Zoom fatigue: o esgotamento provocado pelo excesso de videoconferências

Sobretudo como ferramenta de trabalho, os encontros on-line andam causando cansaço mental que já tem nome

Por André Lopes – Publicado em 15 maio 2020

É provável que nunca tantos tenham ficado tão próximos mesmo estando distantes. O motivo para esse paradoxo, claro, é a pandemia do novo coronavírus — que, de resto, vem virando de cabeça para baixo outras incontáveis facetas da vida social. Mas, se é verdade que tecnologias como a da videoconferência — que permite vizinhança na distância — não surgiram com a Covid-19, foi devido à sua propagação, e à necessidade de isolamento social para contê-la, que tais ferramentas explodiram mundo afora.

Em poucos meses, aplicativos mais antigos como Skype e Hangouts, e os novatos Houseparty e Zoom, transformaram-se em acessórios indispensáveis para o dia a dia — seja para permitir que parentes e amigos joguem conversa fora, seja, sobretudo, para viabilizar a prática de home office e do ensino a distância compulsório. Não sem cobrar um alto preço — e, isso, insista-se, em um período reduzidíssimo de tempo. O preço: um inédito cansaço mental — que já ganhou até nome (em inglês): Zoom fatigue.

Do que se trata? O termo, que, num primeiro momento, faz menção a um dos mais populares aplicativos de videoconferência, revela uma fadiga, como o próprio nome indica, a que o cérebro se vê submetido após uma sucessão de sessões diante da tela. O fenômeno se dá em especial no caso do trabalho remoto. Com o contato presencial anulado, a necessidade de chamadas para novas interações cresce, fazendo com que, no fim do expediente, a pessoa sinta como se houvesse passado o dia em uma longa e interminável reunião.

Para os estudiosos do comportamento humano, o esgotamento pode ser explicado com facilidade. Durante um diálogo, o cérebro não se concentra apenas nas palavras. Ele recolhe — como se fizesse, digamos, um “zoom” — significados adicionais a partir de dezenas de sugestões não verbais, como olhares, movimentos do corpo e até a frequência respiratória. Essas manifestações ajudam a criar uma percepção holística do que está sendo transmitido e do que é esperado em resposta do ouvinte. “Como somos animais sociais, perceber essas pistas no contato direto é natural, requer pouco esforço cognitivo e pode estabelecer as bases para relações mais íntimas como a amizade”, afirma o psicólogo carioca Alberto Filgueiras, do Instituto de Psicologia da Uerj. “Contudo, no caso de uma chamada de vídeo, essa habilidade é parcialmente prejudicada”, explica ele. “Além disso, a imagem da galeria onde todos os participantes da reunião aparecem desafia a visão central do cérebro, forçando-o a decodificar tantos indivíduos simultaneamente que nada é absorvido de maneira significativa, o que gera tensão — e stress.”

Outro problema são os travamentos e dessincronias que ocorrem durante as chamadas. Segundo um estudo feito por acadêmicos alemães em 2014, um pequeno intervalo de 1,2 segundo entre a voz e a imagem é capaz de trazer à mente, com maior frequência, a impressão de que a outra pessoa é menos amigável ou está desatenta à conversa. Nesse sentido, até a ligação telefônica tradicional parece ser menos cansativa para o cérebro, o que recomenda fortemente seu uso — aliás, retomado com força nestes dias de surto epidêmico.

É possível que em algum momento surjam recursos que atenuem o cansaço mental que as videochamadas têm provocado. Ou que acabemos nos acostumando com ele. Até lá, se a Zoom fatigue bater, e houver oportunidade, desligue a câmera. E desligue-se um pouco.


Publicado em VEJA de 20 de maio de 2020, edição nº 2687

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O comércio e as cavernas: diferenças entre mulheres e homens

por Evandro Milet – publicado em 10/12/2018

Nós vivemos como caçadores e coletores mais de 90% da nossa história. Nessa época remota passávamos apenas dez a vinte horas por semana caçando e coletando os alimentos necessários para sobreviver. Os coletores, em geral mulheres, respondiam por 80% a 90% do esforço e da produção. Os caçadores forneciam principalmente uma proteína extra. É portanto ancestral a maior capacidade do homem em avaliar distâncias, pela necessidade de calcular a distância até a presa. Em compensação as mulheres são melhores em avaliar os arredores imediatos porque precisavam escolher melhor o que coletavam. Um tomate ou um cogumelo não podiam sair correndo, mas elas precisavam saber avaliar detalhes como o grau de amadurecimento, cor e formato para saber se o ítem era comestível, estragado ou venenoso. O caçador precisava apenas ser rápido na caça. Ele não tinha tempo para avaliar nuances. Uma vez abatido o animal, os caçadores precisavam carregá-lo e chegar logo em casa, já que a presa fresca e eles mesmos eram alvos atraentes para outros predadores.

