A indústria de jogos está bombando

por Evandro Milet

Há um segmento que está passando pela crise econômica gerada pelo novo coronavirus sem prejuízos: a indústria de games. Os gastos feitos por consumidores do mundo todo com jogos digitais em março deste ano atingiram a cifra de US$ 10 bilhões, o maior total mensal de todos os tempos e um reflexo direto do isolamento social em prática em boa parte do mundo.

Espera-se que os jogos gerem mais de US$ 160 bilhões em receita em 2020, o que seria mais do que o dobro do registrado mundialmente pela indústria musical (cerca de US$ 19 bilhões) e pelas bilheterias mundiais (cerca de US$ 43 bilhões) juntas.

Para dominar o entretenimento digital, a Amazon está investindo centenas de milhões de dólares para se tornar um dos principais criadores e distribuidores de games do mundo. A gigante de Jeff Bezos anunciou para 20/5 seu primeiro jogo de grande orçamento. Um ambicioso game de ficção científica, Crucible é a ponta de lança de uma aposta grande da varejista para ser uma potência em mais um segmento. 

A empresa também está desenvolvendo uma plataforma de jogos em nuvem completa, com o codinome Project Tempo. E trabalha em novos jogos que são transmitidos em seu popular serviço de streaming Twitch, no qual jogadores podem jogar com telespectadores em tempo real. Esse serviço teve aumento de 50% de março para abril. O esforço é o investimento mais significativo da Amazon em entretenimento original desde que se tornou o maior produtor de séries e filmes de streaming. A Amazon também está mirando rivais estratégicos como o Google e a Microsoft, que expandiram suas áreas de games nos últimos anos. O serviço Game Pass da Microsoft(o Netflix dos games) registrou 10 milhões de usuários em março.

Games são produtos que nascem de forma internacional. Jogar não requer idioma. Além disso, o game que você comprou pode até ter sido lançado por uma empresa norte-americana, mas ele certamente passou pelas mãos de desenvolvedores, animadores, criadores e demais profissionais de qualquer lugar do mundo. 

Há vários tipos de jogos: entretenimento, educacionais, empresariais ou de propaganda. 

No Brasil, essa indústria é composta em sua imensa maioria por pequenas e médias empresas. Das 375 empresas do ramo no País, cerca de 96,8% têm faturamento abaixo de R$ 3,6 milhões, segundo o II Censo da Indústria Brasileira de Jogos Digitais realizado pela Associação Brasileira de Games (Abragames), em 2018.

Como exemplo, hoje 18/5, às 22h estréia a série “Lincoln Rhyme – The Hunt for the Bone Collector”, no canal a cabo AXN. E a MITO GAMES, startup incubada na TecVitória, criou uma experiência interativa, um game do tipo propaganda, para divulgar essa nova série. 

O trabalho remoto é uma realidade do setor. A produção de um game não precisa ser interrompida se é tudo virtual, diferentemente de um filme e pode ser desenvolvido em casa. Já existem empresas que trabalham 100% remotas. Muitas usam desenvolvedores brasileiros diretamente conectados com empresas fora do Brasil. Em Vitória, Luis Gualandi, um jovem universitário, já desenvolveu, em casa, jogos para plataformas internacionais com mais de milhão de usuários.

Nesse momento, o mundo demanda produtos de entretenimento. Quem tem projeto para ser lançado agora vai ter uma vantagem comercial absurda, pois as plataformas de publicação estão batendo recorde de usuários jogando e de vendas. O mundo quer mais conteúdo por conta do isolamento social. E mesmo que a demanda caia depois da pandemia, muitos novos jogadores foram incorporados a essa mania.

