Conheça a primeira empresa a produzir terras raras em larga escala no Brasil

Mineração Serra Verde, de investidores estrangeiros, montou unidade de mineração em Minaçu (GO) que extrai quatro elementos pesados em jazida de argilas iônicas; produtos têm aplicações na transição energética

Por Ivo Ribeiro – Estadão – 21/11/2024

O Brasil estreia num mercado de poucos players no mundo ao iniciar a mineração em alta escala de terras raras, mineral que contém 17 metais utilizados em centenas de aplicações industriais e tecnológicas. O domínio global é da China, que detém o know-how de separação e purificação dos elementos químicos presentes no minério. É nessa fase que está o segredo estratégico do negócio. A Mineração Serra Verde, montada por investidores estrangeiros, começou a operar neste ano uma planta industrial em Goiás, no município de Minaçu.

A empresa tem, no depósito que leva o nome de Pela Ema, quase na divisa com Tocantins, aproximadamente 200 milhões de toneladas (medidas) de minério. Considerando reservas indicadas e inferidas, o depósito supera 1,3 bilhão de toneladas, de acordo com informação da ANM (agência do setor). Nesse depósito se destaca a presença de terras raras leves e pesadas de alto valor, considerados, por especialistas, essenciais para a transição energética.

Os ETR, como são chamados os elementos de terras raras, recebem esse nome exatamente pela dificuldade de extração, separação e purificação, apesar do minério ser encontrado em grande quantidade na crosta terrestre. Nas reservas de Serra Verde, há quatro ETR – principalmente neodímio (Nd), praseodímio (Pr), térbio (Tb) e disprósio (Dy) -, predominantes na jazida Pela Ema (em torno de 30%) e, atualmente, são os que têm alto valor no mercado. O minério está a uma profundidade de 10 a 13 metros, praticamente aflorado.

O Brasil é o terceiro país em quantidade conhecida e medida de terras raras – 21 milhões de toneladas de metal contido -, segundo dados oficiais do governo brasileiro e da agência americana de serviços geológicos(USGS), espalhadas em diversos Estados. As reservas chinesas são o dobro: 44 milhões de toneladas. O Vietnã está logo acima do Brasil, com 22 milhões de toneladas.

Instalações de beneficiamento de óxidos de terras raras em Minaçu (GO), extraídos de jazida de argilas iônicas pela mineradora Serra Verde Foto: Divulgação/Mineração Serra Verde

A Serra Verde faz a extração e beneficiamento dos elementos químicos de terras raras com argilas iônicas, um dos tipos de minério onde se encontra o grupo de metais. A argila iônica é uma fonte importante de metais leves e pesados dentro das terras raras. Do total,15 elementos são da família dos lantanídeos (lantânio, cério, praseodímio, neodímio, promécio, samário, európio, gadolínio, térbio, disprósio, hólmio, érbio, túlio, itérbio e lutécio), que na tabela periódica têm números atômicos de 51 a 71. Os outros dois, de propriedades similares, são o escândio e o ítrio.

Os ETR estão presentes tanto em rochas duras como nas argilas iônicas mineradas pela Serra Verde. Após o beneficiamento do minério, os metais de terras raras são obtidos num concentrado que contém os óxidos.

.A tonelada de óxido de terras raras (OTR) desses elementos atinge US$ 42 mil, mas em alguns momentos já alcançou US$ 65 mil. É que são ingredientes essenciais na fabricação, por exemplo, de motores elétricos eficientes, turbinas de geração de energia eólica, telas de TV, imãs de discos rígidos de computadores e de sistemas de áudio e circuitos eletrônicos de celulares, entre outras.

“Estamos lidando com materiais altamente estratégicos por suas aplicações”, afirma o presidente da Serra Verde, Ricardo Grossi, formado engenheiro de minas pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). “Somos a primeira operação a produzir esses quatro elementos fora da Ásia em argila iônica”, ressalta.

A empresa concluiu sua unidade de produção no final de 2023 e iniciou produção comercial em janeiro deste ano. Continua ainda na fase de homologação de seus óxidos com potenciais clientes e ganhando dia a dia escala de produção. O executivo informou que já há cartas de intenção de compra assinadas com várias empresas de refino da China.

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A Serra Verde tem capacidade instalada de 5 mil toneladas equivalente de OTR contido em concentrado de carbonato (produto final). A previsão é operar a unidade a pleno volume em 2026. “É um longo processo de aprendizado”, afirma o executivo. “É inevitável vender o concentrado para a China, pois é lá que está a tecnologia de separação e purificação dos elementos”, diz o executivo. Essa tecnologia é a grande barreira nesse negócio, acrescenta Grossi.

O executivo informa que o cenário de mercado para os quatro principais produtos da Serra Verde sinaliza crescimento a um ritmo de 8,5% ao ano na demanda até 2035. Será sustentado principalmente pela transição energética, com expansão da frota de veículos elétricos e geração de energia limpa (turbinas de geração eólica) e super imãs.

Controlada desde 2011 pelo fundo americano Denham Capital, quando adquiriu o projeto, a Serra Verde recebeu em outubro aporte de US$ 150 milhões (R$ 864 milhões pelo câmbio atual) para otimizar a produção da unidade fabril em Goiás, fortalecendo a empresa para um salto maior futuramente. Os recursos vieram dos fundos Energy & Minerals Group (EMG) e Vision Blue Resources (VBR).

O Estadão apurou que em janeiro de 2023, EMG e VBR já haviam investido quantia igual na mineradora, conforme informação no site do Serra Verde Group. “O investimento da EMG e da VBR fornecerá financiamento adicional para a concluir a construção e comissionamento da Fase I, além de permitir que estudos adicionais sejam realizados sobre uma potencial expansão da Fase II do depósito Pela Ema”, disse o grupo na nota. Os três fundos, de presença global, têm foco de investimento em transição energética, descarbonização, minerais e metais críticos e em energia limpa.

A companhia almeja atingir a plena capacidade de produção em menos de dois anos e se firmar como um produtor alternativo de OTR fora da Ásia. Após isso, diz Grossi, é que a Serra Verde vai avaliar condições para um novo ciclo de crescimento. As reservas atuais medidas de minério são suficientes para 25 anos, mas com volumes indicados e inferidos a vida útil do Pela Ema pode alcançar 50 anos.

A empresa e seus acionistas, após completar a fase I, de otimização da planta e desgargalamento das suas operações de mina e de beneficiamento, estudam duplicação do projeto (Fase II), dobrando a produção de minério bruto antes de 2030. Para a produção atual, são extraídas da mina entre 12 milhões e 13 milhões de toneladas de minério por ano, que passam por processo de beneficiamento desde a mina.

O executivo da Serra Verde prefere não indicar geração de receita da empresa. Pelos preços atuais, no entanto, um cálculo aponta que, no caso de produção à plena capacidade, a companhia teria faturamento anual na casa de US$ 200 milhões (R$ 1,2 bilhão). A mineradora conta com 1,3 mil funcionários, entre próprios e de terceiros. Grossi destaca que 72% são moradores da cidade de Minaçu e 80% são do Estado de Goiás.

Um diferencial da Serra Verde para outras mineradoras de ETR, segundo seu presidente, é o modelo de produção. Ele menciona que a extração do minério é feita a céu aberto, até 13 metros abaixo da superfície do solo, com baixo risco, por escavadeiras e caminhões. “Não usamos explosivos para liberar o minério”. Além disso, a tecnologia de processamento é simples, com reagentes químicos que não agridem o meio ambiente, afirma. O rejeito de minério após o beneficiamento é filtrado e empilhado a seco e a energia utilizada nas operações é de fonte renovável.

