento desde pelo menos 1990.

Não se trata apenas da perda de poder ou prestígio da comunidade científica americana. Dirk Brockmann, professor de biologia e física na Alemanha, alertou que as implicações são bem mais amplas. A aceitação do risco e os saltos aparentemente “malucos” de inspiração, profundamente enraizados na cultura americana, disse ele, ajudaram a criar um ambiente de pesquisa sem igual. O resultado tem sido décadas de inovação, crescimento econômico e avanços militares.

— Existe algo muito profundo na cultura que a torna especial. É quase um ingrediente mágico — afirmou Brockmann, que já lecionou na Universidade Northwestern.

Cientistas acreditam que parte do talento internacional que há muito impulsiona a ciência nos EUA pode acabar migrando para outros países. Muitos governos estrangeiros — da França à Austrália — também começaram a cortejar abertamente os cientistas americanos.

Mas, como os Estados Unidos lideram o campo há tanto tempo, há grande preocupação de que a pesquisa científica global seja prejudicada.

— Para muitas áreas, os EUA são absolutamente o parceiro essencial — disse Wim Leemans, diretor da divisão de aceleradores do centro de pesquisa DESY, na Alemanha, e professor da Universidade de Hamburgo.

Leemans, que tem cidadanias americana e belga e passou 34 anos nos Estados Unidos, afirmou que, em áreas como pesquisa médica e monitoramento climático, o resto do mundo teria grande dificuldade em compensar a perda da liderança americana.

Fronteiras fechadas

Houve um tempo em que o governo dos EUA reconhecia e valorizava seu papel na comunidade científica internacional.

Em 1945, o conselheiro científico presidencial Vannevar Bush apresentou um plano decisivo para a ciência no país no pós-Segunda Guerra Mundial. Chamado “Science, the Endless Frontier” (Ciência, a Fronteira Infinita), o documento argumentava que o país ganharia mais ao compartilhar informações — incluindo a acolhida de cientistas estrangeiros, mesmo que pudessem partir no futuro — do que tentando proteger descobertas que acabariam sendo feitas em outros lugares de qualquer forma.

Esse plano ajudou a impulsionar a supremacia científica americana no pós-guerra, segundo Cole Donovan, assessor internacional de tecnologia da Casa Branca durante o governo Biden. Grande parte do poder e influência dos EUA deriva da supremacia em ciência e tecnologia, disse ele.

Agora, os EUA estão retirando o tapete de boas-vindas.

Brockmann, que estuda sistemas complexos na Universidade Técnica de Dresden, planejava retornar à Northwestern para apresentar uma palestra principal em junho. Seria parte de uma viagem em família aos Estados Unidos; seus filhos já haviam morado em Evanston, Illinois, onde ele lecionou de 2008 a 2013.

Ele cancelou a palestra após o Ministério das Relações Exteriores da Alemanha emitir novas orientações sobre viagens aos EUA, após a detenção de turistas alemães na fronteira americana.

— Esse alerta foi um tipo de sinal para mim. Não me sinto seguro — frisou ele.

Liderança chinesa

Donovan disse que ainda é cedo para saber se a Europa ou a China, por exemplo, podem assumir a liderança internacional em ciência. Ladher, de Bangalore, afirmou que até o momento a Europa tem preenchido parte do vazio na contratação de seus graduados.

— A Áustria se tornou um destino muito procurado por muitos dos nossos estudantes — disse ele.

Em Bangalore, uma doutoranda prestes a defender sua tese sobre sinalização celular e câncer disse que há uma percepção generalizada na Índia de que os laboratórios americanos dificilmente contratarão muitos estudantes estrangeiros este ano. Isso levou muitos de seus colegas a buscarem oportunidades em outros países, contou a estudante, que preferiu não se identificar porque ainda planeja se candidatar a posições nos EUA e não quer prejudicar suas chances.

A comunidade científica americana, disse ela, sempre foi altamente respeitada no exterior.

— É triste ver o heroi caindo do pedestal — concluiu.

EUA: Centros de pesquisa deixam de atrair cientistas estrangeiros

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Saiba as três áreas que não devem ser ocupadas pela Inteligência Artificial, segundo Bill Gates

Magnata e cofundador da Microsoft falou sobre a nova era tecnológica e alertou que em dez anos o ser humano será dispensável em muitas tarefas, exceto três

Por O Globo/La Nacion — 03/06/2025 

O desenvolvimento da Inteligência Artificial (IA) cresceu exponencialmente nos últimos anos e, especificamente em 2024, seu impacto na comunidade provou ser inovador. Além de um simples texto gerado pelo ChatGPT, esse tipo de inovação veio para ficar e se expandir para todas as áreas de trabalho, como medicina e agricultura, com exceção de três, nas quais Bill Gates previu que os humanos não podem ser substituídos.

Em entrevista a Jimmy Fallon no The Tonight Show Starring, em março deste ano, o fundador da Microsoft falou sobre a profunda transformação pela qual a humanidade está passando, caminhando para uma nova era em que ela não será mais indispensável em muitas áreas. Por isso, ele incentivou todos a se especializarem em três carreiras, em particular aquelas que, em sua opinião, dificilmente serão preenchidas pela IA.

Os humanos não serão substituídos pela IA nestas três profissões:

Biologia

Como Gates explicou, a Inteligência Artificial tem a capacidade de processar grandes volumes de dados e apoiar a tomada de decisões. No entanto, carece de pensamento crítico ou capacidade analítica em contextos da vida real. Sua percepção se baseia em informações comparativas publicadas por pessoas, mas carece de rigor científico e técnico próprio.

Por isso, ele enfatizou: “Os biólogos desempenham um papel fundamental no desenvolvimento humano e nas descobertas médicas. Mesmo com a ajuda da IA, formular hipóteses e alcançar avanços conceituais continua sendo uma tarefa profundamente humana.”

Simplificando, a descoberta científica requer a mente humana e a intuição. Essa tecnologia não “pensa” criativamente nem se adapta à realidade do mundo. A IA pode sugerir teorias, mas são os cientistas que conduzem os testes, questionam seus métodos e avaliam os riscos.

Programação

Os desenvolvedores de software são essenciais para construir, supervisionar e adaptar os próprios sistemas de IA que estão transformando outros setores. Embora essa tecnologia possa funcionar mais rápido do que um programador júnior, ela pode cometer erros e falhas durante a implementação. Portanto, a análise e a coordenação humana prévias são essenciais.

