Banimos essas plantas e bichos trazidos de fora?

Será uma grande revolução de ânimo nacionalista. Brasileiros vão comer comida legitimamente brasileira

Por Claudio de Moura Castro – Estadão – 01/02/2026

Boas notícias! Foi proposta, despertando interesse nacional, uma legislação no Rio Grande do Sul, que visa a banir espécies de plantas e animais cuja origem não é o Brasil. Na mira estão o eucalipto (da Austrália) e a tilápia (da África). O Pinus elliottii (do sul dos Estados Unidos) é outro candidato. Afinal de contas, dada a estonteante variedade dos nossos biomas, que razões haveria para trazer espécies de fora?

Mas, obviamente, isso é apenas o início. Por que não aceitar apenas as espécies autóctones, barrando as irresponsavelmente importadas?

Vejamos a pequena faxina que devemos empreender. O trigo, a aveia e a cevada vêm do Crescente Fértil. O café vem do Norte da África. A cana-de-açúcar foi trazida da Oceania. O milho e o feijão vêm do México, apesar de terem chegado antes do descobrimento. Sejamos puristas, não são espécies autóctones. O arroz vem do leste da Ásia. A soja, da China. A batata veio lá dos Andes, bem como o tomate. A cenoura é do Afeganistão. O pimentão e a abobrinha originam-se na América Central. A cebola vem da Ásia central. A berinjela e a pimenta do reino são originárias da Índia. Cumpre erradicar tudo isso, pois não são plantas brasileiras.

É vergonhosa a longa lista de frutas trazidas de fora. A manga veio da Índia. Comemos variedades locais de abacaxi. Mas predominam as geneticamente modificadas fora do País. A laranja veio do mundo árabe. A tangerina, da China. A banana vem do Sudeste Asiático. Os melões e melancias vêm da África tropical. A uva vem lá do Cáucaso. A goiaba se equilibra na fronteira do aceitável. Sua origem é nas Américas, acima do Equador, embora tenha migrado para cá, bem antes do descobrimento.

E os bichos, com tantos por aqui! Livremo-nos dos “estrangeiros”: cavalos, burros, bois, ovelhas, galinhas e cabras foram trazidos da Europa, apesar de sua origem mais dispersa. Quem sabe, as antas podem ser boa montaria?

Com nosso enorme plantel de árvores, por que aceitar outras de fora? O coco da Bahia (Cocos nucifera), apesar do nome, vem da Polinésia. A palmeira imperial, das Guianas. Banimos ambos! E o absurdo de plantar teca, originária da Ásia. O algodão, um reles arbusto, é nativo do México e de outras partes do mundo. Não passa na prova de brasilidade.

Feita essa limpeza patriótica, vão sobrar as nossas espécies, legitimamente, verde e amarelas. Temos a mandioca e a batata-doce para os carboidratos. Temos o açaí, o cacau e o caju, orgulhos nacionais. E temos a gloriosa jabuticaba. O pequi é nosso, apesar que ficará desfalcado do arroz, combinação estimada no nosso Centro-Oeste.

Será uma grande revolução de ânimo nacionalista. Brasileiros vão comer comida legitimamente brasileira.

Para que café, se temos mate e guaraná? O McDonald’s teria dificuldades, sem batatas, carne de boi e trigo. Mas é empresa estrangeira, pouco importaria o seu desaparecimento.

A laranjada matinal poderia encontrar substitutos mais nutritivos. É preciso valorizar os nossos produtos nativos.

Leite, queijo e iogurte trariam um pequeno problema. Leite de onça, de macaca? Há que dar um jeito. Quem sabe, queijo de capivara? Poderia vir a ser uma esplêndida iguaria. Um probleminha menor seriam as zoonoses, por elas transmitidas. Mas vale o risco.

Para a carne, poderíamos criar jacarés. Sua cauda é uma especialidade culinária. Havemos de descobrir maneiras de alimentar os bichos, em vez de sermos comidos por eles. O jacu substituiria as galinhas. O porco seria substituído pelo caititu, apesar de sua ferocidade e carne duríssima. Nossos indígenas comiam macacos, com muito gosto. Vamos pensar em grandes criatórios, produzindo milhões de símios, destinados às panelas.

Cães e gatos são simpáticos, mas foram também trazidos pelos europeus. Precisam ser substituídos. Há quem tenha quatis e iguanas como pets. Nossas raposinhas são muito ariscas, mas talvez possam ser domesticadas, após algumas dezenas de cruzamentos seletivos. Macacos têm temperamento diabólico. Tampouco sou otimista quanto aos gambás ou porcos-espinhos.

Os nossos indígenas trançavam fibras para suas roupas. Talvez alguma se preste à industrialização, substituindo a lã e o algodão, inaceitáveis pela sua origem estrangeira.

Ao fim desta campanha, orgulhosamente, chegaríamos à completa erradicação das espécies importadas. Teríamos uma alimentação brasileira e uma indústria abastecida com fibras locais.

Na prática, passaríamos a ter uma dieta de mandioca e batata-doce, adicionando alguns condimentos locais. Nossos chefs de cuisine preparariam maravilhosos pratos com essas duas matérias-primas. Quem disse que precisamos de outras?

Talvez, o MasterChef possa converter-se num laboratório, para gerar uma variada gastronomia, baseada nesses dois produtos. Assim, honraríamos a nossa natureza, tão farta e variada.

Nota final: esse ensaio debocha de um delírio legislativo. Mas há espécies invasivas e predadoras, como o peixe leão e o mexilhão dourado. Esses casos ficam fora de nossa chacota.

Opinião por Claudio de Moura Castro

Pesquisador em Educação e doutor em Economia pela Universidade Vanderbilt (EUA), Claudio de Moura e Castro escreve mensalmente na seção Espaço Aberto

Banimos essas plantas e bichos trazidos de fora? – Estadão

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Programa transforma cientistas em fundadores de startups

Criado por um fundo do Vale do Silício, o programa ensina cientistas a transformar pesquisas em empresas reais

Programa transforma cientistas em fundadores de startupsFifty Years (divulgação) e freepik.com


ADELE PETERS – Fast Company Brasil – 31-01-2026 

Enquanto trabalhava como engenheiro na Tesla, Niccolo Cymbalist nunca planejou abrir um negócio. Mas ele vinha considerando uma ideia para uma nova tecnologia: um navio cargueiro autônomo movido a energia eólica. Então, durante sua licença paternidade em 2024, ele descobriu um programa gratuito que ajuda cientistas e engenheiros a lançarem seus próprios negócios pela primeira vez.

Semanas após concluir o programa, chamado 5050, Cymbalist lançou uma startup chamada Clippership. O primeiro navio da empresa está sendo construído na Holanda este ano. Sem a aceleradora, ele afirma que a empresa provavelmente não existiria.

O programa já ajudou cientistas e engenheiros a lançarem 100 empresas, desde a Huminly, que usa enzimas para tornar as roupas infinitamente recicláveis, até a Plasmidsaurus, que oferece sequenciamento de DNA ultrarrápido.

A EQUIPE PERCEBEU QUE BOAS IDEIAS ESTAVAM PRESAS EM LABORATÓRIOS ACADÊMICOS.

O curso é oferecido pela Fifty Years, uma empresa de capital de risco com sede em São Francisco, focada em tecnologia de ponta que busca solucionar os maiores problemas do mundo, de doenças às mudanças climáticas. Logo após a fundação da empresa, há uma década, a equipe percebeu que boas ideias estavam presas em laboratórios acadêmicos.

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“A transição de cientista acadêmico para fundador é, na verdade, muito mais difícil do que a transição de um estudante que abandonou o segundo ano da faculdade para fundador, por uma série de razões”, afirma Seth Bannon, sócio fundador da Fifty Years. “Por causa disso, as pessoas mais indicadas para iniciar essas startups — os cientistas que inventaram a tecnologia — não estavam fazendo essa transição. Então, pensamos: ‘Ok, podemos ajudar a resolver isso?’”

