‘Podridão cerebral’: como a IA e as redes sociais estão contribuindo para o declínio cognitivo?

Estudos indicam que ferramentas de pesquisa com inteligência artificial, chatbots e redes sociais estão associados a um desempenho cognitivo inferior, conhecido como ‘brain rot’

Por Brian X. Chen – Estadão/The New York Times – 11/11/2025 

No primeiro semestre, Shiri Melumad, professora da Wharton School, da Universidade da Pensilvânia, deu a um grupo de 250 pessoas uma tarefa simples de redação: compartilhar conselhos com um amigo sobre como levar um estilo de vida mais saudável. Para dar dicas, alguns puderam usar a pesquisa tradicional do Google, enquanto outros puderam contar apenas com resumos de informações gerados automaticamente pela inteligência artificial (IA) do Google.

As pessoas que usaram resumos gerados por IA escreveram conselhos genéricos, óbvios e em grande parte inúteis — coma alimentos saudáveis, mantenha-se hidratado e durma bastante! As pessoas que encontraram informações com uma pesquisa tradicional no Google compartilharam conselhos mais sutis sobre como se concentrar nos vários pilares do bem-estar, incluindo saúde física, mental e emocional.

Uso excessivo de IAs e redes sociais pode estar associado ao baixo desempenho escolar de crianças 

A indústria de tecnologia nos diz que os chatbots e as novas ferramentas de pesquisa de IA irão impulsionar a maneira como aprendemos e prosperamos, e que qualquer pessoa que ignore a tecnologia corre o risco de ficar para trás. Mas o experimento de Melumad, assim como outros estudos acadêmicos publicados até agora sobre os efeitos da IA no cérebro, descobriu que as pessoas que dependem muito de chatbots e ferramentas de pesquisa com IA para tarefas como escrever textos e realizar pesquisas geralmente têm um desempenho pior do que as pessoas que não os utilizam.

“Para ser sincera, estou bastante assustada”, diz Melumad. “Estou preocupada com o fato de os jovens não saberem como fazer uma pesquisa tradicional no Google.”

Para você

Bem-vindo à era da “podridão cerebral”, gíria usada para descrever a deterioração do estado mental causada pelo contato com conteúdo de baixa qualidade na internet. Quando a Oxford University Press, editora do Oxford English Dictionary, elegeu “brain rot” (podridão cerebral) como a palavra do ano em 2024, a definição se referia à como aplicativos de mídia social, como TikTok e Instagram, viciaram as pessoas em vídeos curtos, transformando seus cérebros em mingau.

Se a tecnologia torna as pessoas mais burras é uma questão tão antiga quanto a própria tecnologia. Sócrates culpou a invenção da escrita por enfraquecer a memória humana. Recentemente, em 2008, muitos anos antes da chegada dos resumos da web gerados por IA, a revista The Atlantic publicou um ensaio intitulado “O Google está nos tornando burros?”. Essas preocupações acabaram sendo exageradas.

Mas a crescente desconfiança da academia em relação ao impacto da IA na aprendizagem (além das preocupações mais antigas sobre a natureza distrativa dos aplicativos de mídia social) é uma notícia preocupante para os EUA, um país cujo desempenho em compreensão de leitura já está em declínio acentuado.

Neste ano, as notas em leitura entre crianças, incluindo alunos do oitavo ano e do último ano do ensino médio, atingiram novos mínimos. Os resultados, coletados pela Avaliação Nacional do Progresso Educacional, há muito considerada o exame mais confiável dos EUA, foram os primeiros desse tipo a serem publicados desde que a pandemia da covid-19 interrompeu a educação e aumentou o tempo de tela entre os jovens.

Os pesquisadores temem que haja cada vez mais evidências de uma forte ligação entre o baixo desempenho cognitivo e a inteligência artificial e as redes sociais. Além de estudos recentes que descobriram uma correlação entre o uso de ferramentas de inteligência artificial e o declínio cognitivo, um novo estudo liderado por pediatras descobriu que o uso das redes sociais estava associado a um desempenho inferior entre crianças que faziam testes de leitura, memória e linguagem.

Aqui está um resumo das pesquisas realizadas até agora e como usar a IA de uma forma que estimule — em vez de prejudicar — o cérebro.

Quando escrevemos com o ChatGPT, estamos realmente escrevendo?

O estudo mais importante deste ano sobre os efeitos da IA no cérebro foi realizado pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts, onde pesquisadores procuraram entender como ferramentas como o ChatGPT, da OpenAI, poderiam afetar a forma como as pessoas escrevem. O estudo, que envolveu 54 estudantes universitários, teve uma amostra pequena, mas os resultados levantaram questões importantes sobre se a IA poderia prejudicar a capacidade de aprendizagem das pessoas.

Para parte do estudo, os estudantes foram solicitados a escrever uma redação de 500 a mil palavras e foram divididos em diferentes grupos: um grupo podia escrever com a ajuda do ChatGPT, um segundo grupo podia pesquisar informações apenas com uma pesquisa tradicional no Google e, um terceiro grupo, podia contar apenas com seus cérebros para compor sua tarefa.

Os alunos usavam sensores que mediam a atividade elétrica em seus cérebros. Os usuários do ChatGPT apresentaram a menor atividade cerebral, o que não foi surpreendente, já que estavam deixando o chatbot de IA fazer o trabalho.

Mas a revelação mais impressionante surgiu depois que os alunos terminaram o exercício de redação. Um minuto após concluírem suas redações, os alunos foram solicitados a citar qualquer parte de suas redações. A grande maioria dos usuários do ChatGPT (83%) não conseguiu se lembrar de uma única frase.

Em contrapartida, os alunos que usaram o mecanismo de busca do Google conseguiram citar algumas partes, e os alunos que não usaram nenhuma tecnologia conseguiram recitar várias frases, com alguns até citando quase toda a redação literalmente.

“Já se passou um minuto e você realmente não consegue dizer nada?”, disse Nataliya Kosmyna, cientista pesquisadora do MIT Media Lab que liderou o estudo sobre os usuários do ChatGPT. “Se você não se lembra do que escreveu, não sente propriedade. Você ao menos se importa?”

Embora o estudo tenha se concentrado na redação de ensaios, Kosmyna diz que se preocupa com as implicações para as pessoas que usam chatbots de IA em áreas onde a retenção é essencial, como um piloto que estuda para obter uma licença. Ela afirmou que é urgente realizar mais pesquisas sobre como a IA afeta a capacidade das pessoas de reter informações.

As redes sociais podem estar associadas a notas mais baixas em leitura

Nos últimos dois anos, escolas em estados como Nova York, Indiana, Louisiana e Flórida correram para proibir celulares nas salas de aula, alegando preocupações de que os alunos estivessem se distraindo com aplicativos de redes sociais como TikTok e Instagram. Dando credibilidade às proibições, um estudo publicado no mês passado descobriu uma forte ligação entre o uso das redes sociais e um desempenho cognitivo mais fraco.

No mês passado, a revista médica JAMA publicou um estudo conduzido pela Universidade da Califórnia, em São Francisco. O Dr. Jason Nagata, pediatra que liderou o estudo, e seus colegas analisaram dados do ABCD (Adolescent Brain Cognitive Development, Desenvolvimento Cognitivo do Cérebro Adolescente), um projeto de pesquisa que acompanhou mais de 6.500 jovens de 9 a 13 anos de idade, entre 2016 e 2018.

Todas as crianças foram pesquisadas uma vez por ano sobre quanto tempo usavam as redes sociais. A cada dois anos, elas faziam vários testes. Por exemplo, um teste de vocabulário visual envolvia combinar corretamente imagens com palavras que ouviam.

Os dados mostraram que as crianças que relataram usar poucas redes sociais (uma hora por dia) até muitas (pelo menos três horas por dia) tiveram notas significativamente mais baixas nos testes de leitura, memória e vocabulário do que as crianças que relataram não usar redes sociais.

Quanto ao motivo pelo qual aplicativos de redes sociais, como TikTok e Instagram, prejudicariam as notas dos testes, a única conclusão segura é que cada hora que uma criança passa navegando pelos aplicativos tira tempo de atividades mais enriquecedoras, como ler e dormir, disse o Dr. Nagata.

Quais são algumas maneiras mais saudáveis de usar as redes sociais e a inteligência artificial?

Apesar das descobertas de uma correlação entre o uso das redes sociais e o declínio cognitivo, seria difícil recomendar uma quantidade ideal de tempo de tela para os jovens, porque muitas crianças passam tempo na frente das telas fazendo coisas não relacionadas às redes sociais, como assistir a programas de TV, disse o Dr. Nagata.

Em vez disso, ele sugeriu que os pais imponham zonas livres de telas, proibindo o uso do telefone em áreas como o quarto e a mesa de jantar, para que as crianças possam se concentrar nos estudos, no sono e nas refeições.

A Meta não respondeu a um pedido de comentário. Uma porta-voz do TikTok indicou uma página da web com instruções para configurar o Time Away, uma ferramenta para os pais criarem horários em que seus filhos adolescentes podem usar o TikTok.

Quanto aos chatbots de IA, houve uma reviravolta interessante no estudo do MIT que apresentou uma possível solução sobre como as pessoas poderiam usar melhor os chatbots para aprender e escrever.

Por fim, os grupos desse estudo trocaram de papéis: as pessoas que dependiam apenas de seus cérebros para escrever passaram a usar o ChatGPT, e as pessoas que dependiam do ChatGPT passaram a usar apenas seus cérebros. Todos os alunos escreveram redações sobre os mesmos tópicos que haviam escolhido anteriormente.

