Falta de mão de obra chega na engenharia e setor sofre com a falta de 75 MIL trabalhadores no Brasil

Escrito por Alisson Ficher – Exame – 23/12/2024 

Brasil enfrenta déficit de 75 mil engenheiros, afetando infraestrutura e tecnologia. Investir em educação é a chave para mudar o cenário.

Brasil enfrenta déficit de 75 mil engenheiros, afetando infraestrutura e tecnologia. Investir em educação é a chave para mudar o cenário.

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Falta de engenheiros no Brasil ameaça setores cruciais como infraestrutura e tecnologia. Com evasão escolar crescente e currículos desatualizados, o país precisa de soluções urgentes, desde investimentos na educação básica até reformas no ensino superior.

A engenharia, tradicionalmente associada ao progresso e à inovação, enfrenta um desafio inquietante no Brasil.

Apesar de ser uma das áreas mais estratégicas para o desenvolvimento do país, a escassez de profissionais ameaça travar o avanço de setores cruciais como infraestrutura e tecnologia.

O cenário é alarmante: faltam 75 mil engenheiros para atender às demandas do mercado, expondo um déficit que é tanto educacional quanto estrutural.

De acordo com dados da Confederação Nacional da Indústria (CNI), a formação de engenheiros no Brasil não acompanha a necessidade crescente do mercado.

A evasão escolar, os currículos desatualizados e a falta de investimentos em educação básica e infraestrutura criaram um gargalo difícil de superar.

Este panorama é reflexo de problemas que atravessam décadas e que, se não enfrentados com urgência, podem comprometer o futuro do país.

Formação insuficiente e comparações internacionais

O Brasil forma cerca de 40 mil engenheiros por ano, um número que parece irrisório quando comparado a outras nações emergentes.

China e Rússia, também integrantes dos BRICS, formam mais de 450 mil profissionais anualmente. Essa discrepância escancara o atraso brasileiro em um setor essencial para a competitividade global.

Entre 2014 e 2021, aproximadamente 150 mil estudantes abandonaram os cursos de engenharia no Brasil, segundo o Conselho Federal de Engenharia e Agronomia (Confea).

Essa evasão resulta de fatores como a crise econômica e a baixa perspectiva de empregabilidade.

Conforme Marcos Gabriel Oliveira de Souza, estudante de engenharia mecatrônica na UnB, “trabalhar como engenheiro exige obstinação e, muitas vezes, conexões familiares que facilitem o acesso ao mercado.”

Deficiências no ensino básico e desinteresse pela área

O problema começa muito antes da entrada no ensino superior.

A qualidade deficiente do ensino básico em matemática e ciências exatas dificulta a formação de uma base sólida para futuros engenheiros. Especialistas, como Michelly de Souza, da Fundação Inaciana Pe.

Saboia de Medeiros (FEI), defendem a necessidade de estimular o interesse por exatas desde cedo.

Segundo ela, “o interesse precisa ser despertado de forma lúdica, mostrando como resolver problemas reais.”

Iniciativas como as promovidas pelo Centro de Integração Empresa-Escola (CIEE) buscam reduzir esse desinteresse, oferecendo estágios e parcerias com instituições renomadas.

Mônica Vargas, superintendente do CIEE, ressalta que esses esforços são essenciais, mas ainda insuficientes para superar a aversão à matemática ou o desconhecimento sobre as possibilidades da engenharia.

Currículos desatualizados e evasão universitária

Outro entrave significativo está nos currículos dos cursos de engenharia, considerados ultrapassados por estudantes e especialistas.

As grades curriculares, muitas vezes focadas em disciplinas experimentais sem aplicação prática, não refletem a realidade do mercado.

“Temos muitas matérias que não agregam à prática da profissão”, critica Marcos Gabriel, da UnB.

Michelly de Souza sugere uma reforma urgente, enfatizando a inclusão de experiências práticas e projetos conectados ao mercado. Além disso, ambientes universitários mais acolhedores, com laboratórios modernos e metodologias ativas, poderiam reduzir a evasão, especialmente nos primeiros semestres.

Impactos da falta de engenheiros no Brasil

A escassez de engenheiros já impacta setores fundamentais.

A expansão de infraestrutura, o desenvolvimento tecnológico e até mesmo a execução de grandes obras sofrem atrasos e custos adicionais devido à ausência de profissionais qualificados.

Conforme relatado pelo Correio Braziliense, áreas como transporte e energia enfrentam grandes desafios, enquanto multinacionais e órgãos públicos oferecem as únicas oportunidades atraentes para esses profissionais.

Marcos Gabriel destaca que muitas empresas sequer cumprem o piso salarial da categoria, estimado em R$ 7 mil no Distrito Federal.

Isso desestimula ainda mais os jovens a seguir na profissão, aumentando o ciclo de dificuldades enfrentado pelo setor.

Soluções possíveis para um futuro sustentável

Embora o cenário seja desafiador, há caminhos possíveis para reverter a crise.

Investir na educação básica, promover reformas curriculares e ampliar o acesso a estágios são passos essenciais para tornar a engenharia mais atrativa.

Além disso, comunicar à sociedade a importância da engenharia para problemas reais pode ajudar a atrair novos talentos.

Como conclui Michelly, “a engenharia tem um papel fundamental na construção de um futuro mais justo e sustentável, com tecnologias limpas e soluções para otimizar recursos.”

Mas o Brasil está preparado para enfrentar esse desafio e valorizar seus engenheiros?

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ASML: A empresa holandesa por trás do avanço da IA e da Lei de Moore

 Redação Forças de Defesa  26 de novembro de 2024  

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Máquina EUV da ASML

Uma pequena e relativamente desconhecida empresa holandesa, a ASML, fabrica talvez o dispositivo não militar mais caro e complexo do mundo, avaliado em US$ 200 milhões. Com um monopólio absoluto em sua área, ela é a força motriz por trás dos avanços da inteligência artificial (IA) e da manutenção da Lei de Moore.

As máquinas de litografia por ultravioleta extremo (EUV) da ASML são obras-primas da engenharia. Elas disparam 50 mil gotas de estanho fundido por segundo com um laser de 25 kW, transformando-as em plasma tão quente quanto a superfície do sol. Esse processo gera luz UV de 13,5 nm, tão energética que é absorvida pelo próprio ar. Cada máquina de US$ 200 milhões contém espelhos que são os objetos mais lisos já criados pela humanidade, feitos de camadas de molibdênio e silício com apenas alguns átomos de espessura. Se ampliados ao tamanho da Alemanha, suas maiores imperfeições seriam de apenas 1 mm.

A luz produzida é projetada em wafers de silício de 300 mm, que se movem a velocidades de ~1 m/s com uma precisão de 0,2 nm, menor do que a largura de um único átomo de silício. É como acertar um alvo em São Francisco, vindo de Nova York, com a precisão de um fio de cabelo humano.

Essa precisão permite a produção de chips como o NVIDIA H100, que utiliza o processo de 4 nm da TSMC com 15 camadas de EUV e 80 de DUV. Cada camada deve se alinhar com precisão nanométrica, e uma única máquina processa cerca de 100 wafers por hora, gerando aproximadamente US$ 150 mil em chips por hora.

Por dentro da Máquina EUV da ASML

O monopólio da ASML é sustentado por uma rede de fornecedores altamente especializada, incluindo Zeiss (óptica), Trumpf (lasers) e VDL (estruturas), resultado de 40 anos de codesenvolvimento, 40 mil patentes e parcerias com mais de 700 fornecedores. Replicar essa tecnologia exigiria décadas e investimentos superiores a US$ 100 bilhões. Cada máquina é composta por mais de 100 mil peças, enviadas em 40 contêineres, e leva quatro meses para ser instalada.

Placa com chip NVIDIA H100, feito no processo de 4 nm da TSMC com 15 camadas de EUV e 80 de DUV

Hoje, apenas TSMC, Samsung e Intel possuem capacidade de operar as avançadas máquinas EUV da ASML, fundamentais para fabricar chips densos o suficiente para a IA moderna. Um único H100 contém 80 bilhões de transistores, e gerações futuras precisarão de mais de 100 bilhões, algo impossível sem a tecnologia EUV. Enquanto modelos de linguagem avançados (LLMs) representam a ponta do iceberg da tecnologia de IA, a ASML sustenta as bases ocultas, mantendo viva a Lei de Moore e impulsionando o futuro da computação.

ASML: A empresa holandesa por trás do avanço da IA e da Lei de Moore – Forças Terrestres – Exércitos, Indústria de Defesa e Segurança, Geopolítica e Geoestratégia

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The Economist: De Apple à Starbucks, o sonho das empresas ocidentais na China está morrendo

O crescimento econômico está desacelerando, a concorrência está se acirrando e as tensões geopolíticas se aproximam

Por Estadão/The Economist – 15/12/2024

As coisas nunca pareceram tão boas para as empresas estrangeiras na China, pelo menos de acordo com o Conselho para a Promoção do Comércio Internacional do país. O órgão, que é controlado pelo ministério do comércio, afirma que 90% das empresas estrangeiras classificam sua experiência na China como satisfatória ou boa. De acordo com uma pesquisa recente realizada pelo conselho, as empresas estrangeiras afirmam que a economia é forte, os mercados locais são atraentes e suas perspectivas são brilhantes. Após anos de isolamento durante a pandemia da covid-19, o governo da China insiste que o país está novamente aberto para negócios e que as reformas facilitaram a vida das empresas estrangeiras.

