Não pergunte ao ChatGPT

E vamos parar de chamar algoritmos estatísticos de inteligência artificial

Suzana Herculano-Houzel – Folha – 31.jul.2025 

Bióloga e neurocientista da Universidade Vanderbilt (EUA)

A notícia mais assustadora que eu li neste mês que acabou não tinha nada a ver com Trump nem Bolsonaro, nem mesmo com a fome em Gaza, que apenas atesta que é possível ser desumano mesmo tendo a capacidade biológica de 16 bilhões de neurônios corticais para tomar boas decisões que levam o bem alheio em consideração. A notícia que mais me assustou foi outra: nossos jovens estão recorrendo a algoritmos estatísticos para buscar conselhos, obter apoio emocional e tomar decisões –além, é claro, de fazer o dever de casa.

Segundo a pesquisa em questão, metade dos adolescentes nos EUA usa regularmente plataformas e aplicativos de “inteligência artificial” como “amiguinhos digitais”. Como se não bastasse usar, um terço dos jovens consultados já recorreu a algoritmos estatísticos para discutir assuntos importantes, e 31% dos jovens consideram que conversar com esses algoritmos é tão bom quanto falar com amigos de verdade. A filha adolescente do meu hóspede confirma: ela usa ChatGPT para pedir conselhos, recomendações e ideias.

Isso é assustador em um nível completamente diferente dos temores de obsolescência de habilidades humanas causada por tecnologia que remontam a Platão, do tipo “os livros vão acabar com a memória oral”, “o rádio vai acabar com a leitura”, “a internet vai acabar com os jornais”. Livros, rádio, jornais e mesmo o corpo de dados acumulado, documentado, catalogado e disponibilizado via internet têm se mantido fiéis à intenção dos humanos que observaram, pensaram e geraram o conhecimento comunicado por esses meios. O mais importante, contudo, é que o uso das informações e conhecimento veiculados depende de pessoas que pensam e que, com suas vontades e valores humanos, oferecem compreensão, amizade e conselhos com intenção, empatia, e preocupação com o futuro.

Algoritmos, não. A tal da “inteligência artificial” que os jovens consultam, que de inteligência não tem nada, pois não tem nem oferece flexibilidade, é apenas um algoritmo estatístico. Empoderados pela vasta capacidade computacional que a cognição humana desenvolveu em silício, e às custas de muita energia, esses algoritmos mapeiam a probabilidade de sequências cada vez longas de palavras. Dado um prompt na forma de pergunta ou pedido, as “respostas” que os algoritmos estatísticos cospem são apenas novas sequências de palavras relacionadas ao prompt que refletem sua probabilidade de incidência no corpo de dados que treinou o algoritmo.

Ou seja: algoritmos estatísticos treinados por comentários de redes sociais, que contêm o pior que a humanidade é capaz de produzir, vão cuspir de volta conselhos odiosos, incitação ao crime e ao suicídio simplesmente porque isso está representado nos dados cujas probabilidades foram mapeadas pelos algoritmos.

Algoritmo não sente, não sofre, não pensa. Algoritmo não é amigo de ninguém. Mas algoritmo vendido como “inteligência artificial”, com apelido bonitinho –ChatGPT, Claude – e que fala com a gente através de uma tela, como a gente já se acostumou que os poucos amigos de verdade também falam, dá às BigTechs um exército cada vez maior de jovens prontos a oferecer seus cérebros, e pior, suas vidas, a serviço dos seus bolsos.

É preciso explicar aos jovens que não há inteligência alguma em usar algoritmos estatísticos como substituto a outros humanos. Já os adultos podem fazer duas coisas imediatamente: só chamar algoritmo estatístico pelo que é, e escolher não usar algoritmo estatístico. Em seu lugar, sugiro a Wikipedia, que continua bem documentada por indivíduos pensantes e fazendo a gente pensar.

Referência
Emily M. Bender, Alex Hanna (2025). The AI Con: How to fight Big Tech’s hype and create the future we want. Harper Collins, Nova Iorque.

Não pergunte ao ChatGPT – 31/07/2025 – Suzana Herculano-Houzel – Folha

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Chance de o Brasil ter o próprio ChatGPT é baixa, mas há alternativas para nós no xadrez da IA

Na segunda divisão global da tecnologia, o País pode mirar modelos ajustados para a realidade nacional, além de focar IAs de função específica

Por João Paulo Vicente – Estadão – 07/06/2025 

O Brasil saiu atrás. Sempre bem colocado em rankings globais de pesquisas científicas em inteligência artificial (IA), o País não foi capaz de acompanhar a explosão recente da tecnologia. Para governo, mercado e academia, a prioridade hoje é recuperar esse atraso — ainda que isso seja feito longe da construção de grandes modelos, como o GPT, da OpenAI, ou o Gemini, do Google.

Por um lado, pesquisadores, empreendedores e representantes de órgãos públicos dizem que ainda há um trabalho intenso a ser feito em cima dos modelos de IA criados nos Estados Unidos, Europa e China. O objetivo é atender demandas do mercado, otimizar setores produtivos e criar produtos mais adequados à nossa realidade, com grande potencial de exportação para outros mercados.

Por outro, porém, eles demonstram preocupação com o excesso de dependência de grandes modelos criados no exterior e acreditam que o País precisa dar um passo além no jogo global, criando a sua própria tecnologia do zero. Como, então, equilibrar essas demandas?

“Se a gente pensar (o setor de IA) em cinco divisões, o Brasil está na segunda”, diz Anderson Soares, professor da Universidade Federal de Goiás (UFG) e coordenador do Centro de Excelência em IA (CEIA). “A gente não é ruim, mas fica um sentimento de que o jogo recomeça nas grandes mudanças tecnológicas e sua chance melhora. Depois correr atrás é muito difícil”, diz.

Lançado em 2024 e saindo lentamente do papel, o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA) traz estratégias para aproveitar a atual janela de oportunidade em inovação e prevê investimentos de R$ 23 bilhões até 2028. Se der certo, o plano pode transformar o papel global que o Brasil desempenha no xadrez da IA — hoje, somos grandes consumidores.

“Essa é a grande questão. O Brasil não quer mais ser apenas um consumidor”, afirma Hugo Valadares, diretor do Departamento de Ciência, Tecnologia e Inovação Digital (DECTI) do Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI). “A gente vai criar o novo ChatGPT? Talvez não seja isso. Mas o País quer se desenvolver dentro das inúmeras aplicações da tecnologia.”

Outras formas de usar IA

O Brasil já tem um número significativo de empresas que desenvolvem aplicações de IA. Fundada em 2017, a Associação Brasileira de Inteligência Artificial (Abria) hoje tem mais de 860 empresas em seu ecossistema, um número que aumentou 44% só no último ano. Para completar, diversos centros de pesquisa ligados a universidades públicas desenvolvem projetos em parceria com o setor privado, como o CEIA e o Recod.ai, laboratório de inteligência artificial da Unicamp.

“A gente vai criar o novo ChatGPT? Talvez não seja isso. Mas o País quer se desenvolver dentro das inúmeras aplicações da tecnologia”

Hugo Valadares

diretor no Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação

É um caminho que não leva a um novo ChatGPT, mas que aproveita as bases de tecnologia já existentes para criar novas ferramentas e adaptar modelos para a realidade brasileira. “O Brasil é bom em construir produtos. Ou seja, é pegar o que existe e construir solução para resolver problemas do mundo real”, diz João Granzotti, diretor de dados da Tractian, startup que usa IA para fazer manutenção preventiva no ramo industrial.

Em 2024, a startup foi incluída na lista da Forbes das 50 empresas de IA mais promissoras do mundo. Ela trabalha com uma variedade de técnicas de IA, desde as mais sofisticadas, com modelos generativos, até soluções simples. “Nosso foco é resultado. Se o resultado é uma soma num banco de dados que evita problemas, isso para mim é o suficiente”, explica Granzotti.

Isso ajuda a entender como há um mundo de possibilidade para uso da IA fora das opções mais midiáticas. Em alguns casos, nem sequer é possível usar grandes modelos de linguagem, que demandam um volume gigantesco de dados. Sandra Avila, professora do Instituto de Computação da Unicamp e parte do Recod.ai, cita um deles: doenças raras. “Você não vai ter muitos dados para doenças raras. Elas são raras! Então é necessário trabalhar de outra forma para lidar com esse problema”, diz ela.

Modelos de IA abrasileirados

Sandra se lembra também de uma palestra que deu em 2016 para um grupo de dermatologistas. Na época, ela defendeu a necessidade de o País se organizar em relação aos dados de casos de doenças de pele registrados aqui. Caso contrário, estaríamos fadados a comprar soluções de IA que nem sequer funcionam para os pacientes brasileiros.

Ou seja, o que ela estava defendendo era uma coleta de dados que refletisse as particularidades da nossa população — o que poderia resultar em algoritmos mais precisos e eficientes para a realidade nacional. Resolver esse impasse demanda o que Rodrigo Nogueira chama de “country focused AI”, ou IAs focadas em um país. Ele é fundador da Maritaca AI, empresa que desenvolve o Sabiá, uma espécie de GPT brasileiro.

Este é um processo que não é feito do zero, mas que refina com dados locais IAs já disponíveis. É uma técnica conhecida como fine-tuning, mais barata do que criar um grande modelo do zero — é uma forma também de não ficar completamente fora do campo das IAs voltadas para a linguagem.