DA IDEIA À STARTUP

Os potenciais fundadores participam de um programa de 13 semanas — com alguns fins de semana presenciais e sessões semanais via Zoom — que os ajuda a descobrir se sua ideia vale a pena ser desenvolvida e se está pronta para ser comercializada.

O fundador da Plasmidsaurus, por exemplo, que era pós-doutorando no Caltech, inicialmente entrou no programa com a intenção de transformar sua pesquisa de laboratório sobre circuitos genéticos sintéticos em um produto médico. Mas a equipe do 5050 o ajudou a perceber que ainda faltavam cerca de 10 anos para a comercialização, e que uma de suas outras ideias — uma tecnologia que ele havia desenvolvido para acelerar sua própria pesquisa — estava pronta agora.

A Plasmidsaurus está crescendo rapidamente. “Eles acabaram de ultrapassar a marca de US$ 60 milhões em faturamento anual”, diz Bannon. “Eles têm sido lucrativos todos os meses desde o início. E agora são um dos nomes mais queridos na biologia.”

MOTIVAÇÃO E UM TIME

Os participantes também aprendem como montar uma equipe para uma startup, entender o que torna os fundadores bem-sucedidos e decidir se o empreendedorismo é adequado para eles.

“Um dos workshops que oferecemos é o ‘história do eu’, onde mergulhamos fundo em sua motivação principal — toda a sua história de vida e o que eles estão fazendo hoje para garantir que estejam realmente buscando algo que os entusiasme de verdade”, diz Ale Borda, que dirige o programa 5050. “Então eles podem usar essa mesma história para compartilhar sobre seu trabalho e por que estão dispostos a superar obstáculos para que isso aconteça.”

“VOCÊ PRECISA APRENDER A SE COMUNICAR EM ABSTRAÇÕES QUE DIRECIONEM CORRETAMENTE O FOCO.”

SETH BANNON, DA FIFTY YEAR

Eles aprendem a se comunicar de forma diferente. “Na academia, por exemplo, você aprende a se comunicar com dados, dados e mais dados — e depois lista as 10 maneiras pelas quais meus dados podem estar errados”, diz Bannon. Embora isso seja bom para pesquisa, “se você se comunicar dessa forma como fundador de uma startup, terá dificuldade para contratar pessoas, para captar recursos e para conseguir cobertura da imprensa”, afirma. “Portanto, você precisa aprender a se comunicar em abstrações que direcionem corretamente o foco.”

DIFERENÇAS DENTRO E FORA DA UNIVERSIDADE

As universidades geralmente também têm programas para ajudar a levar a tecnologia ao mercado, mas as instituições de ensino estão desconectadas do mundo das startups, e Bannon diz que os programas não são muito eficazes. (Os mentores podem ser executivos de empresas da Fortune 500, por exemplo, em vez de outros fundadores de startups com experiência direta.)

Há também conflitos de interesse. As universidades detêm a propriedade intelectual das novas invenções que os cientistas desenvolvem no campus; os produtores de conhecimento precisam passar por um processo complexo de negociação para obter os direitos sobre a tecnologia. O programa da 5050 inclui orientação sobre como navegar nesse processo.

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Até agora, a abordagem está funcionando. “A estatística da qual mais nos orgulhamos é que 96% das equipes que buscaram financiamento conseguiram”, diz Bannon. “Essa é uma estatística incrivelmente alta para um programa que aceita pessoas que não têm empresas quando ingressam.”

No atual clima político, com os cortes no financiamento federal afetando os laboratórios universitários, o programa já observa um aumento no interesse de cientistas em uma encruzilhada na carreira.

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“Muitos deles estão percebendo que talvez não consigam mais continuar o trabalho de suas vidas na academia”, segundo Bannon. “Alguns deles têm a sorte de estar em uma posição em que talvez possam criar uma startup.” No curto prazo, ele afirma, os cortes no financiamento podem levar a mais startups, embora isso desacelere o crescimento futuro.

Das 100 empresas que foram lançadas pelo programa até agora, cerca de metade não teria começado sem ele. Outras foram lançadas mais rapidamente do que teriam sido sem o apoio. “Eu provavelmente teria começado uma, mas certamente não existiria na época em que eu a fundei”, diz Daniel Rahn, ex-engenheiro da SpaceX e fundador da Metal as Fuel, empresa que produz combustíveis metálicos para descarbonizar a indústria pesada.

“São empresas que representam um contrafactual”, afirma Bannon. “Essas companhias estão combatendo a crise climática, combatendo doenças, realizando trabalhos importantes. E é muito gratificante ajudar empresas a surgirem, empresas que, de outra forma, não existiriam.”


SOBRE A AUTORA

Adele Peters é redatora da Fast Company. Ela se concentra em fazer reportagens para solucionar alguns dos maiores problemas do mundo, desde mudanças climáticas até a falta de moradia.

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Computação quântica trará grandes avanços e riscos, diz físico best-seller

Americano Michio Kaku alerta que novas máquinas serão tão poderosas que não terão problemas para quebrar os atuais mecanismos de encriptação de dados

Por Jéssica Sant’Ana, Valor – 30/01/2026 

Enquanto o mundo ainda discute o impacto da inteligência artificial (IA) e da economia digital na produtividade, no emprego e na competitividade econômica, cientistas estão de olho no que será a quinta revolução industrial: a computação quântica. Celulares, óculos de realidade virtual e computadores tradicionais que hoje utilizam elétrons para processar informações e realizar cálculos ficarão para trás. O futuro será baseado em átomos, e isso mudará totalmente a forma como nos comunicamos e processamos informações.

A conclusão foi exposta pelo físico teórico, futurista e escritor Michio Kaku, autor de uma série de best-sellers na área, durante painel no Fórum Econômico Internacional América Latina e Caribe 2026. “Os computadores quânticos são bilhões de vezes mais rápidos do que um computador digital. O computador digital de hoje calcula todos os caminhos entre A e B individualmente. Os computadores quânticos fazem isso simultaneamente, [ou seja], passam por todos os caminhos possíveis ao mesmo tempo. Se você entender isso, você entenderá a essência da próxima revolução.”

Atualmente, existe uma corrida entre China e Estados Unidos para desenvolvimento de computadores quânticos em escala comercial. A expectativa de Kaku é que nos próximos cinco a dez anos seja possível saber quem vai ganhar essa corrida que mudará a forma que a sociedade usa a tecnologia. “Talvez você nem precise de óculos de realidade virtual. Talvez use lentes de contato, em que você piscará e acessará toda a base de dados da humanidade, porque todo conhecimento está codificado. Você poderá, ao conhecer alguém numa festa, piscar e baixar sua biografia”, diz o físico.

No futuro, imagens poderão ser criadas apenas pensando: “A arte começou com pedras e gravetos. Depois veio a tinta. Depois, os computadores. No futuro, usaremos a mente.” O transporte também mudará e “seu vizinho poderá ir à Lua”. “O celular que você tem no bolso um dia se tornará obsoleto. Comunicaremos usando átomos”, frisa Kaku.

A quinta revolução, contudo, trará desafios. Com a tecnologia quântica, será possível entrar em qualquer código digital conhecido – e as empresas não estão preparadas para isso, frisa o palestrante. “O código-fonte do Tesouro dos EUA pode ser quebrado por um computador quântico. Eles ainda não estão prontos, mas esse é o futuro. Esse é o desvio: computadores quânticos podem quebrar qualquer coisa que você queira, como cofres, sistemas financeiros, tudo.”

Por outro lado, a biologia é quântica. “Isso pode significar cura para câncer, Alzheimer, Parkinson e talvez até retardar mais o processo de envelhecimento.”

