Como a IA pode criar o primeiro unicórnio de uma pessoa só

Tecnologia está permitindo que empreendedores iniciem e desenvolvam negócios sozinhos

Folha/The Economist – 14.ago.2025 

Sarah Gwilliam não é engenheira de software nem, confessa ela, “fala a língua da IA”. Mas após a morte de seu pai ela teve a ideia de criar uma startup de inteligência artificial generativa que ajudaria outras pessoas como ela a lidar com o luto e organizar as pendências de seus entes queridos falecidos. Algo como um planejamento de casamento, mas para funerais.

Sua empresa, Solace, ainda é mais uma startup em estágio inicial do que um negócio estabelecido. Mas além dela mesma, quase nenhum ser humano está ajudando a construí-la.

Ela se juntou a uma incubadora movida por IA, a Audos, que considerou sua ideia promissora. Os bots da incubadora ajudaram a estabelecê-la na internet e no Instagram.

Se sua ideia der certo, a incubadora não apenas fornecerá capital; seus agentes de IA apoiarão Gwilliam no desenvolvimento de produtos, vendas, marketing e trabalho administrativo, tudo em troca de royalties. Ela não precisa de funcionários. Na prática, a IA ajudou a cofundar a empresa. “Não consigo expressar o quão empoderador isso foi”, diz ela.

Como é de costume, o Vale do Silício já adotou um neologismo que descreve fundadores solitários como Gwilliam: são “solopreneurs” (empreendedores solo).

Nos círculos de tecnologia, há apostas sobre qual deles provavelmente criará o primeiro unicórnio de uma pessoa só —uma empresa não listada em Bolsa avaliada em mais de US$ 1 bilhão.

Alguns esperam que a IA generativa torne o início de um negócio tão barato e descomplicado que qualquer pessoa poderá se tornar empreendedora, assim como qualquer um pode se tornar um YouTuber —uma lufada de ar fresco no concentrado cenário empresarial americano. Se pessoas como Gwilliam conseguirão escapar do sufocante controle dos gigantes da tecnologia, no entanto, é outra questão.

Revoluções tecnológicas têm o hábito de sacudir a maneira como as empresas fazem negócios. A crescente importância das máquinas combinada com a expansão das redes de transporte no final do século 19 levou ao surgimento de corporações gigantes

Ronald Coase, um economista britânico, argumentou em seu artigo de 1937 “A Natureza da Firma” que a existência dessas corporações era um testemunho da eficiência de consolidar e gerenciar o trabalho dentro dos limites de um negócio, em vez de terceirizar atividades para o mercado.

Isso, no entanto, começou a mudar com o surgimento das comunicações digitais. As empresas não só podiam terceirizar mais facilmente a fabricação e os trabalhos administrativos para países de baixo custo, como também podiam contar com plataformas de internet como o Google para marketing e Amazon Web Services para computação.

O avanço da IA pode acelerar essa tendência, à medida que agentes semiautônomos fornecidos pelo Vale do Silício permitem que empresas realizem a mesma quantidade de trabalho com menos funcionários.

Henrik Werdelin, cofundador da Audos, diz que o surgimento da computação em nuvem o ajudou a iniciar vários novos negócios nos últimos 20 anos com pouco mais do que um cartão de crédito para começar. Ele descreve a IA como a próxima onda nessa “democratização”.

“Você não precisa programar, não precisa saber usar o Photoshop, porque pode obter ajuda da IA para isso.” Isso, ele espera, dará origem a uma enxurrada de startups construídas por pessoas como Gwilliam, sem experiência em tecnologia, mas que identificaram problemas reais para resolver.

Outro evangelista é Karim Lakhani da Harvard Business School. A escola agora oferece um curso de liderança para executivos no qual eles usam IA generativa para construir uma empresa de snacks em 90 minutos, usando a tecnologia para realizar pesquisas de clientes, gerar receitas, encontrar fornecedores e projetar embalagens.

Em um artigo recente, Lakhani e seus coautores apresentaram um experimento de campo no qual 776 profissionais da Procter & Gamble, uma empresa de bens de consumo, foram solicitados a atender a uma necessidade real de negócios, individualmente ou em equipes de duas pessoas, com e sem o uso de ferramentas de IA generativa.

Descobriu-se que a IA aumentou significativamente o desempenho, ajudando indivíduos com IA a igualar o desempenho de equipes sem ela. A IA provou ser mais um “colega de equipe” do que uma ferramenta.

Com o fim da era do dinheiro fácil, os fundadores estão ansiosos para encontrar maneiras de reduzir custos. Peter Walker, da Carta, que ajuda startups a gerenciar a propriedade de ações, diz que os fundadores costumavam se gabar de quantos funcionários tinham. “Agora é motivo de orgulho dizer: ‘poucas pessoas trabalham para mim’.”

De acordo com os dados da Carta, o período médio que os fundadores levam para contratar seu primeiro funcionário após a incorporação de sua startup aumentou de menos de seis meses em 2022 para mais de nove meses em 2024.

A Base44, uma startup de programação nativa de IA, ganhou manchetes recentemente quando foi vendida para a Wix, uma plataforma de desenvolvimento web, por US$ 80 milhões. Tinha apenas oito funcionários.

Estamos, é claro, apenas no início. Por um lado, os agentes de IA estão longe de serem infalíveis. Em junho, a Anthropic, um laboratório de IA, revelou os resultados de um experimento no qual seu modelo Claude Sonnet operava uma máquina de venda automática na sede da empresa. O objetivo do bot era evitar a falência.

Ele era bom em identificar fornecedores e se adaptar às solicitações dos usuários (incluindo a busca por um cubo de tungstênio solicitado por um funcionário travesso). Mas ignorou oportunidades lucrativas, teve alucinações, ofereceu muitos descontos e, por fim, não conseguiu ganhar dinheiro.

Outras forças também podem atrapalhar um aumento impulsionado pela IA no empreendedorismo. Apesar do crescimento da internet, das redes sociais, do software como serviço e da computação em nuvem nas últimas três décadas, a formação de empresas nos Estados Unidos foi fraca até a pandemia —resultado, em parte, de uma população envelhecida. Essa pressão demográfica só se intensificará.

Apesar de toda a promessa da IA generativa, ela também apresenta problemas para os empreendedores. Annabelle Gawer, da Universidade de Surrey, observa que, embora a tecnologia reduza as barreiras de entrada para novos negócios, também facilita a rápida cópia de ideias. A menos que um fundador tenha expertise única em seu domínio, isso pode dificultar a sustentação de uma vantagem competitiva.

Além disso, o fornecimento de ferramentas de IA é dominado por gigantes da tecnologia e pelos laboratórios em que investem, como a OpenAI, apoiada pela Microsoft, e a Anthropic, apoiada pela Amazon e Google. Gawer faz uma analogia com o surgimento da computação em nuvem na década de 2010, área dominada pelos três gigantes da tecnologia.

Embora essa infraestrutura tenha facilitado a vida das startups, também as deixou dependentes do triunvirato da nuvem, que conseguiu capturar uma boa parte do valor que essas empresas geraram. No ano passado, os lucros líquidos do trio equivaliam a 7% do total dos Estados Unidos, acima dos 2% de uma década antes.

Outra possibilidade irritante é que os gigantes da tecnologia possam roubar as melhores ideias das empresas menores. Por enquanto, Gwilliam, da Solace, está tranquila. O que ela chama de “desvantagem de ser pioneira” poderia ser “um aborrecimento”, mas também poderia validar sua ideia.

“Talvez eles venham até mim e digam: ‘Queremos a Solace’. E então eu direi: ‘Ótimo, vendido!'” Como uma empreendedora tradicional, afinal.

IA pode criar o primeiro unicórnio de uma pessoa só – 14/08/2025 – Mercado – Folha

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Robô chinês aprende a jogar dados; será que aprenderá a lavar a louça?

História de Amy Gunia, Kristie Lu Stout  –  msn – 02/07/2025

Robô chinês aprende a jogar dados; será que aprenderá a lavar a louça?

Robô chinês aprende a jogar dados; será que aprenderá a lavar a louça?

O AlphaBot 2 quer superar os humanos em seu próprio jogo. Quando perguntado se quer jogar dados, ele pode interpretar a questão e entrar em ação – pressionando o botão de um lançador automático de dados. Ele pode até reagir à pontuação do oponente com um polegar para cima se vencer. 

O humanoide, criado pela AI² Robotics, com sede em Shenzhen, China, demonstrou suas habilidades na recente Beyond Expo, na região administrativa especial chinesa de Macau, onde jogou com os participantes da conferência de tecnologia, incluindo jornalistas da CNN. 

A capacidade do robô de entender instruções foi possibilitada pela inteligência artificial incorporada – a integração de sistemas de IA em entidades físicas – permitindo que ele interaja e aprenda com o mundo ao seu redor. “Na última era dos robôs, as pessoas precisavam programá-los para dizer o que fazer”, disse Yandong Guo, CEO da AI² Robotics, à correspondente da CNN Kristie Lu Stout durante a conferência. “Agora você apenas diz o que fazer, e o robô pode entender o ambiente.” Guo acrescenta que o robô levou apenas minutos para aprender a jogar.

 “Nós apenas mostramos ao robô o que fazer, talvez cinco a 10 exemplos, e o robô consegue aprender.” Enquanto chatbots de IA como o ChatGPT se tornaram familiares, muitos especialistas dizem que a IA incorporada é a próxima grande novidade na área. 

Empresas em todo o mundo estão desenvolvendo robôs humanoides com IA, incluindo Tesla e Figure AI, com sede na Califórnia, que tem entre seus investidores grandes empresas de tecnologia como Microsoft e Nvidia. Na China, a IA incorporada está recebendo sério apoio nacional, incluindo financiamento, centros de inovação e até uma escola de robótica. 

