Nada para falar: o horror de um mundo sem fofoca

A pandemia acabou com a emoção de compartilhar atividades ilícitas. E nós ficamos mais pobres por isso.

9 de agosto de 2020

POR IAN LESLIE The Economist 1843(Tradução Evandro Milet)

Não sei sobre você, mas para mim, o lockdown tem sido enervante. Minha pulsação diminuiu para quase nada e meu humor, embora não necessariamente baixo, ficou chato. Eu não tinha percebido até agora o quanto eu confio em encontros sociais – você se lembra, aqueles onde você realmente conhece a pessoa – para minhas doses diárias de dopamina e adrenalina. Em particular, eu me vejo perdendo conversas que tragam uma dose boa de notícias de bastidores sobre alguém que eu conheço em comum.

A fofoca, como muitas outras atividades, foi sufocada pelo lockdown. Depende do mundo girar os seus negócios. Sua essência é estimulada por choques sociais, desventuras e infrações. Quando tão poucos de nós estão fazendo muita coisa, ou vendo alguém além de nosso círculo imediato, há menos margem para mau comportamento e menos para relatar. Com os escritórios, bares e restaurantes fechados, também fecharam as oportunidades de perceber casais secretos saindo para almoçar ou ouvir negócios secretos sendo discutidos em mesas de canto.

Ler relatos online sobre as indiscrições das pessoas é um pobre substituto para a carga elétrica de ouvi-los em primeira mão, o que talvez explique por que, quando um dos principais epidemiologistas da Grã-Bretanha violou o bloqueio para encontrar sua amante, a nação reagiu como um cachorro faminto presenteado com bife. Ele era um conselheiro do governo, o que o tornava interessante. Mesmo assim – um cientista de meia-idade tinha recebido a visita de sua namorada? Já tivemos coisas melhores para salivar.

Tenho saudades dos rumores contados a boca pequena. Sinto falta da sobrancelha levantada, da voz baixa, do olhar de precaução ao redor da sala. Eu amo fofoca. Isso está errado? Tenho que perguntar, porque para uma atividade que tanto influencia a reputação das pessoas, ela por si só não tem um bom nome. Aprendemos desde cedo que não é bom falar de alguém pelas costas. Não que isso nos pare: uma meta-análise de 2019 publicada na revista Social Psychological and Personality Science descobriu que as pessoas gastavam, em média, 52 minutos por dia conversando sobre pessoas que não estavam presentes (meu palpite é que eram os minutos mais interessantes do dia).

Quando um dos principais epidemiologistas da Grã-Bretanha violou o lockdown para encontrar sua amante, a nação reagiu como um cachorro faminto presenteado com um bife

A fofoca parece ser uma característica universal de nossa espécie: pesquisadores estudaram sua disseminação entre executivos de negócios, pecuaristas e equipes esportivas; entre os nativos americanos, estudantes holandeses e moradores de atóis polinésios. Robin Dunbar, um psicólogo evolucionista, chegou a propor que os primeiros humanos desenvolveram a fala para fofocar, como um meio de ligação em grupo. Uma afirmação forte, talvez, mas é claro que a fofoca nos ajuda a nos orientar dentro de nosso grupo: quem está por cima e por baixo, quem está bem ou mal no grupo.

Também nos aproxima. A própria palavra “fofoca” tem suas raízes na amizade. Deriva da palavra do inglês antigo godsibb, que significa padrinho – isto é, um amigo da família. Quando fazemos fofoca, cometemos uma deliciosa transgressão mútua. Ao compartilhar informações secretas comigo, você está indicando que sabe que não sou o tipo de pessoa que irá rejeitá-lo ou denunciá-lo por isso e vice-versa. No momento em que sinto que um novo conhecido está disposto a cruzar esse limite, geralmente é o momento em que nos tornamos amigos. A fofoca pode não ser confiável, mas acho difícil confiar em quem não se envolve nela.

Pessoas que nobremente se abstêm de fofocar parecem carecer de algum sentimento essencial de companheirismo. Theresa May, a ex-primeira-ministra da Grã-Bretanha, comentou com silencioso orgulho que ela não era o tipo de pessoa que “fofoca durante o almoço”. Qualquer um que almoçou com ela confirmou isso; eles também confirmaram que era dolorosamente chato. A fofoca é divertida – diversão subversiva. 

Além de rejeitar fofocas, May era notoriamente hostil aos dissidentes, o que não é surpreendente. A filósofa Gloria Origgi sugeriu que o desprezo pela fofoca esconde um impulso para o controle autoritário e uma consideração excessiva pelas regras formais. A fofoca é uma forma de disseminar uma versão não oficial da realidade, mais próxima de samizdat(publicações clandestinas) do que da propaganda. É a liberdade de expressão em jogo.

Acho que é uma liberdade que precisamos preservar, principalmente no ambiente de trabalho, onde ela desempenha um papel essencial. Trabalho como freelancer na indústria de publicidade, o que significa que, ao longo de um ano normal, posso ter uma mesa em vários escritórios diferentes. Dado que normalmente fico lá por apenas algumas semanas, preciso entender o mais rápido possível com quem devo fazer amizade ou evitar, quem pode acelerar ou retardar as coisas. Não é o tipo de informação que você obtém de uma planilha ou por indução. A única maneira de descobrir isso é levando minha equipe para o bar. Após a segunda rodada de bebidas, a fofoca começa e a verdadeira organização aparece sem máscara.

É crucial que ninguém do alto comando esteja presente. A autoridade tem um efeito assustador sobre a fofoca. Em qualquer hierarquia, as pessoas no topo gostam de controlar o fluxo de informações abaixo e, na era dos aplicativos de e-mail e mensagens, os chefes estão mais bem equipados do que nunca para monitorar e regular o que os funcionários dizem uns aos outros. 

A fofoca é uma forma de os trabalhadores retomarem o controle, de falar a verdade nas costas do poder. Afinal, a administração tem segredos que não quer que você saiba – quem está recebendo o quê e quem será demitido na próxima reestruturação. Se os funcionários desejam essas informações, eles não vão solicitá-las ao RH ou lê-las no e-mail semanal do CEO. Eles devem confiar um no outro.

Sinto falta da sobrancelha erguida, da voz baixa, do olhar de precaução ao redor da sala

A fofoca pode dar voz aos que não têm voz: as bases que, mesmo quando informadas de que trabalham em uma meritocracia, não têm uma maneira real de verificar se isso está funcionando bem. Não é coincidência que os grupos mais frequentemente associados à fofoca ao longo da história tenham sido mulheres e criados. A fofoca pode não ser responsabilizável, mas pode forçar a responsabilização. 

Ela une observações privadas e opiniões subversivas em julgamentos coletivos – julgamentos que podem expulsar, não apenas o membro da equipe de carona, mas o chefe agressor e o líder corrupto. Origgi descreve a fofoca como uma arma usada pelos impotentes contra os poderosos: “Você pode não ser capaz de mudar o status institucional de uma pessoa”, diz ela, “mas por meio da fofoca, você pode rebaixar a reputação dessa pessoa”.

Sem desejar santificar seu espírito ímpio, é importante notar que a fofoca pode até salvar vidas. Muitas organizações de ajuda que trabalham em comunidades pobres descobrem que as pessoas não aceitam vacinas porque não confiam em estranhos. Eles não podem contar com a mídia ou governos para divulgar  o que deve ser feito, então, de alguma forma, eles precisam fazer com que as pessoas das comunidades o façam elas mesmas. 

Em um estudo publicado pela primeira vez em 2014, uma equipe de economistas liderada pelos ganhadores do Prêmio Nobel Esther Duflo e Abhijit Banerjee identificou uma nova solução para este problema: pergunte às pessoas em cada aldeia quem são os maiores fofoqueiros, então conte essas fofocas sobre o programa local de imunização. Quando Duflo e Banerjee realizaram testes controlados desse método em Karnataka e Haryana, áreas rurais da Índia, eles descobriram que aumentavam muito as taxas de frequência às clínicas.

A fofoca é uma forma de informação que se espalha, como um vírus, pelas comunidades. Ao contrário de um certo outro vírus que poderíamos mencionar, este tem uma taxa de mortalidade igual a zero. Mas também tem seus transportadores e superdistribuidores. Tende a ser transmitido em grupos distintos entre pessoas indiscretas. Às vezes, atinge a população em geral, e nesse ponto pode se transformar em boato ou teoria da conspiração. Os sintomas incluem Schadenfreude, prazer nos infortúnios dos outros. Mesmo essa satisfação duvidosa tem um propósito mais profundo.

A fofoca tende a ser transmitida em grupos distintos, entre pessoas indiscretas

Segundo o psicólogo Roy Baumeister, a fofoca é uma forma de “aprendizado cultural”. Isso ajuda a garantir que todos estejam jogando pelo mesmo livro de regras sociais, ou pelo menos tenham uma cópia dele. Crianças, que têm muito a descobrir sobre como se comportar, fofocam com e sobre as outras – para obter a visão de mundo das crianças, não a versão oficial transmitida por pais e professores. Quanto mais regras temos que aprender e quanto mais rápido precisamos aprendê-las, mais nos apoiamos na fofoca. Os adolescentes adoram fofocar porque, na verdade, estão procurando um doutorado em regras de relacionamento.

Se a fofoca é mais frequentemente negativa do que positiva, não é necessariamente porque as pessoas são maliciosas. É porque a maneira mais rápida de aprender sobre uma norma é ouvir como alguém a violou. Assim, descobrimos o que não devemos fazer, sem ter que errar nós mesmos. Baumeister aponta para a forma como os pais usam histórias sobre pessoas – em essência, uma forma de fofoca – para ensinar as crianças sobre os perigos do mundo. Um pai não pode mostrar a um filho por que ele não deve correr para o meio da rua, e simplesmente explicar por que não é uma boa ideia não é tão vívido quanto contar uma história sobre uma menina que fez isso uma vez e nunca mais foi vista.

Podemos, infelizmente, estar testemunhando a extinção da fofoca. A pandemia acelerou as tendências de longo prazo, antecipando o que já estava em alta, como o trabalho em casa, e matando o que estava em declínio, como jornais e dinheiro vivo. Dunbar, escrevendo nos primeiros dias da Internet, argumentou que a comunicação eletrônica só poderia ser um substituto pobre para a fofoca cara a cara. Eu suspeito que ele estava certo. Os rumores podem prosperar online, mas a fofoca, que é mais pessoal, não. Como um vírus real, depende de uma membrana para protegê-lo; privacidade é seu envoltório de gordura. Acontece apenas entre nós ou não ocorre. E como sabemos, a privacidade não é o ponto forte da internet.