Os alunos que inicialmente dependiam apenas de seus cérebros registraram a maior atividade cerebral quando lhes foi permitido usar o ChatGPT. Os alunos que inicialmente usaram o ChatGPT, por outro lado, nunca ficaram no mesmo nível do primeiro grupo quando foram restringidos a usar apenas seus cérebros, disse Kosmyna.

Isso sugere que as pessoas que desejam usar chatbots para escrever e aprender devem considerar iniciar o processo por conta própria antes de recorrer às ferramentas de IA mais tarde no processo para revisões, semelhante aos alunos de matemática que usam calculadoras para resolver problemas somente depois de terem usado lápis e papel para aprender as fórmulas e equações. Tanto o Google quanto a OpenAI se recusaram a comentar.

Melumad, professora da Wharton, que liderou o estudo anterior envolvendo ferramentas de pesquisa de IA, diz que o problema com essas ferramentas era que elas transformavam o que antes era um processo ativo em seu cérebro — examinar links e clicar em uma fonte confiável para ler — em um processo passivo, automatizando tudo isso.

Portanto, talvez a chave para usar a IA de maneira mais saudável, diz ela, seja tentar ser mais consciente sobre como a utilizamos. Em vez de pedir a um chatbot para fazer toda a pesquisa sobre um tema amplo, diz Melumad, use-o como parte do seu processo de pesquisa para responder a pequenas perguntas, como procurar datas históricas. Mas, para um aprendizado mais profundo sobre um assunto, considere ler um livro.

‘Podridão cerebral’: como a IA e as redes sociais estão contribuindo para o declínio cognitivo? – Estadão

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Como descobrir se o vídeo que você está vendo é real ou gerado por IA

Thomas Germain – BBC Future – 7 novembro 2025

Pronto! Está chegando a sua vez de ser enganado. Talvez você até já tenha sido.

Nos últimos seis meses, os geradores de vídeo por inteligência artificial (IA) ficaram tão bons que a nossa relação com as câmeras está azedando.

Isso é o que vai acabar acontecendo alguma hora, na melhor das hipóteses: você será enganado várias vezes, até que não aguentará mais e passará a questionar tudo o que vê. Bem-vindo ao futuro!

Mas, por enquanto, ainda existem alguns sinais de alerta para identificar quando um vídeo é real ou não.

Um desses pontos se destaca. Se você assistir a um vídeo com baixa qualidade de imagem (filmagem borrada ou granulada), pode ligar o seu “desconfiômetro”: você pode estar assistindo a um vídeo gerado por IA.

“É um dos primeiros pontos que procuramos”, afirma o professor de Ciências da Computação Hany Farid, da Universidade da Califórnia em Berkeley, nos Estados Unidos. Ele é pioneiro no campo forense digital e fundador da empresa de detecção de deepfakes (imagens falsas) GetReal Security.

É verdade que as ferramentas de vídeo com IA ficarão cada vez melhores e este conselho, em breve, será inútil. Poderá levar meses ou, talvez, anos. É difícil dizer, desculpe!

Mas, se você navegar pelas nuances desse assunto comigo por um minuto, esta dica pode evitar que você assista a algum lixo criado com IA, até aprender a mudar a forma em que você encara a verdade.

Sejamos claros. Não se trata de uma prova concreta. A verdade é que os vídeos de IA não costumam ter má qualidade. As melhores ferramentas de IA podem fornecer clipes bonitos e sofisticados. E os clipes de baixa qualidade também não são, necessariamente, feitos com IA.

“Se você observar algo realmente com má qualidade, isso não significa que ela seja fake. Não há nenhum significado nefasto nisso”, afirma o professor Matthew Stamm, chefe do Laboratório de Segurança da Informação e Multimídia da Universidade Drexel, nos Estados Unidos.

A questão, na verdade, é que os vídeos de IA borrados e pixelados são aqueles com maior probabilidade de nos enganar, pelo menos por enquanto. Eles são um sinal para observarmos mais de perto o que estamos assistindo.

Vídeos borrados e pixelados podem esconder inconsistências criadas pela inteligência artificial e enganar as pessoas com mais facilidade

“Os principais geradores de texto para vídeo como o Veo, da Google, e o Sora, da OpenAI, ainda produzem pequenas inconsistências”, explica Farid. “Mas não são mãos com seis dedos ou texto truncado. É algo mais sutil.”

Mesmo os modelos mais avançados de hoje em dia, muitas vezes, introduzem problemas como texturas de pele excepcionalmente macias, padrões estranhos ou inconstantes dos cabelos e das roupas ou pequenos objetos de fundo que se movem de formas impossíveis ou não realistas.

Tudo isso passa facilmente despercebido. Mas, quanto mais clara for a imagem, maior é a probabilidade de observarmos esses sinais de erros de IA. Daí vem a vantagem dos vídeos de menor qualidade.

Quando você pede à IA algo que pareça ter sido filmado em um telefone antigo ou em uma câmera de segurança, por exemplo, ela pode esconder os itens que poderiam revelar se tratar de inteligência artificial.

Nos últimos meses, alguns vídeos populares criados por IA enganaram inúmeras pessoas. E todos eles tinham um ponto em comum.

Um vídeo falso, mas divertido, de coelhos silvestres pulando sobre um trampolim teve mais de 240 milhões de visualizações no TikTok.

Milhões de pessoas românticas online clicaram no botão de “curtir” em um clipe que mostrava duas pessoas se apaixonando no metrô de Nova York, nos Estados Unidos. Elas enfrentaram a mesma decepção quando se descobriu que o vídeo era fake.

Eu mesmo caí em um vídeo viral de um pastor americano, em uma igreja conservadora, dando um sermão surpreendentemente de esquerda.

“Os bilionários são a única minoria de quem devemos ter medo”, berrava ele, com sotaque do sul dos EUA. “Eles têm o poder de destruir este país!”

Fiquei perplexo. Será que as nossas fronteiras políticas realmente desapareceram?

Não. Era simplesmente IA.

Resolução, qualidade e duração

O ponto em comum é que todos esses vídeos pareciam ter sido filmados de forma rudimentar.

Os coelhos de IA foram apresentados como uma filmagem feita à noite, por câmeras de segurança baratas.

O casal no metrô? Pixelado. O pastor imaginário? O vídeo parecia ter sido filmado de longe demais, com forte zoom.

E estes não eram os únicos sinais de alerta desses vídeos.

“Os três pontos que você deve observar são a resolução, a qualidade e a duração”, segundo Farid. Vamos começar pela duração, que é o mais fácil.

“Na sua maioria, os vídeos de IA são muito curtos, menores até que os clipes que costumamos observar no TikTok ou no Instagram, de cerca de 30 a 60 segundos. A imensa maioria dos vídeos que me solicitam verificar tem seis, oito ou 10 segundos de duração.”

Isso ocorre porque gerar vídeos com IA é caro. Por isso, a maior parte das ferramentas oferece, no máximo, clipes curtos.

Além disso, quanto mais longo for o vídeo, maior a probabilidade de que a IA apresente falhas.

“Você pode costurar diversos vídeos de IA, mas irá observar um corte a cada cerca de oito segundos”, explica Farid.

Os outros dois fatores — a qualidade e a resolução — apresentam relação entre si, mas são diferentes.

A resolução indica o número ou o tamanho dos pixels em uma imagem. E o processo de compressão reduz o tamanho de um arquivo de vídeo, extraindo seus detalhes. Muitas vezes, ela deixa para trás padrões de blocos e extremidades borradas.

Na verdade, Farid afirma que os fakes de baixa qualidade são tão convincentes que os criadores mal intencionados degradam seu trabalho de propósito.

“Se eu estiver tentando enganar as pessoas, o que faria? Eu geraria meu vídeo fake, reduziria a resolução de forma que você ainda pudesse assistir, mas retirando todos os pequenos detalhes. Depois, eu acrescentaria compressão, que ofuscaria ainda mais os possíveis sinais.”

“Esta é uma técnica comum”, segundo ele.

Quando você pede à IA algo que pareça ter sido filmado em uma câmera de segurança, ela consegue esconder os sinais que poderiam denunciar às pessoas que se trata de inteligência artificial

A questão é que, neste exato momento, as gigantes da tecnologia estão gastando bilhões de dólares para tornar a IA ainda mais realista.

“Tenho más notícias”, explica Stamm. “Estas dicas visuais, agora, estão aqui, mas deixarão de existir muito em breve.”

“Prevejo que essas indicações visuais desaparecerão dos vídeos em até dois anos, pelo menos as mais óbvias, pois elas já evaporaram de grande parte das imagens geradas por IA. Você simplesmente não pode confiar nos seus olhos.”

Mas isso não significa que a verdade seja uma causa perdida. Quando pesquisadores como Farid e Stamm verificam um conteúdo, eles contam com técnicas mais avançadas à sua disposição.

“Quando você gera ou modifica um vídeo, ele deixa para trás pequenos traços estatísticos que os nossos olhos não conseguem ver, como impressões digitais na cena de um crime”, explica Stamm. “Estamos observando o surgimento de técnicas que podem nos ajudar a observar e expor essas impressões digitais.”

Às vezes, a distribuição de pixels em vídeos falsos pode ser diferente da real, por exemplo, mas fatores como estes não são infalíveis.