Qual a semelhança desses comportamentos com a maneira como homens e mulheres fazem compras hoje? Scott Galloway faz a comparação em “Os Quatro”, como introdução à estratégia da Amazon. As mulheres tocam o tecido para sentir a textura, experimentam os sapatos para ver se combinam com o vestido, pedem para ver os ítens em cores diferentes, e às vezes não levam nada. Portanto amigos, não adianta se desesperar: a coisa é ancestral e está gravada no cérebro delas. Os homens, por outro lado, veem algo capaz de matar a sua fome, o abatem(compram) e voltam para a caverna(casa) o mais rápido possível.

Uma pesquisa com 2.000 pessoas na Inglaterra, feita em 2013, revelou que os homens ficam entediados depois de 26 minutos fazendo compras, e as mulheres só depois de duas horas. A pesquisa mostrou que 80% dos homens não gostam de fazer compras com suas parceiras e que 45% evitam isso completamente – apesar dos riscos. Quase metade das saídas para compras de um casal acaba em discussão, com os homens irritados, porque eles compraram logo o que queriam, enquanto as parceiras continuavam olhando e demorando para tomar decisões.

Portanto, a abordagem de homens e mulheres, seja no comércio de rua ou shopping, seja no comércio eletrônico, deve ser feita levando esses aspectos em consideração. Os sites de comércio eletrônico para homens devem prover uma navegação clara por categorias de produtos e os das mulheres devem vender uma emoção e permitir nuances e detalhes. Afinal, está gravado no nosso DNA desde o tempo das cavernas.

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Carros autônomos: Para quando?

por Evandro Milet

As empresas de tecnologia prometeram que os carros autônomos e totalmente funcionais estariam rodando normalmente nas estradas até 2020 e se encaminhando para revolucionar o transporte e transformar a economia. Mas uma década depois que o Google lançou um protótipo de carro autônomo com grande alarde global, a tecnologia ainda está longe de estar pronta e muitos investidores estão preocupados em despejar mais dinheiro nela – exatamente quando o mundo poderia se beneficiar de carros que transportam pessoas e entregam encomendas sem um motorista humano.

As empresas que fizeram essas promessas estão agora enroladas: para aperfeiçoar sua tecnologia, elas precisam testá-la nas estradas. Mas eles precisam de pelo menos duas pessoas nos carros para evitar acidentes. Devido às regras de distanciamento social destinadas a manter as pessoas seguras durante a pandemia de coronavírus, isso geralmente não é possível. Muitos desses carros estão simplesmente parados em estacionamentos.

A start-up Argo AI, apoiada por US $ 1 bilhão da Ford e outros US $ 1 bilhão da Volkswagen não consegue dar sequência nos testes  de estrada. A parada geral causada pela pandemia acelerou um abalo da indústria que já estava começando a acontecer. Muitas empresas automobilísticas não têm receita e os custos operacionais são extraordinariamente altos. As startups de veículos autônomos gastam em média US $ 1,6 milhão por mês – quatro vezes o que gastam fintechs ou healthtechs.

A curva foi acentuada a partir de 2016, quando uma bolha de investimento em tecnologia autônoma começou. A General Motors adquiriu a Cruise, uma empresa iniciante de três anos e 40 pessoas, por aproximadamente US $ 1 bilhão. Poucos meses depois, a Uber anunciou que pagaria cerca de US $ 680 milhões pela Otto, uma empresa de caminhões autônoma com seis meses apenas de existência.

O valor dessas transações chegou a cerca de US $ 10 milhões por engenheiro. Uma empresa iniciante com três pessoas, por exemplo, foi avaliada em US $ 30 milhões.

Na semana passada, a Ford, que fechou temporariamente as fábricas por causa do vírus, empurrou o lançamento de seu serviço autônomo de 2021 para 2022.

