“Workslop”: um novo oportunismo que mina a confiança

A colunista Tatiana Iwai escreve sobre um tipo de comportamento vinculado ao uso de tecnologia no trabalho que pode levar a danos reputacionais

Por Tatiana Iwai – Valor – 21/10/2025 

A cada dia, aprendemos um pouco mais sobre as potencialidades da IA, assim como sobre os desafios que ela traz. Uma pesquisa recém-publicada na “Harvard Business Review” nomeia um desafio que experimentamos no trabalho já há algum tempo. É um novo tipo de oportunismo: o “workslop” produzido pela IA generativa.

Possivelmente, você já teve o desprazer de recebê-lo. À primeira vista, o material parece de qualidade – um relatório ou texto bem escrito e estruturado, ou uma apresentação visualmente bem acabada e com narrativa coerente. Mas, uma leitura atenta revela o vazio por trás da forma. É um conteúdo raso e repetitivo, sem a substância necessária para realmente avançar o trabalho. Ou seja,, o workslop inverte o propósito central da IA. Em vez de aumentar produtividade ao apoiar a criação e lapidação de trabalhos de qualidade, gera apenas pseudo-trabalho.

Ainda que o termo workslop seja novo, o comportamento que ele descreve não é. A falta de comprometimento sempre foi uma das principais barreiras para a dinâmica de times de alto desempenho, especialmente em projetos complexos e inovadores, que exigem tarefas interdependentes, realizadas por várias mãos e diferentes expertises.

Para que o time funcione, há uma expectativa tácita: cada membro deve se responsabilizar por sua parte de forma confiável e com qualidade. Quando alguém não entrega, atrasa ou entrega algo claramente malfeito, o problema é nítido. O workslop é mais sutil. Relatórios longos, textos aparentemente bem estruturados ou apresentações polidas criam a ilusão de um trabalho bem executado. Mas, na prática, escondem um vazio que obriga colegas a refazer ou melhorar algo que parecia estar pronto. É o free-riding – a carona no esforço alheio – em versão digital, mas mais difícil de detectar e, justamente por isso, mais silencioso.

Os pesquisadores de Stanford e da BetterUp Labs, responsáveis pelo estudo, mostram o impacto concreto na produtividade. Na amostra com mais de mil profissionais, 40% reportaram ter recebido workslop no mês anterior e desperdiçado, em média, duas horas para consertá-lo. Ao cruzar este tempo com sua remuneração reportada, o estudo calculou um custo de 186 dólares por trabalhador por mês. Em uma organização de dez mil funcionários, os pesquisadores estimam uma perda de 9 milhões em produtividade por ano. Não é pouco.

Para além destes impactos, podemos pensar ainda em outro menos visível, mas não menos danoso: a quebra de confiança entre as pessoas. À primeira vista, pode parecer que o workslop prejudica apenas a percepção de competência do colega. Ou seja, ao se engajar em workslop e entregar algo de baixo esforço e qualidade, a pessoa passa a ser vista como menos adequada para projetos de maior visibilidade e importância. Isso, por si só, já seria preocupante. O dano reputacional, porém, pode ser ainda mais profundo.

Pesquisas em confiança interpessoal indicam que ela se forma a partir de três julgamentos centrais. Ao avaliar se alguém é confiável, levamos em conta: competência, ou seja, se a pessoa é capaz de entregar o que prometeu; integridade, se cumpre suas promessas e mantém consistência entre o que diz e faz; e, benevolência, se demonstra cuidado conosco, levando em conta nosso bem-estar e evitando agir de forma a nos prejudicar.

Quem se engaja em workslop não está terceirizando o trabalho para a tecnologia, mas para o colega. Ao outro, recai o fardo de lidar com um material longo e vazio, sem profundidade, cheio de lacunas e imprecisões grosseiras e ainda refazer tudo. Muitas vezes, revisar e corrigir workslop é mais custoso do que executar a tarefa do zero. Mais do que tempo e esforço perdidos, fica a frustração de ter sido enganado. Com isso, o trabalho de má qualidade resultante do workslop tende a ser visto menos como falta de competência e mais como sinal de baixa benevolência ou integridade. E essas são violações de confiança muito mais difíceis de reparar.

Um episódio que sinaliza menor competência é, em geral, mais fácil de superar. Demonstrações de competência podem variar conforme o tipo de tarefa, pressão de tempo ou outros fatores circunstanciais, de modo que mesmo alguém competente pode, ocasionalmente, entregar algo aquém do esperado. Já quando se trata de benevolência e integridade, a história é diferente. Um único episódio em que a pessoa demonstra descaso com o outro pode deixar marcas mais duradouras. Afinal, não se espera que integridade e benevolência oscilem conforme a conveniência. Aqui, há menos nuances e atenuantes. A pessoa é ou não íntegra. Ela se importa ou não com o outro. E um único episódio pode revelar algo visto como estável e definitivo.

Claro que episódios de workslop podem ser vistos como falhas interpessoais menores, que configuram quebras de confiança de menor severidade. Ainda assim, vale a reflexão sobre seus riscos e trade-offs de curto e longo prazo. Ainda que o workslop possa poupar tempo de forma imediata, há um preço alto e invisível a ser pago: o desgaste da reputação ao longo do tempo. Afinal, reputação, ao contrário de um relatório vazio, não se reconstrói em duas horas de retrabalho.

Tatiana Iwai é professora e pesquisadora de comportamento e liderança no Insper. Coordenadora do Núcleo de Comportamento Organizacional e Gestão de Pessoas do Centro de Estudos em Negócios do Insper. Doutora em Administração de Empresas pela Fundação Getúlio Vargas (FGV). Ao longo de sua carreira, atuou como consultora de mudança organizacional, desenvolvendo projetos para empresas nacionais e multinacionais.

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México move bilhões de toneladas de terra, corta caminho entre Atlântico e Pacífico em 20 horas, desafia o Canal do Panamá e aposta em trilhos, portos turbinados e natureza viva para mudar o comércio mundial

Escrito por Bruno Teles – CPG Click Petróleo e Gás – 20/12/2025 

Corredor interoceânico mexicano cria caminho entre Atlântico e Pacífico, desafia o Canal do Panamá no Istmo de Tehuantepec e impulsiona o nearshoring regional.

O corredor interoceânico mexicano promete cortar o caminho entre Atlântico e Pacífico para 20 horas, movimentar 200 milhões de toneladas por ano, atrair indústrias em nearshoring e testar limites entre desenvolvimento, comunidades locais e natureza sensível ao longo do Istmo de Tehuantepec sob escrutínio ambiental e geopolítico global

Em 2023, enquanto o Lago Gatún forçava o Canal do Panamá a reduzir o número de travessias diárias e formar filas de mais de 200 navios, o México acelerava um plano antigo para criar um novo caminho entre Atlântico e Pacífico sem eclusas, sem dependência de reservatórios de água doce e com apoio direto das grandes potências interessadas em rotas mais rápidas e previsíveis.

A partir de 2020, com o avanço do nearshoring, o país viu o investimento estrangeiro direto crescer mais de 40 por cento entre 2020 e 2024, e só em 2023 mais de 400 empresas dos Estados Unidos e da Europa anunciaram que deixariam a China para se instalar em território mexicano, reforçando a aposta de que um corredor ferroviário interoceânico poderia redesenhar o tabuleiro logístico das Américas.

Crise no Canal do Panamá abre disputa por um novo caminho entre Atlântico e Pacífico

Por mais de um século, desde 1914, o Canal do Panamá concentrou quase 6 por cento do comércio mundial, algo próximo de 270 bilhões de dólares em mercadorias por ano, em uma faixa de água com pouco mais de 100 metros de largura e cerca de 14 mil navios cruzando o istmo anualmente.

Quando o Lago Gatún atingiu o nível mais baixo dos últimos 60 anos, a lógica desse sistema ficou exposta.

A seca associada ao El Niño obrigou o canal a reduzir o número de travessias de 36 para apenas 20 por dia, forçando porta contêineres a navegar com metade da carga para evitar encalhes.

Em 2023, mais de 200 navios ficaram parados em engarrafamentos aquáticos, enquanto companhias calculavam o custo de desviar rotas para contornar a América do Sul, adicionando cerca de 13 mil quilômetros e semanas de viagem a cada travessia.

Nesse vácuo, a ideia mexicana de um eixo terrestre competitivo ganhou tração política e econômica.

Como o corredor interoceânico mexicano encurta o caminho entre Atlântico e Pacífico

O chamado Corredor Interoceânico do Istmo de Tehuantepec foi desenhado para funcionar como um canal de ferro, nas palavras do ex-presidente Andrés Manuel López Obrador, substituindo as eclusas por trilhos e portos modernizados.

A meta é coordenar contêineres que representam cerca de 5 por cento do comércio global, algo equivalente a 200 milhões de toneladas de carga por ano, com a promessa de reduzir a travessia a aproximadamente 20 horas.

Em vez de um navio gastar dias esperando vaga no Panamá, a carga desembarca em um porto mexicano do Pacífico, percorre o istmo por trem e embarca novamente no Atlântico, ou no sentido inverso.