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A IA segue padrões, mas não consegue criar sistemas complexos e escaláveis ​​como os humanos. Ela não consegue entender a experiência do usuário, a visão do produto ou as necessidades do negócio.

“Ela pode apoiar o desenvolvimento de software e a criação de sistemas complexos ou inovadores, mas ainda exigirá conhecimento humano e adaptabilidade”, disse o magnata.

Energia

Profissionais de energia são essenciais para atender às “necessidades imprevisíveis de um clima global em mudança”. Esta é uma área que não pode ser totalmente controlada pela Inteligência Artificial devido às decisões delicadas envolvidas: desde a gestão de usinas nucleares até redes elétricas e represas.

Pode haver riscos na forma como gerencia o fluxo e a demanda, e falta pensamento crítico em relação às necessidades da população. Embora seja útil para analisar dados, as políticas e decisões devem permanecer em mãos humanas. Em tom de brincadeira, Gates acrescentou que há uma disciplina que a IA provavelmente nunca conseguirá substituir: os esportes.

“Sabe, assim como o beisebol, não vamos querer assistir computadores jogando beisebol”, disse ele. “Haverá coisas que guardaremos para nós mesmos.”

Embora o futuro seja incerto e muitos empregos possam desaparecer, Gates permaneceu otimista. Ele afirmou que o uso da IA ​​em áreas estratégicas como medicina, educação e agricultura poderia melhorar a qualidade de vida humana. De acordo com sua visão, uma grande parte dos empregos será transformada ou substituída por essa ferramenta inovadora nos próximos dez anos.

Saiba as três áreas que não devem ser ocupadas pela Inteligência Artificial, segundo Bill Gates

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O que é o paradoxo da escolha, que nos deixa descontentes mesmo quando tomamos decisões

Quanto mais opções, mais difícil é escolher, e o resultado da nossa escolha nunca é satisfatório

Oliver Serrano León – Folha – 1º.jun.2025 

The Conversation*

Alguma vez você demorou mais para escolher um filme ou uma série em uma plataforma de streaming do que para assisti-lo? Ou, mesmo depois de pesquisar muito para comprar algo online, ficou com dúvidas se tinha feito a melhor escolha?

Em uma sociedade com tantas possibilidades, escolher algo se tornou uma fonte de ansiedade: o que a princípio parecia uma vantagem pode acabar sendo um fardo.

A psicologia define isso como “o paradoxo da escolha”: quanto mais opções temos, mais difícil é escolher, e menos satisfeitos ficamos com a decisão.

Esse fenômeno foi descrito pelo psicólogo Barry Schwartz. Ele defendia que o excesso de liberdade pode ter efeitos adversos sobre o nosso bem-estar. Em vez de nos deixar mais felizes, uma abundância de opções tende a nos bloquear, frustrar e provocar a sensação de que poderíamos ter escolhido melhor.

Quando a escolha vira um problema

Um estudo de Sheena Iyengar e Mark Lepper demonstrou que os consumidores eram menos propensos a comprar geleias quando expostos a uma variedade de 24 sabores do que quando a variedade era de apenas seis. A quantidade de opções não apenas dificulta a decisão, como também reduz a satisfação com o que foi escolhido.

Esse padrão não se limita ao consumo. Ele também é observado em decisões importantes, desde a escolha de cursos até relações pessoais. Em contextos universitários e profissionais, o excesso de opções pode gerar uma sensação de paralisia, dúvidas constantes e medo de errar.

Dois estilos para a tomada de decisões

Os maximisers (ou maximizadores, na tradução livre para o português) são mais propensos a remoer ou se arrepender de decisões tomadas – Getty Images via BBC

A psicologia identificou diferentes estilos de enfrentamento diante da tomada de decisões. Entre eles, os dois perfis mais estudados são os maximizers (ou maximizadores, na tradução livre para o português) e os satisficers (satisfatores).

Essa distinção foi formalizada em um estudo publicado no Journal of Personality and Social Psychology (Jornal de Personalidade e Psicologia Social, na tradução livre para o inglês).

Maximizers: em busca da opção perfeita

As pessoas com um estilo maximizador tendem a buscar sempre a melhor opção possível. Avaliam muitas alternativas, comparam exaustivamente, pesquisam a fundo e adiam decisões em busca da escolha ideal.

Embora esse comportamento pareça racional ou ambicioso, na prática está frequentemente associado a impactos negativos no bem-estar emocional.

O estudo citado mostrou que os maximizadores:

  • Sentem mais ansiedade e estresse durante o processo de tomada de decisão;
  • São mais suscetíveis e remoer e se arrepender da decisão que fizeram;
  • Apresentam níveis mais baixos de satisfação com as decisões que tomam, inclusive quando o resultado é bom.

Além disso, outros estudos têm associado esse perfil a sintomas depressivos, especialmente quando as decisões são tomadas em contextos completamente incertos.

Satisficers: quando o “suficientemente bom” é suficiente

Em contraste, o estilo satisfator se baseia em escolher uma opção que atenda a critérios pessoais mínimos ou razoáveis, sem necessidade de compará-la com todas as outras disponíveis.

Essas pessoas não buscam o perfeito, mas algo que se alinhe às suas necessidades e valores.

Segundo o estudo citado, os satisfatores:

  • Decidem mais rápido;
  • Sentem menos arrependimento;
  • Se sentem mais satisfeitos com suas escolhas;
  • Têm mais estabilidade emocional após tomar decisões.

O estilo satisfator não deve ser confundido com conformismo. Trata-se de uma abordagem mais funcional e adaptativa. Como mostram outros estudos, essas pessoas tendem a preservar recursos cognitivos e emocionais, o que as ajuda a lidar melhor com a incerteza e a reduzir a fadiga na hora de tomar decisões.

A diferença entre os perfis influencia não apenas como uma decisão é tomada, mas também como se vive o processo e as consequências da escolha.

O estilo maximizador pode ser útil em contextos técnicos ou decisões de alto risco, mas a sua aplicação constante na vida diária–onde muitas vezes não existe uma opção claramente melhor – pode prejudicar o bem-estar psicológico de forma significativa.

