Inteligência artificial é como o Google Maps: o usuário é que é o produto

A IA não trabalha para você – e é muito improvável que algum dia isso mude

STEVEN ROSENBAUM – Fast Company Brasil – 17-08-2024

Recentemente, durante uma longa viagem de carro, precisei encontrar um lugar para parar na estrada. Como de costume, abri o Google Maps e digitei “restaurantes perto de mim”.

Fiquei analisando as opções que apareceram na tela (pode ficar tranquilo, eu estava no banco do passageiro.) As sugestões foram decepcionantes: apenas uma lista de redes de fast food. Pizza Hut, McDonald’s, Taco Bell e por aí vai.

Nem sempre foi assim. Antigamente, apareciam opções como restaurantes locais charmosos, lanchonetes tradicionais e lugares que serviam comida fresca e saudável. Mas agora, tudo isso desapareceu. Na hora, fiquei confuso e bastante irritado. Como o Google não sabe que eu não gosto do Taco Bell? Foi então que me dei conta: para ele, eu não sou o cliente; sou o produto.

Comecei a refletir sobre a quantidade de serviços “gratuitos” para os quais já cedi meus dados: Gmail, YouTube, Busca do Google, Apple Weather, Smart News, Alexa, Pinterest, Reddit, Waze, Shazam, Strava, Nextdoor, Venmo.

Minhas informações e comportamentos mais íntimos – para onde viajo, o que compro, o que ouço, o que assisto – estão sendo comprados e vendidos para quem der o maior lance. Isso porque o Google Maps não trabalha para mim; ele serve ao Taco Bell e outras redes que pagam para aparecer.

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Algo semelhante está acontecendo com a inteligência artificial, mas as consequências podem ser ainda mais graves. Em termos simples, a IA é programada para servir aos seus donos, os investidores que despejaram bilhões de dólares no desenvolvimento de código e na infraestrutura. Ela não trabalha para você – e é muito improvável que algum dia isso mude.

Isso acontece há muito tempo; produtos gratuitos são financiados por anunciantes e, portanto, servem a eles. Mas estamos entrando em uma nova era, na qual o ChatGPT e outras IAs oferecem uma ampla gama de serviços com um verniz de verdade, como uma interface amigável para o usuário.

Por que isso é importante? Porque, em um futuro muito próximo, os grandes modelos de linguagem serão responsáveis por boa parte do que consideramos verdadeiro. Eles vão sugerir medicamentos, oferecer conselhos sobre dieta e até orientar como devemos responder a e-mails dos nossos chefes.

SEGUNDO O CIENTISTA COGNITIVO GARY MARCUS, “AS IAS SÃO MESTRES EM ENGANAR”.

O “conhecimento” dessas inteligências artificiais será limitado tanto pela fonte dos dados de treinamento quanto por quem paga aos desenvolvedores para influenciar seus resultados.

Com isso em mente, pedi ao ChatGPT que encontrasse uma citação para mim: “gostaria de uma citação de Steven Rosenbaum sobre o impacto dos reality shows na sociedade.”

Em questão de segundos, o robô respondeu: “aqui está uma citação de Steven Rosenbaum sobre o impacto dos reality shows na sociedade: ‘os reality shows mudaram a dinâmica da televisão, influenciando a forma como as histórias são contadas e como o público se envolve com o conteúdo. Eles desfazem os limites entre entretenimento e realidade, muitas vezes priorizando o sensacionalismo em detrimento da substância’. Essa citação pode ser encontrada em seu livro ‘Curation Nation: How to Win in a World Where Consumers are Creators’ [Nação da Curadoria: Como Vencer em um Mundo Onde os Consumidores São Criadores], publicado em 2011.”

A princípio, fiquei impressionado – o robô leu meu livro! Mas, logo depois desse instante de orgulho, comecei a desconfiar. Perguntei ao ChatGPT: “em que página está essa citação?” E foi assim que a verdade veio à tona. “Peço desculpas pela resposta anterior,” escreveu o chatbot. “A citação fornecida foi um resumo geral e não uma citação direta de Steven Rosenbaum. Para uma citação direta de Steven Rosenbaum sobre o impacto dos reality shows na sociedade, talvez seja necessário consultar seus textos ou entrevistas.”

A IA conhecia o livro, mas inventou a citação. Isso comprova o que o cientista cognitivo Gary Marcus disse no palco do festival South by Southwest deste ano: “as IAs são mestres em enganar.”

EM UM FUTURO PRÓXIMO, OS GRANDES MODELOS DE LINGUAGEM SERÃO RESPONSÁVEIS POR BOA PARTE DO QUE CONSIDERAMOS VERDADEIRO.

Para avançarmos rumo a um futuro no qual a verdade prevalece, precisamos começar por não confiar em tecnologias “gratuitas” que não têm qualquer obrigação de fornecer respostas precisas e honestas.

Mas o que isso significa para nós? “Definir o amanhã com base no que sabíamos ontem é um instinto muito humano”, escreveu Tom Wheeler em seu livro de 2023, “TechLash” (Revolta Contra a Tecnologia), “mas um que nos prejudicará na nova era.”

As empresas por trás da IA, ou os anunciantes que pagam para promover suas marcas nas respostas, vão garantir seu espaço em uma tecnologia que logo poderá dominar nossas vidas. E o vilão HAL 9000, a inteligência artificial de “2001: Uma Odisseia no Espaço”, pode se tornar uma realidade se não exigirmos que a IA coloque a verdade acima do lucro.

Terminei minha pesquisa perguntando ao ChatGPT: “o Taco Bell é saudável?”

“O Taco Bell pode fazer parte de uma dieta equilibrada se você fizer escolhas conscientes”, respondeu o bot. Acredito que Gary Marcus chamaria isso de “conversa fiada”.


SOBRE O AUTOR

Steven Rosenbaum é diretor executivo do The Sustainable Media Center (Centro de Mídia Sustentável)

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Sonho de Elon Musk na China estagna enquanto híbridos ultrapassam a Tesla

Consumidores mudam para modelos híbridos plug-in de rivais locais como a BYD

Edward White – Folha/Financial Times – 6.set.2024 

Os compradores chineses de carros estão evitando a Tesla à medida que fabricantes rivais inundam o maior mercado automobilístico do mundo com modelos de veículos elétricos mais avançados.

A participação da empresa americana nas vendas de elétricos chineses, incluindo híbridos de bateria e plug-in, caiu para 6,5% nos primeiros sete meses do ano, diante de quase 9% no mesmo período do ano passado, de acordo com dados da consultoria Automobility.

A empresa de Elon Musk, cujas vendas chinesas no primeiro semestre foram de US$ 10,6 bilhões (cerca de R$59,3 bi) em 2023 para US$ 9,2 bilhões (cerca de R$ 51,4 bi) em 2024, não lança um novo modelo elétrico na China desde 2019. Outras montadoras estão lançando mais de cem novos modelos no país somente este ano.

“Será muito desafiador —quase impossível— para a Tesla tirar vendas de qualquer concorrente sem novos produtos”, disse Tu Le, fundador da consultoria Sino Auto Insights.

Os problemas da Tesla surgem à medida que as vendas de carros elétricos na China cresceram mais de 30% até agora em 2024, impulsionadas por um salto de quase 90% nas vendas de híbridos plug-in, segundo a Automobility. A tecnologia combina uma bateria menor com um motor a combustível de reserva. A Tesla não respondeu a um pedido de comentário.

Enquanto as vendas da Tesla caem, rivais chineses, incluindo a BYD apoiada por Warren Buffett, estão se beneficiando da corrida pelos híbridos. Os modelos foram inicialmente concebidos como uma tecnologia de transição mas, na China, eles também se beneficiam de generosos subsídios para elétricos e sua popularidade forçou empresas focadas exclusivamente em carros movidos apenas a bateria a reconsiderar suas linhas de produtos.