Eu já havia percebido, muito antes de esta crise acontecer, que as pessoas – inclusive eu, eventualmente – estavam menos dispostas a fofocar por e-mail ou mensagens privadas. Meramente sugerir uma indiscrição ou confidência deveria ser rigidamente ignorado. Isso porque as pessoas aprenderam, por observação ou experiência, que não há segredos na internet. 

Tudo que está escrito está sendo publicado agora. A fala evapora no momento em que sai de nossa boca, mas qualquer coisa comprometida com o texto tem uma vida após a morte que seu criador não pode controlar. Se alguém deseja trocar confidências com um colega, deve dar um passeio, como espiões baratos. Para fazer isso, ajuda estar no mesmo escritório. À medida que as interações offline se tornam mais raras, o mesmo acontece com a fofoca.

Quer percebamos ou não, acho que todos ficaremos pior se a fofoca desaparecer. Uma sociedade desprovida de fofoca carece de diversão, intimidade e companheirismo. Será um pouco menos justo e muito mais enfadonho. Você não ouviu isso de mim, ok?

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A visão de Bill Gates sobre transportes e sustentabilidade

Como nos movimentamos em um mundo de zero carbono?

Queremos que mais pessoas possam viajar sem contribuir para as mudanças climáticas.

Por Bill Gates 24/8/2020 (Tradução Evandro Milet)

No início deste mês, escrevi sobre como COVID-19 é uma história que serve de alerta para as mudanças climáticas. Não há dúvida de que experimentamos um sofrimento terrível e dificuldades econômicas nos últimos meses. Mas por mais difícil que seja imaginar agora, quando ainda estamos no meio da pandemia, a mudança climática tem o potencial de ser ainda mais devastadora.

A pandemia também nos lembrou quanta inovação é necessária para evitar um desastre climático. Os melhores números que vi estimam que a desaceleração econômica devido ao COVID-19 reduziu as emissões globais em cerca de 8 por cento. Isso não é nada, mas a austeridade que nos levou até lá obviamente não é sustentável. Se vamos abordar a mudança climática, precisamos encontrar novas maneiras de fazer coisas que não liberem gases de efeito estufa, incluindo a forma como nos movemos.

Quando a maioria das pessoas imagina o que contribui para as mudanças climáticas, os veículos são uma das primeiras coisas que vêm à mente. Aqui nos Estados Unidos, o transporte é o principal contribuinte para as emissões. Mas você pode se surpreender ao saber que ele contribui com apenas 16% das emissões globais. Essa é uma porcentagem menor do que a que conectamos, cultivamos e fabricamos coisas. Ainda assim, descarbonizar a forma como nos movemos é essencial se quisermos chegar a emissões líquidas zero.

Nosso objetivo aqui não é necessariamente fazer com que as pessoas se movam menos (embora devamos procurar maneiras de reduzir o tempo de circular de carro, avião e navios sempre que possível). Como vimos nos últimos meses, as economias sofrem quando as pessoas são forçadas a ficar perto de casa.

Queremos que mais pessoas e bens possam viajar. Para algumas das pessoas mais pobres do mundo – como os pequenos agricultores na África Subsaariana – a capacidade de transportar mercadorias das áreas rurais para os mercados da cidade pode fazer a diferença entre a vida e a morte. Para fazer isso, precisamos garantir que o transporte permaneça acessível para todos. Produtos como gasolina, diesel e até mesmo combustível de aviação são o padrão por um motivo: eles podem mandar você para longe por um baixo custo por galão.

Então, como exatamente alimentamos nossa necessidade de nos movermos sem emitir gases de efeito estufa? A resposta é simples, mesmo que fazer acontecer não seja: usar eletricidade limpa para fazer funcionar todos os veículos que pudermos e obter combustíveis alternativos baratos para todo o resto.

Vamos começar com o primeiro. A boa notícia é que fizemos muito progresso em veículos elétricos, ou VEs. Ao contrário de muitas das alternativas ecológicas sobre as quais escrevi antes neste blog, você pode sair e comprar um agora mesmo, se quiser. As baterias que os alimentam tiveram uma queda de 85% no preço desde 2010, então estão ficando mais acessíveis para comprar (embora ainda sejam mais caras do que as opções a gasolina). Além disso, o aumento da concorrência no mercado significa que há mais opções disponíveis para os clientes do que nunca, de sedans compactos a carros esportivos elegantes. Você poderá até mesmo comprar uma picape totalmente elétrica em breve, graças a empresas tradicionais como GM e Ford e novas montadoras como Rivian e Bollinger.

Várias empresas estão desenvolvendo baterias melhores e mais baratas que farão dos VEs uma opção realista para todos os proprietários de automóveis. Por exemplo, a QuantumScape, um fabricante que trabalha para comercializar a próxima geração de tecnologia de bateria. (Estou investindo no trabalho deles por conta própria e por meio da Breakthrough Energy Ventures.)

Os VEs se destacam em viagens curtas. Isso significa que são ótimas opções para carros pessoais e até veículos médios, como ônibus urbanos e caminhões de lixo. Mas mesmo se desenvolvermos veículos elétricos baratos e de longo alcance que são movidos por fontes de carbono zero, a eletrificação não é uma opção para muitos tipos de transporte.

O problema é que as baterias são grandes e pesadas. Quanto mais peso você está tentando mover, mais baterias você precisa para alimentar o veículo. Mas quanto mais baterias você usa, mais peso você adiciona – e mais energia você precisa. Mesmo com grandes avanços na tecnologia de bateria, os veículos elétricos provavelmente nunca serão uma solução prática para coisas como veículos de 18 rodas, navios de carga e jatos de passageiros. A eletricidade funciona quando você precisa cobrir distâncias curtas, mas precisamos de uma solução diferente para veículos pesados de longo curso.

É aqui que entram os combustíveis alternativos baratos. Existem vários tipos diferentes desses combustíveis, mas aquele com o qual você provavelmente está mais familiarizado são os biocombustíveis.

Os biocombustíveis avançados de hoje são muito diferentes dos de primeira geração sobre os quais você já ouviu falar, como o etanol. Alguns são feitos de plantas que não são cultivadas para alimentação, por isso precisam de pouco ou nenhum fertilizante (que você deve se lembrar é um grande emissor de gases de efeito estufa). Outros são feitos de subprodutos agrícolas, como talos de milho e a polpa que sobra da fabricação de papel. Alguns desses combustíveis podem até mesmo ser colocados em motores existentes sem a necessidade de qualquer modificação.

Estou otimista sobre esses biocombustíveis, mas é muito cedo para pensar em substituir a gasolina e outros combustíveis fósseis por eles. A pesquisa sobre biocombustíveis avançados ainda é insuficiente e eles não estão prontos para serem implantados na escala de que precisamos. Precisamos de muito mais inovação antes que se tornem uma opção realista e econômica para o transporte de longa distância.Outro tipo de combustível alternativo são os eletrocombustíveis. Usando eletricidade para combinar as moléculas de hidrogênio na água com o carbono no dióxido de carbono, podemos criar um combustível líquido que funciona nos motores existentes. O dióxido de carbono que este processo usa é capturado diretamente da atmosfera, então a queima de eletrocombustíveis não adiciona às emissões gerais. 

Eles são muito caros, no entanto. Dependendo do combustível que você está substituindo, os eletrocombustíveis podem custar de 3 a 7 vezes mais que os combustíveis fósseis. E, como acontece com os VEs, a eletricidade usada para criá-los precisa ser de fontes de carbono zero para ser uma solução real.

Mudar para veículos elétricos e combustíveis alternativos é a maneira mais eficaz de nos movermos em direção a emissões zero no setor de transporte. Embora existam algumas outras medidas que podemos tomar para reduzir as emissões – como usar materiais menos intensivos em carbono para fazer carros, usar combustíveis de forma mais eficiente e movimentar-se menos – zerar todas as emissões de transporte exigirá avanços massivos nessas duas áreas.

Essas tecnologias precisam ficar muito mais baratas do que são hoje. Isso significa encontrar maneiras de produzí-las em escala e garantir que tenham um desempenho comparável ao de seus equivalentes de combustíveis fósseis.

Estou inspirado pelo progresso que fizemos até agora, mas temos um longo caminho pela frente (sem trocadilhos). Para evitar os piores efeitos das mudanças climáticas, precisamos chegar a zero emissões líquidas de gases de efeito estufa em todos os setores da economia em 50 anos. Descarbonizar a maneira como nos movemos exigirá muitas e muitas inovações, assim como nas outras áreas sobre as quais escrevi. 

Estou ansioso para ver o papel que as tecnologias de hoje desempenharão em um futuro com emissão zero de carbono e para descobrir quais novos avanços surgirão nos próximos anos.

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Como fazer networking com pessoas poderosas