Uma das grandes provas de fogo do Sabiá é encarar o linguajar específico do Judiciário brasileiro, uma área que se mostra desafiadora até para as IAs mais sofisticadas do mundo. Atualmente, a startup firmou uma parceria com o Jusbrasil para criar IAs generativas especializadas no “juridiquês”. “Recebemos um investimento deles e criamos um conjunto de modelos para serem utilizados no nosso contexto jurídico”, conta Nogueira.

Pequenos e eficientes

Há, no entanto, tarefas e problemas que não demandam uma capacidade de análise tão grande — e é um caminho mais barato e eficiente para criar soluções.

Imagine só: se a demanda de uma loja é construir uma IA para atender consumidores com capacidade de interpretação contextual, ela não precisa usar um grande modelo que é capaz de recomendar os melhores restaurantes em Jacarta, traduzir textos do português para romeno ou criar imagens realistas de Jesus abraçando uma capivara.

Esses modelos menores são chamados de Small Language Models (SML). “Essas IAs gigantes custam caro para treinar e para servir porque elas têm de saber o mundo todo”, explica o fundador da Maritaca. “Quando a gente foca, consegue deixar esse modelo mais enxuto, o treino sai mais barato e a gente consegue servir esse modelo a um preço menor.”

“Quando a gente foca, consegue deixar o modelo mais enxuto, o treino sai mais barato e a gente consegue servir esse modelo a um preço menor”

Rodrigo Nogueira

fundador da Maritaca AI

Esses modelos são menores porque têm um volume menor de parâmetros, a relação matemática que conecta palavras em IAs. Para comparação, estima-se que o GPT-4, da OpenAI, tenha 1,76 trilhão de parâmetros, enquanto uma versão pequena do Llama, da Meta, tem 8 bilhões.

É comum que os SLMs sejam desenvolvidos a partir de variações de grandes modelos de código aberto, como o Llama, da Meta — o próprio DeepSeek, a sensação chinesa que assustou gigantes americanas, foi criado desta forma. Assim, programadores de outras empresas conseguem fazer adaptações.

“Fica claro que o open source é o melhor caminho, ainda mais em IA, que é uma coisa extremamente poderosa. É melhor que esteja na mão de todos e que todos possam utilizar”, afirma Gabriel Almeida, fundador da Langflow, uma startup brasileira de IA comprada no ano passado pela americana DataSax, numa transação que envolveu um investimento de R$ 100 milhões — atualmente, a IBM está no processo para adquirir todo o grupo.

O Brasil não se destaca em diferentes rankings de IA, mas está sempre à frente do restante dos países da América Latina e África — e compartilha diversos problemas e desafios em áreas como educação, saúde e infraestrutura.

“A gente tem muita matéria-prima intelectual para resolver problemas comuns ao Sul Global”, afirma o advogado Luiz Prado, do conselho consultivo da Associação Brasileira de Inteligência Artificial (Abria). Esse pode ser um primeiro passo para tornar o País mais relevante em termos globais, sugere ele. “Fazer essa ‘tropicalização’ e se tornar um exportador de soluções de IA para a América Latina como um todo, para a África e para a região do Sul da Ásia.”

O Brasil precisa do seu próprio ChatGPT?

Para Anderson Soares, da UFG e do CEIA, está clara a capacidade do Brasil de extrair valor da ciência, ou seja, dos grandes modelos construídos nos Estados Unidos, Europa e China. Mas isso é pouco para elevar o patamar do País. “É ruim isso? Não. Só não é o melhor ganho”, diz. “Isso nunca vai nos levar ao G8. Vai nos manter no G10, G12, G15.” Em outras palavras, trabalhar com tecnologia concebida no primeiro mundo da IA não é suficiente para nos colocar neste grupo.

Para chegar ao G8, afirma ele, é necessário a cadeia completa: produzir conhecimento, transformá-lo em aplicação e ser competitivo globalmente. Parte dessa equação envolve um ponto que está longe de ser um consenso entre todos os atores envolvidos nessa discussão: a necessidade de criar um LLM brasileiro do zero. O único ponto em que todos parecem estar de acordo é que esta não é uma prioridade imediata.

Mas no longo prazo os ventos podem mudar, e o acesso às arquiteturas de bases de IA se tornar mais difícil. Essa é uma preocupação que aflige tanto Rodrigo Nogueira, da Maritaca AI, quanto Sandra Ávila, da Unicamp.

“Tanto a Maritaca quanto várias outras empresas dependem da benevolência de dez big techs. Se as coisas esquentarem, pode ser que isso mude, a gente não fique mais com IA de ponta”, diz Nogueira. Sandra concorda. “O que acontece se alguma dessas empresas decidir que não libera mais nada? Ficar dependente nesse processo vai custar muito caro para o País”, afirma.

A resposta de como diminuir a dependência não é simples. Se fazer fine-tuning ou treinar modelos a partir de IAs de código aberto já são operações custosas, criar algo como o ChatGPT é exponencialmente mais caro. Mesmo o DeepSeek, desenvolvido com menos recursos, ainda está longe da realidade brasileira.

“A gente tem muita matéria-prima intelectual para resolver problemas comuns ao Sul Global”

Luiz Prado

advogado e membro do conselho consultivo da Associação Brasileira de Inteligência Artificial (Abria)

Soares conta que neste ano o Centro de Excelência em IA recebeu R$ 42 milhões para investimentos em infraestrutura, um montante significativo para o País. “É 10% do estimado para fazer o DeepSeek. Mas quanto mais você investe nisso, mais você diminui o tempo do que consegue fazer em relação ao estado da arte”, explica.

Para ele, os R$ 42 milhões permitem trabalhar em equipamentos de ponta de dois ou três anos atrás. Com valores na casa de R$ 300 milhões, chega-se ao patamar de um ano atrás. R$ 1 bilhão colocaria o Brasil em par com os centros mais avançados do mundo.

Supercomputador pode dar uma ‘mãozinha’

Este é um dos objetivos do PBIA, o plano do governo federal. Uma das ações é o investimento de R$ 1,8 bilhão na criação de um supercomputador, que ficará a cargo do Laboratório Nacional de Computação Científica (LNCC). No papel, a ideia é que este fosse um dos cinco supercomputadores mais poderosos do mundo. “Se ficar top dez eu fico muito feliz”, fala Fábio Borges, diretor do LNCC.

Um supercomputador como esse é chave para o Brasil desenvolver um modelo fundacional próprio — ou fazer fine-tuning e treinamentos a partir de plataformas de código aberto dentro do nosso território. Hoje, há uma dependência de infraestruturas no exterior para se fazer isso. O primeiro modelo grande da Maritaca, por exemplo, foi treinado em um cluster de computadores do Google nos Estados Unidos durante quatro meses por meio de uma espécie de concessão gratuita da big tech norte-americana.

O futuro supercomputador do LNCC, no entanto, terá uma janela limitada de uso. “Faz uma conta rápida: treinar uma LLM grande demora cem dias. Aí você pega e divide por dez instituições, passam a ser mil dias”, afirma Fábio Borges, do LNCC. “Então é inviável. Os grupos vão ter de se unir para atacar problemas grandes.”

Por grupos, entende-se governo, academia e iniciativa privada. De volta ao argumento de estabelecer uma cadeia completa de IA no País, depois de produzir o conhecimento é preciso transformá-lo em aplicação — um equilíbrio entre pesquisa e mercado. Vai funcionar? Ainda é cedo para dizer. Mas, pelo menos em relação ao supercomputador do LNCC, Borges é otimista. “O dinheiro existe, vai ser investido cedo ou tarde.”

Se isso acontecer, é a resposta para um paralelo interessante traçado por Rodrigo Nogueira. A ideia de que o Brasil precisa olhar para a IA da mesma forma como fez com a política de industrialização em meados do século 20, em especial com a criação da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN). “Mais importante que a camada de desenvolvimento é ter a tal da CSN, um cluster para gente treinar essa IA. Hoje é difícil ter acesso a isso lá fora. Ter essa empresa capaz de produzir o ‘aço bruto’ para a gente fomentar a indústria é o mais importante”, afirma.

Coordenação geral e edição: Ana Carolina Sacoman e Bruno Romani; Editora de infografia: Regina Elisabeth Silva; Editores-assistentes de infografia: Adriano Araujo e William Mariotto; Design: Lucas Almeida; Infografista Multimídia: Gisele Oliveira e Lucas Thaynan; Head do núcleo de vídeos: Manuella Menezes; Subeditor do núcleo de vídeos: Everton Oliveira; Editor de fotografia: Clayton de Souza; Pesquisa de foto: Sérgio Neves; Editor Executivo de Economia, Negócios e Link: Ricardo Grinbaum; Editor do Link: Bruno Romani; Editor Executivo de Distribuição, Engajamento e Vídeo: Leonardo Cruz.

Chance de o Brasil ter o próprio ChatGPT é baixa, mas há alternativas para nós no xadrez da IA – Estadão

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Indústria da música está ameaçada por bandas geradas por IA: ‘desafio incomparável’

Progresso tecnológico já revolucionou setor diversas vezes, mas professor da prestigiada Berklee College of Music diz que IA é diferente de tudo o que já existiu

Por AFP — O Globo – 30/07/2025 

A proliferação de bandas cuja imagem e música são geradas inteiramente por inteligência artificial (IA) é a parte visível de um fenômeno que começa a reduzir a participação de músicos profissionais. Seja o agora famoso Velvet Sundown com seu rock dos anos 1970 ou Aventhis e The Devil Inside com seu country refinado, é cada vez mais comum que uma criação diretamente de uma interface de IA ultrapasse um milhão de reproduções no Spotify.