Tina Hou, que lidera a pesquisa automobilística da China para o Goldman Sachs, disse que o crescimento das vendas de veículos elétricos está vindo cada vez mais de fora das chamadas cidades de primeira linha —Pequim, Xangai, Guangzhou e Shenzhen. “Cada vez mais vendas incrementais virão das cidades de menor porte. Sua infraestrutura de carregamento não é tão desenvolvida, então as pessoas terão mais ansiedade de autonomia”, disse ela.

Bill Russo, ex-chefe da Chrysler na China e fundador da Automobility, disse que as montadoras chinesas rapidamente atenderam à crescente demanda pós-pandemia por carros familiares com maior autonomia. Carros plug-in maiores e de baixo custo têm se mostrado populares para viagens de férias e fim de semana, disse ele: “O acesso a estações de carregamento pesa muito na decisão de compra.”

A BYD, com sede em Shenzhen, controla a maior parte do mercado de plug-ins e lançou dois modelos híbridos este ano, com uma autonomia de 2.100 quilômetros a partir de uma única carga e um tanque de gasolina —mais de três vezes a autonomia do Model S da Tesla.

Em agosto, a Xpeng, apoiada pela Volkswagen, se concentrou exclusivamente em baterias e admitiu que estava “estudando de perto” novas tecnologias híbridas, enquanto a unidade Zeekr EV da Geely disse que lançará seu primeiro híbrido no próximo ano.

O crescimento dos híbridos de baixo custo na China está aprofundando o declínio de grupos automobilísticos estrangeiros, que têm sido lentos em fazer a transição dos motores de combustão interna. A participação das marcas chinesas nas vendas de carros domésticos subiu para um recorde acima de 60% este ano, disseram especialistas.

Ainda assim, Lei Xing, fundador da consultoria chinesa AutoXing, disse que a decisão da Tesla de oferecer empréstimos sem juros na China este ano ajudou a limitar as consequências. “Manter um crescimento estável é uma vitória na atual batalha”, disse ele.

Neste cenário, analistas disseram que Musk está sob crescente pressão para convencer os reguladores chineses a dar sinal verde ao software de direção semi-autônoma da Tesla —apelidado de FSD, ou “direção totalmente autônoma”, uma nova fonte de receita potencialmente lucrativa para a empresa.

Musk, cujo império empresarial também inclui a SpaceX e a plataforma X (antigo Twitter), acredita que implantar a tecnologia é fundamental para o sucesso futuro, incluindo no incipiente mercado de robotáxis. Ele priorizou seu desenvolvimento acima do lançamento de um carro elétrico de baixo custo, conhecido informalmente como Model 2.

No final de abril, o bilionário voou para Pequim e se encontrou com Li Qiang, o número dois do líder Xi Jinping. A viagem pareceu ajudar a Tesla a aliviar as preocupações regulatórias sobre a conformidade com a segurança de dados e abrir caminho para o acesso aos sistemas de mapeamento e navegação chineses. Especialistas disseram que isso sinalizou a aprovação de Pequim a Musk e seus planos tecnológicos.

Yuqian Ding, analista do HSBC baseado em Pequim, disse que houve sinais positivos dos parceiros locais da Tesla de que a plataforma de direção autônoma está mais próxima do lançamento. O software estaria disponível para mais de 1,6 milhão de carros da Tesla na China.

Quanto da plataforma da empresa estará disponível ainda é “amplamente debatido”, disse Ding, acrescentando que a maioria dos rivais chineses da Tesla está trabalhando em tecnologias semelhantes.

Os analistas observam que as exportações da fábrica da Tesla em Xangai, que representam cerca de 20% a 30% da produção, servem como um amortecedor contra qualquer desaceleração na China. No entanto, Tu Le, da Sino Auto Insights, afirmou que é difícil ver a Tesla construindo “qualquer momentum” na China sem novos produtos ou uma mudança repentina de postura de Pequim em relação à regulamentação de direção autônoma.

“Acho que há um pouco de pensamento ilusório por parte do Elon. Não ficaria surpreso se, antes do final do ano, ele vier novamente e tentar lançar o FSD na China”, disse ele.

Elon Musk estagna na China com híbridos à frente da Tesla – 06/09/2024 – Mercado – Folha (uol.com.br)

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Por que é tão difícil para a China consertar sua economia doente

O colapso do setor imobiliário tornou os consumidores e empresas cauteloso, já que a China enfrenta uma crise diferente de qualquer outra desde que abriu sua economia para o mundo

Por Daisuke Wakabayashi e Claire Fu – Estadão/The New York Times – 04/09/2024 

Em 2004, quando a economia da China estava emergindo como uma força global, um grupo de pesquisadores começou a realizar pesquisas em todo o país perguntando aos chineses se eles estavam em melhor situação financeira do que estavam cinco anos antes.

A porcentagem de pessoas que se sentiam mais ricas aumentou quando a pesquisa foi realizada cinco anos depois e novamente em 2014, quando atingiu 77%. 

No ano passado, quando foi feita a mesma pergunta aos entrevistados, esse número havia caído para 39%.

Os resultados dessa pesquisa, intitulada “Getting Ahead in Today’s China: From Optimism to Pessimism” (Como chegar à frente na China de hoje: do otimismo ao pessimismo), mostram uma nova realidade. A economia da China está enfrentando uma crise diferente de qualquer outra desde que abriu sua economia para o mundo há mais de quatro décadas. A recuperação pós-covid, que supostamente traria a economia de volta à vida, foi mais como um gemido.

Há alguns anos, Pequim resolveu livrar sua economia da dependência de um mercado imobiliário superaquecido, um setor que sustentava as economias das famílias, bem como o setor bancário da China e as finanças do governo local. Agora, o setor imobiliário está em crise. As incorporadoras entraram em colapso, deixando para trás enormes dívidas, um rastro de investimentos fracassados, apartamentos não vendidos e empregos perdidos.

Os consumidores chineses, já propensos a economizar muito, tornaram-se ainda mais frugais. As empresas que sofreram o impacto devastador das medidas draconianas da covid cortaram salários e reduziram as contratações. Milhões de graduados universitários que estão entrando no mercado de trabalho enfretam grandes dificuldades e perspectivas ruins. E a população da China diminuiu por dois anos consecutivos. Em um país onde a maioria das pessoas só sabia que a economia cresceria rapidamente e que as condições de vida melhorariam, a confiança está diminuindo.

Sherry Yang abriu sua empresa em 2006 produzindo placas de lojas, outdoors e pôsteres na província de Sichuan, no sudoeste da China. Em poucos anos, as empresas locais estavam fazendo tantos pedidos que Yang tinha 16 funcionários e suas máquinas de impressão funcionavam 24 horas por dia.

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Durante anos, os empréstimos feitos pelos governos locais para projetos de construção criaram empregos e demanda no setor de construção Foto: Qilai Shen/NYT

Mas os negócios nunca se recuperaram totalmente após a covid, disse ela. Neste verão, a demanda, que já era fraca, piorou; as vendas em julho caíram 70% em relação ao ano anterior. Yang disse que parecia que todos os setores estavam passando por dificuldades e ninguém estava gastando.

Hoje, Yang tem apenas seis funcionários, muitos dos quais passam o dia olhando para o celular porque não há trabalho suficiente. “Este foi o ano mais difícil desde nossa abertura”, disse ela.

Os gastos do consumidor, que as autoridades chinesas identificaram como um importante impulsionador do crescimento, continuam fracos em toda a economia.

A Alibaba, a maior empresa de comércio eletrônico da China, disse que as vendas no mercado doméstico de compras online caíram 1% na primavera. As vendas de bilheteria dos filmes de verão na China caíram quase pela metade em relação ao ano passado, de acordo com Maoyan, um provedor de dados de entretenimento. O Departamento de Agricultura dos EUA previu em agosto que os consumidores chineses diminuiriam a compra de carne suína e passariam a comprar carne bovina mais barata, devido às pressões econômicas.