por Michael C. Wenderoth, 16/12/2019 (Tradução Evandro Milet)
Depois de dois anos trabalhando em uma multinacional, Alex * estava pronto para uma mudança de emprego e sabia que o networking era fundamental para que isso acontecesse. Mas seus esforços – pedir ajuda a executivos dentro e fora de sua empresa – resultaram em zero oportunidades ou reuniões. Mais preocupante, quase ninguém se deu ao trabalho de responder. 
Alex estava fazendo um ótimo trabalho e tinha boas credenciais, então seu currículo não era o problema. Ele estava visando executivos influentes de alto nível, mas a taxa de resposta foi baixa.
Quando analisamos seus e-mails e solicitações do LinkedIn, rapidamente encontramos o problema: sua abordagem e seu texto. Suas 20 perguntas anteriores foram: “Prezado [Nome], Estou procurando um novo emprego e adoraria saber sua opinião enquanto tomamos um café. Você tem uma hora para nos encontrarmos? ”
Como você chama a atenção de pessoas poderosas que deseja em sua rede, mas são as menos propensas a responder? Executivos de alto nível são ocupados, vêem pouco valor em gastar tempo com alguém na hierarquia inferior e tendem a perder ou ignorar pedidos por e-mail ou mídia social.
Propus o inverso ao Alex: como ele responderia a um pedido semelhante de alguém mais jovem, que ele não conhecia bem? Se ele recebesse 20 pedidos, quais responderia e com quem se encontraria?Colocar Alex neste exercício de reflexão o ajudou – e a vários alunos e profissionais que treino – a identificar melhor as estratégias que garantem reuniões importantes. Alex finalmente identificou cinco abordagens, que são apoiadas pelas ciências sociais sobre o que leva os outros a responder e nos ajudar. Usados estrategicamente, eles também podem ajudá-lo.
Venha Recomendado
Alex se lembrou dos estudantes universitários que o contataram no ano passado e, envergonhado, admitiu que dispensou a maioria deles.
“Aquele a quem respondi imediatamente foi um aluno que meu CEO disse que eu deveria conhecer.”
”Lição: A melhor maneira de garantir uma reunião é vindo recomendado por uma figura respeitada em seu setor. Ter amigos em cargos importantes pode colocá-lo no topo da fila e até impactar positivamente seu salário.
Na prática: ser recomendado pode ser complicado se você não estiver próximo de alguém influente, mas quando examinamos cuidadosamente nossas redes, a maioria de nós pode identificar alguns laços poderosos. Peça a alguém influente para falar bem de você, apresentá-lo ou ajudar a marcar um encontro com a pessoa que você deseja conhecer.
A equipe de Alex contratou uma consultoria no ano anterior e ele impressionou o sócio da consultoria durante o contrato. O sócio tinha uma ampla rede de contatos seniores em outras empresas, então Alex perguntou se o sócio poderia apresentá-lo a um vice-presidente que ele gostaria de conhecer. O sócio ficou feliz em fazê-lo e também o indicou a outros dois executivos.
Jogue com suas semelhanças
Alex se gabou de sempre ajudar pessoas de sua universidade ou que estudaram no departamento de economia da escola.
“Eu ajudo ex-alunos.”
Lição: Nós gravitamos e ajudamos aqueles que são semelhantes a nós. Os laços comuns vão além da escola. Vindo da mesma cidade, torcer pelo mesmo time esportivo, compartilhar experiências únicas (como ser engenheira em marketing ou ter feito um curso não tradicional), até mesmo ter o mesmo nome ou dia de nascimento imediatamente aproxima as pessoas.
Na prática: faça sua lição de casa para refinar seu argumento de apresentação. Use o LinkedIn ou o Google para pesquisar as pessoas que você deseja conhecer. Inclua semelhanças que você compartilha em sua solicitação.
Alex revisitou sua lista e ficou surpreso ao saber que cinco executivos com quem ele queria se conectar vieram de sua cidade natal na Filadélfia. Ele reescreveu seu e-mail, acrescentando: “Percebi que você também é da Filadélfia (cresci perto de Drexel Hill), então imagino que você, como eu, ainda esteja comemorando nossa tão esperada vitória do Super Bowl de 2018!”
Traga valor
Alex respondeu a uma engenheira que o contatou, principalmente por causa de seu foco em inteligência artificial.
“Achei que talvez ela soubesse mais sobre IA do que eu, e eu poderia aprender alguma coisa.”
Lição: se você tiver informações, habilidades ou ideias que possam ser úteis para a pessoa que deseja conhecer, é mais provável que você se destaque.
Na prática: Destacar habilidades únicas pode ser mais fácil para profissionais experientes, mas estudantes podem capitalizar sobre o trabalho do curso ou familiaridade com tecnologias emergentes. Considere o que o seu alvo pode estar interessado ou precisar de ajuda. Use o conhecimento único que você possa ter, imaginando como isso pode beneficiar a pessoa, e destaque suas credenciais, como filiações a instituições de prestígio, que lhe dão credibilidade. Mas não escreva uma tese – dê dicas para despertar o interesse deles.
Alex percebeu que seu trabalho em uma campanha de mídia social para gerar vendas offline era uma história atraente para executivos de varejo, então ele destacou como ele “impulsionou as vendas na loja em 75% por meio de novas mídias”. Alex perguntou a um executivo se eles poderiam se encontrar para que Alex “pudesse obter a perspectiva da diretoria executiva e conselhos sobre como eu poderia usar essa habilidade para ajudar os varejistas, quando eu der o próximo passo em minha carreira. ”
Use bajulação
Um aluno não utilizou nenhuma das abordagens acima, mas Alex respondeu.
Ele ficou constrangido: “Esse cara me bajulou e me disse como eu era incrível”.
Lição aprendida: a velha piada diz que a bajulação tem uma lei de rendimentos decrescentes – mas ninguém descobriu onde ela cai! Toque no ego. Gostamos de pessoas que nos fazem sentir bem conosco e achamos que essas pessoas têm mais credibilidade.
Na prática: ninguém quer ser um “intrometido”, mas há boas evidências de que o comportamento insinuante funciona. Para combater nossa resistência em usar a bajulação, especialmente a crença de que não funcionará em todas as culturas, pense na bajulação como uma forma de fazer a outra pessoa se sentir bem consigo mesma. Por exemplo, o próprio ato de buscar a experiência e o conselho sábio de alguém é uma forma de lisonja. Um executivo alemão destacou pontos-chave de que gostou no discurso de um vice-presidente de outra divisão. A “bajulação” foi sincera. Ele marcou um café e iniciou um relacionamento que acelerou sua carreira.
Alex revisou seus e-mails genéricos para destacar algo específico sobre cada pessoa: “Eu realmente apreciei o que você disse em sua entrevista na televisão na semana passada – isso me fez repensar como eu vejo a privacidade online.”
Peça e seja persistente
Para cada pessoa que procurou Alex no ano passado, havia duas que não o fizeram. A maioria das pessoas fica com vergonha de pedir ou sente que se tentar não receberá uma resposta.
Lição: As chances de obter uma resposta podem parecer baixas, mas a pesquisa mostra que subestimamos significativamente a disposição dos outros em nos ajudar – em mais de 50%. Quando perguntei a um executivo sênior por que ele respondia aos mais jovens, ele repetiu um refrão comum: “Eles simplesmente pediram e acompanharam … a maioria das pessoas não. Acho muito difícil dizer não a um pedido sincero e bem pensado, especialmente quando se trata de algo concreto e simples, como fazer uma apresentação. ”
Na prática: peça e receberá – mais do que você pensa que receberá. Ou pergunte-se: o que tenho a perder perguntando? A maioria das pessoas ocupadas e seniores não estão pensando em você e não podem ler sua mente. Use as abordagens acima para tornar uma solicitação mais atraente e faça as solicitações pessoalmente, que são ainda mais difíceis de recusar.
Juntando tudo
O mercado está mais competitivo do que nunca. A maioria dos empregos é encontrada por meio de conexões, e o networking tem demonstrado um forte impacto no sucesso profissional. Mas para construir essa rede, primeiro você precisa fazer contato.
Depois de conversarmos, Alex revisou seus pedidos. Ele escreveu pedidos nítidos e objetivos, empregando ou combinando as abordagens acima. Precisou pensar um pouco, mas relativamente pouco tempo, e ele imediatamente triplicou sua taxa de resposta. A cada poucos meses, Alex aprimora sua abordagem, com base no que está funcionando.
Siga o exemplo de Alex. Você vai conseguir mais reuniões, o que resultará em mais conversas, o que construirá sua rede de contatos e avançará em sua carreira.
* Todos os nomes e detalhes de identificação foram alterados
Michael C. Wenderoth é professor associado da IE Business School em Madrid e coach executivo. Ele ensina e escreve sobre China, vendas e liderança.

https://hbr.org/2019/12/how-to-network-with-powerful-people

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Fundadores de startups de sucesso lideram uma nova geração de investidores

O Brasil está formando um exército de novos investidores de startups. Quem está por trás dos aportes pode oferecer muito mais do que dinheiro

Por Rodrigo Loureiro

Publicado em: 27/08/2020

A pandemia marcou a dominação definitiva das empresas de tecnologia. O Mercado Livre, varejista online criado em 1999 e que já vale quase 60 bilhões de dólares, conquistou o posto de maior companhia da América Latina, deixando tradicionais gigantes, como Vale e Petrobras, para trás. Um mês antes, a montadora de carros elétricos Tesla, criada por um empresário que fez fortuna com um meio de pagamento digital e agora quer desbravar Marte, tornou-se a mais valiosa do planeta ao ser avaliada em 206 bilhões de dólares e ultrapassar a japonesa Toyota. As cinco maiores empresas do planeta também são de tecnologia e já somam valor de mercado superior a 7 trilhões de dólares.

A Apple, sozinha, vale 2 trilhões. A maior fortuna do planeta? Também é de um empresário tech — Jeff Bezos, com quase 200 bilhões de dólares. Tanto no mundo quanto no Brasil a pandemia acelerou a criação de startups de tecnologia. Somente no Brasil, o número de startups triplicou nos últimos cinco anos, chegando a 12.655 empresas no final de 2019 — 26,5% mais do que em 2018. Também no ano passado, investidores aportaram mais de 4,6 bilhões de dólares em operações da América Latina. O Brasil ficou com 58% desse volume, de acordo com dados da Associação para Investimento de Capital Privado na América Latina (Lavca). Mesmo assim, o Brasil carece de investidores que turbinem negócios promissores ainda em estágios iniciais. A boa notícia: empreendedores que já criaram seus negócios aproveitaram a pandemia para acelerar os investimentos. É a roda do capitalismo tech girando.

Uma pesquisa da organização Anjos do Brasil, que fomenta o investimento-anjo no país, e obtida com exclusividade pela EXAME, mostra que o valor aportado por empresas brasileiras nesse tipo de investimento, considerado um pontapé financeiro para as startups, foi pouco superior a 1 bilhão de dólares em 2019. Mesmo com um crescimento de 9%, o valor é menos de 4% do registrado nos Estados Unidos durante o mesmo ano, de 25 bilhões de dólares, conforme um relatório da Angel Capital Association. Essa diferença torna o Brasil um país com solo pouco fértil para jovens empresas. Dados do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) mostram que, de 1.044 startups, pelo menos 30% delas não sobreviveram ao ano de 2018. Dessas, 40% culparam a dificuldade de acesso a capital. Se as empresas já sofrem para conseguir deslanchar suas operações, fica mais difícil que um dia o país possa criar titãs da indústria no mesmo patamar do Mercado Livre. “Para que existam mais startups e para que elas sejam mais maduras, é preciso aumentar a pirâmide”, diz Cassio Spina, fundador da Anjos do Brasil. “Isso começa pela base.”

Esses anjos são empreendedores que já atingiram o sucesso em startups e agora querem armar seus discípulos com dinheiro e experiência para alavancar suas operações. São fundamentais na guerra contra as desfavoráveis probabilidades num país que insiste em ser pouco camarada com negócios promissores. “Decidimos aplicar na Canary um modelo em que empreendedores ativos investem em startups”, diz Mate Pencz, cofundador da Loft, ao lado de Florian Hagenbuch. Pencz refere-se à Canary, fundo de investimento criado em 2016 pelos fundadores da Loft, além de Julio Vasconcelos, do Peixe Urbano, e Marcos Toledo e Patrick Picciotto, da gestora M Square. Em pouco tempo, a Canary tornou-se uma espécie de clube dos fundadores brasileiros de ­start­ups que agora querem investir em novos negócios. Nessa lista estão nomes como David Vélez (Nubank), Benjamin Gleason (Guiabolso), Paulo Veras (99), Israel Salmen (Méliuz) e Fernando Gadotti (Dog­Hero). Mike Krieger, cofundador do Instagram, e Hugo Barra, executivo com passagens por gigantes como Facebook, Google e Xiao­mi, também já se envolveram com o fundo.