“A Serra Verde almeja ser reconhecida como o fornecedor de OTR mais sustentável do mundo”, destaca o executivo. Ele afirma que em países da Ásia, principalmente Mianmar (ou Burma), as credenciais do ESG (sigla em inglês para ações ambientais, sociais e de governança) não são tão rígidas como no Brasil. “Mianmar (segundo maior produtor mundial) está ao lado da China. Extrai, beneficia e entrega o produto via caminhões a clientes chineses. Nós transportamos o concentrado, em bags de 1 tonelada, dentro de contêineres, por navio que leva 45 dias até a China”.

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Ricardo Grossi, presidente da Mineração Serra Verde: “nossa meta é ser reconhecido como o fornecedor de OTR mais sustentável do mundo”  Foto: Divulgação/Mineração Serra Verde

As pesquisas geológicas da reserva Pela Ema para confirmar a existência de ETR começaram em 2008 e ganharam velocidade a partir de 2010, segundo informações da empresa. Somente no final de 2023, após todos os estudos de viabilidade econômica e técnica e os licenciamentos, ficou pronta a unidade industrial para processar OTR. O investimento total da Deham Capital, desde 2011, e no próprio empreendimento, não é revelado. O Serra Verde Group, que controla a empresa, está sediado em Zug, num dos cantões da Suíça.

A Serra Verde informa ter um dos maiores depósitos de argila iônica no mundo contendo os quatro principais elementos químicos de terras raras. Segundo informa, as argilas se formaram com a lixiviação do granito Serra Dourada, maior intrusão da província estanífera de Goiás. Tem aproximadamente 64 km de extensão na direção Norte-Sul e varia entre 3,5 km e 12 km de largura na direção Leste-Oeste.

No momento, informa Grossi, a companhia conversa com representantes do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para ser inserida no fundo Ore Minerals, criado este ano para apoiar projetos de minerais e metais estratégicos e críticos. “Seria um suporte para duplicação futura, com taxas de financiamento mais competitivas”, diz. Por exemplo, a duplicação da Sigma Lithium, que extrai e processa lítio no Vale do Jequitinhonha (MG), teve financiamento de quase R$ 500 milhões do banco de fomento neste ano, com longo prazo de amortização do empréstimo.

O executivo destaca ainda a indicação da empresa pelo governo americano como investimento estratégico no programa Minerals Security Partnership (MSP), grupo de países e entidades que busca fomentar o desenvolvimento de cadeias de fornecimento de minerais críticos e sustentáveis, com apoio de governos e indústrias, dando suporte financeiro. 

Envolve energia limpa, mineração (extração e processamento), refino e reciclagem.

Os minerais e metais que se destacam são lítio, cobalto, níquel, manganês, grafite, elementos de terras raras e cobre. Os países-membros do MSP são Coreia do Sul (que preside o grupo), Austrália, Canadá, Estônia, Finlândia, França, Alemanha, Índia, Itália, Japão, Noruega, Suécia, Reino Unido, Estados Unidos, além da União Europeia.

Na avaliação de Grossi, estar no MSP é uma credencial importante para atração de investimentos e acesso a capital a custos mais competitivos. “Foi um grande desafio de exploração de uma província mineral, com etapas de pesquisa, licenciamento e de operação que levou 15 anos para começar a produzir”. Hoje, em escala e custo competitivo no mundo quem domina é a China, observa o executivo

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Lei de Maquila atrai mais de 200 indústrias brasileiras para o Paraguai

Isenções fiscais, impostos reduzidos de 1% e menores encargos trabalhistas impulsionam processo de industrialização no país vizinho e aumentam competitividade

Por Igor Calian – Band Jornalismo – 14/01/2026 

Mais de 200 indústrias brasileiras já cruzaram a Ponte da Amizade para se instalar no Paraguai, motivadas por um ambiente de negócios que oferece incentivos fiscais agressivos e custos operacionais reduzidos. O movimento reflete uma transição econômica no país vizinho, que antes baseava seu Produto Interno Bruto (PIB) majoritariamente no comércio e na agricultura e agora passa por um intenso processo de industrialização.

O principal atrativo para essa migração é a Lei de Maquila. Regulamentada nos anos 2000, a legislação permite que empresas importem máquinas e matérias-primas com isenção total de impostos, exigindo apenas um tributo único de 1% sobre o valor final do produto destinado à exportação. Atualmente, existem 320 indústrias maquiladoras no Paraguai, que juntas somam US$ 1,2 bilhão em exportações.

Redução de custos e competitividade

A diferença de carga tributária entre os dois países é o fator determinante para os empresários brasileiros. Enquanto no Brasil o custo de importação de insumos pode chegar a 35% dependendo do setor, no modelo paraguaio a taxação é mínima. Além disso, as empresas são isentas de Imposto de Renda e de taxas sobre a remessa de capital para o exterior.

Um exemplo prático dessa vantagem competitiva é observado na indústria de fitas de amarração para cargas. Ao importar poliéster da China, uma empresa instalada no Brasil enfrentava uma taxa de 18%. Operando sob a Lei de Maquila no Paraguai, a mesma importação tem imposto zero. Essa redução permitiu que empresas derrubassem seus custos operacionais em até 40%, refletindo em um aumento de vendas e na melhoria do preço final para o consumidor brasileiro.

Mão de obra e o “Custo Brasil”

Além das vantagens tributárias, os empresários citam a mão de obra mais barata e leis trabalhistas menos burocráticas como pilares para a mudança. Segundo relatos de investidores, a carga tributária e administrativa brasileira — frequentemente chamada de “Custo Brasil” — chega a consumir 50% dos ganhos de uma empresa. No Paraguai, o sistema simplificado é visto como uma oportunidade para quem busca expandir operações sem as pressões fiscais do território nacional.

Segundo a análise de especialistas ouvidos pela reportagem, para muitas dessas empresas, a migração é considerada um caminho sem volta. A facilidade de ingressar com produtos no Brasil com isenção de impostos, garantida pelo certificado de origem paraguaio dentro do bloco econômico, consolida o Paraguai como um polo estratégico para a indústria brasileira no Mercosul.

Lei de Maquila atrai mais de 200 indústrias brasileiras para o Paraguai

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‘Fadiga digital’: 78% dos consumidores estão esgotados com a quantidade de anúncios online

Consultoria americana aponta que a tendência é o consumidor buscar se sentir desconectado e revigorado, e redes têm de achar forma de ajudá-lo em seu esgotamento com o digital

Por Adriana Mattos – Valor – 13/01/2026 

Quando a consultoria americana WGSN (sigla de Worth Global Style Network) decide falar, o mercado dá um jeito de parar para ouvir. Trata-se de uma das maiores autoridades em análises de comportamento e tendências do mundo, e suas orientações custam caro aos clientes. Foi a WGSN que previu a onda de compartilhamento nos anos 2000 (de brechós ao Airbnb), e até a explosão dos jeans skinny e das megabolsas (“maxi bags”) vinte anos atrás, quando a ideia ainda não vingava.

No domingo (11), durante a feira de varejo NRF 2026 Retail’s Big Show, em Nova York, nos EUA, a executiva Cassandra Napoli, chefe da área de marketing, insights e eventos da WGSN, trouxe dados sobre o que esperar em termos de comportamento dos consumidores nos próximos dois anos, e o que as empresas podem fazer para não perder esse bonde.

Foi preciso abrir uma área paralela ao pavilhão para acompanhar a sessão da WGSN, a única com ocupação esgotada no horário. O Valor acompanhou a apresentação e repercutiu com CEOs de redes brasileiras no evento.

A WGSN crê que o excesso de conexões digitais tem obrigado o consumidor a um “reset sensorial”, e as empresas precisam abrir espaço para ele se sentir “desconectado e revigorado”, disse Napoli. Ou seja, é preciso tirar o estresse da compra, e da relação com ele, durante e após a venda, urgentemente.

Isso é particularmente difícil em segmentos em que não há o apelo positivo da experiência do produto na hora da compra (se em moda isso pode ser fácil, vender material de construção ou de escritório é tarefa mais complicada).