Os executivos dessas empresas zombam de tudo isso. Muitos dizem que agora têm dificuldade para justificar o investimento no país e falam em cortar pessoal. Em uma pesquisa recente realizada pela Câmara Americana de Comércio em Xangai, menos da metade dos entrevistados disse estar otimista em relação às perspectivas de seus negócios na China nos próximos cinco anos – um recorde de baixa. Em 4 de dezembro, a General Motors (GM), uma montadora americana de automóveis, disse que reduziria o valor de suas joint ventures na China, que já foram prósperas, e fecharia algumas de suas fábricas no país. Em 9 de dezembro, foi noticiado que o governo da China estava abrindo uma investigação de concorrência contra a Nvidia, a campeã americana de chips de IA.

Nas últimas décadas, os chefes ocidentais olharam para a China não apenas como um lugar para fabricar coisas baratas, mas como um mercado vasto e crescente para seus produtos. De acordo com nossa análise, as vendas na China de empresas americanas e europeias listadas atingiram um pico de US$ 670 bilhões (R$ 4,04 trilhões) em 2021, representando 15% da receita total dessas empresas. Desde então, as coisas pioraram. No ano passado, as vendas caíram para US$ 650 bilhões (R$ 3,9 trilhões) e a participação na receita total caiu para 14%. Este ano não mostrou nenhum sinal de melhora. Das empresas em nosso conjunto de dados que relatam vendas trimestrais na China, quase metade viu essas vendas diminuírem, ano a ano, no período de relatório mais recente.

As empresas que estão enfrentando redução nas vendas no país vão desde a Apple, uma gigante da tecnologia, e a Volkswagen, uma fabricante de automóveis, até a Starbucks, uma cadeia de cafeterias, e a LVMH, um conglomerado de luxo. “Já deveríamos ter revertido a situação”, reclama o diretor regional de uma empresa global. Outro executivo estrangeiro lamenta que os dias de crescimento febril de sua empresa na China tenham acabado. Embora algumas empresas ocidentais, como a Eli Lilly, fabricante de medicamentos, e o Walmart, gigante do varejo, continuem a crescer no país, suas fileiras estão diminuindo constantemente.

Um dos motivos para isso é a estagnação econômica da China. Uma crise imobiliária fez os preços dos imóveis em todo o país despencarem e levou os consumidores a apertarem o cinto. Em setembro, o governo central sinalizou que faria o que fosse necessário para reaquecer a economia e, em 9 de dezembro, anunciou que a China mudaria para uma política monetária “moderadamente frouxa” pela primeira vez em mais de uma década. Mas as expectativas continuam baixas. As vendas de imóveis ainda estão caindo, em comparação com o ano passado, e provavelmente continuarão caindo até 2025. Apesar das promessas do governo de estimular o consumo, os indicadores de demanda estão em baixa.

A pressão deflacionária está prejudicando todas as empresas da China, não apenas as estrangeiras, observa Bo Zhengyuan, da Plenum, uma consultoria de Pequim. No final de outubro, 27% das empresas industriais chinesas estavam registrando prejuízos. O excesso de oferta em vários setores, de veículos elétricos (EVs) a materiais de construção, levou a ferozes guerras de preços. Mary Barra, chefe da GM, culpou a estratégia de uma “race to the bottom” (que significa minar os preços da concorrência sacrificando padrões de qualidade e de segurança) pelas dificuldades da empresa em ganhar dinheiro no país.

No entanto, as empresas ocidentais também estão sendo superadas por rivais chineses. A Starbucks cedeu sua participação no mercado para a Luckin Coffee, uma concorrente local mais barata que, em setembro, tinha 21 mil lojas no país, cerca de três vezes mais do que a rede americana e mais do que 13 mil no ano anterior. Brian Niccol, o novo chefe da Starbucks, disse aos investidores em outubro que a empresa enfrenta uma concorrência “extrema” na China. Diz-se que a empresa está considerando vender uma participação em seus negócios na China para um parceiro local.

Em muitos setores, as empresas ocidentais não têm mais a vantagem tecnológica que tinham sobre os rivais chineses. Os fabricantes chineses de robôs industriais agora fornecem quase metade do mercado local, em comparação com menos de um terço em 2020. Os problemas da Apple no país foram agravados pelos novos e chamativos smartphones da Huawei, incluindo a linha Mate 70, que foi lançada em 26 de novembro.

Os veículos elétricos produzidos pela BYD, NIO e outras montadoras chinesas não são apenas muito mais baratos do que os ocidentais, mas também estão repletos da tecnologia inteligente que os consumidores locais desejam. Quando o mercado chinês ainda estava em franca expansão, as empresas ocidentais conseguiam aumentar suas vendas no país, mesmo quando perdiam participação. Elas não têm mais esse luxo.

Se tudo isso não fosse ruim o suficiente, as empresas ocidentais também estão se tornando um dano colateral na rivalidade entre seus governos e o da China. Em 2 de dezembro, os Estados Unidos introduziram novas restrições à venda de ferramentas de fabricação de chips para determinadas empresas chinesas, bem como de chips de memória de alta largura de banda. Isso prejudicará os fabricantes americanos de equipamentos de semicondutores, como Applied Materials, Lam Research e KLA, bem como a ASML, fabricante holandesa de ferramentas avançadas de litografia.

Outras empresas ocidentais de chips também podem sofrer com isso. Após o anúncio, quatro associações industriais chinesas responderam com um apelo para reduzir as compras de chips americanos. O momento da investigação da Nvidia pela China sugere que ela também pode ser um ato de retaliação às restrições dos Estados Unidos.

As empresas de setores sensíveis, como o de fabricação de chips, estão familiarizadas com o risco associado às suas vendas na China. No entanto, a lista de empresas expostas a perturbações geopolíticas está aumentando. As ações dos fabricantes europeus de conhaque, incluindo a Rémy Cointreau e a Pernod Ricard, caíram em outubro depois que a China disse que iria impor medidas antidumping sobre a bebida, aparentemente em retaliação às tarifas cobradas pela UE sobre os veículos elétricos chineses.

No mês passado, o fundador da Uniqlo, uma varejista de roupas japonesa, provocou a ira dos internautas chineses quando disse que a empresa não usava algodão de Xinjiang, uma região da China atolada em alegações de trabalho forçado. O Ministério do Comércio da China poderá, em breve, impor restrições às operações locais da pvh, proprietária americana da Tommy Hilfiger e da Calvin Klein, por cumprir uma lei americana que proíbe o uso de algodão da região.

Se Donald Trump levar adiante sua ameaça de aumentar as tarifas sobre os produtos chineses, Xi Jinping poderá responder dificultando ainda mais a vida das empresas americanas. As empresas estrangeiras na China estão presas no meio de uma perigosa luta geopolítica, escreve Andrew Polk, da Trivium China, outra consultoria. Seus problemas não diminuirão tão cedo.

The Economist: De Apple à Starbucks, o sonho das empresas ocidentais na China está morrendo – Estadão

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Câmera inteligente ajuda a achar criminosos até pela cor da roupa; veja como funciona

Equipamentos fazem reconhecimento facial e detectam movimentos suspeitos; desafio, dizem especialistas, é integrar a outras políticas e evitar violações de privacidade

Por Giovanna Castro – Estadão -28/04/2024 

Câmeras inteligentes que fazem reconhecimento facial, identificam bandidos pela cor da roupa ou alertam sobre movimentações suspeitas, como pular um muro, têm sido apostas do poder público para frear a violência urbana. Além de identificar suspeitos com base no relato da vítima logo após o roubo, por exemplo, os softwares podem apontar padrões criminais, como rotas de fuga ou áreas com recorrência de casos.

O desafio, segundo especialistas, envolve integrar o uso da tecnologia a outras estratégias de segurança pública. Além disso, é preciso adotar protocolos de privacidade e evitar vieses racistas e falhas na identificação.

Curitiba e Santo André, no ABC paulista, reduziram o roubo veículos em 40% e 43%, respectivamente, um ano após a implementação da Muralha Digital, em que radares reconhecem placas de veículos roubados nas principais vias e bordas das cidades, fazendo acompanhamento da rota seguida por eles.

São José dos Campos (SP), apontada como uma das mais avançadas na estrutura tecnológica anticrime, adotou câmeras com inteligência artificial (Centro de Segurança e Inteligência, o CSI) em 2021. Conforme balanço da gestão municipal, os roubos caíram 33% entre 2020 e o ano passado.

Os equipamentos têm leitor de placa, reconhecimento facial que busca procurados pela Justiça e desaparecidos e rastreiam suspeitos por características relatadas pela vítima, como tipo da roupa ou se usava bicicleta na hora do crime.