Por outro lado, adotar uma atitude de satisfator permite tomar decisões com mais tranquilidade, assumindo que nenhuma será perfeita, mas muitas podem ser válidas.

Em tempos de abundância de opções, essa abordagem parece mais emocionalmente sustentável.

Onde está a armadilha?

O paradoxo da escolha se manifesta em múltiplos aspectos da vida cotidiana:

  • Streaming e lazer digital: o menu interminável de séries, filmes e músicas pode provocar fadiga e reduzir o prazer;
  • Compras online: milhares de opções para um mesmo produto pode gerar confusão, dúvidas e arrependimento posterior;
  • Relações interpessoais: a ilusão de infinitas possibilidades em aplicativos de namoro pode dificultar o compromisso e aumentar a insatisfação;
  • Escolhas profissionais ou acadêmicas: a grande variedade de caminhos possíveis gera indecisão, medo de errar e bloqueio psicológico.

Consequências psicológicas do excesso de opções

Escolher entre muitas alternativas exige recursos cognitivos e emocionais. Quanto maior número de opções, maior a probabilidade de experimentar ansiedade, dúvidas persistentes, arrependimento posterior à decisão, diminuição do prazer com a escolha e fadiga mental.

Além disso, em contextos de pressão social ou exigência elevada, essa dificuldade se agrava. A sensação de que “tudo depende de uma escolha correta” pode levar ao estresse crônico ou até à evitação das decisões.

O fenômeno da fadiga de decisória também é reconhecido no âmbito clínico. Alguns estudos mostram que o esforço mental acumulado ao tomar muitas decisões reduz a capacidade de autocontrole e aumenta a vulnerabilidade ao estresse.

Como se proteger? Estratégias para escolher melhor

Na psicologia aplicada, diversas estratégias têm sido propostas para reduzir o impacto negativo da abundância de opções. Algumas delas são:

  • Reduzir voluntariamente o número de alternativas: criar filtros prévios ajuda a focar a atenção a acelerar o processo de tomada de decisões;
  • Aceitar a imperfeição: entender que toda escolha implica renúncias e que não existe opção perfeita ajuda a decidir com menos carga emocional;
  • Decidir com base em valores pessoais: priorizar critérios próprios, e não expectativas externas ou modismos, aumenta a satisfação com a decisão tomada;
  • Praticar a autocompaixão: ser menos duro com você mesmo após tomar uma decisão reduz o arrependimento e o desconforto emocional;
  • Automatizar decisões menores: definir padrões para escolhas rotineiras (roupa, café da manhã) pode liberar energia mental para o que realmente importa.

Escolher menos, viver mais

Em um contexto cultural que associa liberdade com quantidade, pode parecer contraditório que reduzir opções aumente o nosso bem-estar. Contudo, inúmeros estudos confirmam: o excesso de alternativas gera fadiga e frustração.

Adotar uma tomada de decisão mais simples, mais conectada com o pessoal e menos centrada em encontrar o “perfeito” pode ajudar a melhorar a saúde mental e a qualidade de vida. Nesse sentido, escolher menos não é se conformar, mas decidir com mais sentido.

*Oliver Serrano León é diretor e professor do Mestrado em Psicologia Geral em Saúde da UEC (Universidade Europeia de Canarias).

*Este artigo foi publicado no The Conversation e reproduzido sob licença da Creative Commons. Clique aqui para ler a versão original em espanhol.

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O mercado de crimes e o ensaio da guerra

Crimes cibernéticos custarão ao mundo US$ 10,5 trilhões em 2025. Isso é cerca de metade do PIB chinês e um terço do americano

Por Felipe Buchbinder – Valor – 12/05/2025

No meu tempo não era tão fácil cometer um crime. Era preciso talento para forjar um documento e apenas um verdadeiro hacker conseguia derrubar um site para extorquir o dono. Foram-se os tempos.

Os criminosos de hoje têm tudo de mão beijada: invadir um site para roubar-lhe os dados, simular a voz do filho para exigir resgate dos pais, ou fazer um avatar de um falecido para se passar por ele em uma prova de vida – tudo isso pode ser comprado nos mercados de Fraud as a Service (FaaS) e Cybercrime as a Service (CaaS). O crime foi democratizado e está ao alcance de todos que podem pagar por ele.

Longe de serem meros trocados de moleques no sótão de um sobrado abandonado, os crimes cibernéticos custarão ao mundo US$ 10,5 trilhões em 2025, diz o Fórum Econômico Mundial. Isso é cerca de metade do PIB chinês e um terço do americano. Se os crimes cibernéticos fossem um país, seriam a terceira maior economia do mundo.

Fotos, senhas, deep fakes e kits que permitem até mesmo um leigo em tecnologia invadir um site: tudo isso está à venda. Vamos ser claros sobre o que isso significa. Sabe aquela foto que você tira segurando o RG para identificar-se no app do banco? Aquela entrevista com um agente do governo para prova de vida? Aquela mensagem de voz da sua mãe ou o reconhecimento facial na escola do seu filho? Pois bem. Existe um mercado em que tudo isso pode ser comprado. Vimos um exemplo disso quando o CFO de uma multinacional britânica solicitou a um empregado sediado em Hong Kong que fizesse uma transferência de US$ 25 milhões. O empregado cumpriu o que lhe foi pedido. Nem percebeu que o CFO e todos os demais presentes na reunião eram pessoas falsas, geradas por IA.

Agora, vamos jogar um jogo. Prove-me que você é você. Não vale usar documentos, fotos, voz ou vídeos, já que tudo isso pode ser falsificado com excelente precisão. Como você me prova que é realmente o João, titular da conta bancária 1234, dono da casa 5 na rua Seis e pai desta criança que te acompanha no aeroporto? Como ficam as seguradoras, se uma IA é capaz de transformar a foto de um carro zero na foto do mesmo carro amassado? Como fica o sistema financeiro, que vê nas práticas de Know Your Customer (KYC) os alicerces dos sistemas de prevenção à fraude, à lavagem de dinheiro e ao financiamento do terrorismo? Se não podemos confiar no que vemos ou ouvimos, como fica a sociedade?