“Em um mundo conectado, os maiores disruptores podem ser as coisas que nos reconectam com o que podemos ver, cheirar, ouvir, saborear e tocar”, informou o material que suportou a apresentação. A WGSN cita a superexposição a estímulos que os compradores vivem hoje, o que tende a levar à fadiga digital, e diz que isso pode dar lugar à apatia emocional dos consumidores.

78% dos clientes estão esgotados com a quantidade de produtos que existem hoje à venda no varejo”

— Cynthia Ortiz

Napoli disse que, nos próximos dois anos especialmente, por conta desses cenários de estímulos nas redes sociais, o despertar dos sentidos será uma estratégia de negócios crucial.

Para tentar acertar esse passo, a consultoria faz algumas orientações em seu material e fala em explorar os sentidos básicos para diferenciar produtos e serviços.

“Ofereça modelos de reparo e revenda de mercadorias como provas de valor que aprofundem o envolvimento do cliente e prolonguem a vida útil do produto”, disse. Segundo consultores ouvidos, isso inclui assistências técnicas de marcas de eletrônicos dentro das lojas que vendem os produtos (a exemplo da Apple), e troca de produtos velhos por novos (como algumas redes de óculos operam, caso da Óticas Carol).

Para Fabio Faccio, presidente da Renner, que esteve na sessão da WGSN, redes de moda têm maior facilidade nesse processo. “Nós já somos muito mais um negócio que vive do contato, e a Cassandra diz isso, de experiências na loja, porque as pessoas têm ido mais às lojas físicas, e isso não é contrassenso com o digital. Na verdade é a mesma coisa, você vai ter uma experiência integrada cada vez mais, que é o que a gente tenta buscar”, disse.

Questionado se o varejo brasileiro não estaria falhando nisso, considerando que em novembro e dezembro, no Natal, o físico cresceu menos que o digital, segundo dados de pesquisas, Faccio não vê dessa forma. Houve forte aceleração de descontos das lojas on-line de moda após novembro.

“Olhando o mercado em geral, não vejo isso. Foi um período excelente? Não foi, mas ouvi informações de lojas indo bem em dezembro. Para nós, foi dentro das expectativas. O que aconteceu foi uma concorrência muito forte dos marketplaces, muita gente agressiva, e isso gerou algum barulho”, disse ao Valor o CEO da Renner.

Outro aspecto levantado pela consultoria é reflexo desse “reset sensorial”, e que Napoli chama de “identidades fragmentadas”.

Cada consumidor terá vários perfis de comprador em si mesmo. Isso envolve um cenário em que clientes adotam diversas formas de pensar e comprar, ou seja, “múltiplas personas”, diz ela, impulsionados pela saturação digital, inteligência artificial e transformações sociais mais rápidas.

“Em 2028, o poder [das empresas] estará em ter apelo em determinados interesses das pessoas, e não em perfis de compra baseado em idade ou local onde elas moram”, afirmou.

Nesse contexto, as marcas precisam ser mais autênticas nessa relação, desenvolver experiências nas lojas que tenham uma estéticas mais lúdica e genuína, que ajuda nessa conexão. E não adianta só criar algo esteticamente belo, se não for funcional.

Dentro dessa linha, em uma apresentação na NRF ontem, acompanhada pelo Valor, executivos do Retail Design Institute (RDI), órgão americano de design do setor, mostraram uma lista de duas dezenas de lojas nos EUA que têm buscado fazer algo, em parte, nessa direção. Detalhes das lojas foram debatidos um a um.

Entre essas empresas estão a rede francesa Printemps (primavera, em francês), na lista de visitas da maioria dos CEOs brasileiros presentes na feira e ouvidos pela reportagem. Também estão nesse grupo a miniloja de cafés expressos da Starbucks (de 25 metros quadrados), uma nova pop-up da rede de móveis Ikea, e os produtos da americana Skims.

Trata-se da empresa de modeladores corporais de Kim Kardashian, lançada em 2019, com “valuation” de US$ 5 bilhões e vendas anuais de US$ 1 bilhão. A marca, que poderia ser vista como algo ultrapassado – já que vende uma lingerie que modela curvas – apropriou-se do conceito de liberdade, de cada um deseja ser o que quiser, da forma do corpo ao tom da pele.

Para o RDI, em todos os casos de lojas apresentados, há uma necessidade de se destacar para bem além das mercadorias das lojas.

“Cerca de 78% dos consumidores dizem que estão esgotados com a quantidades de produtos que existem hoje à venda. Consumidores querem ser guiados por boas experiências, querem se sentir valorizados e não sobrecarregados”, disse na sessão Cynthia Ortiz, presidente do RDI.

Ainda de acordo com Napoli, da WGSN, haverá uma mudança na forma como o mercado irá encarar a inteligência artificial.

A tecnologia se tornará parte integrante do cotidiano, não sendo “nem um milagre nem uma ameaça”, segundo a executiva.

“Passará de um grande agente de mudança para parte da infraestrutura cotidiana das empresas”, disse ela, e se afastará mais daquele temor de substituir pessoas para uma ideia mais consolidada de aprimorá-las.

Essa questão, inclusive, tem sido um ponto comum nas discussões pelos corredores da feira – como os funcionários das varejistas vão se adaptar a isso, considerando o Brasil, um mercado que paga pouco aos funcionários do setor (inclusive, empresas estão em pleno apagão de mão de obra), e que historicamente não é atrativo em trazer talentos nas mais diversas áreas.

A NRF 2026 Retail’s Big Show é uma feira mundial do varejo que acontece nesta semana – o Brasil tem a maior delegação, com cerca de 2,5 mil participantes.

‘Fadiga digital’: 78% dos consumidores estão esgotados com a quantidade de anúncios online | Empresas | Valor Econômico

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Os cientistas descobriram um isqueiro de 400 mil anos

Pesquisadores acreditam que a relação de nossos ancestrais com o fogo se iniciou muito antes do aparecimento de nossa espécie

Fernando Reinach – Estadão – 16/01/2026

Outro dia li que um par de indígenas, isolados no interior da Amazônia, que evitam todo contato com a civilização, apareceram em um posto da Funai. O que queriam? Fogo. Assim que receberam um pedaço de madeira em chamas voltaram para a floresta e desapareceram. Eles haviam perdido seu fogo e sem saber como acender uma fogueira e sem um incêndio natural para obter fogo, o caminho foi procurar as pessoas que mais temem, o homem branco.

Os cientistas acreditam que a relação de nossos ancestrais com o fogo se iniciou muito antes do aparecimento de nossa espécie, provavelmente 1 milhão de anos atrás.

O Homo sapiens moderno surgiu faz 250.000 anos. E essa história pode ser dividida em três etapas separadas por conquistas tecnológicas importantes. A primeira etapa é quando passamos a aproveitar um fogo natural para nos aquecermos, fazer um churrasco e talvez espantar predadores. Mas quando o fogo apagava ou nos afastávamos, perdíamos o fogo. 

A segunda etapa foi quando aprendemos a carregar o fogo conosco de um acampamento para o outro. Esse é um passo tecnológico importante pois significa uma divisão de tarefas. Alguns indivíduos tinham que se dedicar a manter o fogo aceso enquanto outros caçavam e coletavam alimentos. Se ele apagasse dependíamos de um incêndio natural, geralmente causado por um raio, para recuperarmos o fogo.

Esse talvez seja o estágio desses indígenas que apareceram no acampamento da Funai. E a terceira etapa foi o aprendizado de acender um novo fogo, geralmente provocando faíscas, com o uso de duas pedras. Esse último salto tecnológico, representado hoje por um isqueiro, deve ter sido importante, pois manter o fogo acesso por longo tempo deveria ser uma chateação e um alto risco. Mas acender um fogo novo só com duas pedras ou usando o atrito de dois pedaços de madeira não é fácil, como pode atestar qualquer aprendiz de escoteiro.