Na Waymo, a unidade autônoma da empresa-mãe do Google, Alphabet, a pandemia atrasou o trabalho por pelo menos dois meses por causa das regras de distanciamento social e problemas para obter hardware de outros países. 

A pesquisa sobre direção autônoma foi prejudicada, em parte, por uma morte no Arizona. Em março de 2018, um dos veículos autônomos da Uber matou um pedestre. Muitas empresas tiraram seus carros temporariamente da estrada e depois que foi revelado que apenas um técnico estava dentro do carro do Uber, a maioria das empresas resolveu manter duas pessoas em seus veículos de teste o tempo todo.Foi um momento claro em que toda a indústria deixou de ser um mercado em alta para um mercado em baixa. Ficou claro que a tecnologia estava longe de ficar pronta. Os carros ainda cometiam erros de maneiras inesperadas. E resolver os obstáculos de segurança levaria muito mais tempo do que o esperado. Com essas dificuldades muitas empresas quebraram ou foram vendidas para quem tinha caixa para aguentar o tranco. Por exemplo, no ano passado, a Drive.ai, uma start-up apoiada por US $ 77 milhões, foi vendida para a Apple. Ficou claro que o desenvolvimento de veículos autônomos vai exigir muitos recursos só disponíveis para os realmente grandes players.

Marketplace: a terceirização do comércio

por Evandro Milet

O setor de marketplaces movimentou R$ 100 bilhões em 2019 no Brasil e chegará a R$ 162 bilhões, ou mais, em 2022. O modelo de negócio funciona como um shopping center virtual, abrigando lojistas independentes, que ganham exposição e facilidades diversas de acesso ao mercado, em troca de um percentual em torno de 12% das vendas. Algumas plataformas trabalham apenas nesse modelo, enquanto outras agregam o modelo marketplace ao ecommerce normal onde negociam com seus próprios fornecedores. No ecommerce brasileiro o Mercado Livre tinha pouco mais de um terço do varejo online em 2019, seguido por B2W (com 20%), Magalu (cerca de 13%) e Via Varejo (8%), mais recentemente a gigante Amazon que operava levemente ampliou suas atividades no Brasil, incluindo o marketplace.

A B2W, dona de Americanas.com e Submarino, criou o sistema mais completo do mercado de comércio eletrônico entre as empresas de capital nacional (Magazine Luiza e Via Varejo são bem menores). São 55 mil lojistas e 30 milhões de itens à venda na sua plataforma que oferece cardápio completo para um lojista: crédito, logística de armazenagem, embalagem e entrega, SAC, gestão integrada de vendas nessa e outras plataformas, ERP e backoffice e publicidade na rede, caracterizando o que poderia ser chamado de ecommerce-as-a-service. 

As plataformas aceitam vendedores até sem o CNPJ, apenas com CPF, e as internacionais como Amazon e a gigante chinesa Alibaba propiciam espaço para vender em vários países, ampliando exponencialmente a oportunidade de exportação para empresas brasileiras. 

No varejo brasileiro são 5 milhões de empresas com CNPJ e apenas 50.000 vendem online. Com a crise da pandemia, que atingiu duramente o comércio, o Magazine Luiza tirou rapidamente da gaveta o projeto “Parceiro Magalu”, com regras simples de adesão e taxas baixas. Em uma semana, 160 mil trabalhadores autônomos e 15 mil empresas entraram na plataforma vendendo seus produtos. O espaço para pessoas físicas já abrigava 200.000 vendedores. A meta é atingir milhões de pessoas que são autônomas e não podem sair de casa.

Já a Via Varejo, dona das Casas Bahia, Extra.com e Ponto Frio, colocou cerca de 20.000 vendedores, impedidos de ir às lojas, a vender no WhatsApp. A última tendência está na aposta em revendedores pessoas físicas, uma espécie de modernização do vendedor da Avon, que ganha comissão a produto vendido a um amigo, utilizando as populares lives para vender de tudo.

Nesse ambiente de desemprego e isolamento social é um alento e oportunidade para muita gente.