Pois é. É por isso que o CaaS não é um joguete de moleques, mas um campeonato de países. As mesmas competências utilizadas para o crime podem ser utilizadas para a espionagem e para a guerra. O mesmo grupo que, em tempos de paz, invade o site de um banco para roubar dados sigilosos pode, em tempos de guerra, derrubar a eletricidade de um país (como ocorreu com a Ucrânia já em 2015) ou invadir os sistemas da empresa de água e, sem alarde, pouco a pouco envenenar a população. Em 2024, por exemplo, o serviço secreto americano alertou que China e Irã haviam conseguido hackear a Casa Branca. Isso levou alguns funcionários do governo Joe Biden a intensificarem a comunicação via um aplicativo não oficial, no qual o compartilhamento de informações sigilosas não era autorizado pelo governo e em que, no governo Trump, um repórter que não deveria estar no grupo teve acesso a planos de guerra.

Guerra. Se seus tambores rufam longe da terra onde canta o sabiá, os crimes cibernéticos gorjeiam bem perto de nós. Segundo o instituto Data Senado, do Senado Federal, os golpes digitais vitimaram cerca de 24% dos brasileiros com mais de 16 anos entre junho de 2023 e de 2024: 40,85 milhões de pessoas perderam dinheiro em função de algum crime cibernético, como clonagem de cartão, fraude na internet ou invasão de contas bancárias.

Além disso, o Brasil já foi palco de ataques de grande escala, como a invasão ao site do STJ em 2020, ou o sequestro de dados do Ministério da Saúde que derrubou o Conecte SUS, em 2021. Em 2022, o TCU identificou que cerca de 75% das organizações públicas não possuem políticas de backup e, dentre as que possuem, 66% não usam criptografia. Em relatório, o TCU classificou a cibersegurança como uma vulnerabilidade de alto risco na administração pública brasileira, motivando a promulgação da Política Nacional de Cibersegurança (PNCiber) em 2023.

Políticas são necessárias, mas não são suficientes. Para o Brasil enfrentar os criminosos do mundo cibernético, é crucial que domine dois grupos de tecnologia.

O primeiro grupo reúne as tecnologias que alicerçam os sistemas de identificação do cidadão, a exemplo do Aadhaar, que coleta dados biométricos de 99,9% da população adulta da Índia e media seus acessos a toda sorte de serviços públicos e privados. No Brasil, dispomos desde 2022 da Carteira de Identidade Nacional (CIN), que traz validação biométrica e QR Code digital.

O segundo grupo (este, o mais importante) são as tecnologias da Inteligência Artificial (IA). Hábil em detectar padrões suspeitos e capaz de se adaptar a táticas inimigas em contínua mudança, a IA é uma ferramenta indispensável para se combater a infinita criatividade das mentes criminosas – que, diga-se de passagem, também se valem da IA para cometer crimes cada vez mais sofisticados.

Neste sentido, o uso de IAs proprietárias de outros países é uma faca de dois gumes. Por um lado, há que se aprender com a tecnologia que é de ponta. Por outro, usar essas IAs significa entregar nossos dados (potencialmente estratégicos) para que empresas que mal conhecemos os utilizem como quiserem. O argumento foi pauta de um artigo recente na Forbes e não faltam exemplos de empresas que concordam: Amazon, Apple, Citigroup, Deutsche Bank, JPMorgan Chase, Samsung, Verizon e Walmart, todas restringiram (em maior ou menor grau) o uso de IAs para seus funcionários, temendo o vazamento de informações confidenciais.

Vários motivos já foram dados para desenvolver uma indústria de IA brasileira: desenvolver o Brasil social e economicamente, endereçar a questão da fuga de cérebros, reduzir a nossa dependência dos outros países em uma geopolítica cada vez mais individualista, colocar nossa matriz energética limpa à serviço do enfrentamento às mudanças climáticas… este é mais um: proteger-nos de crimes que, outrora sofisticados, agora já são commodities.

Felipe Buchbinder é professor da Fundação Getulio Vargas (FGV), doutor em Administração pela FGV, mestre em Inteligência Artificial pela Duke University, nos Estados Unidos, e membro da Rede de Inteligência Artificial e Tecnologias Quânticas.

* As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor

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Quer ser relevante? Prepare-se para influenciar as IAs

Se há dois anos o que reinava eram as buscas feitas no Google, o que importa são os resultados de ChatGPT, Claude, Gemini, DeepSeek

Ronaldo Lemos – Folha – 1º.jun.2025 

Existe um novo desejo global: aparecer nos resultados das conversas e pesquisas feitas no ChatGPT, Claude, Gemini, DeepSeek e assim por diante. Em outras palavras, virar influenciador de IA. Esse desejo tem raízes e repercussões profundas.

Se no mundo que existia há dois anos o que reinava eram as buscas feitas no Google, um novo mundo nasce agora. Nele o que importa são os resultados da inteligência artificial.

Ficar no topo das buscas do Google valia (e ainda vale) milhões. Por causa disso toda uma indústria surgiu para influenciar o algoritmo da empresa para colocar o nome de marcas, produtos, pessoas e ideologias no topo. Ela ficou conhecida como SEO (Search Engine Optimization).

Esse lucrativo negócio se espalhou pelo planeta, abrangendo agências de publicidade, consultores e também agentes maliciosos, incluindo governos e redes de desinformação. O objetivo era um só: fazer a mensagem do cliente chegar no topo das buscas.

Só que atualmente há fluxo migratório intenso das buscas para a inteligência artificial. Muita gente diminuiu radicalmente o uso do Google e passou a perguntar tudo para a IA. As experiências são diferentes. Uma sessão de busca dura algo como 50 segundos e usa em média quatro palavras. Uma sessão com a IA dura de 6 a 8 minutos e usa em média 23 palavras, de acordo com dados publicados por Andreessen Horowitz.

Para aparecer nesses resultados surge agora uma outra indústria: o GEO (Generative Engine Optimization). O objetivo é construir “relevância” para uma marca, pessoa ou ideia para a inteligência artificial, fazendo com que ela seja citada pelas IAs. Considerando que a Apple e outras empresas planejam trocar em breve os motores de busca do iOS para inteligência artificial, ter relevância dentro da IA daqui para frente vai virar questão de vida ou morte para muita gente.

Estamos vivendo na prática mais uma vez a frase de Marshall McLuhan. Quando mudam os meios, tudo muda. A começar pela mensagem. Por conta disso, profissionais de marketing, empresas de mídia, políticos e influenciadores estão justamente fazendo essa pergunta: como influenciar a IA para continuar sendo relevante nesse novo mundo?