Somente Shenzhen abriga mais de 200 empresas focadas nessa tecnologia, segundo a mídia local. Autoridades veem a tecnologia como um potencial motor do crescimento econômico, e nos últimos anos, robôs nacionais têm chamado atenção por habilidades que vão desde dar chutes giratórios até correr uma meia maratona (embora não muito rapidamente). 

Mordomos robóticos 

Atualmente, robôs já são utilizados globalmente em ambientes industriais, como fábricas de automóveis. Muitos robôs são programados para completar tarefas rotineiras, mas as coisas estão mudando em direção ao uso da IA incorporada, diz Harry Yang, professor assistente da Universidade de Ciência e Tecnologia de Hong Kong.

“À medida que as tarefas se tornam mais complexas, você precisa que os robôs vejam, entendam e ajam com base em diferentes situações”, afirma. O AlphaBot 2 – que vem equipado com o modelo de IA incorporada desenvolvido pela própria AI² Robotics – já possui clientes em serviços industriais, biotecnologia e serviços públicos, segundo a empresa. Em uma fábrica operada pela montadora Dongfeng Liuzhou Motor Co., ele carrega e descarrega materiais, reboca carrinhos e fixa etiquetas em para-brisas. 

Hoje, a maioria dos robôs não possui a capacidade tecnológica para ser útil em uma residência. A UBTech Robotics, listada em Hong Kong, planeja lançar um robô doméstico companheiro de US$ 20.000 (mais de R$ 100.000, segundo a cotação atual) este ano, segundo a Bloomberg, mas a empresa disse que a tecnologia ainda está a anos de distância de poder ajudar com tarefas domésticas e cuidar de humanos. Isso ocorre porque é difícil obter dados de treinamento suficientes para simular os diversos ambientes domésticos em que as pessoas vivem, dizem os especialistas. 

Mas o Morgan Stanley estima que 80 milhões de humanoides serão usados em residências até 2050, conforme a tecnologia avança. Guo já está imaginando como seus robôs poderão ajudar os consumidores. “Se você quiser beber um chá”, diz ele, “o robô pode saber onde pegar o saquinho de chá, onde conseguir água quente e como despejar a água quente na xícara e fazer o chá para você.” 

E não é só isso: “Depois que comemos, espero que nosso robô possa limpar todos os pratos para nós. Adoramos cozinhar, mas não gostamos de lavar a louça”, acrescentou Guo. “Um robô para cada família” A realidade que Guo imagina ainda está distante. Os preços precisarão cair. A AI² não quis revelar o preço de seus humanoides, dizendo que seus robôs são personalizados conforme os requisitos do cliente, então não há um preço fixo. 

Humanoides produzidos por algumas outras empresas na China custam quase US$ 15.000 (mais de R$ 8.000) e, dentro de cinco anos, o preço de um humanoide AI² poderia cair para o valor de um carro básico acessível a uma família de classe média, diz um porta-voz. “O desafio aqui é que é muito caro fazer um”, diz Yang. “Talvez você prefira contratar alguém (para trabalhar em sua casa), é mais barato e mais fácil.” 

A segurança é outra preocupação importante; um robô caindo sobre uma pessoa pode causar ferimentos. Especialistas também levantaram preocupações sobre os riscos à privacidade de um robô doméstico coletando dados das pessoas através de câmeras e microfones. Guo afirma que os consumidores chineses têm certa ansiedade sobre o uso de robôs humanoides, e a empresa leva em consideração a segurança e privacidade ao desenvolver seus produtos, mas acrescenta: “Você ficaria surpreso em ver quantos clientes na China estão dispostos a ter robôs.” 

Yang diz que provavelmente levará cerca de cinco a 10 anos antes que os robôs humanoides possam ser verdadeiramente úteis em casa. A AI² Robotics afirma que no terceiro trimestre de 2025 seus robôs serão lançados em aeroportos das principais cidades chinesas para tarefas como organizar carrinhos de bagagem para passageiros. Em três a cinco anos, eles podem estar prontos para instalações geriátricas, segundo ele. Os robôs estarão aprendendo ao longo do caminho. 

“Precisamos obter muitos dados para que o robô aprenda, para ter esse tipo de senso comum”, diz ele. Isso poderia ajudar a empresa a se aproximar de seu objetivo. “Nosso sonho é ter um robô para cada família”, afirma. https://stories.cnnbrasil.com.br/tecnologia/60-dos-brasileiros-usariam-carros-voadores-diz-pesquisa/

Robô chinês aprende a jogar dados; será que aprenderá a lavar a louça?

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Como a Novo Nordisk, fabricante do Ozempic, perdeu seu brilho após criar um fenômeno

Farmacêutica já foi a empresa mais valiosa da Europa, mas analistas dizem que série de erros reverteu expectativas

Eshe Nelson – Folha/The New York Times – 8.ago.2025

Por anos, nada parecia deter a Novo Nordisk, a farmacêutica dinamarquesa por trás do Ozempic. Seu medicamento para diabetes tornou-se um fenômeno cultural por sua capacidade de induzir perda de peso drástica enquanto também reduzia o risco de ataques cardíacos e outras doenças graves em pessoas com obesidade.

Seu potencial para transformar a indústria de saúde fez dela a queridinha do mercado de ações, elevando-se até se tornar a empresa mais valiosa da Europa. Então, de repente, sua sorte mudou.

O preço das ações da Novo Nordisk despencou mais de 50% neste ano, empurrando-a para fora da lista das 10 empresas mais valiosas do continente. A empresa deixou analistas perplexos em maio quando abruptamente anunciou que substituiria seu CEO, e parece incapaz de se manter à frente da concorrência da farmacêutica americana Eli Lilly e da prevalência de versões genéricas mais baratas.

“O mercado não tem paciência com a Novo”, disse Gareth Powell, chefe de saúde da Polar Capital, uma gestora de fundos. “O sentimento não é bom”.

Foi uma reviravolta impressionante para a empresa por trás de um medicamento que médicos já chamaram de revolucionário.

Na quarta-feira (6), a Novo Nordisk relatou US$ 24 bilhões em vendas globais nos primeiros seis meses do ano, mas reiterou que espera um crescimento mais lento no resto do ano, o que já havia sinalizado em um alerta de lucros na semana passada.

As ações da empresa caíram ainda mais, enquanto analistas e investidores expressavam dúvidas sobre se havia muito que a empresa pudesse fazer para reviver suas perspectivas no curto prazo. A Novo Nordisk é “uma empresa com história e capacidades incríveis, e eles têm um projeto”, disse Powell. “É só que o mercado não está dando nenhum valor a isso.”

BOOM DO OZEMPIC ABRIU ‘CAIXA DE PANDORA’

A Novo Nordisk passou quase um século em relativa obscuridade, conhecida principalmente por pacientes diabéticos e médicos como produtora de metade da insulina mundial.

Isso mudou com o Ozempic, nome comercial da semaglutida, versão sintética da Novo Nordisk de um hormônio conhecido como peptídeo-1 semelhante ao glucagon, ou GLP-1, que ajuda o corpo a regular os níveis de açúcar no sangue.

O Ozempic, que chegou ao mercado no final de 2017, levou a uma perda de peso substancial e rapidamente ganhou prestígio cultural, não menos por seu uso entre celebridades. Vídeos no TikTok documentando a jornada das pessoas com Ozempic atraíram milhões de visualizações.

Analistas previram que ele poderia atingir um mercado enorme, já que 1 bilhão de pessoas no mundo são consideradas obesas. No primeiro semestre do ano, a Novo Nordisk faturou US$ 10 bilhões em vendas do Ozempic, dos quais 70% nos Estados Unidos.

Para uma empresa que estava focada no negócio estável de vender insulina, a popularidade do Ozempic pegou seus executivos de surpresa. Em 2021, eles começaram a vender o Wegovy, semaglutida comercializada especificamente para perda de peso, mas a demanda era tão alta que a empresa teve dificuldades para atendê-la.

Essa escassez “abriu uma verdadeira caixa de pandora”, disse Rajesh Kumar, analista do HSBC.

DECISÃO DA FDA ABRE AS PORTAS PARA CÓPIAS

Em 2022, a semaglutida entrou na lista de escassez da Food and Drug Administration, o que estimulou a produção de versões genéricas mais baratas dos medicamentos da Novo Nordisk.

Para garantir o fornecimento de medicamentos em falta, a lei federal dos EUA permite que empresas produzam versões de medicamentos patenteados por meio de um processo de mistura de ingredientes chamado composição.

A FDA disse neste ano que a escassez havia acabado e ordenou que produtores e vendedores dos medicamentos genéricos para perda de peso encerrassem suas atividades. Mas a Novo Nordisk disse que isso nunca aconteceu.

Os manipuladores continuaram a oferecer o que chamam de versões “personalizadas” dos medicamentos, uma prática legalmente cinzenta que eles alegam ser permitida pela lei.

A Novo Nordisk disse na semana passada que mais de 1 milhão de pessoas ainda estavam usando GLP-1s manipulados, consumindo a participação de mercado da empresa e forçando-a a reduzir as previsões de vendas e lucros.

Suas ações caíram prontamente mais de 20%, apagando mais de US$ 70 bilhões em valor de mercado em um dia, e alguns analistas reduziram suas recomendações sobre a empresa.

Na quarta-feira, a Novo Nordisk disse que havia entrado com 14 novos processos contra manipuladores no dia anterior. “É importante que tiremos os produtos manipulados do mercado porque agora eles têm o mesmo tamanho do nosso negócio”, disse Lars Fruergaard Jorgensen, o CEO que está de saída.