É um movimento que já aconteceu lá fora. Empreendedores como Jeff Bezos (Amazon), Jack Ma (Alibaba), Jack Dorsey (Twitter), Bill Gates (Microsoft) e Marc Benioff (Salesforce) passaram a se sentar do outro lado da mesa nas reuniões entre empreendedores e investidores. “É um fundo baseado em rede. Queríamos aproximar os fundadores de empresas de tecnologia que já queriam ajudar”, diz Toledo, que atuou como investidor do banco americano JP Morgan e passou pela gestora de investimentos M Square antes de fundar o Canary.

Já são mais de 60 empresas que receberam investimentos da Canary, que no ano passado informou ter mais de 75 milhões de dólares para injetar em operações brasileiras. Entre as empresas investidas estão companhias como a Buser, de compartilhamento de viagens de ônibus; SouSmile,­ healthtech odontológica; e Volanty, e-commerce de carros usados. Os detalhes sobre como essas startups são escolhidas são guardados em segredo, mas sabe-se que os nomes são debatidos entre os sócios do fundo na tentativa de encontrar um novo unicórnio — nome dado a uma empresa avaliada em mais de 1 bilhão de dólares, caso de companhias como Nubank, 99, iFood e PagSeguro.

Entre os empreendedores/investidores do país está Diogo Roberte, um dos fundadores da fintech PicPay, que em agosto deixou a sociedade da companhia e anunciou que se dedicaria a turbinar novos negócios. Entre as investidas estão a Mora Rocks, de moradias a preços acessíveis, a Clarke, que otimiza custos com energia, e a Capsu, que redesenha moradias populares. Aos novatos, empreendedores como Roberte levam um conhecimento de gestão e um olhar aguçado sobre mercados promissores para o futuro. Alessio Alionço, fundador da Pipefy, startup que atua com sistemas de gerenciamento profissional e recebeu 63 milhões de dólares em investimentos, já se beneficiou de investidores mentores. Entre eles estão Morten Primdahl e Alexander Aghassipour, fundadores da desenvolvedora de soft­wares Zendesk. “Invisto em startups em que posso fazer a diferença no crescimento, onde me sinto mais confortável para tomar risco”, afirma ­Alionço.

Já foram quatro negócios apoiados por investimentos que fez sozinho, na faixa de 10.000 a 50.000 reais, ou por fundos de capital de risco. O discurso é semelhante ao de Diego Martins, da Acesso Digital, startup que atua com sistemas de identificação e já captou 40 milhões de reais. “Os melhores investidores são aqueles que estão devolvendo um pouco da experiência”, diz Martins, que já investiu em sete empresas desde o começo do ano. O em­preendedor se refere ao que aconteceu com sua operação quando teve a mentoria da Endeavor, organização sem fins lucrativos que fomenta o empreendedorismo no Brasil.

“Ser empreendedor pode ser um papel muito solitário. Por isso, ter alguém do seu lado que já passou pelos mesmos problemas é fundamental”, afirma Maria Teresa Fornea, fundadora da startup Bcredi, que atua com o oferecimento de crédito imobiliário. Em um ambiente majoritariamente masculino, em que 93% dos investidores-anjo brasileiros de startups são homens, de acordo com a Anjos do Brasil, ela é uma das poucas mulheres que vestiram a camisa de investidora. Nessa função, Tetê, como é mais conhecida, já participou de duas rodadas de investimento, com algumas dezenas de milhares de reais, seja sozinha, seja com os fundos Honey Island Capital e Caravela Capital. “A ideia era pulverizar um pouco do risco e dedicar um pouco menos de tempo a isso”, afirma. Ela diz que não tem tempo de participar de processos de pesquisa, que são mais trabalhosos, mas que faz questão de participar de reuniões para ajudar a formular estratégias e guiar o negócio na direção correta. Seus investimentos, na casa de algumas dezenas de milhares de reais, foram direcionados para startups como a Troc, que atua com um brechó online, e as fintechs Quanto, que atua na simplificação de dados bancários, e Partyou, de pagamentos digitais.

Escolhida duas vezes como a melhor investidora-anjo do Brasil e cofundadora do grupo Mulheres Investidoras-Anjo, Camila Farani já participou de mais de 40 aportes em startups. Antes disso, porém, fundou o Grupo Boxx, que atua no ramo alimentício, e passou pelo grupo varejista Mundo Verde, vendido em 2014 ao empresário Carlos Wizard Martins. Nessa época, ela aprendeu mais sobre como organizar um negócio dentro de uma grande empresa ao mesmo tempo que se aproximava do mercado de startups.

Isso moldou sua tese pessoal de investimentos, que hoje é focada em empresas dos ramos de varejo e alimentação. Atualmente, Farani é um dos “tubarões” do programa televisivo Shark Tank Brasil, em que empreendedores apresentam seus negócios na tentativa de obter investimentos de grandes nomes da indústria. Mas talvez um tubarão mais cauteloso. “Minha tese é baseada num múltiplo que eu consiga atingir. Não tenho aquele perfil de extrapolar ou esperar o máximo”, diz. No comando da G2 Capital, uma butique com investimentos em mais de 50 startups, ela já fez aportes em ­empresas como a Levaê, que tem um fast-food de comidas saudáveis; a Lysa, que desenvolve um cão-guia robô; e a Saipos, que atua com sistemas de gestões para restaurantes.

Ao lado de Farani no Shark Tank Brasil está João Appolinário, fundador da varejista Polishop. Ele simboliza o interesse de empresários de companhias mais tradicionais em um mercado em ascensão. O empresário já investiu em 16 startups diferentes. “Eu busco empresas que tenham conexão com o mundo que eu já estou, que é o varejo. Eu sempre procuro uma sinergia. As startups sempre trazem uma atualização, a modernidade, a visão atual do que está acontecendo no mercado.”

Dessas, duas tiveram suas operações encerradas. “A gente entra, investe, mas o negócio depende do empreendedor. A pessoa busca o dinheiro, consegue e acha que resolveu o problema”, diz. Entre os investimentos que fez no programa, que já superam a barreira de 1 milhão de reais, estão companhias como as startups Ledax, que desenvolve sistemas de iluminação LED, e a Kuba, fabricante de fones de ouvido de alto padrão. Appolinário afirma que “o dinheiro tem um peso muito pequeno”. Para ele, o bem mais valioso de uma parceria nesse sentido é o conhecimento em outras áreas do negócio que vão além da tecnologia, como a questão administrativa e financeira. É algo que pode fazer a diferença, ainda mais em um país, segundo ele, onde “é muito difícil empreender”.

Os investimentos-anjo dão impulso às startups e são fundamentais na construção de companhias promissoras que, mais tarde, receberão investimentos dos fundos de private equity. Um desses fundos é o americano 500 Startups. São mais de 10.000 empresas analisadas por ano e investimentos em centenas de companhias ao redor do mundo, incluindo nomes conhecidos, como Grab, rival do Uber no mercado de aplicativos de transporte, e Udemy, plataforma de cursos online. Para descobrir novos talentos, a 500 Startups reformulou sua estratégia e vai passar a olhar com mais atenção para a América Latina e principalmente para o Brasil. Para fazer isso, trouxe o executivo Flavio Dias para seu quadro societário. Ele não é fundador, mas passou os últimos anos no comando de algumas das maiores varejistas do Brasil, como Walmart, Cnova e Via Varejo. Desde 2014 atuando também como investidor, ele já realizou aportes em 12 negócios diferentes. Um deles, com destaque, foi feito na Olist. “Há um terreno muito fértil no Brasil.

Vários fundos estão fazendo um excelente trabalho no país, mas ainda há muita oportunidade para a entrada de capital de qualidade”, afirma. Seu trabalho não será apenas assinar cheques. A ideia é usar a experiência como gestor e ajudar as empresas a enfrentar problemas comuns do mundo dos negócios. “Esse lado operacional, de execução, é menosprezado pelos empreendedores mais novos”, afirma Dias.

Anjos ajudam, mas o ambiente empreendedor precisa de mudanças na legislação no Brasil. Cassio Spina, da Anjos do Brasil, por exemplo, sugere que o país adote isenções fiscais para atrair investimentos em ­startups. “Aportes em ­start­ups são investimentos que têm risco mais elevado e não têm liquidez. É preciso estimular”, afirma. Uma forma sugerida por ele seria abater parte do imposto de renda cobrado desses investidores. Atualmente tramita no Congresso o Projeto de Lei Complementar no 46 (PLP-46), conhecido como Marco Legal de Startups. A medida visa permitir que o regime tributário Simples integre também empresas declaradas em formato de Sociedade Anônima (S.A.), além de prever mais segurança e benefícios aos investidores, como o abatimento de parte do imposto de renda daquele investidor. Enquanto isso não acontece, já que a proposta ainda aguarda apreciação do Plenário, um caminho mais natural se apresenta como promissor. A queda da taxa de juro, atualmente em 2%, impacta diretamente nos ganhos de investimentos de renda fixa e deve acelerar um movimento migratório para ativos de renda variável em várias frentes ­— incluindo, em último estágio, as startups. “A queda da taxa Selic fará com que investidores busquem investimentos de risco”, diz Giácomo Diniz, professor de finanças no Ibmec-SP. “Mas é importante ressaltar que o investimento em startups seria um dos mais arriscados.”

Em rara entrevista dada recentemente à EXAME, Eduardo Saverin, cofundador do Facebook, diz que “está na hora de a América Latina ter multinacionais campeãs”. Ele, que também é investidor, realizou recentemente seu primeiro aporte em uma empresa da região. Foram 15 milhões de dólares aplicados na operação da Yalochat, do México. O valor foi repartido entre os fundos B Capital Group, que comanda, e o Sierra Ventures.

Em uma live transmitida pela EXAME, outro dos maiores bilionários brasileiros, Jorge Paulo Lemann, afirmou que num futuro próximo cinco das dez maiores empresas do país serão de tecnologia. O caminho está traçado. Mas, para o Brasil ter seus gigantes de tecnologia, precisa que os empresários não só invistam em novatos mas também perseverem em suas companhias. Se conseguirem escalar seus negócios a um patamar superior, eles poderão atrair ainda mais investimentos ao mercado brasileiro, sendo possivelmente mais decisivos no amadurecimento do ambiente local. Precisamos de mais novatos, mas precisamos de gigantes.

