Escrito por Alisson Ficher – Exame – 23/12/2024
Brasil enfrenta déficit de 75 mil engenheiros, afetando infraestrutura e tecnologia. Investir em educação é a chave para mudar o cenário.
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Falta de engenheiros no Brasil ameaça setores cruciais como infraestrutura e tecnologia. Com evasão escolar crescente e currículos desatualizados, o país precisa de soluções urgentes, desde investimentos na educação básica até reformas no ensino superior.
A engenharia, tradicionalmente associada ao progresso e à inovação, enfrenta um desafio inquietante no Brasil.
Apesar de ser uma das áreas mais estratégicas para o desenvolvimento do país, a escassez de profissionais ameaça travar o avanço de setores cruciais como infraestrutura e tecnologia.
O cenário é alarmante: faltam 75 mil engenheiros para atender às demandas do mercado, expondo um déficit que é tanto educacional quanto estrutural.
De acordo com dados da Confederação Nacional da Indústria (CNI), a formação de engenheiros no Brasil não acompanha a necessidade crescente do mercado.
A evasão escolar, os currículos desatualizados e a falta de investimentos em educação básica e infraestrutura criaram um gargalo difícil de superar.
Este panorama é reflexo de problemas que atravessam décadas e que, se não enfrentados com urgência, podem comprometer o futuro do país.
Formação insuficiente e comparações internacionais
O Brasil forma cerca de 40 mil engenheiros por ano, um número que parece irrisório quando comparado a outras nações emergentes.
China e Rússia, também integrantes dos BRICS, formam mais de 450 mil profissionais anualmente. Essa discrepância escancara o atraso brasileiro em um setor essencial para a competitividade global.
Entre 2014 e 2021, aproximadamente 150 mil estudantes abandonaram os cursos de engenharia no Brasil, segundo o Conselho Federal de Engenharia e Agronomia (Confea).
Essa evasão resulta de fatores como a crise econômica e a baixa perspectiva de empregabilidade.
Conforme Marcos Gabriel Oliveira de Souza, estudante de engenharia mecatrônica na UnB, “trabalhar como engenheiro exige obstinação e, muitas vezes, conexões familiares que facilitem o acesso ao mercado.”
Deficiências no ensino básico e desinteresse pela área
O problema começa muito antes da entrada no ensino superior.
A qualidade deficiente do ensino básico em matemática e ciências exatas dificulta a formação de uma base sólida para futuros engenheiros. Especialistas, como Michelly de Souza, da Fundação Inaciana Pe.
Saboia de Medeiros (FEI), defendem a necessidade de estimular o interesse por exatas desde cedo.
Segundo ela, “o interesse precisa ser despertado de forma lúdica, mostrando como resolver problemas reais.”
Iniciativas como as promovidas pelo Centro de Integração Empresa-Escola (CIEE) buscam reduzir esse desinteresse, oferecendo estágios e parcerias com instituições renomadas.
Mônica Vargas, superintendente do CIEE, ressalta que esses esforços são essenciais, mas ainda insuficientes para superar a aversão à matemática ou o desconhecimento sobre as possibilidades da engenharia.
Currículos desatualizados e evasão universitária
Outro entrave significativo está nos currículos dos cursos de engenharia, considerados ultrapassados por estudantes e especialistas.
As grades curriculares, muitas vezes focadas em disciplinas experimentais sem aplicação prática, não refletem a realidade do mercado.
“Temos muitas matérias que não agregam à prática da profissão”, critica Marcos Gabriel, da UnB.
Michelly de Souza sugere uma reforma urgente, enfatizando a inclusão de experiências práticas e projetos conectados ao mercado. Além disso, ambientes universitários mais acolhedores, com laboratórios modernos e metodologias ativas, poderiam reduzir a evasão, especialmente nos primeiros semestres.
Impactos da falta de engenheiros no Brasil
A escassez de engenheiros já impacta setores fundamentais.
A expansão de infraestrutura, o desenvolvimento tecnológico e até mesmo a execução de grandes obras sofrem atrasos e custos adicionais devido à ausência de profissionais qualificados.
Conforme relatado pelo Correio Braziliense, áreas como transporte e energia enfrentam grandes desafios, enquanto multinacionais e órgãos públicos oferecem as únicas oportunidades atraentes para esses profissionais.
Marcos Gabriel destaca que muitas empresas sequer cumprem o piso salarial da categoria, estimado em R$ 7 mil no Distrito Federal.
Isso desestimula ainda mais os jovens a seguir na profissão, aumentando o ciclo de dificuldades enfrentado pelo setor.
Soluções possíveis para um futuro sustentável
Embora o cenário seja desafiador, há caminhos possíveis para reverter a crise.
Investir na educação básica, promover reformas curriculares e ampliar o acesso a estágios são passos essenciais para tornar a engenharia mais atrativa.
Além disso, comunicar à sociedade a importância da engenharia para problemas reais pode ajudar a atrair novos talentos.
Como conclui Michelly, “a engenharia tem um papel fundamental na construção de um futuro mais justo e sustentável, com tecnologias limpas e soluções para otimizar recursos.”
Mas o Brasil está preparado para enfrentar esse desafio e valorizar seus engenheiros?
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