As empresas de tecnologia também estão desenvolvendo novos padrões para verificar informações digitais. Basicamente, as câmeras poderão embutir informações no arquivo no momento em que criarem uma imagem, para ajudar a comprovar que ela é real.

Com o mesmo instrumento, as ferramentas de IA poderão acrescentar detalhes similares aos seus vídeos e imagens automaticamente, o que irá comprovar que elas são falsas. Stamm e outros especialistas afirmam que estas medidas podem ajudar.

A solução real, segundo o especialista em alfabetização digital Mike Caulfield, é começar a pensar diferente sobre aquilo que observamos online.

Procurar as indicações que a IA deixa para trás não é um conselho duradouro porque essas dicas estão sempre mudando, segundo ele. Em vez disso, Caulfield afirma que precisamos abandonar a ideia de que os vídeos ou imagens têm qualquer significado, quando estão fora de contexto.

“Meu ponto de vista é que, a longo prazo, o vídeo ficará mais parecido com o texto, a proveniência [a origem do vídeo] será mais importante que as características superficiais e podemos também nos preparar para isso”, explica ele.

Para evitar cair em vídeos falsos na era das imagens geradas por IA, é preciso ter sempre em mente qual a origem do conteúdo, quem o postou, qual o seu contexto e se ele foi verificado por uma fonte de confiança

Você nunca olha para um texto e considera que ele é verdadeiro simplesmente porque alguém o escreveu. Se houver alguma dúvida, você irá investigar a fonte da informação.

Vídeos e imagens costumavam ser diferentes, pois a sua manipulação e falsificação era mais difícil. Agora, isso acabou.

Atualmente, tudo o que interessa é de onde veio aquele conteúdo, quem o postou, qual o contexto e se ele foi verificado por uma fonte de confiança. A questão é quando, ou mesmo se, todos nós iremos aceitar este fato.

“Se eu puder ser um tanto pomposo, acho que este é o maior desafio de segurança da informação do século 21”, afirma Stamm. “Mas este problema surgiu há apenas alguns anos.”

“O número de pessoas trabalhando para resolvê-lo é comparativamente pequeno, mas vem crescendo rapidamente. Precisaremos de uma combinação de soluções, educação, políticas inteligentes e abordagens tecnológicas, tudo trabalhando em conjunto.”

“Não estou preparado para perder a esperança.”

* Thomas Germain é jornalista da BBC, especializado em tecnologia. Ele escreve há quase uma década sobre inteligência artificial, privacidade e os confins mais profundos da cultura da internet. Seu usuário é @thomasgermain no X (antigo Twitter) e no TikTok

Inteligência artificial: como descobrir se o vídeo que você está vendo é real – BBC News Brasil

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The Economist: O Airbnb quer oferecer mais do que apenas uma cama para dormir

Com crescimento desacelerado, a empresa investe em mercados emergentes e novas linhas de produtos para atrair mais usuários e aumentar sua participação no mercado global

Por Estadão/The Economist – 08/11/2025

Quando cofundou o Airbnb em 2007, Brian Chesky, então com 26 anos, era um recém-formado em design, de olhos brilhantes, que usava jeans e camisetas comuns. O chefe de tecnologia de 44 anos que recebe a revista The Economist vestido de preto da cabeça aos pés é uma figura bem diferente.

Assim como seu diretor executivo, o Airbnb também mudou com o tempo. A plataforma de reservas, que tem mais de 8 milhões de anúncios em quase todos os países, é “agora uma empresa madura”, insiste Chesky. Já se foram os dias de gastar dinheiro rapidamente para crescer.

A margem operacional do Airbnb no segundo trimestre foi de impressionantes 21%. Em agosto, a empresa anunciou que iria recomprar ações no valor de US$ 6 bilhões. Seu valor de mercado, de US$ 78 bilhões, ultrapassa o da Marriott, a maior rede hoteleira do mundo.

Para você

No entanto, os investidores temem que a maturidade tenha trazido estagnação. Embora as reservas feitas pela plataforma nos 12 meses até junho, no valor de US$ 86 bilhões, tenham representado um aumento de 10% em relação ao mesmo período do ano anterior, sua taxa de crescimento vem caindo.

Os analistas esperavam mais sinais de desaceleração quando a empresa divulgou seus resultados trimestrais em 6 de novembro. As ações do Airbnb caíram 11% no último ano. Para reacender o crescimento, ela está buscando novos mercados, novas linhas de produtos e novas tecnologias. O plano funcionará?

O Airbnb começou com Chesky e dois amigos alugando um colchão inflável na sala de estar de sua casa em São Francisco. A ideia de uma plataforma para ajudar as pessoas a abrir suas casas para hóspedes pagantes foi um sucesso, e logo o trio estava vendendo propriedades em nome de anfitriões em todo o mundo.

Em um frenesi de crescimento pré-pandêmico, a empresa se aventurou muito além do setor de hospedagem. Em 2016, ela criou um mercado para “experiências”, como passeios a pé, além de um guia turístico. Em 2019, montou um estúdio de cinema. Os custos aumentaram 45% naquele ano, mesmo com o crescimento da receita começando a desacelerar.

“Virou um caos”, reflete Chesky. “Eu não tinha ideia do que estava fazendo.” As lições que ele tirou desse período — incluindo a necessidade de manter o controle das decisões, estar atento aos detalhes e ter o menor número possível de funcionários — moldaram o estilo de liderança de Chesky desde então. (Paul Graham, um renomado investidor em startups, mais tarde usaria a abordagem de Chesky para ilustrar o que ele chamou de “modo fundador”.)

Então veio a pandemia da covid-19. Com as reservas paralisadas, Chesky viu uma oportunidade de reconstruir a empresa. Ele demitiu um quarto dos funcionários, fundiu divisões, removeu camadas de gestão e suspendeu a expansão para experiências. Apesar dos lockdowns, a estreia do Airbnb na bolsa de valores em dezembro de 2020 foi um sucesso, com suas ações mais que dobrando no mesmo dia. Quando as viagens foram retomadas, a empresa voltou a crescer rapidamente, ao se dedicar a corrigir várias reclamações dos usuários, incluindo a falta de transparência nas taxas, o excesso de anúncios de baixa qualidade e o atendimento ao cliente decepcionante.

Ultimamente, porém, o crescimento do Airbnb esfriou. A incerteza causada pelas tarifas intermitentes do presidente Donald Trump levou os consumidores a adiar a reserva de viagens. Autoridades políticas em cidades como Paris e Nova York implementaram restrições à plataforma, que consideram contribuir para o aumento dos preços das casas. A concorrência de sites de viagens como Booking.com e Expedia está se acirrando para aluguéis de curta duração. O tráfego na web para a Airbnb está diminuindo.

Em resposta, a empresa está buscando novas oportunidades de crescimento. Ela está se empenhando em expandir seus negócios de hospedagem para além dos seus cinco principais mercados: América, Austrália, Grã-Bretanha, Canadá e França, que representam cerca de metade das noites reservadas através da plataforma, de acordo com a AirDNA, uma provedora de dados.

O Airbnb aumentou as reservas no Brasil investindo em marketing local e adicionando opções de pagamento, e está tentando algo semelhante em outros países, incluindo a Índia, onde o turismo está em expansão. A AirDNA estima que o número de noites reservadas na plataforma está crescendo três vezes mais rápido em seus mercados menos estabelecidos do que em seus cinco países principais.

O Airbnb também está entrando no mercado de reservas de hotéis. Ellie Mertz, sua diretora financeira, estima que apenas uma em cada dez noites que os americanos passam fora de casa é em um Airbnb. A adição de hotéis deve ajudar a plataforma a atrair viajantes a negócios em particular. Os hotéis apreciam o Airbnb porque, ao contrário de outros sites de reservas, ela não gasta muito com anúncios no Google, que empurram seus próprios sites para baixo na lista de resultados de pesquisa.

Ao mesmo tempo, o Airbnb está se diversificando novamente, indo além do setor de hospedagem. Em maio, lançou um aplicativo atualizado que oferece não apenas um conjunto renovado de experiências, incluindo cozinhar com uma avó em Paris, mas também serviços, como treinamento pessoal com um fisiculturista campeão em Los Angeles.

E, em outubro, introduziu recursos sociais que permitem que os usuários que se conhecem por meio de uma experiência da Airbnb permaneçam em contato. Analistas esperam que aluguel de carros e um programa de fidelidade sejam os próximos passos.

Há motivos para ser cético. Muitos outros sites ajudam as pessoas a reservar atividades quando viajam; uma pesquisa do banco Wells Fargo sugere que o Viator, um rival, oferece dez vezes mais experiências em grandes cidades como Londres e Nova York. Muitos viajantes que procuram um cabeleireiro pesquisam no Google ou simplesmente vão ao shopping ou rua comercial mais próxima.

Durante uma visita a São Francisco, nossa correspondente pagou US$ 44 por uma aula de ginástica de uma hora no Airbnb, apenas para descobrir que a mulher ofegante ao seu lado pagou menos da metade disso no ClassPass, um site de reservas para exercícios físicos.

Depois, há a inteligência artificial (IA), que pode revolucionar as viagens. De acordo com uma pesquisa realizada este ano pela consultoria McKinsey, 55% dos americanos já usaram o ChatGPT da OpenAI ou uma ferramenta semelhante ao planejar uma viagem, contra 38% em 2024. Alguns podem começar a reservar quartos diretamente por meio desses serviços, assim que isso se tornar fácil.