Cada trem carrega mais de 120 contêineres, o equivalente a um navio de porte médio, cruzando selvas e planícies a cerca de 70 quilômetros por hora.

Quando toda a ferrovia estiver em operação plena, o tempo de transporte interno entre os dois oceanos deverá cair mais de 80 por cento em relação ao modelo original e às esperas em filas marítimas.

Portos de Salina Cruz e Coatzacoalcos redesenham a ligação oceano ferrovia

Para viabilizar o novo caminho entre Atlântico e Pacífico, o México começou pelo mar.

No Pacífico, o porto de Salina Cruz, antigo terminal de petróleo com profundidade entre 10 e 14 metros, passou por dragagem massiva que retirou dezenas de milhões de metros cúbicos de sedimento, aprofundando o canal para cerca de 23 a 24 metros, nível comparável aos maiores terminais de contêineres do mundo.

Além disso, foi construído um quebra mar de aproximadamente 6 quilômetros, mais largo e mais alto, projetado para suportar ventos de categoria de furacão e ondas de até 10 metros em uma baía conhecida por tempestades severas.

Centenas de sensores monitoram vento, corrente e ondulação em tempo real, enquanto mais de duas mil estacas de concreto reforçam píeres preparados para receber guindastes automatizados e navios pós panamax com até 24 mil TEUs.

Do lado atlântico, Coatzacoalcos enfrentava assoreamento intenso, píeres deteriorados e restrição de calado.

A dragagem elevou a profundidade do canal de acesso para cerca de 12 metros, permitindo entrada regular de navios médios e grandes sem depender de maré.

Um muro de proteção de aproximadamente 700 metros reduz o impacto das ondas, e a ferrovia passa a chegar diretamente ao cais, transferindo carga do trem para o navio sem necessidade de caminhões intermediários.

O tempo de liberação de mercadorias, que levava dias, caiu para algo em torno de duas a três horas, segundo o projeto apresentado.

Ferrovia renovada, nearshoring e polos industriais no Istmo de Tehuantepec

No interior do istmo, quase toda a malha ferroviária histórica teve de ser refeita.

Cerca de 90 por cento dos trilhos foram substituídos, com dormentes de concreto armado, nova camada de brita de basalto e viadutos em áreas alagadas ou de solo instável.

Em trechos críticos, engenheiros elevaram o leito da via com estacas metálicas e aterros controlados para garantir a estabilidade de trens de carga pesados.

Ao lado da ferrovia, o governo estruturou dez polos de desenvolvimento para o bem estar, parques industriais com vocações específicas em petroquímica, eletrônicos, logística, agricultura de alta tecnologia e energia limpa.

O Estado oferece eletricidade, água, fibra óptica e infraestrutura digital, enquanto empresas recebem pacotes de incentivos com isenções ou reduções profundas de impostos por 10 a 15 anos.

As estimativas oficiais falam em mais de 250 mil empregos diretos e mais de meio milhão considerando a cadeia produtiva, concentrados em regiões onde cerca de metade da população vive hoje abaixo da linha de pobreza.

Essa combinação de ferrovia renovada, polos industriais e portos reconfigurados tenta transformar o corredor em peça central do nearshoring.

Indústrias que migram da Ásia ganham acesso a um caminho entre Atlântico e Pacífico mais curto e menos vulnerável à falta de água, ao mesmo tempo em que se posicionam a poucas horas de caminhão da fronteira com os Estados Unidos, principal mercado de destino dessa produção.

Linha K, novo eixo do corredor interoceânico mexicano

Por trás do discurso sobre um novo caminho entre Atlântico e Pacífico, os números mostram que o corredor interoceânico mexicano ainda está em plena obra.

A Linha K do trem interoceânico, eixo que prolonga o corredor em direção ao sul, tem hoje cerca de 87,7 por cento de avanço físico e previsão oficial de conclusão em junho de 2026, segundo a Secretaria da Marinha.

A Linha K é dividida em três trechos principais no Istmo de Tehuantepec.

O trecho entre Ciudad Ixtepec e Tonalá está praticamente pronto, com cerca de 99,4 por cento concluído e em testes de carga desde agosto, ajustando trilhos e estrutura para suportar composições pesadas.

O trecho Tonalá–Huixtla avança em torno de 79,3 por cento e deve ser finalizado em julho do próximo ano, enquanto o segmento Huixtla–Ciudad Hidalgo e a Linha KA até Puerto Chiapas passam de 84 por cento de execução, com entrega prevista para fevereiro.

No total, serão reabilitados 447 quilômetros de trilhos, com 14 estações, 439 pontes, 14 desvios, 626 obras de drenagem e três pátios de transferência redistribuindo carga entre ferrovia e rodovias.

A presidente Claudia Sheinbaum anunciou a inauguração do primeiro trecho da Linha K em novembro e revelou que já há negociações com o governo da Guatemala para prolongar a malha até o país vizinho.

A ideia é transformar o corredor interoceânico mexicano em espinha dorsal de uma rota regional, conectando o caminho entre Atlântico e Pacífico às cadeias produtivas da América Central e ampliando o alcance do nearshoring além da fronteira mexicana.

Trem suburbano, viadutos gigantes e impacto nas cidades do istmo

Enquanto os trens de carga ainda aguardam a conclusão integral da Linha K, o governo prepara o lançamento de um serviço suburbano de baixo custo, batizado de El Tehuanito.

A previsão é que o trem comece a operar em dezembro deste ano, com duas rotas de tarifa reduzida voltadas a moradores de baixa renda do Istmo de Tehuantepec.

Uma linha ligará Ubero a Ixtepec e a outra Unión Hidalgo a Salina Cruz, cobrindo cerca de 189 quilômetros em dias úteis e usando estações que já estão acima de 80 por cento de conclusão.

Na engenharia pesada, o destaque é o viaduto de Huixtla, com cerca de quatro quilômetros e trezentos metros de extensão e execução próxima a 99 por cento, estrutura que sozinha gerou cerca de mil e quinhentos empregos diretos.

Ao redor, parques lineares em cidades como Arriaga e o próprio Huixtla passam de metade das obras concluídas, sinalizando que o corredor interoceânico mexicano não se limita ao eixo de carga, mas redesenha a urbanização local, com áreas de lazer, ciclovias e novos acessos conectados à ferrovia.

Orçamento bilionário e prioridade política para o corredor interoceânico mexicano

O orçamento federal mexicano para 2026 reserva cerca de cento e cinco bilhões de pesos para novos trens e vinte e cinco bilhões de pesos específicamente para o Istmo de Tehuantepec, consolidando o corredor interoceânico mexicano como projeto prioritário do governo.

Na prática, isso significa mais recursos para comprar material rodante, concluir a Linha K, reforçar o caminho entre Atlântico e Pacífico e equipar os polos industriais que ancoram a estratégia de nearshoring.

Além da carga de longo curso, linhas já reabilitadas, como as Linhas Z e FA, oferecem hoje serviços mistos de passageiros e carga.

Desde o fim de 2023 e meados de 2024, elas transportaram mais de cento e trinta mil passageiros e quase novecentas mil toneladas de diversos produtos, um ensaio do potencial de integração entre transporte regional e o novo corredor terrestre que disputa espaço logístico com o Canal do Panamá.

Portos de Coatzacoalcos, Salina Cruz, Dos Bocas e Puerto Chiapas na rota interoceânica

Do lado atlântico, Coatzacoalcos avança na consolidação como porta de entrada do caminho entre Atlântico e Pacífico.

O terminal multiuso do porto está perto de ser concluído, com obras acima de 97 por cento, enquanto o prédio da Unidade de Proteção Marítima e Portuária deve ficar pronto em meados de 2026.

A ideia é integrar controle de segurança, fiscalização e logística em um único complexo, reduzindo o tempo de permanência dos navios no cais.

No Pacífico, Salina Cruz praticamente encerrou a etapa de dragagem de aprofundamento do canal, com mais de 87 por cento dos trabalhos concluídos e entrega prevista para este mês, consolidando o porto como ponto chave do corredor interoceânico mexicano.

Em Dos Bocas, o cais do Terminal de Granéis Minerais já foi entregue, mas os quebra mares leste e oeste, projetados para proteger a baía contra ondas e tempestades, só devem ficar prontos em 2029.

Em Puerto Chiapas, a infraestrutura portuária também se aproxima da reta final, com quase toda a unidade de proteção marítima, edifícios administrativos e pátios ferroviários concluídos, preparando o extremo sul para receber parte dos fluxos associados à Linha K.

Núcleos de desenvolvimento, moradia e disputa por terras no traçado

Ao longo do caminho entre Atlântico e Pacífico, o governo mexicano estruturou catorze Núcleos de Desenvolvimento para o Bem Estar, zonas industriais conhecidas como Podebis, beneficiadas por incentivos fiscais federais e estaduais.

Nove já foram concedidos à iniciativa privada, três estão em licitação internacional e dois aguardam declaração formal. A promessa é que esses núcleos recebam fábricas, centros logísticos e serviços associados ao nearshoring, irradiando empregos e renda em municípios historicamente negligenciados.

No campo social, os dados oficiais registram a entrega de mais de quatro mil moradias e quase cinco mil subsídios para melhorias habitacionais em comunidades do Istmo de Tehuantepec desde 2023, além do financiamento e execução de cerca de cento e cinquenta projetos comunitários.