Isso ainda é um cenário para o futuro. Estamos na era da quarta revolução industrial, a era da IA, em que o conhecimento humano está sendo codificado. “Temos uma revolução acontecendo por causa da capacidade de codificar enormes quantidades de conhecimento e colocá-los em um chip”, explica. “Conseguimos enviar enormes quantidades de informação simplesmente clicando em um botão. E o espaço cibernético estará em todos os lugares”, completa o estudioso.

Para Kaku, a IA não vai substituir todas as formas de emprego. Ele diz que alguns trabalhos manuais, como de um encanador, e os trabalhos que dependem de análise e liderança, como de advogados, professores e CEOs, não serão substituídos pela tecnologia. Eles devem apenas usar cada vez mais as ferramentas de inteligência artificial para facilitar suas atividades.

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Bolha da inteligência artificial está mais perto de estourar

  • Tarifas comerciais e restrições à imigração podem frear o avanço das gigantes de IA
  • Custos crescentes de energia, infraestrutura e mão de obra ameaçam sustentar o boom do setor

Shannon O’Neil – Folha/Bloomberg – 29.jan.2026 

Vice-presidente sênior do think tank Council on Foreign Relations

A inteligência artificial vem puxando o índice S&P 500 e a economia americana como um todo. Os CEOs de um pequeno grupo de empresas dominantes se tornaram celebridades, com fãs e mercados atentos a cada palavra e a cada balanço trimestral. A linha entre entusiasmo e realidade ficou turva.

Mas o que pode furar a bolha da IA não são as preocupações já conhecidas —como financiamento circular, endividamento crescente ou a concorrência chinesa. O risco maior pode vir de fatores menos esperados: o impacto das tarifas comerciais e a redução no número de imigrantes nos Estados Unidos, que podem trazer essas campeãs da tecnologia de volta ao chão.

O presidente Donald Trump prometeu fazer “o que for preciso” para liderar o mundo em inteligência artificial, mobilizando o governo federal e acionando instrumentos de política industrial.

O governo vem liberando terras federais para a construção de data centers e usinas de energia, acelerando licenças e análises ambientais. O governo também adquiriu participações acionárias na fabricante de chips Intel e na startup de equipamentos de litografia x-Light, além de empresas de minerais críticos usados na produção de eletrônicos essenciais ao setor.

Ao mesmo tempo, enfrenta regulações estaduais sobre IA e usa poderes executivos para reduzir exigências e fiscalização. A Casa Branca ainda isentou servidores, semicondutores, placas de circuito e outros componentes —que representam cerca de um terço do custo dos data centers— das tarifas de importação, embora materiais de construção sigam sendo taxados.

Esse conjunto de políticas favorece a inteligência artificial em relação à indústria tradicional e a outros setores da economia, impulsionando o aumento do interesse e dos investimentos anunciados em capital.

Como resultado, grandes empresas de tecnologia despejam centenas de bilhões de dólares em fileiras intermináveis de servidores, cabos e roteadores dentro de enormes data centers, destinados a sustentar seus modelos e sistemas. A capacidade computacional deve ao menos dobrar até 2030.

Com a proliferação dos data centers, cresce também a demanda por eletricidade. A consultoria McKinsey estima que as novas instalações previstas até 2030 consumirão mais de 600 terawatts-hora —energia suficiente para abastecer quase 60 milhões de residências.

À medida que a pressão sobre as concessionárias aumenta, os custos de construção também disparam. Os preços de insumos já vinham subindo, com encomendas de transformadores, disjuntores e equipamentos de transmissão superando a capacidade das fábricas após anos de baixa demanda.

Em 2025, as tarifas elevaram ainda mais o custo de produtos e equipamentos importados. Alíquotas punitivas de 50% sobre aço, alumínio e fios de cobre atingem com força transformadores, linhas de energia e torres de transmissão. As baterias de armazenamento usadas pelas concessionárias, em sua maioria importadas da China, enfrentam taxas ainda mais elevadas.

As políticas migratórias de Trump também tornam a expansão da IA mais lenta e cara. Executivos de tecnologia alertam para a escassez de cientistas, pesquisadores e engenheiros altamente qualificados, diante da dificuldade crescente de obter vistos H-1B, hoje mais caros e restritos. Mas a vulnerabilidade do setor começa no canteiro de obras.

Cerca de 25% dos trabalhadores da construção civil são estrangeiros, e um em cada sete não tem documentos. Com fronteiras mais rígidas, operações do ICE e deportações intensificadas, tornou-se raro encontrar mão de obra extra disponível —ou mesmo equipes completas— em várias regiões do país.

Pesquisas com empreiteiros indicam que mais de 80% enfrentam vagas em aberto, cada vez mais difíceis de preencher. A falta de trabalhadores é hoje a principal causa de atrasos em projetos, mesmo com a desaceleração de outras frentes da construção: os lançamentos residenciais caíram quase 10%, ao menor nível em cinco anos, enquanto a construção comercial recuou 13%.

Para empresas de IA e de data centers, os centenas de bilhões de dólares já comprometidos em investimentos não rendem tanto quanto poderiam. A tendência é que esse cenário piore em 2026. Com a questão da acessibilidade ganhando destaque na corrida para as eleições de meio de mandato, a Casa Branca passou a mirar o setor habitacional.

Até agora, as propostas se concentraram em reduzir taxas hipotecárias e limitar a compra de imóveis por investidores institucionais, mas um impulso à construção de moradias parece iminente.

O secretário de Comércio, Howard Lutnick, reuniu-se recentemente com grandes construtoras para discutir as expectativas do governo. Isso significará mais projetos residenciais disputando o mesmo contingente cada vez menor de eletricistas, técnicos de HVAC, soldadores e outros profissionais especializados.

O governo americano precisa prestar tanta atenção a eletricistas e soldadores quanto a engenheiros. Programas de treinamento e estágios podem ajudar no longo prazo, mas a indústria enfrenta uma escassez imediata de mão de obra qualificada.

Uma saída seria ampliar os vistos H-2B, acelerar a concessão de vistos EB-3 para trabalhadores da construção civil e criar um programa temporário específico para o setor, aplicável tanto a estrangeiros quanto a imigrantes já nos EUA.

O sucesso ou fracasso da inteligência artificial dependerá de sua capacidade de demonstrar o valor dos investimentos gigantescos feitos até agora. Mas mesmo que transforme diversos setores da economia, custos e prazos definirão quem se beneficia —e quando. E, hoje, as tarifas comerciais e as políticas migratórias do governo Trump são parte central dos fatores que limitam o avanço das empresas e modelos de IA nos Estados Unidos.

Bolha da inteligência artificial está mais perto de estourar – 29/01/2026 – Economia – Folha

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O boom da IA tem uma vencedora inesperada: uma empresa de 175 anos de utensílio de cozinha; entenda

Dona de marcas icônicas como a Pyrex, a Corning reinventou-se mais uma vez, desta vez como fornecedora essencial para os maiores data centers do mundo

Por Sharon Goldman – Estadão/Fortune – 28/01/2026

IA com visão de mundo e IA cientista: o que esperar da inteligência artificial em 2026

Talvez você conheça a Corning por suas marcas icônicas de cozinha, como Pyrex e CorningWare. Talvez se lembre de que Thomas Edison confiou na empresa para desenvolver o vidro para a lâmpada, ou que, em 1970, a Corning inventou a primeira fibra de vidro útil para a comunicação de longa distância, enquanto, em 2007, Steve Jobs recorreu à Corning, com sede em Corning, Nova York, nos Estados Unidos, para criar o vidro resistente a estilhaços que agora envolve todos os iPhones.