Por trás desses conceitos, existe a opacidade, e os produtores dessa música 100% IA são inacessíveis. Ao contrário do Deezer, o Spotify não especifica quais faixas são geradas inteiramente com essa tecnologia.

“Em um futuro próximo, veremos surgir muitas músicas sobre as quais não seremos capazes de dizer quem as fez ou como foram criadas”, prevê Leo Sidran, produtor, compositor e intérprete.

Para o artista, vencedor do Oscar, o surgimento desses grupos de IA “mostra o quão comuns e previsíveis muitas músicas são hoje em dia”. O produtor e compositor Yung Spielburg afirma no podcast “Imagine AI Live” que a IA destaca a separação entre “escuta passiva e ativa”.

A escuta ativa implica que as pessoas “estão interessadas no que você tem a dizer” e se refere a um tipo de música que, segundo ele, tem pouco a temer com o surgimento da inteligência artificial. Com a escuta passiva, o tipo que você faz ao preparar a comida, durante o jantar ou em qualquer tarefa doméstica, “você não está tentando descobrir quem é o artista”.

Se o software se tornar avançado o suficiente para que “as pessoas não consigam diferenciar” a escuta passiva, gravadoras e empresas “escolherão a IA generativa”, prevê ele, “porque não precisarão pagar royalties”.

Plataformas de streaming “já enchem playlists com música ‘ambiente’, muitas vezes atribuída a artistas misteriosos sobre os quais não há informações”, acrescenta Dennis DeSantis, professor da Universidade de Rochester. Além do streaming, filmes, séries, publicidade e espaços públicos são presas fáceis para essa produção sintética porque “a música está em segundo plano”, argumenta o acadêmico.

“Desaceleração acentuada”

Embora essas peças sejam geradas apenas parcialmente por IA, o fenômeno, na verdade, reduz o volume de trabalho disponível para a profissão.

“Os músicos terão ainda mais dificuldade para se sustentar”, alerta Mathieu Gendreau, professor da Universidade Rowan e especialista do setor. “Talvez esta seja a questão principal”: “como o dinheiro será distribuído”, acrescenta.

Sidran afirma ter observado uma “desaceleração acentuada” na atividade desde o outono passado, um sentimento compartilhado por seus contatos no setor.

“Suspeito que a IA tenha muito a ver com isso”, sugere o apresentador do podcast “The Third Story”. “Sinto que muitos clientes que normalmente me encomendariam música agora o fazem com IA”, acrescenta.

O progresso tecnológico já revolucionou o mundo da música diversas vezes, do rádio ao streaming, passando pelo beatboxing e pelo software de gravação e edição Pro Tools. Mas para George Howard, professor da prestigiosa Berklee College of Music, “a IA representa um desafio incomparável” a tudo o que já existiu.

O caminho a seguir, diz ele, passa pelos tribunais, onde inúmeros casos opõem detentores de direitos autorais a gigantes da IA generativa, um processo que pode levar meses ou até anos para ser resolvido.

Acostumado a um ambiente cada vez mais difícil desde o início dos anos 2000, Mathieu Gendreau reconhece que a IA “se consolidará a longo prazo porque é barata e prática”. Para ajudar seus alunos a sobreviver neste mundo, ele os ensina que “a música é apenas uma parte” da equação. “É preciso ser empreendedor” e “ter diversas atividades”, diversificando. Léo Sidran tenta ser positivo e vê “uma oportunidade para os artistas destacarem o que os torna únicos”.

“Não tente fazer algo que você já espera”, ele insiste, “porque a IA também terá feito isso”.

Indústria da música está ameaçada por bandas geradas por IA: ‘desafio incomparável’

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Gentileza: um remédio invisível com efeito positivo

Estudos mostram que ver um ato gentil melhora o humor, renova a esperança nas pessoas e ameniza o efeito de notícias ruins

Por Stephanie Rizk – O Globo – 28/07/2025 

Um gesto simples. Abrir a porta, oferecer ajuda com as sacolas, perguntar de verdade como alguém está e escutar. A gentileza pode parecer pequena, mas dentro dela cabem revoluções.

Você provavelmente já sentiu isso na pele: um elogio num dia difícil, um bilhete carinhoso no meio da rotina, uma palavra acolhedora num corredor apressado. Em um mundo ruidoso e impaciente, a gentileza vai além da boa educação. É uma forma de cuidado, com efeito real em quem recebe e em quem oferece.

E a ciência confirma isso. Estudos recentes mostram que comportamentos gentis, o que os pesquisadores chamam de ações pró-sociais, estão associados a um aumento consistente do bem-estar psicológico. Mais do que promover um prazer imediato, essas atitudes elevam o chamado bem-estar.

Isso significa que fazer o bem não apenas nos faz sentir bem. Também nos ajuda a encontrar sentido, a lembrar que fazemos parte de algo maior, e que somos capazes de causar impacto positivo no mundo. É um antídoto silencioso contra o cinismo, o individualismo e o esvaziamento emocional que tantas vezes nos cercam.

A força da gentileza não se limita ao emocional. Há também efeitos fisiológicos mensuráveis. Em um ensaio clínico conduzido nos Estados Unidos, pessoas que realizaram pequenos atos de gentileza diariamente como escrever bilhetes positivos ou ajudar um vizinho, apresentaram redução na ativação de genes ligados à resposta inflamatória ao estresse. Ou seja, o corpo responde à gentileza com mais equilíbrio, menos tensão e, possivelmente, até mais saúde. Essa resposta está associada a um padrão genômico chamado CTRA (Conserved Transcriptional Response to Adversity), cuja expressão excessiva tem relação com doenças crônicas e envelhecimento precoce.

Além disso, programas de intervenção social, como o KIND Challenge, realizados em diferentes países demonstraram que estimular ações gentis no cotidiano ajuda a diminuir sentimentos de solidão, ansiedade social e isolamento. E, de forma talvez ainda mais potente, reforçam os laços comunitários, melhoram a convivência em bairros e aumentam a sensação de segurança e acolhimento.

Muita gente que pratica gentileza subestima o impacto que provoca, achando que foi algo pequeno, quase irrelevante. Mas, para quem recebe, o gesto pode ser profundamente marcante. Até quem apenas presencia uma cena de bondade se beneficia. Estudos mostram que ver um ato gentil melhora o humor, renova a esperança nas pessoas e ameniza os efeitos de notícias ruins.

Curiosamente, os gestos mais potentes não são os grandiosos, e sim os espontâneos e cotidianos. Dizer “bom dia” com o olhar, lembrar o nome de alguém, elogiar com sinceridade, ouvir com atenção, ceder o lugar, agradecer de verdade. A gentileza se costura assim, nos detalhes do dia.

E o melhor é que ela não exige tempo, dinheiro nem esforço descomunal. Só uma mudança de disposição. Um desvio do automático. Um olhar que enxerga além de si. Ela é especialmente poderosa quando surge sem plateia, sem obrigação, no gesto espontâneo de quem poderia ignorar, mas escolhe acolher. Em um mundo autocentrado, a gentileza vira ponto de luz. E, como toda luz no escuro, chama atenção. É impossível não notar e não se sentir um pouco melhor.

Há quem diga que o mundo anda insuportável, agressivo, acelerado demais. Talvez esteja mesmo. Mas é justamente aí que a gentileza se torna ainda mais necessária. Porque ela quebra o ciclo. Porque ela interrompe a lógica da indiferença. Porque ela devolve humanidade às relações.

Por isso, se puder, pratique um gesto gentil hoje. Mesmo que não pareça necessário. Mesmo que ninguém esteja vendo. Aliás, especialmente nesses momentos. Como dizia o Profeta Gentileza, que coloriu o Rio: “gentileza gera gentileza.” E gera mesmo.

Gentileza: um remédio invisível com efeito positivo

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Veículos elétricos chineses ultrabaratos estão assustando a própria China

Carros revelam muitos dos problemas atuais da economia

Folha/The Economist – 6.jun.2025 

A capacidade da China de fabricar veículos elétricos (VEs) a baixo custo tem causado angústia em países com grandes montadoras, levando governos a investigar os subsídios chineses para o setor e a erguer barreiras comerciais.

Agora, porém, é o próprio governo chinês que está preocupado com o preço baixo dos VEs de seus produtores. O setor tornou-se emblemático de alguns dos problemas mais amplos que a economia enfrenta.

Em 23 de maio, a maior fabricante de VEs da China, BYD, causou comoção quando reduziu o custo de 22 modelos elétricos e híbridos. Agora, o preço inicial de seu modelo mais barato, o Seagull, caiu para apenas 55.800 yuans (US$ 7.700 ou R$ 43,1 mil). A medida ocorreu apenas dois anos depois que a BYD havia originalmente lançado o hatch elétrico, a um custo então surpreendentemente baixo de 73.800 yuans.

A medida mais recente gerou preocupação oficial sobre até qual patamar os preços poderiam cair no maior mercado automobilístico do mundo. Em 31 de maio, o ministério da indústria da China disse à agência de notícias Xinhua que “não há vencedores na guerra de preços, muito menos um futuro.”