Equipamentos desse tipo alertam sobre movimentos suspeitos, como pular o muro de uma propriedade privada ou imóvel público. Esta funcionalidade não é utilizada em São José, mas sim em São Paulo, que recentemente adotou a mesma tecnologia.

“Automaticamente é detectado que houve uma invasão de perímetro e é disparado um alarme na central de operações”, afirma Vanderson Stehling, responsável pela implementação das tecnologias da empresa chinesa Hikvision, fornecedora em São José dos Campos e agora também na capital paulista.

A Prefeitura de São Paulo anunciou em agosto do ano passado o projeto de comprar 20 mil câmeras inteligentes para a segurança pública. Hoje, segundo o Município, 10 mil já estão em funcionamento.

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A operação começou, de fato, em fevereiro. Entre os locais que já contam com o equipamento, está a Ponte Estaiada, na zona sul, a Avenida Paulista e a Praça da Sé, na região central. Até o fim do ano, as 20 mil câmeras devem estar funcionando, segundo a Prefeitura.

Um dos principais objetivos é monitorar o centro, que tem sofrido com frequentes ondas de roubos, sobretudo de celulares, e o espalhamento de usuários de drogas da Cracolândia. Para região, são previstas 3 mil câmeras.

Outro foco são os principais locais de circulação de pessoas, carros e conexões com outras cidades – esses últimos, considerados chave na procura por veículos roubados.

O projeto Smart Sampa, da gestão Ricardo Nunes (MDB), foi alvo de questionamentos, especialmente pelo uso de reconhecimento facial, risco de vazamento de dados sensíveis e impacto na privacidade, sobretudo diante das exigências da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD).

O projeto chegou a ser suspenso por decisão da Justiça, mas a iniciativa foi retomada pela Prefeitura após ajustes no edital. Ainda em 2023, a gestão municipal afirmou ter definido um “sistema de controle muito rígido” para as câmeras.

Sobre as preocupações com o reconhecimento facial – houve críticas sobre o risco de a tecnologia apresentar vieses racistas -, o secretário adjunto da pasta municipal da Segurança Urbana, Junior Fagotti, disse que “a plataforma só vai levar pontos biométricos faciais, sem reconhecer cor”.

A gestão afirma ainda que a identificação de foragidos não dependerá só da câmera, mas também da avaliação presencial. Um comitê composto por sete pastas – entre elas a de Segurança Urbana, Transportes, CET e SPTrans, e eventualmente as polícias Civil e Militar – será responsável por analisar as imagens. O custo mensal previsto para as 20 mil câmeras é de R$ 9,8 milhões por mês.

“Na primeira semana da operação, o programa possibilitou a localização de mulher desaparecida, por meio do banco de dados da Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania. Desde então, outras quatro desaparecidas foram localizadas”, diz a Prefeitura.

“Esse recurso permite que os agentes de segurança identifiquem qualquer procurado da Justiça ou uma invasão, possibilitando resposta imediata e eficaz para inibir potenciais ameaças a segurança e ao patrimônio público”, acrescenta.

O governo da Bahia já capturou 1.523 foragidos da Justiça, com ordens de prisão, em quatro anos do seu programa de câmeras com reconhecimento facial em espaços públicos e grandes eventos, como o carnaval de Salvador. O sistema já identificou até um criminoso que estava nas ruas como folião, fantasiado de mulher.

Segundo Stehling, da Hikvision, toda a operação das câmeras fica a cargo da administração municipal. Nenhuma outra empresa, diz ele, tem acesso aos dados, o que é uma das maiores preocupações de especialistas, por se tratarem de informações sensíveis.

As câmeras também devem fazer parte do sistema de “Muralha Digital”, que vem sendo testado pelo governo do Estado para reforçar o monitoramento de carros roubados.

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‘Só implantar tecnologia não resolve’

“Sou um grande entusiasta da tecnologia, mas só ela não resolve. Em relação ao uso de inteligência artificial, por exemplo, temos um desafio anterior e grande, ainda, que é o fato da nossa base de dados ser ruim. Isso impacta na qualidade do produto da IA”, afirma Marcelo Batista Nery, sociólogo e pesquisador do Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo (USP).

Segundo ele, criar leis que garantam segurança a dados sensíveis e evitem vieses racistas, sem banir o progresso tecnológico, é o caminho. “Toda essa tecnologia atinge diferentes grupos, de modos diferentes”, diz.

“Tem de ser discutida com a sociedade e servir para melhorar a qualidade de vida, ao mesmo tempo em que protege os mais vulneráveis”, reforça ele, também pesquisador da Associação Brasileira de Empresas de Softwares (Abes).

Johann Dantas, presidente da Associação Nacional de Cidades Inteligentes, Tecnológicas e Inovadoras (ANCITI), acredita que um gargalo é a falta de infraestrutura tecnológica básica, como pontos públicos de rede de internet, em muitas cidades brasileiras.

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Após resolver a infraestrutura, vem a complexidade de implementação, o que pode incluir testes com diferentes tipos de tecnologia. “Precisa ouvir as pessoas, conhecer os problemas daquele local e buscar por soluções”, acrescenta ele, também CEO da Empresa de Tecnologia da Informação e Comunicação do Município de São Paulo (Prodam). “Nem sempre, o que funciona aqui, vai funcionar lá.”

A integração de diferentes bases de dados também é considerada chave. “Um exemplo disso é o (sistema de câmeras) Detecta, do governo do Estado de São Paulo, que junta as bases da Polícia Civil, da Polícia Militar e do Detran”, destaca.

Botões do pânico e até óculos com IA

Em São José dos Campos, outra inovação, iniciada em 2023, são óculos com inteligência artificial pelos guardas civis. Integrados ao sistema do Centro de Segurança e Inteligência (CSI) por meio de câmeras inteligentes acopladas aos óculos, eles fazem reconhecimento facial e leem placas de veículos.

Na central, agentes de segurança analisam as imagens enviadas pelos óculos como se estivessem vendo presencialmente, o que aumenta a capacidade de avaliação do entorno.

Já o guarda que usa os óculos pode ler, na tela do olho direito, informações enviadas pelo CSI e obter ajuda remota com vídeos e até a ficha criminal do suspeito.

Óculos inteligentes permitem o compartilhamento de imagens registradas por guardas nas ruas com central de monitoramento

Óculos inteligentes permitem o compartilhamento de imagens registradas por guardas nas ruas com central de monitoramento Foto: Adenir Britto/PMSJC

A tecnologia não precisa ser manejada somente pelos agentes de segurança, mas em alguns casos é utilizada pelo próprio cidadão. Em São José, vítimas de violência doméstica carregam um dispositivo portátil, semelhante a um chaveiro.

Quando acionado, ele dispara alerta no CSI. O “chaveiro” tem conexão com a internet e fornece à polícia a localização da vítima em tempo real.

“Isso nos permite ter agilidade e acompanhamento da mulher, porque ela aciona o dispositivo e nunca fica no mesmo lugar, esperando ser agredida”, diz Bruno Santos, secretário de Proteção ao Cidadão na cidade. Mais de 80 agressores já foram detidos por meio desse modelo.

Em Santo André, o botão de acionamento rápido de socorro para vítimas de violência doméstica funciona em um aplicativo. Chamado ANA, ele é baixado no celular da mulher por equipes da Patrulha Maria da Penha, da Guarda Civil Municipal, mediante apresentação da medida protetiva judicial.

“Com apenas dois toques, a vítima consegue realizar o acionamento da GCM”, diz a prefeitura. Os guardas passam a ter acesso à localização GPS da vítima e enviam a viatura mais próxima. Em dois anos e meio de projeto, 420 mulheres já instalaram o app; o botão foi acionado 30 vezes e 6 agressores foram presos em flagrante.

Em São Paulo e Curitiba, aplicativos similares acionam rapidamente a polícia em caso de atentado a escolas. Eles são costumam ser colocados à disposição só para membros da comunidade escolar, a fim de evitar alarmes falsos.

A agilidade no acionamento também é uma estratégia para capturar ladrões e, eventualmente, conseguir a devolução de itens. Por isso, têm se popularizado os botões de pânico mesmo em municípios de menor porte, como Itabira, em Minas Gerais, de 120 mil habitantes.

“Recomendamos (o botão de pânico) para locais de grande movimento, onde há alto índice de roubo e furto”, afirma Ibrahim Boufleur, CEO da Tecno IT, uma das empresas que fornecem a tecnologia .

Tecnologia já existe em Itabira, em Minas Gerais, e é indicada para locais com grande circulação de pessoas e alto índice de roubos e furtos

“São locais estratégicos, como grandes praças e parques. Não seve ser colocado em todo e qualquer local”, continua ele, responsável pelo projeto de Itabira, que utiliza o botão acoplado a postes.

Acionado, o botão dispara um alarme no próprio poste e na central de monitoramento da guarda municipal ou da PM. Também envia imagem do local no momento em que o botão foi acionado – a tecnologia precisa estar integrada ao sistema de câmeras. “Assim, é possível avaliar se foi alarme falso ou não”, diz Boufleur.