Ao contrário de alguns concorrentes, o Airbnb até agora tem evitado integrar serviços de IA como o ChatGPT. Chesky, que é amigo de Sam Altman, fundador da OpenAI, diz que optou por não fazê-lo quando foi abordado pela empresa de IA há alguns anos, porque achou que não seria “uma ótima experiência para o usuário”.

Ele disse a Altman que empresas como o Airbnb não querem ser “reduzidas a commodities” que simplesmente fornecem dados. Em vez disso, Chesky prevê usar a IA para transformar o Airbnb em um aplicativo conversacional que irá adquirir gradualmente uma compreensão mais profunda do que seus usuários desejam.

O chefe do Airbnb também vê a tecnologia beneficiando a plataforma de outra maneira. À medida que as pessoas passam cada vez mais tempo em suas telas interagindo com bots, elas podem começar a ansiar por experiências no mundo real, incluindo viajar para novos lugares. “Desde o início, vimos isso como um movimento”, diz ele, falando em pleno “modo fundador”. “Não vimos isso como um site. Não vimos isso como um aplicativo. Não vimos isso como uma ideia comercial.” A questão é: os usuários estão procurando um movimento ou apenas um lugar para descansar?

The Economist: O Airbnb quer oferecer mais do que apenas uma cama para dormir – Estadão

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Cuidar da saúde humana exige conhecimento técnico mas também olhar humano e empatia

Por Ludhmila Hajjar – O Globo – 07/11/2025 

Há uma crise silenciosa na medicina contemporânea. Não é falta de tecnologia nem de recursos, mas de virtude. Vivemos cercados de inteligência artificial, exames de precisão e protocolos que prometem decisões perfeitas. Ainda assim, cresce o vazio entre o médico e o paciente. O progresso científico nunca foi tão grande e, paradoxalmente, nunca estivemos tão carentes de humanidade.

O médico que o ser humano merece é, antes de tudo, estudioso. A técnica salva vidas, e o conhecimento é um dever moral. Mas erra quem acredita que basta saber. A medicina é feita também de escuta, de presença, de silêncio que conforta. O conhecimento sem empatia transforma o cuidado em procedimento. É preciso saber, mas também sentir. Ser médico é equilibrar a objetividade da ciência com a ternura do olhar. É perceber quando a dor do outro precisa mais de uma palavra acolhedora do que de um exame adicional.

A medicina baseada em evidências é o alicerce da boa prática. Ela representa a vitória da razão sobre o improviso e da ciência sobre o empirismo. Decidir com base em evidências é um ato de respeito ao paciente, pois significa oferecer o melhor que o conhecimento humano já comprovou. No entanto, cabe ao médico a tarefa de interpretar e contextualizar essas evidências, aplicando-as à realidade individual de quem está à sua frente. Nenhuma diretriz substitui o julgamento que nasce da experiência e da compaixão. O bom médico é aquele que domina a ciência e, ao mesmo tempo, enxerga o ser humano por trás dos números.

Também é tempo de nos libertarmos dos abusos da indústria farmacêutica e das condutas antiéticas que, em nome do lucro, ameaçam a essência do cuidar. A indústria é parte importante do avanço médico, mas não pode ocupar o lugar do juízo profissional. As decisões clínicas devem nascer da ciência, não da pressão. Ética e independência são virtudes que protegem o paciente e preservam a alma de quem cuida. Um médico não deve vender convicções; deve sustentá-las com base em evidências, integridade e consciência.

O bom médico respeita as crenças e a fé do paciente, sem impor as suas. Entende que a espiritualidade é um refúgio legítimo diante da dor e que ciência e fé não se anulam. Também compreende que a família busca clareza e segurança, não promessas vazias. Por isso, o médico precisa ser tecnicamente impecável. Falar com dados, mas com delicadeza. Explicar sem pressa, traduzir sem arrogância, conduzir sem dominar. Uma boa decisão é fruto de conhecimento e empatia, de técnica e escuta. É o diálogo entre o que a ciência comprova e o que o coração entende.

Ser médico é cuidar de todos, não apenas de um grupo seleto. É ter compromisso com o sistema público, com os que mais precisam. É compreender que o sucesso financeiro deve ser consequência, nunca propósito. O verdadeiro reconhecimento vem das vidas salvas, dos sofrimentos amenizados e das mãos que voltam a apertar a sua em gratidão silenciosa.

A medicina exige coragem para errar tentando acertar. Exige humildade para dizer “não sei”. Equilíbrio entre o raciocínio rápido e o coração calmo. E atualização constante. O bom médico se recicla em conhecimento, participa de congressos e simpósios, lê as revistas científicas reconhecidas e se mantém atento às inovações.

Após 25 anos exercendo a medicina, recomendo que ninguém escolha essa profissão por pressão familiar ou status social. A medicina não é caminho para fama nem para riqueza. É missão de amor, renúncia e fé. Só deve segui-la quem estiver pronto para servir, para estudar até o último dia de vida, para enfrentar a dor do outro sem se endurecer e para seguir acreditando na beleza de cada gesto de cuidado.

A medicina é, antes de tudo, um ato de amor em estado científico. É o encontro entre o conhecimento e a compaixão. Quando exercida com verdade, cura o corpo e também o mundo à sua volta.

Carta ao futuro da medicina

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Histórias da vida corporativa

Evandro Milet – Publicado no Portal ES360 em 19/10/2025

O storytelling está na moda. A definição que se costuma dar é que storytelling é a prática de se contar uma boa história. Ou seja, uma história que consiga reter a atenção do interlocutor. Pode ser apenas uma frase que resuma uma situação, mas é uma boa maneira de vender uma ideia. Se essa história contiver humor, poderá ser lembrada para sempre, ainda mais se as pessoas se identificarem com situações vividas e parecidas com a história contada.  

Um leão novo chegou ao Zoológico da cidade e foi colocado na mesma jaula do leão velho. Durante as visitas o leão novo rugia imponente, atraindo o público, enquanto o leão velho dormia cansado em um canto. Na hora do almoço o leão velho recebia do tratador um suculento pedaço de carne enquanto o leão novo, revoltado, tinha que se contentar com um cacho de bananas. A cena se repetiu algumas vezes até que, inconformado, o leão novo questionou o tratador que explicou: – Quando você entrou aqui só havia vaga para um leão e aí tivemos de classificá-lo como macaco. 

Essa história lembra longas discussões sobre desvios de função e quadro de vagas limitado típicas de imbróglios burocráticos que acontecem muito em órgãos públicos, mas também em empresas privadas.

A política também alimenta histórias. Conta-se que um novo gestor público, recém eleito, recebeu do seu antecessor três cartas para serem abertas sucessivamente nas três primeiras crises que enfrentasse. Na primeira crise, aberta a primeira carta estava lá: “Culpe a administração anterior”. Resolvido o problema com a atitude tomada, seguiu o governo até que ocorreu a segunda crise. Corre-se para abrir o segundo envelope onde está: “Mude o organograma e troque as pessoas”. Sanada a segunda crise, passado mais um tempo, ocorre a terceira. Rapidamente recorre-se à terceira carta que diz: “Escreva três cartas”.

Alguns observadores da vida das empresas colocaram na forma de leis algumas verdades com as quais nos acostumamos a conviver, muitas vezes sem perceber. A Lei de Parkinson, por exemplo, diz que “o trabalho se expande para preencher o tempo disponível para ser concluído”. Outra define as seis fases de um projeto: entusiasmo, desilusão, pânico, busca dos culpados, punição dos inocentes e promoção dos não participantes. 

O grande Millôr Fernandes dá sua contribuição quando diz que “errar é humano. Botar a culpa nos outros também”. Essa tem uma variante: ”se numa situação tensa o responsável estiver tranquilo é porque já achou em quem colocar a culpa”.

Homer Simpson, personagem de Matt Groening, cartunista americano, afirma que existem três frases curtas que levarão sua vida adiante: “ Não diga que fui eu!”, “Ó, boa idéia, chefe!” e “Já estava assim quando cheguei”. 

O engenheiro Isu Fang(falecido em 2021) construiu um conjunto de leis impagáveis: 

1) Em qualquer campo da atividade humana, o homem sempre fará aquilo que sabe, e não o que deve ser feito. 

2) Se o último minuto não existisse, metade das coisas não seriam feitas.  

3) Quando numa reunião alguém apresenta um documento como subsídio para a discussão de um problema, passa-se automaticamente a discutir o documento e ignorar o problema.

4) Quando três soluções alternativas para um mesmo problema são apresentadas e uma delas pode ser caracterizada como intermediária, ela será adotada, independentemente de seu mérito. Corolário: Se você tem uma solução preferida, trate de caracterizá-la como intermediária, mesmo que precise inventar soluções alternativas para isso. 

5) A importância que um indivíduo atribui ao “status” associado ao cargo que ocupa é inversamente proporcional à sua competência para ocupá-lo. 

6)  Em sistemas complexos, não há diferenças significativas entre decisões baseadas no senso comum e aquelas baseadas em longos e intensivos estudos. Corolário: Um estudo de viabilidade deve ser desenvolvido observando a seguinte sequência de etapas: a. obtenção das conclusões; b. dimensionamento dos estudos para dar respeitabilidade às conclusões; c. realização dos estudos. 

7) Se você tiver uma boa solução, você está arriscado a ganhar um problema. Corolário: Se você lembrar que um problema existe, você provavelmente será encarregado de resolvê-lo. Ou como dizia Neném Prancha, filósofo do futebol: Quem desloca recebe, quem pede tem preferência. 

Quem viveu a vida corporativa há de se lembrar de situações que fazem essas histórias bem verdadeiras.