Fundador da Anjos do Brasil, organização que atua com a missão de fomentar o investimento-anjo no país, Cassio Spina afirma que o baixo número de investidores no Brasil se dá pela falta de incentivos no setor. “Aportes em startups são investimentos que têm risco mais elevado e não têm liquidez. É preciso estimular as pessoas”, afirma.

Por que o Brasil ainda carece de investidores de startups?

O Brasil começou a desenvolver o ecossistema de startups de forma tardia. O empreendedor não criava um negócio pensando em expandir, mas com o objetivo de sobreviver. Isso agora está mudando. É preciso dar estímulos para os investidores-anjo, que realizam o primeiro aporte nesses novos negócios. Outro fator é a questão do custo de oportunidade. Até pouco tempo atrás a taxa de juro Selic estava acima de 15% e superou 40% durante a década de 1990.

Quais incentivos poderiam ser criados para impulsionar o investimento-anjo no Brasil? Pode dar um exemplo?

Veja o caso do Reino Unido. Lá há isenção fiscal que abate 50% do valor investido no imposto de renda. Não se trata de uma renúncia fiscal, porque a startup investida eventualmente vai pagar impostos, diretos e indiretos. Aportes em startups são investimentos que têm risco mais elevado e não têm liquidez. É preciso estimular as pessoas.

A pandemia pode ser considerada a principal culpada pelos resultados ruins do setor em 2020?

É um impacto muito forte. Os resultados iniciais das pesquisas com investidores já eram bem negativos. Metade deles planejava zerar ou diminuir radicalmente seus investimentos em startups. Houve uma aliviada nos últimos meses, mas isso não resolveu o problema. Os investidores ainda estão sendo afetados.

A instabilidade política que o Brasil atravessa atrapalha na hora de investir em uma startup?

Diretamente, não tanto. A cena política tem pouco reflexo nesse tipo de investimento porque se trata de aplicações de médio e longo prazo. Mas há um efeito indireto que é causado quando essa instabilidade é refletida na economia. Uma crise econômica pode gerar restrições ao próprio investidor e aos empreendedores.

https://exame.com/revista-exame/de-fundador-a-investidor/

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Oito coisas que nos parecem muito modernas, mas que os romanos antigos já faziam

Romanos já pintavam grafites, compravam comida de rua e difundiam ’fake news’…

JAIME RUBIO HANCOCK 31 AGO 2020 – El Pais

Nós, os ocidentais, nos consideramos herdeiros, pelo menos em parte, dos romanos antigos. Fundaram muitas de nossas cidades, nossa língua vem do latim e inclusive estradas e rodovias, em muitos países europeus, foram construídas sobre antigas estradas romanas. Embora às vezes também nos sintamos, felizmente, distantes de muitos aspectos de sua cultura, como as guerras de conquista e as lutas de gladiadores. Como lembra ao EL PAÍS o historiador Néstor F. Marqués, quando examinamos os conceitos que existem por trás de algumas dessas manifestações culturais vemos que não é tão difícil encontrar paralelos entre muitas de suas atitudes e as nossas.

Reunimos algumas dessas atividades e costumes que podem parecer mais ou menos modernos, mas que já eram feitos, à sua maneira, pelos romanos da República e do Império. Com uma advertência do próprio historiador ouvido pela reportagem: não se deve cair no “presentismo”. Em outras palavras, uma coisa é comparar e estabelecer analogias para nos ajudar a entender melhor o passado (e nosso presente) e outra, bem diferente, é “introduzir nossos vieses” para justificar crenças e opiniões que nem sempre têm muito a ver com a história.

1. Pintar grafites. Deixar mensagens nas paredes “deve ter sido bastante comum nas grandes cidades”, nos contou Ana Mayorgas, professora do departamento de História Antiga da Universidade Complutense de Madri, com quem conversamos para um artigo sobre os grafites de Pompeia. Esta cidade tinha entre 10.000 e 20.000 habitantes quando foi sepultada pela erupção do Vesúvio no ano 79, e mais de 11.000 grafites estão preservados em suas paredes. Na verdade, o fato de essas inscrições serem tão frequentes, explicou Mayorgas, é um dos indicadores de que “amplas camadas da população tinham a capacidade de ler pelo menos algumas frases”.

E o que os romanos escreviam? Textos muito curtos e mensagens muito diretas. Além dos “Satura esteve aqui” e similares, há mensagens de cunho amoroso e sexual, anúncios de vendedores de barracas e lojas, bem como slogans eleitorais. Outro grupo importante é o da reprodução de versos conhecidos, especialmente da Eneida. Também havia algo bem ao estilo Tripadvisor clássico (“Pagarás pelos teus truques, estalajadeiro. Você nos vende água e fica com o bom vinho para você”). E Néstor F. Marqués aponta uma que o faz lembrar o Twitter: “Me admiro, parede, que você não tenha desabado, tendo que aguentar tantas bobagens escritas sobre você”.

2. Difundir notícias falsas. O historiador explica que algumas dessas inscrições nas paredes eram comparáveis aos boatos que vemos no mural do Facebook. Por exemplo, um desses grafites afirmava que “o sindicato dos ladrões e das prostitutas” apoiava um candidato às eleições locais. Talvez, como nos boatos atuais, muita gente não acreditasse, mas é claro que a difamação (e a zombaria) não são uma arma política apenas de nossa história recente.

Marqués é precisamente o autor do livro Fake News de la Antigua Roma e explica por telefone outros casos de destaque de campanhas difamatórias. Por exemplo, muitas das histórias que chegaram até nós sobre os imperadores, como os excessos de Calígula, Nero e Domiciano. Em geral, os imperadores assassinados eram demonizados após sua morte. Em vez disso, como Mary Beard escreve em SPQR, aqueles que conseguiam morrer na cama e organizar sua sucessão eram lembrados como generosos e devotados a Roma.

O professor lembra que a história é escrita pelos vencedores. Tanto Suetônio, autor de Vidas dos Doze Césares, quanto Tácito, autor dos Anais, trabalharam para o imperador Trajano. E que melhor maneira de fazer este imperador parecer bom do que falar mal dos anteriores? Por exemplo, Marqués conta que Domiciano, recordado como um tirano cruel, foi um imperador “muito eficiente, bom administrador, perfeccionista e justo”. A título de exemplo, as moedas de prata e ouro de seu reinado tinham 99% de pureza, o que significava que as contas estavam saneadas.

3. Organizar campanhas eleitorais. Já mencionamos que havia eleições: os romanos podiam se dedicar à carreira política e judiciária, com cargos sujeitos a eleições. Principalmente durante a República, embora durante o Império também houvesse votações anuais para cargos locais. Claro, não havia salário, razão pela qual só privilegiados podiam se dedicar a essa carreira.

De fato, custavam dinheiro. Marqués explica que os candidatos pagavam obras públicas, como a nova pavimentação de uma praça, por exemplo. Candidatar-se a uma eleição para cargos como pretor ou cônsul incluía um nível de generosidade que às vezes “nem sempre era fácil de distinguir do suborno”, escreve Beard, acrescentando que os políticos romanos contavam recuperar o que tinham investido (e algo mais) durante o exercício do cargo.

Cícero denunciando Catilina no Senado, em um afresco de Cesare Maccari (1899).

Algo semelhante a comícios também era realizado: as contiones, que eram organizadas antes das assembleias e nas quais os candidatos tentavam atrair o voto dos cidadãos com discursos e debates (Cícero fez seu segundo e quarto discurso contra Catilina em contiones, explica Beard em seu livro). Havia até “colagem de cartazes”, diz Marqués. Durante a campanha, os candidatos mandavam pintar slogans a seu favor nas paredes da cidade. Esses trabalhadores (ou seguidores) saíam à noite em grupos com diferentes tarefas: um deles caiava a parede, outro desenhava as letras e um terceiro segurava uma lamparina a óleo.

4. Admirar atletas famosos. Os gladiadores e, principalmente, os cocheiros de bigas e quadrigas (aqueles veículos antigos puxados por cavalos) eram admirados pelos fãs de jogos e corridas. O Circo Máximo, onde aconteciam corridas de quadrigas, podia acomodar cerca de 250.000 espectadores, em uma cidade de um milhão de habitantes no século I. O historiador especialista em Roma Antiga, que compara essas corridas à Fórmula 1, dá como exemplo Caio Apuleio Diocles, cocheiro lusitano cuja carreira esportiva foi gravada numa lápide erguida por seus admiradores. Diocles se aposentou tendo acumulado uma fortuna que, segundo algumas estimativas, o tornaria o atleta mais bem pago da história.

Juvenal (o mesmo que criticou o “pão e circo”) acreditava que os romanos admiravam demais os gladiadores. Um pouco como quando alguém se queixa da atenção que damos a Cristiano Ronaldo e Messi. Escreve com desprezo em uma de suas Sátiras sobre Eppia, a mulher de um senador que teve um caso com um gladiador chamado Sergio. Este lutador tinha um braço ferido e o rosto cheio de cicatrizes: “Mas era um gladiador! (…) Por isso o preferia aos irmãos e ao marido: é da espada que elas gostam”. Marqués acrescenta que os gladiadores eram vistos como pessoas diferentes e incríveis. Havia até lendas urbanas, como a de que seu sangue era afrodisíaco.

5. Comportar-se como esnobe em relação a vinhos. Como explica Mark Forsyth em Uma Breve História da Bebedeira, os romanos foram os primeiros a se preocupar com a origem, a variedade e o ano de colheita dos vinhos. Marqués cita, por exemplo, um cartaz publicitário de uma taberna de Herculano no qual aparecem várias jarras, cada uma com um preço diferente de acordo com sua qualidade e idade.

Um dos mais bem avaliados era o do monte Falerno, perto da atual Nápoles, um vinho branco que era envelhecido durante dez anos. E a colheita mais famosa foi a de 121 a.C., o falerno opimiano, que leva o nome de Opímio, o cônsul da época (as colheitas eram designadas com o nome do cônsul, que mudava a cada ano). Supõe-se que tenha sido bebido por Júlio César (cerca de 60 anos mais tarde) e Calígula (160 anos depois). O poeta Marcial qualificou esse vinho de “imortal”, mas dificilmente seria algo tragável depois de tantas décadas. Na verdade, como Forsyth também conta, muitos dos antigos lacres de vinho eram provavelmente falsos.

6. Reclamar do senhorio. Os edifícios de apartamentos (insulae, ou ilhas) eram muito comuns em Roma. Como Mary Beard escreve em SPQR, eram “oportunidades de investimento atraentes para seus proprietários”. Como o próprio Cícero, que em uma carta comentou que um de seus edifícios estava a ponto de desabar e “não só os inquilinos, mas também os ratos” tinham ido embora. Segundo Beard, ele não escreveu isso envergonhado, mas com escárnio e superioridade.