Crônica confinada: ih!-commerce e outros perrengues

Por Evandro Milet

Quando vamos novamente comer uma fatia de bolo de aniversário depois de alguém ter soprado a velinha? Por falar em aniversário, uma ampla pesquisa do Google sobre mudanças no comportamento do público desde março, quando o vírus passou a assustar os brasileiros, entrega que “pizza” e “brigadeiro” estiveram entre as palavras mais buscadas por internautas. Não se sabe como vamos sair dessa pandemia, se mais solidários ou não, mas certamente muitos com alguns quilos a mais. Quando formos liberados vai haver corrida para academias. Mas como correr na esteira se as gotas de suor do vizinho de exercício se espalham longe, agora que entendemos tudo de coronavírus? E como tem especialistas em coronavírus na internet. Tem sempre um médico não-sei-de-onde para dizer que tudo está errado em um vídeo que recebemos dezenas de vezes de todos os lados. Se falar de cloroquina então, fica a dúvida se o remédio é de direita ou de esquerda em debates raivosos, com argumentos onde a ciência passa longe. E coitada da ciência – e da razão -, o iluminismo ainda não chegou na internet. O ambiente está perfeito, até peste tem, e mais terra plana, negação de vacinas, mistura de Estado com igreja, execução sumária de bandidos e elogio à torturadores. Tentei mostrar a extrapolação de uma curva exponencial de contaminados e disseram que era adivinhação. Se não é a idade média de volta pode ser a idade mídia que nos afoga de informação. Alguém já disse que se informar pela internet é como beber água em um hidrante. Mas água é problema. A pandemia encontrou 35 milhões de brasileiros sem água encanada enquanto a principal arma contra o vírus é lavar as mãos. Saneamento em geral é problema. Pelo menos há uma cultura de higienização sendo espalhada. Material de limpeza é item dos mais vendidos nos supermercados que, por sua vez se enrolam com o delivery. Na internet um cliente reclamava que na ida presencial ao supermercado foi avisado que o ítem desejado só era vendido no delivery. Dali mesmo ligou o telefone e conseguiu levar o produto. Deve ser o ih!-commerce, vários dias para entregar e muita coisa errada. A internet porém é a salvação para dias de confinamento. Os artistas já não podem fazer shows ao vivo, descobriram as lives. Recordes de audiência revelaram uma preferência nacional: das dez maiores lives da história do YouTube, todas realizadas desde abril deste ano, sete são brasileiras. O ranking é liderado por sertanejos: Marília Mendonça, com 3,3 milhões de acessos em 8 de abril, é seguida de Jorge & Mateus, com 3,2 milhões quatro dias antes. A taça da live é nossa. Alguns fatores explicam o fenômeno das lives: o consumo de música local no país é um dos maiores do planeta, 70% do mercado. Brasileiro ouve música brasileira. Confinamento patriótico.

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O que os brasileiros querem aprender na quarentena

Publicado em Valor Econômico – 14/05/2020

Nos últimos dois meses, o confinamento fez disparar a procura por cursos on-line, dos mais variados temas. Das aulas de desenho à metodologia Scrum, a busca por conhecimento rápido virou febre na maior parte dos países. A Udemy, maior plataforma de cursos virtuais do mundo, gratuitos ou com preços bem acessíveis, registrou um aumento de 425% nas matrículas globais apenas nesse período. No Brasil, esse crescimento foi de 95%.

Por aqui, a maior procura foi por cursos que ensinam a fazer marketing pelo Instagram (103%), edição de vídeos (102%) e desenho (84%). Enquanto isso, os alemães preferiram ensinamentos sobre marketing digital (186%), os franceses sobre o mercado financeiro (223%), os americanos sobre ilustração (326%), os mexicanos sobre análise financeira (235%) e os indianos buscaram habilidades de comunicação (606%). Há temas mais leves, como a busca por habilidades musicais. Espanhóis optaram por cursos de piano, enquanto os italianos procuraram os de guitarra.

Em todos os países, o interesse predominantes foi por temas ligados às habilidades comportamentais, chamadas soft skills, segundo Sérgio Agudo, diretor de negócios para a America Latina na Udemy. O que pode incluir liderança até mindfulness, uma mania global.

A plataforma Udemy é uma EduTech criada em 2010 em São Francisco, na Califórnia. Atualmente, possui mais de 50 milhões de alunos globais e reúne 57 mil especialistas, de 190 países, que ministram mais de 150 mil cursos on-line, em 65 idiomas. Antes da pandemia, entre os tópicos mais populares apareciam estudos de programação e ciência de dados.

Agudo explica que no braço do negócio voltado à companhias que buscam treinamento para funcionários, o Udemy for Business, a grande corrida na pandemia foi por cursos relacionados ao teletrabalho, cujas matrículas cresceram 215 vezes e os que ensinam a fazer a gestão de times virtuais, que aumentaram 15 vezes.

Nos últimos dois meses, o número de cursos novos mais do que dobrou globalmente, e segundo o diretor, a tendência é que eles continuem a crescer. Agudo lembra que além de ser uma opção ao ensino tradicional, a plataforma pode se transformar em uma ferramenta de trabalho para quem ficou desempregado ou está com tempo livre durante a quarentena e quer experimentar novas habilidades, como ensinar.

O executivo conta que para ter um curso aprovado, o profissional precisa mandar um trecho do que pretende ensinar em vídeo para que seja feita uma curadoria sobre a qualidade do conteúdo, do som e da imagem.

Em uma segunda fase, se for aprovado, ele vai receber instruções de como melhorar o que apresentou inicialmente. Se conseguir chegar à terceira fase, quem vai dizer se o curso funciona é o usuário. “Ele vai dar estrelinhas e os cursos mais bem avaliados sobem na busca do site”, diz.