Para você

O problema dos arqueólogos é descobrir quando foi acesa a primeira fogueira. É relativamente fácil descobrir as fogueiras em um acampamento pré-histórico. A terra queimada é fácil de identificar e restos de alimentos como ossos carbonizados indicam que ela foi usada para preparar alimentos. Além disso, se o local foi usado diversas vezes, as camadas de cinzas podem ser datadas. Mas como saber se aquele fogo foi criado ali mesmo com faíscas ou se foi trazido de outro lugar?

A novidade vem de escavações de um acampamento na Inglaterra na região de Barnham. Esse local vem sendo escavado faz décadas e ele foi habitado por hominídeos 400 mil anos atrás. Nesse acampamento foi localizado uma região onde eram feitas fogueiras.

A terra do local tem indícios que sofreu ciclos de aquecimento de até 400 a 700 graus Celsius, seguida de resfriamentos sequenciais durante longos períodos, indicando que o fogo estava presente e ausente alternadamente. Isso indica que provavelmente não era um local onde o fogo era mantido aceso.

Mas o mais interessante é a descoberta, na beira da fogueira, de dois fragmentos de rocha de pirita. Esse mineral, composto de um átomo de ferro e dos de enxofre é chamado ouro de tolo pois tem a aparência de ouro. Mas seu nome vem de uma palavra em grego que significa pedra que faz fogo. Isso porque batendo ou raspando dois fragmentos dessa pedra muitas faiscas são produzidas. Nos isqueiros antigos e nas armas de fogo primitivas, a pirita é usada para provocar faiscas. 

O interessante é que as formações geológicas no local não contêm pirita, e, portanto, a pedra deve ter sido trazida de longe. O local mais próximo one ela pode ser encontrada dista 12 quilômetros de Barnham. Examinando os fragmentos os cientistas descobriram que eles estavam gastos como se tivessem sido batidos ou raspados entre si. Além disso havia indícios de que haviam sido aquecidos.

Combinando todas essas informações, os cientistas acreditam que nesse acampamento de 400 mil anos atras, nossos ancestrais já conseguiam acender o fogo usando faiscas produzida por pedras de pirita que iam buscar em lugares relativamente distantes. Isso demonstra que a ato de acender um novo fogo foi descoberto faz pelo menos 400 mil anos. Foi o primeiro isqueiro.

Mais informações: Earliest evidence of making fire. Nature

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https://www.science.org/doi/10.1126/sciadv.adz3281 2026

Opinião por Fernando Reinach

Biólogo, PHD em Biologia Celular e Molecular pela Cornell University e autor de “A Chegada do Novo Coronavírus no Brasil”; “Folha de Lótus, Escorregador de Mosquito”; e “A Longa Marcha dos Grilos Canibais”

Os cientistas descobriram um isqueiro de 400 mil anos – Estadão

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Os bunkers de alto luxo para bilionários se protegerem

Shin Suzuki – BBC News Brasil – 21 agosto 2025

O mundo do mercado imobiliário de alto padrão está abraçando um novo conceito: os bunkers de luxo, construídos para proteger bilionários de um possível “apocalipse” provocado por guerras, efeitos das mudanças climáticas e outras ameaças globais.

Diferente dos abrigos subterrâneos comuns, onde o mais importante é garantir a proteção e sobrevivência das pessoas, o setor aposta em instalações fortificadas que oferecem conforto e uma série de regalias: spa, alta gastronomia e projeções panorâmicas que simulam paisagens externas estão entre os atrativos dessas instalações.

Com isso, a experiência de “sobreviver ao fim do mundo” é transformada em algo próximo a um resort embaixo da terra.

Há alguns anos, Mark Zuckerberg, dono da Meta, chamou atenção ao anunciar seu plano de construir um complexo gigantesco no Havaí, com infraestrutura voltada para situações de calamidade. Além dele, Jeff Bezos, fundador da Amazon, tem investido em precauções semelhantes.

O mercado parece estar em expansão. Recentemente, a empresa americana Safe divulgou um projeto para construir mais de mil “santuários globais”, ou seja, bunkers subterrâneos localizados em diferentes cidades do mundo.

Em entrevista à BBC News Brasil, Naomi Corbi, diretora de Operações e Prevenção Médica da companhia, disse que o projeto, chamado Aerie — palavra em inglês que significa ninho de águia —, funciona como um clube para membros exclusivos.

“A adesão só é possível por convite e é altamente seletiva. Não posso compartilhar muitos detalhes, mas [a adesão] não é para todo mundo.”

Alta gastronomia está entre os atrativos oferecidos pela Safe, empresa que anunciou a construção de mil santuários globais

Os valores para usar os bunkers “antiapocalipse” dependem do tamanho do espaço escolhido.

Um abrigo de 185 metros quadrados custaria em torno de 2 milhões de dólares (R$ 10, 8 milhões), mas o preço pode chegar a 20 milhões de dólares (R$ 108 milhões) para acomodações maiores.

Segundo Corbi, todas as instalações oferecem água, comida, abrigo, serviço médico ilimitado e sem restrição.

“Elas não dependem de rede elétrica, o que as torna à prova de pulsos eletromagnéticos”, destaca.

Medidas de segurança e ‘prisão interna’

A diretora da Safe afirma que os bunkers foram projetados para suportar longos períodos de isolamento debaixo da terra e contam com estratégias para situações de conflito de equipes de serviço, entre elas uma ‘prisão interna’.

“Sempre existe a possibilidade de comportamentos inesperados ou inaceitáveis. Há diversas medidas de contingência construídas nos abrigos. A mais direta é uma prisão que cada instalação possui.”

Segundo Corbi, a prisão funcionaria “como qualquer centro de detenção de alto padrão”.

“É uma suíte preparada para manter pessoas em isolamento, mas que permite comunicação e interação”, destaca.

A decisão sobre quem seria detido ficaria a critério do cliente.

Valores dos bunkers podem chegar a 20 milhões de dólares, dependendo do tamanho

Os bunkers Aerie são classificados como SCIFs (sigla em inglês para Sensitive Compartments Information Facility), ou seja, eles têm medidas de segurança extremamente rigorosas, estruturas protegidas contra vigilância eletrônica, como a sala de crise da Casa Branca.

Corbi avalia que há uma demanda crescente por esses abrigos luxuosos diante dos desafios geopolíticos atuais.

“A humanidade está em um caminho perigoso, a ser digitalmente aprisionada e completamente controlada, sem solução à vista”, e acrescenta:

“O Aerie é soberano, onde a privacidade reina, o acesso é ilimitado e a discrição é absoluta”, afirma.

Questionada se a empresa tem clientes do Brasil, Corbi se esquivou, mas disse que a Safe “está ansiosa para atender a essa região do mundo.”

“O Brasil não está alheio às profundas preocupações com a segurança.

Os bunkers de alto luxo para bilionários se protegerem – BBC News Brasil

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China apresenta sua ilha sem impostos como ‘maior porto livre de comércio do mundo’

Com as tarifas aumentando em todo o planeta, Pequim promove a ilha tropical de Hainan como prova de que o país está seguindo na direção oposta

Andrew Higgins – Infomoney/The New York Times – 14/01/2026 

HAIKOU, China — Com as tarifas aumentando em todo o mundo e o presidente Donald Trump prometendo pôr fim a décadas de globalização, a liderança chinesa vem promovendo uma ilha tropical como prova de que o país está seguindo na direção oposta.

A ilha de Hainan — uma província da China ao largo da costa sul do país, 50 vezes maior que Singapura — eliminou no mês passado as tarifas sobre a maioria das importações, reduziu impostos corporativos e individuais e se declarou o maior “porto de livre comércio” do mundo. A China afirmou que a ilha é um emblema de sua disposição para um comércio de mão dupla com o mundo.

Xi Jinping, principal líder da China, chamou Hainan de “uma porta de entrada significativa que conduz à abertura da China na nova era”.