Os manipuladores, em particular, têm visado o Wegovy porque era a marca mais conhecida, disse Kumar. Isso ajudou a Eli Lilly a ganhar vantagem.

ELI LILLY ALCANÇA, E VAI ALÉM

A Novo Nordisk teve uma enorme vantagem inicial. Depois que o Ozempic foi colocado à venda, foram mais 4 anos e meio antes que surgisse um concorrente sério: o Mounjaro da Eli Lilly, nome comercial do tirzepatide, um medicamento usado para tratar diabetes.

O Mounjaro provou ser mais eficaz, levando a uma maior perda de peso em ensaios clínicos. Muitos pacientes disseram que o preferiam. No início deste ano, o Zepbound da Eli Lilly, que é tirzepatide comercializado para perda de peso, ultrapassou o Wegovy em novas prescrições nos Estados Unidos, de acordo com a IQVIA, uma empresa de análise.

Ao contrário da Novo Nordisk, a Eli Lilly também encontrou maneiras de levar seu produto aos consumidores de forma mais barata e competir com empresas de telemedicina que oferecem versões genéricas manipuladas, vendendo seu medicamento em frascos com seringas em vez das canetas mais caras com doses pré-preenchidas.

A Novo Nordisk foi ainda mais prejudicada por sua lentidão na introdução de uma plataforma de vendas direta ao consumidor. A NovoCare Pharmacy foi lançada em março, 14 meses após a LillyDirect.

PROJETOS DA NOVO NORDISK NÃO CONVENCEM

Mais do que qualquer coisa, o valor de mercado de uma empresa é determinado pelas expectativas dos investidores quanto aos lucros futuros. Para uma empresa farmacêutica, isso significa os medicamentos projetores para o futuro. Isso ajudou as ações da Eli Lilly a superar as da Novo Nordisk neste ano.

Investidores e analistas estão particularmente interessados nas perspectivas de pílulas para perda de peso, que poderiam alcançar mais pacientes do que as injeções.

A pílula diária da Eli Lilly, orforglipron, tem mostrado resultados promissores em ensaios clínicos de estágio avançado, com perda de peso semelhante às injeções da Novo Nordisk e menos restrições ao seu uso.

O comprimido oral da Novo Nordisk leva a uma perda de peso menor do que suas injeções, mas a empresa tem outras pílulas em desenvolvimento.

Na quinta-feira, a Eli Lilly disse que seus comprimidos de orforglipron levaram a uma perda de peso de 12%, um pouco menos do que os analistas esperavam, o que afetou as ações da Eli Lilly e impulsionou as da Novo Nordisk. Mas a Eli Lilly também elevou sua previsão geral de lucros para o ano, devido à maior demanda pelo Zepbound.

No desenvolvimento de seus projetos, a Eli Lilly está “implantando capital e correndo mais rápido que a Novo em um mercado que não vai ser paciente de forma alguma”, disse Seamus Fernandez, analista da Guggenheim Partners.

NOVO LÍDER PODE FAZER A DIFERENÇA?

A Novo Nordisk Foundation, que controla a Novo Nordisk através de sua holding, também ficou impaciente. Por insistência da fundação, Jorgensen, que havia sido CEO da empresa desde que o Ozempic chegou ao mercado, renunciou.

Maziar Mike Doustdar assumiu o cargo principal nesta quinta-feira, o primeiro não dinamarquês a dirigir a empresa. Austríaco de origem iraniana que cresceu nos Estados Unidos, ele ingressou na empresa em 1992, para o que ele pensava que seria um trabalho de verão fazendo fotocópias.

“Ele tem uma tendência para velocidade, ritmo e ação”, disse Helge Lund, presidente do conselho de administração, ao anunciar a nomeação de Doustdar.

Crescem as preocupações de que os analistas possam ter superestimado o tamanho potencial do mercado de perda de peso, ou pelo menos a facilidade com que mais pessoas terão acesso a esses medicamentos.

Ao mesmo tempo, o presidente Donald Trump está pressionando as empresas a reduzir os preços dos medicamentos e ameaçando tarifas sobre medicamentos produzidos no exterior, lançando uma nuvem sobre os modelos de negócios das empresas farmacêuticas.

“Ainda acredito que existe um grande mercado”, disse Powell, da Polar Capital, que investe tanto na Novo Nordisk quanto na Eli Lilly. Mas preocupações amplas sobre o mercado estão atingindo a Novo Nordisk com mais força, acrescentou.

Provavelmente não há nada que um novo CEO possa fazer para “mudar dramaticamente” as perspectivas nos próximos um ou dois anos, disse Powell.

“A realidade é isso”, disse. “O produto da Lilly é visto como melhor.”

Como a Novo Nordisk perdeu seu brilho após criar Ozempic – 08/08/2025 – Mercado – Folha

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‘Temos orgulho disso’: como as gigantes da tecnologia estão em processo avançado de militarização

Em uma grande mudança, o Google, a OpenAI, a Meta e os investidores — muitos dos quais já haviam renunciado ao envolvimento em guerras — abraçaram o complexo industrial militar

Por Sheera Frenkel – Estadão/The New York Times – 07/08/2025

Em uma cerimônia realizada em junho, na Base Conjunta Myer-Henderson Hall, em Arlington, Virgínia, quatro executivos atuais e ex-executivos da Meta, OpenAI e Palantir se alinharam no palco para fazer um juramento de apoiar e defender os Estados Unidos.

O exército dos EUA acabara de criar uma unidade de inovação técnica para os executivos, que estavam vestidos com uniformes de combate e botas. No evento, eles foram nomeados tenentes-coronéis da nova unidade, o Destacamento 201, que assessorará o exército em novas tecnologias para possíveis combates.

“Precisamos desesperadamente do que eles fazem de melhor”, disse o secretário do exército, Daniel Driscoll, sobre os executivos de tecnologia, que desde então passaram por um treinamento básico. “É um eufemismo dizer o quanto somos gratos por eles estarem assumindo esse risco de vir e tentar construir isso conosco.”

As forças armadas não estão apenas cortejando as empresas de tecnologia do Vale do Silício. Na era do presidente Trump, elas conseguiram recrutá-las com sucesso.

Para você

Nos últimos dois anos, os líderes e investidores do Vale do Silício — muitos dos quais já haviam renunciado ao envolvimento com armas e guerras — mergulharam de cabeça no complexo industrial militar. Meta, Google e OpenAI, que antes tinham em suas políticas corporativas cláusulas proibindo o uso de inteligência artificial (IA) em armas, removeram tais cláusulas. A OpenAI está criando tecnologia antirrobôs, enquanto a Meta está fabricando óculos de realidade virtual para treinar soldados para a batalha.

Ao mesmo tempo, startups de armas e defesa estão decolando. A Andreessen Horowitz, uma empresa de investimento, disse em 2023 que investiria US$ 500 milhões em tecnologia de defesa e outras empresas que ajudariam os Estados Unidos a “avançar”. A Y Combinator, incubadora de startups conhecida por criar empresas como Airbnb e DoorDash, financiou sua primeira startup de defesa em agosto de 2024. Os investimentos em empresas relacionadas à defesa aumentaram 33% no ano passado, chegando a US$ 31 bilhões, de acordo com a McKinsey.

A mudança faz parte de uma grande transformação cultural no Vale do Silício. Há uma década, as empresas de tecnologia ostentavam lemas como “conectando o mundo” e “não faça o mal” e prometiam que sua tecnologia não seria usada para fins militares. Trabalhar com o governo dos Estados Unidos era tão impopular que os contratos de software e computação em nuvem com o Departamento de Defesa alimentavam protestos dos funcionários de tecnologia.

Agora, “a maré mudou”, disse Andrew Bosworth, diretor de tecnologia da Meta e um dos novos tenentes-coronéis do Destacamento 201, em uma conferência de tecnologia em São Francisco, em junho. “Há uma base patriótica muito mais forte do que as pessoas imaginam no Vale do Silício.” Ele deve cumprir alguns dias de serviço na reserva do exército a cada ano.

A militarização da capital tecnológica do país foi impulsionada por um clima político em mudança, pela competição com a China pela liderança tecnológica e pelas guerras na Ucrânia e em Gaza, onde drones e sistemas de armas apoiados por inteligência artificial se tornaram cruciais nas batalhas. Essas guerras levaram o Pentágono a começar a modernizar o arsenal de armas dos Estados Unidos, uma medida que Trump apoiou.

Em abril, Trump emitiu uma ordem executiva exigindo que as Forças Armadas atualizassem o sistema que utilizam para adquirir novas tecnologias. Seu projeto de lei de política interna alocou um valor recorde de US$ 1 trilhão para a defesa em 2026, incluindo tecnologias como drones autônomos. Executivos do Vale do Silício e investidores estão de olho nessa bonança.

“Proteger as democracias é importante”, disse Raj Shah, sócio-gerente da Shield Capital, uma empresa de investimento em São Francisco que investe em tecnologia de defesa e segurança. “Existem autoritários malvados por aí que não acreditam em fronteiras.”

Mas alguns executivos e engenheiros da área de tecnologia estão lutando contra os possíveis danos dessa mudança. Depois de criarem drones autônomos e armas com inteligência artificial para as forças armadas, eles terão pouco controle sobre como a tecnologia será utilizada. Isso gerou debates sobre se mais pessoas serão mortas por essas armas avançadas do que pelas tradicionais, disseram três engenheiros do Google e da Meta.

“Essas empresas do Vale do Silício são hipercompetitivas e, em sua busca por entrar nesses setores de defesa, não há muito tempo para parar e pensar”, disse Margaret O’Mara, historiadora de tecnologia da Universidade de Washington.

Enraizado na defesa

A militarização do Vale do Silício é, em muitos aspectos, um retorno às raízes da região.