Na covid-19, a plataforma fez uma seleção dos cursos gratuitos mais bem avaliados (www.udemy.com/pt/courses/free). Entre os brasileiros, os que mais se destacam nesse momento são os de trabalho remoto, Zoom para reuniões on-line profissionais e produtividade no home office.

Zoom fatigue: o esgotamento provocado pelo excesso de videoconferências

Sobretudo como ferramenta de trabalho, os encontros on-line andam causando cansaço mental que já tem nome

Por André Lopes – Publicado em 15 maio 2020

É provável que nunca tantos tenham ficado tão próximos mesmo estando distantes. O motivo para esse paradoxo, claro, é a pandemia do novo coronavírus — que, de resto, vem virando de cabeça para baixo outras incontáveis facetas da vida social. Mas, se é verdade que tecnologias como a da videoconferência — que permite vizinhança na distância — não surgiram com a Covid-19, foi devido à sua propagação, e à necessidade de isolamento social para contê-la, que tais ferramentas explodiram mundo afora.

Em poucos meses, aplicativos mais antigos como Skype e Hangouts, e os novatos Houseparty e Zoom, transformaram-se em acessórios indispensáveis para o dia a dia — seja para permitir que parentes e amigos joguem conversa fora, seja, sobretudo, para viabilizar a prática de home office e do ensino a distância compulsório. Não sem cobrar um alto preço — e, isso, insista-se, em um período reduzidíssimo de tempo. O preço: um inédito cansaço mental — que já ganhou até nome (em inglês): Zoom fatigue.

Do que se trata? O termo, que, num primeiro momento, faz menção a um dos mais populares aplicativos de videoconferência, revela uma fadiga, como o próprio nome indica, a que o cérebro se vê submetido após uma sucessão de sessões diante da tela. O fenômeno se dá em especial no caso do trabalho remoto. Com o contato presencial anulado, a necessidade de chamadas para novas interações cresce, fazendo com que, no fim do expediente, a pessoa sinta como se houvesse passado o dia em uma longa e interminável reunião.

Para os estudiosos do comportamento humano, o esgotamento pode ser explicado com facilidade. Durante um diálogo, o cérebro não se concentra apenas nas palavras. Ele recolhe — como se fizesse, digamos, um “zoom” — significados adicionais a partir de dezenas de sugestões não verbais, como olhares, movimentos do corpo e até a frequência respiratória. Essas manifestações ajudam a criar uma percepção holística do que está sendo transmitido e do que é esperado em resposta do ouvinte. “Como somos animais sociais, perceber essas pistas no contato direto é natural, requer pouco esforço cognitivo e pode estabelecer as bases para relações mais íntimas como a amizade”, afirma o psicólogo carioca Alberto Filgueiras, do Instituto de Psicologia da Uerj. “Contudo, no caso de uma chamada de vídeo, essa habilidade é parcialmente prejudicada”, explica ele. “Além disso, a imagem da galeria onde todos os participantes da reunião aparecem desafia a visão central do cérebro, forçando-o a decodificar tantos indivíduos simultaneamente que nada é absorvido de maneira significativa, o que gera tensão — e stress.”

Outro problema são os travamentos e dessincronias que ocorrem durante as chamadas. Segundo um estudo feito por acadêmicos alemães em 2014, um pequeno intervalo de 1,2 segundo entre a voz e a imagem é capaz de trazer à mente, com maior frequência, a impressão de que a outra pessoa é menos amigável ou está desatenta à conversa. Nesse sentido, até a ligação telefônica tradicional parece ser menos cansativa para o cérebro, o que recomenda fortemente seu uso — aliás, retomado com força nestes dias de surto epidêmico.

É possível que em algum momento surjam recursos que atenuem o cansaço mental que as videochamadas têm provocado. Ou que acabemos nos acostumando com ele. Até lá, se a Zoom fatigue bater, e houver oportunidade, desligue a câmera. E desligue-se um pouco.


Publicado em VEJA de 20 de maio de 2020, edição nº 2687

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O comércio e as cavernas: diferenças entre mulheres e homens

por Evandro Milet – publicado em 10/12/2018

Nós vivemos como caçadores e coletores mais de 90% da nossa história. Nessa época remota passávamos apenas dez a vinte horas por semana caçando e coletando os alimentos necessários para sobreviver. Os coletores, em geral mulheres, respondiam por 80% a 90% do esforço e da produção. Os caçadores forneciam principalmente uma proteína extra. É portanto ancestral a maior capacidade do homem em avaliar distâncias, pela necessidade de calcular a distância até a presa. Em compensação as mulheres são melhores em avaliar os arredores imediatos porque precisavam escolher melhor o que coletavam. Um tomate ou um cogumelo não podiam sair correndo, mas elas precisavam saber avaliar detalhes como o grau de amadurecimento, cor e formato para saber se o ítem era comestível, estragado ou venenoso. O caçador precisava apenas ser rápido na caça. Ele não tinha tempo para avaliar nuances. Uma vez abatido o animal, os caçadores precisavam carregá-lo e chegar logo em casa, já que a presa fresca e eles mesmos eram alvos atraentes para outros predadores.