Câmera inteligente ajuda a achar criminosos até pela cor da roupa; veja como funciona – Estadão

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Depois de ‘brain rot’, palavra do ano deverá ser ‘agente’

Ligado à inteligência artificial, termo refere-se a um tipo de despachante virtual

Ronaldo Lemos – Folha – 22.dez.2024

Advogado, diretor do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro.

Saiu há pouco a palavra do ano em 2024, escolhida pelo dicionário Oxford. Com 37 mil votos e depois de um longo debate, foi escolhida a expressão “brain rot” (algo como apodrecimento cerebral). A expressão foi definida pelo dicionário como “a suposta deterioração mental de uma pessoa resultante do consumo excessivo de conteúdos online considerados triviais ou simplórios”.

Seu uso não é novo. O primeiro registro foi no livro “Walden”, de Henry David Thoreau, publicado em 1854. Na época, ele usou a expressão para criticar os jornais, a mídia do momento.

A tradução para brain rot é podridão cerebral, nesse caso, especificamente o tipo causado pela sobrecarga digital – Carolina Daffara

Nas palavras dele: “Tenho certeza de que nunca li nenhuma notícia memorável em um jornal. Para um filósofo, todas as notícias são fofocas. Quem as edita são velhas tomando chá. Para quem é estudioso ou sagaz, para quem não tem o cérebro apodrecido, não há uso para elas. O funcionamento saudável do intelecto depende de se manter longe de repetições sem fim”.

É nessa vibe que vou ousar prever qual será a palavra do ano em 2025. Para mim, essa palavra será “agente” ou qualquer derivação dela relacionada à inteligência artificial. No inglês há vários neologismos, como agentic (agêntico), agentify (agentificar), agentness (agenciedade), agentive (agentivo), agentoid (agentoide) etc. Vamos combinar que, se qualquer coisa parecida vencer no ano que vem, minha previsão vai se ter concretizado. E claro, ninguém vai se lembrar disso.

Mas, como falta ainda um ano para o fim de 2025, vale investigar por que “agente” está com tudo. O tema é longo, então vou dar só uma dica. Ler o artigo que Tiago Peixoto e Luke Jordan publicaram na semana passada em inglês chamado “Agentes para poucos e filas para muitos? Ou agentes para todos?“.

No texto, eles fazem uma proposta ousada. Democratizar o uso de agentes de inteligência artificial para acessar serviços públicos. Afinal, os agentes de IA já estão em toda parte. Por exemplo, eles arruinaram os sites de reservas de restaurantes nos EUA.

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Pessoas usando agentes de IA reservam todos os horários disponíveis nos restaurantes mais badalados. Depois revendem essas reservas por (muito) dinheiro no mercado secundário. O mesmo acontece com shows disputados. Os ingressos esgotam em minutos. A maior parte deles é comprada por cambistas usando agentes de IA. Depois revendem tudo por preços maiores no mercado secundário.

O que Tiago e Luke propõem é que o uso de agentes de IA possa ser feito também com os serviços públicos. Em vez de ficar na fila aguardando por um serviço público ineficiente, um agente de IA poderia fazer isso por você. Por exemplo, nos EUA a plataforma DirectFile preenche o seu Imposto de Renda automaticamente. Na África do Sul, o site WeQ4U ajuda no licenciamento de veículos.

No Brasil, é comum usar “despachantes” para agilizar o acesso a serviços públicos. Só que eles são acessíveis a poucos. O que eles sugerem é que a IA possa virar o despachante universal, capaz de auxiliar qualquer pessoa, de graça, a acessar os serviços públicos de forma eficiente. Thoreau provavelmente iria gostar.

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A época da superioridade aérea dos EUA está chegando ao fim?

A crescente eficácia dos sistemas de defesa antiaéreos pode enfraquecer os armamentos mais poderosos do Ocidente

Por Estadão/The Economist – 20/12/2024 

Em 26 de agosto, os céus da Ucrânia retumbaram com o rugido de 230 mísseis e drones Shahed carregados de explosivos. Foi o maior ataque desse tipo feito pela Rússia e deveria ter sido devastador, já que os maiores mísseis carregavam até 700 kg de explosivos. No entanto, logo ficou claro que a Rússia havia falhado. A Ucrânia alegou ter derrubado 201, ou 87%, dos mísseis, um exemplo claro do quanto o poderio aéreo tem surtido pouco efeito na maior guerra da Europa em mais de oito décadas.

A incapacidade da Rússia, dona da maior força aérea da Europa com cerca de 600 aviões de guerra, de operar livremente sobre a Ucrânia causou consternação não apenas para os generais de Vladimir Putin. Também gerou preocupação entre estrategistas ocidentais, que há muito fazem seus planos com a suposição de que poderiam ganhar e manter o controle dos céus, protegendo forças amigas e lançando bombas e mísseis para derrotar formações terrestres inimigas muito maiores. 

Durante as duas guerras do Golfo, por exemplo, aeronaves da coalizão penetraram nas defesas aéreas integradas do Iraque e destruíram as divisões blindadas de Saddam Hussein bem antes que estas pudessem enfrentar forças terrestres americanas ou britânicas. No entanto, agora que os mísseis antiaéreos se tornaram mais eficazes e, ao mesmo tempo, drones pequenos e baratos proliferaram nos campos de batalha, alguns se preocupam com a possibilidade de o domínio aéreo do Ocidente estar chegando ao fim.

“Nas minhas três décadas e meia usando uniforme, não acho que tenha visto um ambiente estratégico mais desafiador”, disse Sir Richard Knighton, chefe da Força Aérea Britânica (Royal Air Force, RAF). “Nós desfrutamos amplamente da supremacia aérea… Esse não será o caso no futuro.” Isso é particularmente preocupante caso os Estados Unidos e seus aliados tenham que se defender de um ataque da China para assumir o controle de Taiwan, ou da Rússia contra um membro da Otan.

China e Rússia têm sistemas complexos de defesa aérea em múltiplas camadas que unem uma variedade de sensores avançados e mísseis superfície-ar (SAMs). Embora essas defesas aéreas em camadas sejam da época da Guerra Fria — e tenham se mostrado brutalmente eficazes para derrubar jatos israelenses na Guerra do Yom Kippur de 1973 —, novas tecnologias digitais que permitem que o radar opere em várias frequências melhoraram os alcances de detecção, inclusive contra aeronaves “invisíveis”. Mísseis de longo alcance equipados com melhores sistemas de orientação agora podem ameaçar aeronaves a centenas de quilômetros de distância.

Os equipamentos menores podem parar, se armar, disparar e partir em questão de minutos. As forças aéreas ocidentais tiveram dificuldades para derrotar as defesas aéreas móveis no passado. Em 1999, os SAMs sérvios dispersos provaram ser uma ameaça às aeronaves da Otan, até mesmo derrubando um F-117 Nighthawk americano considerado invisível. Mas agora, reverter as defesas aéreas “do tamanho, profundidade e complexidade das da Rússia ou da China provavelmente levaria semanas e possivelmente meses de combate em larga escala”, argumenta um relatório do Royal United Services Institute (RUSI), um centro de estudos estratégicos em Londres.

É claro que nenhuma defesa é impenetrável. Em outubro, acredita-se que Israel tenha usado F-35s invisíveis ao radar para destruir os SAMs russos do Irã, permitindo ataques de mísseis disparados por aviões de combate convencionais. Em um enfrentamento no Pacífico, os Estados Unidos provavelmente enfraqueceriam as defesas aéreas chinesas montando grandes “pacotes de ataque”. Eles conteriam aviões de ataque eletrônico e F-35s que bloqueariam ou hackeariam radares e sistemas SAM, abrindo um corredor temporário para mísseis de longo alcance ou bombardeiros furtivos como o B-2 Spirit e o novo B-21 Raider. Os caças teriam que circular de forma protetora. No entanto, os EUA não podem mais contar com a obtenção de “supremacia aérea constante por dias e semanas a fio”, disse o general David Allvin, chefe da Força Aérea dos EUA (USAF), no início de 2024. Em vez disso, os estrategistas falam em obter breves “janelas de domínio”.

Mesmo isso estaria além das capacidades da maioria das outras forças aéreas ocidentais, que carecem de mísseis guiados por radar e do treinamento intensivo necessário para suprimir as defesas aéreas inimigas. Se os EUA se distraíssem na Ásia ou se recusasse a ajudar a Europa, as forças aéreas da Europa teriam dificuldade para “estabelecer superioridade aérea sobre o território contestado pela Rússia ou qualquer outro estado oponente com SAMs móveis”, argumenta Justin Bronk da RUSI.