Várias empresas estrangeiras que antes corriam para a China para pegar uma maré crescente agora estão se retraindo. No mês passado, a varejista de produtos de beleza Sephora, um braço do grupo francês de luxo LVMH, anunciou que estava cortando empregos devido ao “mercado desafiador”. A IBM está fechando seus dois centros de pesquisa e desenvolvimento na China.

Os formuladores de políticas que tentam reagir são prejudicados porque não podem confiar em uma solução principal que funcionou no passado. Durante anos, os governos locais tomaram dinheiro emprestado para projetos de desenvolvimento espalhafatosos que mantiveram as pessoas trabalhando e o setor de construção em expansão, mesmo que não houvesse uma necessidade real de tanta infraestrutura.

Mas a dívida decorrente desses empréstimos, muitas vezes canalizada por meio de canais de financiamento opacos, aumentou para mais de US$ 7 trilhões. Com os investidores já preocupados com o sistema financeiro da China, é improvável que os dias de empréstimos generosos para a infraestrutura retornem tão cedo.

O governo chinês sinalizou preocupação ao restringir o acesso aos dados sobre os mercados e a economia. No ano passado, suspendeu a divulgação dos números do desemprego entre os jovens quando esse número atingiu níveis recordes. Ele começou a distribuir as informações novamente este ano, com uma nova metodologia que reduziu os números.

Para reprimir a discussão sobre uma grande crise econômica, as autoridades advertiram alguns economistas para que não fizessem comparações públicas entre os problemas da China e o colapso da bolha imobiliária alimentada por dívidas do Japão na década de 1980, que pesou sobre a economia por décadas.

Entretanto, é difícil ignorar a dívida da China.

Embora o colapso do setor imobiliário tenha causado muitos danos colaterais, o risco de insolvência é minimizado pelo sistema financeiro rigidamente controlado da China. O perigo é que o governo poderá ter menos recursos fiscais para evitar que as coisas desandem.

“As consequências dessa crise fiscal são menos crescimento”, disse Alicia Garcia-Herrero, economista-chefe para a região Ásia-Pacífico do banco de investimentos Natixis.

A incerteza econômica fez com que os poupadores chineses e os investidores estrangeiros procurassem lugares seguros para guardar seu dinheiro. Os preços dos imóveis continuam a despencar e as ações chinesas estão tendo um desempenho inferior em comparação com as de praticamente todos os outros países importantes, inclusive Estados Unidos, Japão e Índia.

Os fundos estrangeiros se transformaram em vendedores líquidos de ações chinesas em 2024, o que seria a primeira saída anual desde que os dados se tornaram disponíveis, uma década antes. As ações de cerca de 180 empresas chinesas foram retiradas de um índice crítico do mercado de ações desde o início do ano, reduzindo a presença das empresas chinesas nos índices de referência globais.

Os investidores recuaram para a segurança do mercado de títulos da China, elevando os preços e reduzindo os rendimentos. Mas mesmo isso tem um risco potencial. Os rendimentos caíram tão drasticamente que o banco central do país agora está preocupado com a possibilidade de deixar os bancos vulneráveis se as taxas de juros subirem no futuro.

Os investidores chineses também investiram em ouro, ajudando os preços a alcançarem níveis recordes.

A China previu que sua economia crescerá cerca de 5% este ano, uma taxa maior do que a maioria das principais economias, embora isso possa estar em dúvida agora. 

Um aumento recorde nas exportações, inundando o mundo com veículos elétricos, baterias e eletrodomésticos, está alimentando o crescimento econômico da China. 

Mas o excesso de oferta também está minando a lucratividade dos setores de manufatura de alta tecnologia – segmento que a China esperava que fosse amenizar a redução da atividade econômica por causa do setor imobiliário.

A China minimizou as preocupações econômicas. Em um artigo de opinião publicado em abril na mídia estatal, Jin Ruiting, diretor do Instituto de Economia Internacional da Academia Chinesa de Pesquisa Macroeconômica, disse que a mídia e os políticos ocidentais continuaram a “fazer alarde sobre as flutuações econômicas de curto prazo da China”, enquanto “exageravam unilateralmente os problemas e desafios da economia chinesa”.

Mas os problemas fundamentais permanecem.

Para um grande número de jovens, não há empregos suficientes. Em julho, a taxa de desemprego na China entre os jovens de 16 a 24 anos ultrapassou 17%, contra 13% em junho.

Winnie Chen se formou neste verão com um diploma de auditoria em Nanchang, uma cidade do sudeste da China. Ela fez o exame do serviço público em março, mas não conseguiu um emprego, competindo com centenas de candidatos para cada vaga disponível.

Ela começou a procurar empregos no setor privado. Chen enviou mensagens para 1.229 empresas em um aplicativo de busca de emprego e se candidatou a 119 empregos em contabilidade, comércio eletrônico, mídia social e outros setores. Após dezenas de entrevistas, ela disse que conseguiu algumas ofertas de emprego, mas todas vinham com condições “absurdas”.

Um emprego tinha um salário inicial de US$ 380 (R$ 2.139) por mês, o que ela considerou muito baixo para viver. Outra empresa lhe ofereceu um cargo, mas disse que ela teria de trabalhar nos feriados e não receberia nenhum dia de folga em troca. Ofereceram-lhe uma vaga que lhe disseram ser para maquiadora, mas ela recusou após saber que, na verdade, teria de trabalhar em uma boate.

“Parece que há muitos graduados universitários agora, muitas pessoas, mas poucos empregos”, disse Chen, observando que muitos de seus colegas de classe estavam desempregados. “A economia está em um estado ruim

Por que é tão difícil para a China consertar sua economia doente – Estadão (estadao.com.br)

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A diáspora científica brasileira: enfrentando o êxodo de talentos

“Fuga de cérebros” é consequência da falta de valorização da ciência nacional

 Soraya Smaili , Maria Angélica Minhoto , Pedro Arantes , Tamires Tavares e Renato Sergio Balão Cordeiro – Folha – 4.set.2024 

O debate sobre a diáspora científica, fenômeno em que profissionais altamente qualificados deixam o país em busca de melhores condições de pesquisa e de trabalho, tem se intensificado no Brasil nos últimos anos. Esse movimento, cujo agravamento se dá em contextos como a ditadura militar e os recentes governos anticiência, reflete características conjunturais, mas também expõe uma série de desafios estruturais que o Brasil enfrenta em sua política de Ciência, Tecnologia e Inovação.

Entre as razões mais comuns para a dispersão de cientistas, destacam-se a escassez de recursos para pesquisa, a falta de oportunidades de carreira de longo prazo no Brasil e a busca por ambientes acadêmicos mais favoráveis. O cenário de subinvestimento em ciência e tecnologia, que se agravou a partir de 2016 com sucessivos cortes orçamentários, é um dos grandes responsáveis por esse quadro, assim como a necessidade de ampla e rápida recuperação da infraestrutura de pesquisa. A precarização das universidades públicas e o congelamento do valor e do número de bolsas de pós-graduação e pós-doutorado criaram um ambiente menos favorável para o desenvolvimento científico no país desde então, conforme aponta o Painel Financiamento da C&T e das Universidades Federais do Centro de Estudos SoU_Ciência.

Um levantamento inédito coordenado pelo GEOPI/Unicamp mostra que mais de 70% dos cientistas brasileiros que se encontram no exterior não têm previsão de retorno ao país. A maioria desses profissionais saiu do Brasil após 2019, motivados por ofertas de trabalho mais atrativas e melhores condições de financiamento em suas áreas de pesquisa. Esses dados sugerem que, para muitos, o retorno ao Brasil não é uma opção viável, o que desafia a eficácia de programas de repatriação.