O discurso oficial insiste que o corredor interoceânico mexicano deve ser vetor de desenvolvimento social e econômico tanto quanto de competitividade logística, e não apenas uma via rápida para contêineres.

Em paralelo, a expansão da via de acesso Roberto Ayala–Dos Bocas, que atravessa os municípios de Huimanguillo, Cárdenas, Comalcalco e Paraíso, em Tabasco, exige a aquisição de mil setecentas e sessenta e seis propriedades até 2027.

O trecho está pouco acima de 40 por cento de execução e escancara o outro lado desse novo caminho entre Atlântico e Pacífico, onde negociações fundiárias, deslocamento de famílias e disputas locais por indenização se tornam tão sensíveis quanto qualquer obra de ponte, túnel ou pátio ferroviário.

Natureza pressionada, lições do canal da Nicarágua e da rota do Ártico

O avanço do projeto interoceânico não vem sem custos ambientais.

A experiência recente do complexo de refino de Dos Bocas, na Baía de Paraíso, ilustra a tensão: para erguer tanques e dutos, extensas áreas de manguezais foram removidas, enfraquecendo a proteção natural da costa e abrindo espaço para erosão acelerada, ao mesmo tempo em que enchentes ligadas ao rio Grijalva passaram a atingir a região com maior intensidade.

Relatórios ambientais citados por organizações locais falam em milhares de indivíduos de mais de uma centena de espécies afetadas, incluindo dezenas de espécies ameaçadas.

No próprio istmo, parques eólicos erguidos em zonas de vento extremo se multiplicam como florestas de aço.

Embora gerem energia renovável, as pás de dezenas de metros girando a alta velocidade transformaram parte do céu em barreira letal para aves de rapina e morcegos migratórios, com registros de carcaças ao redor dos aerogeradores e alertas sobre alterações em rotas migratórias.

O desafio declarado pelos responsáveis pelo corredor é aplicar soluções baseadas na natureza e programas de recuperação de ecossistemas capazes de compensar os impactos sobre fauna e vegetação.

Fora do México, o histórico de megaprojetos concorrentes ao Panamá deixa lições adicionais.

Em 2013, a Nicarágua lançou um canal de 276 quilômetros financiado por um grupo chinês, com custo estimado em 50 bilhões de dólares e promessa de superar o canal panamenho, mas o traçado atravessaria o Lago Nicarágua, principal fonte de água potável do país, e afetaria dezenas de comunidades indígenas.

A combinação de protestos e colapso financeiro do investidor fez a iniciativa naufragar poucos anos depois, deixando no terreno apenas marcos enferrujados e canteiros abandonados.

No extremo norte, o derretimento acelerado do Ártico abre a possibilidade da Passagem Noroeste ligar Atlântico e Pacífico sem taxas, sem eclusas e sem filas, encurtando rotas entre Europa e Ásia em mais de 7 mil quilômetros.

Algumas projeções otimistas apontam para um primeiro verão sem gelo completo por volta de 2035, o que criaria um terceiro competidor para o comércio interoceânico em cima de uma crise climática ainda mais grave.

Nesse tabuleiro, o corredor terrestre mexicano tenta se firmar como alternativa estável em um mundo de rotas cada vez mais vulneráveis ao clima.

Diante de um México que investe pesado para criar um novo caminho entre Atlântico e Pacífico, desafiando o Canal do Panamá e equilibrando empregos, indústria e pressão ambiental no Istmo de Tehuantepec, você acha que esse corredor ferroviário interoceânico realmente tem força para mudar o mapa do comércio mundial ou tende a virar apenas mais um megaprojeto abaixo das expectativas?

México move bilhões de toneladas de terra, corta caminho entre Atlântico e Pacífico em 20 horas, desafia o Canal do Panamá e aposta em trilhos, portos turbinados e natureza viva para mudar o comércio mundial – CPG Click Petróleo e Gás

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Embraer: o que é preciso para a empresa criar um avião que concorra diretamente com Boeing e Airbus?

Estimativa é que projeto custe até US$ 10 bilhões, número apenas 7,6% inferior ao atual valor de mercado da empresa

Por Luciana Dyniewicz – Estadão – 21/12/2025 

Especulada há aproximadamente um ano, a possibilidade de a Embraer desenvolver um avião de cerca de 200 lugares, que possa competir diretamente com as gigantes Boeing e Airbus, ganhou força neste mês em meio a comentários do CEO global da Lufthansa, Carsten Spohr. Em visita ao Brasil, o executivo alemão afirmou querer que a fabricante brasileira produza aeronaves maiores e disse que discutiria isso com a direção da Embraer. O apoio — e a encomenda — de companhias aéreas é chave para que o projeto se torne realidade.

Hoje, a Embraer produz aviões de no máximo 146 lugares e um alcance de 5.556 quilômetros. Assim, o maior jato da brasileira compete apenas com os A220, da Airbus, cuja capacidade é de até 160 passageiros.

Se passar a fabricar aeronaves maiores, a Embraer poderia brigar diretamente com a família do A320, da Airbus, cujos aviões têm de 120 a 244 lugares, e com a do 737, da Boeing, que tem jatos com 126 a 220 lugares. Aeronaves com capacidade para 150 a 180 passageiros são as mais demandadas na história da aviação comercial.

Para você

Fábrica da Embraer em São José dos Campos (SP); parte dos engenheiros da empresa está focada no desenvolvimento de um ‘carro voador’ 

Procurada para comentar o assunto, a Embraer afirmou, em nota, ter “produtos novos e competitivos em todos os segmentos” e estar focada em aumentar as vendas do portfólio atual. “Em paralelo, continuamos investindo em novas tecnologias, com o objetivo de estarmos prontos para o próximo ciclo de desenvolvimento de produtos no futuro, independentemente do segmento (aviação comercial, executiva ou de defesa). No entanto, não podemos fornecer uma data específica para essa decisão.”

O presidente da empresa, Francisco Gomes Neto, já admitiu que a companhia planeja desenvolver um produto novo, mas ainda não definiu qual será. Em julho, o executivo afirmou ao Estadão que o projeto de criar um novo jato ainda está em fase embrionária.

“Estamos fazendo estudos para outros produtos para o futuro. Pode ser um avião executivo, um avião comercial, mas são estudos ainda. Não temos resposta sobre o produto que vai ser ou como vamos construir isso.”

Gomes Neto disse ainda que não tinha pressa para desenvolver um novo projeto, dado que quase 25% de seus 4 mil engenheiros estão trabalhando na criação do eVTOL (o carro voador que vem sendo desenvolvido pela subsidiária Eve) e outra parte importante desse time está focada em melhorias do portfólio atual.

O desenvolvimento de um avião de cerca de 200 lugares demandaria entre US$ 8 bilhões (R$ 43,4 bilhões) e US$ 10 bilhões (R$ 55 bilhões), de acordo com o analista do setor Alberto Valerio, do UBS BB. Se o custo alcançar US$ 10 bilhões, ficaria próximo ao valor atual da companhia no mercado (R$ 59,5 bilhões). “A empresa tem competência para desenvolver um avião como esse. Mas tem um risco”, diz Valerio.

O analista acrescenta que, para desenvolver uma nova aeronave, a Embraer precisaria levantar capital no mercado emitindo ações e dívida, além de fechar parcerias com clientes e fornecedores de peças como motores e GPS. “Também precisaria de garantias de que terá um volume robusto de encomendas por parte das companhias aéreas.” Valerio afirma que o ideal seria que “umas três” companhias do porte da Lufthansa fizessem encomendas de cerca de 300 aeronaves cada uma.

Também analista do setor, André Mazini, do Citi, é outro a afirmar que a Embraer tem capacidade de engenharia para criar um novo avião. “A questão é mais fechar a parte financeira e garantir a capacidade de manutenção no pós-venda. Hoje, essa capacidade é boa, mas precisa continuar avançando”, diz ele.

Mazini afirma ainda que as companhias aéreas “claramente querem sair do duopólio”. Como apenas Boeing e Airbus fabricam hoje jatos de 200 lugares, a entrada de uma terceira competidora no mercado poderia pressionar os preços das aeronaves para baixo. Em sua visita ao Brasil neste mês, o CEO da Lufthansa destacou que, se houvesse três fabricantes no segmento, a velocidade de inovação aumentaria. Afirmou também ver espaço no mercado para aviões de melhor qualidade e mais baratos.

Quando a decisão poderia acontecer?

O analista do Citi lembra que executivos da Embraer já sinalizaram que a empresa não assumiria um projeto dessa magnitude sozinha e que gostaria que as companhias aéreas apoiassem o desenvolvimento da aeronave com encomendas. “Um modo para viabilizar o avião seria que as aéreas entrassem com uns US$ 3 bilhões (em encomendas), ajudando a custear o projeto. As fabricantes de motores, como GE, com mais US$ 3 bilhões. O BNDES, com outros US$ 2 bilhões, e a Embraer, com uns US$ 2 bilhões. Aí ficaria mais palatável”, diz.