No chão

Igualmente preocupante é a sobrevivência das aeronaves ocidentais aos ataques iniciais de uma guerra, para poderem voar e combater. Embora superada no ar pela Rússia, a Ucrânia conseguiu usar drones baratos para destruir aviões russos no solo a quase 600 quilômetros do território controlado pela Ucrânia. Em outubro, o Irã lançou mísseis balísticos contra bases aéreas israelenses, danificando edifícios, pistas de taxiamento e pistas de pouso. Finlândia e Suécia praticam operações a partir de bases dispersas e simplificadas, mas seu modelo é difícil de copiar. Muitas forças da Otan usam aviões projetados para operar a partir de bases bem equipadas.

A ameaça é particularmente aguda no Pacífico, onde os Estados Unidos consolidaram muitos de seus aviões em um pequeno número de bases, como Kadena, no Japão ou Andersen, em Guam. Um jogo de guerra do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais, um think tank americano, descobriu que em uma guerra por Taiwan, os mísseis chineses provavelmente destruiriam centenas de aviões americanos, japoneses e taiwaneses ainda na pista. Os EUA querem dispersar seus aviões, mas isso complicaria a logística ao exigir que pessoal, combustível e peças fossem transportados pela vastidão do Pacífico.

Se chegarem aos céus, os caças, bombardeiros e aeronaves de apoio dos Estados Unidos teriam que enfrentar um oponente forte. Acredita-se que a força aérea da China produz caças invisíveis mais rápido do que os Estados Unidos. Embora a qualidade dos pilotos chineses seja questionada, o radar e as armas afixadas em suas aeronaves são cada vez mais vistos como de primeira linha. A China coloca em campo “mísseis ar-ar de longo alcance que têm um alcance maior do que os mísseis americanos, e continua a desenvolver capacidades ainda mais avançadas”, observa o Instituto de Estudos Aeroespaciais da China, um braço de pesquisa da USAF. O PL-17 da China, por exemplo, um míssil ar-ar de 400 km de alcance, é projetado para atacar muito além das linhas de frente, transformando “facilitadores” americanos, como aviões-tanque ou aviões de comando e controle, em alvos atraentes.

Todas essas ameaças surgem em um momento em que as frotas aéreas ocidentais estão sobrecarregadas. As forças aéreas da Otan diminuíram desde o fim da Guerra Fria. Em teoria, as aeronaves e as armas que elas carregam se tornaram muito mais mortais, então menos delas podem ser necessárias para atingir um determinado número de alvos. Mas muitas forças aéreas, em uma tentativa de cortar custos, seguiram essa lógica ao extremo, diz David Hiley, da Renaissance Strategic Advisors, uma consultoria de defesa. “Uma das nossas maiores vulnerabilidades é… o pequeno número de aeronaves [e] de pessoas para pilotá-las.”

Entre o fim da Guerra Fria e 2022, o número de caças na USAF caiu de 4.321 para cerca de 1.420, avalia o Mitchell Institute, um centro de estudos estratégicos. Isso está bem abaixo do que é necessário, avalia o general Mark Kelly, ex-chefe do Comando de Combate Aéreo da USAF. A Força Aérea também está enfraquecida pela sua péssima “prontidão”, uma medida de quantos aviões podem de fato voar. Décadas de voos intensos no Oriente Médio com orçamentos limitados levaram à canibalização de aviões para peças de reposição. “Nós literalmente consumimos o tecido muscular da força aérea”, lamentou o general.

Orçamentos de defesa apertados na Europa reduziram as forças aéreas até o osso. Um relatório parlamentar britânico de 2023 observou claramente que o “Reino Unido simplesmente [tem] muito poucas aeronaves de combate para dissuadir agressores e se defender de forma confiável contra ataques”. As forças aéreas europeias também têm sido mesquinhas quanto ao treinamento para missões de alta intensidade. Alguns pilotos voam apenas 80 horas por ano, embora a Otan estipule que os pilotos precisem de pelo menos 180 horas anuais de voo. A ausência de uma ameaça séria desde o fim da Guerra Fria significa que os exercícios geralmente enfatizam “a segurança do voo em detrimento de levar a tripulação, a aeronave e os sistemas de armas aos seus limites”, observa Bronk.

Enquanto isso, os custos de compra e operação de aeronaves de alta tecnologia dispararam. O programa F-35 dos Estados Unidos, essencial para a modernização de muitas forças da Otan e aliadas, está agora mais de uma década atrasado e cerca de US$ 209 bilhões acima do orçamento, de acordo com o Government Accountability Office. Até mesmo versões turbinadas de modelos mais antigos são caras. O F-15EX, a mais recente variante de um caça projetado na década de 1970, custará US$ 90 milhões, em comparação com cerca de US$ 60 milhões (ajustados pela inflação) em 1998. Alguns se preocupam que o custo dos programas nos Estados Unidos e na Europa para construir caças de sexta geração pode ser tão proibitivo que apenas pequenas quantidades sejam compradas.

Soldados drones

Alguns argumentam que jatos furtivos são muito caros e devem ser substituídos por enxames de drones baratos. Menos drásticos são os planos para construir sistemas não tripulados mais baratos que poderiam acompanhar um caça tripulado na batalha. Em abril, a USAF concedeu o primeiro lote de contratos para seu programa Collaborative Combat Aircraft (CCA), que produzirá mais de 1.000 drones avançados. Esses drones devem ser o que os militares chamam de “bucha de canhão”, o que significa que são baratos o suficiente para que possam ser perdidos em grandes números. Suas primeiras iterações provavelmente executarão tarefas básicas, como reconhecimento, reabastecimento de aviões ou transporte de mísseis ar-ar que os caças guiariam para seus alvos.

Mas os custos até mesmo desses sistemas parecem estar aumentando inexoravelmente. Os CCAs precisam ser rápidos e ter longo alcance para acompanhar os caças tripulados. Eles provavelmente também precisam de alguma capacidade invisível para evitar a detecção. E eles precisarão de links de comunicação robustos que não sejam facilmente bloqueados. Nada disso é barato. Por enquanto, a USAF quer manter o preço abaixo de US$ 30 milhões cada, cerca de um terço do custo de um F-35. Isso pode ser considerado bucha de canhão para consumo em combate, mas a margem é pequena.

Outros acham que o Ocidente deveria, em vez disso, abraçar a revolução dos pequenos drones. A guerra na Ucrânia mostrou que pequenos drones podem desafiar noções tradicionais de poder aéreo, arrancando partes do espaço aéreo de aeronaves tripuladas, embora em altitudes mais baixas, contestando o que alguns estrategistas estão chamando de “litoral aéreo”. Isso pode funcionar em campos de batalha apertados na Europa ou no Estreito de Taiwan, mas pequenos drones teriam alcance insuficiente para cruzar o Pacífico, por exemplo.

As forças aéreas ocidentais ainda são as melhores do mundo. Mas elas devem se preparar para a mudança. “A maneira como as forças aéreas olhavam para a superioridade aérea não se aplica mais”, adverte Greg Malandrino, um ex-piloto de caça da Marinha dos EUA agora no Centro de Avaliações Estratégicas e Orçamentárias, um think tank americano. “A era épica do domínio aéreo ocidental… chegou ao fim.” / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

A época da superioridade aérea dos EUA está chegando ao fim? – Estadão

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Esta montadora que nasceu numa universidade da China vai investir US$ 1 bilhão no Brasil

A GAC Motor chega ao Brasil para desenvolver motores flex, inteligência artificial para aplicativos de mobilidade, como o 99, e até carros voadores. Veja como a empresa pretende mexer com o setor de mobilidade e crescer fora da China

Dr. Wey Haigang, alto executivo chinês da GAC Motor: “Viemos para o Brasil não só para vender carros, mas sim para desenvolver um futuro entre os dois países” (Nathy Silva/Divulgação)

Layane Serrano – Exame –  13 de dezembro de 2024 

A montadora chinesa GAC Motor, que nasceu em uma universidade na China, prepara um marco significativo em sua expansão global ao anunciar um investimento de R$ 1 bilhão no Brasil para 2025. Com uma estratégia que combina inovação tecnológica e colaboração acadêmica, a empresa planeja desenvolver motores flex, inteligência artificial para aplicativos de mobilidade – como o 99 – e até carros voadores em parceria com universidades brasileiras.

“O Brasil é um mercado prioritário para a nossa expansão, não apenas por sua vasta população e potencial de mercado, mas também por ser um país aberto, justo e com uma excelente relação com a China”, afirmou Dr. Wey Haigang, alto executivo chinês da GAC Motor.

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O crescimento acelerado da empresa impressiona. Apenas em exportações, a GAC Motor atingiu 45 mil unidades em 2023, com expectativa de dobrar esse número este ano. Além disso, a marca ampliou sua presença global de 40 para 70 países em 2024 e triplicou sua rede de concessionárias, passando de 170 para 400 unidades no mesmo período.

“Estamos aqui para construir um futuro compartilhado entre Brasil e China, oferecendo não apenas carros, mas serviços e soluções inovadoras para ambos os países”, destacou o executivo. “Vamos transformar a mobilidade no Brasil a partir de 2025”.

Essa estratégia reflete a visão de longo prazo da montadora, que enxerga na América do Sul – e particularmente no Brasil – um pilar essencial para seu crescimento global.