O Programa Conhecimento Brasil, uma iniciativa do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e da Financiadora de Estudos e Projetos do Governo Federal (Finep), é uma das tentativas de repatriar cientistas e reverter o êxodo de acadêmicos. Com um orçamento de 800 milhões de reais, o programa promete bolsas e recursos para atrair de volta esses pesquisadores.

No entanto, a recepção na comunidade científica é mista, como apontado durante a sessão “Diáspora científica: caminhos para a repatriação e retenção de cérebros”, organizada pelo Núcleo de Estudos Avançados do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz), coordenada por Renato Cordeiro, tendo como palestrantes a coordenadora geral do SoU_Ciência Soraya Smaili, o professor emérito Luiz Davidovich (UFRJ/ABC) e a professora Mercedes Bustamante (UnB), e como debatedores Aldo Zarbin (UFPR), Ana Gazzola (UFMG), Herton Escobar, repórter do Jornal da USP, Luiz Carlos Dias (Unicamp), Marcus Oliveira (UFRJ), Maria Angélica Minhoto (SoU_Ciência/Unifesp), Samuel Goldenberg (Fiocruz). A proposta pode ser atrativa para jovens pesquisadores em início de carreira, mas dificilmente conseguirá trazer de volta aqueles já estabelecidos em outra nação. As bolsas oferecidas, embora superiores às disponíveis no Brasil, ainda são insuficientes para competir com os salários e as condições de trabalho de países desenvolvidos.

Outra vertente levantada no debate, igualmente preocupante sobre essa situação, revela que a partida de talentos já inicia durante a graduação e que há um aumento significativo na privatização da educação brasileira. Dados do Painel Expansão do Ensino Superior Privado no Brasil, do SoU_Ciência, mostram um crescimento de matrículas em faculdades, centros universitários e universidades privadas — muitas dessas instituições pertencentes a grandes grupos internacionais — ocasionando uma estagnação ou queda no número de matrículas em públicas. Como mais de 81% das pesquisas são realizadas nas instituições públicas, essa diminuição afeta diretamente nossa produção científica.

A repatriação ou a simples internacionalização não devem ser vistas como as únicas soluções. Em vez disso, devemos considerar estratégias como a “circulação de cérebros”, uma abordagem mais moderna e dinâmica que reconheça a mobilidade dos cientistas como parte integral do sistema científico global. A construção de redes de cooperação e parcerias internacionais pode permitir que esses cientistas continuem a contribuir para a ciência brasileira, mesmo estando fisicamente em outro país.

A saída de cientistas talentosos ocasiona, sem dúvida, uma perda significativa de capital humano e intelectual, o que compromete a capacidade do país de inovar, desenvolver novas tecnologias e resolver problemas complexos em áreas estratégicas como saúde, energia, meio ambiente e educação. Além disso, a “fuga de cérebros” prejudica a formação de novas gerações de cientistas, já que a diminuição de mentores experientes nas universidades brasileiras pode impactar também a qualidade do ensino e da pesquisa.

Diante desse cenário, é urgente que o Brasil adote uma estratégia robusta de mitigação do problema. Esse planejamento deve incluir a recuperação dos investimentos em ciência e tecnologia e a criação de mecanismos e políticas públicas para valorizar e reter talentos no país, assim como para valorizar as instituições de ensino superior e aqueles que a compõem, com políticas de permanência estudantil e reajustes salariais de docentes e técnicos administrativos.

Fica evidente, portanto, que a diáspora na ciência brasileira não é um fenômeno isolado, mas um sintoma de problemas mais amplos na forma como o país valoriza e investe em ciência. Reverter essa tendência exige uma mudança de paradigma, em que as universidades (estaduais como a USP e Unicamp ou Federais como a Unifesp, UFMG e UFRJ) e institutos de pesquisas (como Burantan, Embrapa e Fiocruz) públicos sejam consolidados como os centros de excelência em pesquisa que são e que a ciência seja vista como um pilar fundamental para o desenvolvimento sustentável e a soberania nacional. Somente com uma política sólida e de longo prazo, que priorize a formação de qualidade desde a educação básica até o nível superior e que ofereça condições de retenção de cientistas, o Brasil poderá reverter essa “fuga de cérebros” e garantir um futuro mais próspero e inovador para as próximas gerações.

A diáspora científica brasileira: enfrentando o êxodo de talentos – 04/09/2024 – Sou Ciência – Folha (uol.com.br)

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O dilema da adesão brasileira à Nova Rota da Seda

Afinal, para que se comprometer com um projeto sem contornos claros e sinalizar alinhamento político com Pequim se os investimentos chineses já fluem em grande volume para o Brasil?

Por Marcelo Ninio — Pequim – O Globo – 03/09/2024 LEIA AQUI

Durante um tempo, era comum acusarem a China de armar uma arapuca para países em desenvolvimento com sua Iniciativa Cinturão e Rota, mais conhecida como “Nova Rota da Seda” (NRS). O esquema funcionaria assim, segundo os acusadores: a China financiava projetos de infraestrutura impagáveis, numa “armadilha da dívida” em que os países devedores ficavam vulneráveis às pressões de Pequim.

Lançada em 2013 pelo recém-empossado presidente Xi Jinping, a NRS mostrou-se ao longo dos anos uma iniciativa tão ampla e fragmentada que passou a se confundir com a diplomacia econômica da China, ao mesmo tempo em que desafiava definições. É mais fácil estipular o que ela não é: a “grande estratégia” destinada a encurralar países pobres, como acusam políticos em Washington. Nem estratégia, nem visão, mas “um processo” sempre em transformação, prefere o analista Grzegorz Stec, que há anos monitora a NRS.

A indefinição explica em parte a resistência do Brasil em aderir à iniciativa: afinal, para que se comprometer com um projeto sem contornos claros e sinalizar alinhamento político com Pequim se o comércio bilateral é crescente e os investimentos chineses já fluem em grande volume para o Brasil? Esse ceticismo fez o país manter-se como um dos únicos três sul-americanos a ficarem de fora, ao lado de Paraguai e Colômbia. Mas isso deve mudar em breve, acreditam as autoridades chinesas.

Durante o governo de Jair Bolsonaro, o desejo de Pequim de ter o maior país da América Latina a bordo ficou no freezer. Mas descongelou com a volta de Luiz Inácio Lula da Silva, e esquentou de vez este ano, em meio ao cinquentenário das relações bilaterais. A visita de Xi ao Brasil em novembro seria a ocasião perfeita para o anúncio, idealizam os chineses. Ninguém confirma ou nega, nem se sabe o que está sendo negociado. Mas há gestos públicos.

Numa conferência de mídias sobre a NRS realizada há poucos dias em Chengdu, sudoeste da China, o Brasil foi o país estrangeiro com mais convidados. Entre os 29 participantes do país, a maioria era de profissionais da imprensa, como o titular desta coluna. Para uma plateia ainda se recuperando da longa viagem à China, o roteiro parecia interminável. Foram 56 discursos no total, em apenas um dia.

Quem conseguiu manter o foco testemunhou a importância renovada que a China está dando à NRS, com uma combinação de autoridades do governo e de estatais. Muitas delas com altos investimentos no Brasil. Um exemplo é a petroleira CNOOC, uma das operadoras do Campo de Búzios (RJ), o maior do mundo em águas ultraprofundas.

Se os investimentos chineses já estão indo para o Brasil, por que o país precisa entrar oficialmente na NRS, repeti a pergunta a uma das organizadoras do evento, Sun Haiyan, vice-ministra do Comitê Central do Partido Comunista da China. “Por que não?”, respondeu, “afinal 150 países já fazem parte”. Para muitos, o Brasil já parece um deles, mesmo sem casamento de papel passado. O presidente de uma gigante estatal que tem negócios no Brasil se mostrou surpreso ao saber que o país não havia aderido.

