A visão de Bill Gates sobre transportes e sustentabilidade


Como nos movimentamos em um mundo de zero carbono?

Queremos que mais pessoas possam viajar sem contribuir para as mudanças climáticas.

Por Bill Gates 24/8/2020 (Tradução Evandro Milet)

No início deste mês, escrevi sobre como COVID-19 é uma história que serve de alerta para as mudanças climáticas. Não há dúvida de que experimentamos um sofrimento terrível e dificuldades econômicas nos últimos meses. Mas por mais difícil que seja imaginar agora, quando ainda estamos no meio da pandemia, a mudança climática tem o potencial de ser ainda mais devastadora.

A pandemia também nos lembrou quanta inovação é necessária para evitar um desastre climático. Os melhores números que vi estimam que a desaceleração econômica devido ao COVID-19 reduziu as emissões globais em cerca de 8 por cento. Isso não é nada, mas a austeridade que nos levou até lá obviamente não é sustentável. Se vamos abordar a mudança climática, precisamos encontrar novas maneiras de fazer coisas que não liberem gases de efeito estufa, incluindo a forma como nos movemos.

Quando a maioria das pessoas imagina o que contribui para as mudanças climáticas, os veículos são uma das primeiras coisas que vêm à mente. Aqui nos Estados Unidos, o transporte é o principal contribuinte para as emissões. Mas você pode se surpreender ao saber que ele contribui com apenas 16% das emissões globais. Essa é uma porcentagem menor do que a que conectamos, cultivamos e fabricamos coisas. Ainda assim, descarbonizar a forma como nos movemos é essencial se quisermos chegar a emissões líquidas zero.

Nosso objetivo aqui não é necessariamente fazer com que as pessoas se movam menos (embora devamos procurar maneiras de reduzir o tempo de circular de carro, avião e navios sempre que possível). Como vimos nos últimos meses, as economias sofrem quando as pessoas são forçadas a ficar perto de casa.

Queremos que mais pessoas e bens possam viajar. Para algumas das pessoas mais pobres do mundo – como os pequenos agricultores na África Subsaariana – a capacidade de transportar mercadorias das áreas rurais para os mercados da cidade pode fazer a diferença entre a vida e a morte. Para fazer isso, precisamos garantir que o transporte permaneça acessível para todos. Produtos como gasolina, diesel e até mesmo combustível de aviação são o padrão por um motivo: eles podem mandar você para longe por um baixo custo por galão.

Então, como exatamente alimentamos nossa necessidade de nos movermos sem emitir gases de efeito estufa? A resposta é simples, mesmo que fazer acontecer não seja: usar eletricidade limpa para fazer funcionar todos os veículos que pudermos e obter combustíveis alternativos baratos para todo o resto.

Vamos começar com o primeiro. A boa notícia é que fizemos muito progresso em veículos elétricos, ou VEs. Ao contrário de muitas das alternativas ecológicas sobre as quais escrevi antes neste blog, você pode sair e comprar um agora mesmo, se quiser. As baterias que os alimentam tiveram uma queda de 85% no preço desde 2010, então estão ficando mais acessíveis para comprar (embora ainda sejam mais caras do que as opções a gasolina). Além disso, o aumento da concorrência no mercado significa que há mais opções disponíveis para os clientes do que nunca, de sedans compactos a carros esportivos elegantes. Você poderá até mesmo comprar uma picape totalmente elétrica em breve, graças a empresas tradicionais como GM e Ford e novas montadoras como Rivian e Bollinger.

Várias empresas estão desenvolvendo baterias melhores e mais baratas que farão dos VEs uma opção realista para todos os proprietários de automóveis. Por exemplo, a QuantumScape, um fabricante que trabalha para comercializar a próxima geração de tecnologia de bateria. (Estou investindo no trabalho deles por conta própria e por meio da Breakthrough Energy Ventures.)