Nesses edifícios, as moradias menos confortáveis e espaçosas ficavam nos andares superiores, sem espaço para cozinhar ou lavar. E, o que é pior, com uma rota de fuga muito difícil em caso de incêndio, algo frequente. Em outra de suas sátiras Juvenal escreve que a cidade “em sua maior parte se apoia em uma frágil viga, porque com ela o senhorio evita a queda e, uma vez que cobriu a abertura de uma velha fenda, nos aconselha a dormir tranquilos antes do desabamento iminente”. Embora as leis de moradia tenham mudado muito desde então, alguns lerão estas linhas escritas há mais de 1900 anos e se lembrarão do último remendo feito pelo senhorio: “Está como novo. Deixe um balde aqui para a água, não fale muito alto e melhor não abrir a janela à tarde. Mas está como novo”.

7. Comprar comida de rua. Os romanos que tinham boa situação podiam cozinhar e comer em casa; para o resto, como vimos na seção anterior, era mais difícil: no caso de querer algo que não fosse equivalente a um sanduíche, tinha de ir a bares e tabernas.

Além de sentar nesses estabelecimentos, em cidades como Pompeia e Herculano ainda estão de pé os termopólios, estabelecimentos onde se podia comprar comida pronta para viagem. Tinham um balcão com buracos nos quais eram colocados recipientes de barro com comida quente ou fria. Marqués lembra que ao meio-dia era habitual comer pouco e rapidamente na rua se, por exemplo, não havia tempo de voltar para casa. A refeição importante era o jantar (às cinco ou seis da tarde, ou às sete se fosse um banquete). Quem podia, certamente tirava um meridiatum, ou seja, uma sesta.

8. Ler um jornal. Um dos pequenos prazeres da vida moderna é sair para passear (agora, com máscara), comprar o jornal e lê-lo em um terraço, respeitando a distância de segurança. Até o século XVIII não havia jornais, mas os romanos tinham algo semelhante à sua disposição. Podiam se aproximar do fórum, onde todos os dias uma cópia da Acta diurna populi romani (os fatos diários do povo de Roma) era pendurada.

Na Acta, que alguns mandavam copiar à mão para enviar e distribuir em todas as províncias, havia propostas de leis, fragmentos de discursos e resumos do que aconteceu no Senado. A decisão de pendurar esse diário foi de Júlio César. Ele não o fez para aproximar as decisões políticas do povo. Como explica Tom Standage em Writing on the Wall, seu objetivo era mostrar como os senadores se opunham às suas políticas populistas, para ter o apoio dos cidadãos e cimentar suas ambições de se consolidar como ditador.

Depois de alguns anos, a Acta começou a incluir informações além da política, como funerais e divórcios, além de fatos curiosos que Plínio, o Velho, compilaria em sua História Natural. Por exemplo, uma história que hoje continua sendo publicada de vez em quando, embora com outros protagonistas, é claro: um cachorro se recusou a abandonar o cadáver de seu dono, chegando até a tentar resgatá-lo quando foi lançado no rio Tibre.

Além da Acta, Marqués lembra o papel dos porta-vozes e pregoeiros (praeco). Eram funcionários do Estado que informavam no fórum as notícias do dia e que também podiam anunciar as horas, atuando como relógios humanos.

https://brasil.elpais.com/estilo/2020-08-30/oito-coisas-que-nos-parecem-muito-modernas-mas-que-os-romanos-ja-faziam.html

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O modelo econômico chinês: homem-forte da China tem uma nova pauta econômica

Xi Jinping está reinventando o capitalismo de estado e não deve ser subestimado nesse processo; também não se pode esperar que a força de US$ 14 trilhões do país desapareça

The Economist, O Estado de S.Paulo 16 de agosto de 2020 

O enfrentamento dos Estados Unidos com a China está se intensificando perigosamente. Na semana passada a Casa Branca anunciou o que pode ser uma proibição iminente ao TikTok e ao WeChat, dois aplicativos chineses, impôs sanções aos líderes de Hong Kong e enviou um membro do gabinete a Taiwan. Esse aumento na pressão reflete em parte objetivos eleitorais: o posicionamento duro diante da China é um ponto-chave da campanha do presidente Donald Trump. 

É em parte ideológico, sublinhando a urgência dos falcões do governo em reagir em todas as frentes a uma China cada vez mais assertiva. Mas reflete também uma suposição que esteve por trás da atitude do governo Trump em relação à China desde o início da guerra comercial: a ideia segundo a qual essa abordagem dará resultados, porque o capitalismo de estado da China movido a anabolizantes é mais fraco do que parece.

A lógica é de uma simplicidade sedutora. Sim, a China produziu crescimento, mas somente ao apostar em uma insustentável fórmula de endividamento, subsídios, clientelismo e roubo de propriedade intelectual. Se pressionada o bastante, sua economia pode ceder, obrigando suas lideranças a fazerem concessões e, finalmente, abrir algum espaço em seu sistema de comando estatal. Nas palavras do secretário de estado Mike Pompeo, “os países do mundo que amam a liberdade devem induzir a China a mudar”.

Simples, mas errado. A economia da China foi menos afetada pela guerra de tarifas do que o esperado. O país demonstrou muito mais resiliência diante da pandemia da covid-19 (o FMI prevê para a China crescimento de 1% em 2020 e, para os EUA, contração de 8%). O mercado de ações com melhor desempenho do mundo este ano é o de Shenzhen, e não o de Nova York. E, como diz o título, o líder da China, Xi Jinping, está reinventando o capitalismo de estado para a década de 2020. 

Esqueça as siderúrgicas poluentes e as cotas de produção. A nova pauta econômica de Xi é fazer os mercados e a inovação funcionarem melhor dentro de limites bem definidos e sujeitos à vigilância ilimitada do Partido Comunista. Não é a fórmula de Milton Friedman (economista norte-americano defensor do liberalismo), mas essa mistura implacável de autocracia, tecnologia e dinamismo pode impulsionar o crescimento por anos.

Não é de hoje que a economia da China é subestimada. Desde 1995 a fatia da China do PIB em valores de mercado aumentou de 2% para 16%, apesar das ondas de ceticismo ocidental. Chefões do Vale do Silício desmereceram as empresas de tecnologia chinesas como meras imitadoras; especuladores de Wall Street disseram que cidades-fantasma de apartamentos vazios trariam um crash bancário; estatísticos temeram a manipulação dos números do PIB e foi dito que uma fuga de capitais desencadearia uma crise monetária. 

A China desafiou os céticos porque seu capitalismo de estado se adaptou, mudando de forma. Vinte anos atrás, por exemplo, a ênfase era no comércio, mas agora as exportações respondem por apenas 17% do PIB. Na década de 2010 as autoridades deram a empresas de tecnologia como Alibaba e Tencent espaço o suficiente para que se tornassem gigantes e, no caso da Tencent, criassem um aplicativo de mensagens, WeChat, que também funciona como instrumento de controle do partido.

Agora, a próxima fase do capitalismo de estado da China está em andamento — vamos chamá-la de “Xinomics”. Desde o momento em que assumiu o poder, em 2012, o objetivo político de Xi tem sido consolidar o controle do partido e esmagar as dissidências no país e no exterior. Sua pauta econômica é pensada para aumentar a ordem e a resistência contra ameaças. E há motivos para isso. O endividamento público e privado aumentou muito desde 2008, chegando a quase 300% do PIB. 

Os negócios se dividem entre firmas estatais antiquadas e um setor privado que lembra o Velho Oeste, onde há inovação, mas também autoridades predatórias e regras nebulosas. Conforme o protecionismo se dissemina, as empresas chinesas correm o risco de serem excluídas de alguns mercados, perdendo o acesso à tecnologia ocidental.

São três os elementos principais da “Xinomics”. Primeiro, um controle mais rigoroso do ciclo econômico e da máquina de endividamento. Os dias de crédito generoso e isenções desproporcionais são coisa do passado. Os bancos foram obrigados a reconhecer a atividade fora dos balanços patrimoniais e criar proteções. O crédito é oferecido em um mercado de obrigações mais limpo. Diferentemente da sua reação à crise financeira de 2008-09, a resposta do governo à covid-19 foi contida, com um estímulo equivalente a cerca de 5% do PIB, menos da metade daquele aprovado nos EUA.

O segundo elemento é um estado administrativo mais eficiente, cujas regras se apliquem de maneira mais uniforme na economia. Mesmo com Xi usando leis impostas pelo partido para semear o medo em Hong Kong, ele construiu um sistema jurídico comercial no continente que reage muito melhor às empresas. Antes raros, pedidos de recuperação judicial e processos de quebra de patentes aumentaram 500% desde o início do governo dele, em 2012. A burocracia foi reduzida: agora são necessários nove dias para a abertura de uma empresa. Regras mais previsíveis devem permitir um melhor funcionamento dos mercados, estimulando a produtividade da economia.

O elemento final é apagar a fronteira entre empresas estatais e privada. Empresas administradas pelo governo são estimuladas a melhorar o retorno financeiro e atrair investidores privados. Enquanto isso o governo exerce controle estratégico de empresas privadas, por meio de células do partido dentro destas. Um sistema de lista de proibição ao crédito castiga as empresas pelo eventual mau comportamento. 

Em vez de uma política industrial indiscriminada, como a campanha “Made in China 2025” lançada em 2015, Xi está dedicando os esforços aos pontos de gargalo da cadeia de suprimento nos quais a China seja vulnerável à coerção estrangeira ou possa exercer sua influência no exterior. Isso significa alcançar a autossuficiência em tecnologias chave, como semicondutores e baterias.

A “Xinomics” trouxe bom desempenho no curto prazo. O ritmo de acúmulo de endividamento diminuiu antes da chegada da covid-19 e o choque duplo da guerra comercial e da pandemia não levou a uma crise financeira. A produtividade das estatais está aumentando e investidores estrangeiros estão injetando dinheiro em uma nova geração de empresas chinesas de tecnologia. Mas o verdadeiro teste virá com o tempo. A China espera que sua nova forma tecnocêntrica de planejamento central consiga sustentar a inovação, mas a história indica que um processo difuso de tomada de decisões, fronteiras abertas e liberdade de expressão seriam os ingredientes mágicos.

Uma coisa está clara: a esperança de um confronto seguido de capitulação é equivocada. Os EUA e seus aliados devem se preparar para uma disputa muito mais longa entre as sociedades abertas e o capitalismo de estado da China. Uma estratégia de contenção não vai funcionar: diferentemente da União Soviética, a imensa economia da China é sofisticada e está integrada ao restante do mundo. 