O ministério prometeu conter a concorrência predatória, que, segundo ele, prejudica o investimento em Pesquisa e Desenvolvimento e pode causar problemas de segurança. Em 1º de junho, o People’s Daily, porta-voz do Partido Comunista, argumentou que produtos de baixo preço e baixa qualidade poderiam prejudicar a reputação dos produtos “made in China”.

A reação negativa ocorre em um momento em que os líderes reprimem a competição improdutiva e autodestrutiva entre empresas e governos locais, que criou excesso de capacidade e reduziu os lucros. Suas ações fazem parte de um esforço mais amplo para reequilibrar a economia. “Desenvolvimentos recentes sugerem que o antigo modelo orientado pela oferta permanece intacto”, escreveu Robin Xing, economista-chefe da Morgan Stanley para a China, em uma nota.

Leia também

As ações da BYD caíram após os cortes de preços e os pronunciamentos oficiais, em meio a preocupações de que a guerra de preços será insustentável. Mas para manter a participação de mercado, outras montadoras cortaram seus próprios preços.

Wei Jianjun, presidente da Great Wall Motor, uma das maiores, chamou o setor de insalubre e invocou o colapso do mercado imobiliário como um alerta. Um executivo da BYD respondeu que os comentários do Sr. Wei eram “alarmistas”.

A situação é agravada pelo fato de que existem 115 marcas chinesas de VEs, de acordo com a Jato Dynamics, uma empresa de pesquisa. Apenas algumas, incluindo a BYD, ganham dinheiro e devem sobreviver a longo prazo.

Guerras de preços brutais são uma aflição comum em diversos setores chineses. Até o final do terceiro trimestre do ano passado, quase 25% das empresas listadas da China estavam no vermelho, mais do que o dobro da proporção de cinco anos atrás.

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PÂNICO EM DETROIT

A consolidação levará tempo e será dolorosa. A BYD está bem posicionada, dada sua escala e integração vertical. A empresa controla tudo, desde direitos de mineração de minerais necessários para construir suas próprias baterias até navios de carga para transportar seus carros para mercados estrangeiros. Em novembro, despertou temores de uma competição ainda mais feroz quando pressionou fornecedores a cortar preços em 10%.

Os fornecedores podem agora ser ainda mais pressionados. Isso poderia significar demissões e menos dinheiro para os trabalhadores do setor automobilístico gastarem, em um momento em que o governo está enfatizando a necessidade de impulsionar a fraca demanda doméstica para ajudar a absorver o choque da guerra comercial com os Estados Unidos.

Um mercado cada vez mais difícil em casa alimentará as exportações de carros chineses. A Reuters relata que a BYD planeja vender mais da metade de seus carros no exterior, especialmente na América Latina e na Europa, até 2030. Isso seria um grande salto. A China respondeu por cerca de 90% das 4,3 milhões de vendas de carros da empresa no ano passado.

Mas os preços mais altos que os VEs comandam no exterior poderiam compensar as margens cada vez menores na China. E está fazendo progressos apesar dos ventos contrários comerciais mais fortes. Em abril, apesar das tarifas aumentadas da UE sobre VEs chineses, a BYD vendeu mais deles na Europa do que a Tesla, uma rival americana, pela primeira vez, de acordo com a Jato Dynamics.

Embora a guerra de preços esteja em seu pior momento na China, suas ramificações serão sentidas em todo o mundo. VEs mais baratos seriam um lado positivo, mas isso será pouco conforto para governos já ansiosos com a China exportando excesso de capacidade para seus mercados. Mais tensões comerciais são inevitáveis.

Texto do The Economist, traduzido por Vitor Hugo Batista, publicado sob licença. O artigo original, em inglês, pode ser encontrado em www.economist.com

Veículos elétricos ultrabaratos estão assustando a China – 06/06/2025 – Mercado – Folha

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A Guerra no Século XXI: Com drones e robôs autônomos, evolução no campo de batalha desafia direito internacional

Nações avançam em tecnologias mais eficazes e baratas, mas enfrentam impasse na hora de definir a quem caberá a decisão de apertar o gatilho, se ao homem ou à máquina

Por Filipe Barini – O Gobo – 27/07/2025 

Em 7 de outubro de 2001, menos de um mês após os ataques do 11 de Setembro contra os EUA, um drone controlado a milhares de quilômetros de distância lançava um ataque na cidade afegã de Kandahar. O alvo era o então líder do Talibã, o mulá Omar, que naquele dia escapou devido a um erro de execução. Apesar de ser considerada um fracasso, a operação se tornou um marco: foi a primeira vez que os EUA usaram um drone com fins ofensivos. Desde aquele dia, os drones de ataque jamais deixaram as mesas de planejamento militar, representando uma das mais conhecidas facetas de como, quando e, mais recentemente, por quem guerras são travadas no Século XXI.

O ataque ocorreu no primeiro dia da Guerra no Afeganistão, que foi uma resposta ao maior atentado terrorista da História, na qual os EUA tinham pela frente dois inimigos — a rede al-Qaeda e o Talibã — que empregavam métodos de combate não convencionais. Além dos bombardeios contra cavernas e tendas, os drones surgiram como uma opção para ataques de precisão, adentrando uma zona cinzenta do direito internacional.

— Se estabelecermos uma divisão doutrinária entre a guerra tradicional e a guerra híbrida ou assimétrica, o 11 de Setembro é, de alguma forma, um marco da eficiência de um Estado que precisava fazer frente ao surgimento de outro modelo de ameaça, mas a partir de elementos de guerra tradicional — afirmou ao GLOBO Sabrina Medeiros, professora de Relações Internacionais da Universidade Lusófona de Lisboa. — E aqui temos a mistura de dois modelos distintos no mesmo campo de batalha.

Linhas mais turvas

Mais de duas décadas depois, os drones protagonizam uma revolução tecnológica em países como a Ucrânia, onde são peça vital contra um inimigo que usa mísseis hipersônicos. Mas não são os únicos novos recursos à mão. Unidades especializadas em ciberataques, como o Grupo Lazarus, na Coreia do Norte, roubam bilhões de dólares em criptoativos para burlar sanções e financiar o programa nuclear de Pyongyang. Instrumentos que, aliados a um contexto geopolítico atual distinto, tornaram as linhas de onde começa a guerra mais turvas.

O ataque com o vírus Stuxnet contra a central nuclear de Natanz, no Irã, em 2010, atribuído a Israel e EUA, foi considerado por muitos em Teerã como um ato de guerra, assim como o ataque com um drone americano que matou o general iraniano Qassem Soleimani, em Bagdá, em 2020. Apenas no segundo caso houve uma retaliação controlada, mas uma escalada foi evitada. Já o bombardeio do consulado iraniano em Damasco por Israel, em fevereiro de 2024, foi o primeiro passo para uma guerra aérea que teve nos drones e mísseis de precisão seus elementos principais.

— Por mais importante que sejam as mudanças tecnológicas, elas continuam se subordinando a essa lógica que a sociedade tem da aplicação do uso da força — afirmou Alessandro Visacro, analista de segurança e defesa. — Porque não são os exércitos e seus generais que produzem as guerras, mas sim as sociedades. Quando falamos da guerra sob uma perspectiva tecnológica, precisamos entender primeiro como essa tecnologia afeta a sociedade.

No caso da Ucrânia, o acesso à tecnologia foi uma oportunidade para causar danos à Rússia, uma das maiores potências militares do planeta e cujo líder, Vladimir Putin, questiona a existência da nação ucraniana. Ao longo do conflito, os drones se tornaram o condutor de uma revolução nacional, e hoje há cerca de 800 fabricantes de veículos não tripulados: eles são empregados desde o monitoramento de alvos até ataques contra tropas e alvos estratégicos. Em junho, drones usados na Operação Teia de Aranha, que destruiu e danificou bombardeiros estratégicos na Rússia, custavam cerca de US$ 600 cada.

Do outro lado do front, Moscou também dispõe de uma frota de drones, muitos vindos do Irã, além de mísseis de precisão, sistemas de monitoramento por satélite e uma generosa frota de aviões de combate e bombardeiros. Apesar da vantagem em armamentos, Moscou conquistou cerca de 20% do território da Ucrânia desde fevereiro de 2022 e não parece perto de levar o governo de Kiev à capitulação.

Visacro cita o professor da Universidade Nacional de Defesa em Washington, Sean McFate, que notou em seu livro “As Novas Regras da Guerra”, de 2019, uma tendência de nossos tempos: a de querer incorporar armas novas para travar guerras pautadas em princípios “antigos”, como Moscou parece fazer na Ucrânia.

— E ele diz claramente que a tecnologia não irá nos salvar. Ela é muito importante, mas o mais crucial é o uso que você faz dela.

Dilemas militares

Grandes revoluções tecnológicas também carregam grandes dilemas no campo militar. Antes da Primeira Guerra Mundial, havia pressão para que os recém-inventados aviões não fossem usados em combate (eles foram). Antes da Segunda Guerra, as pesquisas com energia nuclear levaram às armas mais poderosas já criadas, que passaram décadas sem qualquer tipo de norma regulatória.

Em nossa era, a da Quarta Revolução Industrial, um debate intenso envolve a inteligência artificial, que permeia praticamente todos os campos da sociedade. Desde 2013, os países discutem, no âmbito da Convenção da ONU sobre Certas Armas Convencionais (CCAC), limites para os chamados “robôs autônomos”, capazes de tomar decisões sem a participação de um humano. Especialmente a de efetuar disparos.