Os VEs se destacam em viagens curtas. Isso significa que são ótimas opções para carros pessoais e até veículos médios, como ônibus urbanos e caminhões de lixo. Mas mesmo se desenvolvermos veículos elétricos baratos e de longo alcance que são movidos por fontes de carbono zero, a eletrificação não é uma opção para muitos tipos de transporte.

O problema é que as baterias são grandes e pesadas. Quanto mais peso você está tentando mover, mais baterias você precisa para alimentar o veículo. Mas quanto mais baterias você usa, mais peso você adiciona – e mais energia você precisa. Mesmo com grandes avanços na tecnologia de bateria, os veículos elétricos provavelmente nunca serão uma solução prática para coisas como veículos de 18 rodas, navios de carga e jatos de passageiros. A eletricidade funciona quando você precisa cobrir distâncias curtas, mas precisamos de uma solução diferente para veículos pesados de longo curso.

É aqui que entram os combustíveis alternativos baratos. Existem vários tipos diferentes desses combustíveis, mas aquele com o qual você provavelmente está mais familiarizado são os biocombustíveis.

Os biocombustíveis avançados de hoje são muito diferentes dos de primeira geração sobre os quais você já ouviu falar, como o etanol. Alguns são feitos de plantas que não são cultivadas para alimentação, por isso precisam de pouco ou nenhum fertilizante (que você deve se lembrar é um grande emissor de gases de efeito estufa). Outros são feitos de subprodutos agrícolas, como talos de milho e a polpa que sobra da fabricação de papel. Alguns desses combustíveis podem até mesmo ser colocados em motores existentes sem a necessidade de qualquer modificação.

Estou otimista sobre esses biocombustíveis, mas é muito cedo para pensar em substituir a gasolina e outros combustíveis fósseis por eles. A pesquisa sobre biocombustíveis avançados ainda é insuficiente e eles não estão prontos para serem implantados na escala de que precisamos. Precisamos de muito mais inovação antes que se tornem uma opção realista e econômica para o transporte de longa distância.Outro tipo de combustível alternativo são os eletrocombustíveis. Usando eletricidade para combinar as moléculas de hidrogênio na água com o carbono no dióxido de carbono, podemos criar um combustível líquido que funciona nos motores existentes. O dióxido de carbono que este processo usa é capturado diretamente da atmosfera, então a queima de eletrocombustíveis não adiciona às emissões gerais. 

Eles são muito caros, no entanto. Dependendo do combustível que você está substituindo, os eletrocombustíveis podem custar de 3 a 7 vezes mais que os combustíveis fósseis. E, como acontece com os VEs, a eletricidade usada para criá-los precisa ser de fontes de carbono zero para ser uma solução real.

Mudar para veículos elétricos e combustíveis alternativos é a maneira mais eficaz de nos movermos em direção a emissões zero no setor de transporte. Embora existam algumas outras medidas que podemos tomar para reduzir as emissões – como usar materiais menos intensivos em carbono para fazer carros, usar combustíveis de forma mais eficiente e movimentar-se menos – zerar todas as emissões de transporte exigirá avanços massivos nessas duas áreas.

Essas tecnologias precisam ficar muito mais baratas do que são hoje. Isso significa encontrar maneiras de produzí-las em escala e garantir que tenham um desempenho comparável ao de seus equivalentes de combustíveis fósseis.

Estou inspirado pelo progresso que fizemos até agora, mas temos um longo caminho pela frente (sem trocadilhos). Para evitar os piores efeitos das mudanças climáticas, precisamos chegar a zero emissões líquidas de gases de efeito estufa em todos os setores da economia em 50 anos. Descarbonizar a maneira como nos movemos exigirá muitas e muitas inovações, assim como nas outras áreas sobre as quais escrevi. 

Estou ansioso para ver o papel que as tecnologias de hoje desempenharão em um futuro com emissão zero de carbono e para descobrir quais novos avanços surgirão nos próximos anos.

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Além dos artigos neste blog, outros artigos de Evandro Milet com outras temáticas, publicados nos fins de semana em A Gazeta, encontram-se em http://evandromilet.com.br/

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