PicPay: Isolamento multiplica antenados no setor financeiro

A necessidade de isolamento social acelerou a curva de adoção de serviços mais modernos

Por GUEITIRO GENSO – 8 maio 2020

Na história da humanidade, a inovação sempre seguiu um ciclo de adoção, mas foi em 1962 que o professor de psicologia Everett M. Rogers conseguiu desenvolver uma teoria chamada “difusão de inovação” ou “curva de adoção”. Ele queria explicar por que algumas pessoas adquirem novos produtos ou adotam novos comportamentos antes de outros.

Durante a avaliação da teoria, ele concluiu que as pessoas são classificadas em cinco perfis, de acordo com o tempo que demoram para fazer a aquisição de um novo produto ou de uma nova solução. São eles: inovadores, adotantes iniciais, maioria inicial, maioria tardia e, finalmente, retardatários.

A teoria dá conta de explicar o fenômeno da adoção da inovação em diversos mercados e setores – e no financeiro não foi diferente. Entre a época das transações financeiras realizadas presencialmente em um guichê e o momento atual, em que podemos fazer tudo pelo smartphone, experimentamos o ATM e o Internet Banking, sempre tendo a curva de adoção de uma nova tecnologia presente no contexto.

Outro fenômeno observado durante essa evolução tecnológica no mercado é que, à medida que evoluiu o canal, mais o consumidor se empoderou, a ponto de hoje estar na mão dele a decisão de trocar de marca no sistema. Basta deletar um aplicativo e fazer o download de outro.

Voltando ao ciclo de adoção no sistema financeiro, já vínhamos assistindo à adoção pelo consumidor brasileiro, em larga escala, do uso do smartphone como meio para fazer todas as suas transações financeiras.

Ocorre que a necessidade de isolamento social acelerou essa curva de adoção. No último mês, os maiores bancos brasileiros intensificaram campanhas de divulgação de seus apps, acelerando a educação digital.

Resultados podem ser vistos. Um dos cincos maiores bancos brasileiros, por exemplo, divulgou que 1,5 milhão de clientes que nunca tinham usado serviços financeiros por seu aplicativo tiveram essa experiência pela primeira vez.

Não foi diferente nas fintechs, nas empresas que nasceram com DNA digital ou que têm o propósito de levar soluções financeiras por meio do smartphone. Apenas no PicPay, maior carteira digital do país, com 19 milhões de usuários, foram abertas mais de 3 milhões de contas digitais de pagamento no mês de abril.

Esse fenômeno de aceleração da curva de adoção traz ganhos para a sociedade. Neste momento em que a prioridade é cuidar da saúde, o pagamento à distância é, de fato, uma forma de diminuir os riscos de contágio do coronavírus. Além desse benefício, as carteiras digitais estão conseguindo levar soluções para o comércio local, que está passando pela reinvenção do seu modelo de negócio.

Como forma de ajudar os pequenos comerciantes locais a sobreviverem em época de isolamento, o PicPay, aceito em mais de 2,5 milhões de estabelecimentos comerciais, lançou o “link de pagamento”, para cobranças à distância. Assim, a curva de adoção de novas tecnologias é acelerada também nos pequenos negócios.

Gueitiro Genso é CEO do PicPay.

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Negócios da China: a dependência do mundo

Uma pesquisa recente de uma TV italiana perguntou aos assinantes qual país fora da Europa eles preferiam como aliado. De 800 que responderam, 36% responderam China e só 30% responderam Estados Unidos. A Itália não conseguiu, na própria Europa, apoio quando foi atingida duramente pela pandemia. A China tem usado a sua capacidade de produção na área médica como soft power, na Itália e outros países, agora que está saindo da crise do coronavírus. Jack Ma, o bilionário co-fundador da Alibaba, um gigante do e-commerce, enviou aviões com respiradores, testes e kits de proteção para todos os 54 países da África. A Huawei, que disputa no mundo a implantação das redes 5G e que é tratada nos Estados Unidos como ameaça à segurança, já entregou grande partida de máscaras, óculos de proteção e luvas para hospitais de Nova York. E também doou uma infinidade de máscaras para países onde disputa a implantação de redes 5G e enfrenta a forte oposição política dos Estados Unidos, como Canadá e Holanda. Da mesma forma quando Trump resolveu retirar seu apoio financeiro à OMS, a China cobriu e também já contribui com 55% do que os EUA aportam na ONU.