— O que se busca é que nenhum drone, e isso de forma minimamente acordada, que nenhuma arma possa ter um nível de automação que lhe permita identificar, selecionar, engajar e atacar um alvo — afirma Medeiros, que há quatro anos acompanha as discussões em Nova York e Genebra sobre o tema. — Nenhum homem pode morrer por decisão completa de uma máquina.

Mesmo sem um conjunto de normas, drones autônomos já estão nos ares. Na Ucrânia, um modelo que leva o nome do escritor Nikolai Gogol — cuja nacionalidade russos e ucranianos disputam — foi usado em junho em uma ação dentro da Rússia, na qual escolheu e atacou um alvo sem interação humana. Antes da decolagem, os operadores “ensinaram” o sistema que tipo de alvo deveria atingir.

Rússia investiga autoridades de três regiões na fronteira com a Ucrânia por desvio de verbas destinadas à construção de defesas

Em uma escala muito maior de valores e conhecimento, a China, com sua nave-mãe de drones Jiu Tian, e os EUA, com seu programa Replicator-1, pretendem tornar operacionais em breve milhares de aeronaves 100% autônomas e aptas a ações de vários tipos, inclusive de ataque.

— Acredito que seja um processo irreversível. E usarei um chavão, o de que a realidade objetiva é o preâmbulo da norma — diz Visacro, apontando para a necessidade de regras específicas sobre a automação. — Creio ser utópico acharmos que os avanços da tecnologia vão se sujeitar ao ditame do direito que foi criado para as guerras do Século XX. Isso vai impor necessariamente uma transformação significativa do direito.

Em maio, o secretário-geral da ONU, António Guterres chamou esses sistemas de “moralmente repugnantes” e disse que “não podemos delegar decisões de vida ou morte às máquinas”. Como lembrou Medeiros, a ideia é ter, até o ano que vem, ao menos um texto base sobre o tema.

— Não há lugar para sistemas de armas autônomas letais em nosso mundo — disse Guterres, na abertura de um encontro informal para discutir os “robôs assassinos”. — Máquinas que têm o poder e a discrição de tirar vidas humanas sem controle humano devem ser proibidas pelo direito internacional.

A Guerra no Século XXI: Com drones e robôs autônomos, evolução no campo de batalha desafia direito internacional

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Efeito Trump faz quase 100 doutorandos desistirem dos EUA: ‘Pesquisa precisa de liberdade’

Só entre bolsistas da Capes, 96 mudarem país de destino mesmo com bolsa em universidade americana; procurada, embaixada não falou

Por Isabela Moya – Estadão – 22/07/2025

Pesquisadores brasileiros desistem de fazer doutorado nos EUA por insegurança

Diante do cenário político, com cortes a pesquisas e enfrentamentos a estudantes, universidades e estrangeiros, doutorandos têm trocado destino para outros país.

Diante do corte do financiamento da Casa Branca para pesquisa e ciência e das ofensivas do presidente Donald Trump contra alunos estrangeiros e universidades, pesquisadores têm desistido dos Estados Unidos para estudar.

Entre os motivos, estão o medo de problemas pessoais, como eventuais recusas de visto, ou de cerceamento de suas pesquisas. Procurada pela reportagem, a Embaixada americana no Brasil não comentou.

Neste ano, 96 pesquisadores que receberam bolsa da Capes, agência de fomento vinculada ao Ministério da Educação (MEC), desistiram do doutorado-sanduíche nos Estados Unidos. Esses estudantes mudaram o país de destino – prática que não ocorria até o ano passado.

Thaís Capovilla é doutoranda na Unicamp e planejava fazer doutorado sanduíche no MIT, mas desistiu de ir aos EUA por se sentir insegura devido à situação política no país Foto: arquivo pessoal

O doutorado-sanduíche é um modelo que permite cursar parte da pós-graduação em uma universidade estrangeira. Espanha, Canadá, Portugal, Reino Unido, França e Holanda estão entre os principais novos destinos escolhidos.

A Capes aprovou 2.463 bolsas de doutorado-sanduíche no exterior em 2025, sendo 458 delas (18,5%) em universidades americanas. Todos os pedidos de troca foram de pesquisadores que iam para os Estados Unidos.

O número de desistentes é maior, uma vez que pesquisadores podem obter bolsa para a pós-graduação no exterior por meio de outros mecanismos, como programas estrangeiros ou por outras agências brasileiras de fomento à pesquisa.

Doutoranda em Políticas Científicas e Tecnológicas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Thais Capovilla ganhou bolsa da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

Com pesquisa sobre a produção científica em inteligência artificial, o Instituto de Tecnologia de Massachussets (MIT), em Boston, liderava sua lista de preferências, uma vez que os Estados Unidos são os principais produtores de trabalhos acadêmicos na área. Mas desistiu.

“A surpresa veio quando o próprio governo começou a atacar suas universidades de ponta, inclusive Harvard, outra grande universidade de Boston”, conta a doutoranda.

“Quando tomei conhecimento de que estudantes, principalmente os estrangeiros, se sentiam inseguros, comecei a me sentir insegura também. Percebi que nos Estados Unidos atualmente não basta mais estar dentro da lei”, relata.

O orientador de Thaís na Unicamp também sugeriu que ela buscasse alternativas na Europa. Agora, ela estuda ir, no próximo ano, para Inglaterra, Alemanha ou Holanda, onde também há estudos relevantes na área de IA.

“A pesquisa precisa de um grau de liberdade. Que a instituição vai respaldar, seja lá o que acontecer, principalmente se você pesquisa temas delicados”, afirma.

A Fapesp não tem levantamento sobre o número de pesquisadores que desistiram de alguma bolsa nos Estados.

“A oportunidade de fazer doutorado sanduíche fora do País é importante tanto para nossa formação profissional, como para o currículo”, resume Thais.

‘Estava tudo normal até que falei que trabalhava com IA’

Também pesquisador de Inteligência Artificial, Rodrigo Nogueira teve seu visto negado quando planejava uma viagem para dar uma palestra em Harvard, em fevereiro. Ele acredita que foi barrado devido à sua área de atuação, que se tornou campo de disputa global entre as principais potências globais.

“Fiz a entrevista no Consulado em São Paulo. Estava tudo normal até que falei que trabalhava com inteligência artificial. Naquele momento, tudo mudou. Parece que chegou uma nuvem de chuva na conversa”, contou ele ao Estadão na época.

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Na entrevista, seu visto foi aprovado, conta Nogueira. No dia seguinte, porém, recebeu uma comunicação do consulado exigindo seu currículo, uma cópia da sua tese de doutorado feita na Universidade de Nova York, todos os seus artigos publicados e o motivo de uma viagem que havia feito para Taiwan.

Ele enviou os documentos, mas recebeu comunicação negando a permissão de entrada e dizendo que não poderia se candidatar a um novo visto pelos próximos doze meses. Com isso, ele não pôde comparecer ao evento para o qual havia sido convidado.

No mês seguinte, Trump entrou em rota de colisão com a Harvard, com ameaças de cortes de verba e veto a alunos estrangeiros. Isso ocorreu após a universidade se negar a cumprir exigências da Casa Branca, que foram vistas pela instituição como ataques à liberdade de expressão e de cátedra.

A emissão de vistos para estudantes nos consulados americanos chegou a ser suspensa e depois foi retomada com novas regras. Agora as autoridades fazem uma varredura do conteúdo nas redes sociais dos requisitantes, a fim de traçar um perfil dos candidatos, que precisam manter seus perfis abertos.

Dentre as universidades americanas atacadas pela administração Trump, Harvard é a que sofreu mais sanções por se recusar a cumprir as medidas solicitadas pela Casa Branca 

Capes esclareceu regras após insegurança de estudantes

“É natural que algumas pessoas fiquem inseguras e não queiram ir”, afirma a presidente da Capes, Denise de Carvalho. Segundo ela, para evitar estresse na comunidade acadêmica, foi necessário esclarecer que não havia impedimento para que os doutorandos trocassem o país de destino.

“Todos esses estudantes vão em busca de complementar seus estudos, trazer para o país novas tecnologias, realizar experimentos lá com o uso, por exemplo, de equipamentos que ainda não adquirimos no Brasil”, afirma.

“Como há laboratórios excelentes em todos os lugares do mundo, esses doutorandos, com receio de algum tipo de impedimento para o visto ou de impedimento de trabalho, de não conseguirem desenvolver o projeto, decidiram mudar de país”, completa.

Denise também diz ter recebido relatos de pesquisadores nos EUA que foram informados que não poderiam prosseguir com seus projetos pré-aprovados e teriam de mudar seus temas de pesquisa, das mais diversas áreas, para poderem seguir com os estudos lá.

Para os EUA, pode haver retrocesso em termos de desenvolvimento. Outros países vão receber esses pesquisadores que não podem trabalhar lá e se fortalecer, com o consequente enfraquecimento da economia americana.

A consequência, na visão da presidente da Capes, é que a ciência americana irá enfraquecer, enquanto as pesquisas em outros países tendem a ganhar força.

A Fundação Lemann, que concede cerca de 60 bolsas de mestrado e doutorado por ano para brasileiros (a grande maioria delas para os Estados Unidos), também relata insegurança entre os estudantes que auxilia.

