É necessário um esforço mais amplo para alinhar a formação acadêmica às demandas do mercado e reverter a crise na Engenharia
Por Ana Maria Diniz – Valor – 05/05/2025
Fundadora do Instituto Península, que atua na formação de professores, é empresária e conselheira do Todos pela Educação e Parceiros pela Educação
Eu muito tenho escrito sobre a necessidade de reforçar a disciplina de Matemática e das Ciências Exatas em geral na formação de nossos alunos da educação básica. Nos últimos anos, o Brasil vem enfrentando uma preocupante redução no número de estudantes ingressando em cursos de Engenharia, um fenômeno que reflete não apenas o nosso retrocesso educacional, mas é também um entrave ao desenvolvimento do país. Em 2014, 469 mil calouros iniciaram cursos de Engenharia; em 2023, esse número caiu para 358 mil, uma queda de 23%. Dados ainda mais alarmantes mostram que, entre 2014 e 2020, as matrículas em cursos presenciais de Engenharia nas universidades particulares despencaram 44,5%.
Para além da questão do número de formandos em Engenharia, temos que olhar também para as escolhas que os jovens estão fazendo na hora de decidir qual faculdade querem fazer. Existe um descompasso profundo entre as escolhas dos candidatos e as reais demandas do mercado de trabalho. Mas quais são os cursos que estão bombando e ganhado alunos a cada ano? Pedagogia, Administração e Direito, os quais concentram mais de 60% dos formados atualmente. Mas aqui temos que separar o joio do trigo. Muito provavelmente os cursos de Pedagogia e Administração são escolhidos porque são mais fáceis de entrar. Já Direito, provavelmente, é mais difícil de entrar, mas traz uma remuneração melhor e mais tangível para os formados.
De qualquer forma, o fato é que muitos dos formados atualmente acabam em ocupações desalinhadas com suas formações e é muito comum encontramos administradores trabalhando como copeiros, pedagogos trabalhando em supermercado e até advogados atuando como balconistas. Enquanto isso, a Confederação Nacional da indústria (CNI) estima um déficit de 75 mil engenheiros no Brasil, com alta demanda em setores como tecnologia, infraestrutura e energias renováveis.
A raiz desse problema está nas nossas escolas. O Pisa de 2022 revelou que 70% dos estudantes brasileiros de 15 anos têm dificuldades com matemática simples, uma base essencial para carreiras em engenharia. A abordagem rígida e pouco prática do ensino contribui para o desinteresse dos jovens pelas Ciências Exatas. Além disso, a situação econômica do país e a busca por respostas rápidas no mercado de trabalho levam muitos a optarem por cursos de curta duração ou profissões percebidas como “mais simples”, como as que predominam nos cursos de educação a distância (EAD), que hoje respondem por 66% das matrículas no ensino superior. No entanto, o perfil dos alunos de EAD – majoritariamente adultos acima de 24 anos, muitos com lacunas educacionais profundas – não favorece a escolha por engenharia, e a evasão nesses cursos chega a 40%.
As consequências desse cenário são graves. Engenheiros não apenas constroem pontes; eles criam soluções inovadoras para problemas complexos, impulsionando o desenvolvimento econômico e tecnológico. Países como Coreia do Sul e Estados Unidos, que investem fortemente nesses profissionais, colhem os frutos em forma de infraestrutura robusta, avanços tecnológicos e competitividade global. No Brasil, a escassez de engenheiros ameaça setores estratégicos, como energia renovável e tecnologia, e perpetua a dependência de soluções externas.
Outro agravante é a desconexão entre a oferta de cursos e as necessidades do mercado. Enquanto se formam cinco vezes mais pedagogos do que o sistema educacional absorve, há uma carência crítica de professores especializados em Matemática, Física e Química, o que compromete a qualidade da educação básica e cria um ciclo vicioso. Este seria um bom lugar para o governo atuar e criar regulamentações e incentivos para que mais pessoas preparadas tivessem vontade de serem bons professores de matemática, garantiindo assim o aprendizado dos alunos das nossas escolas brasileiras.
Iniciativas como o campus avançado do ITA em Fortaleza, criado em 2024, com turmas iniciais de 25 alunos em cursos de energias renováveis e sistemas de computação, são passos positivos, mas insuficientes para reverter o déficit de engenheiros.
Da mesma forma, o Instituto de Tecnologia e Liderança (Inteli), fundado em 2021 por sócios do BTG Pactual, surge como uma proposta inovadora. Localizado em São Paulo, o Inteli oferece cinco cursos de graduação presenciais de quatro anos: Engenharia de Computação, Engenharia de Software, Ciência da Computação, Sistemas de Informação e Administração com ênfase em tecnologia. Seu diferencial está na metodologia 100% baseada em projetos, inspirada em instituições como MIT e Stanford, onde os alunos trabalham em desafios reais propostos por mais de 80 empresas parceiras, como Vale, IBM e BTG Pactual, desde o primeiro dia. Com foco em competências de computação (inteligência artificial, ciência de dados, cibersegurança), negócios (finanças corporativas, marketing digital) e habilidades comportamentais (comunicação, ética), o Inteli já formou 307 projetos para 57 parceiros e mantém um robusto programa de bolsas, beneficiando mais da metade de seus alunos.
Porém, apesar de projetos como esses, é necessário um esforço mais amplo para alinhar a formação acadêmica às demandas do mercado e reverter a crise na engenharia. Para mudar esse cenário, o Brasil precisa de ações estruturadas. Primeiro, é essencial melhorar o ensino básica, com foco em ciências exatas e metodologias que despertem o interesse dos jovens. Políticas de incentivo, como bolsas de estudo e campanhas de valorização da engenharia, também podem atrair mais estudantes. Por fim, o governo deve alinhar a oferta de cursos superiores às demandas do mercado, regulando melhor a expansão do EAD e priorizando áreas estratégicas.
Quem viveu os anos 80, a década da economia brasileira engolida pela inflação galopante, deve se lembrar do “engenheiro que virou suco” – profissional então recém-formado pelo Mackenzie que, sem achar trabalho, abriu um bar na Avenida Paulista, de mesmo nome. No século 21, quem está, de fato, “virando suco” é a engenharia brasileira. É muito louvável a nossa veia empreendedora que tem sim que ser incentivada! Mas para além dos empreendedores temos que ter engenheiros espalhados por todas as nossas empresas, criando novas tecnologias e soluções para os problemas reais do mundo, pois certamente eles são os mais preparados para isso.
Ainda há tempo de reverter essa trajetória. Cabe ao Brasil decidir se quer ser um país que anda para trás ou um que constrói pontes para o futuro.
*Ana Maria Diniz é fundadora do Instituto Península, que atua na formação de professores; empresária e conselheira do Todos pela Educação e Parceiros pela Educação.
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