Você provavelmente não pensa nela como uma empresa de inteligência artificial, mas um novo acordo com a Meta mostra como o boom da IA está remodelando radicalmente o cenário industrial dos Estados Unidos. A Corning, com 175 anos de existência, reinventou-se mais uma vez — desta vez como fornecedora essencial para os maiores data centers de IA do mundo.

A Meta anunciou nesta semana que se comprometeu a pagar à Corning até US$ 6 bilhões até 2030 por cabos de fibra óptica para conectar sua frota em expansão de data centers de IA.

Em uma entrevista à CNBC, o CEO da Corning, Wendell Weeks, revelou que a empresa está expandindo uma fábrica na Carolina do Norte para acomodar a crescente demanda da Meta e de outras empresas, incluindo Nvidia, OpenAI, Google, Amazon e Microsoft. Quando o projeto estiver concluído — com financiamento da Meta — a Corning diz que será a maior fábrica de cabos de fibra óptica do mundo. A notícia fez com que as ações da Corning subissem 16%.

Em vez de enviar informações como sinais elétricos por meio de fios de cobre, a fibra usa fios de vidro ultrapuro — cada um mais fino que um fio de cabelo humano — para transportar dados como pulsos de luz. Nos data centers de IA, o cabo de fibra óptica conecta dezenas de milhares de GPUs, permitindo que elas funcionem como um único cluster de supercomputador.

Shay Boloor, estrategista-chefe de mercado da Futurum Equities, disse à Fortune que o acordo com a Meta é “grande” para a Corning, provavelmente dobrando sua receita anual, de menos de meio bilhão para quase um bilhão por ano, quando a fábrica estiver totalmente em funcionamento.

É provável que o negócio também não seja o último para a Corning, já que os hiperescaladores (data centers de grande escala) procuram garantir o fornecimento. “Não me surpreenderia ver a Microsoft fazer um acordo semelhante com a Corning, porque muitos desses investidores em data centers estão indo além da construção da fábrica e realmente temem que a escassez apareça quando chegarem ao próximo estágio”, disse Boloor.

Como a Fortune relatou no ano passado, a situação nem sempre foi tranquila para a Corning. Na década de 1990, Weeks foi um dos vice-presidentes da Corning escolhido para dirigir um novo negócio de fibra óptica para alimentar a crescente internet — uma inovação que levou a avaliação da Corning a quase US$ 100 bilhões no auge da bolha da internet em 2000.

Essa bolha estourou no ano seguinte, fazendo com que o preço das ações da empresa despencasse de cerca de US$ 100 para US$ 1. Mas, mesmo quando a Corning perdeu 99% de seu valor e teve que demitir metade de seus funcionários, Weeks continuou a desenvolver a tecnologia de fibra da empresa, que continua a dar frutos durante o boom do data center de IA. Nos últimos seis meses, as ações da Corning subiram mais de 100%.

O acordo com a Meta chega em um momento em que a energia se tornou o maior gargalo para os hiperescaladores, disse Boloor, pressionando as empresas a fazerem tudo o que puderem para contornar uma restrição que só está piorando. Os data centers de IA atuais incluem racks de GPUs que devem ser fisicamente conectados no que ele chama de “velocidades insanas”.

“A eletricidade não se move pelo ar e os dados não se teletransportam entre os racks — a energia flui pelo cobre e os dados fluem pela fibra”, explicou ele. À medida que a inferência de IA — a saída diária de modelos — aumenta, a “quantidade de fibra por data center vai explodir”.

O boom da IA tem uma vencedora inesperada: uma empresa de 175 anos de utensílio de cozinha; entenda – Estadão

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Por que eles estão desistindo de trabalhar de qualquer lugar do mundo como nômades digitais

Boom de profissionais que adotam o estilo de vida sem endereço fixo cresceu após a pandemia, mas ‘lado b’ do nomadismo força desistência

Por Jayanne Rodrigues – Estadão – 23/01/2026 

Boom de profissionais que adotam o estilo de vida sem endereço fixo cresceu após a pandemia, mas ‘lado b’ do nomadismo força desistência antes do previsto.

Em apenas um ano, a advogada Letícia Pirolo, de 30 anos, percorreu a costa brasileira ao lado do seu cachorro, Manjericão. Eles não permaneciam mais de dois meses em cada destino. Enquanto trabalhava remotamente para o escritório de advocacia que comanda, conheceu lugares como Natal, Recife, Chapada Diamantina e os Lençóis Maranhenses. A próxima rota da dupla seria no exterior. No entanto, os planos mudaram.

Letícia decidiu abandonar a vida como nômade digital, profissional que trabalha enquanto viaja, por causa dos perrengues, da solidão e dos excessos de decisões que o estilo de vida exige. “Eu imaginava que ia viver assim pelo resto da vida”, relembra.

O nomadismo digital ganhou força após a pandemia em meio à expansão do trabalho remoto. Embora não tenha estimativas precisas sobre quantos brasileiros vivem nesse modelo, uma pesquisa da The Nomadic Club aponta que liberdade geográfica e flexibilidade são os principais atrativos para quem vive a experiência no longo prazo.

Para você

No caso de Letícia, o nomadismo veio após a morte do pai. “Queria viver”, conta. Em 2021, ela foi embora de Curitiba sem data para voltar. Na hora de selecionar um lugar para ficar tinha quatro prioridades: precisava aceitar pet, ter uma boa internet, uma cadeira confortável para trabalhar e ser um imóvel bem localizado.

A rotina que durava pouco mais de um mês em cada destino incluía uma jornada de trabalho de oito horas e passeios diários pós expediente. Aos finais de semana, Letícia fazia bate e volta para cidades próximas. “Não tem a pressa como em viagens comuns”, diz ao citar as vantagens do nomadismo.

Por outro lado, começou a sentir o “lado b” do estilo de vida. Mesmo com uma reserva financeira, durante os períodos de alta temporada ficou refém dos altos preços. Em média, gastava R$ 10 mil por mês, somando moradia, alimentação, deslocamento e lazer.

O problema ficou mais visível no dia a dia quando perdeu o “encantamento” com os lugares paradisíacos que visitava. Em paralelo a isso, a advogada se sentia mais estressada ao ter de tomar várias decisões a cada mês sobre moradia, voo, destino e outros detalhes. “Ficou penoso. Não conseguia mais descansar. Ser nômade é quase um segundo emprego”, afirma.

O desgaste da experiência se escalou para a rotina profissional. “Comecei a trabalhar em horários esquisitos”, diz. A sobrecarga de decisões exigidas pela vida nômade passou a comprometer a capacidade de pensar estrategicamente no trabalho. Às vésperas de completar um ano como nômade, abandonou.

Romantização atrapalha experiência

Nem sempre a experiência tem um desfecho traumático. Adepto do nomadismo há mais de dez anos, o consultor Fernando Kanarski, de 40 anos, concorda que o estilo de vida exige mudanças constantes e tomada de decisões diárias. Desde a escolha de onde comer e morar até outros imprevistos, como passagens áreas e deslocamento.

Fundador da The Nomadic Club, comunidade criada em 2021 que reúne cerca de cem nômades brasileiros espalhados pelo mundo, ele acredita que parte da frustração tem origem na forma como a experiência é apresentada, muitas vezes associada a um “sonho”. Para Kanarski, outra razão que força a desistência precoce é a dificuldade de manter em equilíbrio a saúde física, a saúde mental e a questão financeira.

“O nomadismo potencializa esses problemas, então você precisa estar bem nessas áreas”, sugere o veterano no ramo. Ele acrescenta que esse tripé é decisivo para a permanência ou desistência.

Dois desses motivos aparecem na pesquisa conduzida pelo The Nomadic Club como causas de renúncia. Os respondentes apontaram saúde e instabilidade financeira como as principais razões. Para lidar com esses riscos, o consultor mantém dois planos de saúde, um no Brasil, e outro utilizado somente no exterior. Na sequência dos fatores listados no estudo, surge a saudade da família e do círculo de amizade.