Da forma como é retratado por Pequim, o experimento de Hainan com o comércio sem tarifas remete ao espírito do início da era de reformas da China após a morte de Mao Tsé-Tung, em 1976. O Partido Comunista abandonou o dogma socialista e passou a testar políticas audaciosas de livre mercado em determinadas áreas. As que funcionavam eram ampliadas para outras regiões.

A posição da China no comércio global é muito diferente agora. O país se transformou na potência manufatureira sem rival do mundo e na segunda maior economia. Xi tem defendido repetidamente a autossuficiência e trabalhado para garantir que a China nunca dependa de nada estrangeiro.

Ele demonstrou pouco interesse em alterar as altas tarifas e as políticas voltadas às exportações que ajudaram a dar à China um gigantesco superávit comercial de US$ 1 trilhão no ano passado.

“Não há nenhum sinal de que Hainan seja um precursor de uma abertura mais ampla e mais sistemática da economia nacional”, disse Richard McGregor, pesquisador sênior para o Leste Asiático no Lowy Institute, um centro de pesquisas australiano.

“Em um momento de superávits comerciais recordes”, acrescentou, o novo papel de Hainan como entreposto de livre comércio “tem um forte cheiro de troca de isca em termos políticos e de relações públicas”.

A maioria dos produtos estrangeiros agora pode entrar livremente em Hainan, cujos 10 milhões de habitantes representam menos de 1% da população total da China. Mas essas importações não podem deixar a ilha rumo a outras partes do país, a menos que condições rigorosas sejam atendidas.

A combinação de políticas tem como objetivo impedir que as importações sem tarifas destinadas a Hainan vazem para outras regiões do país, onde as tarifas elevadas continuam em vigor.

Os produtos importados para Hainan não podem ser enviados para outras partes da China sem o pagamento de tarifas, a menos que tenham sido processados de modo a aumentar seu valor em pelo menos 30%.

No Novo Porto de Haikou, um gigantesco terminal de passageiros e cargas na capital provincial, navios navegam dia e noite para a província vizinha de Guangdong. Mas o que antes era um polo de transporte doméstico tornou-se, na prática, uma fronteira internacional.

O serviço alfandegário chinês controla o fluxo de mercadorias que saem de Hainan para o restante da China, inspecionando caminhões em busca de quaisquer produtos sem tarifas que estejam sendo contrabandeados para o resto do país.

Embora altamente restrita, a possibilidade de acesso ao mercado chinês além de Hainan já está atraindo algumas empresas estrangeiras que, de outra forma, enfrentariam tarifas elevadas para vender a Guangdong ou a outras províncias chinesas.

Nesredin Hussein, um comerciante de café da Etiópia, alugou recentemente um armazém perto de Haikou para armazenar grãos importados para a ilha sem tarifas. Ele planeja comprar equipamentos de torrefação para poder processar o café trazido para Hainan livre de tarifas e, em seguida, enviá-lo a outras partes da China para venda sem pagar tarifa ou imposto.

“Para mim, isso é uma oportunidade muito boa”, disse ele, considerando o apetite voraz da China por café, observando que, de outra forma, teria de pagar até 30% em tarifas e outros impostos sobre quaisquer grãos importados diretamente para a China continental. “Aqui a alíquota é zero”, afirmou, após uma visita com a esposa e os três filhos à filial de Hainan da Harrow School, um colégio interno britânico de elite.

Menos convencido está Kamthon Wangudom, um empresário de origem chinesa da Tailândia que, convidado a Hainan em dezembro para visitar uma vila onde seus ancestrais viveram, foi levado primeiro a um centro de exposições que promovia as oportunidades de investimento da ilha.

Ele disse que sua empresa de energia renovável, em Bangcoc, já havia investido em Taiwan, Japão e Filipinas, mas evitava a China porque ela “é grande demais e complicada demais”. Ele é cético de que o novo regime tarifário vá mudar muita coisa.

Hainan gosta de se comparar ao Havaí por suas praias ladeadas por palmeiras e resorts; como o Havaí, também é pontilhada por instalações militares. Entre elas está uma gigantesca base naval perto da cidade turística de Sanya, no sul, que cresceu rapidamente à medida que a China afirmou suas reivindicações sobre o Mar do Sul da China.

Xi visitou Hainan em novembro para promover as políticas livres de impostos. Mas seu principal objetivo foi inspecionar a base naval e participar da incorporação de um novo porta-aviões. Xi deixou claro que a importância estratégica de Hainan significa que os interesses de segurança devem prevalecer sobre as ambições econômicas.

Hainan tem um histórico de grandes planos que frequentemente decepcionam, começando por sua designação, em 1988, como a última e maior Zona Econômica Especial da China, em um momento de auge da cooperação com empresas estrangeiras que recuou rapidamente desde que Xi chegou ao poder, em 2012.

Incapaz de igualar o crescimento econômico extraordinário de zonas especiais rivais como Shenzhen, ao lado de Hong Kong, Hainan foi por anos vista em grande parte como uma concorrente ensolarada, porém secundária.

Desenvolveu sua indústria do turismo, incluindo o turismo médico, e construiu novas rodovias e linhas ferroviárias de alta velocidade. Nos anos 1990, foi palco de um colapso imobiliário, o primeiro na China sob o comunismo.

Xi anunciou pela primeira vez os planos de transformar Hainan em uma meca do livre comércio em 2018. O projeto começou com a abertura de enormes shoppings livres de impostos em Haikou e Sanya.

Isso atraiu turistas chineses em busca de marcas estrangeiras de luxo com desconto, mas não conseguiu reverter a sorte econômica de uma ilha ainda marcada pelo impacto do colapso imobiliário.

O desenvolvimento atual do porto livre de Hainan “enfrenta duras provas de realidade”, segundo um estudo do Asia Competitiveness Institute, da Universidade Nacional de Singapura.

Hainan é muito menos bem-sucedida do que outras Zonas Econômicas Especiais chinesas e atrai relativamente pouco investimento estrangeiro direto, afirmou o relatório.

Para outros, porém, a importância de Hainan está em seu papel como campo de testes para políticas inovadoras que não abalam o status quo.

O experimento do porto de livre comércio permitirá que a China teste novas abordagens em áreas como finanças, educação e impostos, disse Lauren Johnston, fundadora da New South Economics, uma consultoria em Melbourne, na Austrália, “ao mesmo tempo em que protege o status quo no continente”.

c.2026 The New York Times Company

China apresenta sua ilha sem impostos como ‘maior porto livre de comércio do mundo’

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Inovadores são perguntadores e questionadores

Por Evandro Milet – Portal ES360 – 30/11/2025

Empresas inovadoras são, quase sempre, dirigidas por líderes inovadores. Conclusão: se você quiser inovação, precisará ter competências criativas na equipe de alta direção de sua empresa. Inovadores pensam diferente, mas também agem diferente. O livro DNA do Inovador, de Clayton Christensen e outros, identificou as cinco competências que distinguem os inovadores dos executivos típicos e afirma que essas características, que são inatas em alguns, podem ser aprendidas e praticadas. São elas: associar, questionar, observar, cultivar o networking e experimentar. O pensamento associativo coleta, organiza e dá sentido às informações captadas pelas outras quatro competências, gerando as inovações.

Vou abordar aqui hoje apenas a competência de questionar, algo que a nossa cultura costuma nos impor barreiras. Os dois grandes fatores que inibem as perguntas são: ter receio de parecer ignorante e não querer ser visto como uma pessoa desagradável ou que não gosta de colaborar.

O primeiro fator se desenvolve na escola, para não parecer pouco inteligente e ser zoado pelos colegas. Principalmente, refreamos as perguntas mais disruptivas, justamente aquelas que levam mais tarde às inovações mais revolucionárias. Crianças perguntam tudo e depois vão perdendo essa faculdade quando crescem.