Se a Nova Rota da Seda não é uma armadilha para o Brasil, ela cria um dilema. O país parece estar mais próximo do que nunca de aderir, mas até novembro os ventos podem mudar. A adesão pura e simples agrada a Pequim. Cabe ao governo brasileiro negociar algum recheio de resultados para o país, para que a adesão não seja um pastel de vento.

O dilema da adesão brasileira à Nova Rota da Seda (globo.com)

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Os planos da ArcelorMittal para bater sua meta de descarbonização

Maior produtora de aço no Brasil, empresa investe em autossuficiência energética e na diversificação de fontes de energia renovável para garantir um processo produtivo sustentável

EXAME Solutions –  2 de setembro de 2024 

O aço da ArcelorMittal se faz presente em toda parte – desde o prédio mais alto do mundo (o Burj Khalifa, em Dubai, nos Emirados Árabes) até ferrovias, carros, metrôs, pontes e estádios de futebol brasileiros. Resistente e infinitamente reciclável, o material formado pela liga metálica do ferro com o carbono é, por si só, parte fundamental na transição para uma economia de baixo carbono. Mas, a produção siderúrgica ainda enfrenta desafios para atender às novas metas globais de descarbonização.

Atualmente, cerca de 7% das emissões globais dos gases de efeito estufa vêm da indústria do aço. No Brasil a participação das emissões é de 4%. Para minimizar esses impactos, a ArcelorMittal – maior produtora de aço no Brasil – vem realizando uma série de iniciativas com o intuito de alcançar a meta de neutralidade de emissões de carbono até 2050. Entre essas iniciativas estão o aumento do uso de sucata metálica; diversificação de sua matriz energética com fontes renováveis, eficiência energética, e compensação de emissões remanescentes.

Energia renovável

Os aportes em projetos de energia renovável vão atingir um total de R$ 5,8 bilhões nos próximos anos e serão aplicados em três projetos. O principal objetivo é assegurar energia limpa e descarbonizar uma parte considerável das operações da empresa no Brasil.

O primeiro deles, anunciado no ano passado, é uma joint venture com a Casa dos Ventos, uma das maiores desenvolvedoras de projetos e operadoras de energia eólica no Brasil. Considerado o maior acordo corporativo de energia renovável firmado no país, ele prevê investimentos de R$ 4,2 bilhões para a construção e a operação do Complexo Eólico Babilônia Centro, que terá 553,5 MW de capacidade instalada nos municípios de Morro do Chapéu e Várzea Nova, na Bahia. Em janeiro deste ano foi anunciada ainda a liberação de financiamento da ordem de R$ 3,16 bilhões pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) ao complexo, o que corresponde a 80% do valor total do investimento.

Em agosto deste ano, a parceria com a Casa dos Ventos foi ampliada e uma nova joint venture foi criada para tornar híbrido o Complexo Eólico Babilônia Centro, viabilizando a instalação de uma planta fotovoltaica junto ao empreendimento eólico.

Planta de Energia Solar da Atlas Renewable Energy em Pirapora (MG) (Vinicius Dal Colletto/Divulgação)

Outro projeto anunciado foi com a Atlas Renewable Energy, com o aporte de R$ 895 milhões na construção do Parque Luiz Carlos, de energia solar, em Paracatu, município do noroeste de Minas Gerais. A produção prevista é de 69 MW médios/ano e potência instalada de 269 MW. As duas novas plantas de energia solar terão capacidade de geração de 113 MW médios/ano, o que representará 14% do consumo atual de energia elétrica das unidades da ArcelorMittal no Brasil.

“Os projetos nos preparam para o futuro, garantindo que possamos atender nossas necessidades de energia no longo prazo de forma responsável, sustentável e com redução de custos”, destaca Jefferson De Paula, presidente da ArcelorMittal Brasil e CEO da ArcelorMittal Aços Longos e Mineração LATAM.

A meta da ArcelorMittal é utilizar 100% de fontes renováveis de energia elétrica até 2030. Os primeiros passos para alcançar o desafio já foram dados. Em 2023, a empresa atingiu a autoprodução de 61% de energia.

“Além de garantir o suprimento das plantas industriais com fonte própria de energia renovável, os investimentos visam a diversificação da matriz energética, a redução dos custos operacionais e o aumento da nossa competitividade”, afirma Jefferson De Paula.

Diversificação da fonte

Outros esforços estão em projetos que garantam a produção sustentável do aço. Exemplo disso é o fato de todas as unidades da ArcelorMittal contarem com sistemas de recuperação de calor e reaproveitamento dos gases provenientes dos processos produtivos.

Localizada no município de Serra (ES), a planta de Tubarão – maior usina do Grupo ArcelorMittal no Brasil – é autossuficiente em energia desde 1999, contribuindo para diminuição da demanda no sistema elétrico nacional.

Central Termelétrica da Unidade Tubarão da ArcelorMittal (Mosaico Imagem/Divulgação)

Em 2018, a unidade aderiu ao primeiro ciclo do Programa Aliança – iniciativa da Confederação Nacional da Indústria (CNI), em parceria com a Eletrobras e a Associação dos Grandes Consumidores Industriais de Energia e de Consumidores Livres (Abrace).

A empresa, inclusive, é pioneira no uso do gás natural em substituição ao carvão nos altos-fornos. Por meio desta medida, a ArcelorMittal produziu seus primeiros certificados de aço para o mercado em 2023, dentro de seu programa XCarb.

“Vimos que o gás poderia ser usado no aquecimento de alto-forno, substituindo o carvão e o coque de carvão. Com isso, não só melhoramos a nossa eficiência como também avançamos em nossa estratégia de descarbonização”, diz Fabrício Assis, diretor de Produção de Gusa e Energia da unidade de Tubarão da ArcelorMittal.

Como parte do Plano Diretor de Eficiência Energética, a empresa também implementou, em Tubarão, mudanças como o aumento da recuperação e energia para uso de vapor para turbinas de geração elétrica, a substituição de luminárias de ruas e prédios e a instalação de sistema de geração de energia solar em um de seus estacionamentos.

Comercializadora própria

Desde 2012, a ArcelorMittal Brasil possui uma comercializadora de energia – a AMCEL –, com o intuito de aprimorar sua gestão do insumo, criar oportunidades de redução de custo de energia e melhorar a autogeração, além de investir na implementação de projetos inovadores de eficiência energética.

A ArcelorMittal conta com centrais hidrelétricas que são responsáveis pelo abastecimento de parte da energia consumida pelas plantas industriais. O restante é comprado no mercado em contratos de longo e médio prazos e spot, por meio de uma gestão que busca a ecoeficiência e a competitividade para o negócio.
Como alternativa energética, a unidade de Juiz de Fora faz uso do carvão vegetal, que é utilizado como agente redutor do minério de ferro em seus altos-fornos.

Aquisição da CSP

Outro passo rumo à descarbonização foi dado pela ArcelorMittal no ano passado, com a compra da Companhia Siderúrgica do Pecém (CSP). Hoje, a unidade do Pecém da ArcelorMittal traz a oportunidade de se criar um centro de produção de aço de baixo carbono na região. A estratégia anda lado a lado com a ambição do estado do Ceará de desenvolver um centro de hidrogênio verde de baixo custo em Pecém.

“Além da recente aquisição da unidade, temos vários projetos downstream de crescimento orgânico em andamento que ampliam nossa presença e aprimoram nossa capacidade de produzir produtos de maior valor agregado”, destaca Jefferson De Paula.

Esses planos de expansão, diz o executivo, levarão a um aumento natural das necessidades energéticas da empresa. “Esses projetos nos preparam para o futuro, garantindo que possamos atender nossas necessidades de energia no longo prazo de forma responsável, sustentável e com redução de custos.”