Antes de se tornar um epicentro tecnológico, a área era uma região bucólica de pomares. Na década de 1950, o Departamento de Defesa começou a investir em empresas de tecnologia na região, com o objetivo de competir com as vantagens tecnológicas da Rússia na Guerra Fria. Isso fez do governo federal o primeiro grande apoiador do Vale do Silício.

A Agência de Projetos de Pesquisa Avançada de Defesa, uma divisão do Departamento de Defesa, mais tarde incubou tecnologias — como a internet — que se tornaram a base para as maiores empresas do Vale do Silício. Em 1998, os estudantes de pós-graduação de Stanford, Sergey Brin e Larry Page receberam financiamento da Darpa e de outras agências governamentais para criar o Google.

Mas, no final da década de 1990 e na década de 2000, as empresas de tecnologia voltaram-se para a tecnologia de consumo, como o comércio eletrônico e as redes sociais. Elas se apresentavam como benéficas e democratizadoras da tecnologia para as massas, atraindo uma força de trabalho amplamente liberal que se opunha a trabalhar com o establishment de defesa.

Em 2018, mais de 4 mil funcionários do Google protestaram contra um contrato do Pentágono chamado Projeto Maven, que teria usado a inteligência artificial da empresa para analisar imagens de vigilância de drones. Em uma carta aos executivos, os funcionários disseram que o Google “não deveria estar no negócio da guerra”.

O Google logo disse que não renovaria o contrato com o Pentágono e desistiu da disputa por um contrato de computação em nuvem de US$ 10 bilhões, chamado JEDI, para o Departamento de Defesa.

Naquele ano, o Google publicou princípios orientadores para futuros projetos de IA, proibindo o uso da IA em “armas ou outras tecnologias cujo objetivo principal ou implementação seja causar ou facilitar diretamente danos às pessoas”. Outras empresas seguiram o exemplo com compromissos semelhantes.

Houve exceções. Alex Karp, CEO da Palantir, uma empresa de análise de dados tecnológicos fundada em 2003, estava tão entusiasmado com a ideia de o Vale do Silício assumir um papel mais importante na defesa que processou o exército em 2016 para obrigá-lo a considerar a compra do software da Palantir. A Palantir alegou que o exército não estava considerando opções comerciais para suas necessidades.

A Palantir ganhou o processo. Outras empresas de tecnologia forneceram ao Departamento de Defesa software e computação em nuvem, entre outros serviços.

Em 2015, o secretário de Defesa, Ashton Carter, visitou o Vale do Silício para inaugurar a Unidade de Inovação de Defesa, um programa militar emblemático para acelerar a adoção de tecnologia avançada. Mas as startups disseram que o processo burocrático para assinar acordos com o Pentágono tornava o programa insustentável.

“Não éramos tão ágeis quanto as pessoas com quem queríamos nos conectar gostariam que fôssemos”, reconheceu Carter em uma conferência de tecnologia, em 2016.

Orgulho em se envolver

Depois que as guerras na Ucrânia e em Gaza trouxeram drones autônomos e software de reconhecimento facial para os campos de batalha, os engenheiros e executivos do Vale do Silício disseram que perceberam que não era mais uma teoria que a próxima guerra seria vencida pelos militares com as tecnologias mais avançadas.

O clima político também mudou, com alguns executivos e investidores apoiando abertamente visões e candidatos de direita. A competição com a China pela superioridade tecnológica levou muitos técnicos a se inclinarem mais para o governo dos EUA como aliado.

A Palantir se tornou um modelo para outras empresas de tecnologia. Com contratos com o governo e as forças armadas dos EUA para software que organiza e analisa dados, o valor de mercado da empresa disparou para mais de US$ 375 bilhões este mês, mais do que a capitalização de mercado combinada de empreiteiras de defesa tradicionais como Lockheed Martin, Northrop Grumman e General Dynamics.

Em uma carta aos acionistas, em maio, Karp disse que os críticos antes rejeitavam o interesse da Palantir em “armar os Estados Unidos da América”, mas que “alguns no Vale do Silício agora mudaram de opinião e começaram a seguir nosso exemplo”.

A Palantir não respondeu a um pedido de comentário.

Outras empresas do Vale do Silício também se voltaram para a defesa. Em ja]neiro de 2024, a OpenAI, fabricante do ChatGPT, excluiu de sua página de política a linguagem que proibia o uso de sua tecnologia para “desenvolvimento de armas” e “militares e guerra”. Em dezembro daquele ano, a empresa anunciou um acordo com a Anduril, uma startup de tecnologia de defesa, para construir sistemas de IA antirrobôs.

Solicitada a comentar, uma porta-voz da OpenAI apontou para uma conversa em abril entre Sam Altman, CEO da empresa, e o general Paul M. Nakasone, membro do conselho da OpenAI e ex-chefe da Agência de Segurança Nacional.

“Temos que nos envolver em áreas de segurança nacional, temos orgulho disso e realmente queremos fazer isso”, disse Altman, acrescentando que a OpenAI ajudaria a desenvolver IA quando estivesse “apoiando os EUA e nossos aliados a defender os valores democráticos em todo o mundo e a nos manter seguros”.

(O New York Times processou a OpenAI e sua parceira, a Microsoft, por violação de direitos autorais de conteúdo noticioso. Ambas as empresas negaram qualquer irregularidade.)

No ano passado, a Meta alterou suas políticas para permitir que suas tecnologias de IA fossem utilizadas para fins militares. Em maio, a empresa anunciou uma parceria com a Anduril para desenvolver dispositivos de realidade virtual para treinar soldados. Na época, Bosworth afirmou que “a segurança nacional dos Estados Unidos se beneficia enormemente com a indústria americana dando vida a essas tecnologias”.

Em fevereiro, o Google anunciou que também estava descartando sua proibição autoimposta do uso de IA em armas. Em uma postagem no blog, a empresa disse que havia “uma competição global pela liderança em IA em um cenário geopolítico cada vez mais complexo. Acreditamos que as democracias devem liderar o desenvolvimento da IA”.

O Google e a Meta se recusaram a comentar.

Um dos beneficiários dessa mudança é a Anduril, fundada em 2017 por Palmer Luckey, um empreendedor de tecnologia que desenvolveu o headset de realidade virtual, o Oculus. A Anduril, que projeta armas com suporte de IA, assinou um contrato de US$ 642 milhões para tecnologia antirdrone com o Corpo de Fuzileiros Navais, em março, e um contrato de US$ 250 milhões para avançar a tecnologia de defesa aérea para o Departamento de Defesa, em outubro.

Em junho, a Anduril anunciou que havia levantado US$ 2,5 bilhões em novos financiamentos, com uma avaliação de US$ 30,5 bilhões. A empresa se recusou a comentar.

A adesão à defesa foi marcada pelo alistamento de quatro executivos da área de tecnologia na nova unidade do exército em junho. Eles eram Bosworth, da Meta, o diretor de tecnologia da Palantir, Shyam Sankar, o diretor de produtos da OpenAI, Kevin Weil, e Bob McGrew, consultor do Thinking Machines Lab e ex-diretor de pesquisa da OpenAI. O exército havia ligado para Sankar sobre a unidade e ele recomendou os outros executivos, disse um porta-voz do exército.

‘Um ciclo de hype’

Quando Billy Thalheimer participou de uma sessão na incubadora de startups, Y Combinator, no Vale do Silício, em 2021, ele se viu como um desajustado.

Como CEO da Regent, uma empresa que constrói planadores marítimos elétricos para fins militares e outros, ele disse ter percebido “um verdadeiro estigma contra a tecnologia de defesa”. Outras startups da Y Combinator promoviam projetos de criptografia, lembra Thalheimer.

Agora, existem centenas de startups focadas em tecnologia de defesa, disse ele. “É claro que estamos em um ciclo de hype”, afirmou.

Desde 2023, a Regent arrecadou mais de US$ 100 milhões de investidores, incluindo Mark Cuban e Peter Thiel. Em março, a empresa fechou um contrato de US$ 15 milhões com o Corpo de Fuzileiros Navais e está construindo uma fábrica em Rhode Island.

Em Hayward, Califórnia, a produção aumentou na fábrica da Skydio, uma empresa de drones autônomos. Em junho, a startup assinou um contrato de US$ 74 milhões com o Departamento de Estado para fornecer drones para o combate global ao narcotráfico e para a aplicação da lei.

Adam Bry, que fundou a Skydio em 2014, disse que houve uma grande mudança na rapidez com que os militares estão atendendo à necessidade de novas tecnologias. Levou três anos para assinar seu primeiro contrato para fornecer drones ao exército, mas um novo contrato este ano para continuar fornecendo drones ao exército levou menos de um mês.

“Pela primeira vez, estamos vendo um senso real de urgência”, disse Bry. A Skydio, que arrecadou US$ 230 milhões, tem mais de 800 funcionários.

A relação mais próxima do Vale do Silício com o setor de defesa ficou em março, quando centenas de pessoas se reuniram em Washington para uma cúpula organizada pela Andreessen Horowitz. A empresa destacou seu programa “American Dynamism”, que inclui investimentos em empresas de defesa.

“Investir em tecnologia de defesa é necessário e urgente”, disse David Ulevitch, sócio geral da Andreessen Horowitz, em um comunicado. “A superioridade tecnológica é um requisito para uma democracia forte.”

O palestrante convidado foi o vice-presidente JD Vance, que já investiu na Anduril anteriormente.

“Não devemos ter medo de novas tecnologias produtivas; na verdade, devemos procurar dominá-las”, disse Vance. “É certamente isso que este governo quer alcançar.”

‘Temos orgulho disso’: como as gigantes da tecnologia estão em processo avançado de militarização – Estadão

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Quanta água o ChatGPT ‘bebe’ para responder sua pergunta?