Em entrevista exclusiva à EXAME, Dr. Wey Haigang, alto executivo chinês da GAC Motor, compartilhou as expectativas da montadora chinesa em 2025 no Brasil.

Como a GAC Motor pretende se destacar no Brasil frente aos concorrentes chineses?

Primeiramente, a GAC é uma empresa chinesa que lidera também o mercado chinês no ramo automobilístico. Temos uma produção de escala de 2.5 milhões de automóveis por ano e engloba vários tipos de automóveis como elétrico, à gasolina, entre outros. Dentro do mercado automobilístico somos fortes e essa é a nossa vantagem. Além disso, somos uma empresa estatal e já estamos na bolsa de Hong Kong e de Xangai.

Temos uma parceria muito forte também com a Honda e a Toyota e isso nos permite que a nossa qualidade seja sempre muito bem avançada. Também temos a nossa própria equipe de P&D e sempre visamos na inovação.

E sobre os nossos produtos, em termos de carros elétricos, o nosso modelo Aion já vendemos 450 mil unidades. Depois de BYD e Tesla, já vem a GAC, estamos na terceira posição.

No Brasil, o mercado brasileiro precisa muito de carro flex e híbrido e nós da GAC somos muitos fortes nesta parte de desenvolvimento de motores.

E vir para o Brasil é uma oportunidade muito boa. O Brasil também está em um momento de transformação para os carros elétricos. Então, a GAC acredita que com a nossa tecnologia temos muitos valores para agregar ao Brasil.

Parceria com universidades existe na China também? Quais parcerias já deram certo e ajudaram a desenvolver o mercado automotivo?

Essa cooperação entre a universidade e empresas é muito comum na China. Tanto que a GAC nasceu dentro de uma universidade de tecnologia na China (Escola Politécnica do Sul da China). O líder de laboratório de P&D também saiu dessa universidade.

Escolhemos essas 3 universidades (Universidade Federal de Santa Catarina, Unicamp e Universidade Federal de Santa Maria) porque são muito fortes nesta parte de motores híbridos. Atualmente, somos fortes em gasolina e parte híbrida, porém na parte de motores flex, talvez o Brasil seja mais forte. Inclusive a Unicamp, nesses últimos anos vem desenvolvendo e estudando bastante este ramo de flex.

O Brasil pode se tornar uma base para exportações de veículos para outros mercados da América Latina?

Somos uma empresa com uma abordagem pragmática e estruturada. Seguimos um passo de cada vez. Inicialmente, nossa estratégia é focada na importação. Posteriormente, iremos avançar gradualmente para estabelecer uma linha de montagem local. Quando atingirmos uma etapa estratégica, planejamos explorar a possibilidade de exportar para outros países da América do Sul, posicionando o Brasil como um polo de distribuição para a região.

O Brasil já possui uma base sólida como exportador no setor automobilístico, produzindo cerca de 4,5 milhões de veículos, dos quais apenas 2,5 milhões são comercializados internamente. Essa infraestrutura de exportação existente nos dá confiança de que, com o tempo, alcançaremos esse patamar.

A GAC ainda é parceira da BYD na China, atuando em conjunto no desenvolvimento e na fabricação de ônibus. Vai existir alguma parceria com a marca aqui no Brasil?

Temos sim projetos em conjunto com a BYD na parte de ônibus elétrico. Estamos abertos à discussão, mas neste primeiro momento no Brasil damos prioridade para o desenvolvimento próprio e ser independente nestes projetos de desenvolvimento.

Qual é a visão da GAC Motor para o futuro da mobilidade em países em desenvolvimento?

Como a política chinesa é de sair da China para o mundo, estamos presentes como participante do Brics e na Rota da Seda, porque temos uma missão de ajudar os países emergentes a se desenvolver.

Nossos projetos têm como prioridade principalmente a África e a América Latina, e o mais importante não é a quantidade de venda, mas sim levar os nossos produtos para esses países. Nosso conceito é levar o produto e adaptar ao local.

Tem alguma prática de ESG na China que vocês vão trazer para o Brasil?

Estamos comprometidos com a redução de carbono e queremos trazer produtos que contribuam para isso, em parceria com instituições. Nosso objetivo é nos firmar como uma empresa local no Brasil. Em novembro, inauguramos nosso escritório no Morumbi, em São Paulo, e contratamos uma equipe brasileira, reforçando nosso compromisso em atrair talentos locais.

A GAC opera em toda a cadeia produtiva, desde a mineração até a reciclagem de baterias, com foco em energia sustentável. Além disso, lideramos o mercado de aplicativos de mobilidade na China, com 25% dos carros do DINI utilizando veículos da GAC, e esperamos oferecer esse serviço no Brasil.

Além do Brasil, a GAC mira em outros países, sejam eles emergentes ou não?

Na verdade, sobre investimento, somos bem flexíveis. Na Tailândia temos investimentos próprios e na Malásia temos joint ventures com outras empresas.

Na África também temos fábricas de montagem. O Brasil é o nosso próximo foco.

Quais foram os avanços globais da companhia?

Apenas em termos de exportação, em 2023 atingimos 45 mil unidades. Nesse ano temos uma expectativa de dobrar esse número de unidades exportadas. Isso significa que estamos em uma velocidade muito rápida de crescimento. Em termos de países, estávamos em cerca de 40 países e neste ano estamos presentes em 70 países. Concessionárias tínhamos 170 espalhadas no mundo, neste ano chegaremos a 400 concessionárias. Esperamos que no Brasil possamos promover cada vez mais.

Qual é a expectativa para esse ano?

A GAC visa o crescimento de longo prazo. O Brasil tem os seus recursos e esperamos que possamos juntos utilizar os recursos, nos adaptar ao país e crescer juntos passo a passo e de forma ativa.

O faturamento global chegou em 490 bilhões em Renminbi (RMB). Neste ano talvez fique igual ou um pouco abaixo por causa do câmbio.

Semanas atrás o presidente da China veio ao Brasil e reforçou a política da China, que valorizamos também, de desenvolver tecnologias e parcerias para que possamos crescer junto com os nossos países parceiros. E o Brasil será o nosso grande investimento em 2025.

Esta montadora que nasceu numa universidade da China vai investir US$ 1 bilhão no Brasil. Entenda o movimento | Exame

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Como a Weg se tornou uma máquina de compra de empresas e chegou a 17 países

Companhia fundada em 1961 tornou-se multinacional de equipamentos e concluiu, neste ano, nos EUA, a maior aquisição de sua história, por US$ 400 milhões, somando mais dez fábricas ao portfólio

Por Ivo Ribeiro – Estadão – 10/09/2024 

Em abril de 1961, um eletricista, um administrador e um mecânico se juntaram, em Jaraguá do Sul (SC), para criar uma empresa especializada em fabricar motores elétricos, à qual deram o nome de Eletromotores Jaraguá, em homenagem à cidade. Foi o embrião, 63 anos atrás, da Weg, que se tornou uma multinacional brasileira reconhecida globalmente por atuar na fabricação de equipamentos elétricos, com destaque em motores e automação industrial.

Hoje, a companhia está presente em 17 países (incluindo o Brasil), com 63 unidades industriais, e apresenta um valor de mercado na Bolsa superior a R$ 220 bilhões, com uma receita anual que caminha para R$ 40 bilhões — fechou 2023 com cifra de R$ 32,5 bilhões. A Weg se destaca ter uma taxa de crescimento anual composta de 18% ao longo dos últimos 28 anos, fruto de crescimento orgânico e de aquisições, em suas informações oficiais.

A denominação Weg é referência às iniciais dos nomes dos três fundadores — Werner Ricardo Voigt, Eggon João da Silva e Geraldo Werninghaus. Cada um deles aportou ao negócio iniciante seus conhecimentos e experiências adquiridos até então.

Werner Voigt, Eggon da Silva e Geraldo Werninghaus, fundadores da Weg

Werner Voigt, Eggon da Silva e Geraldo Werninghaus, fundadores da Weg Foto: Weg/Divulgação

Voight, o eletricista, filho de imigrantes alemães da região de Düsseldorf, havia montado oito anos antes uma pequena oficina no centro de Jaraguá do Sul que fazia manutenção de cerca das duas dezenas de veículos motorizados que então circulavam pela cidade e pela região. O negócio prosperou e mostrou o espírito empreendedor do jovem empresário. Foi Voigt quem idealizou o protótipo de um motor que se tornou o produto originário da Weg. A divisão de motores elétricos é até os dias atuais a referência da companhia.

Eggon João da Silva, que nasceu em 1929 no município vizinho de Schroeder, tinha desde cedo o dom para a atividade de administrador. Em 1957, após 14 anos no principal banco do Estado, tornou-se sócio da João Wiest & Cia. Ltda., empresa especializada em fabricar canos de escape para veículos. Quatro anos depois deixou a empresa, que já tinha 150 funcionários, para fundar a Weg. Foi o primeiro presidente da Weg, por quase três décadas.