Ter universidades que atraem gente do mundo inteiro é uma das principais razões que levaram os EUA a se tornarem a potência que são hoje

Denis Mizne, CEO da Fundação Lemann

Segundo Denis Mizne, CEO da Fundação Leman, a troca de conhecimentos oferece vantagens para ambos os países. “Por um lado, o Brasil se beneficia ao ter cidadãos com acesso a excelentes professores, à pesquisa de ponta e à conexão com o que há de mais avançado no meio acadêmico”, destaca.

“Por outro, a presença de brasileiros nessas instituições também beneficia as próprias universidades (americanas), que têm como um de seus grandes ativos a capacidade de atrair pessoas altamente dedicadas e inteligentes do mundo inteiro”.

Efeito Trump faz quase 100 doutorandos desistirem dos EUA: ‘Pesquisa precisa de liberdade’ – Estadão

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Algoritmos: como funciona a caixa preta que define o que vemos ao acessar uma rede social

R. Marie Santini – The Conversation –  27 junho 2025 

  • Professora da Escola de Comunicação e diretora do NetLab (Internet and Social Media Research Lab), Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)

Declaração de transparência R. Marie Santini não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.

À luz da recente decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) – que na última quinta-feira, dia 27 de junho de 2025, decidiu que redes sociais podem ser responsabilizadas por postagens de terceiros após notificação extrajudicial – iniciamos a segunda série de artigos em parceria com a revista FCW Cultura Científica, da Fundação Conrado Wessel, com textos de especialistas que investigam os impactos das redes sociais na sociedade. Neste abaixo , a pesquisadora R. Marie Santini, fundadora e diretora do Netlab (Laboratório de Estudos de Internet e Redes Sociais/UFRJ) discute o funcionamento dos sistemas de curadoria algorítmica e seu impacto na forma de consumo de conteúdo nas redes sociais. Entre outros temas urgentes, ela aborda também a evolução da indústria de desinformação e a necessidade de regulação e transparência das plataformas digitais.


Apesar da frequência com que se fala de algoritmos, pouco se discute a lógica por trás dos sistemas de recomendação que selecionam o conteúdo que vemos ao acessar uma rede social ou plataforma. Eles fazem uma curadoria do que vemos a partir de padrões de consumo de perfis semelhantes ao nosso. A lógica por trás disso vem da identificação de comunidades de gosto, uma ideia que a sociologia já conhecia e que a computação traduziu em códigos e previsões algorítmicas.

A música foi um grande laboratório de tudo que aconteceria com o consumo cultural online e outros campos, como as questões ambientais, a comunicação e questões e campanhas políticas, por ser facilmente digitalizável e compartilhável. Foi o primeiro tipo de conteúdo a sofrer os impactos da internet — pirataria, crise da indústria fonográfica — e por isso atraiu esforços de inovação tecnológica. Assim, os primeiros sistemas de recomendação foram desenvolvidos para sugerir músicas. A partir dessa lógica de comunidades de gosto, o modelo foi sendo replicado para outros tipos de conteúdos, como vídeos, notícias, textos e anúncios, ou seja, todo tipo de conteúdo online.

Os algoritmos do gosto

Esses sistemas de recomendação trabalham a partir da análise do comportamento de grandes grupos de usuários. Quando você consome um conteúdo, o sistema cruza seus dados com os de outras pessoas que tiveram comportamentos semelhantes. Ele não prevê o seu gosto individual, mas o da comunidade de gosto à qual você pertence. Esse é o princípio da recomendação colaborativa. O sistema associa o indivíduo a um grupo com padrões de consumo parecidos e, com base nisso, sugere conteúdos de que você provavelmente vai gostar, se interessar ou achar relevante baseado no que alguém com perfil parecido com o seu consumiu ontem. Parece algo muito inteligente, mas é simplesmente uma identificação de padrões.

No começo, houve uma tentativa de analisar o conteúdo a partir de elementos da própria música — por exemplo, o timbre de bateria ou guitarra — para prever o próximo conteúdo a ser oferecido, como se houvesse um “dna” musical que determinasse a preferência dos usuários. Logo percebeu-se que era mais eficiente prever com base no comportamento de outros usuários. Isso porque a comunidade não consome um tipo de conteúdo totalmente homogêneo. Ela combina conteúdos diferentes na sua preferência, mas cria identidade a partir dos perfis. Isso muda totalmente a lógica da curadoria. Esses sistemas de recomendação algorítmica passaram então a organizar a oferta e a demanda dos conteúdos. Isso foi genial para as empresas, já que nesse sistema não há excedente: todo conteúdo chega em algum usuário, de alguma maneira.

Impacto na indústria cultural

Antes, apenas cerca de 20% dos produtos culturais geravam lucro — era a chamada cultura pop, que vendia tanto que acabava pagando os outros 80%. Por outro lado, a sociedade pressionava por mais diversidade cultural, de conteúdos, opiniões. Mas a diversidade não era viável economicamente. Com os sistemas de recomendação, mesmo os conteúdos de nicho se tornaram monetizados, porque esses conteúdos passaram a ser direcionados para o público certo. Isso salvou setores como o fonográfico e o audiovisual, que passaram a depender da recomendação de conteúdo personalizada para tornar a diversidade lucrativa.

Essa lógica, porém, beneficia muito mais as plataformas do que os criadores, que seguem sendo mal remunerados. As plataformas centralizam tudo: dados, distribuição, publicidade, e ainda definem e controlam as métricas de performance que entregam aos artistas. O criador não sabe quantas vezes sua música foi tocada e não sabe os critérios utilizados para a recomendação de conteúdo, a não ser pelos números que a própria plataforma oferece a cada um deles. Essa questão do direito autoral é muito séria. As plataformas estimulam que os artistas produzam conteúdos e os coloquem lá de graça porque concentram todo o poder de distribuição e definem os padrões de consumo. Esse material então passa a ser encarado como divulgação e o artista tem que ganhar dinheiro de outra forma.

Controle máximo, transparência mínima

Na área da comunicação, os efeitos são ainda mais preocupantes. Especialmente por conveniência, as pessoas se deixam levar e passaram a confiar na curadoria algorítmica da mesma forma que confiavam na programação de rádio ou na manchete de um jornal. Imaginavam que aquela música tinha sido selecionada por alguém porque tinha uma relevância social, e não porque alguém pagou — o chamado jabá, que inclusive é proibido no Brasil e muitos países. As pessoas seguem confiando na curadoria e, para além disso, acreditam que o que aparece nas plataformas foi selecionado de forma neutra. Mas o algoritmo é uma programação feita por humanos, com pesos baseados em interesses e ganhos econômicos. E o que vemos é que as plataformas priorizam o que gera mais atenção e lucro, não o que é mais relevante, de qualidade ou confiável. O que engaja mais, aparece mais.

A transparência sobre como as plataformas funcionam é mínima. Quando essas empresas de tecnologia surgiram, elas eram vistas como startups inovadoras, que entregavam tudo de graça para as pessoas, dando acesso à informação e fazendo uma revolução cultural. Essa visão foi cultivada durante vinte anos e teve algumas consequências. Uma delas, de ordem cultural, é essa confiança na curadoria algorítmica. E essa excessiva confiança e esperança depositada na tecnologia teve consequências econômicas e jurídicas: essas empresas cresceram muito e avançaram sem nenhuma regulamentação. Quando abrimos os olhos, elas eram as empresas mais poderosas do mundo, possuindo mais dados do que qualquer Estado (e até mesmo regimes autoritários) jamais teve sobre cada um dos cidadãos. Elas são os novos gatekeepers da informação. E trabalham para manter e aumentar esse poder, sem regulamentação, sob a bandeira de que não produzem conteúdo – fazem “apenas” curadoria – e, portanto, não têm responsabilidade sobre o que as pessoas colocam nas plataformas. A consequência disso tudo é que informações de baixa qualidade ou falsas circulam com mais intensidade que conteúdos jornalísticos sérios.

Muitos veículos jornalísticos acabaram se submetendo a essa lógica do conteúdo de baixa qualidade para aumentar engajamento, feito sem nenhum investimento. Os grandes veículos de comunicação, por sua vez, aqueles que têm poder econômico, começaram a brigar com as plataformas, porque elas não pagam o direito autoral, e porque, enfim, estão disputando o mercado publicitário. Paralelamente, há um incômodo global sobre essa quantidade de conteúdo de baixa qualidade dentro das redes sociais. As plataformas então começaram a buscar os conteúdos de empresas tradicionais de comunicação, especialmente os de menor porte, que precisam de visibilidade para sobreviver. Elas oferecem “apoio técnico” e monetário e, com isso, moldam o formato e a lógica da produção de conteúdo jornalístico. O Google, por exemplo, financia projetos jornalísticos no mundo todo, mas ensina como produzir conteúdos mais “recomendáveis” para o seu sistema. Ou seja, as plataformas criaram um modelo em que o jornalismo precisa delas para sobreviver.

A regra que vale no jornalismo, estabelecida com muita luta, é que se há dinheiro ou permuta por trás de uma recomendação, é jabá — e o público precisa saber. Nas redes sociais esse debate não avançou, deixando oculto se há pagamento nas sugestões. Isso escancara a falta de neutralidade algorítmica e a desigualdade da visibilidade: os conteúdos têm pesos diferentes.