Em vez disso, o Ocidente deve reforçar sua capacidade diplomática e criar novas regras estáveis permitindo a cooperação com a China em determinadas áreas, como o combate à mudança climática e às pandemias, e preserve o comércio ao lado de proteções melhores para os direitos humanos e a segurança nacional. Não se pode esperar que a força da economia de US$ 14 trilhões do capitalismo de estado da China desapareça. É hora de abandonar essa ilusão. 

/ TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

https://economia.estadao.com.br/noticias/geral,o-modelo-economico-chines-homem-forte-da-china-tem-uma-nova-pauta-economica,70003399109

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Carros elétricos ‘aceleram’, e Brasil dá largada na corrida pelo níquel

Vale, maior produtora global do metal, busca parcerias para desenvolver baterias para os veículos, que devem chegar a 135 milhões em 10 anos no mundo

Bruno Rosa e Ramona Ordoñez

30/08/2020 – o Globo

RIO – A produção de carros elétricos pisou no acelerador e desencadeou uma verdadeira corrida ao níquel, metal essencial para a produção de baterias para os automóveis. Esse rali pode colocar o Brasil no centro do mapa global dessa indústria, que tem alto potencial de crescimento nos cálculos de investidores e da Agência Internacional de Energia (AIE).

A Vale, maior produtora global de níquel, já busca parceiros para o desenvolvimento de baterias com o objetivo de pegar carona na expansão do segmento.

O bilionário Elon Musk, fundador da Tesla, acenou recentemente com a possibilidade de um “contrato gigante” para a mineradora capaz de oferecer níquel a preço baixo e mínimo impacto ambiental.

A preocupação não é à toa: as ações da fabricante de carro elétrico acumulam alta superior a 400% este ano na Bolsa de Nova York, embaladas pela produção aquecida, que superou as projeções de analistas no primeiro trimestre.

Além da Vale, que tem produção de níquel em Brasil, Canadá, Indonésia e Nova Caledônia, o mercado é disputado por mineradoras como a australiana BHP e a russa Norilsk Nickel.

As projeções para o futuro são otimistas. Segundo a AIE, o total de veículos elétricos em circulação no mundo poderia saltar de 9,4 milhões de unidades para 135 milhões em dez anos. O cenário esperado para o Brasil também é de rápida expansão.

Frota de 1 milhão até 2030

A Empresa de Pesquisa Energética (EPE) prevê que a frota de carros híbridos (movidos a combustão e baterias) passe dos atuais 30 mil para um milhão até 2030. A avaliação é que a indústria teria capacidade de crescer mesmo neste ano, marcado pela pandemia.

— Nossa estimativa central é que as vendas globais de carros elétricos este ano excedam as de 2019, chegando a 2,3 milhões de unidades. Isso eleva o número total de carros elétricos nas estradas em todo o mundo para um novo recorde de quase 10 milhões, cerca de 1% do estoque global de automóveis — avalia Jacob Teter, analista de Política Energética da AIE.

Ele continua:

— As vendas aumentarão também no Brasil, mas a velocidade de penetração no mercado é difícil de prever, depende de o país estabelecer um ecossistema, política de apoio, conscientização e educação do consumidor.

Mudança  climática

Segundo analistas, a expansão da indústria reflete a preocupação com a redução de emissões de gases poluentes causadores do efeito estufa, como registrado em carros movidos a diesel ou gasolina.

Para as empresas, a questão é saber se a rápida expansão será viável diante do fator preço, que torna o produto ainda restrito, em grande parte, ao consumidor de alta renda. No Brasil, cada veículo sai, em média, a R$ 175 mil.

— Os carros elétricos fazem parte da transição energética dos países. Mas ainda é um mercado novo. A Tesla não tinha nada até alguns anos atrás. O desafio hoje é saber se vale subsidiar um setor que é voltado para uma classe de alta renda — afirma Rafael Araújo, consultor técnico da EPE.

No longo prazo, a projeção da EPE é que, com um empurrãozinho de políticas públicas, o país teria 61% de carros híbridos e 11% puramente elétricos em um horizonte de 30 anos.

Mesmo diante destas incertezas, a aposta das mineradoras já começou. Segundo o diretor executivo de Metais Básicos da Vale, Mark Travers, o mercado está em rápida evolução, criando oportunidades em potencial, como o estabelecimento de parcerias estratégicas com fabricantes.

Segundo Travers, a capacidade de níquel da Vale hoje é de aproximadamente 200 mil toneladas, mas o plano é expandir. Um dos principais trunfos da empresa é concentrar cerca de 40% da oferta do níquel Classe 1, que conta com menos impurezas e aumenta a eficiência das baterias.

A Atlantic Nickel, produtora do mineral com sede na Bahia, pretende dobrar sua capacidade nos próximos anos para atender ao mercado crescente de eletrificação.

Pesquisa da companhia aponta que as baterias, que respondem por cerca de 6% do consumo de níquel no mundo, devem ficar com 40% da oferta total em 2040. Hoje, o níquel é usado em sua maior parte na indústria de aço inox.

— Iniciamos nossos investimentos em 2019. Confirmamos o potencial de uma nova mina subterrânea, que tende a dobrar nossa capacidade de produção. Toda essa demanda por carros elétricos vem elevando o preço da commodity. Hoje, o desafio do setor como um todo é buscar reservas do níquel ideal para carros elétricos — diz Paulo Castellari, presidente do Grupo Appian no Brasil, dona da Atlantic Nickel.

Modelos no Brasil

O Brasil tem condições de ganhar importância no cenário mundial de níquel. Estimativa da Agência Nacional de Mineração (ANM) aponta que a produção de níquel puro deve mais que dobrar no país, pulando das 65.254 toneladas anuais para algo entre 140 mil e 150 mil toneladas em cinco anos.

Segundo a ANM, a projeção faz parte de um cenário otimista com a entrada de projetos e a reativação de minas. A produção no Brasil fica atrás de Indonésia, Filipinas, Rússia, Nova Caledônia, Canadá, Austrália e China.

O grupo PSA, dono das marcas Peugeot e Citroën, tem como estratégia mundial ter até 2025 todos os seus modelos também na versão elétrica ou híbrida. Hoje, tem sete totalmente elétricos e seis híbridos. Até o fim de 2021, serão 21 nessas categorias. Em duas semanas, o grupo lançará seu primeiro carro elétrico no Brasil, o novo Peugeot 208 e-GT.

— A tendência mundial é que os carros elétricos continuem com crescimento, mas é necessário ter incentivos fiscais — destaca Pablo Averame, vice-presidente de Marketing da empresa.

A Nissan também aposta em modelos elétricos. Em 2019, começou a vender o seu primeiro modelo no país, o Leaf, que já vendeu quase meio milhão de unidades em todo o mundo. O presidente da Nissan do Brasil, Marcos Silva, diz que, embora a pandemia tenha prejudicado, Japão e China já retomaram as vendas:

— A pandemia fará com que as pessoas pensem em questões como sustentabilidade. E aí se pensa no carro elétrico.

Segundo Hermann Mahnke, Diretor Executivo de Marketing da GM América do Sul, o segmento triplicou de tamanho nos primeiros seis meses do ano. A montadora já oferece opções de carros elétricos em seus principais mercados, incluindo o Brasil, que começou a ser distribuído em fevereiro.

– Estamos investindo US$ 20 bilhões no desenvolvimento de uma nova geração de veículos elétricos.  Até 2023 a tecnologia estará disponível para 20 modelos da GM. A pandemia está acelerando um processo de transformação e e certamente os veículos elétricos, com zero emissão de poluentes.

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O que mudou nos países que já adotaram o 5G

A polícia se tornou mais eficaz, a velocidade de transmissão de dados disparou e as máquinas ficaram mais inteligentes

Por Sabrina Brito –  Publicado em 14 ago 2020 Veja

Na Coreia do Sul, em algumas cidades da China e em certas regiões da Suécia o download de filmes em alta resolução demora poucos segundos para ser finalizado. As videochamadas jamais travam. A polícia usa câmeras de altíssima qualidade conectadas à internet que captam imagens em tempo real, 24 horas por dia, sete dias da semana. Mães atarefadas vestem seus bebês com fralda dotada de sensores que avisam quando ela está suja. Testes com carros autônomos são bem-sucedidos. 

Essa sucessão de bons resultados se tornou possível graças à rede de internet móvel 5G, pivô da atual Guerra Fria entre Estados Unidos e China, tecnologia que está prestes a transformar a vida de bilhões de pessoas em diversos países — até mesmo no Brasil. As mudanças se devem a um fator essencial: velocidade. Com o 5G, a internet é pelo menos 100 vezes mais rápida do que a da geração anterior, atalho para o mundo da inteligência artificial. A transmissão de dados será imediata. Os aparelhos vão se conectar entre si. A vida não será mais como antes, como provam as primeiras experiências nos países que já adotaram o sistema.

As aplicações do 5G são ilimitadas. “Ele vai tornar as cidades mais inteligentes”, diz Daniel Batista, cientista da computação e professor de programação do Instituto de Matemática e Estatística da Universidade de São Paulo. O especialista dá um exemplo prático. Na maioria dos municípios, apenas algumas poucas avenidas, ruas ou ciclofaixas são monitoradas por câmeras. Com o 5G, praticamente todo o espaço urbano poderá ser esquadrinhado pelo olhar atento dos sistemas de vídeo. Outro potencial uso ajudará a salvar vidas.

 “Com o 5G, será possível, por exemplo, ter sistemas de GPS em ambulâncias conectados a um serviço de emergência que abriria os semáforos à medida que o veículo se aproximasse do local do acidente ou do hospital”, afirma o professor da USP. A mesma lógica vale para carros de polícia, que teriam prioridade na passagem por faróis ou outros reguladores de trânsito. 

Os veículos autônomos, que têm consumido bilhões de dólares em investimentos das montadoras, terão um estímulo para virar realidade. Para funcionar sem oferecer riscos, eles dependem de uma rede complexa de sensores interligados por inteligência artificial. Antes do 5G, o carro autônomo poderia demorar alguns centésimos de segundos mais para tomar uma decisão, como desviar de um obstáculo ou frear bruscamente. Na era do 5G, a resposta do automóvel será imediata, e a probabilidade de alguma falha de conexão afetar o seu funcionamento será reduzida a quase zero.

Na Coreia do Sul, maior adepta do 5G no planeta, a produção desses veículos foi impulsionada pela instalação da nova rede, que se deu em abril de 2019. O país, o primeiro a adotar o 5G comercialmente (desde então foi seguido por Estados Unidos, Reino Unido, Suécia e China), pretende investir 20 bilhões de dólares até 2022 para ampliar o uso da tecnologia. 

Atualmente, 6 milhões de sul-coreanos têm acesso ao 5G, mas os outros 45 milhões de habitantes esperam pela chance de adotar o sistema. Na Suécia, o 5G deu novo impulso à indústria de games. Desde o advento da tecnologia, no fim de 2019, o download de jogos on-line aumentou 200%. 