Data centers se multiplicam no Brasil e cientistas tentam estimar impacto

Camilla Veras Mota – Folha – 10.ago.2025  

São Paulo | BBC

As fotos que você posta nas redes, o filme que vê no streaming, a aposta nos sites de bets, tudo isso é processado em um data center, um centro de armazenamento de dados que funciona como uma espécie de “cérebro” da internet.

E que é também um ávido consumidor de energia.

“Eles funcionam como um computador gigante de alta performance”, ilustra Juliano Covas, gerente comercial e de engenharia para o segmento de data centers da América Latina da Corning Optical Communications.

Com corredores cheios de armários de ferros com pilhas de servidores, os data centers demandam muita eletricidade, usada tanto pelas máquinas em si quanto pelo sistema de refrigeração que funciona sem parar para impedir que elas superaqueçam.

Hoje há 162 data centers espalhados pelo país, conforme estimativas da Associação Brasileira de Data Centers (não há dados públicos oficiais), com capacidade instalada em torno de 750MW e 800MW.

Algo dessa magnitude, para efeito de comparação, é semelhante ao consumo de energia de uma cidade de cerca de dois milhões de habitantes, conforme estimativas feitas por técnicos da Empresa de Pesquisa Energética (EPE) a pedido da reportagem.

Com a popularização do uso da inteligência artificial, contudo, a expansão prevista para a próxima década deve multiplicar esse número em mais de 20 vezes.

Nessa escala, o segmento de data centers pode se tornar estratégico — foi inclusive mencionado nesta semana pelo ministro da Fazenda, Fernando Haddad, como setor que pode ser explorado em conjunto com os Estados Unidos em meio à negociação do tarifaço americano.

Haddad justificou dizendo que o Brasil possui grande oferta de energia pra manter esses centros de processamento de dados funcionando.

De acordo com os números do Ministério de Minas e Energia, a demanda por energia por data centers no Brasil deve chegar a 17.716 MW em 2038, estimativa feita com base nos pedidos de acesso à rede de energia do país enviados pelas empresas à pasta.

Um desses pedidos, que recebeu recentemente o aval do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), é um megaempreendimento de 300 MW, com investimento previsto de R$ 50 bilhões, que deve ser erguido na região do porto do Pecém, no Ceará, para abrigar um data center que estaria gerando interesse em grandes empresas de tecnologia como a chinesa ByteDance, dona do TikTok, conforme noticiou a agência Reuters.

À reportagem, o TikTok afirmou que não se manifestaria sobre o assunto.

A Casa dos Ventos, responsável pelo projeto, disse que o início da construção está previsto para o segundo semestre de 2025 e que a expectativa é que o complexo entre em operação em 2027.

‘DATA CENTERS SÃO CAIXAS PRETAS’

Usando a mesma analogia do consumo de eletricidade por habitante (que não é uma comparação perfeita, mas serve para dar dimensão da magnitude), a demanda por energia projetada para os data centers em 2038 equivaleria à de uma cidade de 43 milhões de habitantes, quase quatro vezes a população da cidade de São Paulo (11,5 milhões, conforme o Censo 2022).

Mas o que isso significa — qual vai ser o impacto desse crescimento?

Via de regra, qualquer aumento na produção de energia elétrica, ainda que renovável, gera algum tipo de impacto ambiental, que pode inclusive afetar negativamente as populações que vivem próximo às usinas (leia mais abaixo).

No caso dos data centers, os especialistas ouvidos pela BBC News Brasil apontaram que hoje é difícil fazer essa estimativa com precisão, especialmente com a disseminação da inteligência artificial.

Data centers que têm a capacidade de treinar, implementar e disponibilizar aplicações e serviços de IA são equipados com circuitos eletrônicos com chips de alto desempenho (como o H100 da Nvidia) que consomem muito mais energia do que os tradicionais.

O quanto mais, contudo, hoje ainda é difícil dizer. Cientistas que têm se dedicado a tentar estimar o consumo de energia — e o impacto ambiental como um todo — afirmam que a quantidade de informações compartilhadas pelas empresas de tecnologia e operadores de data centers não é suficiente para fazer um cálculo acurado.

Não se sabe, por exemplo, em que capacidade os data centers operam — se consomem algo perto de toda a energia que a infraestrutura dispõe ou muito menos que isso.

Outro dado considerado importante que não é compartilhado pelas empresas é qual percentual dos servidores é usado para treinar os modelos e para a operação de fato dos chatbots, a chamada “inferência”, processo usado para gerar o texto de resposta.

Ou ainda quais data centers são usados para esse tipo de serviço.

“Os data centers são caixas pretas”, diz Alex de Vries, fundador do Digiconomist, projeto que há uma década estuda as consequências não-intencionais das tendências digitais.

“Nós estamos conversando por Zoom agora e eu não faço ideia em que parte do mundo estão os servidores que estão processando a chamada”, ilustra o economista, que mora nos arredores de Amsterdam e pesquisa o consumo de energia e o impacto ambiental da IA como parte do doutorado na Vrije Universiteit Amsterdam.

De Vries tenta calcular o uso de eletricidade a partir dos chips da maior fornecedora hoje para a indústria de IA, a Taiwan Semiconductor Manufacturing Company (TSMC), levando em consideração o volume de chips vendidos pela empresa e fazendo suposições sobre a capacidade utilizada dos data centers onde eles operam, a eficiência do sistema de refrigeração e os demais parâmetros para os quais não há informações divulgadas.

“É um desvio enorme para se chegar a algo que deveria ser muito simples de obter”, ele comenta.

“As empresas sabem exatamente quanto de energia seus sistemas de IA estão usando, eles apenas optam por não publicar essa informação”, completa.

Com o cálculo, ele chega em uma estimativa do consumo global de energia pela inteligência artificial, que no ano passado se comparava a toda a eletricidade usada na Holanda.

“Em 2025 esse número deve dobrar, a inteligência artificial vai consumir duas vezes mais energia do que um país como a Holanda”, afirma De Vries.

O economista tem advogado por mais transparência por parte das empresas de tecnologia, argumentando que hoje é difícil confrontar os custos e benefícios da inteligência artificial.

“Enquanto isso, a demanda por energia está crescendo tão rápido. Nunca vimos nada parecido antes”, ressalta De Vries.

UMA PERGUNTA PRO CHATGPT CONSOME UMA GARRAFA D’ÁGUA?

Fabro Steibel, que é diretor-executivo do Instituto de Tecnologia e Sociedade (ITS), pontua que o uso de data centers no Brasil é muito diferente do que se observa em países como os EUA, por exemplo, onde algumas dessas instalações são usadas para treinar modelos de linguagem grandes (LLM, na sigla em inglês) como o ChatGPT, Claude e Gemini.

“A gente não é ‘big techs‘”, ele pondera, emendando que a comparação que ficou famosa no último ano, de que uma pergunta ao ChatGPT consumiria algo semelhante a uma garrafa d’água, não é generalizável para o setor como um todo.

“Isso não foi inventado, mas é um caso bem específico, em um determinado contexto”, completa.

Essa ideia nasce, segundo ele, a partir de uma reportagem do Washington Post de setembro de 2024 que repercutia um estudo de pesquisadores da Universidade da California, Riverside com uma estimativa do gasto de água para que o chatbot escreva um email de 100 palavras (519 ml).

O próprio texto destaca que o consumo de água varia a depender do sistema de refrigeração usado pelo data center e lista diferentes estimativas a depender do Estado americano em que estivesse localizado, indo de 235 ml no Texas a 1.468 ml em Washington.

O consumo de água nos data centers se dá basicamente de duas formas: indireta, quando a energia usada na instalação vem de hidrelétricas, e direta, quando o recurso é usado no sistema de refrigeração do prédio.

Há dois modelos bastante diferentes de refrigeração, entretanto. Um deles usa uma torre de resfriamento em que a água que passa pelo circuito evapora, criando a necessidade de adição de água pura constantemente ao sistema.

Nos Estados Unidos, que concentra cerca de três mil data centers, o uso desse sistema tem causado impacto em pequenas cidades pelo país e gerado atritos entre as populações locais e grandes empresas de tecnologia.

O segundo é um sistema de refrigeração de ciclo fechado, em que o uso de água é significativamente menor.

Esse, segundo a assessoria da Casa dos Ventos, será o modelo utilizado no grande data center previsto para ser construído no Ceará.

À reportagem, a empresa afirmou ainda que o data center terá acesso exclusivo “a 300MW de energia fornecida por parques eólicos e solares”.

O LADO B DAS ENERGIAS RENOVÁVEIS

Mesmo as energias renováveis, contudo, têm algum tipo de impacto, ainda que em termos de emissões de gases de efeito estufa elas sejam muito menos danosas do que os combustíveis fósseis.

Há casos em que o barulho das turbinas eólicas, por exemplo, chega a causar depressão, insônia e surdez em quem mora nas proximidades.

Ou conflitos territoriais entre as empresas e comunidades locais, que são tema de pesquisa da professora da Universidade Federal do Ceará (UFC) Adryane Gorayeb, que é também membro do Observatório da Energia Eólica.

Em uma das comunidades estudadas por ela, localizada no litoral do Ceará, o empreendimento aterrou uma das lagoas entre dunas que era usada para pesca durante o inverno, comprometendo a subsistência da população local, e bloqueou a única via que os moradores usavam para sair e entrar no vilarejo, forçando-os a escalar dunas mais altas para se deslocarem.

“Muitas das comunidades tradicionais do litoral impactadas pela construção de usinas vivem uma rotina de ameaças aos seus direitos mais básicos, desde acesso à água, alimentos e à terra”, comenta.

O Observatório da Energia Eólica recentemente expandiu seu escopo para pesquisar também os impactos da energia solar, que vão desde consumo de água para lavar os painéis até uso de agrotóxicos na manutenção da vegetação que cresce abaixo das placas solares.