Desinformação como mercado rentável

A desinformação sempre existiu, mas nos dias de hoje opera como uma indústria global, com escala mundial e instantaneidade. E não é mais, necessariamente, uma questão política ou ideológica. É um mercado profissionalizado que atrai interesse de diversos setores. E se antes havia grupos que atuavam como militantes ou hackers isolados, agora ela é movida por interesses políticos, econômicos e criminosos e prospera nas plataformas graças ao alcance massivo, pouca regulação e algoritmos que premiam o sensacionalismo. Vemos isso claramente na política, na saúde e no meio ambiente.

Nas eleições, por exemplo, há uso massivo de desinformação para manipular a percepção pública e interferir nos resultados. Essa indústria passa a fazer parte do conjunto de empresas que são contratadas em campanhas eleitorais  para a produção de peças de propaganda para manipular o eleitor. Elas atuam disseminando informações falsas sobre candidatos, governos etc.; ou turbinando artificialmente algum assunto de interesse – dando a sensação de que a opinião pública está indo para um determinado lado, que as pessoas estão discutindo algum assunto porque o consideram relevante, quando na verdade nada disso é real. Vimos isso acontecer em 2016, na campanha eleitoral Trump, nos Estados Unidos, e no referendo do Brexit, no Reino Unido. Ali surgiu a propaganda computacional que manipula o debate público em larga escala. Bots e perfis falsos inflam engajamento, fabricam controvérsias, atacam adversários e ampliam discursos extremistas. A chegada das ferramentas da IA generativa tornam esse campo ainda mais complexo, com a possibilidade de gerar conteúdos em massa que parecem legítimos, mas foram criados para enganar, manipular ou apenas lucrar.

Especialmente nas campanhas eleitorais, é preciso garantir acesso à informação de qualidade e transparência, para que as pessoas possam tomar suas decisões com base no que é real. Se não há informação qualificada, se a população é manipulada com base em informações falsas, a democracia está realmente ameaçada.

A tempestade perfeita

Nos últimos cinco anos, a indústria da desinformação se sofisticou e cresceu sem nenhuma punição ou monitoramento. Sua atuação no campo da saúde, por exemplo, é extremamente preocupante. Nas redes, influenciadores, grupos e empresas promovem curas milagrosas e desinformação sobre vacinas, cultivando um enorme problema de saúde pública.

Na pauta ambiental, há uma guerra de desinformação para sabotar políticas públicas e desacreditar a ciência climática. São operações com objetivos claros e financiamentos diversos — de grupos políticos a setores econômicos. A desinformação virou ferramenta de lobby. E mesmo quem não acredita nela sofre os seus efeitos.

Grupos políticos que eram mais outsider, especialmente de extrema direita, usaram as plataformas para disseminar suas narrativas e conteúdos, e começaram a se estruturar no mundo digital. À margem da mídia tradicional — que tinha espaço para a direita, mas não para a extrema direita — ocuparam o novo espaço digital e passaram a defender as plataformas como aliadas estratégicas.

Ou seja, eles não estão inseridos no establishment tradicional e têm a rede como infraestrutura. Em troca da visibilidade que recebem, atuam contra qualquer tentativa de regulação. É uma relação de conveniência: as plataformas garantem espaço e alcance, e esses grupos oferecem apoio político para manter o ambiente desregulado. Com a falta de regulamentação das redes, eles próprios têm a garantia de que não serão responsabilizados pelos discursos de ódio ou pelas estratégias de comunicação baseadas em desinformação. Esses grupos de extrema direita se apropriaram da narrativa da liberdade de expressão para proteger um ambiente que lhes é extremamente favorável. Aliaram interesse econômico e o interesse político. Um casamento perfeito ou, no meu ponto de vista, uma tempestade perfeita.

Modelo centrado no lucro, mas poderia ser diferente

O enfrentamento desse problema envolve ações e soluções que passam por três camadas: cultural, política e econômica. Primeiro, precisamos entender que a desinformação não é um problema individual, mas coletivo. Não se trata, por exemplo, de ensinar o usuário a identificar fake news ou de responsabilizar pais, mães e cuidadores pelos conteúdos a que os adolescentes têm acesso hoje nas redes. A responsabilidade precisa ser das plataformas — e não do usuário. As plataformas não são apenas espaços técnicos ou neutros — elas são ambientes com implicações sociais e políticas profundas. Precisamos discutir qual modelo de comunicação digital queremos como sociedade. Hoje, o modelo é centrado na atenção e no lucro das grandes empresas. Mas poderia ser outro, baseado em direitos, diversidade e interesse público. Essa mudança exige engajamento social, mobilização e vontade política. E, principalmente, exige que deixemos de naturalizar o caos informacional em que estamos vivendo.

Do ponto de vista econômico, uma das saídas passa pela articulação social de setores da economia que percebam a gravidade e o impacto da desinformação para o seu próprio negócio. Da sua mobilização e força para enfrentar o interesse dessas empresas específicas, que precisam de algum limite. No campo político, não há outra saída: é necessário regulamentar. Precisamos exigir transparência nos sistemas de recomendação e responsabilização das plataformas. Isso passa por regulamentação e fiscalização, além de legitimidade e força política para aplicação de leis já existentes.

Algoritmos: como funciona a caixa preta que define o que vemos ao acessar uma rede social

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Como a IA está impactando a relação de confiança entre alunos e professores

A simples suspeita de que um aluno usou inteligência artificial generativa já está afetando as relações dentro da sala de aula

ELISE SILVA – Fast Company Brasil – 24-07-2025 

Muito se tem discutido sobre os impactos da IA generativa no ensino superior. Mas, apesar de haver um número cada vez maior de pesquisas sobre esse tema, um grupo essencial ainda tem sido pouco ouvido nessas conversas – justamente o mais apto a falar sobre o assunto: os estudantes.

Na Universidade de Pittsburgh, nos Estados Unidos, nossa equipe conduziu uma série de grupos focais com 95 alunos. O que descobrimos foi que, mesmo quando nem professores nem alunos fazem uso da IA, a tecnologia já está afetando significativamente as relações interpessoais, a aprendizagem e, principalmente, a confiança dentro da sala de aula.

Ferramentas como ChatGPT, Gemini e Claude estão, sim, mudando a forma como os alunos estudam. Mas mais do que isso: estão transformando as dinâmicas com professores – e também entre os próprios colegas.

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A maioria dos participantes contou já ter recorrido à inteligência artificial, principalmente quando estavam perto da data de entrega, quando viam a tarefa como “sem sentido” ou simplesmente ficavam travados diante das dificuldades. Eles nem sempre começam os trabalhos com IA, mas acabam usando em algum momento.

Muitos relataram experiências positivas com a tecnologia – seja para estudar, tirar dúvidas ou obter feedback. Alguns chegaram a dizer que preferem usar inteligência artificial a pedir ajuda a professores, tutores ou monitores.

Para alguns alunos, conversar com um chatbot é menos intimidador do que marcar um horário com o professor – que, às vezes, pode parecer distante ou até “arrogante”. Como disse uma das entrevistadas: “com o ChatGPT, você pode perguntar o que quiser, sem medo de ser julgado.”

Mas o julgamento pode vir de outro lugar. Apesar de alguns estarem empolgados com as possibilidades da IA, muitos também disseram sentir culpa ou vergonha por usá-la – seja por questões éticas, ambientais ou por medo de parecerem preguiçosos.

ANSIEDADE, DESCONFIANÇA E DESINTERESSE

Muitos estudantes têm a impressão de que os professores são “totalmente contra o ChatGPT”, mas também reclamam da falta de clareza sobre o que pode ou não ser usado.

Como resumiu uma aluna de urbanismo: “não sei direito o que esperam da gente”. Um colega acrescentou: “os alunos e os professores não estão na mesma página. Ninguém sabe ao certo o que é permitido”.

Também ouvimos relatos de frustração e desconfiança entre os próprios estudantes, especialmente em relação a colegas que, segundo eles, dependem demais da IA. Um exemplo: um aluno pediu ajuda a um colega e recebeu como resposta “usei o ChatGPT”, percebendo que nem havia se preocupado em entender o conteúdo.

Em trabalhos em grupo, o uso de inteligência artificial chega a ser visto como “um grande sinal de alerta”, fazendo com que alguns percam o respeito pelos colegas.

Essa desconfiança tem se espalhado pelas relações, tanto entre alunos e professores quanto entre os próprios alunos. Muitos têm receio de ficar para trás caso outros estejam usando IA para tirar notas melhores. Isso acaba criando um distanciamento emocional e um clima de cautela entre colegas.

Nossos achados confirmam o que outras pesquisas já apontam: só a suspeita de que alguém usou IA já é suficiente para abalar a confiança em sala de aula. Os alunos têm tanto medo de serem acusados injustamente quanto de serem descobertos caso, de fato, usem a tecnologia.

IMPACTO DA IA GENERATIVA NO ENSINO SUPERIOR VAI ALÉM DO QUE SE IMAGINAVA

Sabemos que a conexão entre professores e alunos é essencial para o aprendizado, assim como os laços entre os próprios colegas.

Se os estudantes estão evitando conversar com professores ou deixando de trocar experiências com seus pares por insegurança diante de regras confusas ou que mudam o tempo todo sobre o uso da IA generativa no ensino superior, as universidades precisam buscar novas formas de fortalecer essas relações.