“O nomadismo exige muitos momentos de solidão, quem não gosta de ficar sozinho não aguenta o tranco”, avalia Kanarski. Em um post de Letícia Pirolo no TikTok sobre ter largado o estilo de vida, por exemplo, diversos ex-nômades mencionam a falta de amigos como determinante para voltar a um endereço fixo.

Nos comentários, uma pessoa diz que o estilo de vida é “extremamente exaustivo”. Outros comentam que a questão financeira tem um peso considerável. Há também quem diga que não teve paz durante a experiência, “sempre ficava procurando hospedagem”, escreveu. Assim como o conteúdo da advogada, nas redes sociais há inúmeros relatos de profissionais que largaram o nomadismo.

Solidão e alto custo de vida

Um deles é o da escritora e fotógrafa Laís Schulz. No vídeo compartilhado em seu canal no YouTube, a profissional narra que tinha o desejo de conhecer outras culturas enquanto trabalhava remotamente. Após dois anos vivendo como nômade digital, no entanto, desistiu para cuidar da saúde mental.

Assim como Letícia, a escritora sentiu o peso dos perrengues. Com o tempo, um dos principais desafios foi encontrar equilíbrio entre o trabalho e o turismo por onde passava. “Ser nômade não é estar de férias”, ressalta. Em alguns períodos, devido ao volume de trabalho, só conhecia os lugares aos finais de semana.

A escritora Laís Schulz afirma que sempre sonhou em viajar o mundo enquanto trabalhava, mas desistiu da experiência após dois anos Foto: Reprodução

Ela conta que a falta de rotina também pesou na decisão. Às vezes o apartamento não tinha cozinha ou não havia academia por perto. O baque maior veio durante o período em que estava no Camboja. O plano inicial era seguir pela Ásia por seis meses, mas desistiu após entrar em depressão.

“Não conseguia pensar mais em ter de ir para um lugar novo e reconstruir tudo”, desabafa. Foi então que trocou a flexibilidade da vida nômade para construir laços mais duradouros, morar por mais tempo nos lugares e desenvolver hobbies. “O nomadismo não me dava isso. Senti falta de sair na rua e encontrar pessoas que me conhecessem. Queria construir minha vida em um lugar onde quisesse ficar”, afirma.

A vontade de se estabelecer em um lugar e criar vínculos também foram os principais motivos que fizeram a empresária Kely Coutinho, de 45 anos, dar uma pausa no estilo de vida. A profissional relembra que em determinado momento a imersão em diferentes culturas e o autoconhecimento praticado durante o nomadismo não estavam mais compensando a solidão e o alto custo de alguns destinos, que chegou a R$ 10 mil por mês.

Depois de sete anos na estrada, entre 2018 e 2025, passando por mais de 30 países, resolveu desacelerar. “Não sentia mais aquela vontade louca de estar em movimento. Hoje quero segurança, estabilidade, um lar fixo, negócios locais e vínculos afetivos mais sólidos, coisas que não vivia”, relata.

A última parada como nômade foi em Buenos Aires, onde passou um ano no mesmo apartamento, depois retornou ao Brasil e selecionou João Pessoa como endereço fixo. Desde então, a rotina à beira mar na capital paraibana é mais “previsível” e tranquila. “Hoje o nomadismo não faz mais sentido para mim, mas isso não quer dizer que seja pra sempre”, pondera.

Para Fernando Kanarski, a experiência tem data de início, meio e fim. “Sou da política que viver como nômade tem prazo de validade”. Ele planeja seguir no estilo de vida por mais três anos, após mais de uma década na estrada.

A advogada Letícia Pirolo, por sua vez, não descarta retomar o nomadismo no futuro; no entanto, pretende aumentar a reserva financeira e permanecer por períodos mais longos nos destinos. Laís Schulz também não se arrepende da experiência. Agora diz estar em busca de uma rotina em que permita conhecer novas culturas com mais conforto e estabilidade. “Existe um meio-termo que ainda estou tentando descobrir.”

Perfil do nômade brasileiro

Antes de virar nômade, é preciso avaliar se consegue lidar com uma rotina mais solitária e identificar qual perfil de experiência combina mais com cada pessoa, se prefere se deslocar com frequência ou permanecer mais tempo no mesmo lugar, avalia Kanarski. No que diz respeito ao quesito financeiro, a recomendação é guardar o equivalente a pelo menos seis meses de despesas.

Ele também aponta diferenças entre o nômade brasileiro e o estrangeiro. Fora do País, a maioria atua na área de tecnologia ou como empreendedor. No Brasil, embora profissionais de TI e empreendedores também representem boa parcela do grupo, há presença significativa de profissionais de marketing. Em geral, têm mais de 25 anos e alta qualificação.

Em seu livro Clube dos Nômades Digitais, lançado em 2025, o consultor define o nômade como um profissional que viaja com frequência, adota um estilo de vida minimalista e não tem um endereço fixo.

Apesar da expansão do trabalho remoto, o número de viajantes em tempo integral deve seguir como uma parcela menor e estável desse universo, estima Kanarski. Atualmente, cerca de 6,6 milhões de brasileiros trabalham em home office, segundo o IBGE, mas isso não significa que todos possam se tornar nômades. Isso porque, muitas empresas ainda exigem residência no local de contratação.

Além disso, a consolidação do modelo híbrido, que prevê a presença no escritório em determinados dias da semana, torna o estilo de vida ainda menos viável. Um estudo do Insper divulgado em 2025 revela que o trabalho híbrido segue predominante no Brasil, mesmo com anúncios de retorno ao formato 100% presencial por grandes empresa

Por que eles estão desistindo de trabalhar de qualquer lugar do mundo como nômades digitais – Estadão

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Intelectuais em declínio

Cortes nas humanidades, redes sociais e IA estão corroendo o retorno simbólico de pensar

Quando a reflexão deixa de compensar, não desaparece a ideia, mas sim o intelectual

Álvaro Machado Dias – Folha – 25.jan.2026 

Neurocientista, professor livre-docente da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) e sócio do Instituto Locomotiva e da WeMind

Harvard cortou 60% das vagas de doutorado em ciências humanas. Chicago pausou admissões em história da arte, estudos de cinema, literatura comparada e mais de uma dúzia de outros programas. Brown suspendeu-as em seis departamentos de humanidades. Em Plymouth, a administração planeja fundir artes, literatura e áreas afins numa coisa só. A lista cresce a cada semana. A universidade americana está se sinificando rapidamente.

A referência é o 15º Plano Quinquenal, que faz da inovação científica e tecnológica o “elemento central” no projeto de tornar a China a principal economia do mundo até 2035 e posiciona a educação como meio a serviço desse fim. Mais de 20% dos programas acadêmicos foram reestruturados nos últimos dois anos, priorizando IA, semicondutores e ciências, gerando uma relação de 4-1 entre Stem e formação humanística, considerada ruim para o país por pesquisadores do banco central local.

Trump, invocando Calígula, foi além. Cancelou 1.400 bolsas, demitiu 65% dos funcionários públicos federais ligados às humanas e redirecionou o dinheiro para um jardim de estátuas de heróis americanos. As duas grandes potências chegaram a mais um consenso: a universidade técnica é bem mais fácil de domesticar do que a universidade crítica.

Esses fatores institucionais, porém, não esgotam o diagnóstico. O intelectual não está apenas sob ataque, muitas vezes, na forma de fogo amigo. Está perdendo retorno. Plataformas digitais recompensam presença contínua e opinião rápida —não reflexão acumulada— e em ambientes governados pela atenção, profundidade vira desvantagem.

Tom Nichols chamou isso de morte social da expertise. Não é coincidência que 55% dos jovens obtenham notícias de TikTok e Instagram, não de fontes tradicionais, nem que livros de não-ficção tenham registrado em 2024 a pior venda da série histórica no Reino Unido.