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Amazon trava batalha com Perplexity contra IA que faz compras sozinha

  • Gigante do ecommerce acusa startup de violar regras ao usar agente para comprar em nome de usuários
  • Dona do Comet fala em intimidação e diz que direitos devem ser os mesmos para os assistentes

Shirin Ghaffary e Matt Day – Folha/Bloomberg – 5.nov.2025

A Amazon enviou uma notificação judicial à Perplexity exigindo que a startup de busca com inteligência artificial proíba o Comet, seu agente de navegação na internet com IA, de fazer compras em nome dos usuários.

O gigante do ecommerce acusa a Perplexity de cometer fraude informática ao deixar de revelar quando seu agente de IA está realizando compras em nome de um usuário, em violação aos termos de uso da Amazon, segundo pessoas familiarizadas com a carta enviada na sexta-feira (31).

O documento também afirma que a ferramenta da Perplexity prejudicou a experiência de compra na Amazon e introduziu vulnerabilidades de privacidade, disseram essas pessoas, que falaram sob condição de anonimato para discutir assuntos internos.

No blog da empresa, a Perplexity disse que a Amazon está intimidando uma concorrente menor com um produto rival e argumentou que os usuários devem poder escolher o agente de sua preferência para realizar compras na plataforma.

“É uma tática de intimidação para assustar empresas inovadoras como a Perplexity e impedi-las de tornar a vida das pessoas melhor”, escreveu a startup.

O confronto entre Amazon e Perplexity oferece um vislumbre inicial de um debate crescente sobre como lidar com a proliferação de agentes de IA que executam tarefas cada vez mais complexas para os usuários, incluindo compras.

Assim como a OpenAI e a Alphabet (Google), a Perplexity tem buscado repensar o navegador da web em torno da IA, com o objetivo de automatizar mais ações para os usuários, como redigir emails e realizar pesquisas.

A Amazon também está desenvolvendo seus próprios agentes de IA, incluindo alguns capazes de fazer compras. Em abril, a empresa apresentou um recurso —ainda em teste— chamado Buy For Me (“Compre por mim”), projetado para permitir que os clientes comprem em sites de marcas dentro do aplicativo de compras da Amazon.

Outro assistente de IA, chamado Rufus, pode navegar no site da Amazon, recomendar produtos e colocá-los no carrinho. Mas grande parte da experimentação sobre como agentes podem interagir com a web tem sido feita por startups como a Perplexity, atualmente avaliada em US$ 20 bilhões.

“A Amazon é uma empresa da qual tiramos muita inspiração”, disse o CEO da Perplexity, Aravind Srinivas, em entrevista. “Mas não acho que seja bom para o cliente forçar as pessoas a usarem apenas o assistente deles —que talvez nem seja o melhor.”

Os termos de uso do site de varejo da Amazon proíbem “qualquer uso de mineração de dados, robôs ou ferramentas semelhantes de coleta e extração de dados”.

Em novembro de 2024, a Amazon pediu à Perplexity que parasse de usar agentes de IA capazes de fazer compras no site até que as duas empresas chegassem a um acordo sobre a prática, disseram as fontes. A startup cumpriu.

Mas, em agosto deste ano, a Perplexity começou a usar seu novo agente de navegação Comet, que havia feito login nas contas da Amazon dos usuários, dizia a carta. Desta vez, a Perplexity identificou seus agentes como um navegador Google Chrome, afirmou a Amazon. Quando a Perplexity se recusou a interromper o uso dos bots, a Amazon tentou bloqueá-los, mas a startup lançou uma nova versão do Comet para contornar a medida de segurança.

“Achamos que é algo bastante simples: aplicativos de terceiros que oferecem fazer compras em nome dos clientes de outras empresas devem atuar de forma transparente e respeitar a decisão dos provedores de serviço de participar ou não”, disse Lara Hendrickson, porta-voz da Amazon, em comunicado por email.

Ela acrescentou que outras empresas, incluindo serviços de entrega de comida e agências de viagens online, operam da mesma forma.

“Aplicações de terceiros com agentes, como o Comet da Perplexity, têm as mesmas obrigações, e pedimos repetidamente que a Perplexity removesse a Amazon da experiência do Comet, especialmente à luz da experiência de compra e atendimento ao cliente significativamente piorada que ele oferece”, acrescentou Hendrickson.

Em resposta à acusação da Amazon de que a Perplexity estaria disfarçando seus agentes, Srinivas disse que não vê necessidade de distinguir um usuário de um agente que ele autoriza a agir em seu nome. Ele argumentou que os agentes deveriam ter “os mesmos direitos e responsabilidades que um usuário humano real”. “Não é papel da Amazon supervisionar isso”, afirmou.

Nos últimos 18 meses, a Perplexity foi acusada por veículos de imprensa de usar seus conteúdos em resumos de notícias feitos por IA sem permissão e de comprar dados obtidos ilegalmente em sites de discussão do Reddit.

A Perplexity já afirmou que “lutará vigorosamente pelo direito dos usuários de acessar livre e justamente o conhecimento público”.

Srinivas disse que o Comet não está treinando nem coletando informações da Amazon com seu agente, apenas realizando ações necessárias para comprar em nome dos usuários. Em um post em resposta à notificação, a Perplexity também acusou a Amazon de tentar “eliminar os direitos dos usuários” para vender mais anúncios.

Agentes de compras podem, no futuro, representar uma ameaça significativa ao lucrativo negócio de publicidade da Amazon, que ganha a maior parte de seu dinheiro vendendo espaços de destaque em sua loja online, em resposta às pesquisas de produtos feitas por clientes. Se bots fizerem compras pelos consumidores, o valor desses anúncios tende a cair.

Amazon trava batalha com Perplexity por agente de IA – 05/11/2025 – Tec – Folha

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Como a inteligência artificial já está transformando a área de recursos humanos

O futuro do RH não está em trocar pessoas por algoritmos, mas em equipá-las com melhores ferramentas, plataformas e recursos

UPEKA BEE – Fast Company Brasil – 03-11-2025

Imagine começar em um novo emprego onde toda a sua integração pareça personalizada especialmente para você, com um assistente de IA guiando seu treinamento, apresentando seus colegas e verificando como está sua adaptação.

Esse nível de personalização no ambiente de trabalho não é apenas um conceito futurista: já está presente e avançando mais rápido do que muitos departamentos de RH preveem.

A inteligência artificial está transformando o RH. Em 2026, a IA não apenas vai assumir tarefas repetitivas, como também mudará de forma profunda a maneira como as empresas contratam, integram, desenvolvem e retêm talentos. O resultado será equipes de RH mais estratégicas, orientadas por dados e mais humanas do que nunca.

Depois de mais de uma década trabalhando com tecnologia para RH em pequenas empresas e startups, percebi que, quando aplicada com cuidado, a IA pode aumentar tanto a eficiência quanto a empatia. Usada de forma inteligente, ela libera lideranças de RH de burocracias e tarefas administrativas para que dediquem mais tempo às pessoas.

Veja também

Veja a seguir como a inteligência artificial deverá redesenhar o RH em 2026 e nos próximos anos:

1. Otimização de operações

A IA já está automatizando muitas das tarefas mais demoradas do RH, desde a gestão de benefícios até o atendimento de dúvidas de funcionários. O “Ask HR”, da IBM, por exemplo, está automatizando centenas de funções antes dedicadas a responder perguntas frequentes. Essa transformação permite que o RH concentre esforços em estratégia, cultura e engajamento.

Além disso, a IA está gerenciando softwares e sistemas que antes não se comunicavam entre si. Hoje existem cerca de 5,7 mil ferramentas de folha de pagamento e de RH que não se conversam e exigem alguém para administrá-las.

Essa gestão é ideal para automação, especialmente em fluxos de trabalho, onboarding e offboarding, compliance e auditorias, além de demandas urgentes de colaboradores.

Não se trata apenas de eficiência: conforme a automação avança, as empresas precisam garantir que a experiência humana não seja deixada para trás. A próxima geração de ferramentas de RH vai combinar agilidade com sensibilidade, usando IA para tornar interações mais fluidas e acolhedoras.

2. Onboarding personalizado

Os primeiros 90 dias são decisivos para retenção de funcionários e produtividade. Sistemas de integração baseados em IA já conseguem personalizar cada etapa – das apresentações aos colegas até os planos de treinamento e check-ins – considerando função, habilidades e perfil comportamental.

Em vez de uma jornada padronizada, novos contratados passam a vivenciar uma experiência individual desde o primeiro dia. Automação e personalização aceleram a adaptação e fortalecem o senso de pertencimento.

3. Coaching digital e suporte contínuo

Treinamento e orientação costumavam ser privilégios de executivos. Agora, ferramentas de coaching digital e chatbots confidenciais integrados ao Slack ou ao Teams democratizam esse apoio.

Esses sistemas fornecem feedback colaborativo, monitoram engajamento e oferecem um espaço seguro e constante de acolhimento. Assim, aprendizado e desenvolvimento passam a ser permanentes e acessíveis a todos.

4. Mais resultados com equipes enxutas

No mundo das startups, muitos fundadores estão escalando funções de RH antes mesmo de contratar líderes experientes. Com plataformas de IA auxiliando em recrutamento, compliance e engajamento, equipes reduzidas conseguem administrar demandas complexas.