Hoje, cerca de 16% do PIB mundial é chinês, muito mais do que os 4,3% na crise sanitária anterior de grandes proporções, a epidemia da Sars, em 2002-3. Essa presença cria problemas por outro lado. A China se transformou na fábrica do mundo, inicialmente pelo baixo custo de mão de obra e depois também pela alta produtividade e pela tecnologia que aprendeu a desenvolver. Com a crise atual, a concentração na China da produção de uma série de insumos das cadeias globais provocou a interrupção de indústrias no mundo, inclusive no Brasil. A China é a maior fornecedora de autopeças para o Brasil, com US$ 13,2 bilhões importados no ano passado. Boa parte da eletrônica embarcada vem da China e 50% da frota brasileira hoje tem câmbio automático, que não é feito no país.

Na atual crise o mundo também percebeu que o setor de fármacos está concentrado. Talvez 80% dos insumos consumidos no Brasil venham da China e da Índia, que restringiu exportações para privilegiar seus cidadãos. Nos EUA, a importação de fármacos é de 72% e máscaras cirúrgicas são 95% importadas da China.

Quase três quartos dos anticoagulantes importados pela Itália vêm da China. O mesmo vale para 60% dos antibióticos importados pelo Japão e 40% dos importados por Alemanha, Itália e França. O governo japonês resolveu repensar toda a sua cadeia de fornecimento para ter, pelo menos, alternativas em outros países asiáticos. EUA fazem a mesma coisa, pensando primordialmente no México como alternativa. No Brasil, o Ministério da Defesa está estudando o problema. Pode ser oportunidade para o Brasil de atrair novas indústrias,  se conseguir reduzir os custos e pode ser um baque, não se sabe ainda de qual tamanho, para a indústria chinesa.

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O Brasil foi o único país do G20 a aumentar exportações neste ano

Por Murillo de Aragão – Atualizado em 8 maio 2020, 10h52 – Publicado em 8 maio 2020

Em meio às trevas da pandemia provocada pelo novo coronavírus, brilham pontos de luz sobre a economia brasileira. A divulgação do balanço do comércio exterior no primeiro quadrimestre deste ano trouxe excepcionais notícias.

A Organização Mundial do Comércio prevê que o comércio internacional cairá entre 13% e 32% em 2020. O Brasil, contudo, surpreendeu no período apresentando a menor variação de fluxo. O país foi o único do G20, grupo das vinte maiores economias do mundo, a expandir seu volume exportado num cenário bastante adverso.

No caso brasileiro, não se verifica queda da demanda por parte da Ásia. O Brasil exportou mais ainda para aquela região nos primeiros meses do ano do que o habitual.

Aliás, mesmo sem considerar a China e o Japão, as duas maiores economias asiáticas, o Brasil vende mais para o resto do continente do que para os Estados Unidos e o México juntos. Com China e Japão na conta, o resultado é espetacular.

O quadro é ainda mais positivo se considerarmos que a Ásia deve sair da crise antes das outras regiões do planeta. Continuando a comprar do Brasil, sobretudo proteína, nos ajudará a minimizar os efeitos de uma recessão.

No período examinado já batemos recordes históricos de venda de carne suína e bovina para a China. A demanda chinesa por minério de ferro também não recuou. Para completar, o quadro recessivo empurrou para baixo os fretes marítimos. Assim, exportar ficou mais barato.

Tanto durante a pandemia quanto na saída da crise, o mundo continuará a precisar de alimentos

São excelentes notícias. Provavelmente no fim do ano teremos o maior superávit comercial da história em nossas relações com a China. Em parte, pela queda de nossas importações. Mas o aumento de nossas exportações é muito positivo.

Já somos o maior exportador de soja em grão, suco de laranja, carne bovina, carne de frango, café e açúcar. Estamos entre os maiores na exportação de minério de ferro, carne suína, farelo de soja e milho. São produtos de demanda pouco elástica e que continuarão a ser bastante procurados mundo afora. O Brasil já se transformou em celeiro do mundo e somos, juntamente com os Estados Unidos, uma verdadeira superpotência agroexportadora.

Ser otimista em tempos de tragédia econômica é um risco. Mas a análise fria dos dados de nosso comércio internacional ante as nossas potencialidades indica que, pelo menos nesse segmento, teremos notícias positivas.