Os dois analistas dizem acreditar que a companhia não vai tomar uma decisão no curto prazo. Para Valerio, nada será definido até 2027. “Antes de começar algo novo, a Embraer quer amadurecer a Eve.” Subsidiária da Embraer que desenvolve um “carro voador”, a Eve deve concluir o desenvolvimento e a certificação de sua aeronave no fim de 2027. “A equipe de engenharia está focada nisso”, destaca o analista.

Mazini também afirma que a Embraer pretende fazer com que a Eve “ande com as próprias pernas” antes de assumir um novo desafio. “Eles (a direção da fabricante brasileira) não querem estressar o balanço da empresa com muita coisa ao mesmo tempo.”

O analista pondera que hoje a Eve tem praticamente apenas cartas de intenção de compras. Essas cartas precisam virar pedidos firmes para a empresa receber pré-pagamentos. “Quando isso acontecer, vai entrar dinheiro no caixa. Aí as coisas podem começar a avançar.”

Para Mazini, a Embraer também vai aguardar uma nova geração de motores de aviões ser desenvolvida. O desenho dessa tecnologia deverá ser definido em 2027, e nenhuma fabricante de aeronaves desenvolverá um jato agora usando os motores antigos — daí a necessidade de aguardar. “Não dá para dissociar um novo avião de um novo motor. Não haverá anúncios (por parte da Embraer) agora, porque a empresa precisa de detalhes desse motor.”

Além de um anúncio não ser esperado para breve, o desenvolvimento do avião também não será rápido. As aeronaves colocadas mais rapidamente no mercado levaram cerca de quatro anos desde o momento do anúncio até o primeiro voo. Quando as fabricantes anunciam a realização do novo projeto, porém, elas costumam já estar há algum tempo trabalhando previamente nele.

Embraer: o que é preciso para a empresa criar um avião que concorra diretamente com Boeing e Airbus? – Estadão

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Estudantes de Medicina precisam aprender o que é evidência científica de fato, diz diretor do Sírio

Para Fernando Ganem, termo foi banalizado ao ser usado por qualquer um para promover protocolos médicos duvidosos, principalmente nas redes sociais; Faculdade Sírio-Libanês abriu neste semestre primeira turma de graduação em Medicina

Por Fabiana Cambricoli – Estadão – 20/12/2025 

Com a multiplicação, nas redes sociais, de perfis de profissionais de saúde que divulgam “protocolos médicos” duvidosos – muitas vezes apresentados como se tivessem respaldo científico —, uma das tarefas centrais das faculdades de Medicina é ensinar o estudante a reconhecer o que é evidência de verdade de fato e, sobretudo, onde buscá-la. A avaliação é do cardiologista Fernando Ganem, diretor médico do Hospital Sírio-Libanês, cuja faculdade recebeu sua primeira turma de Medicina neste semestre.

Para Ganem, o termo “evidência científica” foi banalizado e passou a ser usado por alguns como verniz de credibilidade para práticas que não se sustentam em bases sólidas. Por isso, diz, esse é um debate que precisa começar cedo na formação médica.

“Na graduação, a gente tenta trazer, desde o primeiro momento, o que é a evidência científica de fato. Inclusive, porque a palavra evidência científica está banalizada. Qualquer pessoa bota nas mídias sociais que tem protocolos com as melhores evidências”, afirmou ele, em entrevista ao Estadão.

Na conversa, ele detalhou por que o Sírio-Libanês decidiu abrir uma escola médica em meio à expansão sem precedentes de cursos no País e quais diferenciais a instituição busca oferecer, em especial na integração dos ensinamentos teóricos e práticos, e na oferta de disciplinas não óbvias: como empreendedorismo, gestão e inovação.

Ganem também refletiu sobre o impacto do excesso de informação em saúde (boa e ruim) e do uso da inteligência artificial generativa na relação médico-paciente. “Hoje a gente tem um desafio chamado Dr. ChatGPT. Os pacientes chegam com a pesquisa feita, com os exames a serem feitos e com as opções terapêuticas. Isso gera um trabalho maior, um dispêndio de energia maior no sentido de você tentar explicar e chegar naquilo que realmente é fato”, disse.

Por outro lado, ele apontou áreas em que a IA pode trazer ganhos concretos para o sistema de saúde, como apoio a exames de imagem, alertas de piora clínica e predição de risco, mas defendeu cautela para evitar erros e distorções induzidos pela tecnologia. Leia abaixo os principais trechos da entrevista.

Diante de um aumento sem precedentes de escolas médicas, por que o Sírio-Libanês decidiu abrir um curso de Medicina e quais os diferenciais que vocês acham que conseguiram trazer para a formação médica?

Todo mundo sabe da proliferação de faculdades de Medicina pelo Brasil, e acho que o Sírio-Libanês tinha uma responsabilidade no sentido de construir um curso de graduação. Ele é uma instituição que se consolidou no setor saúde do ponto de vista assistencial e de pesquisa, mas é uma instituição com uma vocação de ensino indiscutível. A grande maioria do corpo clínico daqui faz parte também de outras instituições, predominantemente Universidade de São Paulo (USP). O nosso corpo clínico hoje tem mais de 40 professores titulares em alguma instituição, mais de 150 doutores. Então, como juntar aquilo que a gente tem na assistência com o ensino? E aí vem a concepção da nossa faculdade. Ela tem a obrigação de compartilhar conhecimento e formar acadêmicos com tudo o que o 

Ministério da Educação preconiza como pré-requisito, mas adaptando duas coisas principalmente: a experiência da saúde suplementar e do SUS, que é a realidade brasileira, e o que está chegando por aí: formação em gestão, formação em empreendedorismo, incorporação de tecnologia e inovação digital.

E a gente tem no início do curso uma integração da cadeira básica com a cadeira clínica. Então, a gente não tem as matérias tradicionais – bioquímica, física, biofísica, farmacologia –, que logo no início do do curso mantém o aluno muito distante da prática. A gente entende que este modelo é muito difícil de garantir o engajamento. Eu assisti a uma aula recentemente e foi muito bacana, porque ela começa falando de bioquímica e proteína. Na sequência, fala de órgãos e sistemas. Passa por patologias e, no final, vem uma grande especialista falar sobre Alzheimer e explicar por que aquela proteína é fundamental no desenvolvimento do Alzheimer e por que algumas moléculas são importantes na solicitação do exame para fazer um diagnóstico mais assertivo.

E aí a gente vê o quanto você consegue agregar na atenção e envolvimento. Então, acho que iniciativas como essa de trazer, além do currículo tradicional, integração da cadeira básica com a área clínica e complementação da formação com áreas de gestão, iniciação científica, iniciação à pesquisa e até empreendedorismo vão cumprir um papel de formar profissionais mais diferenciados.

Como vocês veem a questão da proliferação de perfis de médicos nas redes sociais promovendo terapias sem evidências científicas? Isso é uma preocupação na faculdade? Como abordar esse tema desde o início da formação dos novos médicos?

O que a gente mais carece hoje na sociedade são fontes de informação fidedigna. Na área da graduação, a gente sempre tenta trazer, desde o primeiro momento, o que é a evidência científica de fato. Inclusive, porque a palavra evidência científica está banalizada. Qualquer pessoa bota nas mídias sociais que tem protocolos com as melhores evidências. Não. A gente quer compartilhar com os estudantes onde buscar as evidências que realmente fazem sentido. Isso é condição sine qua non. Nós precisamos garantir quais são as fontes fidedignas de conhecimento naquela área.

Na sociedade, eu vejo com muita tristeza o poder que qualquer um tem, uma vez que você deu acesso ou permitiu que qualquer pessoa consiga difundir alguma informação. Isso acontece e eu fico muito triste quando isso é feito por um médico porque, mesmo que a informação seja correta e fidedigna, ela não é percebida da mesma forma por todo mundo. Pior ainda se a informação for fundada. Isso a gente vê todos os dias: os soros do rejuvenescimento, os que dissolvem gordura nas artérias….

Hoje não é incomum ter residentes tendo os seus sites em que eles divulgam técnicas, diagnósticos, terapias. E nós fazemos um trabalho logo na chegada de todos eles aqui trazendo casos reais do impacto deste comportamento e que ele não é o mais adequado, além de cases para a gente usar como exemplo. Eu estou muito tranquilo que a instituição está conseguindo transmitir esse tipo de preocupação. É nossa obrigação fazer isso.

A faculdade de Medicina do Sírio-Libanês oferece também aulas que ensinam a metodologia científica?

A gente tem um curso específico de pesquisa, de iniciação científica, onde você consegue dar o grau de relevância de cada estudo. Então, estudo de caso, estudo observacional, série de casos, estudos multicêntricos, ensaios clínicos, enfim, isso tudo faz parte parte do currículo dos nossos acadêmicos. Isso é reforçado a cada momento. Na residência, a gente tem o mesmo tipo de comportamento. E hoje eles estão muito mais preparados. Nós não tínhamos isso. Para a geração de 20, 30 anos atrás, era muito diferente. Nós tínhamos grandes livros, textos, tínhamos grandes mentores e professores, mas as publicações científicas eram trazidas para a gente em três ou quatro grandes bibliotecas, você tinha que fazer solicitação de um artigo que levava de 15 a 30 dias. Um paper não chegava em tempo real. Hoje, todas as publicações chegam em tempo real. O cuidado está em como eu consigo dar para eles (estudantes) a noção de que eles precisam buscar a fonte mais correta.