O segundo fator fica potencializado se o questionamento for para um superior hierárquico que se mostre inseguro, alguma estrela vaidosa ou quem se considere “pai” de uma ideia estabelecida – pais não gostam de ouvir críticas aos filhos, normalmente. Chefes autoritários costumam não gostar dos perguntadores.

Como o livro mostra, os grandes indagadores têm um alto nível de autoestima e humildade suficiente para aprender com qualquer pessoa, mesmo com aqueles que supostamente sabem menos do que eles. Inovadores são grandes questionadores e mostram paixão pelo ato de perguntar. O que, como, onde, por que, quando, e se, por que não, são expressões comuns na cabeça dos inovadores. Querem saber porque as coisas são assim e porque não de outra forma. 

A pesquisa apresentada no livro, baseada na análise de comportamento de inúmeros executivos, mostrou que os inovadores fazem mais perguntas que os não inovadores e fazem perguntas mais provocativas. Fazer muitas perguntas aos clientes é importantíssimo para produzir soluções poderosas para os problemas.

Na Toyota foi criado o processo dos cinco “por quês” sucessivos para desvendar cadeias de causas e chegar a soluções inovadoras. Os programas de qualidade difundiram a ferramenta do 5W1H(Why, What, When, Who, Where, How) para diagnósticos e planos de ação, institucionalizando os questionamentos. Entretanto, em uma palestra, certa vez, um questionador gaiato, funcionário de governo, me disse que lá só funcionava o 5N1T, e traduziu: Não, Nada, Nunca, Nenhum, Ninguém e Talvez. Creio que ele inventou isso na hora. Tudo bem, bom humor faz parte.

No lado sério, os autores descobriram também que os inovadores têm muito mais chances de lançar com sucesso produtos ou negócios inovadores quando combinam o ímpeto de perguntar com as outras competências do DNA do Inovador. Em outras palavras: perguntar enquanto observam, perguntar enquanto conversam com seu network, perguntar enquanto experimentam e quando estão tentando associar tudo. Deve-se questionar tudo, até o que parece óbvio. 

Perguntas provocadoras feitas por inovadores alargam limites, crenças e fronteiras. E todos podem aprender a fazer isso. No geral, podemos perguntar tudo para o Google ou para o ChatGPT e dá para aprender muito, assim como vendo vídeos no YouTube sobre qualquer coisa, mas no desenvolvimento de uma ideia, de um projeto ou de uma startup, não questionar tudo pode ser o caminho do fracasso.  

Inovadores são perguntadores e questionadores – ES360

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Convergência entre IA e deep techs amplia leque de oportunidades no mercado de tecnologia

Crescimento de indústria de semicondutores, qualificação de talentos e fortalecimento de ecossistemas de negócio estão entre fatores cruciais para incorporar soluções de inovação em setores-chave da economia

Por UBS – Valor – 01/12/2025 

Mais do que dados e programadores, o poder computacional vem se revelando como o principal catalisador da indústria de inteligência artificial. Autor do best-seller “A Guerra dos Chips: a Batalha pela Tecnologia que Move o Mundo”, o estrategista geopolítico norte-americano Dr. Chris Miller apresentou os desafios e oportunidades que vêm se abrindo a partir das disputas globais no mercado de semicondutores, em palestra no UBS WM LatAm Summit. O principal eixo dessa discussão, em sua opinião, são os gargalos gerados pela concentração de poder entre grandes fabricantes e a interdependência de cadeias globais de produção e distribuição.

Com a presença de processadores de alta performance em praticamente todos os setores e dispositivos — dos smartphones aos sistemas de defesa nacionais —, o cenário atual deverá continuar a abrir pontos de vulnerabilidade em núcleos estruturais da economia. “Nenhum país é autossuficiente na produção desses chips. Ao mesmo tempo que os Estados Unidos dominam o design das peças, a fabricação está concentrada em Taiwan e na Coreia do Sul”, afirmou Miller. “O principal obstáculo para a evolução da inteligência artificial é a expansão dessa cadeia de negócios, o que inclui questões geopolíticas, investimentos em infraestrutura e acesso a recursos naturais”, acrescentou.

No longo prazo, o cenário apresentado por Miller tende a se tornar ainda mais relevante com a integração de ferramentas de IA a outras tecnologias exponenciais, como computação quântica, robótica e projetos aeroespaciais. Para Guy Perelmuter, fundador da Grids Capital e “futurista” da tecnologia, trata-se de um movimento que favorece startups de inovação de ponta e teses de investimentos orientadas por retornos de longa duração. O verdadeiro motor das grandes revoluções econômicas é a redução dos custos de tecnologias-chave. Essa força deflacionária tende a abrir mercados que antes eram exclusivos de governos e grandes corporações, multiplicando o desenvolvimento de aplicações e as oportunidades”, afirmou. “O impacto da IA será sentido não apenas em nossas telas, mas nos carros autônomos, nas fábricas, nos exércitos e nos hospitais”, explicou.

A partir desse contexto, Perelmuter ressaltou a necessidade da qualificação da mão de obra em setores diretamente ligados a iniciativas de pesquisa e desenvolvimento — uma demanda que tem fortalecido o talento humano como um dos ativos centrais para o futuro da economia digital. “Por mais contraintuitivo que pareça, o maior obstáculo para o crescimento das deep techs não é o acesso a capital, mas a disponibilidade de pessoas capacitadas para explorar todo o potencial apresentado pela tecnologia. A escassez de profissionais de alto nível deverá gerar um valor imenso para as empresas que conseguirem atrair esses talentos e aplicar sua expertise na criação de inovações de alto impacto”, complementou.

Biotecnologia

Em meio a esse panorama de possibilidades, as soluções de biotecnologia continuam a despontar como uma das mais promissoras para abrir novas avenidas de geração de valor para empresas, investidores e consumidores. As oportunidades em jogo vão do aumento da longevidade à revelação de mais frentes de combate de doenças, como câncer e Alzheimer. Durante sua participação no UBS WM LatAm Summit, Boris Nikolic, fundador da Biomatics Capital Partners, destacou o papel da IA generativa na aceleração desse ciclo de inovação na área de saúde: “A velocidade das mudanças está cada vez mais intensa. Da produção de remédios ao desenvolvimento de pesquisa clínica, a capacidade de conhecimento e de processamento de dados está levando a uma revolução sem precedentes na indústria”, afirmou.

Para consolidar esse potencial, Nikolic defendeu o comprometimento com a formação de ecossistemas pautados pelo alinhamento de interesses de diversos stakeholders, conectando iniciativas de startups, corporações, governos e universidades. “Ao mesmo tempo que apresenta altos potenciais de retorno, o mercado de biotecnologia é marcado por riscos elevados e desafios operacionais. Por essa razão, é fundamental criar um ambiente de colaboração que abra alternativas para lidar com as complexidades que envolvem a geração de novos negócios no segmento”, concluiu.

O papel da filantropia como ferramenta estratégica de investimento e impacto positivo foi apresentado por Tom Hall, head de impacto social & filantropia no UBS e CEO da UBS Optimus Foundation. Diante dos inúmeros desafios sociais e ambientais apresentados pelos dias atuais, Hall enfatizou a importância do capital filantrópico para cobrir as lacunas de financiamento relacionadas aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), estabelecidos pela Organização das Nações Unidas (ONU) — um montante, segundo ele, estimado em aproximadamente US$ 30 trilhões. “Existe um número crescente de investidores com um desejo genuíno de melhorar o mundo. Esse interesse não precisa ser desconectado das expectativas de retorno financeiro”, afirmou.

Em resposta a esse desafio, Hall sugeriu a adoção de formatos de blended finance que aproximem as iniciativas de filantropia das estratégias de empresas e gestoras de investimentos. Na prática, a abordagem prevê substituir doações sem expectativa de retorno financeiro por instrumentos estruturados como ativos, capazes de oferecer índices de retorno mais consistentes. “O tamanho dos problemas que temos em áreas como educação, saúde e meio ambiente é proporcional às suas possibilidades de escala. Isso gera uma grande oportunidade para revelar um unicórnio filantrópico nos próximos anos”, disse.