Algumas respostas estão começando a aparecer. Por exemplo, aparecer na mídia tradicional (como os jornais) é uma excelente forma de construir autoridade para as IAs. As inteligências artificiais, ao menos hoje, enxergam conteúdo jornalístico de marcas com reputação (alô, Folha!) como altamente relevantes, o que propicia que seja citado nos resultados.

O desdobramento disso é que o mundo do jornalismo está se dividindo entre os veículos que permitem que seu conteúdo seja usado para treinar IA e os que não permitem (ao menos, não sem pagamento). Isso vai ser curioso. A relevância de um veículo cujo conteúdo integra as IAs será diferente daqueles que não integram. Dá para imaginar um futuro em que entrevistados e fontes prefiram falar apenas para veículos que integram inteligências artificiais, em detrimento dos demais. Um cruzamento entre Marshall McLuhan e as distopias de Aldous Huxley.

Já era – Eficácia dos links patrocinados

Já é – SEO, otimização para mecanismos de busca

Já vem – GEO, otimização para mecanismos generativos (IAs)

Quer ser relevante? Prepare-se para influenciar as IAs – 01/06/2025 – Ronaldo Lemos – Folha

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Brasil tem a única mina de terras raras capaz de competir com a China; o problema para os EUA é que a China chegou primeiro

Viny Mathias – msn – Maio 2025

Em outubro do ano passado, os Estados Unidos estavam aumentando seus investimentos em minas brasileiras capazes de suprir o fornecimento de terras raras e minerais críticos que a Ásia domina com mão de ferro. Naquela época, Donald Trump era apenas um candidato presidencial, e o comércio global (da China e dos Estados Unidos em particular) continuava a mesma monotonia de antes. O que aconteceu alguns meses depois já sabemos, e quando os EUA chegaram na “sua” mina aqui no Brasil, eles encontraram uma surpresa.

Uma mina única

A mina Serra Verde, localizada no estado de Goiás, é atualmente a única produtora ativa fora da China que extrai terras raras pesadas de argila iônica, um tipo de depósito mais fácil de processar do que rocha dura porque não requer britagem. Esses minerais, essenciais para a fabricação de ímãs permanentes usados ​​em veículos elétricos e turbinas eólicas, fizeram desta mina um componente-chave da estratégia MSP liderada pelos Estados Unidos.

Com o início da produção comercial e o anúncio em outubro de uma rodada de financiamento de US$ 150 milhões dos EUA, com contribuições da Denham Capital, Energy and Minerals Group e Vision Blue, Serra Verde começou a se posicionar como um ator crucial na corrida para reduzir a dependência ocidental da China. De acordo com o Financial Times, o CEO, Thras Moraitis, enfatizou na época que esses fundos permitiriam à empresa atingir escala para competir economicamente em um mercado distorcido pelos baixos custos de produção chineses. Mas havia um problema.

O paradoxo e o domínio chinês

Brasil tem a única mina de terras raras capaz de competir com a China; o problema para os EUA é que a China chegou primeiro

Brasil tem a única mina de terras raras capaz de competir com a China; o problema para os EUA é que a China chegou primeiro

(Imagem: Serra Verde/Reprodução)

Meses depois dessa operação, no coração do município brasileiro de Minaçu, antiga região de mineração de amianto no centro do país, já foi aberta uma enorme mina que contém, segundo especialistas, uma possível solução para o problema urgente que o Ocidente enfrenta: o acesso às terras raras pesadas, os minerais estratégicos essenciais para a fabricação de todo tipo de tecnologias críticas.

A mina Serra Verde, apoiada principalmente por capital americano (e, em menor grau, britânico), é atualmente a única fora da Ásia que produz quantidades significativas de algumas das terras raras mais difíceis de obter. No entanto, o potencial geopolítico desta operação ficou imediatamente ligado a um paradoxo estrutural: toda a sua produção já está contratualmente comprometida… com a China, o único país com capacidade técnica e industrial para separar e processar os elementos pesados ​​extraídos deste solo argiloso.

Monopólio de Pequim

O caso de Serra Verde não é uma anomalia, mas sim o reflexo de uma hegemonia cuidadosamente cultivada. A China domina não apenas a extração, mas especialmente o processamento dos 17 elementos de terras raras conhecidos, essenciais para as indústrias automotiva, aeroespacial, eletrônica e militar. Embora esses elementos sejam abundantes na crosta terrestre, sua separação é técnica e economicamente complexa, e durante décadas o Ocidente relegou essa tarefa à China.

No caso particular das terras raras pesadas, que incluem elementos como disprósio e térbio, a China detém virtualmente um monopólio global de separação e refino. A situação é tal que, mesmo quando os países ocidentais descobrem depósitos viáveis, como Serra Verde, eles não têm a infraestrutura e o conhecimento industrial para processá-los. A China, graças ao planejamento de longo prazo, agora se encontra em uma posição imbatível, mesmo em meio às crescentes tensões comerciais. O acordo deles com quase todas as minas vem de longa data, pois é uma parte fundamental do processo de exploração dessas terras.

Um bloqueio crítico

O interesse pelo Brasil como fornecedor alternativo não é novo, mas é urgente. Desde que a China interrompeu suas exportações de terras raras para o Japão em 2010 devido a uma disputa territorial, o mundo se conscientizou de sua vulnerabilidade nessa área. Como citamos, a Denham Capital, empresa de investimentos privados sediada em Boston, foi uma das primeiras a apostar no Brasil naquele mesmo ano, ao financiar o projeto Serra Verde.

Entretanto, durante os oito anos seguintes, o projeto teve dificuldades para decolar devido a uma deficiência fundamental: fora da China, ninguém conseguia refinar os materiais que a mina extrairia. Assim, quando finalmente foi inaugurada, depois de quatorze anos de trabalho e daquele investimento adicional de US$ 150 milhões em outubro, a mina já havia paradoxalmente vendido sua produção para a China até pelo menos 2027. Ao The New York Times, Thras Moraitis admitiu que, embora todos queiram seus minerais agora, não há nada que possam fazer: os contratos estão assinados e os materiais já têm um destino seguro.