Nouriel Roubini e Ray Dalio, dois expoentes das finanças internacionais, acreditam que o mundo poderá viver uma grande depressão nos anos vindouros. As exportações de bens alimentícios e outros itens em que o Brasil apresenta vantagens comparativas serão importantes para que o país evite esse cenário. Pois, tanto durante a pandemia quanto na saída da crise dela decorrente, o mundo vai continuar a precisar dos alimentos brasileiros, o que se caracteriza como uma situação estratégica favorável para nós.

Por fim, analisando as perspectivas de nosso comércio internacional, a política externa brasileira deve ser, no melhor interesse do país, orientada por decisões pragmáticas que atendam aos nossos objetivos estratégicos.

Publicado em VEJA de 13 de maio de 2020, edição nº 2686

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Trabalho Remoto: boas práticas para gerir seu time durante o período de isolamento

Publicado em: 23 de março, 2020 | Atualizado em: 26 de março, 2020

Endeavor Brasil

Endeavor Brasil

A Endeavor é a organização líder no apoio a empreendedores de alto impacto ao redor do mundo. Presente em mais de 30 países, e com 8 escritórios em diversas regiões do Brasil.

Do dia para a noite, é provável que sua empresa precisou migrar para o trabalho remoto. Se essa ainda não é a realidade, deveria ser a partir de hoje. A disseminação exponencial do vírus Covid-19 pede de todos os empreendedores e empreendedoras ações ágeis e resolutas. Dessa forma, contribuímos para o isolamento social que combate a disseminação do vírus.

Para lidar com esse desafio de migrar todo o seu time para o modelo remoto, na última semana, realizamos três mentorias online com empreendedores e mentores da nossa rede: Alessio Alionço e Igor Alves do Pipefy, Cristian Medeiros, CTO do Olist, Fabio Boucinhas, CEO da Home Agent e Roberta Vasconcellos, CEO da BeerOrCoffee.

Confira os principais aprendizados!

Um novo mindset para o trabalho remoto

Não adianta mudar para o modelo remoto e esperar todos online das 9h às 18h. Defina quais resultados e entregas esperadas para cada função. No modelo remoto, você não poderá controlar horário de trabalho, ou tempo online, mas terá visibilidade pelas entregas e critérios de sucesso definidos com cada um.

Comunique muito, o tempo inteiro. De forma remota, o time vê o dia a dia por fotos. No escritório, presencialmente, era possível ver o filme. A percepção é diferente, por isso a quantidade de fotos que a pessoa remota vê, permite que ela tenha um filme mais completo.

Pontos de Controle

Para acompanhar os resultados e entregáveis do time, no modelo remoto, leve em consideração alguns KPIs.

Lagging Indicators: são os indicadores de resultado, especialmente se têm correlação com uma meta final do negócio. Por exemplo, total de vendas, recrutamento, Marketing e Operações.

Leading Indicator: são os indicadores de tendência, relacionados ao que precisa ser feito hoje para chegar a um determinado resultado amanhã. Por exemplo: número de ligações para clientes.

Entregáveis dos projetos: use a Matriz 5W2H para deixar claro o critério de sucesso do projeto.

Saúde mental do time

A principal atenção agora é com as pessoas. Tenha disciplina com processos e rituais para sentir a temperatura do time. Acompanhe como eles estão se sentindo nesse período de incerteza, mostre-se disponível e seja fonte de otimismo e segurança.

Tenha um canal – por Slack, e-mail ou Whatsapp – para suporte técnico, psicológico e de informações sobre casos de contaminação na equipe.

Em toda reunião, seja 1:1 ou coletiva, comece fazendo um checkpoint pessoal. Pergunte o que as pessoas fizeram no fim de semana, como estão se adaptando ao trabalho remoto, como está a família e a rotina de casa. Esse quebra-gelo é uma calibragem para os líderes.

O quebra-gelo também pode ser uma música tocada por um minuto para mudar o astral de todos e ajudar na conexão com o momento presente.

Estimule as conversas de café, comuns no modelo presencial, por meio de happy hours virtuais, reuniões de time semanais ou sorteios no Slack para uma pessoa, a cada semana, compartilhar o que tem aprendido sobre um tema específico.

Convide o time a estabelecer horários para começar a trabalhar, almoçar, pausar e, enfim, encerrar o dia.

Faça reuniões de videoconferência com a câmera aberta. Faz diferença olhar para o rosto de todos.