Os planos da ArcelorMittal para bater sua meta de descarbonização | Exame

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Lições da Austrália para o Brasil

País da Oceania tem a coragem de se concentrar em suas principais vocações – os recursos naturais – e orienta sua economia com visão de mercado para gerar prosperidade

Luis Henrique Guimarães* – Exame – 24 de agosto de 2024 

Ao longo dos Jogos Olímpicos, é inevitável que muitos façam comparações entre o desempenho do Brasil e de diversos países mais bem colocados na tabela de medalhas. Antes de tudo, penso que as conquistas de nossos atletas são motivo de orgulho, principalmente pelas histórias de esforço e resiliência para superar condições muito mais desafiadoras.

Mas não há como deixar de refletir sobre os nossos potenciais como país: a sensação que fica é de que o Brasil poderia muito mais.

Não apenas no âmbito esportivo, um paralelo interessante que podemos traçar é com a Austrália, que, mesmo tendo uma população menor, de 27 milhões de habitantes, ficou em quarto lugar no quadro de medalhas de Paris-2024, acima de potências como a França, Grã-Bretanha e Alemanha.

Embora muito distantes geograficamente, com histórias e formações muito distintas, Brasil e Austrália têm similaridades.

São nações com territórios imensos, ricas em recursos naturais e com economias baseadas em setores primários. Ambos são grandes produtores de commodities agrícolas e minerais. O Brasil, diga-se de passagem, bate recordes seguidos em setores de protagonismo, como a agricultura e a produção de minérios. Ambos também são pródigos em reservas de gás natural, em potencial de energia renovável e na pecuária, sem falar na biodiversidade. Mas as diferenças em muitos pontos são marcantes.

Um reflexo disso aparece no ranking de competitividade econômica global do IMD (Instituto Internacional de Desenvolvimento Gerencial, da sigla em inglês) de 2024, em que a Austrália figura na 13ª posição geral, seis casas acima de 2023, melhorando em quatro quesitos essenciais: Desempenho Econômico, Eficiência Governamental, Eficiência Empresarial e Infraestrutura, enquanto o Brasil aparece em 62º lugar, caindo duas posições, e só tendo progressos em eficiência econômica.

O que que o Brasil, então, poderia aprender com o maior país da Oceania?

1. Não ter vergonha de explorar suas vocações

Embora ambos tenham abundância de recursos naturais, a forma como cada país explora é distinta. A Austrália vê essas commodities como realmente estratégicas para a sua economia. Sua indústria de mineração, por exemplo, representa 75% das exportações australianas.

Em 2020, de acordo com dados do governo aussie, o país foi o maior produtor global de bauxita, minério de ferro e rutilo, bem como lítio, elemento importante para tecnologias de armazenamento de baterias, inclusive as que carregam nossos celulares.

Também foi o segundo maior produtor de ouro, chumbo, urânio, zinco e zircão; e o terceiro maior produtor de cobalto, diamante, ilmenita e minério de manganês.

Já no setor de petróleo e gás, a Austrália também vem sendo eficiente. É o segundo maior produtor e exportador de gás natural liquefeito (GNL) do mundo, à frente de Catar e Rússia, de acordo com dados da International Gas Union.

Essa produção de óleo e gás, aliás, deverá contribuir com US$ 17,1 bilhões em receita tributária aos governos federal, estadual e territorial neste ano fiscal, conforme recente comunicado de imprensa da Australian Energy Producers.

Tamanha arrecadação, comentou a presidente-executiva da associação, Samantha McCulloch, ajuda “a financiar serviços essenciais para todos os australianos, o equivalente à construção de 11 novos hospitais públicos, 250 escolas ou cobrir os custos de saúde de 1,76 milhão de australianos”, destacando o papel do gás para a transição energética.

Enquanto isso, no Brasil, que tem grande potencial a ser destravado tanto na oferta, como na demanda, temos desperdiçado oportunidade atrás de oportunidade no setor de gás natural – um energético que poderia ter um papel ainda mais fundamental do que já vem exercendo na segurança de abastecimento e na transição energética de setores difíceis de descarbonizar.

Não só por falta de políticas públicas corretas para incentivar a construção de infraestrutura em todas as etapas da cadeia, mas, também, de uma agenda regulatória assertiva, que tenha como princípio estimular o mercado e a competição.

2. Fazer prevalecer políticas de estado, em vez de políticas de governo

Um bom exemplo é o pacote Future Made in Australia, em que o governo federal local pretende alocar US$ 22,7 bilhões para facilitar os investimentos do setor privado, inclusive com a visão de tornar o País uma das grandes potências de energia renovável.

Aqui no Brasil, ainda pairam ameaças como a regulamentação da reforma tributária, em que se propõe uma abusiva cobrança de imposto seletivo sobre setores que geram empregos e que estão entre os que mais arrecadam.

A taxação extra só desestimulará a atração de aportes em novos projetos, reduzindo a capacidade de transferência de renda para Estados e municípios. Governo e Congresso deveriam se concentrar em aprovar a chamada pauta verde justamente para estimular os investimentos.

3. Políticas claras que garantem a segurança jurídica necessária para os investimentos

A Austrália tem políticas e regras claras para encorajar investidores nacionais e o fluxo de capital estrangeiro para contribuir com as prioridades econômicas do país com transparência, clareza, pontualidade e previsibilidade de que precisam para investir com confiança, sem prejuízo de temas de interesse da segurança nacional em tempos globais geopolíticos bastante sensíveis.

Termino esse texto com uma mensagem do site da Câmara Australiana de Comércio e Indústria que reflete bem o caminho certo para o Brasil:

“Governos gerenciam governos, não economias. As responsabilidades do governo são gerenciar efetivamente os gastos públicos e garantir que as leis e regulamentações existentes não desencorajem o crescimento e o desenvolvimento econômico. Isso inclui implementar disciplina orçamentária, evitando encargos insustentáveis de dívida pública para as gerações atuais e futuras”.

* Luis Henrique Guimarães é conselheiro da Cosan e da Vale

Lições da Austrália para o Brasil | Exame

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Quais as chances de a IA substituir os professores? Nenhuma. Por enquanto

Inteligência artificial no ensino não é mais uma promessa futura; já é uma realidade. O que resta saber é o quão eficaz ela realmente é


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ANNETTE VEE – Fast Company Brasil – 31-08-2024 

O cofundador da OpenAI, Andrej Karpathy, imagina um mundo no qual bots de inteligência artificial possam se tornar especialistas em várias áreas, atuando como tutores “profundamente apaixonados, com uma didática excelente, infinitamente pacientes e fluentes em todas as línguas”. Nessa visão, eles seriam como “professores particulares sob demanda para todas as oito bilhões de pessoas do planeta”.

Essa é a premissa de sua mais recente iniciativa, a Eureka Labs, que exemplifica bem como o setor tecnologia está tentando utilizar a IA para revolucionar o ensino. Karpathy acredita que a inteligência artificial pode resolver um problema antigo: a escassez de bons professores que também sejam especialistas em suas áreas.

E ele não está sozinho. O CEO da OpenAI, Sam Altman, o CEO da Khan Academy, Sal Khan, o investidor Marc Andreessen e o cientista da computação da Universidade da Califórnia Stuart Russell também compartilham o sonho de ver bots atuando como tutores, orientadores e até mesmo substitutos de professores humanos.

Como pesquisadora focada em inteligência artificial e outras novas tecnologias de escrita, já vi muitos casos em que “soluções” tecnológicas para problemas no ensino acabaram não dando certo. A IA certamente pode melhorar alguns aspectos do aprendizado, mas a história mostra que provavelmente não será uma substituta eficaz para os professores humanos.

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Isso porque os alunos tendem a ter uma certa resistência em interagir com máquinas, por mais sofisticadas que sejam, e têm uma preferência natural por se conectar e se inspirar em outros humanos.

MAIORES NOMES DA CIÊNCIA DE VOLTA À VIDA

Mas Karpathy sugere, por exemplo, que o renomado físico teórico Richard Feynman, falecido há mais de 35 anos, poderia ser “ressuscitado” como um bot para ensinar alunos.