SOLUÇÕES LOCAIS

Fabro Steibel, da ITS, argumenta que o Brasil está produzindo “soluções locais” na construção de uma infraestrutura local voltada para a inteligência artificial com potencial de produzir impacto ambiental significativamente menor do que o observado em países como os EUA.

“A necessidade faz a solução. Se eles [big techs] têm todo o equipamento à disposição, não têm incentivo nenhum de revolucionar. A gente não tem esse recurso”, destaca.

E cita como exemplo a previsão, na recém-aprovada lei de fomento à IA aprovada em Goiás, do uso de biometano para produção de energia para data centers. O ITS coordenou a consulta pública realizada durante a elaboração da proposta.

“O data center movido a biometano existe? Não, ele é outra frequência, outra coisa. Mas pode existir. E o biometano tá ali, é o que sobra da soja e do milho.”

Goiás espera se tornar o primeiro Estado do país a usar os chips mais avançados da Nvidia, o Blackwell B200, que foram encomendados pelo Centro de Excelência em IA da Universidade Federal de Goiás (UFG). O objetivo é integrá-los em oito supercomputadores que serão usados em cerca de 70 projetos de pesquisa.

A reportagem tentou contato com o Centro de Excelência em IA da universidade pedindo detalhes sobre a estimativa de consumo de energia da nova estrutura, mas não teve retorno.

Quanta água o ChatGPT ‘bebe’ para responder sua pergunta? – 10/08/2025 – Mercado – Folha

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Brasil entra no top 4 global em energias renováveis, aponta novo relatório

O país ocupa 4ª posição no mundo em fontes limpas e apresenta uma das eletricidades mais baratas; confira com qual energia

GUYNEVER MAROPO – Fast Company Brasil – 25-07-2025 

O mercado global de energias renováveis manteve a liderança sobre os combustíveis fósseis em 2024, mesmo diante de um cenário geopolítico adverso, marcado por guerras e recuos políticos em países como os Estados Unidos.

De acordo com relatório da Agência Internacional de Energia Renovável (IRENA), divulgado na última terça-feira (22), o uso de fontes limpas gerou uma economia global de US$ 467 bilhões (R$ 2,6 trilhões), além de R$ 317 bilhões provenientes de novos projetos executados apenas no último ano.

O Brasil consolidou sua posição como uma das principais potências em energias renováveis, ocupando a quarta colocação no ranking mundial, atrás apenas de China, Estados Unidos e União Europeia. O desempenho brasileiro se destaca não só pelo volume de investimentos e recursos naturais, mas principalmente pela competitividade econômica das fontes utilizadas.

Em 2024, a energia eólica onshore brasileira alcançou o custo de US$ 30 por megawatt-hora (MWh), patamar semelhante ao da China. A energia solar fotovoltaica, por sua vez, registrou custo de US$ 48/MWh. Segundo o relatório, 91% dos projetos renováveis comissionados no mundo apresentaram melhor custo-benefício em comparação com alternativas fósseis.

A IRENA também destacou que a energia solar ficou, em média, 41% mais barata que a fonte fóssil de menor custo, enquanto os projetos eólicos onshore foram 53% menos onerosos. A tendência confirma a vantagem econômica das fontes limpas, impulsionadas por anos de inovação tecnológica, políticas públicas eficientes e crescimento dos mercados.

Diversificação da matriz energética brasileira

A matriz elétrica do Brasil ainda é majoritariamente composta por hidrelétricas, que representam mais de 50% da eletricidade gerada. No entanto, o crescimento das fontes solar e eólica indica um movimento robusto de diversificação.

O relatório aponta que o avanço das renováveis no país está relacionado a leilões públicos com contratos de longo prazo, que oferecem estabilidade aos investidores e reduzem riscos financeiros. Apesar disso, ainda existem desafios, como o desenvolvimento de sistemas de armazenamento e a modernização da rede elétrica nacional.

A IRENA também alerta para a necessidade de marcos regulatórios claros, que garantam previsibilidade e atratividade ao investimento internacional. Em escala global, questões como mudanças geopolíticas, tarifas comerciais e escassez de matérias-primas ainda representam riscos que podem afetar temporariamente os custos das renováveis.

Inovação acelera a transição energética

O relatório destaca avanços tecnológicos que tornam as energias renováveis ainda mais competitivas. Um exemplo é o custo dos sistemas de armazenamento com baterias de lítio, que caiu 93% desde 2010. A expectativa é que um próximo leilão no Brasil impulsione o uso da tecnologia em escala comercial.

Outras inovações incluem sistemas híbridos que integram solar, eólica e armazenamento, além de ferramentas digitais como Inteligência Artificial, utilizadas para otimizar a operação e integração de fontes renováveis variáveis.

O estudo reforça que as energias renováveis seguem como peça central para um sistema energético acessível, limpo e sustentável, colocando o Brasil em posição estratégica para liderar a transição global.


SOBRE A AUTORA

Jornalista, pós-graduando em Marketing Digital, com experiência em jornalismo digital e impresso, além de produção e captação de conte… saiba mais

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Não precisa ser humano para produzir sequências de palavras

Eis a maior contribuição dos modelos como o ChatGPT para a humanidade

Suzana Herculano-Houzel – Folha – 7.ago.2025 Bióloga e neurocientista da Universidade Vanderbilt (EUA)

Meu marido, que apagou sua existência da internet quando deixou a vida das turnês de shows de rock por uma nova carreira na indústria da saúde, foi perguntar ao Google se os algoritmos encontrariam seu nome como “marido da Suzana Herculano-Houzel”. A resposta do AI Overview do Google nos rendeu uma boa gargalhada: “Suzana Herculano-Houzel é casada com o neurocientista Jon Kaas. Ambos trabalham na Universidade Vanderbilt e colaboram fazendo pesquisa juntos”.

As duas últimas partes procedem, e são a razão de o meu nome ocorrer inúmeras vezes junto ao de meu amigo, colega e vizinho de corredor Jon Kaas, arquiteto-mor da minha transferência para os EUA nove anos atrás. Mas meu marido ele não é e nunca foi.

A imagem mostra uma tela de pesquisa do Google com informações sobre Suzana Herculano-Houzel. O texto menciona que ela é casada com o neurocientista Jon Kaas e que ambos trabalham na Universidade Vanderbilt, onde colaboraram em pesquisas. Há também uma imagem dela ao lado do texto.

Resposta, incorreta, do AI Overview do Google – Reprodução

Por isso não compartilho do otimismo do meu outro amigo, Bernardo Monteiro, conselheiro regular desta coluna que outro dia me mandou, empolgado, uma matéria anunciando que cientistas da universidade Stanford haviam criado uma equipe de “cientistas virtuais” para resolver problemas reais no laboratório.

Ó céus. Nós cientistas já temos que dar duro para conferir e reconferir o trabalho dos nossos estudantes e até mesmo colaboradores (sempre tem erros e discordâncias, por várias causas), e agora eu tenho colegas escolhendo relegar busca e análise de dados e elaboração de relatórios a algoritmos cuspidores de sequências de palavras que comprovadamente geram fantasia?

A ironia é que justamente essa capacidade de um algoritmo produzir algo que funciona como linguagem bem o suficiente para ser usado como redator de relatórios e “artigos científicos” e até consultório sentimental é para mim a maior e mais importante contribuição para a humanidade dos algoritmos como o ChatGPT. Digo isso porque uma teoria persistente na estória da evolução humana é que a linguagem foi adquirida exclusivamente por nossa espécie graças a algum “estalo” evolutivo que teria tornado somente o cérebro humano capaz de formar sequências de sons com significados.

O proponente mais renomado desta teoria é o linguista Noam Chomsky, quem para minha honra e surpresa me chamou para conversar uns oito anos atrás, quando visitei a Universidade do Arizona. Eu ingenuamente pensei que ele estaria interessado em ouvir diretamente de mim sobre minhas descobertas de que o cérebro humano era apenas mais um cérebro primata, mas não: ele apenas me explicou que eu estava errada.

E aí veio o ChatGPT, garoto-propaganda dos grandes modelos de linguagem, e mostrou que força bruta aplicada ao mapeamento probabilístico de associações entre sequências de eventos em enormes bases de dados basta para produzir algo que funciona como linguagem. Quanto mais capacidade de memória, mais tempo para treino e mais energia –as exatas três coisas que o córtex humano tem a mais comparado a outros–, melhor o desempenho. Neste aspecto, o ChatGPT demonstra que não é preciso um “estalo” para explicar a capacidade do cérebro humano de produzir sequências de palavras.

Já o significado das sequências produzidas por cérebro humano ou algoritmo são outros quinhentos, porque ter significado quer dizer representar alguma coisa: experiências, conhecimentos, expectativas, intenções e valores. Algoritmo não tem nada disso, não sabe nada, apenas reproduz associações. Nisso eu concordo com Chomsky: se não há significado, não é linguagem. E se quem produz sequências de palavras não conhece seu significado, o resultado pode até ser útil, se não apenas divertido –mas não pode ser levado a sério como substituto de significados gerados por humanos.

Não precisa ser humano para produzir sequências de palavras – 07/08/2025 – Suzana Herculano-Houzel – Folha

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China é saída para café brasileiro após tarifaço dos EUA?

China é saída para café brasileiro após tarifaço dos EUA?

A China, maior parceira comercial do Brasil, está comprando muito mais café do que dez anos atrás, mas não tem o mesmo peso que os Estados Unidos para os exportadores.

Atingido pelo sobretaxa de 50% nas vendas para os EUA, o setor cafeeiro vê o país asiático como um cliente importante e promissor.