Geraldo Werninghaus, o mecânico, nasceu em Rio do Sul e começou sua carreira profissional na Werninghaus & Filhos, oficina de seu pai em Joinville. Iniciou o aprendizado de mecânico aos 14 anos. Segundo a companhia, seus conhecimentos em mecânica e sua criatividade para solucionar problemas, somados às habilidades dos colegas, serviram para tornar a empresa uma referência no Brasil. Na fábrica, ele se encarregava da produção propriamente dita, tornando-se um líder nessa área da empresa. Em 1989, ao deixar as funções executivas e passar ao conselho administrativo, experimentou a carreira pública: foi vereador, deputado estadual e prefeito de Jaraguá do Sul.

A companhia não abre o porcentual exato de participação acionária de cada um dos seus donos, atualmente distribuídos em várias dezenas de herdeiros. Em seu site, na área de relações com investidores, a Weg informa que os três ramos familiares controlam 50,09% das ações por meio da holding WPA Participações. Dessa fatia, cada família detém 33,33%. Os membros das famílias têm ainda, diretamente, 14,49% do capital, totalizando 64,58% das ações em poder dos fundadores.

Anne Werninghaus, neta de Geraldo Werninghaus, é apontada como a maior acionista individual da Weg, com uma fortuna estimada pela revista Forbes, no ranking anual deste ano, de R$ 6,96 bilhões. Anne, que não tem atuação na empresa, como a maioria dos demais herdeiros, recebeu do pai grande parte das ações. A publicação lista 29 herdeiros dos três fundadores da Weg (já falecidos) na sua lista de bilionários brasileiros, com patrimônio somado de R$ 95,6 bilhões.

Com a expansão e a diversificação dos negócios e com sua internacionalização, em uma trajetória de mais de seis décadas, a Weg ganhou projeção no mercado de capitais. O papel da companhia, que encerrou agosto valendo R$ 54,15 na B3, neste ano registrou alta de 50,33%, saindo de R$ 36,02 (valor ajustado no fechamento). No período de 12 meses, valorizou 53,5%. No final de agosto, a multinacional brasileira de equipamentos elétricos atingiu valor de mercado de R$ 227,3 bilhões, só perdendo para Petrobras (R$ 540,1 bilhões), Itaú (R$ 335,5 bilhões) e Vale (R$ 270,4 bilhões) e seguida por Ambev (R$ 202,6 bilhões). Ao final de 2023, a Weg contabilizava cerca de 356 mil acionistas.

Motores elétricos é ainda o produto carro-chefe da companhia, que não abre a participação de receita por produtos. Com motores, acionamentos e redutores elétricos formam uma das sete linhas de produtos, seguida por geradores e transformadores de energia, produtos e sistemas para eletrificação, automação e digitalização. A Weg se distribui em quatro divisões de negócio: Equipamentos Eletroeletrônicos Industriais, Geração, Transmissão e Distribuição de Energia (GTD), Motores Comerciais e Appliance e Tintas e Vernizes.

As primeiras aquisições de ativos da Weg no exterior ocorreram no ano de 2000 no México — onde está consolidando uma plataforma industrial de grande porte, visando atender ao mercado da América do Norte, especialmente os Estado Unidos — e na Argentina. De lá para cá, principalmente a partir de 2010, a Weg se tornou uma máquina de compra de ativos, avançando do Brasil para várias partes do mundo: das Américas, com forte posição nos EUA e no México, além do Brasil, Europa (vários países), Ásia, com destaque para China e Índia, até a África.

Nos Estados Unidos, em setembro passado, a companhia fez seu maior investimento de aquisição. Por cerca de US$ 400 milhões (o equivalente a R$ 1,98 bilhão pelo câmbio da época) comprou a fabricante de motores elétricos industriais e geradores Regal Rexnord. Com o negócio, a Weg herdou uma dezena de fábricas nos EUA, Canadá, México, China, Índia, Itália e Países Baixos.

Primeira presidência durou 28 anos

Em 63 anos, até abril, a Weg foi uma empresa de apenas três presidentes executivos. Até 1989, o comando esteve nas mãos de Eggon João da Silva, que ficou 28 anos no cargo. Passou o bastão para o filho Décio da Silva, e os fundadores foram para o conselho de administração. Décio da Silva, em 2008, tornou-se presidente do conselho, e então transferiu a posição para um executivo prata da casa, Harry Schmelzer Jr, que ficou à frente da empresa por 16 anos. Há cinco meses, Alberto Yoshikazu Kuba foi empossado como quarto presidente executivo da Weg.

Dez anos após ser fundada, a Weg abriu o capital na Bolsa de Valores e em 2007 migrou as negociações de seus papéis para o Novo Mercado da B3, juntando-se a empresas que adotam práticas de governança corporativa adicionais às até então exigidas pela legislação brasileira do mercado de capitais. A década de 70 foi marcada pelo processo de expansão no mercado nacional e pelos primeiros passos da empresa no mercado internacional, com início de exportação de motores para países da América Latina.

Na década seguinte, foi iniciado o processo de expansão e diversificação dos negócios ao mesmo tempo que foram criadas novas unidades de produtos. Com o selo Weg na frente do nome, surgiram as unidades de Acionamentos, Transformadores, Energia, Química (tintas industriais) e Automação (para desenvolver, produzir e comercializar produtos de automação industrial e pacotes elétricos).

Alguns marcos da trajetória da companhia, que ajudaram a consolidar sua expansão e sua internacionalização, levando a Weg a se tornar a gigante que é hoje, foram: na década de 1990 ocorreu a abertura da filial nos EUA e em vários países da Europa; em 1999, a companhia já exportava 29% da produção para 55 países e no Brasil atingia 79% de participação de mercado em motores elétricos; em 2001, o faturamento atinge o primeiro R$ 1 bilhão; a entrada na China em 2025, com a inauguração da primeira fábrica no país asiático; e o início de operações fabris, em 2010, na Índia, outro passo importante.

Em 2011, a empresa vislumbrou um grande potencial de negócios no segmento de geração de energia renovável eólica. No ano seguinte, faz o primeiro fornecimento de um aerogerador com o selo Weg, ao instalar equipamentos em um parque eólico do Nordeste, marcando sua entrada em um mercado dominado por multinacionais./Com Clayton Freitas

Como a Weg se tornou uma máquina de compra de empresas e chegou a 17 países – Estadão

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Em IA, Brasil pensa pequeno, e a Índia sonha gigante

Enquanto montamos um time só com zagueiros, país asiático aposta no ataque

Ronaldo Lemos – Folha – 15.dez.2024 

Uma lição que o Brasil pode aprender com a Índia: a melhor defesa é o ataque. Por exemplo, em questões como tecnologia e inteligência artificial, a posição indiana é o contrário da brasileira. Mas antes de falar nisso vamos analisar a nossa derrota.

A economia brasileira foi por décadas maior que a indiana. Em 2010, o PIB indiano era de US$ 1,73 trilhão, e o brasileiro, de US$ 2,2 trilhões. Esse foi o último ano assim. A partir de 2011 a Índia virou o jogo. O PIB brasileiro ficou igual, e o indiano alcança hoje US$ 3,8 trilhões, mais que o dobro do ano da ultrapassagem.

O que houve? Vários fatores. Um deles é que a Índia foi altiva na ambição de virar liderança tecnológica. Hoje, há empresas indianas globais nesse setor. Já o Brasil assumiu uma postura subalterna. Um exemplo é a aprovação, na semana passada, do projeto de lei sobre inteligência artificial no Senado. A lei aprovada é uma cópia (ou melhor, uma caricatura) da lei europeia. A única exceção é a parte de direitos autorais, que é realmente original.

A parte “europeizada” do texto coloca o país como uma vítima da inteligência artificial. Cria todo um aparato burocrático para conter e regular as empresas de IA, grandes, pequenas ou médias. Dá ao Executivo poderes quase ilimitados para estender a regulação para qualquer setor que utilize IA. E pronto, acaba aí. A lei não trata de temas-chave como o futuro do trabalho, a questão da concorrência e da concentração econômica. E nem de estratégia, isto é, medidas para que o país possa competir globalmente nesse setor.

E a Índia, o que fez? O país acaba de anunciar seu plano chamado “India AI Mission”. Vai investir US$ 1,1 bilhão para se tornar protagonista em IA. A maior parte dos recursos vai ser usada para comprar chips e a infraestrutura necessária para criar inteligência artificial de ponta, em parcerias público-privadas. A ideia é comprar 10 mil chips H200 da Nvidia, os mais avançados. A primeira empresa que já está fazendo isso é a E2E Networks, fundada no estado de Haryana, norte do país.

Outra parcela de 20% dos recursos será aplicada para desenvolver modelos fundacionais (LLMs) locais. Outros 30% serão usados para apoiar startups indianas. O valor a ser aplicado em regulação e burocracias envolvendo IA é de apenas 0,2%. Enquanto o Brasil montou um time só com zagueiros, a Índia aposta no ataque.

A razão para isso não é irresponsabilidade. Ao contrário. A Índia identificou claramente que o maior risco que qualquer país corre com a inteligência artificial é que a oferta local de serviços de IA seja feita exclusivamente por empresas do Vale do Silício. Nesse cenário, não importa o quanto a sua regulação seja bem-feita ou a sua burocracia seja reluzente, você estará fora do jogo. Não há perigo maior que esse.