OS ALUNOS TÊM UMA PREFERÊNCIA NATURAL POR SE CONECTAR E SE INSPIRAR EM OUTROS HUMANOS.

Para ele, a experiência ideal de ensino de física seria trabalhar o conteúdo “com o ‘próprio’ Feynman, que estaria lá para guiar os estudantes em cada passo do processo de aprendizagem”. O físico, conhecido por sua habilidade de explicar conceitos complexos usando uma linguagem simples e de fácil entendimento, poderia atender um número ilimitado de alunos ao mesmo tempo.

Dessa forma, os professores humanos continuariam criando o material do curso, mas teriam o suporte de um assistente de ensino de IA. Essa equipe formada por professor e inteligência artificial “poderia cobrir todo o currículo do curso em uma plataforma comum”, diz Karpathy. “Se tivermos sucesso, qualquer um poderá aprender o que quiser de um jeito simples.”

OUTRAS TENTATIVAS FALHARAM

Tecnologias voltadas para a personalização da aprendizagem não são novidade. Recentemente, vimos a ascensão e a queda dos “cursos online abertos e massivos”, também conhecidos como MOOCs (sigla em inglês para “Massive Open Online Course”).

Esses cursos, que ofereciam vídeos e provas, eram vistos como uma forma de democratizar a educação. Mas os alunos perderam o interesse e acabaram desistindo.

Crédito: Freepik

Pouco depois, outros formatos que aproveitam o poder da internet começaram a surgir, como as plataformas de cursos Coursera e Outlier. Mas enfrentaram o mesmo problema: a falta de uma interação genuína para manter os estudantes engajados.

Agora, estamos vendo o surgimento de plataformas de ensino alimentadas por inteligência artificial. O Khanmigo, por exemplo, usa tutores de IA para, como escreveu Sal Khan em seu mais recente livro, “personalizar e adaptar o ensino às necessidades individuais, acompanhando nossos alunos enquanto estudam.”

A editora britânica Pearson também está integrando inteligência artificial em seus materiais didáticos. Mais de mil universidades já estão adotando esses materiais para o próximo semestre. A IA no ensino não é mais uma promessa futura; já é uma realidade. Resta saber é o quão eficaz ela realmente é.

DESAFIOS NO ENSINO COM IA

Alguns líderes de tecnologia acreditam que os bots podem personalizar o ensino e substituir professores humanos, mas provavelmente enfrentarão o mesmo problema das abordagens anteriores: os alunos podem não gostar da ideia.

E há boas razões para isso. É improvável que eles se sintam inspirados e motivados da mesma maneira que se sentem com um professor de verdade. Quando encontram alguma dificuldade, os estudantes frequentemente recorrem a pessoas de confiança, como professores e mentores. Eles fariam o mesmo com um bot? E o que o bot faria se isso acontecesse?

Além disso, existem questões de privacidade e segurança de dados. Essas plataformas coletam uma quantidade considerável de informações sobre os alunos e seu desempenho acadêmico, que podem ser mal utilizadas ou vendidas. Embora existam legislações tentando prevenir isso, algumas dessas plataformas estão hospedadas na China, fora do alcance das leis de países do Ocidente. 

A HISTÓRIA MOSTRA QUE A IA NA CERTA NÃO SERÁ UMA SUBSTITUTA EFICAZ PARA OS PROFESSORES HUMANOS.

Mas há outra questão ainda mais preocupante: com um único bot ensinando milhões de alunos ao mesmo tempo, podemos perder a diversidade de pensamento. De onde virá a originalidade se todos receberem os mesmos ensinamentos, especialmente se o “sucesso acadêmico” depender de repetir o que o “professor” de IA diz?

A ideia de ter um tutor de inteligência artificial à disposição de cada aluno parece fascinante. Eu adoraria aprender física com Richard Feynman, ou escrita com Maya Angelou, ou astronomia com Carl Sagan.

Mas a história nos lembra que precisamos ter cautela e garantir que os alunos realmente estejam aprendendo. A simples promessa de ensino personalizado não é sinônimo de resultados positivos.

Este artigo foi publicado no “The Conversation” e reproduzido sob licença Creative Common. Leia o artigo original.


SOBRE A AUTORA

Annette Vee é professora associada de inglês na Universidade de Pittsburgh.

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Quantas décadas até mapearmos toda a extensão do córtex cerebral?

O cérebro humano é considerado a estrutura mais complexa do universo

Drauzio Varella – Folha – 28.ago.2024 

  • “Não seriam essas as borboletas da alma que um dia explicarão a consciência humana?” –disse o espanhol Santiago Ramon y Cajal ao descobrir o neurônio, no comecinho do século 20.

Antes dele, as tentativas de visualizar ao microscópio as células do sistema nervoso central haviam fracassado. Os corantes usuais, empregados para tingir células de outros tecidos, não impregnavam as do cérebro; nas imagens apareciam apenas espaços vazios.

Quando Cajal experimentou corá-las com dicromato de potássio e nitrato de prata, no entanto, enxergou células pretas destacadas contra um fundo transparente. Tinham a forma de aranhas que lançavam tentáculos longos em todas as direções: eram os neurônios.

A curiosidade levou-o mais longe. Demonstrou que os neurônios “entravam em contato uns com os outros sem entrar em contato”. Faziam-no através de espaços de dimensões infinitesimais —as sinapses—, por meio de estímulos químicos e elétricos. Escreveu então: “A habilidade dos neurônios crescerem nos adultos e seu poder de criar novas conexões podem explicar o aprendizado”.

Estavam lançadas as bases da teoria sináptica da memória, descoberta que lhe deu o Nobel de Fisiologia e Medicina de 1906. Pena Cajal ter morrido em 1934, aos 82 anos. Estivesse vivo, teria lido o artigo da revista Science publicado no último mês de maio.

Neurocientistas da Universidade Harvard, em trabalho com colegas do Google Research, da Califórnia, mapearam um fragmento de 1 centímetro cúbico do tecido cerebral de uma mulher de 45 anos submetida a cirurgia para tratamento de quadro de epilepsia. Essa amostra corresponde a uma parte insignificante do volume total do cérebro.

O fragmento foi retirado do córtex, área cerebral conhecida como massa cinzenta, encarregada de controlar nossas funções cognitivas mais elaboradas: resolução de problemas, aprendizado e processamento das informações que chegam através dos sentidos, entre outras. Nesse ínfimo centímetro cúbico de tecido, o grupo de Harvard cortou 5.000 lâminas de 34 nanômetros (a milionésima parte do milímetro) cada uma, espessura adequada para a observação nos microscópios eletrônicos.

Como se víssemos a um microscópio eletrônico milhares de neurônios com milhares de suas conexões sinápticas em uma avalanche de cores extremamente viva. O desenho tem muito movimento.

Líbero Malavoglia/Folhapress

Com o emprego de modelos de inteligência artificial desenvolvidos pelos cientistas do Google, as imagens obtidas pela microscopia passaram por um processamento capaz de agrupá-las e reconstruí-las em 3D.

Disponíveis na internet, essas imagens são dignas das galerias de arte mais sofisticadas. Exibem em cores os corpos dos neurônios, distribuídos num emaranhado de circuitos formados por prolongamentos (dendritos e axônios) que caminham em todas as direções para criar uma rede tridimensional de altíssima complexidade.

Na amostra pesquisada, foram encontrados 57 mil neurônios, que formaram 150 milhões de sinapses com os vizinhos. A circuitaria resultante é capaz de incorporar 1,4 petabyte de dados. Para dar noção de grandeza: em 50 petabytes pode ser armazenado tudo o que a humanidade escreveu na história, em todas as línguas.

A imensidão de dados assim gerados vai permitir que a comunidade científica internacional possa ter acesso à intimidade da microcircuitaria de neurônios existente no córtex cerebral.