Novos negócios

Com base na mentalidade apresentada por Hall, as novas conexões entre negócios, sustentabilidade e comportamento vêm ganhando força em diversos segmentos da economia. No mercado de moda, por exemplo, a tendência pode ser observada na popularização de estilos mais autênticos e nas escolhas orientadas por princípios de ética e inclusão social. “A maneira como nos vestimos é a forma que escolhemos para nos comunicar com o mundo. A percepção dessa realidade tem levado grandes marcas a buscar conexões mais genuínas com suas bases de consumidores”, afirmou Gloria Kalil, em bate-papo conduzido juntamente com a jornalista Joyce Pascowitch.

Uma das principais referências em tendências de moda e comportamento do país, Gloria ressaltou a necessidade de estabelecer relacionamentos profissionais e pessoais pautados pela consistência de valores — seja nas grandes decisões de negócios ou nas escolhas triviais do dia a dia. “É preciso resgatar a pequena ética do cotidiano para que todas as nossas interações se tornem mais responsáveis, agradáveis e produtivas. Não se trata apenas de valorizar etiquetas e formalidades, mas de procurar maneiras concretas de estimular o respeito ao próximo”, disse.

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IA pode ser janela de oportunidade para aprendizagem

Ferramentas pode ser usada em rotinas escolares, mas instituições devem ensinar estudantes competências que os permitam ter reflexão sobre uso ético

Antônio Gois – O Globo – 12/01/2026 

Terminei o texto de minha última coluna aqui — em que tratei de lições a partir do fracasso do uso de algumas tecnologias na educação — sugerindo cautela antes de comprarmos a ideia de que soluções criadas por Inteligência Artificial finalmente revolucionarão a aprendizagem. Mas, como argumentei no texto, isso não significa ignorar que estamos diante de uma tecnologia com potencial disruptivo em todas as áreas do conhecimento.

Uma reportagem publicada neste mês no jornal The New York Times mostra que as grandes empresas de tecnologia estão investindo pesadamente no desenvolvimento de ferramentas a partir de IA nas escolas, em parcerias com governos de vários países. Um dos receios que a própria matéria traz na voz de especialistas, porém, é de que ainda temos poucos estudos rigorosos sobre impactos. Inovações são necessárias na educação, mas elas precisam ser monitoradas e avaliadas de forma rigorosa, pois — como argumentei em meu texto da semana passada — não foram poucos os exemplos de tecnologias que prometiam muito, mas entregaram pouco ou, pior, resultaram até em prejuízos.

A reportagem do jornal americano cita, inclusive, um estudo da Universidade Carnegie Mellon e da Microsoft, que acompanhou 319 trabalhadores de diferentes áreas do conhecimento (educadores, profissionais de mídia, programadores, matemáticos, entre outros). Uma das conclusões do trabalho, divulgado no ano passado, foi que níveis maiores de confiança na Inteligência Artificial estavam associados a menor capacidade de pensamento crítico, o que eleva o risco dessa habilidade — tão fundamental para o mundo do trabalho nos dias de hoje — ser prejudicada pelo uso de ferramentas de IA generativa.

Esse é um risco que se aplica também à educação. Em setembro do ano passado, a 15ª edição da pesquisa Cetic.Br nas escolas revelou que sete em cada dez alunos do ensino médio já recorrem a essas ferramentas para realizar pesquisas, mas apenas 32% deles disseram ter recebido orientação das escolas sobre como usar essas tecnologias. A mesma pesquisa mostrou que professores também vêm acessando essas ferramentas, mas ainda sem diretrizes claras sobre seu melhor uso.

O governo brasileiro iniciou, no ano passado, uma consulta pública justamente com o objetivo de criar um referencial para o desenvolvimento e uso responsáveis de IA na educação. Precisamos, de fato, urgentemente evoluir no entendimento de como essa tecnologia pode ser usada em rotinas escolares, mas sem esquecer de trabalhar nos estudantes competências que os permitam entender a lógica por trás dela e refletir sobre seu uso ético.

Mas, talvez, uma das grandes contribuições que a Inteligência Artificial possa dar ao campo educacional é retomar o debate — sempre necessário — sobre o que precisa realmente ser trabalhado nas escolas num mundo em que a automação e a facilidade de acesso ao conhecimento avançam de forma acelerada. Críticas ao excesso de conteúdo, à memorização e a modelos demasiadamente baseados na transmissão de conhecimento não são novidade. Mas, quem sabe, esta não seja uma nova janela de oportunidade para trocarmos amplitude demasiada de conteúdos por mais profundidade e reflexão.

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O laboratório secreto onde o Google testa o computador mais poderoso do mundo na corrida pela IA quântica

Faisal Islam – BBC News – 9 janeiro 2026

Parece um enorme lustre dourado e abriga o lugar mais frio do universo conhecido.

O que estou vendo não é apenas o computador mais poderoso do mundo, mas uma tecnologia fundamental para a segurança financeira, o bitcoin (e outras criptomoedas), segredos de Estado, a economia global e muito mais.

A computação quântica detém a chave para determinar quais empresas e países vencerão e perderão… o restante do século 21.

Diante de mim, suspenso a cerca de um metro do chão, em uma instalação do Google em Santa Bárbara (EUA), está Willow. Francamente, não era o que eu esperava.

Não há telas nem teclados, muito menos capacetes holográficos ou chips de leitura cerebral.

O Willow é um conjunto de discos circulares do tamanho de um barril de petróleo, conectados por centenas de fios de controle pretos, que descem até um refrigerador de banho de hélio líquido de bronze. O sistema mantém o microchip quântico a um milésimo de grau acima do zero absoluto — a temperatura de 273,15 °C negativos, em que a vibração de átomos e moléculas é paralisada.

A aparência e a sensação remetem aos anos 1980. Mas, se o potencial da computação quântica se concretizar, a estrutura metálica e cheia de cabos à minha frente, semelhante a uma água-viva, poderá transformar o mundo de várias maneiras.

“Bem-vindos ao nosso laboratório de Quantum AI”, diz Hartmut Neven, chefe de Quantum AI do Google, ao atravessarmos a porta de alta segurança.

Neven é uma figura quase lendária: parte gênio da tecnologia, parte entusiasta de música eletrônica. Ele se veste como alguém que teria acabado de sair de uma pista de snowboard rumo a um festival de artes e música, como o Burning Man (conhecido festival anual realizado no deserto de Nevada, nos EUA) — evento para o qual, aliás, cria obras de arte. Talvez ele tenha mesmo vindo em um universo paralelo. Mais sobre isso mais adiante.

A sua missão é transformar a física teórica em computadores quânticos funcionais “capazes de resolver problemas que hoje são insolúveis”. Ele admite ser parcial, mas afirma que esses “lustres” são os que apresentam melhor desempenho no mundo.

Grande parte da nossa conversa gira em torno do que não podemos filmar nesse laboratório restrito. Essa tecnologia estratégica está sujeita a controles de exportação, sigilo e ocupa o centro de uma corrida por supremacia comercial e econômica. Qualquer pequena vantagem, do formato de novos componentes às empresas que integram as cadeias globais de suprimentos, é fonte de alavancagem estratégica.

Há um clima tipicamente californiano nesse templo da alta ciência, perceptível nas cores e nas obras de arte. Cada computador quântico recebe um nome, como Yakushima ou Mendocino; todos são “envelopados” por peças de arte contemporânea, e murais em estilo grafite decoram as paredes, iluminadas pelo sol intenso do inverno.

Neven mostra Willow, o mais recente chip quântico do Google, que atingiu dois marcos importantes. Segundo Neven, o chip encerrou “de uma vez por todas” o debate sobre se computadores quânticos conseguem realizar tarefas que computadores clássicos não conseguem.