As aulas presenciais, por exemplo, podem ser uma boa oportunidade para valorizar os encontros cara a cara. Professores podem incentivar os alunos a comparecer mais aos horários de atendimento. Iniciativas como projetos de pesquisa, programas de mentoria ou eventos informais também podem fazer a diferença.

O USO DE FERRAMENTAS DE IA GENERATIVA ESTÁ TRANSFORMANDO AS DINÂMICAS ENTRE ALUNOS E PROFESSORES E TAMBÉM ENTRE OS PRÓPRIOS COLEGAS.

Esperamos que a nossa pesquisa ajude a mudar o olhar sobre os alunos que usam IA. Em vez de vê-los como “trapaceiros”, é preciso reconhecer a complexidade dessa situação. Muitos estão tentando lidar com uma nova realidade, sem regras claras e com pouco suporte.

Com a IA cada vez mais presente no dia a dia e as universidades ainda buscando respostas, nossos grupos focais mostram o quanto é importante escutar os estudantes e pensar em formas de ajudá-los a se sentirem mais à vontade para se conectar com seus colegas e professores.

Entender essas novas dinâmicas nas relações é essencial. Afinal, a forma como usamos a tecnologia está influenciando diretamente a maneira como nos relacionamos uns com os outros.

Pelo que ouvimos, os estudantes estão mais do que prontos para conversar sobre isso – e sobre o impacto que essa mudança pode ter no futuro deles.

Este artigo foi republicado do “The Conversation” sob licença Creative Commons. Leia o artigo original.


SOBRE A AUTORA

Elise Silva é diretora de politicas de pesquisa no Instituto para Lei Cibernética, Política e Segurança da Universidade de Pittsburgh. 


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A Grande Evasão nos Cursos Superiores: o Exemplo da Engenharia Civil

Roberto Lobo* – Estadão –  14 de julho de 2025

A baixa mobilidade interna no ensino superior brasileiro — exemplificada neste texto pelos cursos de Engenharia Civil — decorrente da ausência de uma política institucional voltada à recuperação dos alunos menos preparados, talvez seja uma das principais razões para os elevados índices de evasão e, consequentemente, para as reduzidas taxas de titulação dos cursos superiores.

Embora ilustrado aqui pela Engenharia Civil, trata-se de um problema que reflete uma tendência generalizada no ensino superior do país.

Para você

Muitas instituições aceitam estudantes sem a devida preparação e não oferecem programas de nivelamento paralelos às aulas regulares. Como resultado, os alunos com maiores dificuldades acumulam defasagens até que a evasão se torne, para muitos, a única saída possível.

Para mensurar a eficiência dos cursos superiores no Brasil — expressa pelas taxas de titulação — utilizamos os “Indicadores de Trajetória” do INEP, que acompanham individualmente os estudantes desde o ingresso no curso até sua conclusão, ou abandono.

Este estudo baseia-se nos dados do fluxo estudantil entre 2017 e 2023, consistentes com levantamentos anteriores, como o de 2010 a 2017 do INEP.

A partir do estudo do INEP consideraremos como concluintes os estudantes que finalizam o curso até dois anos após o tempo previsto de integralização — no caso da Engenharia Civil, sete anos (cinco mais dois) — prática alinhada com estudos internacionais.

A análise dos dados revela uma tendência alarmante de evasão nos cursos de Engenharia Civil, evidenciando alto grau de ineficiência institucional e desperdício de recursos — especialmente nas instituições públicas, onde o investimento é estatal e o retorno comprometido. Os dados da Engenharia Civil pouco diferem do panorama geral dos cursos de Engenharia.

As estatísticas mais recentes sobre titulação na Engenharia Civil são preocupantes:

1) 20% dos cursos apresentam taxas de titulação abaixo de 25%;

2) 50% registram taxas abaixo de 40%;

3) 80% não alcançam 55%.

Nos Estados Unidos — que também enfrentam desafios relacionados à evasão — apenas 10% dos cursos de Engenharia formam menos de 25% dos ingressantes, e metade forma mais de 47%. Mesmo em um cenário adverso, o desempenho norte-americano é superior ao brasileiro.

Falando da Europa, a taxa de graduação em Engenharia varia entre 70% e 80% no Reino Unido – resultado da alta retenção nas universidades tradicionais, do apoio acadêmico estruturado, do sistema de monitoramento individual (“tracking”) e da forte conexão dos cursos com a empregabilidade. Na França, os índices variam entre 50% e 65%.

No Brasil, as maiores taxas de evasão ocorrem nos três primeiros anos, tanto em instituições públicas quanto privadas. Entre os ingressantes de 2016:

o Em 2017, apenas 85% permaneciam matriculados ou haviam concluído o curso;

o Em 2019, esse número caiu para 52%;

o Em 2021, chegou a 34%.

Para verificar se essa tendência era exclusiva da Engenharia Civil, ampliamos a análise para todos os cursos de Engenharia, com resultados semelhantes:

o 86% em 2017

o 53% em 2019

o 37% em 2021

Na análise da evasão acumulada por tipo de instituição, as públicas se saem melhor, mas não há muito a comemorar:

o Setor privado: 16,5% no primeiro ano, 48,8% no terceiro, 62,5% no quinto e 68,2% no sétimo.

o Setor público: 8,9% no primeiro ano, 25,6% no terceiro e 32,6% no quinto e 40,7% no sétimo.

A explicação mais plausível para essa diferença está no desempenho médio dos ingressantes: enquanto apenas 1,5% dos alunos do setor público entram com notas 1 ou 2 no ENEM, esse percentual salta para 17,3% no setor privado.

Considerando o intervalo de notas entre 1 e 3, a diferença é ainda mais expressiva: 17,1% no setor público e 73,1% no privado. Esse desnível inicial raramente é compensado por programas de recuperação, o que contribui fortemente para a evasão precoce.

As causas da evasão são múltiplas: desencanto com a profissão, dificuldades acadêmicas, deficiências na formação básica, desmotivação provocada por currículos pouco atrativos nos primeiros anos, entre outras. A falta de mobilidade interna e o baixo estímulo ao engajamento inicial são também fatores críticos, já identificados por diversos estudiosos da área.

Outros dados sobre as taxas de titulação na Engenharia Civil mostram que:

o Apenas 18% dos estudantes concluem o curso em cinco anos;

o Em sete anos, o índice sobe para 30%;

o No setor público: 15,5% se formam em cinco anos; 42,3% em sete;

o No setor privado: 18,5% se formam em cinco anos; apenas 28,5% em sete.

Ou seja, dos alunos que ingressaram em 2017, apenas três em cada dez haviam se formado até 2024.

São números preocupantes, especialmente em um país que precisa expandir urgentemente sua base de profissionais qualificados para sustentar o crescimento econômico e a competitividade internacional.

O Instituto Lobo tem trabalhado há anos com a análise da evasão no ensino superior e, também, com a formação nas engenharias, contribuindo com estudos e análises das necessidades dessa área tão importante para qualquer país.

Mais uma vez afirmamos que os dados sinalizam desafios futuros, especialmente se o Brasil quiser retomar taxas de crescimento semelhantes às de décadas anteriores — o que exigirá engenheiros em quantidade e qualidade adequadas.

Nos Estados Unidos, embora as taxas de evasão também sejam elevadas, diversas instituições utilizam o SAT (equivalente ao ENEM) como ferramenta preditiva. Há evidência sólida de correlação negativa entre o desempenho no SAT e a evasão: quanto menor a nota, maior a probabilidade de abandono, especialmente entre o primeiro e o segundo ano.

O SAT tem se mostrado relevante também em programas de apoio acadêmico e retenção, implementados em diversas instituições.

Um exemplo é o estudo de Rohr (2012-2013), publicado no Journal of College Student Retention, que analisou a relação entre as notas do SAT e o GPA (média escolar) na retenção de alunos das áreas de STEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática) e Administração. Com base em dados de 803 alunos, o estudo aplicou regressão logística e concluiu que essas duas variáveis previam com boa precisão os índices de permanência nos cursos.

A modernização curricular — com a introdução de novas práticas e competências, projetos motivadores nos primeiros anos e estímulo à inovação — pode mitigar esse quadro.

Essas propostas são tratadas no nosso livro “Engenheiros, Para Quê?”, publicado que mostra meus estudos sobre o tema e conta com a colaboração de diversos especialistas, que publicado pela EDUSP em 2018.

Também estão presentes no relatório de Ruth Graham para o MIT, “The Global State of the Art in Engineering Education, também de 2018, que apresenta experiências internacionais de transformação no ensino de Engenharia.

No Brasil, estudos semelhantes são escassos — mas extremamente necessários. A compreensão das causas do sucesso, ou fracasso estudantil, inclusive da própria definição desses termos, requer investigação mais profunda, sistemática e contínua.

Lembrando que, ao contrário do que muitos pensam, ou defendem a questão financeira do estudante não está, na maioria dos estudos realizados no mundo e pelo Instituto Lobo, no topo das principais causas da evasão, o que deveria levar os gestores públicos e privados, assim como os professores, a uma reflexão mais acadêmica e científica desse fenômeno que tanto prejudica acadêmica, social e financeiramente os alunos, as instituições e os países.

*Roberto Lobo é PhD em física e doutor honoris causa pela Purdue University, foi reitor da USP e é presidente do Instituto Lobo

A Grande Evasão nos Cursos Superiores: o Exemplo da Engenharia Civil – Estadão

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