E de que forma esse maior acesso a informações boas e ruins em saúde impactam a adesão dos pacientes a tratamentos? Além de gestor, o senhor é cardiologista. De que forma isso vem impactando a prática clínica?

Hoje a gente tem um desafio chamado Dr. ChatGPT. O Dr. Google ficou velhinho, ele está desatualizado. Os pacientes chegam hoje com a pesquisa feita, com os exames a serem feitos e com as opções terapêuticas. Nós já vivenciamos uma situação aqui de um paciente em uma situação bastante grave, em que vários especialistas estavam juntos tentando cuidar e o filho discutindo de igual para igual com as equipes sobre qual o tipo de terapia que ele preferia. Isso gera um trabalho maior, um dispêndio de energia maior no sentido de você tentar explicar e chegar naquilo que realmente é fato.

Por outro lado, é muito bom poder trabalhar com pessoas que têm informação e bom senso. Quando você lida com pessoas que têm informação, buscam a informação, se interessam pelo tema e estão abertas a discutir o assunto, é muito bacana. Uma das maiores dificuldades que a gente tem hoje é perguntar para a pessoa: “Quais são os remédios que você toma?” E a pessoa responde: “É aquele comprimido que vem numa caixinha quadrada, um comprimido redondo e branquinho”. Às vezes a pessoa não sabe por que o remédio foi passado. Isso acontece em quase todos os níveis sociais.

Além de gestor, o senhor é cardiologista e as doenças cardiovasculares, embora sejam, em sua maioria, preveníveis, ainda são a principal causa de morte no Brasil e no mundo. Por que isso ainda acontece mesmo com tanta informação sobre prevenção?

A gente conhece os fatores de risco, mas a doença cardiovascular continua sendo a primeira causa de óbito no mundo, em qualquer lugar, apesar de mais recursos diagnósticos e de novas terapias. Alguns fatores de risco são modificáveis e é nesses fatores de risco que não há uma intervenção ou um controle adequado, porque depende muito de mudança de estilo de vida. Se você pensa, falando de infarto e morte súbita, existe um fator de risco genético e isso é imutável, não tem como interferir, mas tabagismo, diabetes, dislipidemia, que é o aumento de colesterol não controlado, sedentarismo são fatores modificáveis. 

Então, apesar de a gente saber tudo isso, a gente é um país que ainda tem muitos sedentários, a gente é um país que tende a ter obesos. A gente tem muito mais gente com acesso à informação e à saúde, mas não há mudança de estilo de vida. Uma outra coisa é a adesão ao tratamento. Não é incomum a pessoa passar por todas as etapas, conseguir ter a receita e não seguir adequadamente o tratamento porque não acha que é importante ou porque acha que aquele fármaco não está fazendo bem ou está interferindo em outra coisa.

O senhor mencionou os pacientes usando ChatGPT. Há uma grande expectativa sobre o uso da inteligência artificial no setor saúde. Em que áreas o senhor acha que ela tem mais potencial? O Sírio-Libanês está usando algumas dessas ferramentas?

Acho que tem várias frentes que a gente pode usar IA em benefício de todo o sistema: em triagem de pronto-socorro e alertas para deterioração clínica de pacientes, por exemplo. A gente sabe que um paciente internado, antes de evoluir para uma situação catastrófica, já dá sinais de 12 a 24 horas antes. Às vezes, eles não são muito relevantes para a equipe, mas quando você coloca junto esta informação, você tem preditores de um prognóstico adverso.

Na área de radiologia, a inteligência artificial tem sido usada para uma série de coisas: detecção de nódulos, perfis de imagens que sugerem um desfecho pior. Do ponto de vista de gestão de fluxo de pacientes, também: a inteligência artificial hoje consegue trazer para a gente uma inteligência de alocação de agendas, predição de população que falta mais. Então, tem muita iniciativa começando, e a gente tem que saber qual é o limite delas.

Esses exemplos que o senhor citou já estão sendo usados no Sírio-Libanês?

Em agendamento, apoio a (exames de) imagem, apoio a protocolos clínicos e deterioração de situações em pacientes internados.

E tem alguma outra área que vocês ainda não estão usando mas que veem um futuro promissor?

A inteligência artificial para tirar etapas do atendimento do profissional, a gente ainda não pensa nesse caminho. A gente está pensando em como utilizar, na verdade. Porque como é que eu modulo a inteligência artificial na prática? Como eu garanto que eu não tenha alucinações ou desvios da inteligência artificial? Mas neste momento a gente está sendo bastante crítico e estudando para saber quais perspectivas ou em quais frentes a gente vai poder usar.

Hoje, eletrocardiogramas com laudo normal, a inteligência artificial consegue analisar e prever se aquele paciente vai ter uma insuficiência cardíaca daqui a cinco ou dez anos. Não é que o médico não enxerga, mas na análise convencional de um exame como o eletro, ele dá o laudo como normal. Mas a inteligência artificial consegue analisar desvios que nós não percebemos e pode prever uma insuficiência cardíaca no futuro.

No ecocardiograma, análises conseguem predizer algumas patologias que a análise clínica não consegue ver. Então, tem muita coisa por aí, mas a gente não implantou isso, isso está sendo discutido, as sociedades de especialidade têm discutido isso, como usar esse dado para realmente incorporar na prática clínica da área.

Estudantes de Medicina precisam aprender o que é evidência científica de fato, diz diretor do Sírio – Estadão

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Minerais críticos podem ser novo pré-sal, diz estudo

Estudo aponta cenário de produção de até US$ 15,6 bi ao ano, com impacto em vários Estados

Por Giordanna Neves — Valor – 17/12/2025 

Os minerais críticos têm potencial para se tornar o novo pré-sal do Brasil. Mesmo em cenários conservadores e com apenas 27% das reservas conhecidas já prospectadas, o valor bruto de produção dessas cadeias – que consiste no valor total da produção a preços de mercado, calculado antes de descontar custos e insumos – pode alcançar US$ 15,6 bilhões anuais até 2030. O volume representa alta de 187% em relação a 2024, impulsionada pela transição energética global. A escala dessa oportunidade remete ao impacto do pré-sal. A exploração de petróleo em águas profundas revelou mais de 50 bilhões de barris equivalentes e gerou mais de US$ 40 bilhões por ano em produção bruta, além de estruturar uma cadeia nacional sofisticada de engenharia, equipamentos e serviços.

Os cálculos integram estudo elaborado a pedido do Valor pelo professor de economia da Universidade de Brasília (UnB) Jorge Arbache e pelo pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) Rafael Leão. Com base nesses resultados, os autores afirmam que o Brasil passa a deter poder de barganha relevante ao concentrar reservas estratégicas disputadas por Estados Unidos, Europa e China, o que abre espaço para negociar agregação de valor no país.

O Brasil ocupa hoje uma posição paradoxal no contexto geopolítico dos minerais críticos da transição energética: é grande detentor de reservas, mas pequeno produtor, o que resulta no desperdício de um enorme potencial econômico em termos de renda, industrialização e tecnologia. Essa lacuna – típica de países que não convertem vantagem comparativa em vantagem competitiva – é justamente onde reside o principal potencial econômico mensurável para as próximas décadas.

Segundo os pesquisadores, o país já mostrou ser capaz de romper esse tipo de armadilha. O pré-sal é a referência histórica mais clara de como a exploração de recursos naturais pode impulsionar diversificação produtiva, sofisticação industrial e ganhos econômicos de escala. Na visão dos autores, os minerais críticos têm potencial para desempenhar papel semelhante, em um contexto em que a transição energética acelera a demanda global por esses insumos. Veículos elétricos, por exemplo, consomem cerca de cinco vezes mais minerais do que os modelos a combustão, de acordo com a Agência Internacional de Energia (IEA).

“Se o Brasil repetir o que o pré-sal fez para o petróleo, porém, agora com maior distribuição territorial e maior sofisticação tecnológica, o país poderá: multiplicar exportações; criar novos clusters industriais (Minas Gerais-Goiás-Bahia, Piauí-Ceará, Pará-Amapá); elevar produtividade; atrair pesquisa e desenvolvimento internacionais; gerar receitas públicas perenes pelo pagamento de royalties; e criar uma indústria verde integrada ao comércio global. Mesmo em cenários conservadores, o valor econômico é significativo”, enfatizam.

Brasil tem potencial de estabilizar o fornecimento global de matérias-primas nos próximos anos

Para mensurar o potencial econômico dos minerais críticos, os autores construíram três cenários conservadores, a partir de dados do Anuário Mineral Brasileiro da Agência Nacional de Mineração (ANM), parâmetros médios de preços internacionais e domésticos e padrões globais de processamento e agregação de valor.

As estimativas consideram o valor bruto da produção mineral, e não o valor adicionado, e levam em conta o tamanho das reservas já mapeadas, o subaproveitamento atual – evidenciado pela lacuna entre reservas e produção efetiva -, o impacto da expansão da produção e comparações históricas com o pré-sal. Hoje, apenas cerca de 27% do território brasileiro foi adequadamente prospectado. Esse é um dado que sugerem, por exemplo, amplo espaço para novas descobertas e explica o porquê os cenários traçados são considerados conservadores.