O Brasil vê a tecnologia como um sonho distante. O leilão das frequências 5G, que serve para determinar quais empresas poderão operar a nova rede, está marcado para 2021 — isso se não houver, como é típico no país, atrasos ou adiamentos. No mês passado, a Claro anunciou a implementação, em algumas regiões e em caráter experimental, do 5G DSS (Compartilhamento Dinâmico de Espectro, da sigla em inglês), espécie de transição entre o 4G e o 5G, que é dez vezes mais veloz do que o primeiro.

Enquanto o 5G não chega, será preciso melhorar a segurança das redes de internet. “Com o aumento da taxa de transmissão de dados, criminosos vão conseguir vazar informações privadas em poucos segundos”, diz o professor Daniel Batista. O avanço da tecnologia suscita debates apaixonados sobre os limites da inteligência das máquinas. “Com equipamentos aprendendo diversas funções, passaremos a ser escravos da tecnologia”, afirmou a VEJA o professor de comunicação wireless na King’s College London Mischa Dohler. O 5G, de fato, provocará grandes revoluções. Resta à humanidade saber usá-las.

Publicado em VEJA de 19 de agosto de 2020, edição nº 2700 

https://veja.abril.com.br/tecnologia/o-que-mudou-nos-paises-que-ja-adotaram-o-5g/

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Homo Zapiens e a limonada digital

por Evandro Milet


Na pandemia muita gente aprendeu a utilizar ferramentas que não sabia usar e que talvez até rejeitasse. Avós agora sabem como se comunicar com os netos pelas plataformas, muitos usaram pela primeira vez o comércio eletrônico, quantidade grande se viciou em joguinhos eletrizantes, outros aprenderam a descobrir filmes e séries no Netflix. Professores aprenderam como se comunicar em uma ainda precária educação à distância emergencial, empresas que relutaram muitos anos com o teletrabalho agora dizem que não voltarão mais aos escritórios, pelo menos não na mesma proporção. O fato é que a pandemia foi um antecipador de futuros para quase todos, menos para grande parte das universidades federais. 

Enquanto as universidades particulares se sentiram pressionadas pela possibilidade de perda de alunos e reagiram com o EAD que deu para fazer, professores de universidades federais continuaram a receber dinheiro público sem contrapartida de trabalho, em uma apropriação indébita escandalosa. Alunos que se esforçaram durante todo o ano passado para conseguir passar em uma universidade federal ficaram agora todo o primeiro semestre sem aulas. A justificativa, à la socialismo cubano, é ridícula: se todos não podem ter a educação online por falta de acesso a computadores ou internet, então que ninguém tenha. 

Louve-se a Unicamp, que logo em março identificou os alunos que não tinham recursos e deu um jeito de conseguir computadores e acesso a eles. O elogio se estende a poucas outras como o Ifes que se virou para acessar os alunos. Enquanto isso a Ufes deixou seus alunos em casa sinalizando uma incompetência deprimente. 

Daqui para frente todos terão de enfrentar problemas maiores, que a transformação digital forçada acelerou. As crianças que estão entrando nas escolas são todas nativos digitais e tem que enfrentar a posição fora de época que considera transgressão um aluno usar celulares em sala de aula. Os celulares são quase uma prótese, uma extensão do braço, um amplificador de sentidos e não tem sentido afastá-los. E nas aulas virtuais não há como vigiar transgressões. Há que se conseguir uma maneira de conviver com isso. Alunos não precisam mais decorar aquilo que eles têm acesso na hora que quiser e os professores e os métodos terão que considerar isso. 

O mercado de trabalho quer profissionais com a alma digital  e não faz sentido separá-los da sua ferramenta básica. Se a geração passada já mudava hábitos zapeando canais na TV, essa geração zapeia páginas na internet, sem paciência com qualquer atraso, e se comunica pelo zap. Temos o novo Homo Zapiens e podemos aproveitar esse meteoro da pandemia para fazer desse limão uma limonada digital, mudando a forma de ensinar e incorporando definitivamente o mundo digital no ensino.

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O open banking está pronto e deve revolucionar o sistema bancário

Programas de pagamentos como o PIX e plataformas de open banking prometem mudar a vida financeira dos brasileiros a partir de novembro 

Por Josette Goulart, Luisa Purchio – em 7 ago 2020  Veja

Quando o Uber chegou, os taxistas se revoltaram. De repente viram seu mercado ameaçado por concorrentes que cobravam mais barato, ofereciam um serviço com mais qualidade e ainda ofertavam água e bala de graça aos clientes. Teve carreata, tentativa de leis para barrar os aplicativos e choradeira. Não adiantou, o consumidor gostou do serviço. Os taxistas não tiveram escolha além de aceitar e se adaptar. 

Pois uma revolução nos mesmos moldes está prestes a acontecer no sistema bancário brasileiro, gestada em plena pandemia, que levará as instituições tradicionais a mudar a forma de relacionamento com seus correntistas — sob risco de acabarem como os antigos taxistas. Termos como PIX, API e open banking vão mudar radicalmente a forma como as pessoas e as empresas realizam suas transações financeiras em um prazo já definido pelo Banco Central, a partir de novembro. 

O PIX, a primeira inovação a ser lançada pelo BC, é a nova TED, com a diferença de que funcionará 24 horas por dia, sete dias por semana. O novo sistema, que poderá ser utilizado a partir do celular, promete alterar diretamente a forma como as pessoas pagam suas contas e fazem suas compras, pois elimina a necessidade de dinheiro ou de cartão de débito ou crédito. Com o uso do sistema, o custo de operação das empresas de telefonia, água e luz, entre outras, também cai, porque o PIX elimina a necessidade de emissão de boletos físicos. 

O sistema de pagamento instantâneo, entretanto, é apenas o começo de um processo que culminará em outra novidade, o open banking. Essa é a inovação mais radical, pois permitirá que os clientes tenham acesso a seus dados e histórico financeiro (hoje eles são mantidos pelos bancos) e compartilhem com qualquer instituição regulada pelo Banco Central. A tecnologia por trás dessa plataforma aberta é chamada API.  

O modelo de funcionamento é comparável a um site que permite que o usuário se cadastre via Facebook ou Google, o que gera o compartilhamento dos dados. No caso do open banking, o cliente poderá esco­lher quais informações quer compartilhar e com quais empresas. Com isso, poderá optar por aquelas que ofereçam condições e taxas mais vantajosas para os serviços que lhe interessem. As mudanças são tão significativas que deixam eufóricos representantes de entidades setoriais como Cláudio Guimarães, diretor executivo da ABBC, associação que defende os interesses de bancos de pequeno e médio porte. “O custo vai cair muito. Finalmente o cliente será rei”, comemora.

Obviamente, clientes com histórico de maus pagadores terão dificuldades em um sistema que promete tal grau de transparência. A expectativa é que, no auge do funcionamento do open banking, todos os dados estejam disponíveis em um único aplicativo. Caso uma pessoa queira comprar uma casa maior, por exemplo, basta acessar a plataforma e conferir todos os bancos com financiamentos disponíveis para seu perfil financeiro e sob quais condições. “O open banking é a integração de toda a vida econômica em um só lugar, como conta-corrente, poupança, aplicações, compras e meios de pagamento, de forma que se pode avaliar e negociar do mesmo jeito que se faz hoje nas compras a crédito no varejo”, diz Pietro Delai, executivo da consultoria IDC. 

Para os bancos pequenos e médios e as fintechs que têm dificuldades para fazer análises de crédito mais consistentes, o open banking abre uma avenida de oportunidades. Com a abertura dos dados pessoais, é como se um banco pudesse entrar no sistema de um concorrente e saber tudo sobre o cliente que ele quer conquistar. A Stone, uma fintech que nasceu como operadora de máquinas de cartões e hoje concede crédito a pequenas empresas, já está operando na tecnologia do open banking. Seus clientes podem fazer pagamentos de folha de salários, contas de luz, água, fornecedores, tudo de forma automática, sem o processo manual, via API. Quando a abertura de dados efetivamente acontecer, a Stone já estará com um produto mais bem-acabado.

 Em relação aos bancos tradicionais, há vantagens e desvantagens em igual medida. No primeiro caso, a disputa pelos clientes com concorrentes menores será atroz. No segundo, é que terão acesso a dados de clientes de outros grandes bancos, que até então não estavam disponíveis. O maior problema que enfrentarão é de natureza tecnológica. Os grandes bancos brasileiros funcionam com sistemas antigos herdados de suas dezenas de aquisições. “É como se eles estivessem numa corrida de 100 metros rasos carregando uma bigorna”, compara Rafael Stark, fundador da fintech Stark Bank, empresa que já nasceu aberta e que opera a tecnologia de API com clientes como o Rappi. 

Em meio ao processo de implantação do open banking, algumas instituições chegaram a pleitear a alteração do cronograma por não terem condições de atualizar suas plataformas digitais a tempo, mas o Banco Central manteve regras e prazos. A primeira fase começa em novembro, com dados públicos das próprias instituições. Depois serão abertas informações dos clientes e, em outubro de 2021, começam a ser oferecidos produtos em plataformas abertas.

O acirramento da concorrência com as fintechs não é a única dificuldade no horizonte dos bancos tradicionais. Startups como o Nubank, que rapidamente conquistaram milhões de clientes, chegaram a preocupar os bancos em um primeiro momento, mas o incômodo passou rápido. O problema é que as empresas de tecnologia — e nesse caso se incluem as gigantes como Apple, Google e Facebook — também vão entrar na concorrência. “É questão de tempo, ainda mais que elas já estão acostumadas a lidar com plataformas abertas”, avalia o consultor Cezar Taurion, ex-­executivo da IBM. 

As três big techs, por sinal, já possuem seus próprios sistemas de pagamento, sendo o WhatsApp Pay o mais novo do trio. As empresas de telefonia também prometem entrar no jogo. A Claro já tem tudo pronto para lançar a própria fintech e deu o primeiro passo ofertando crédito, nos moldes do que já fez a Vivo. A multinacional de origem mexicana não se posiciona oficialmente sobre essa nova ofensiva, mas o diretor da operação brasileira, Maurício Santos, diz que o open banking abre a possibilidade para a entrada de outros setores da economia. Obviamente, Bradesco, Itaú e Santander, os principais bancos privados do país, guardam a sete chaves os planos para o embate. E terão de ser ágeis, uma vez que os concorrentes já estão com a faca entre os dentes.

Publicado em VEJA de 12 de agosto de 2020, edição nº 2699

https://veja.abril.com.br/economia/o-open-banking-esta-pronto-e-deve-revolucionar-o-sistema-bancario/

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