É nesse cenário que a IA atua como fator de transição. Sistemas conversacionais aprendem, sintetizam e argumentam. Para um jovem de 18 anos, apostar que quatro anos de formação intelectual produzirão vantagem analítica sobre algoritmos erigidos a prioridades nacionais, cujo QI cresce mais rápido do que o de uma criança, tornou-se objetivamente arriscado.

O cálculo é individual, não ideológico, e é reforçado tacitamente pelo fato de que a máquina responde a uma demanda clássica do pensamento humanístico: a curiosidade difusa sobre o mundo, a moral e o sentido das coisas.

Mais do que um psicólogo de bolso, o que se vê é a IA se desdobrar em verbetes ad hoc e filosofia simples sob demanda. Isso é poderoso em uma época em que não faltam livros, mas tempo social para as ideias que exigem duração.

Desde o século 18, o ocidente ancora seu diferencial na formação de intelectuais, isto é, de uma classe média improdutiva que reclama de tudo e vez ou outra tem uma ideia genial. Sua vitalidade sempre esteve atrelada ao apetite para investir em ideias antes da execução e é possível que a IA seja a última grande invenção dessa Era, ao deslocar a disputa pela hegemonia planetária para um terreno mais propício a sistemas capazes de alinhar esforço coletivo em torno de objetivos explícitos, com menor tolerância às idiossincrasias reflexivas.

Quando pensar deixa de gerar retorno, não é o pensamento que desaparece. É o intelectual.

Intelectuais em declínio – 25/01/2026 – Álvaro Machado Dias – Folha

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Por que 40% dos casos de infarto ocorrem em pessoas com baixo risco de problemas cardiovasculares

  • Vida urbana impõe riscos como sedentarismo, alimentação inadequada e estresse emocional, mostram estudos
  • Nove fatores explicam 90% dos casos: tabagismo, pressão alta, dislipidemia, obesidade abdominal, diabetes, alimentação, sedentarismo, consumo de álcool, estresse e depressão

Álvaro Avezum – Folha – 25.jan.2026

Professor livre-docente de CardioPneumologia da USP e diretor do Centro Internacional de Pesquisa, Hospital Alemão Oswaldo Cruz

Recentemente, uma informação muito provocativa e preocupante foi revelada por um grande estudo internacional conhecido pela sigla PURE (Prospective Urban Rural Epidemiology): quatro em cada dez infartos ocorrem em pessoas que têm baixo risco de sofrer um evento cardiovascular, de acordo com os modelos tradicionais de avaliação utilizados na prática clínica.

Trata-se de indivíduos que, em geral, não estão no centro das estratégias preventivas, não recebem acompanhamento intensivo e não são considerados prioridade pelas políticas de saúde.

O dado aponta uma lacuna importante: em termos práticos, isso significa que 40% dos infartos acontecem fora do radar de médicos e pesquisadores, o que reforça a necessidade de revisar a avaliação do risco cardiovascular e evidencia os limites das ferramentas atuais.

O estudo PURE é uma coorte prospectiva internacional com cerca de 200 mil pessoas em 21 países, incluindo o Brasil, distribuídas em cinco continentes.

O termo coorte define um tipo de estudo que monitora o mesmo grupo de pessoas, ao longo do tempo, para observar como diferentes fatores se relacionam com o adoecimento e a mortalidade. Seu objetivo é investigar os determinantes do adoecimento e da mortalidade, especialmente por doenças cardiovasculares, comparando realidades urbanas e rurais e diferentes níveis de renda ao redor do mundo.

Para compartilhar com a população o conjunto de informações científicas reveladas por esse estudo, optamos por reuni-las no formato de “lições” construídas a partir do PURE e de estudos que o complementam, como o InterHeart e o InterStroke, desenvolvidos pelo mesmo Centro Internacional de Pesquisa do Hospital Alemão Oswaldo Cruz.

A sociedade molda o adoecimento

Os diversos estudos mencionados analisaram os fatores associados ao infarto e ao acidente vascular cerebral em diferentes regiões do mundo. A ideia central desse conjunto de evidências é simples e ambiciosa: viver mais e melhor, buscando a chamada LongeVitalidade com base em ciência, e não em promessas. As lições que se seguem ajudam a compreender por que adoecemos e o que pode ser feito a respeito. Entre elas, que o adoecimento cardiovascular acompanha a forma como a sociedade se organiza.

O modelo da transição epidemiológica mostra que, quando saneamento básico e cobertura vacinal melhoram, as doenças infecciosas diminuem, mas a vida urbana passa a impor novos riscos. O sedentarismo aumenta, a alimentação se torna mais calórica e o estresse emocional se intensifica. Com isso surgem obesidade, hipertensão, colesterol alterado e diabetes. Mais adiante, aparecem infarto, AVC e câncer. O adoecimento, portanto, não é apenas individual: ele reflete escolhas coletivas de organização da vida em sociedade.

Outra lição importante vem do estudo InterHeart, que mostrou que nove fatores explicam 90% do risco de infarto: tabagismo, pressão alta, dislipidemia [alteração de níveis de gorduras —lipídios— no sangue], obesidade abdominal, diabetes, alimentação não saudável, sedentarismo, consumo de álcool, estresse e depressão.

No Brasil, ganham destaque a dislipidemia, a obesidade abdominal, o tabagismo, a hipertensão e o estresse emocional. Esses dados ajudam a entender por que o infarto raramente é imprevisível e por que modelos baseados apenas na soma desses fatores podem deixar escapar pessoas com baixo risco cardiovascular que acabam sofrendo um evento.

O estudo InterStroke acrescenta outra peça ao encontrar um padrão semelhante para o AVC. Dez fatores explicam 90% dos casos, tanto por isquemia quanto por sangramento, incluindo fatores comportamentais e metabólicos associados ao infarto do miocárdio, além de condições cardíacas como a fibrilação atrial. Assim como no infarto, a maior parte dos AVCs poderia ser evitada, reforçando a força da prevenção populacional.

A relação entre acesso e sobrevivência

O estudo PURE ampliou o debate sobre a relação entre acesso e sobrevivência ao introduzir o chamado paradoxo do risco cardiovascular. Países com maior renda apresentam risco cardiovascular mais elevado, mas registram menos eventos cardíacos graves e menos mortes. Nas regiões de menor renda, ocorrem mais infartos, mais AVCs e maior mortalidade. A diferença mais provável está no acesso a diagnóstico, tratamento contínuo, medicamentos e serviços de saúde.

Onde há estrutura, há mais sobrevivência. Onde ela falta, os eventos se tornam mais fatais, inclusive entre pessoas que, em teoria, não seriam classificadas como de alto risco.

A alimentação, avaliada de forma ampla, oferece evidências importantes sobre o que faz diferença no prato. Os dados mostraram que dietas ricas em carboidratos se associaram a maior mortalidade, enquanto o consumo de frutas, legumes e verduras se associou de forma consistente à redução da mortalidade. Proteínas também se associaram a menor risco de morte.

De maneira surpreendente para muitos, a gordura animal se associou a menor mortalidade, enquanto a gordura trans mostrou efeito claramente prejudicial.

O consumo de sal e potássio também tem grande influência no equilíbrio do organismo. Tanto o excesso quanto a ingestão muito baixa de sal se associaram a maior risco cardiovascular. O menor risco apareceu em uma faixa intermediária. Já o potássio, presente nos alimentos in natura, demonstrou efeito protetor evidente.

A atividade física surge como um dos pilares universais de proteção. Atividade aeróbica foi associada a menos infartos, menos AVCs e menor mortalidade total e cardiovascular. Além disso, a força muscular se mostrou um marcador poderoso de proteção: mais força, menos mortes, inclusive por causas cardiovasculares. Manter o corpo em movimento e preservar a massa muscular são componentes centrais da LongeVitalidade.