No cenário “padrão-mundo” estimado no estudo, os pesquisadores consideram que a produção brasileira se equipara à velocidade média global observada entre 2017 e 2023, mas o país permanece concentrado na extração, sem capacidade relevante de refino e processamento, mantendo um perfil essencialmente exportador de commodities minerais. Nesse cenário, o valor da produção mineral beneficiada de cobre, grafita, manganês, níquel, terras raras e lítio cresce 4,6% ao ano, até 2030, alcançando US$ 7,1 bilhões, ante US$ 5,4 bilhões em 2024, o que representa alta de 31% (a um câmbio médio de R$ 5,5 por dólar).

O cenário “padrão-transição energética” incorpora projeções mais aceleradas de crescimento da demanda global por esses minerais no período de 2024 a 2030, conforme aponta a IEA. Ou seja, esse cenário pressupõe um fluxo mais intenso de investimentos em expansão da capacidade extrativa, mas sem avanço relevante no refino. Neste caso, mesmo restrito ao elo minerador, o valor da produção beneficiada de cobre, grafita, manganês, níquel, terras raras e lítio cresce 9,2% ao ano, até 2030, alcançando US$ 9,2 bilhões, aumento de 69% em relação ao patamar de 2024.

Já o cenário “padrão-industrialização das vantagens comparativas” combina forte expansão da capacidade extrativa com a internalização de etapas básicas de refino e processamento mineral. Nessa simulação, o Brasil é capaz de processar metade da produção beneficiada, produzindo matérias-primas metalúrgicas e químicas, como cátodos de cobre e níquel, manganês eletrolítico, hidróxido de lítio grau bateria e óxidos de terras raras. Nesse caso, o valor da produção combinada dos minerais concentrados e dos minerais processados e refinados cresceria 19,2% ao ano até 2030, alcançando US$ 15,6 bilhões em 2030, salto de 187% comparado ao valor da produção mineral beneficiada de 2024.

Além do impacto na produção mineral, a consolidação das cadeias de minerais críticos teria efeitos macroeconômicos relevantes, elevando o Produto Interno Bruto (PIB) potencial, gerando exportações adicionais e ampliando de forma significativa as receitas públicas federais, estaduais e municipais, mesmo em cenários conservadores.

Diferentemente do pré-sal, concentrado geograficamente, as províncias de minerais críticos estão espalhadas por diversos Estados. Isso tende a gerar um choque de desenvolvimento descentralizado, com ganhos para municípios do interior por meio de royalties e investimentos em infraestrutura, saúde e educação. A expansão do setor pode ainda viabilizar cadeias metalúrgicas e químicas, além da produção de componentes avançados para energia eólica, solar, armazenamento e baterias, reduzindo a dependência da exportação de minérios brutos e elevando a produtividade e a capacidade de inovação do país.

Segundo os autores, projeções de mercado indicam que a oferta global desses minerais deve se tornar insuficiente já em meados da próxima década. Isso abre espaço para que o Brasil, com mais investimentos, ajude a estabilizar o fornecimento global de matérias-primas, componentes e, eventualmente, produtos finais essenciais para a transição energética.

Para o físico e ambientalista Délcio Rodrigues, diretor-executivo do Instituto ClimaInfo, é essencial que o país aproveite suas reservas de minérios críticos para reduzir a desigualdade. “Como a extração de petróleo, a mineração é concentradora de renda e, em suas operações no Brasil, as condições de trabalho e a remuneração dos trabalhadores são muito precárias, salvo raras exceções. Não será com um boom nas exportações de minérios que reverteremos esta situação. Para isso, precisaremos de políticas públicas, investimento em pesquisa e desenvolvimento, direcionamento político e salvaguardas socioambientais”, diz.

Segundo ele, o combate à desigualdade e o cuidado com o meio ambiente têm que determinar o rumo do mercado de minerais críticos. “Sem isso, quem ganhará, mais uma vez, será um punhado de investidores, e quem perderá serão as populações atingidas pelos impactos da mineração, as nossas águas e a nossa biodiversidade”, acrescentou.

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A expansão da infraestrutura

O investimento continua crescendo na infraestrutura, transformando o Brasil pelo lado da oferta

Por Joaquim Levy – Valor – 18/12/2025

Joaquim Levy foi ministro da Fazenda e diretor-gerente do Banco Mundial e é diretor de Estratégia Econômica e Relações com Mercado do Banco Safra

O ano de 2025 trouxe algumas boas notícias para a economia brasileira, além da apreciação cambial e da queda da inflação que a acompanhou. Na infraestrutura, o investimento continua crescendo, transformando o Brasil pelo lado da oferta. Novas técnicas no setor agro também vão abrindo oportunidades para o Brasil e aumentando a sustentabilidade do setor. O investimento é essencial para aumentar a produtividade média da mão de obra, mesmo que essa varie bastante entre setores.

Com a ajuda da infraestrutura, o investimento total (formação bruta de capital) vem crescendo mais que o consumo desde 2024, devendo se manter assim em 2026, acompanhando as exportações nessa toada de serem puxadores do crescimento do PIB.

O Livro azul da Abdib indica que o investimento total em infraestrutura em 2025 deve alcançar R$ 280 bilhões (2,6% do PIB), dos quais R$ 235 bilhões sob responsabilidade do setor privado. O desembolso do setor privado a preços constantes cresceu 6% em relação a 2024, enquanto que o do setor público caiu 11%. Além disso, há uma expectativa de vultosos investimentos à frente — no setor de rodovias, os leilões até finais de 2025 representam a contratação de mais de R$ 200 bilhões em obras nos próximos anos, mais ou menos três vezes os R$ 76 bilhões investidos em rodovias e logística em 2025. Há a expectativa de outros 13 leilões de rodovias federais em 2026 e oito ferroviários, como concessão ou autorização, em alguns casos com apoio do governo, como se fossem parcerias público privadas. Isso poderia gerar investimentos anuais de até 0,5% do PIB nessa década e começo da próxima.

A formação bruta de capital vem crescendo mais que o consumo desde 2024, devendo se manter assim em 2026

O investimento no saneamento tem crescido de maneira exponencial, mais que dobrando em relação à média 2010-2020, com salto de 50% de 2021 a 2023 e outros 50% de lá para cá. Aí também a participação do setor privado tem sido decisiva, aumentando 1000% em relação à média das décadas anteriores. O contraponto tem se dado nas telecomunicações e na geração elétrica. Nas telecomunicações, as inovações para o consumidor individual têm sido moderadas, tornando a difusão do 5G menos rápida do que se podia esperar.

Na eletricidade ainda se digere o crescimento da geração distribuída, enquanto o marco regulatório não dá mais incentivo ao uso da geração hídrica como uma bateria natural para todo o sistema. Com isso, o aproveitamento da energia eólica tem sido intermitente e a sinalização para os investimentos menos persuasiva. Esse quadro deve mudar com a demanda de energia para o processamento de dados que vai se concretizando. Recentemente, houve anúncios importantes no Nordeste, com implicações favoráveis à retomada de produção de usinas eólicas no Brasil, além de possibilidade de criação de centros de processamento na região Sudeste. Essa retomada terá um efeito multiplicador para a indústria de transformação, que também começa a se beneficiar das expectativas de baterias e outros equipamentos elétricos.

Há inúmeras formas de armazenar energia ao redor do mundo, algumas incipientes, mas promissoras. Aplicáveis ao Brasil, pode-se destacar as hidrelétricas reversíveis, nas quais a água é bombeada para reservatórios durante o período de baixa demanda de eletricidade, e liberada para geração nos momentos de maior demanda. Número significativo de possíveis locais para esses reservatórios já foi mapeado. Também há a bateria térmica, ou seja, blocos que são aquecidos quando a energia elétrica é barata e resfriados quando a energia fica cara, assim ajudando a gerar vapor para turbinas elétricas. Maior foco no desenvolvimento dessas e outras alternativas de baixo custo para armazenamento por horas, dias, semanas, junto com avanços no despacho mais dinâmico da energia, pode aumentar a confiabilidade do sistema com impacto de custo relativamente barato.

Na agricultura também tem havido transformações com impacto no crescimento potencial do PIB brasileiro. A produção de biocombustíveis no Brasil não tende a colocar a segurança alimentar em risco, ao contrário do que é sugerido em alguns círculos, inclusive de ambientalistas. Em alguns casos, ela ajuda a aumentar a oferta de alimentos e a melhorar a sustentabilidade da produção. No caso do etanol de milho (e eventualmente do trigo), cuja produção se dá geralmente como uma segunda safra no ano, ela aumenta a rentabilidade da terra, e facilita a sua cobertura por maior tempo, diminuindo a erosão e emissões de gases de efeito de estufa.