Mas a prioridade, diante do tarifaço, ainda é negociar algum alívio com os norte-americanos.

O consumo do café disparou no país do chá na última década, e o Brasil conseguiu ampliar suas vendas para a China. Elas atingiram o auge em 2023, mas caíram no ano seguinte (veja abaixo).

“O mercado da China não é como o de outros, que já estão consolidados. Ele ainda está se estruturando. Então é normal que [a China] não compre os cafés com a mesma regularidade dos mercados tradicionais”, diz Marcos Matos, do Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé).

Os EUA são os maiores compradores do café brasileiro, que detém um terço de todo o mercado norte-americano. Em 2024, o Brasil exportou 8 milhões de sacas de 60 kg de café moído para os EUA.

Já a China, apesar da expansão em relação a 10 anos atrás, comprou menos de 1 milhão de sacas no mesmo período e ficou apenas na 14ª posição entre os maiores importadores do café brasileiro.

Por isso, o Cecafé afirma que a prioridade ainda é chegar a um acordo com os EUA. “Essa é a principal discussão que a gente tem agora: encontrar uma tarifa mais baixa e conviver o menor tempo possível com os 50% de taxa, ou entrar na lista de exceções”, afirma Matos.

“A gente sempre diz que, assim como o Brasil é insubstituível para os Estados Unidos, os Estados Unidos são insubstituíveis para o Brasil”, resume.

China é 6º maior consumidor mundial de café

A China começou a “descobrir” o café nos últimos anos, e a bebida virou moda entre os jovens do país, como o g1 mostrou em 2024.

Em 2009, os chineses consumiam cerca de 300 mil sacas do grão por ano. Hoje, esse número chega a 5,8 milhões, segundo o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA).

O país só fica atrás de União Europeia, EUA, Brasil, Filipinas e Japão na demanda pela bebida.

A disparada se refletiu nas importações e o Brasil aproveitou: de 2022 para 2023, o número de sacas comercializadas com a China triplicou e chegou a 1,5 milhão.

No entanto, o consumo da bebida desacelerou em 2023, e se mantém estável desde então.

E os exportadores brasileiros, que esperavam um desempenho ainda melhor em 2024, viram as vendas recuarem para 988 mil sacas naquele ano.

De 2023 para 2024, a China passou da 6ª para a 14ª posição entre os países que mais compram café do Brasil.

Segundo Matos, do Cecafé, os exportadores esperam que as vendas para aquele país sejam um pouco mais altas neste ano do que em 2024, mas que ainda fiquem longe do recorde de 2023.

Até o fim de julho, o Brasil exportou 570 mil sacas de café para os chineses.

Aceno da China anima exportadores

Apesar das expectativas moderadas dos exportadores, os chineses dão sinais de que podem comprar mais café do Brasil nos próximos anos.

O Cecafé afirma que uma autoridade das aduanas da China visitou o Brasil no primeiro semestre e anunciou medidas para facilitar o comércio entre os dois países, incluindo o setor cafeeiro.

Entre as ações estão a redução da burocracia e a aceleração de processos.

Até agora, a embaixada confirmou que 183 empresas brasileiras foram cadastradas para atuar na exportação. Segundo Marcos Matos, a aprovação não se refere necessariamente às empresas que exportam o café, mas sim àquelas que armazenam o produto no Brasil.

“Em 2022, a administração das aduanas da China editou um decreto que determinava o cadastro desses armazéns, que recebem o café, estocam, estufam contêineres. E nós fizemos um trabalho com o Ministério da Agricultura para coordenar isso”, diz ele.

“É uma sinalização para fortalecer as relações, e a gente pode obter volumes maiores de vendas para a China. É ótimo que isso aconteça agora.”

China é saída para café brasileiro após tarifaço dos EUA?

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Vício da China em manufatura ameaça retomada do crescimento econômico

Projetos de novos parques industriais colocam em xeque modelo chinês de crescimento e podem provocar nova onda deflacionária

Por Joe Leahy e Wenjie Ding, William Langley e Haohsiang Ko — Valor/Financial Times – 05/08/2025 

O novo parque industrial nos arredores de Tangshan, uma cidade industrial e siderúrgica perto de Pequim, tem grandes ambições de atrair as empresas de alta tecnologia mais avançadas do país.

Mas o complexo, em grande parte vazio e cercado por campos verdes de milho, atraiu apenas algumas produtoras de autopeças, um fabricante de estojos de munição e uma empresa de equipamentos para cobrança eletrônica de pedágio. A recepção, revestida de mármore, estava às escuras quando o Financial Times chegou, sugerindo que visitantes são raros.

Isso, porém, não desanima as autoridades locais. Ao acender as luzes do saguão e revelar uma maquete arquitetônica detalhada do parque industrial, um representante do governo local que se identifica apenas como Zhao diz que o objetivo é atrair indústrias que representem o que o presidente da China, Xi Jinping, chama de “novas forças produtivas de qualidade”, como fabricantes de veículos elétricos e baterias. Tangshan, acrescenta, “está buscando uma transição da manufatura tradicional para indústrias de alta tecnologia”.

Complexos semelhantes se multiplicam em centenas de cidades de menor porte em toda a China. Autoridades locais, desesperadas para cumprir metas de crescimento do PIB após um forte declínio do setor imobiliário, impulsionam investimentos em setores favorecidos como veículos elétricos, inteligência artificial, robótica, baterias e painéis solares.

O país está ficando tão saturado com esses projetos que o normalmente imperturbável Xi demonstrou recentemente um raro tom de exasperação com o que Pequim chama de concorrência excessiva de preços.

“Inteligência artificial, poder computacional e veículos de novas energias. Será que todas as províncias do país precisam desenvolver indústrias nessas áreas?”, questionou Xi durante a Conferência Central de Trabalho Urbano, uma reunião de alto nível do Partido Comunista sobre desenvolvimento urbano, segundo a mídia estatal.

Economistas alertam há tempos que o modelo chinês, centrado em investimentos financiados por dívidas pelo Estado, corre o risco de alocar recursos de forma ineficaz e sufocar o consumo, afetando o crescimento de longo prazo.

A China, porém, após o estouro da bolha imobiliária em 2021, passou a depender ainda mais de investimentos, manufatura e exportações para sustentar seu crescimento, já que as famílias – cuja riqueza está em grande parte atrelada ao mercado imobiliário – reduziram seus gastos.

A dependência excessiva da China em investimentos na manufatura tornou-se ainda mais urgente à medida que sua capacidade excedente e a demanda doméstica fraca empurram o país para um dos períodos mais longos de pressão deflacionária desde os anos 90. A queda nos preços prejudica a lucratividade das empresas e os balanços dos bancos, além de desestimular novos investimentos.

O excesso de capacidade também se tornou um desafio global para os parceiros comerciais, que temem outro “choque da China” semelhante ao aumento das exportações chinesas no final dos anos 1990 e início dos anos 2000.

Os EUA e a UE, além de grandes países em desenvolvimento como Brasil e Índia, estão rapidamente erguendo barreiras comerciais para proteger suas indústrias avançadas de uma enxurrada de produtos chineses de baixo custo.

Depois de anteriormente negar a existência de capacidade excedente – Xi, durante uma viagem à França no ano passado, afirmou que isso não existia -, a revista Qiushi, do Partido Comunista, não apenas usou o termo no mês passado, como também apresentou uma análise minuciosa de suas causas. Uma série de medidas para tentar sustentar os preços foi implementada em seguida.

Mas, com os investimentos em manufatura ainda crescendo em ritmo acelerado – alta de 7,5% neste ano, após um aumento de 9,5% em 2024 -, não há fim à vista. Yan Se, professor assistente do departamento de economia aplicada da Escola de Administração Guanghua da Universidade de Pequim, afirmou em um seminário recente que a participação da China no valor agregado da manufatura global pode subir para 40% nos próximos cinco anos, ante cerca de 27% atualmente.

“Acho encorajador ver Pequim reconhecer essa [involução] como uma questão importante, algo que não é apenas um problema para os parceiros comerciais da China, mas também representa desafios para sua própria economia”, diz Frederic Neumann, economista-chefe para a Ásia do HSBC.

“A questão é: o quanto realmente pode ser feito no curto prazo?”, acrescenta. “Porque, para aliviar as consequências da involução, é necessária uma maior disciplina nos investimentos e, ao mesmo tempo, mais demanda doméstica.”

“É preciso aumentar a demanda e reduzir a oferta. E isso é mais fácil falar do que fazer”, completou.

A poucos metros do complexo de Zhao, outro novo parque industrial, que se autodenomina um “centro de tecnologia de manufatura avançada” com investimento de 1 bilhão de yuans, também está praticamente vazio.

Também planejado para abrigar indústrias das “novas forças produtivas de qualidade”, o parque vendeu cerca de 75% de suas propriedades para empresas que fabricam equipamentos agrícolas, de combate a incêndios e outros, segundo um gerente.

Investimentos mal alocados e capacidade duplicada estão prejudicando a eficiência”

— Yuhan Zhang

A maioria ainda não se instalou. Muitas das fábricas parecem ser usadas temporariamente para armazenar materiais de construção. Mato brota nos pequenos canteiros em frente às recepções.

“Pode ser porque a situação econômica nos últimos dois anos não tem sido muito boa e a demanda não foi tão alta quanto se esperava quando o terreno foi adquirido”, afirma uma vendedora do complexo. “Então agora [os compradores] querem alugar novamente.”

As fábricas vazias apontam para outro problema: o investimento improdutivo. Mesmo sem maquinário instalado, os edifícios ainda podem ser contabilizados como investimento em ativos fixos na manufatura, dizem economistas.