O Willow também resolveu, em minutos, um problema usado como referência que levaria 10 septilhões de anos; ou seja, mais de 1 trilhão de trilhões, um número com 25 zeros no final, um período muito superior à idade do universo.

Esse resultado teórico foi aplicado recentemente ao algoritmo Quantum Echoes, impossível para os computadores convencionais, que ajuda a aprender a estrutura de moléculas a partir da mesma tecnologia usada em aparelhos de ressonância magnética.

Neven enumera as formas como acredita que o chip quântico Willow será usado “para ajudar a enfrentar muitos dos problemas que a humanidade tem hoje”.

“Ele vai nos permitir descobrir medicamentos de forma mais eficiente”, diz. “Vai ajudar a tornar a produção de alimentos mais eficiente, a produzir energia, a transportar energia, a armazenar energia… a enfrentar as mudanças climáticas e a fome.”

“Isso nos permite compreender muito melhor a natureza e, a partir daí, desbloquear seus segredos para construir tecnologias que tornem a vida mais agradável para todos nós”, afirma.

Alguns pesquisadores acreditam que a verdadeira inteligência artificial só será plenamente possível com a computação quântica.

Integrantes da equipe que trabalha no laboratório receberam recentemente o Prêmio Nobel de Física pelo trabalho original sobre “qubits supercondutores”, a base da tecnologia usada ali.

O chip Willow tem 105 qubits. O projeto quântico da Microsoft conta com oito qubits, mas adota uma abordagem diferente. A corrida global é chegar a 1 milhão de qubits para uma “máquina em escala utilitária”, capaz de realizar tarefas como química quântica e desenvolvimento de medicamentos sem erros. A tecnologia, no entanto, é frágil.

O Willow é um conjunto de discos circulares do tamanho de um barril de petróleo, conectados por centenas de fios de controle pretos, que descem até um refrigerador de banho de hélio líquido de bronze. O sistema mantém o microchip quântico a um milésimo de grau acima do zero absoluto

O que acontece aqui está sendo acompanhado atentamente em todo o mundo. O professor Peter Knight, presidente do conselho estratégico do Programa Nacional de Tecnologias Quânticas do Reino Unido, afirma que o Willow abriu um novo caminho.

“Todas essas máquinas ainda estão, na prática, na fase de modelos de brinquedos; elas cometem erros. Precisam de correção de erros. O Willow foi o primeiro a demonstrar que é possível fazer essa correção, por meio de rodadas repetidas de ajustes, com melhora progressiva”, diz.

Isso coloca a tecnologia em uma trajetória para ser escalada até executar com precisão 1 trilhão de operações, possivelmente dentro de sete ou oito anos, em vez das duas décadas que antes se supunham necessárias.

Se o primeiro quarto deste século foi marcado pela ascensão da internet e, depois, da inteligência artificial, os próximos 25 anos tendem a inaugurar a era quântica.

Como funciona?

Imagine tentar encontrar uma bola de tênis em uma entre mil gavetas fechadas. Um computador clássico abre cada uma, em sequência. Um computador quântico abre todas ao mesmo tempo. Ou, de modo semelhante, em vez de precisar de cem chaves para abrir cem portas na computação tradicional, a computação quântica permite abrir as cem com uma única chave, instantaneamente.

Essas máquinas não serão para todos. Não vão encolher a ponto de caber em celulares, óculos de IA ou laptops. O ponto central é que o poder desses computadores cresce de forma exponencial, e todo mundo quer participar.

Perguntei ao CEO da Nvidia, Jensen Huang, se isso representa uma ameaça ao modelo da empresa, baseado no fornecimento de chips especializados para IA. “Não”, respondeu. “No futuro, um processador quântico será acrescentado ao computador.”

Um dos principais especialistas do Reino Unido destaca o que está em jogo no mundo quântico: o poder potencial de descriptografar quase tudo, de segredos de Estado ao bitcoin.

“Todo o universo das criptomoedas também terá de ser reavaliado por causa da ameaça da computação quântica”, afirma Knight, do Programa Nacional de Tecnologias Quânticas do Reino Unido.

Um parceiro de destaque da Nvidia no ano passado disse que, embora o bitcoin ainda tenha alguns anos de margem, a tecnologia precisará migrar para uma blockchain — uma espécie de banco de dados descentralizado que usa criptografia para registrar transações — mais forte até o fim da década.

Fontes do setor de tecnologia usam a expressão Harvest Now, Decrypt Later (“Colher Agora, Decifrar Depois”, em tradução livre) para descrever como agências estatais estariam armazenando grandes volumes de dados criptografados, internos e externos, com a expectativa de que gerações futuras consigam acessá-los.

Corrida global

E há também a corrida global. A abordagem da China é muito diferente da disputa comercial observada nos Estados Unidos e outros países do chamado Ocidente.

Segundo Knight, do Programa Nacional de Tecnologias Quânticas do Reino Unido, o volume total de recursos comprometidos com tecnologia quântica na China, cerca de US$ 15 bilhões (aproximadamente R$ 82,7 bilhões), pode equivaler à soma de todos os demais programas governamentais do mundo.

Desde 2022, a China publicou mais artigos científicos sobre computação quântica do que qualquer outro país. Os esforços são liderados pelo físico pioneiro Pan Jianwei e fazem parte central do 14º plano quinquenal de Pequim.

A China decidiu impedir que empresas de tecnologia como Baidu e Alibaba desenvolvessem suas próprias pesquisas em computação quântica, concentrando profissionais e infraestrutura em uma iniciativa estatal. A estratégia chinesa busca vantagem sobretudo em comunicações quânticas e satélites.

No ano passado, Pan desenvolveu e testou o computador quântico Zuchongzhi 3.0, usando tecnologia semelhante, embora com abordagem diferente, à do Willow, e afirmou ter alcançado resultados comparáveis. No outono, o sistema foi aberto para uso comercial. A sensação lembra o Projeto Manhattan da Segunda Guerra Mundial (para vencer a Alemanha no desenvolvimento de armas atômicas) ou a corrida espacial, agora, no século 21.

O Reino Unido é um dos principais polos científicos em pesquisa quântica. Foi um cientista britânico quem realizou os estudos originais sobre qubits supercondutores.

O país abriga dezenas de empresas e pesquisas de ponta, e o governo planeja anunciar investimentos significativos nas próximas semanas. A tecnologia é considerada vital para a economia, o uso militar e a geopolítica, com a ambição de que o Reino Unido se torne a terceira potência nesse campo.

Universos paralelos

De volta ao laboratório do Willow, surgem questões ainda mais existenciais. No ano passado, Neven sugeriu que a velocidade inédita do sistema daria respaldo a algumas teorias sobre a existência de um multiverso. Em linhas gerais, a ideia de que o Willow teria recorrido a universos paralelos para ampliar seu poder de processamento. Nem todos os cientistas concordaram com essa teoria.

“Ainda há um debate intenso”, diz ele. “Como você viu na visita ao laboratório, a razão de os computadores quânticos serem tão poderosos é que, em um único ciclo de relógio, eles conseguem acessar 2 das 105 combinações simultaneamente. Isso te faz questionar: onde estão todas essas possibilidades?… Há uma versão da mecânica quântica que pensa nisso, a da formulação de Muitos Mundos [MWF, na sigla em inglês], que fala em universos ou realidades paralelas.”

Neven ressalta que o Willow não prova essa hipótese, mas considera que o resultado é “sugestivo o suficiente para levarmos a ideia a sério”.

Essa é a fronteira mais avançada do mundo, da tecnologia, do crescimento econômico e do poder global. O governo britânico deve investir centenas de milhões para tentar alcançar o Willow e os avanços chineses. Soa como ficção científica, mas está rapidamente se tornando um fato econômico.

O laboratório secreto onde o Google testa o computador mais poderoso do mundo na corrida pela IA quântica – BBC News Brasil

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