Resposta a longo prazo

Além disso, Serra Verde não é o único exemplo dessa dependência. A MP Materials, outra empresa apoiada pelo governo dos EUA, extrai e separa terras raras leves na Califórnia, mas, até recentemente, vendia 80% de sua produção para a China, pois também não conseguia processar os elementos pesados. O New York Times informou que uma usina financiada pelo Pentágono está atualmente em construção no mesmo estado e poderá realizar o mesmo trabalho no futuro, assim como outros projetos em andamento na França e na Estônia.

No entanto, todas essas iniciativas levarão anos para se materializar. Mesmo se concluído dentro do cronograma, o acesso a novos depósitos de terras raras pesadas permanecerá muito limitado. A própria Serra Verde espera produzir apenas algumas centenas de toneladas desses minerais essenciais até 2027, o que, se concretizado, dobraria a oferta fora da Ásia. O restante do fornecimento internacional atualmente vem de fontes marginais, como carvão e subprodutos de urânio, o que mais uma vez ressalta a urgência do problema.

Assim, a consolidação da China como potência indiscutível neste setor não parece ser fruto do acaso, mas sim fruto de uma visão industrial sustentada ao longo de décadas. Enquanto os Estados Unidos e seus aliados estão apenas começando a reagir à gravidade da situação, Pequim construiu não apenas a capacidade técnica, mas também a cadeia de suprimentos e os laços contratuais que garantem seu controle.

Moraitis disse ao New York Times que simplesmente temos que reconhecer o óbvio: o planejamento estratégico da nação asiática tem sido notavelmente eficaz, e competir será tremendamente difícil. Enquanto isso, as terras raras que poderiam sustentar a autonomia tecnológica do Ocidente continuam sua jornada para o leste, reforçando uma dependência que se torna mais difícil de reverter a cada tonelada extraída do solo brasileiro.

Brasil tem a única mina de terras raras capaz de competir com a China; o problema para os EUA é que a China chegou primeiro

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O que é ‘vibe coding’, nova tendência no mundo da programação que é impulsionada por IA

Técnica que usa linguagem natural para gerar código cresce com ferramentas de IA e facilita na hora que criar sites e apps

Por Alice Labate – Estadão – 18/05/2025

Criar um site, um jogo ou até um aplicativo sem saber como escrever uma única linha de código já é possível. O movimento que permite isso se chama “vibe coding” e ganhou força em 2024 com impulso da inteligência artificial (IA) generativa — a ideia é que a programação é feita a partir da “vibe” do projeto, ou seja, a partir daquilo que o produto ou solução pede com comandos em linguagem natural. Por exemplo: “faça um app que controle minhas tarefas do dia” em códigos funcionais.

Com a popularização de ferramentas de IA como Lovable e Replit, voltadas para programação em linguagem natural, o vibe coding passou de curiosidade para método comum entre profissionais e amadores. Este ano, uma em cada quatro startups aceleradas pela Y Combinator afirmou que até 95% de seu código foi gerado por IA, em práticas alinhadas ao vibe coding, de acordo com a Ardor, empresa global de serviços analíticos.

“O vibe coding utiliza inteligência artificial para transformar descrições em linguagem natural, como português ou inglês, em código funcional”, explica Jhonata Emerick, CEO da Datarisk e doutor em inteligência artificial pela Universidade de São Paulo (USP). “O programador atua como um diretor criativo”.

A base do vibe coding está em modelos de linguagem como ChatGPT, Claude e outras IAs capazes de entender linguagem humana e convertê-la em código. Ao contrário da programação tradicional, em que o desenvolvedor dita a lógica linha por linha, o vibe coder descreve objetivos e a IA entrega sugestões de código, que podem ser testadas e ajustadas conforme necessário.

Fabrício Carraro, gerente de programas da Alura, escola online de tecnologia, explica que o termo “vibe coding” explodiu mesmo em fevereiro deste ano, por conta de um post de Andrej Karpathy, ex-diretor da Tesla e da OpenAI. “Ele descreveu essa nova maneira de programar, em que você meio que ‘vai codando na vibe‘, usando linguagem natural, até mesmo por voz, para que modelos como Gemini, ChatGPT, Claude etc. gerem o código, sem se prender tanto aos detalhes manuais da codificação. A ideia é que a IA se torne uma parceira tão eficiente que você esquece que o código em si existe, focando mais no resultado”.

O perfil de quem adota o método é variado. De um lado, desenvolvedores experientes usam as ferramentas para acelerar tarefas rotineiras. Do outro, profissionais de outras áreas veem no vibe coding uma forma rápida de testar ideias.

É o caso de Marcell Almeida, CEO da escola de cursos PM3. “Eu até sei um pouco de programação, mas não sou bom nisso. Com o vibe coding, consigo pedir o que quero em linguagem natural e a IA me entrega algo próximo”, diz. Desde 2024, ele usa a abordagem para criar protótipos e provas de conceito. “Antes, algo podia levar meses. Agora, em semanas, consigo testar com usuários. Não serve para escalar, mas é ótimo para validar ideias rapidamente”.

Leonardo Zeferino, diretor de IA e vibe coding da OneBrain, empresa desenvolvedora de softwares, também vê um avanço relevante na forma como produtos digitais são criados. “Sempre teve uma necessidade muito grande de ter desenvolvedores superespecialistas para fazer aplicações, produtos digitais. A partir de agora, a gente vê cada vez mais pessoas não técnicas desenvolvendo seus próprios aplicativos”, diz.

Segundo ele, o vibe coding não apenas democratiza o desenvolvimento, como também oferece um salto de produtividade. “Hoje, você pode simplesmente escrever um prompt, como no ChatGPT, dizendo que quer um app igual ao Instagram, e a IA cria tudo sem precisar escrever ou arrastar componentes”.

Vantagens e desvantagens do ‘vibe coding’

O principal atrativo do vibe coding é a baixa barreira de entrada. Sem exigir conhecimento prévio em linguagens como Python ou JavaScript, ele permite que pessoas com boas ideias mas pouca bagagem técnica desenvolvam soluções funcionais. “Ele reduz a barreira técnica inicial, eliminando a necessidade de dominar sintaxe ou conceitos complexos de imediato”, explica Emerick.