Com o etanol, a safrinha vem aumentando e, extraída a parte “energética” do grão, também a produção de proteína. Isso vem mudando a produção de carne no Brasil, estimulando o confinamento e a maior produtividade, especialmente do gado bovino. Isso é parte do salto de produção que permitiu a produção brasileira superar pela primeira vez a americana, e com ganhos ambientais. Mais confinamento libera pasto que pode ser readequado para a produção de grãos, diminui a idade de abate, diminuindo as emissões de metano por quilo de carne produzida, e promove o reaproveitamento dos resíduos animais na produção de fertilizantes. O etanol tem estimulado também a armazenagem com o volume dos silos passando de 70 milhões de toneladas (Mt) para 120 Mt nos últimos 10 anos, enquanto a estocagem total disponível para grãos passou de 160 Mt para mais de 230Mt.

Claro, ainda há déficits de infraestrutura em todos esses setores, apesar da tendência positiva. Assim como há grandes demandas de financiamento, para os quais o crédito direcionado ainda tem papel relevante, apesar do extraordinário crescimento dos mercados de capital. Os quais, junto ao crédito, refletem a expansão de outro tipo de infraestrutura, a financeira. Nesse caso, o IBGE informa que após quase uma década de lado, o PIB do setor financeiro — ou seja, a oferta desses serviços — cresceu quase 15% nos três últimos anos, com atenuação apenas recentemente, quando, como observa o Banco Central, a concessão líquida de crédito se contraiu em consonância com os objetivos da política monetária.

Joaquim Levy é diretor de Estratégia Econômica e Relações com Mercado do Banco Safra. Foi ministro da Fazenda e diretor gerente do Banco Mundial.

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Biológicos devem se destacar entre as startups do agro em 2026

De acordo com especialistas, as climatechs também tendem a se sobressair entre as inovações do setor em 2026

Por Marcos Fantin— Valor – 16/12/2025

O mercado de startups de biológicos já está bastante aquecido no Brasil, avaliam especialistas

O mercado de startups de biológicos já está bastante aquecido no Brasil, avaliam especialistas — Foto: CrofpLife/Divulgação

Os produtos biológicos, que ganham cada vez mais espaço no Brasil, devem ser o destaque entre as inovações do agronegócio em 2026, avaliam especialistas em tecnologia e em empreendedorismo no setor.

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Como exportador global relevante de vários produtos agropecuários, o Brasil tem visto a exigência por sustentabilidade aumentar ano após ano, o que abriu espaço para a adoção de bioinsumos e produtos biológicos dentro das fazendas, avalia Aurélio Favarin, analista de inovação aberta da Embrapa e editor técnico do Radar Agtech Brasil. “As tecnologias biológicas são eficazes, e o trabalho da Embrapa comprova isso”, diz.

De acordo com Favarin, o mercado de startups de biológicos já está bastante aquecido no Brasil. “Notamos que empresas tradicionais do agro migraram para atuar com biológicos, comprando startups para se posicionar no mercado”, observa.

Dirceu Ferreira Júnior, sócio-líder da PwC Agtech Innovation também destaca a área de bioinsumos. Segundo ele, o Brasil é o país com mais empresas de biológicos no mundo.

Com um olhar próximo às startups que operam dentro do espaço da PwC, o especialista afirma que o setor tem experimentado um surgimento até “fora do normal” de empresas iniciantes de bioinsumos, e que naturalmente não há espaço para todas. “Isso gera movimentos de fusões e aquisições, com empresas sendo absorvidas ou compradas, o que é normal”.

Outro destaque entre as inovações no próximo ano devem ser as startups ligadas à mitigação de risco climático — as chamadas “climate techs”. O termômetro da PwC, que conecta grandes empresas e startups, indica que devem ganhar força em 2026.

Segundo Ferreira, existem investimentos robustos acontecendo nas startups com serviços voltados ao clima, “porque é um problema real que se agrava ano após ano e afeta o mundo inteiro, especialmente o agronegócio, que depende de algo que não controla”, afirma o especialista.

Favarin, da Embrapa, concorda: “Tudo que melhore previsibilidade e controle de produção terá espaço no mercado, que se preocupa cada vez mais com isso [clima]”.

Ainda que seja um setor mais conservador e que demore mais a adotar inovações, a pecuária também deve ser alvo de novidades em 2026. Para Antonio Chaker, fundador do Instituto Inttegra e especialista em tecnologia e gestão, a tecnificação dos currais é iminente.

“O pecuarista não quer mais montar no cavalo, ele quer montar em um quadriciclo”, diz.

Para o especialista, a proximidade das novas gerações de pecuaristas com tecnologias como inteligência artificial, sensorização, drones e maquinários com tecnologias embarcadas, é a grande mudança que pode melhorar a produtividade e a rentabilidade das fazendas de gado.

Segundo Chaker, os pecuaristas sucessores se mostram menos satisfeitos com os baixos desempenhos do que as antigas gerações. “Não há tanto apego emocional com a área de sua fazenda como o pai e o avô, são mais pragmáticos com o resultado, e até menos presentes na fazenda”, exemplifica.

Além disso, as novas gerações são mais entusiastas de sistemas de gestão remotas das propriedade por não passarem todo o tempo nas fazendas.

Chaker também afirma que o acesso a tecnologias tem promovido transformações entre os técnicos agropecuários. Mas destaca um desafio para 2026: falta de mão de obra qualificada. “As fazendas têm que estar preparadas para receber as novas gerações de pecuaristas, e o produtor tem reclamado muito do apagão na mão de obra”, acrescenta.

Para Caroline Badra, vice-presidente e sócia da FESA Group com foco em agronegócio, a mão de obra qualificada para operar novas ferramentas não cresce no mesmo compasso das próprias tecnologias disponíveis para operação. Segundo ela, o futuro do agro depende menos de máquinas e mais da qualidade das pessoas que estão por trás delas. “O bom profissional que sabe utilizá-las tem lugar garantido. Os que pararem no tempo e não souberem, vão ficar para trás”

Biológicos devem se destacar entre as startups do agro em 2026

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Por que perdoar faz bem ao coração

Perdoar não muda o que foi vivido. Mas muda o peso com que você atravessa o que vem. É uma forma de cuidado silenciosa

Receita de Médico

Um debate sobre pesquisas, tratamentos e sintomas.

Por Stephanie Rizk – O Globo – 15/12/2025 Deixe ir

Deixe ir — Foto: Freepik

Todo fim de ano tem suas luzes, seus rituais, suas mesas cheias. Mas, entre uma decoração e outra, existe sempre um espaço que ninguém comenta. É o espaço das dores guardadas. Mágoas que ficaram presas no peito, conversas que nunca aconteceram, nomes que evitamos pronunciar. Às vezes, o que pesa não é o que vivemos, mas o que seguimos carregando. Há histórias que encerramos por fora, mas continuam abertas por dentro.

Falar em perdão nessa época pode soar piegas. Só que, quando olhamos com atenção, o perdão não é um gesto abstrato ou espiritualizado demais. Ele mexe com o corpo inteiro. A ciência mostra que guardar ressentimento mantém o organismo em alerta, como se estivéssemos sempre prontos para um ataque que não chega. O coração acelera, a pressão sobe, músculos se contraem. O cérebro ativa regiões ligadas ao medo e à ameaça. A mágoa crônica transforma o corpo em território de tensão. E ninguém merece atravessar mais um ano assim, vivendo como se cada lembrança dolorosa fosse um campo minado.

O contrário também é verdadeiro. Estudos mostram que perdoar reduz a reatividade ao estresse. O coração desacelera. A respiração se solta. A mente para de rodar o mesmo filme doloroso em looping. É como se alguém abrisse uma janela dentro da gente e deixasse entrar ar novo depois de anos respirando num quarto fechado. Não se trata de esquecer, muito menos de aprovar o que aconteceu. Trata-se de não permitir que a ferida continue definindo o que somos. De impedir que o passado crie raízes onde já não deveria morar.

Perdoar exige coragem. E existe mais de um tipo de coragem. Há o perdão decisório, quando você escolhe não se vingar, não perpetuar o ciclo. É uma decisão racional. Mas existe o perdão emocional, bem mais profundo, quando a raiva vai perdendo espaço, quando o coração para de endurecer só para conseguir sobreviver. É esse segundo tipo que transforma vidas. Libera energia, abre espaço para esperança, devolve leveza a quem andava pesado demais. É como ajustar um ritmo interno que estava fora do compasso.

A mágoa, quando amadurece, vira ruminação. A cabeça repete a mesma cena incontáveis vezes, ensaia diálogos imaginários, revive dores antigas, sempre com o desfecho que gostaríamos de ter dito, feito ou ouvido. A ciência chama isso de ruminar. Todo mundo já fez. Mas poucos percebem o quanto esse hábito consome. Quando trabalhamos o perdão, a ruminação diminui. A mente finalmente descansa. É como se o coração pudesse voltar ao seu eixo natural, menos acelerado, menos vigilante, menos cansado de vigiar feridas antigas.

E talvez o aspecto mais bonito do perdão seja o que os psicólogos chamam de reumanização. Depois de uma grande ofensa, o outro vira vilão. E nós viramos vítimas. Só que o perdão devolve nuances ao mundo. Ele devolve profundidade a quem parecia plano. Permite enxergar a humanidade que existe até em quem nos feriu. E devolve a nós a capacidade de não sermos definidos por um único capítulo da vida. Não é sobre voltar a conviver. É sobre não permitir que o passado dite quem somos no presente.