Tangshan é uma das 40 cidades chinesas analisadas em novo relatório de Yuhan Zhang, economista-chefe para a China do centro de estudos Conference Board, que constatou que muitas metrópoles de menor porte dependem fortemente desses investimentos para gerar crescimento econômico.

Essas cidades apresentaram uma média de 58% na relação investimento/PIB no ano passado, em comparação com a já elevada média nacional da China, de 40%. Nos países membros da OCDE, esse índice gira em torno de 22%.

“Mesmo com capacidade excedente considerável, os governos locais estão ampliando investimentos industriais e em infraestrutura para compensar a fraqueza do setor imobiliário”, diz Zhang.

O estudo também revelou que, em cidades de menor porte, alta intensidade de investimento normalmente coincide com baixa produtividade do trabalho e menor produtividade total dos fatores – uma medida da produção gerada por cada unidade de capital e trabalho. Para os formuladores de políticas em Pequim, a ideia original das novas forças produtivas de qualidade era não apenas elevar a indústria chinesa na cadeia de valor, mas também melhorar a produtividade total.

“Investimentos mal alocados e capacidade duplicada estão prejudicando a eficiência”, escreveu Zhang no relatório, destacando que “os ganhos de longo prazo com as ‘novas forças produtivas de qualidade’ exigem desenvolvimento de capital humano, inovação e uma alocação de recursos mais orientada pelo mercado”.

Cidades de ponta como Pequim, Xangai, Guangzhou e Shenzhen, além de algumas metrópoles de segundo nível, “já fizeram a transição para economias centradas em indústrias intensivas em conhecimento, serviços avançados e comércio global”, afirmou Zhang.

“Gastos elevados com ativos fixos parecem reduzir a eficiência em vez de aumentá-la, mesmo quando os governos locais despejam dinheiro nas ‘novas forças produtivas de qualidade’”, concluiu Zhang.

Nas linhas de produção das fábricas chinesas, a vida é uma batalha diária por sobrevivência diante de margens de lucro extremamente baixas ou até negativas, com a demanda em retração e as exportações enfrentando incertezas tarifárias.

Zhao Fen é proprietária de quatro fábricas de brinquedos que produzem mercadorias com base em propriedade intelectual específica, seja própria ou licenciada de outras marcas.

Fumando cigarro atrás de cigarro em seu escritório em Dongguan, província industrial de Guangdong, no sul da China, cercada por brinquedos do Ursinho Pooh e bonecos de anime, ela diz que a maior mudança em seu negócio na última década foi o aumento de juan – competição excessiva -, que reduziu os preços de venda de seus produtos pela metade nesse período.

Mesmo nesses setores mais tradicionais, a competição tem sido parcialmente impulsionada pelas ideias por trás das novas forças produtivas de qualidade, que incluem a modernização das indústrias antigas com equipamentos novos, segundo acadêmicos.

Pequim tem operado programas de subsídio para que os fabricantes adquiram novas máquinas, acelerando a produção num momento de menor demanda do consumidor.

“No passado, coisas boas precisavam de pessoas para produzi-las, mas agora são feitas por máquinas, e a capacidade de produção como um todo também aumentou, então o preço unitário também caiu”, afirma ela.

A indústria está tão saturada de produtores que o lucro se tornou escasso. “Ganhar dinheiro é só a cereja do bolo”, reflete Zhao, acrescentando que suas fábricas às vezes aceitam pedidos não lucrativos apenas para manter a equipe empregada.

Ela também reclama do roubo de propriedade intelectual, ecoando queixas antigas de fabricantes ocidentais. “O mercado é bom demais em copiar não é que o controle e a prevenção da cópia de produtos com propriedade intelectual não sejam rígidos na China mas há muitas pessoas que se aproveitam das brechas.”

“É por isso que todo o setor foi espremido a ponto de ninguém mais ter lucro. Acho muito difícil que o país consiga controlar isso. Não há como controlar.”

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Quem é o jovem de 24 anos que fez a Meta gastar US$ 250 milhões para contratar

Movimento de Mark Zuckerberg para cima de Matt Deitke lembra a transação de atletas famosos

Por João Pedro Adania – Estadão – 04/08/2025 

Daqui a pouco os filmes de comédia adolescente terão de inverter os papeis: o nerd de óculos grossos, antes sacaneado pelo capitão do time de basquete, vai assumir o protagonismo e conquistar todas as gatinhas. Por quê? Os prodígios da inteligência artificial (IA).

Matt Deitke é a nova estrela do Vale do Silício e mais um dos responsáveis pela guinada pop dos nerds. Ele acaba de ser contratado pela Meta em uma transação de US$ 250 milhões, uma mudança que lembra a de atletas profissionais — Neymar custou US$ 257 milhões ao PSG quando saiu do Barcelona, até hoje a transação mais cara do futebol.

Matt Deitke com seu novo uniforme da Meta

Matt Deitke com seu novo uniforme da Meta Foto: Reprodução/X

O cientista de 24 anos ganhou suas primeiras manchetes quando rejeitou uma oferta de US$ 125 milhões para se juntar ao principal núcleo de IA da Meta. Só uma reunião olho a olho com Mark Zuckerberg – e o dobro do valor oferecido a princípio – fez ele mudar de ideia. Mas quem é esse jovem que fez a gigante pagar U$ 250 milhões na missão de construir uma “superinteligência”?

Em 2019 Deitke se inscreveu no LinkedIn como pesquisador e engenheiro de IA no Allen Institute for AI (AI2), em Seattle, onde ficou até outubro de 2024 — o laboratório foi criado pelo cofundador da Microsoft Paul Allen, morto em 2018. Nesse mesmo período, ele se formou em Ciência da Computação na Universidade de Washington.

Seu trabalho na IA2 o colocou na linha de frente da inovação em IA. Foi ali que Deitke liderou o desenvolvimento do Molmo, um chatbot multimodal capaz de entender e raciocinar textos, imagens e áudios. Isso não lembra algo que foi lançado em novembro de 2022? Sim, o ChatGPT, lançado pouco tempo depois.

A novidade era que o Molmo, ao contrário dos chatbots que dependem exclusivamente de modelos de linguagem, ‘pensava’ com base no espaço e ambiente.

Essa abordagem fazia todo sentido. No seu currículo, Deitke reserva um bom espaço para mostrar seus projetos de modelagem 3D e geração de realidade aumentada.

O feito não passou despercebido e lhe rendeu o prêmio de Outstanding Paper Award na NeurIPS 2022, uma das conferências de IA mais prestigiadas do mundo. E claro, os olheiros do Vale do Silício o acompanhavam de perto.

Citado pela OpenAI como um sistema de referência para testes de alinhamento intermodal, o Molmo teve um reconhecimento raro entre os concorrentes do setor.

A fama estava consolidada: Deitke passou de um engenheiro de destaque para um líder no pensamento em IA.

Depois de cinco anos no Allen Institute foi AI, Deitke resolveu abrir sua própria startup,a Vercept. De novembro de 2024 até julho de 2025, Deitke levou a empresa que criou a projetar o Vy, um aplicativo nativo para computadores Apple com recursos avançados de interação e agentes de raciocínio. Ou seja, a nova fronteira tecnológica.

O início da startup foi nada modesto. Ainda com dez funcionários a startup atraiu grandes investidores. Na primeira rodada, US$ 16,5 milhões em financiamento, inclusive do ex-CEO do Google, Eric Schimidt.

Nas palavras da Vercept, a criação funciona como qualquer outro aplicativo dentro do software do próprio Mac e não depende de internet ou servidores externos para funcionar. “Você diz o que quer, com suas próprias palavras, e ele faz acontecer”.

Algumas semelhanças contribuíram para o “match” entre Deitke e Zuckerberg. Por exemplo, o jovem pesquisador seguiu os passos dos pioneiros de Palo Alto e largou um futuro acadêmico promissor. Bill Gates, Steve Jobs e o próprio Zuckerberg saíram da faculdade antes de conclui-la. Deitke foi mais conservador e só abandonou Universidade de Washington no doutorado.

Tudo isso resultou na conversa olho no olho com Zuckerberg. Com a oferta de US$ 250 milhões em quatro anos (com até US$ 100 milhões pagos no primeiro ano) na mesa, a mente mais cobiçada do Vale do Silício conversou com amigos, que o aconselharam a não deixar a oportunidade passar. O contrato foi assinado logo depois.

Na ocasião, o engenheiro confessou ter recusado a primeira investida de Zuckerberg porque temia entrar cedo demais em uma empresa do tamanho da Meta e perder sua liberdade de experimentar, valor que Deitke considera negociável.

Meta tira brasileiro do Google em onda de contratações milionárias para turbinar IA

Outras empresas também correm nessa na busca de novos talentos do Vale do Silício. Nas últimas semanas, a contratação de “agentes livres” da IA virou um espetáculo nas redes sociais e debate estilo “mesa redonda”.

E não é para menos: em 2012, três estudantes da Universidade de Toronto publicaram um artigo sobre um sistema de IA que reconhecia objetos como flores e carros. Depois eles foram arrematados pelo Google por US$ 44 milhões. Um desses estudantes era Ilya Sutskever, cofundador e mente tecnológica nos primeiros anos de OpenAI

Peter Lee, chefe de pesquisa da Microsoft, em 2014 comparou o mercado de tecnologia ao da NFL (Liga de Futebol Americano), onde os novatos já ganhavam cerca de US$ 1 milhão por ano.

O custo de um especialista de ponta em deep learning era comparável ao de um “quarterback promissor”, disse Lee à Bloomberg Bussiness Week na época.

Na quarta-feira, 30, Zuckerberg disse que o investimento em talentos da IA continua “porque acreditamos que a superinteligência vai melhorar todos os aspectos do que fazemos”.

Quem é o jovem de 24 anos que fez a Meta gastar US$ 250 milhões para contratar – Estadão

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