O Brasil também fez um Plano Nacional de IA, que é bem-feito. No entanto, não prevê a compra de chips de IA nem tem a ambição do plano indiano. Resta saber também se sobreviverá ao corte de gastos. Até essa pergunta ser respondida, a Índia já estará ainda mais à frente do Brasil.

Já era – Achar que regulação sozinha protege o país da IA

Já é – Perceber que a melhor forma de proteção é desenvolver IA localmente

Já vem – Câmara dos Deputados analisando em 2025 a lei de inteligência artificial

Em IA, Brasil pensa pequeno, e a Índia sonha gigante – 15/12/2024 – Ronaldo Lemos – Folha

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O começo do fim da realidade

Por Herton Escobar, jornalista especializado em Ciência e Meio Ambiente e repórter especial do “Jornal da USP”

Herton Escobar – Jornal da USP – 13/12/2024 

Se você curte imagens de gatinhos, passarinhos e outros bichinhos fofinhos nas redes sociais, deve ter visto um vídeo que viralizou recentemente no Instagram (e possivelmente em outras plataformas), de uma mamãe papagaio fazendo uma “cabaninha” com as asas para proteger seus filhotes da chuva. Coisa mais linda desse mundo! O vídeo foi replicado amplamente e recebeu milhões de visualizações em vários perfis da plataforma. “O amor de uma mãe não tem limites”, diz a legenda de uma das postagens.

Só tem um problema: o vídeo é uma mentira, criada 100% por inteligência artificial (IA) e totalmente desconectada da realidade. A mamãe papagaio é de uma espécie que não existe, os filhotes são de algum tipo de gavião que provavelmente não existe, também, e o ninho parece ser de um beija-flor (não de papagaio nem de gavião). Aliás, papagaios não constroem ninhos; eles nidificam em ocos de árvores e outras cavidades naturais. E essa postura de proteger os filhotes da chuva com as asas não existe na natureza, segundo o especialista Luís Fábio Silveira, curador de ornitologia do Museu de Zoologia da USP, com quem conversei antes de escrever esse texto. “Tá tudo errado nessa porcaria”, resumiu ele.

Seria menos mal se a imagem estivesse claramente identificada como IA. Algumas postagens até tinham uma notinha de rodapé, mas a maioria, não. (O Instagram tem um botão que permite adicionar um “rótulo de IA” na hora de postar; mas é algo muito discreto, e não é obrigatório.) Aposto que a maioria das pessoas que viram esse vídeo achou que ele era verdadeiro.

“Mas e daí? É só uma imagem fofinha que vai alegrar o dia das pessoas. Que mal isso pode causar?” Se fosse apenas esse vídeo, tudo bem. O problema é que esse é apenas um entre milhões de vídeos, fotos, áudios, textos e outros conteúdos falsos que estão inundando as redes sociais em uma escala cada vez maior e com uma qualidade cada vez melhor — ou seja, cada vez mais difíceis de serem identificados como falsos. O meu Instagram está repleto deles, incluindo dezenas de variações desse vídeo da mamãe papagaio protegendo os filhotes da chuva, além de muitos vídeos de monstros marinhos que não existem, de polvos e peixes gigantes que não existem, de filhotes de urso polar subindo a bordo de embarcações para abraçar as pessoas como se fossem cachorros, de robôs humanoides fazendo coisas impressionantes que ainda não são capazes de fazer, e por aí vai.

Um vídeo postado recentemente por um perfil de ativismo contra a poluição plástica mostra um pinguim com um anel plástico enroscado no pescoço sendo resgatado por um moço sorridente, que se aproxima dele com um peixe na mão e retira o anel. A cena termina com o pinguim pulando de alegria e acenando para as câmeras ao lado do homem como se estivesse num show de circo. Bonitinho, mas mentiroso. Não há qualquer aviso na imagem ou na legenda de que se trata de um vídeo gerado por IA. O problema da poluição plástica é real, e gravíssimo (como descrevo neste podcast), mas o comportamento do pinguim é totalmente irreal. Vários usuários criticaram o uso não identificado da IA na postagem, mas o perfil rebateu dizendo que os fins justificam os meios, porque o objetivo é chamar atenção para o impacto dos plásticos na biodiversidade.

Eu discordo. No médio e longo prazo, o uso de imagens falsas para tratar de problemas reais pode ser um tiro pela culatra, à medida que vai dessensibilizar as pessoas para a real natureza do problema que se deseja enfrentar. Depois de ver milhares de vídeos fofinhos de animais sendo resgatados ou fazendo coisas incríveis nas redes sociais, será que as pessoas ainda vão se sensibilizar com imagens do mundo real, que tendem a ser menos espetaculares do que aquelas produzidas por IA? Pior ainda: será que as pessoas vão acreditar nas imagens reais? Afinal de contas, se todas aquelas outras imagens foram criadas por IA, quem garante que essa também não foi? A realidade vai parecer tão sem graça, comparada ao que se vê nas redes sociais, que ninguém mais se interessar com ela.

O ponto crítico é que a linha que separa a realidade da ficção no mundo digital está sendo completamente borrada pela IA. Já escrevi sobre isso aqui antes, mas a velocidade com que essas tecnologias estão avançando e se popularizando é realmente assustadora. Estamos próximos — se é que já não chegamos lá — de um ponto em que vai se tornar quase impossível saber se uma imagem é real ou não. Tão perigoso quanto acreditar em mentiras é deixar de acreditar na verdade. Se o papagaio daquele vídeo não existe, quem garante que aquela imagem da Amazônia em chamas também não é falsa? Quem garante que aquela geleira está realmente derretendo? Que aquele político realmente pegou aquela mala de dinheiro? E por aí vai. Nesse novo estado de esquizofrenia digital coletiva, toda e qualquer realidade se torna questionável.

Isso abre brechas enormes para a propagação de mentiras e teorias conspiratórias; e é claro que muita gente vai se aproveitar dessa confusão. Quando Kamala Harris se lançou candidata à presidência nos Estados Unidos e começou a atrair multidões para os seus comícios, por exemplo, Donald Trump alegou que as imagens dos eventos eram geradas por IA. Lógico que era mentira, mas muita gente acreditou. Quem garante que não?

Vou dar um outro exemplo preocupante. No início deste ano a Samsung lançou um novo modelo de IA integrado aos seus dispositivos, chamado Galaxy AI, que permite fazer uma série de coisas — entre elas, edição de imagens — com extrema facilidade. O comercial de lançamento mostra uma mãe utilizando a tecnologia para “editar” (adulterar, seria o termo mais correto) uma foto do seu filho em uma peça de teatro na escola. Ela move as duas crianças que estavam mais à frente do palco para as laterais e puxa o seu filho para o primeiro plano, deixando-o isolado como protagonista no centro da cena.

Assim como no caso dos passarinhos, tudo muito fofo e aparentemente inofensivo. Mas imagine só o seguinte: quando essas crianças da “geração IA” ficarem mais velhas e olharem para suas fotos de infância, como vão saber se aquelas imagens são reais ou não? Como vão saber o que realmente aconteceu? Em que lugar do palco elas realmente estavam? Imagine a dissonância cognitiva que vai se formar entre as memórias biológicas e as lembranças digitais adulteradas da história de vida das pessoas.

Agora imagine essas tecnologias de edição de imagem, cada vez mais sofisticadas e acessíveis, sendo usadas em larga escala para adulterar a realidade de milhões de fotos e vídeos que são publicados todos os dias nas redes sociais, que é onde a maior parte das pessoas convive e se relaciona com o mundo atualmente. Quando você olhar o perfil de alguém no Instagram, no TikTok ou seja lá onde for, como vai saber se aquelas imagens são reais? Se aquela pessoa realmente foi àqueles lugares que diz que foi e fez aquelas coisas que diz que fez? Em resumo: como vamos saber quem as pessoas realmente são? Como vamos saber o que realmente está acontecendo? O que aconteceu no passado? Se aquele bicho realmente existe? Se aquele problema é realmente tão grave quanto parece?

Podemos pensar no consumo de IA via redes sociais como equivalente ao consumo de alimentos ultraprocessados na nossa dieta: tudo bem comer um pouco de vez em quando, mas não exagere, para não prejudicar sua saúde (mental, nesse caso). O ponto fundamental é a rotulagem: as pessoas precisam saber o que estão consumindo. Não importa quão nobre seja a intenção — combater a poluição plástica ou gerar empatia pela biodiversidade —, esconder o fato de que um conteúdo foi gerado por IA é desonestidade. É uma mentira contada na forma de imagem.

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(As opiniões expressas pelos articulistas do Jornal da USP são de inteira responsabilidade de seus autores e não refletem opiniões do veículo nem posições institucionais da Universidade de São Paulo. Acesse aqui nossos parâmetros editoriais para artigos de opinião.)

O começo do fim da realidade – Jornal da USP

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