Dezembro chega para lembrar que nenhum ano é só conquista ou fracasso. Todo ano é também feito de cicatrizes. E algumas delas já poderiam ter parado de sangrar. Por isso, este é um convite. Olhe para a sua lista invisível de nomes que ainda doem. Talvez haja uma conversa a ser retomada. Talvez haja um silêncio que precisa ser aceito. Talvez a pessoa que você mais precise perdoar seja você mesmo.

Perdoar não muda o que foi vivido. Mas muda o peso com que você atravessa o que vem. É uma forma de cuidado que trabalha em silêncio, mas transforma tudo ao redor. Ao escolher perdoar, você devolve ao corpo a chance de descansar, à mente a chance de respirar, à vida a chance de seguir com menos resistência interna. É, no fim das contas, um presente que você se oferece.

Por que perdoar faz bem ao coração

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CEO da Nvidia diz que adoção de IA será gradual — mas, quando acontecer, faremos roupas para robôs

CEO da companhia mais valiosa do mundo não vê salto repentino nas demissões causadas por IA, mas defende que tecnologia transformará o mercado de trabalho de forma radical

Por Marco Quiroz-Gutierrez – Estadão/Fortune – 06/12/2025

O CEO da Nvidia, Jensen Huang, não prevê um salto repentino nas demissões causadas por IA. Mas isso não significa que a tecnologia não vá transformar radicalmente o mercado de trabalho — ou até criar funções completamente novas, como alfaiates de robôs.

Segundo Huang, os empregos mais resistentes ao avanço da inteligência artificial serão aqueles que envolvem mais do que tarefas repetitivas. “Se o seu trabalho é só picar legumes, a Cuisinart vai te substituir”, afirmou.

Por outro lado, algumas profissões, como a de radiologista, podem estar relativamente seguras, porque não se resumem a tirar ou analisar imagens, mas sim interpretar esses exames para diagnosticar doenças.

“Estudar a imagem é apenas uma etapa dentro do trabalho de diagnóstico”, explicou.

Huang reconheceu que alguns empregos de fato vão desaparecer, embora evite o tom mais alarmista de figuras como Geoffrey Hinton, o “padrinho da IA”, e Dario Amodei, CEO da Anthropic — ambos já previram desemprego em massa com o avanço das ferramentas de IA.

Ainda assim, o mercado dominado por IA que Huang imagina também pode criar novos cargos. Entre eles, ele citou a possível demanda por técnicos responsáveis por construir e manter futuros assistentes robóticos — e até indústrias completamente novas.

“Você vai ter roupas para robôs, uma indústria inteira disso — não é? Porque eu quero que o meu robô seja diferente do seu”, disse Huang. “Então vai existir toda uma indústria de vestuário para robôs.”

A ideia de robôs inteligentes ocupando postos de trabalho antes exercidos por humanos pode parecer ficção científica, mas algumas das maiores empresas de tecnologia do mundo já tentam torná-la realidade.

O CEO da Tesla, Elon Musk, fez do robô Optimus um pilar central da estratégia futura da companhia. No mês passado, Musk previu que o dinheiro deixará de existir e o trabalho será opcional dentro de 10 a 20 anos graças a uma força de trabalho totalmente robótica.

A IA também avança tão rapidamente que já tem potencial para substituir milhões de empregos. Segundo um relatório do MIT publicado no mês passado, a tecnologia consegue realizar tarefas equivalentes a cerca de 12% dos empregos nos Estados Unidos. Isso representa aproximadamente 151 milhões de trabalhadores, que ganham coletivamente mais de US$ 1 trilhão — tudo potencialmente impactado pela automação.

Mesmo o possível novo emprego de “estilista de roupas para robôs”, imaginado por Huang, pode não durar muito. Ao ser questionado por Rogan se os próprios robôs poderiam produzir roupas para outros robôs, Huang respondeu: “Eventualmente. E aí vai surgir outra coisa.”

CEO da Nvidia diz que adoção de IA será gradual — mas, quando acontecer, faremos roupas para robôs – Estadão

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Funcionários estão confusos se podem ou não usar IA

Empresas são instruídas a definir políticas claras, detalhando quais ferramentas podem ser usadas e como

Por Emma Jacobs – Valor/Financial Times – 24/11/2025

Alguns empregadores são claros sobre a inteligência artificial (IA). Oferecem bonificações aos funcionários que a usam com regularidade e alertam sobre possíveis medidas se a usam de forma indevida. Outros não definem nem as diretrizes mínimas, deixando muitos funcionários confusos sobre como usar a tecnologia.

A opacidade em torno das políticas vem fazendo com que funcionários usem contas pessoais de IA generativa em segredo ou descubram que, inadvertidamente, infringiram as regras. O problema se origina nos primórdios da tecnologia, quando as empresas “diziam enfaticamente às pessoas para não usar IA, por medo de vazamento de dados privados”, diz Joshua Wöhle, CEO da Mindstone, uma plataforma on-line que oferece treinamento de IA. “Isso teve um grande impacto nas pessoas, que ficaram com medo de usá-la.”

Mesmo agora que os empregadores vêm avalizando o uso da IA no local de trabalho, “a ressaca [ainda] dura”, acrescenta. O resultado é que há “pessoas que não a usam de forma alguma”. “Ou aquelas que o fazem, usam uma conta privada”. O problema, alerta Wöhle, é “dramaticamente maior” do que muitos executivos pensam.

Jason Ross, sócio da área trabalhista na banca de advocacia americana Wood Smith Henning & Berman, diz ter sido contatado por gerentes “profundamente preocupados” com a “negligência proposital ou meramente não intencional” de funcionários que desconhecem os riscos e as diretrizes da empresa. A queixa mais comum dos empregadores é quanto a funcionários que usam ferramentas de IA sem “revisão apropriada”.

No setor jurídico, têm surgido casos que violam decisões de tribunais sobre a necessidade de revelar o uso da IA, o que resulta em “embaraços para o escritório e advogados, sanções e danos à reputação”, diz Ross. “Também pode haver graves consequências disciplinares para o advogado implicado, incluindo a perda de emprego”.

Líderes empresariais vêm sendo instruídos a definir políticas claras. Em geral, essas políticas abordam questões como a “confidencialidade, riscos de parcialismo e discriminação, necessidade de envolvimento e revisão humanos e questões de privacidade e segurança de dados”, diz a chefe da área trabalhista no Reino Unido do escritório de advocacia Linklaters, Sinead Casey. Elas também devem deixar claro quais ferramentas de IA são permitidas, se o funcionário deve informar aos gestores quando usa ferramentas para realizar tarefas e deixar explícito que uma violação pode levar a medidas disciplinares, incluindo a demissão.

As empresas também deveriam ter funcionários treinados que deem exemplos de casos de uso e respondam a perguntas sobre as políticas, à medida que a tecnologia e as aplicações vão evoluindo.

A cultura é crucial para incentivar a divulgação do uso de IA generativa, diz Wöhle. “A IA é algo a celebrar ou a esconder? As pessoas se sentem orgulhosas de usá-la para obter um resultado? Ou as pessoas a escondem porque temem parecer que estão trapaceando? Se não estiver claro para as pessoas se elas vão ser celebradas ou censuradas por isso, então um cenário levará a uma melhor adoção e [divulgação], o outro não.”

Este ano, pesquisa global da KPMG e Universidade de Melbourne com 48.340 profissionais revelou que 44% infringem políticas e diretrizes das organizações sobre IA e 61% escondem o uso de ferramentas de IA no trabalho, com mais da metade apresentando conteúdo gerado por IA como se fosse próprio. “Precisamos ser positivos e fazer com que as pessoas sintam que podem experimentar”, diz o chefe da área de trabalho e IA da KPMG, Niale Cleobury.”

Na pesquisa Digital Consumer Trends, da Deloitte, 19% disseram que suas empresas não tinham política ou orientação sobre IA generativa e 14% não sabiam se suas empresas tinham uma política.

Algumas empresas criaram bonificações para incentivar o uso aberto e apropriado da IA. Uma delas passou a oferecer bônus de US$ 10 mil ao funcionário que criasse mais “prompts” de qualidade ou para quem usasse a IA de forma mais inovadora, escolhido por votação dos colegas. “O envolvimento está nas alturas”, diz Wöhle.

Em abril, a banca de advocacia Shoosmiths criou uma bonificação de 1 milhão de libras esterlinas para distribuir entre os funcionários se eles atingissem a meta de 1 milhão de prompts ao longo do ano. Os funcionários podem usar o Copilot da Microsoft para resumir e revisar documentos, assim como para fazer avaliações de desempenho, mas estão proibidos de recorrer à IA para quaisquer pesquisas jurídicas específicas. “Ele não foi treinado para ser advogado”, diz Tony Randle, sócio do escritório.

Consciente de que o uso responsável de IA se estende à preocupação ambiental, a Shoosmiths proíbe os funcionários de usar a tecnologia para produzir imagens. “A geração de imagens por IA consome dez vezes mais energia do que uma produção de palavras. Não queremos que as pessoas queimem energia dessa forma.” (Tradução de Sabino Ahumada)

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