Estrutura de trabalho home-office

Considere oferecer uma quantia mensal específica para gastos com internet e luz das pessoas do time.

Dê suporte para a transição de trabalho remoto. Funções mais operacionais e junior precisam mais de seu apoio, do que cargos seniores. Ofereça um suporte financeiro, se necessário, para compra de cadeira ou banda de internet – e ofereça orientações de como seguir a rotina de trabalho.

Deixe aberto o canal para quem precisar de ajuda para configurar esses ambientes. Dessa forma, você lida com necessidades de compra de mesas, cadeiras e computadores avaliando cada caso.

Processos e rituais

Trabalho remoto demanda processos melhores. Das coisas mais triviais às mais complexas, é importante que você tenha processos bem documentados e que você revisite sempre que achar necessário.

Ter as ferramentas necessárias evita que você caia na microgestão. Quem trabalha de casa tem sempre a dúvida: “será que estou fazendo certo?”. Se não há um processo no qual a pessoa expresse o que está fazendo, a insegurança permanece.

Defina os canais de comunicação de acordo com a urgência de cada mensagem – e avise todo o time do protocolo. Mensagens urgentes pedem que você ligue, ou mande um WhatsApp, por exemplo. Já se é algo menos urgente, use o Slack, ferramenta de chat ou e-mail.

Trabalho remoto costuma aumentar a produtividade média. Esse pico de concentração com processos sólidos ajuda a ter mais rastreabilidade para gestão do time.

Mantenha todos os rituais, mesmo que adaptados para o modelo remoto. Agora, mais do que nunca, o time precisa dessa rotina e das interações.

Onboarding

Migre o onboarding para o modelo remoto, com uma agenda que permita interações. Use como benchmark a apresentação de Onboarding da Loft.

Ferramentas

Conte com três ferramentas: uma de chat, uma de videoconferência, e uma de trabalho colaborativo simultâneo. Evite grupos de Whatsapp para gestão dos times.

Para ferramentas de chat, use o Slack, o Google Hangouts ou o Tandem.

Para ferramentas de videoconferência, use o Zoom, o Google Hangouts Meet ou Skype for Business.

Para ferramentas de trabalho colaborativo, use o Google Drive ou o One Drive.

Experimente também uma ferramenta de escritório virtual que simule a experiência do escritório físico como o Matrix, Open Source lançado pela RD, ou o Sococo.

Para coordenação do trabalho do time de desenvolvedores, conte com um Kanban virtual como o Jira.

Para gestão do conhecimento, use o Google Sites, o Confluence ou o Notion.

Para gravação de vídeos curtos, em vez de áudios de WhatsApp, use o Loom.

Ao longo das próximas semanas, vamos atualizar diariamente o Benchmark Endeavor Covid-19 um data room inédito com planos de ação das empresas apoiadas, orientações sobre o impacto financeiro da crise e outros temas que te ajudam a navegar pela crise.

Estamos todos, ao redor do mundo, em um túnel com pouca luz, sem saber o que nos espera logo à frente, com a repercussão econômica do vírus. Precisamos, por isso, de coragem para dar um passo depois do outro. Afinal, quanto mais você anda, mais você vê.

Continue caminhando – e conte com a rede da Endeavor ao seu lado.

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Pensando Home Office

por Evandro Milet

Em média, 70% dos funcionários de todos os os setores estão trabalhando em casa. Na indústria são mais de 50%, nos serviços 76%, no terceiro setor mais de 85% e no comércio 23% segundo uma pesquisa da Fundação Dom Cabral. E mais de 70% das empresas de todos os setores da economia brasileira esperam que as novas práticas de home office adotadas durante a pandemia permaneçam, integral ou parcialmente, após a crise do coronavírus.

Os profissionais também estão gostando, muitos sentem que a produtividade é igual, porém as preocupações são naturais: falta de interagir com colegas, distanciamento dos chefes ou como será a avaliação. Há compensações como ganho de tempo sem deslocamentos menos despesas com roupas. Assim, mais de 54% dos colaboradores afirmaram que irão pedir à gestão pela continuidade do trabalho remoto no pós pandemia. 

Alguns outros problemas são naturais, a importância da disciplina e do foco, a organização de horários, a convivência com crianças e a mistura de atividades, principalmente para as mulheres, normalmente mais cobradas pelas atividades domésticas, na atual sociedade.