Muitos ainda perdem tempo demais com tarefas manuais – controle de cadastros, papéis de contratação, verificação de folha de pagamento. Com ferramentas de IA, as empresas podem focar no crescimento enquanto o software garante que cada detalhe seja executado corretamente. Isso devolve tempo aos fundadores e transforma o RH em um problema resolvido.

Esse novo modelo de “RH enxuto” permite que startups se concentrem em estratégia e evolução do ambiente de trabalho, mostrando que tecnologia e IA democratizam o acesso a um RH de qualidade, em vez de substituí-lo.

O PAPEL DA IA NO RH

Os melhores sistemas de IA jamais vão substituir a sensibilidade e a criatividade dos profissionais de RH. A função deles é ampliar essas habilidades.

A abordagem “humanos no processo” assegura que a tecnologia complemente, e não substitua, o julgamento humano. Com essa parceria, o RH constrói ambientes mais eficientes, resilientes e conectados.

O futuro do RH não está em trocar pessoas por algoritmos, mas em equipá-las com melhores ferramentas, plataformas e recursos. A IA vai cuidar do repetitivo para que humanos se concentrem no que realmente importa: confiança, relacionamento e cultura organizacional.

A verdadeira promessa da IA no RH não é reduzir a humanidade, mas fortalecê-la.


SOBRE A AUTORA

Upeka Bee é fundadora e CEO da fornecedora de serviços para recursos humanos DianaHR, que oferece uma plataforma de RH-as-a-Service para pequenas e médias empresas.

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Laboratório da Alphabet, do Google, e prefeitura do Rio firmam parceria para testar IA em gestão urbana

Projetos vão usar tecnologia para revisar a rede elétrica, ampliar conectividade, acelerar o licenciamento urbano e rastrear resíduos. Objetivo é impulsionar projeto da cidade como polo de inovação

Por Carolina Nalin — O Globo – 03/11/2025 

Projeto da Rio AI City, na região do Parque Olímpico, no Rio, e que pretende ser o maior “hub” de data centers da América Latina. A iniciativa tem previsão de aporte inicial de R$ 5 bilhõesProjeto da Rio AI City, na região do Parque Olímpico, no Rio, e que pretende ser o maior “hub” de data centers da América Latina. A iniciativa  tem previsão de aporte inicial de R$ 5 bilhões — Foto: Divulgação 

No rol de esforços para tornar a cidade do Rio o maior polo de inteligência artificial (IA) da América Latina, a prefeitura anunciou nesta segunda-feira uma parceria com a Moonshot Factory, braço de inovação da Alphabet, dona do Google. A colaboração prevê quatro iniciativas – duas delas já mais maduras – que aplicarão IA nos setores de energia elétrica, telecomunicações, planejamento urbano e gestão de resíduos.

A parceria foi celebrada nesta segunda-feira em evento ligado à Cúpula Mundial de Prefeitos no Porto Maravalley, hub de tecnologia e inovação da cidade, no bairro do Santo Cristo. O acordo envolve troca de tecnologia e conhecimento. Os termos do contrato e os valores envolvidos não foram divulgados.

‘Google Maps’ da rede elétrica

Entre os quatro projetos que chegam ao Rio, o que despertou o interesse inicial da prefeitura e deu origem à parceria é o Tapestry, uma espécie de “Google Maps” da rede elétrica urbana, como explicou Astro Teller, CEO da Moonshot Factory, em entrevista ao GLOBO. A plataforma usa IA e visão computacional para mapear toda a rede, identificando, por exemplo, postes e equipamentos que precisam de manutenção ou atualização.

No Rio, a ideia é que a plataforma ajude a preparar a cidade para o aumento da demanda de energia previsto pelo projeto “Rio AI City”, ao lado do Parque Olímpico, onde os data centers que serão construídos devem usar a infraestrutura de cabos de alta velocidade remanescente dos Jogos de 2016. A previsão é que, quando totalmente pronto, o Rio AI City consuma tanta eletricidade quanto toda a cidade hoje.

Ter um mapa detalhado da rede parece algo básico, mas não é trivial, explica Teller. A rede elétrica é uma das mais antigas e caras em operação no mundo, e veio sendo construída ao longo dos últimos cem anos. O Tapestry oferece, portanto, uma visibilidade maior da rede. Uma espécie de “Google Maps da rede elétrica”, diz o executivo.

— Vamos fazer isso no Rio para apoiar a visão do prefeito de uma “cidade de IA” do futuro, porque se a rede elétrica não estiver pronta, data centers não podem chegar para dar suporte a essa visão. (…) O primeiro passo será trabalhar com muitos parceiros locais e montar um plano — diz Teller, que calcula “alguns trimestres” até que o projeto apresente efeitos práticos.

Outro projeto, também mais maduro dentro das inovações do laboratório da Alphabet, é o Taara, uma caixa que usa feixes de luz invisíveis ao olho humano para transmitir internet em alta velocidade. Quase como o canal de transmissão de fibra óptica, só que sem fio. Pela luz, as informações são transmitidas a uma velocidade de até 20 gigabits por segundo, a distâncias de até 20 quilômetros.

Mais internet em escolas públicas e hospitais

No Rio, a tecnologia será usada para implantar 22 links que vão conectar escolas, hospitais e postos de saúde municipais. Será a primeira cidade a receber a internet por feixe de luz da Taara em formato de rede em malha (mesh network), que permite redirecionar o tráfego se um dos enlaces cair, deixando a rede mais estável e resiliente.

A prefeitura também planeja usar um caminhão equipado com uma dessas unidades. Assim, em caso de emergência ou desastre natural, é possível levar o dispositivo para qualquer ponto da cidade. Basta apontar a unidade para uma rede para ter internet banda larga em segundos.

— Como é algo rápido de instalar, o tempo não é o problema — afirma Teller — Acho que ainda haverá algum planejamento sobre quais hospitais e escolas a cidade vai priorizar. A Taara vai trabalhar nisso. (…) Eu diria que vai levar pelo menos dois ou três trimestres, até o próximo ano, para isso ser implementado, mas acho que veremos os resultados já no ano que vem — avalia.

Licenciamento urbano mais rápido e lixo ‘inteligente’

O terceiro projeto chama-se “Anori”, um software criado para simplificar e acelerar processos de construção e licenciamento urbano. A plataforma reúne incorporadoras, arquitetos e prefeitura em um mesmo sistema para reduzir o tempo e o custo do planejamento de empreendimentos residenciais e comerciais.

No Rio, a ferramenta será usada para acelerar o processo de licenciamento urbano. A meta é reduzir o tempo de análise de um projeto e aprovação de meses para minutos, além de usar os dados da Anori para prever cenários de crescimento urbano e atrair novos investimentos para a cidade.

É a primeira vez que o Moonshot Factory fecha uma parceria envolvendo vários projetos de uma só vez com uma cidade no mundo. O Rio será, inclusive, a primeira cidade fora dos Estados Unidos a receber o projeto “Materra”, voltado à redução do desperdício e à economia circular.

Com um equipamento menor que uma geladeira, o Materra usa IA para identificar, a nível molecular, os materiais que compõem o lixo e assim direcioná-los para o tipo correto de reciclagem. No Rio, o projeto será implementado em parceria com a Comlurb, com o objetivo de elevar a taxa de reciclagem da cidade de 1,4% para 35% até 2030 e 80% até 2050.

Funciona assim: o dispositivo analisa os resíduos em uma esteira de triagem e identifica, em segundos, os diferentes tipos de materiais. A partir daí, os materiais podem ser separados de forma robótica e transformados novamente em matéria-prima por processos químicos, térmicos, mecânicos ou biológicos. Em outras palavras, um saquinho feito de petróleo pode ser convertido de volta em petróleo.

— Se a matéria-prima usada pra produzi-lo puder ser reconstruída, o que hoje é lixo e ocupa espaço passa a gerar receita pra cidade. Acho que há uma visão de que isso se torne uma parte importante de como o Rio vai funcionar, e de como o Rio se tornará não só uma cidade de IA, mas uma cidade de IA sustentável — diz Teller.

Laboratório da Alphabet, do Google, e prefeitura do Rio firmam parceria para testar IA em gestão urbana

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Donos de gigante farmacêutica doam fortuna e constroem cidade da tecnologia e da educação no Paraná

Casal de empresários quer oferecer tecnologia e educação para que outras pessoas também superem o ciclo de pobreza

Por Renée Pereira e Carlos Eduardo Valim – Estadão – 31/10/2025 

Quando Luiz Donaduzzi nasceu, em janeiro de 1955, em Jaguari (RS), seu pai, Aldemar, enxergou no filho a oportunidade de realizar o que a vida até então lhe negara e, sobretudo, de romper o ciclo de pobreza que marcava a família — descendente de imigrantes europeus chegados ao Brasil entre 1860 e 1870. A escola e o estudo se tornaram quase um mantra para o patriarca, que fez da educação uma promessa e um propósito: transformar o menino em um homem de sucesso.

Não foram poucos os desafios e os percalços no caminho, mas Aldemar cumpriu sua palavra. Luiz estudou, formou-se e construiu uma trajetória que o consagrou como um grande empresário — um homem que, hoje, também tem seus próprios mantras. Um deles é devolver à sociedade parte do que conquistou, ajudando famílias de baixa renda a oferecer educação a seus filhos.

Formado em farmácia e bioquímica pela Universidade Estadual de Maringá e doutor em Biotecnologia pelo Instituto Politécnico de Lorraine de Nancy, Donaduzzi criou uma das maiores empresas do setor farmacêutico brasileiro. Hoje, a Prati-Donaduzzi, fundada em 1993, é a maior produtora de medicamentos genéricos do País, em volume produzido, e vale cerca de R$ 8 bilhões.