Outro ponto positivo é o foco na criatividade. Em vez de se concentrar em detalhes técnicos, o programador atua de forma mais conceitual, definindo objetivos e validando protótipos rapidamente. “Você pode simplesmente dizer ‘crie um site que mostre a previsão do tempo para São Paulo’ e a IA desenvolve todo o código necessário, enquanto você foca em refinar e melhorar o resultado”, diz o CEO da Datarisk.

Por outro lado, a falta de entendimento do código gerado pode trazer riscos. Bugs ocultos, problemas de segurança ou soluções que não funcionam são preocupações recorrentes entre profissionais. “Dependendo exclusivamente do vibe coding, o usuário pode deixar de aprender fundamentos importantes”, aponta Raul Ikeda, professor do Insper e cientista da computação.

Além disso, o excesso de confiança na IA pode levar à produção de projetos pouco sustentáveis ou difíceis de manter a longo prazo. “É preciso sempre revisar e entender, minimamente, o que está sendo entregue pela máquina”, diz Emerick. Segundo o especialista, a prática funciona melhor como complemento, não substituto, da formação técnica.

Qual é a diferença entre ‘vibe coding’ e ‘no-code’?

A ideia de vibe coding após outro movimento que prometia baixa exigência técnica em programação ganhar terreno, especialmente na pandemia: o no-code (ou low code). Apesar de terem pontos em comum, no entanto, são duas abordagens diferentes. O no-code se baseia em interfaces visuais, com blocos e elementos arrastáveis, permitindo a criação de sistemas simples sem codificação. Já o vibe coding exige interações em linguagem natural e gera código real, editável, personalizável e com maior complexidade.

“O no code utiliza interfaces visuais para criar aplicativos, limitando-se a templates e funcionalidades pré-definidas. Já o vibe coding permite gerar código completo, como Python ou JavaScript, a partir de comandos em linguagem natural”, resume Emerick.

Leonardo Zeferino, que começou com no-code em 2016 e criou um app chamado Coffeely usando essa técnica, vê o vibe coding como uma evolução. “O no-code é como arrastar componentes e definir ações sem escrever código. Já o vibe coding é você escrever um prompt e a IA cria tudo automaticamente”, explica, “É muito mais fácil e abre uma grande porta cheia de oportunidades”.

Raul Ikeda reforça: “No vibe coding, a pessoa descreve o que quer e a IA interpreta. Pode ser alguém sem noção de programação dizendo ‘quero um aplicativo que me ajude no meu negócio’, e a IA entrega algo funcional, com explicações sobre como implantar o produto”.

De forma prática, isso significa que o vibe coding permite maior controle. Um site feito com vibe coding pode incluir scripts personalizados, integração com APIs externas (ou seja, conexões com serviços de fora do site, como mapas, sistemas de pagamento ou previsão do tempo) e comportamentos específicos, o que seria inviável com plataformas no-code tradicionais.

Futuro do ‘vibe coding’

Nos próximos anos, o vibe coding deve se tornar mais comum e estável. Isso significa que a prática de programar com ajuda de IA, descrevendo o que se quer em linguagem natural, em vez de escrever cada linha de código, tende a se firmar como uma forma legítima e produtiva de desenvolvimento de software.

Com o avanço da tecnologia, especialistas explicam que modelos de IA, como o ChatGPT ou Claude, ficarão ainda mais sofisticados, gerando códigos melhores, mais seguros e com menos erros. Ao mesmo tempo, será cada vez mais necessário que as empresas adotem práticas de auditoria e validação, ou seja, rotinas para checar se os códigos gerados pela IA realmente funcionam bem, são seguros e atendem às necessidades. Isso será essencial principalmente quando a IA for usada para criar sistemas mais complexos.

“Esperamos ver ferramentas de IA mais inteligentes, adaptação aos estilos dos usuários e até integração em plataformas educacionais como Codecademy ou Coursera”, diz Emerick. Ele também prevê o surgimento de profissões inéditas: “engenheiros de prompt” e auditores de IA estarão entre os novos papéis desse ecossistema.

A tendência é que o vibe coding se torne parte natural do processo de desenvolvimento de software, especialmente em projetos de menor risco, como páginas institucionais, ferramentas de automação simples ou protótipos.

Para Marcell Almeida o vibe coding deve se tornar um conhecimento essencial no mercado. “A linguagem natural é só mais uma forma de programar, do jeito que a gente está acostumado a falar como ser humano. E eu vejo isso de duas formas”, afirma, “A primeira é que existe muito ruído, principalmente nas redes sociais. Muita gente dizendo que isso vai substituir empregos, mas eu não enxergo assim. Na verdade, quem não souber usar essas ferramentas é que pode ficar para trás. Vai virar o novo básico, como buscar no Google. Hoje, você espera que todo mundo saiba fazer uma busca, e com o vibe coding será igual”.

A segunda ótica, segundo Marcell, é que o método amplia a capacidade de criação. “Agora, conseguimos desenvolver mais coisas, mais rápido, e tocar vários projetos em paralelo. Claro, ainda existe a limitação da escala, não dá para escalar uma solução feita com vibe coding com a mesma facilidade. Mas, para prototipar, validar uma ideia ou criar uma prova de conceito, é excelente”.

“Se antes um conceito levava um ou dois meses para ser testado com usuários, agora é possível fazer isso em algumas semanas. Isso traz muita eficiência para as empresas”, conclui. Para ele, o vibe coding veio para ficar.

O que é ‘vibe coding’, nova tendência no mundo da programação que é impulsionada por IA – Estadão

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Geração ‘prateada’ deve responder por 35% do consumo em 2044

Com envelhecimento da população brasileira, saúde ganha espaço no orçamento, enquanto educação e recreação e cultura perdem, projeta estudo

Por Lucianne Carneiro — Valor – 20/05/2025 

O retrato de um envelhecimento da população mais rápido que o estimado anteriormente – visível graças ao Censo Demográfico 2022 – renovou as atenções para a economia prateada e seu potencial. Esse é um conceito que faz alusão aos cabelos grisalhos, característica ligada à população mais velha. Existem diferentes critérios para se chegar a esse perfil: há quem considere a população de 50 anos ou mais, enquanto outros colocam o piso como 60 ou 65 anos. Agora, um estudo detalhado da empresa de pesquisa, tendência e inovação Data8, especializada no mercado de longevidade, coloca em números a dimensão que esse segmento pode alcançar.