Essas conclusões provocam impactos de outra natureza. Os escritórios passam a ocupar uma importância maior nos projetos arquitetônicos residenciais, tomando o lugar da antiga novidade das varandas gourmet e ocupando muitas vezes o espaço das antigas dependências de empregadas. Aumenta a importância da infraestrutura tecnológica, sejam redes estáveis e backups seguros, seja a preocupação com ciberataques, além do problema de confidencialidade e sigilo em discussões ao vivo de assuntos sensíveis, com toda a família junto. Algumas empresas se propõem a equipar o home office dos seus colaboradores, com TI, telefones e mobiliário.

Alguns colaboradores gostarão de morar perto do trabalho para reduzir o uso de transporte público e outros se permitirão residir fora dos grandes centros se a interação presencial for mais espaçada.

Por seu lado os escritórios devem voltar ao passado: saem os grandes espaços abertos com mesas compartilhadas, voltam salas com divisórias. Elas facilitam o distanciamento social e reuniões por videoconferências, que crescem conectando mais frequentemente o escritório com os colaboradores em home-office. 

Durante muito tempo as exigências de higienização de ambientes, uso de álcool gel e máscaras, e o distanciamento entre pessoas vão exigir uma reorganização de espaços, bem como cuidados extra com ar condicionado, utilização de elevadores sem botão, móveis fáceis de limpar, portas sem maçanetas e limpeza permanente de corrimões, teclados, monitores, mouses, mesas e tudo mais que possa ser tocado.

As empresas começam a considerar o uso de espaços menores, o que impacta o mercado de construção civil para imóveis comerciais.

O RH e a liderança precisarão analisar e criar novas rotinas para conseguir produtividade, engajamento e motivação na gestão remota, para inserção de novos colaboradores na rotina da empresa e para o treinamento que muda todo o seu formato.

Essas novas atividades terão que conviver com as anteriores pois, apenas uma parte dos colaboradores estará em home office. Esse número dependerá do setor, da empresa, e do tipo de atividade do colaborador. Enfim, um grande desafio para gestores.

Movimento pós-pandemia

Por esse gráfico vemos como alguns setores estão se movimentando com o processo de abertura pós-pandemia na China. Os portos voltaram ao movimento anterior, certamente puxados pelo comércio de alimentos, o que nos interessa diretamente. A ocupação de hotéis fica a 50% depois de cair a 15%, a movimentação dos consumidores fica também em 50% do que era e a grande pancada vem para a aviação, que depois de cair a menos de 10% não dá sinal de grande ânimo de recuperação, com menos de 30% do movimento anterior.

Na Europa a coisa ainda foi pior, em abril ainda a ocupação de hotéis na Espanha e Itália não chegava a 5%, assim como também a aviação, apesar do turismo representa 4% do PIB europeu.

Não se sabe ainda quanto tempo vai demorar o setor de turismo a se recuperar. Viagens internacionais ficam prejudicadas com as pessoas temerosas de ambientes fechados como os aviões e as exigências de quarentena em muitos países. Viagens de negócios tendem a ser reduzidas em algum percentual ainda não muito claro, por fatores como esses e mais o crescimento das reuniões por plataformas digitais que todos estão se habituando a utilizar.

Essa redução da movimentação em aeroportos ocorrida também no Brasil, joga água fria nos leilões de concessão de 22 aeroportos nas regiões Norte, Sul e Centro-Oeste previstas inicialmente para este ano ainda e com certeza adiados. Toda a modelagem terá de ser calculada para a nova movimentação e certamente há dúvida se aparecerão interessados. Do mesmo modo, as concessões para estradas deverão ser reavaliadas com a redução significativa do tráfego. De outro lado, o leilão de concessão de 15 terminais portuários deve acontecer mesmo neste ano como previsto, considerando que a exportação de commodities está promissora, principalmente pela saída da China da pandemia.

O setor de turismo terá que se reinventar enquanto a movimentação não volta e, pelo jeito, vai demorar. Um exemplo de inovação vem de Cingapura, onde dois navios de cruzeiro, parados sem possibilidade de viagens tão cedo, estão sendo avaliados pelo governo para a utilização como residência provisória de trabalhadores estrangeiros, que costumavam dormir amontoados em ambientes perigosos para propagação do coronavírus.

Enfim, cada setor com seus problemas.

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