Carmen e Luiz Donaduzzi no projeto Biopark, que tem objetivo de criar uma cidade tecnológica e de inovação no Paraná Foto: Divulgação/Biopark

Para você

“Fizemos fortuna. Seria escandaloso ter todo esse dinheiro e deixar tudo para os filhos”, diz Donaduzzi. A ideologia e a decisão de doar parte da fortuna sempre foi compartilhada pela mulher, Carmen, com quem teve dois filhos. Ela era irmã de um colega de classe de Luiz na época em que ele estudava em um ginásio agrícola.

Carmen chegou a se declarar para Luiz aos 15 anos em uma carta, mas não foi correspondida. Tempos mais tarde eles se reencontraram, namoraram e se casaram, em 1976. Após concluir a faculdade, os dois foram fazer pós-graduação na França, onde nasceu o primeiro filho. De volta ao Brasil, decidiram criar um negócio próprio e tudo começou com a venda de chás.

A ideia veio após uma breve pesquisa em uma farmácia em Pernambuco, onde estavam morando. Ali Luiz concluiu que os chás poderiam ter grande demanda no inverno chuvoso do Estado. “No dia seguinte, foi ao mercado e comprou chás a granel, grampo, grampeador e saquinhos plásticos. O casal começaria pelo mais simples possível”, segundo um trecho do livro Pressa de Futuro, escrito por Rogério Godinho, que conta a trajetória de Donaduzzi e sua mulher.

O próximo passo era produzir algum tipo de medicamento. Carmen estudou livros, enciclopédias, e o primeiro produto a ser feito pelo casal foi a pasta d’água, usada para tratar queimaduras, assaduras e irritações de pele. Depois vieram algumas cápsulas feitas manualmente — e com muito esforço de Carmen e Luiz.

Após muitas idas e vindas, de volta ao Sul, o casal deu início à construção da Prati-Donaduzzi. Naquela época, o governo do Paraná dava incentivos para empresas que quisessem investir e gerar empregos na região. A cidade escolhida foi Toledo. Ali, a farmacêutica começou a produzir medicamentos quase que de forma artesanal, sem máquinas — as primeiras que chegaram à fábrica eram usadas e tiveram de passar por consertos e adaptações.

Hoje a Prati-Donaduzzi tem capacidade para produzir 17 bilhões de doses por ano e conta com uma equipe de mais de 5 mil profissionais. A empresa fechou o ano de 2024 com faturamento de R$ 2,4 bilhões, e a expectativa é de, em 2027, chegar a R$ 4 bilhões — uma receita mais de 10 vezes superior à de 2013.

Em 2016, o casal Donaduzzi decidiu profissionalizar a gestão da empresa e entregou o comando para Eder Fernando Maffissoni, que era o diretor de Marketing da companhia. Hoje Donaduzzi está no conselho de administração. “Vou lá, fico por duas horas, aprovo as compras e os investimentos e confio no trabalho dos executivos”, diz ele.

Após deixar a presidência da empresa, então com 61 anos, o empresário passou a ter mais tempo para pensar em outras iniciativas. Mas ele não queria ter mais um negócio para ganhar dinheiro. Seu objetivo era criar algo que pudesse ajudar a vida das pessoas, diz.

“A empresa vale em torno de R$ 8 bilhões, e quem fez isso não fomos nós. Foram os trabalhadores”, diz ele. O casal não tem o objetivo de vender, ter sócio ou abrir o capital da companhia. “Seria como vender as crianças”, diz Donaduzzi.

Cidade tecnológica

Atualmente, o cotidiano deles envolve outras iniciativas. A principal consiste em gastar boa parte da fortuna acumulada na criação do Biopark, uma espécie de cidade tecnológica e voltada para a educação, de 5 milhões de metros quadrados (m²), localizada a 10 quilômetros de Toledo, onde fica a Prati-Donaduzzi. Para desenvolver o projeto, o casal criou uma associação para transferir parte da fortuna e investir no ensino, empreendedorismo e inovação. Isso tudo dentro do Biopark.

A ideia, conforme o livro que relata a vida dos Donaduzzi, era criar um projeto como o de Sophia Antipolis (um parque tecnológico localizado a noroeste de Antibes e sudoeste de Nice, no sul da França), uma região que em 1969 havia sido capaz de atrair grandes corporações com a estratégia de estimular a inovação. “Décadas depois, a região empregava mais de 40 mil pessoas em pesquisa científica de ponta.”

No futuro, a minicidade dos Donaduzzi poderá abrigar 75 mil pessoas, incluindo parte dos profissionais da farmacêutica e suas famílias. O casal afirma já ter investido R$ 402 milhões no projeto e diz que ainda deve colocar mais R$ 400 milhões.

O ensino no Brasil remonta à Revolução Industrial, ao estilo das casernas e prisões. Nós pedimos para a prefeitura a lista de crianças consideradas problemas, para trazermos para nossa escola.

Carmen Donaduzzi

Isso envolve residências para as famílias que terão crianças estudando no local, um hospital comunitário, doado para a Universidade Federal do Paraná, e faculdade. Hoje as moradias são cedidas como benefício aos estudantes bolsistas do Biopark que atendem a uma série de requisitos. Há também algumas unidades onde moram colaboradores da indústria. “Queremos tudo assim. Vamos estar mortos em 10 anos”, brinca Luiz.

O coração do empreendimento é desenvolver uma educação de qualidade, desde a infância até o ensino superior. A origem da iniciativa foi perceber que as crianças-problema do ensino tradicional eram apenas malconduzidas e que poderiam ter alto desempenho e fazer a diferença na sociedade. A escola é gratuita para os alunos selecionados, assim como os outros estabelecimentos do Biopark.

“O ensino no Brasil remonta à Revolução Industrial, ao estilo das casernas e prisões”, diz Carmen. “Nós pedimos para a prefeitura a lista de crianças consideradas problemas, para trazermos para nossa escola.”

Eles são estimulados a participar de uma incubadora infantil de invenções, que já construiu coisas que vão de pequenos foguetes e cadeiras de rodas elétricas até a formas de acabar com o cascudinho do frango, uma praga que afeta a produção agrícola. “A mudança no ensino não vai vir dos insiders dessa área, mas sim com os outsiders”, defende Luiz. “E a inteligência artificial vai chegar como um tsunami.”

Os Donaduzzis doaram parte do terreno para receber um campus da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR) e construíram um espaço para ter outro campus da UFPR. Também trouxe o Clube de Ciências, o projeto para crianças e adolescentes entre 8 e 17 anos, que surgiu ainda dentro da Prati-Donaduzzi.

Para outros alunos, foi construído um colégio, e no futuro deve ter ainda uma creche. Por fim, há uma faculdade, a Biopark Educação, que promove cursos de ciência e tecnologia, engenharia de biotecnologia, farmácia, administração de empresas, tecnologia, ciência de dados, engenharia de software, inteligência artificial, psicologia e pedagogia.

“Queremos transformá-la numa universidade, em sete ou oito anos. Para isso, ainda precisaremos ter mais cursos, como os de engenharia e pedagogia”, afirma Carmen.

Os filhos do casal estão no empreendimento: Victor Donaduzzi, formado em química, é diretor comercial do Biopark e Sara Donaduzzi, que cursou psicologia, atua na parte de RH do Biopark. O trabalho do casal de empresários é para que os filhos continuem a perpetuar o mantra que começou com Aldemar Donaduzzi: levar educação e conhecimento a um número cada vez maior de crianças.

Donos de gigante farmacêutica doam fortuna e constroem cidade da tecnologia e da educação no Paraná – Estadão

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Como será o trabalho na nova era da ‘IA agêntica’

Evolução da inteligência artificial generativa deve gerar novos desafios profissionais

Por Fernanda Gonçalves — Valor – 23/10/2025 

A nova era do trabalho exigirá menos execução e mais discernimento. Ao assumir tarefas repetitivas e complexas, a inteligência artificial irá redefinir o papel do humano no trabalho e potencializar o seu valor, já que as pessoas poderão se concentrar em interpretar informações, tomar decisões e inovar. Esse foi o consenso formado entre executivos e especialistas durante o Oracle AI World, evento que reuniu 16 mil pessoas de 152 países entre os dias 13 e 16 de outubro em Las Vegas, nos Estados Unidos.

“A IA muda tudo”, principal tema do encontro, marca o novo posicionamento adotado pela própria Oracle. Antes vista como um banco de dados tradicional, a gigante de tecnologia se apresenta agora como uma plataforma de nuvem e inteligência artificial orquestrada por um modelo de IA multimodal, capaz de entender, processar e gerar diferentes tipos de dados ao mesmo tempo.

Yvette Cameron, vice-presidente sênior de gestão de capital humano e marketing da Oracle, afirmou que estamos entrando na “era da IA agêntica”. “É aqui que a IA não apenas cria, mas age. Até então, vínhamos usando a IA generativa, que realmente nos ajudou a trabalhar mais rápido e de forma mais inteligente. Mas a IA agêntica vai muito mais longe, pois entende os objetivos, aprende com o contexto e age em nosso nome para que possamos ser liberados para nos concentrarmos no que realmente importa. Não se trata de substituir o potencial humano, mas de acelerá-lo”, destacou.