O cérebro humano é considerado a estrutura mais complexa do universo. Nos anos 1990, assisti a uma palestra de um neurocientista que o considerava mais complexo até do que o próprio Universo. Na época achei exagero.

Talvez não fosse. Se numa amostra de uma área que ocupa 1 milionésimo do córtex cerebral existem mais de cem milhões de sinapses, através das quais os neurônios interagem, trocando sinais elétricos e neurotransmissores que serão responsáveis por todas as funções fisiológicas do organismo humano, pela forma de entendermos o mundo ao nosso redor e por tudo o que pensamos, imagine a complexidade do cérebro inteiro.

Quantas décadas levaremos para mapear toda a extensão do córtex cerebral? Quantos petabytes de dados serão gerados? A tecnologia de inteligência artificial será capaz de avançar na velocidade exigida para interpretá-los?

As imagens da rede de sinapses publicadas no artigo da Science mostram como é precário o conhecimento atual dos distúrbios fisiológicos, dos transtornos psiquiátricos, das voltas que o pensamento dá e dos males da alma que nos afligem pela vida inteira.

Quantas décadas até mapearmos toda a extensão do córtex cerebral? – 28/08/2024 – Drauzio Varella – Folha (uol.com.br)

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Essa escola pediu aos alunos uma redação do Enem 100% feita pelo ChatGPT: qual foi o resultado?

Ferramenta que pode ser empregada em tarefas escolares faz com que professores de SP repensem as atividades para estimular o desenvolvimento do pensamento crítico

Por Vanessa Fajardo – Estadão – 28/08/2024 

As ferramentas de inteligência artificial (IA) generativa, como o ChatGPT, têm alterado as rotinas escolares. Para evitar o mau uso, os professores decidiram levar a tecnologia para a sala de aula para que os alunos possam explorar suas potencialidades e entendê-la mais na prática.

No Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo, por exemplo, os alunos do ensino médio receberam a tarefa de produzir uma redação, nos moldes do Enem, 100% por meio da IA. Os estudantes não poderiam escrever nenhuma palavra autoral. Em seguida, o docente corrigiu as produções em sala de aula, e o resultado foi que a maioria dos alunos obteve nota mediana, pois os textos apresentavam inconsistência de informação e faltava fluidez.

Apenas uma aluna se destacou. “Ela sabia o que queria e orientou bem a IA, e este é o cerne do que a gente acredita. Quando a ferramenta é usada para ajudar o aluno a aprofundar um conhecimento, o resultado é incrível, mas quando se usa para terceirizar, é péssimo. Um bom resultado depende de um bom comando”, afirma o professor Lucas Chao.

Na escola, a IA perpassa várias disciplinas. A instituição tem incentivado os professores a promoverem atividades que estimulem o uso dessa tecnologia, mas garantindo que não atribuam os resultados como algo autoral. “Nós geramos um manual que funciona como guia de utilização de IA generativa”, diz Chao.

Para o professor, é fundamental que esses sistemas sejam incorporados ao ambiente escolar, até para preparar os alunos para as oportunidades do mundo do trabalho. Mas é necessário lembrar que o vestibular, por exemplo, funciona como uma prova clássica. “Hoje trabalhamos com um consenso de que essas ferramentas são importantes e vieram para ficar. Se existe um futuro melhor, é por meio da conscientização, de um uso crítico. Trazemos essas tecnologias para a sala de aula, mas temos os momentos de avaliação tradicional com papel e caneta. São os dois mundos.”

Utilizar declaradamente

Autonomia e responsabilidade também estão entre os lemas do Colégio Dante Alighieri, em São Paulo. A instituição criou uma comissão com os estudantes para discutir e decidir como trazer a tecnologia para a rotina. Uma das resoluções foi a de não proibir o uso do ChatGPT, desde que seja declarado.

“O que eu não posso é entregar um conteúdo que eu usei IA para produzir algo e dizer que foi 100% meu. Não é competição entre homem e máquina, é uma junção”, afirma Verônica Cannatá, coordenadora de tecnologia.

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“Eu posso usar recursos de IA como ponto de partida. O que a gente não quer é o uso às cegas: o aluno vai lá, faz uma redação, o professor não percebe e atribui nota. Na hora do vestibular, não vai dar pra fazer uma redação usando o ChatGPT.”

O Centro de Inovação para a Educação Brasileira (CIEB), uma organização sem fins lucrativos que promove a cultura de inovação na educação pública, publicou uma nota técnica em junho que trata das novas aplicações e tendências.

O centro sugere que o ensino nas escolas parta de dois eixos: o de pensar com a IA e o de pensar sobre a IA. O primeiro caso consiste em usar a tecnologia “para resolver problemas e integrá-la às práticas educativas”. “Assim, ela não substitui estudos tradicionais, mas os complementa.” Já pensar sobre a IA inclui estudar as interfaces que envolvem essas tecnologias, como dados, algoritmos e modelos.

Entendemos que, se o aluno ler o que a IA produzir, é um ganho. Se fizer leitura crítica, o ganho é maior. Se, por fim, ele avaliar e usar parte do que faz sentido na resposta, está de fato fazendo o uso adequado da ferramenta

Lucas Chao, professor do Liceu

Iniciação científica

No Dante, a IA já faz parte do ambiente escolar desde 2018 como disciplina eletiva. Em 2023, o tema se tornou um dos eixos do currículo de letramento digital e também é explorado em projetos do núcleo de pré-iniciação científica. É o caso de Clara Szylewicz Chabelmann, de 15 anos, e Felipe Cruz Monteiro de Barros, de 17 anos. Clara e a colega Carolina Agostini Rocchiccioli, ambas do 1.º ano do ensino médio, estão desenvolvendo uma pulseira que ajudará a detectar sinais de sonambulismo, evitando que pessoas se acidentem.

Embora esteja animada com potencialidades proporcionadas pela tecnologia em seu projeto, Clara diz que foi fundamental a abordagem da escola sobre seu uso indevido, como a criação de deep fake (amálgama de imagens). “A IA veio para sacudir e mostrar que a gente precisa ter ética.”

Já Felipe criou um chat box que responde perguntas sobre conteúdos que os adolescentes estão estudando na escola, com base em informações reais que foram discutidas em sala. “Fiz uma prova de conceito em uma escala pequena, mas funcionou. Acho que a IA é um recurso para ajudar a chegar onde a gente quer, mas é incapaz de competir com um trabalho humano bem feito.”

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Formação humana e desigualdades

Verônica Cannatá defende que as discussões em torno do uso da IA se tornem políticas públicas e não fiquem restritas ao universo das redes particulares de ensino. “Ignorar a IA é deixar seu aluno em uma área de analfabetismo tecnológico. A IA não está revolucionando a escola, está revolucionando o mundo.”

Pelo fato de as crianças das escolas particulares terem mais acesso a computadores e conexão com mais qualidade, Paulo Blikstein, professor da Universidade de Columbia, e diretor do Transformative Learning Technologies Lab (TLTL), teme que a IA aumente a desigualdade entre alunos pobres e ricos.

“A tecnologia não determina nova forma de ensinar ou aprender, ela se adapta aos sistemas que já existem. Se há um sistema tradicional, sem o incentivo a pensar, a tecnologia se adapta a isso e teremos um usuário passivo de IA pedindo informações e pesquisando, mas não criando coisas. Por reafirmar os sistemas, a ferramenta pode produzir distorções terríveis.”

Outro ponto levantado pelo pesquisador é a importância do investimento em formação humana. “O que geralmente se faz é investir muito dinheiro em softwares, aplicativos e computadores e pouco ou quase nada em formação de professores para lidar com isso. O que muda a educação não é a tecnologia, são as pessoas que usam a tecnologia.”

Inteligência artificial ajuda o aluno a aprender? Veja o que escolas particulares estão fazendo – Estadão (estadao.com.br)

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