Os brasileiros acima de 50 anos devem ampliar sua participação no consumo das famílias de 24% em 2024 para 35% em 2044. Em valores absolutos, esse número passará de R$ 1,8 trilhão para R$ 3,8 trilhões em igual período de comparação, em preços de 2024, mostra o trabalho “Mercado prateado: consumo dos brasileiros 50+ & projeções”, antecipado com exclusividade ao Valor.

“Muito se fala sobre o potencial do mercado prateado no Brasil, mas até agora não tínhamos o número mágico. Os dados permitem entender o tamanho desse mercado e uma visão do impacto na economia”, diz Lívia Hollerbach, consultora do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) para o tema na América Latina e uma das coordenadoras da pesquisa.

Estudiosos destacam a importância de se medir a dimensão da economia prateada. A questão, dizem, foi incluída nos debates político, econômico e empresarial nos últimos anos, mas segue com visões distorcidas e sem a proporção devida. A população de 50 anos ou mais ganha espaço no consumo e nas despesas, mas é também provedora das famílias.

Essa característica se reforça em contexto de mercado de trabalho marcado por precarização, a despeito do avanço do setor formal. Outro aspecto ainda pouco discutido, dizem especialistas, é a diversidade dos 50+. As diferentes faixas etárias desse público têm características e perfis diversos, que devem ser levados em conta por políticas públicas e estratégias de negócios do setor privado.

“Crianças consomem menos que adultos e idosos. A renda das pessoas cresce com educação, que tende a avançar com a idade. E o retorno dessa formação vai avançando com o tempo, tende a vir depois dos 50 anos. A mudança demográfica muda também o consumo”, afirma o demógrafo e professor aposentado da Escola Nacional de Ciências Estatísticas (Ence), José Eustáquio Diniz Alves.

Pelos dados da Organização das Nações Unidas (ONU), a população brasileira acima dos 50 anos saltou de 9,1% em 1950 para 15,1% em 2000 e já era de 27,9% em 2024. As projeções são de que o grupo represente 43,2% da população em 2050 e ultrapasse os 50% em 2078.

“Temos cada vez mais idosos na população, mas eles continuam sendo vistos principalmente pelo lado das despesas. Só que temos mais e mais famílias que dependem da renda dos idosos para compor o orçamento familiar”, diz a professora da ESPM Gisela Castro, ao citar o conceito de idoso provedor, difundido pela pesquisadora do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) Ana Amélia Camarano. “Os idosos consomem não só para eles próprios, mas contribuem muito para o orçamento, uma coisa que o mercado vê pouco”, completa Castro.

Neste novo contexto demográfico, Hollerbach, uma das coordenadoras da pesquisa, defende a visão da população de 50+ e 60+ como “sujeitos ativos da economia” e “pilares financeiros das famílias”. O estudo da Data8 traz estimativas do tamanho do mercado prateado e também detalha a parcela de produtos e serviços de diferentes grupos de despesas no orçamento doméstico, de acordo as diversas faixas etárias do grupo de 50+, além de recortes por grandes regiões e por classes de renda.

Se entre prateados mais jovens (50 a 54 anos) a assistência à saúde representa 11% dos gastos mensais, a parcela avança para 21% entre os 80+. A habitação também é despesa que aumenta com a evolução das faixas: 26% no primeiro grupo (50-54) e 30% (75-79) e 29% (80+).

O transporte responde, por sua vez, por 18% do orçamento no primeiro grupo, fatia que cai para 10% no segundo grupo, fatia que cai para 10% no segundo grupo. A parcela gasta em vestuário também recua – de 6% no grupo de 50 a 54 anos para 4% naquele de 80 anos ou mais. A participação de recreação e cultura no orçamento cai de 2% para 1%, na comparação entre as duas faixas etárias. “Existe potencial produtivo do idoso, que deve ser aproveitado. Mas, a partir dos 80 anos, pesa a questão da saúde. É uma fase com maior incidência de doenças, que exige mais cuidados e modifica a estrutura de consumo dos idosos”, nota Alves.

Mesmo entre quem não tem doenças, os gastos com saúde aumentam a partir dos 50 anos, mas isso se acentua na chamada quarta idade ou velhice profunda, diz Castro, da ESPM, ao se referir aos idosos com mais de 85 anos.

A saúde é o setor com maior potencial de mudanças, avalia o professor de Marketing da Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getulio Vargas (FGV Eaesp) Benjamin Rosenthal. Na saúde, a chance de expansão de negócios vai além de tratamentos médicos e passa por transformações no estilo de vida: “O impacto passa por diferentes indústrias, desde academias, inclui alimentação, redução de consumo de processados e bebidas alcóolicas, com menos quantidade e mais qualidade”, diz Rosenthal.

No caso de vestuário e recreação e cultura, a parcela maior no orçamento entre os mais jovens dos 50+ está ligada a uma vida mais ativa e ao maior envolvimento no mercado de trabalho. “Esse perfil puxa esse tipo de gasto”, diz Castro.

O trabalho também projeta a demanda para setores da economia brasileira em dez anos para a população como um todo, sob influência de maior presença de pessoas mais velhas: saúde ganha espaço no orçamento, enquanto educação e recreação e cultura perdem. A estimativa é que a assistência à saúde amplie a fatia no orçamento de 9,55% em 2024 para 10,01% em 2034. A educação recua de 1,51% para 1,45%, respectivamente.

Apesar das variações aparentemente pequenas, explica o economista Pedro Hércules, responsável técnico pelo trabalho, os números apontam as tendências para os próximos anos e permitem avaliar o impacto do envelhecimento da população na economia.

Neste estudo, a Data8 usou a mesma metodologia aplicada em trabalho feito em parceria com o BID para Argentina, Uruguai, Paraguai e Chile. No Brasil, a base para a estrutura dos gastos é a Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Os dados da pesquisa, diz José Eustáquio Diniz Alves, permitem dimensionar a necessidade e a importância de cada setor para políticas públicas e para iniciativas e negócios do setor privado.

“O governo sozinho não consegue lidar com o desafio da longevidade. A ideia é que a pesquisa ajude a gerar mobilização entre diversos atores, como governos, empresas e empreendedores. É preciso enfrentar os desafios, mas também aproveitar as oportunidades. A ideia é que se possa alavancar esse ecossistema prateado”, defende Lívia Hollerbach.

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