A hipertensão arterial permanece como o principal fator de risco no Brasil e no mundo. No país, cerca de 45% dos adultos são hipertensos. Embora o tratamento seja eficaz, o controle ainda é baixo: apenas cerca de 10% no mundo e 18% no Brasil mantêm a pressão adequadamente controlada. Um agravante é que aproximadamente metade dos hipertensos sequer sabe que tem a condição.

Conhecimento existe, mas precisamos aproveitá-lo

Mesmo após um evento cardiovascular, a prevenção secundária enfrenta falhas graves. O estudo PURE mostrou que embora existam terapias eficazes após o infarto para prevenir novos eventos, elas ainda são pouco utilizadas. No Brasil, cerca de 20% dos pacientes pós-infarto e 30% dos que sofreram AVC não utilizavam nenhuma medicação preventiva. Trata-se de um retrato preocupante da dificuldade de transformar evidência científica em prática clínica consistente.

Ao reunir todos esses dados, o estudo mostra que 12 fatores respondem por cerca de 70% dos eventos cardiovasculares no mundo. Na América do Sul, dez fatores explicam proporção semelhante. Algo parecido ocorre com a mortalidade: aproximadamente 70% das mortes precoces estão associadas a um conjunto limitado de fatores modificáveis, como tabagismo, hipertensão, baixa escolaridade, obesidade abdominal, alimentação não saudável, força muscular reduzida, sedentarismo, depressão, álcool e poluição.

A mensagem final é direta: o estilo de vida importa, e mudanças possíveis, sustentadas e baseadas em evidência aumentam a expectativa e a qualidade de vida. A prevenção precisa ser praticada desde a gestação, atravessando infância, adolescência, vida adulta e envelhecimento.

Hoje, o maior desafio da saúde cardiovascular não é a descoberta de novos fatores, mas a implementação do conhecimento que já existe. Sabemos o que reduz infarto e AVC. Sabemos o que aumenta o risco. Falta transformar esse saber em rotina clínica, políticas públicas e escolhas sustentáveis.

A LongeVitalidade buscada não é um conceito abstrato. Inclui aumento na expectativa de vida livre de eventos cardiovasculares e câncer, menor declínio cognitivo, maior autonomia e benefícios comprovados associados à espiritualidade, como propósito e satisfação com a vida, gratidão e disposição ao perdão, entre outros. É a soma de prevenção, acesso ao cuidado, adesão ao tratamento e escolhas repetidas ao longo do tempo. Quando conseguimos integrar esses elementos, ganhamos não apenas mais anos de vida, mas mais vida ao longo dos anos.

Este texto foi publicado no The Conversation. Clique aqui para ler a versão original.

40% dos infartos ocorrem em pessoas com baixo risco – 25/01/2026 – Equilíbrio e Saúde – Folha

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ESG 2.0, nova oportunidade para o Brasil

Sigla ganha outra dimensão na medida em que os insumos fundamentais da ciência e da economia do século XXI respondem pelo nome de minerais críticos ou terras raras

Por Assis Moreira – Valor – 22/01/2026

É correspondente do Valor em Genebra desde 2005. Cobriu 28 vezes o Fórum Mundial de Economia e numerosas conferências ministeriais em dezenas de países.

O Brasil pode ter novas oportunidades com o conceito de ESG 2.0, em meio aos choques geopolíticos. É nessa linha que se inserem intervenções recentes de Marcos Troyjo, ex-presidente do Novo Banco de Desenvolvimento (NBD), o banco do Brics.

Atualmente, ele é professor do Insead, uma das principais escolas de negócios da Europa, e integra o conselho consultivo internacional do Banco Europeu de Investimentos (BEI) e da Inditex, a maior companhia espanhola em valor de mercado.

Troyjo lembra que 2005 foi um ano fortemente marcado, de um lado, pela ideia de “globalização profunda”, de um mundo plano, com dispersão da produção em diferentes países e expansão dos acordos comerciais. E, de outro, pelo surgimento com grande força do conceito de ESG – sigla em inglês para Environmental, Social and Governance (Ambiental, Social e Governança) – como efeito colateral das grandes conferências internacionais sobre clima.

Não apenas países passaram a divulgar metas ambientais, como isso se tornou algo orgânico também para as empresas. Da mesma forma que publicam seus dados contábeis, passaram a divulgar sua pegada de carbono.

Também ganhou destaque o conceito de capitalismo de stakeholders, popularizado por Klaus Schwab, fundador do Fórum Econômico Mundial, em oposição ao capitalismo focado exclusivamente no lucro dos acionistas. A proposta era uma visão mais ampla de responsabilidade social e ambiental, capaz de enfrentar desafios como a crise climática e a desigualdade.

Mas nos anos recentes, nota Troyjo, houve uma sucessão de eventos desenhando uma nova tendência: o primeiro governo de Donald Trump (janeiro de 2017 a janeiro de 2021); a saída formal do Reino Unido da União Europeia em 2020; o acirramento da rivalidade entre EUA e China; a maior crise de saúde pública global com a covid-19; o maior risco geopolítico desde o fim da Segunda Guerra, com a invasão da Ucrânia por tropas russas em 2022; o Oriente Médio em ebulição como não se via desde os anos 1970; e, culminando, a volta de Trump à Casa Branca em 20 de janeiro de 2025.

Trump não apenas reverteu políticas de estímulo à transição energética, como se notabilizou pelo lema “we will drill, baby” (“vamos perfurar”, em referência à exploração de petróleo).

Os europeus, que vinham liderando a transição energética, tornaram-se mais cautelosos diante da hipercompetitividade chinesa. Bruxelas começou a reduzir a ênfase nesse tema, ao constatar que sua política era cara e vulnerável.

Com esses fatores combinados, observa Troyjo, entramos na era do ESG 2.0. O ESG 1.0 foi para o assento do copiloto. Quem passa a comandar o avião é o E de economia, o S de segurança e o G de geopolítica, operando agora de forma integrada. Uma decisão de investimento não é avaliada apenas pelo custo-benefício, mas também por seu impacto sobre a segurança. 

O ESG 2.0 ganha outra dimensão na medida em que os insumos fundamentais da ciência e da economia do século XXI respondem pelo nome de minerais críticos ou terras raras. Para Troyjo, um exemplo de ESG 2.0 nesse contexto é a distensão recente da agenda entre Estados Unidos e Brasil. Os americanos, que vinham adotando uma postura mais dura, foram surpreendidos na negociação com os chineses, quando Pequim avisou Washington que aplicaria restrições voluntárias às exportações de minerais críticos.

Os relatórios do US Geological Survey (USGS) passaram a ganhar mais peso, incluindo suas notas de rodapé. E a surpresa foi geral – inclusive para o próprio Brasil, diz ele. O país aparece em segundo lugar mundial em reservas comprovadas de terras raras, com algo entre 20% e 23% do total, atrás apenas da China, que concentra cerca de 40%. O Brasil possui mais reservas comprovadas de minerais críticos do que os quatro países seguintes somados (Índia, Austrália, Tailândia e Rússia).

A China é a mais avançada no refino desses minerais. Mas onde há maior elasticidade entre reservas comprovadas e potencial de refino é no Brasil.

Troyjo recorre à imagem de alguém que manda o paletó para a lavanderia, confere os bolsos e encontra uma nota de 100 esquecida. “Esse conceito de ESG 2.0 caiu no colo do Brasil”, diz ele. “O mais central são os insumos da ciência e da economia, que são os minerais críticos.”

No mundo do ESG 2.0, a situação é mais adversa para a maioria dos países – e ajuda a explicar parte do interesse americano na Groenlândia. Para o Brasil, porém, o cenário facilita o caminho para atrair mais investimento direto, ampliar o comércio e ganhar relevância entre as dez maiores economias do mundo.