No entanto, segundo a especialista, os principais desafios permanecem. “Ainda precisamos desenvolver habilidades, contratar pessoas e desenvolver nossos líderes. Mas na era da IA agêntica, a complexidade, as expectativas e o ritmo da mudança são significativamente afetados porque ela é capaz de antecipar o que vem a seguir”, explica.

Uma das principais ferramentas dessa nova era são os “agentes de IA”, sistemas que funcionam como assistentes especializados para a execução de tarefas específicas. Em recursos humanos, por exemplo, eles podem enviar mensagens de acordo com o perfil do funcionário, atuar como coaches de carreira conectando habilidades, metas e aprendizado, ajudar líderes a gerenciar equipes, alinhar decisões e definir orçamentos, recomendar a função mais adequada para o perfil do profissional, identificar competências e lacunas de habilidades na força de trabalho, avaliar desempenhos, além de otimizar o recrutamento e auxiliar nas contratações.

Agentes de IA da área de saúde, por sua vez, podem fazer revisões de prontuários, dar suporte à decisão, prever riscos e sugerir cuidados preventivos. Enquanto isso, no direito, um agente investigador de crimes financeiros pode coletar e analisar evidências, formar narrativas e recomendar uma decisão ao profissional da área.

“Pessoas que trabalham em call centers podem resolver problemas em tempo real em vez de registrar solicitações e esperar dias por uma resposta. Se você é um líder financeiro, consegue identificar riscos e oportunidades antes que eles apareçam nos números. No RH, passa a ter insights instantâneos e automação que permitem que você se concentre na estratégia, na criatividade e no cuidado com o seu pessoal”, exemplifica Mike Sicilia, CEO da Oracle.

Durante o encontro, foram apresentados casos de uso reais que já estão sendo colocados em prática em diferentes áreas. Dawn Tittensor, vice-presidente de transformação digital da Wood PLC, empresa global de consultoria e engenharia que opera em 60 países, contou que, antes da adoção da tecnologia, trabalhava com dezenas de sistemas de RH para gerir seus 36 mil funcionários ao redor do globo. “Tínhamos muitas maneiras de trabalhar, com processos diferentes, e era muito difícil reunir os dados e relatórios de todos os nossos funcionários”, recorda.

Ao unificar os sistemas e adotar a IA, o trabalho passou a fluir, os profissionais ganharam mais autonomia e o tempo de contratação, que durava em média 45 dias, caiu para 21 dias. “Os agentes ajudam nossos funcionários e gerentes a encontrar as respostas que procuram e os orientam no fluxo de trabalho. As pessoas não precisam mais enviar um e-mail para o RH, entrar em contato com fornecedores e aguardar uma resposta. Elas entram no aplicativo, recebem a orientação sobre o que precisam e podem se concentrar novamente em atividades que agregam real valor ao seu trabalho”, relata.

Ravi Simhambhatla, chief digital and innovation officer do Avis Budget Group, de aluguel de veículos, faz uma analogia: “os dados são o novo petróleo, e a IA é o facilitador que faz esse petróleo ganhar vida”. Na sua visão, a tecnologia permite que os funcionários se tornem solucionadores de problemas em vez de coletores de informações.

Ele diz que a IA ajudou a tornar as compras mais eficientes na sua companhia. “Nossos técnicos precisam encomendar peças de carros. Não quero que eles tenham que pensar em qual peça pedir, para qual carro, e procurar o melhor preço. A IA faz isso por eles”, pontua. “Já para as empresas, ela devolve a mercadoria mais importante e que não temos controle: o tempo. Hoje, algo que levava cinco horas, é feito em dois minutos.”

Os dados são o novo petróleo, e a IA é o facilitador que faz esse petróleo ganhar vida”

— Ravi Simhambhatla

No setor de serviços e hospitalidade, a IA é capaz de “trazer o humano para frente”, segundo Ty Breland, CHRO e vice-presidente executivo de serviços de operações globais da rede de hotelaria Marriott International. Por meio da IA e de um sistema unificado, a empresa está simplificando o processo manual de check-ins e reservas. “Os atendentes agora gastam menos tempo digitando e mais tempo conversando e cuidando das pessoas”, comenta. “Por muito tempo, quando falávamos sobre eficiência, a ideia era: ‘como fazer mais com menos?’. Agora, com a IA, podemos fazer menos, mas ter mais impacto.”

Para entender onde os investimentos deveriam ser direcionados, Breland revelou que decidiu ouvir os próprios funcionários. “Perguntamos para eles: ‘qual é a parte mais dolorosa do seu trabalho? Quais partes do processo estão te atrasando? Se pudéssemos modificar algumas coisas para simplificar e, ao mesmo tempo, enriquecer o seu papel, o que seria?’. Começamos por aí e, quando passamos a implantar as soluções, isso se tornou algo contagioso. Eles realmente queriam mais. Estão adotando, compartilhando com seus colegas e realmente colocando as ferramentas para funcionar”, conta.

Cerca de 4 bilhões de documentos são trocados mundialmente todos os dias em função do comércio exterior, revela André Barros, CEO da plataforma brasileira de logística internacional eComex. “Normalmente, seres humanos são responsáveis por recepcionar esses documentos e digitar as informações nos sistemas”, detalha. “Nós criamos um agente de IA que recebe os documentos, identifica, transforma as informações em dados estruturados e os processa automaticamente no sistema.”

Barros explica que, para poder confiar nos agentes de IA, é preciso monitorar e gerenciar as atividades deles. “Quem faz isso são as mesmas pessoas que foram liberadas daquele trabalho pesado e repetitivo de digitar faturas e documentos nos sistemas. Por isso, nós acreditamos que estamos passando muito mais por uma transformação humana do que por uma transformação digital”, elabora.

Calvin Butler, CEO da Exelon, empresa de fornecimento de energia que atende cerca de 10 milhões de clientes nos EUA, compartilha que o seu maior desafio foi conseguir convencer funcionários que trabalham na empresa há 30 ou 40 anos a utilizar a IA. “Eu posso ter toda essa tecnologia, mas se as pessoas não souberem como usá-la e não toparem, nada feito”, diz.

Ele recorda quando trabalhadores que faziam leituras de medidores de energia foram substituídas pela tecnologia e comenta que algo semelhante deve acontecer na era da IA. “Treinamos novamente todos esses profissionaise agora eles estão fazendo trabalhos dentro da organização que antes não tinham ideia de como fazer”, relata.

Já no setor público, a IA tem sido utilizada para trazer ganhos de velocidade na análise de processos da Procuradoria-Geral do Estado de São Paulo. Uma plataforma treinada com dados jurídicos gera resumos personalizados de petições e auxilia na elaboração de decisões judiciais. Também há um assistente que permite que os promotores usem linguagem natural para interagir com processos digitais, ajudando-os a recuperar documentos, localizar valores monetários ou pesquisar decisões passadas. “Existem muitos processos que ainda dependem somente de análise humana. A IA não vai substituir, mas pode facilitar, acelerar e diminuir o risco de erros”, avalia Bento Bueno, vice-presidente de setor público para a Oracle América Latina.

“Uma série de empresas está gastando grandes fortunas treinando modelos de IA. É o maior e mais rápido negócio da história da humanidade, maior até do que a Revolução Industrial”, declarou Larry Ellison, presidente do conselho e CTO da Oracle, ao abrir sua palestra no palco principal da conferência.

Ellison aproveitou a apresentação para compartilhar sua visão de futuro: “um mundo totalmente novo surgirá quando começarmos a usar esses notáveis cérebros eletrônicos para resolver os problemas mais difíceis e duradouros da humanidade”, assinalou.

Entre os usos práticos da IA citados pelo fundador da Oracle estão o diagnóstico precoce de câncer e a realização de cirurgias mais precisas. “A tecnologia nos ajudará a resolver problemas que não poderíamos resolver sozinhos. Isso nos tornará melhores cientistas, engenheiros, professores, chefs e médicos”, disse.

“Os robôs de IA são cirurgiões muito melhores do que os melhores médicos. Não porque eles são mais inteligentes do que nós, mas porque eles têm melhor coordenação entre olho e mão, e não precisam de um microscópio para ver onde termina o câncer e começa o tecido saudável”, apontou como exemplo.

Ele ainda destacou a capacidade de processamento de informações da tecnologia. “Os modelos de IA raciocinam muito rapidamente, podem lidar com muitos dados e obter respostas as quais nunca chegamos. Eles fazem deduções, inferem, calculam, têm estratégia e regras. Simulam e usam as mesmas técnicas de raciocínio que os humanos usam, mas pensam muito mais rápido do que nós ou resolvem problemas realmente complicados que não podemos resolver de forma alguma”, detalhou.

Seguindo as previsões de Ellison, Leandro Vieira, vice-presidente de IA e tech para a América Latina da Oracle, afirmou em entrevista ao Valor durante o evento que o design organizacional deve mudar completamente nos próximos anos. “Hoje, é como se cada organização fosse um quebra-cabeça. E cada área da empresa é uma peça desse quebra-cabeça”, explica. “Agora, vamos sair desse modelo de quebra-cabeça e imaginar que a IA são círculos. O ser humano vai ser a cola entre esses círculos, se tornando um interlocutor e conectando o que a IA faz ao que não faz. O recrutador, por exemplo, vai deixar a execução de lado para assumir uma visão mais analítica dos processos”, diz.

Apesar do clima de otimismo, especialistas divergem sobre quando exatamente poderemos ver esse futuro se concretizando. Vieira arrisca um palpite: “veremos uma grande mudança acontecendo nos próximos três a cinco anos”, aposta. (A jornalista viajou a convite da Oracle)

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