Como não perder essa oportunidade? Para ele, é urgente atualizar o mapa geológico do país e identificar quais minerais têm maior valor estratégico entre as reservas comprovadas. Brasília não deve se comprometer com acordos preferenciais, mas sim buscar parcerias com todos.

Também precisa evitar a criação de uma estatal de “Terras Raras”. Deve montar rapidamente roadshows bem estruturados, criar uma espécie de pacote de parcerias potenciais e levá-lo ao mundo. Considera fundamental a criação de escala, à semelhança do que ocorreu na corrida do petróleo nos Estados Unidos.

No ESG 1.0, o Brasil se destacava pela diversidade de sua matriz energética e pelas reservas de água, por exemplo. Agora, nas compilações do USGS, as reservas brasileiras aumentam a cada mês. “O Brasil tem um novo jogo. Com os minerais críticos, o país ganha uma relevância que nós mesmos não sabíamos que existia”, avalia Troyjo.

Assis Moreira é correspondente em Genebra e escreve quinzenalmente

E-mail: assis.moreira@valor.com.br

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São Paulo ganha dois novos eventos de tecnologia e inovação em 2026

O São Paulo Innovation Week (SPIW) e o São Paulo Beyond Business (SP2B) serão realizados em espaços icônicos como a Mercado Livre Arena Pacaembu e o Parque do Ibirapuera

Por Breno Damascena e Lucas Agrela – Estadão – 22/01/2026

Dois eventos de tecnologia e inovação irão abrir uma nova era de grandes festivais de negócios na cidade de São Paulo em 2026. O São Paulo Innovation Week (SPIW), realizado em conjunto por Estadão e Base Eventos, é preparado para receber mais de 90 mil visitantes, em maio, no Mercado Livre Arena Pacaembu, na Fundação Armando Álvares Penteado (Faap) e em polos espalhados por todas as zonas da cidade. Em agosto, o Parque Ibirapuera será palco do São Paulo Beyond Business (SP2B), festival inspirado no South by Southwest.

Nesta quinta-feira, 22, representantes dos eventos, empresários, autoridades e o poder público se reuniram na sede do São Paulo Negócios para apresentar detalhes das conferências. “São Paulo está entrando de cabeça no mundo dos grandes festivais de inovação”, afirma Alessandra Andrade, presidente da São Paulo Negócios.

“É mais do que só conteúdo, é desenvolvimento econômico para a cidade. Atrai turistas, impulsiona o comércio, varejo, alimentação, transporte e saúde”, diz Andrade, que vê a chegada dos festivais como uma celebração de São Paulo, além de gerar renda ativa e conectar o mercado de inovação ao ecossistema empreendedor.

Para Rodrigo Massi, secretário adjunto de cultura da cidade de São Paulo, os eventos consolidam a capital paulista como um epicentro cultural de relevância global. “A cidade tem esse caráter cosmopolita que se traduz em uma agenda cultural muito robusta. A municipalidade passará a atuar com mais afinco entre o produtivo e o criativo”, afirma.

Para você

Em linha com a política de privatizações adotada pelo prefeito Ricardo Nunes, os dois festivais acontecerão em espaços geridos por meio de parcerias público-privadas: o Parque Ibirapuera e o Mercado Livre Arena Pacaembu.

O secretário-adjunto de desenvolvimento econômico da cidade de São Paulo, Armando Júnior, espera que o calendário de eventos de 2026 impulsione uma geração de negócios e de renda, norteada por um crescimento de 25% no número de turistas durante esse período.

“Essa área de negócios é muito importante para a geração de emprego, renda, desenvolvimento econômico e criação de novas oportunidades. Então, desde 2021, São Paulo vem buscando novos eventos, fazendo com que a cidade fique cada vez mais atrativa”, afirma.

Ele enumera Lollapalooza, Gamescom, Virada Cultural, AnimeFriends, Bienal do Livro e a Mostra Internacional de Cinema em São Paulo como referências. “O São Paulo Innovation Week (SPIW) e o São Paulo Beyond Business (SP2B) vão fazer com que mais pessoas venham à cidade e fortalecem São Paulo como um destino na rota de festivais do mundo”, complementa.

São Paulo Innovation Week

Realizado realizado em conjunto por Estadão e Base Eventos, o São Paulo Innovation Week (SPIW), evento com foco em inovação, tecnologia e negócios, terá formato similar ao da Rio Innovation Week. O evento prevê a participação de mais de 1, 5 mil palestrantes, mil startups, 150 expositores e 24 conferências, em uma área de 50 mil m².

O festival ocorrerá de 13 a 15 de maio, com uma palestra de abertura no dia 12. A programação do evento será criada a partir de 15 trilhas de conhecimento, seguindo a variedade inerente à cidade de São Paulo.

Os temas incluem saúde, educação, fintechs, criação de conteúdo, agronegócios, mercado imobiliário, luxo, mobilidade urbana, geoeconomia, ciência, tendências tecnológicas e debates sociais.

A nova conferência deve atrair mais de 90 mil visitantes nos três dias, com uma programação composta por palestras de grandes nomes internacionais e brasileiros, painéis de debate, espaços reservados para troca de conhecimento e palcos com performances e atrações musicais.

O evento terá ainda palestras espalhadas pela cidade no fim de semana de 16 e 17 de maio, uma iniciativa para democratizar o acesso ao conteúdo de qualidade trazido pelo SPIW. Serão eventos adicionais que ocorrerão no CEU Freguesia (zona norte), no CEU Papa Francisco (zona leste), no CEU Paraisópolis (ou no CEU Heliópolis) e no CEU Sílvio Santos (zona sul).

“Sabemos que não vamos mudar a realidade dessas pessoas em um dia, mas vamos dar ferramentas e mecanismos para que elas deem um passo nessa direção”, comenta Bruna Reis, diretora executiva do evento. “Queremos promover um evento que gere uma mudança e crie um legado”, acrescenta.

Os primeiros nomes do evento já foram confirmados: o psicólogo Steven Pinker, o neurologista António Damásio, o escritor Daniel Goleman, o filósofo e ex-ministro da Educação da França Luc Ferry, a filósofa Rebecca Goldstein e a velejadora brasileira Tamara Klink. “Queremos trabalhar a mente, o pensamento crítico e as ideias que vão alimentar o futuro”, complementa Reis.

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São Paulo Beyond Business

Outro evento que vai movimentar a cidade é a primeira edição do São Paulo Beyond Business (SP2B), entre os dias 9 e 16 de agosto, com mais de 2 mil palestrantes e 750 painéis. Inspirado no South by Southwest (SXSW), festival que acontece anualmente em Austin (EUA), o SP2B terá o Parque Ibirapuera como sede principal.

Com a expectativa de receber um público credenciado de 145 mil pessoas e impactar mais de 550 mil em oito dias, o evento terá mais de 800 horas de conteúdo distribuídas em painéis, shows, instalações artísticas e ativações discutindo temas como tecnologia, cultura, empreendedorismo e o futuro das cidades.

Além disso, o SP2B prevê eventos voltados à capacitação de empreendedores da periferia, competição de pitches de startups, áreas exclusivas para investidores e fundos de investimentos, e debates sobre inteligência artificial. “A ideia é fazer um evento que atraia delegações de todas as cidades do Brasil”, diz Rafael Lazarini, empresário à frente do festival.

“A atração magnética de São Paulo é tão grande que as coisas quase não vazam. A cidade se basta”, comenta. “O evento nasce de uma provocação para se repensar São Paulo além de um hub financeiro ou centro de negócio, mas para reforçar a cidade como a potência completa que ela é”

São Paulo ganha dois novos eventos de tecnologia e inovação em 2026 – Estadão

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