Qual a semelhança desses comportamentos com a maneira como homens e mulheres fazem compras hoje? Scott Galloway faz a comparação em “Os Quatro”, como introdução à estratégia da Amazon. As mulheres tocam o tecido para sentir a textura, experimentam os sapatos para ver se combinam com o vestido, pedem para ver os ítens em cores diferentes, e às vezes não levam nada. Portanto amigos, não adianta se desesperar: a coisa é ancestral e está gravada no cérebro delas. Os homens, por outro lado, veem algo capaz de matar a sua fome, o abatem(compram) e voltam para a caverna(casa) o mais rápido possível.

Uma pesquisa com 2.000 pessoas na Inglaterra, feita em 2013, revelou que os homens ficam entediados depois de 26 minutos fazendo compras, e as mulheres só depois de duas horas. A pesquisa mostrou que 80% dos homens não gostam de fazer compras com suas parceiras e que 45% evitam isso completamente – apesar dos riscos. Quase metade das saídas para compras de um casal acaba em discussão, com os homens irritados, porque eles compraram logo o que queriam, enquanto as parceiras continuavam olhando e demorando para tomar decisões.

Portanto, a abordagem de homens e mulheres, seja no comércio de rua ou shopping, seja no comércio eletrônico, deve ser feita levando esses aspectos em consideração. Os sites de comércio eletrônico para homens devem prover uma navegação clara por categorias de produtos e os das mulheres devem vender uma emoção e permitir nuances e detalhes. Afinal, está gravado no nosso DNA desde o tempo das cavernas.

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Carros autônomos: Para quando?

por Evandro Milet

As empresas de tecnologia prometeram que os carros autônomos e totalmente funcionais estariam rodando normalmente nas estradas até 2020 e se encaminhando para revolucionar o transporte e transformar a economia. Mas uma década depois que o Google lançou um protótipo de carro autônomo com grande alarde global, a tecnologia ainda está longe de estar pronta e muitos investidores estão preocupados em despejar mais dinheiro nela – exatamente quando o mundo poderia se beneficiar de carros que transportam pessoas e entregam encomendas sem um motorista humano.

As empresas que fizeram essas promessas estão agora enroladas: para aperfeiçoar sua tecnologia, elas precisam testá-la nas estradas. Mas eles precisam de pelo menos duas pessoas nos carros para evitar acidentes. Devido às regras de distanciamento social destinadas a manter as pessoas seguras durante a pandemia de coronavírus, isso geralmente não é possível. Muitos desses carros estão simplesmente parados em estacionamentos.

A start-up Argo AI, apoiada por US $ 1 bilhão da Ford e outros US $ 1 bilhão da Volkswagen não consegue dar sequência nos testes  de estrada. A parada geral causada pela pandemia acelerou um abalo da indústria que já estava começando a acontecer. Muitas empresas automobilísticas não têm receita e os custos operacionais são extraordinariamente altos. As startups de veículos autônomos gastam em média US $ 1,6 milhão por mês – quatro vezes o que gastam fintechs ou healthtechs.

A curva foi acentuada a partir de 2016, quando uma bolha de investimento em tecnologia autônoma começou. A General Motors adquiriu a Cruise, uma empresa iniciante de três anos e 40 pessoas, por aproximadamente US $ 1 bilhão. Poucos meses depois, a Uber anunciou que pagaria cerca de US $ 680 milhões pela Otto, uma empresa de caminhões autônoma com seis meses apenas de existência.

O valor dessas transações chegou a cerca de US $ 10 milhões por engenheiro. Uma empresa iniciante com três pessoas, por exemplo, foi avaliada em US $ 30 milhões.

Na semana passada, a Ford, que fechou temporariamente as fábricas por causa do vírus, empurrou o lançamento de seu serviço autônomo de 2021 para 2022.

Na Waymo, a unidade autônoma da empresa-mãe do Google, Alphabet, a pandemia atrasou o trabalho por pelo menos dois meses por causa das regras de distanciamento social e problemas para obter hardware de outros países. 

A pesquisa sobre direção autônoma foi prejudicada, em parte, por uma morte no Arizona. Em março de 2018, um dos veículos autônomos da Uber matou um pedestre. Muitas empresas tiraram seus carros temporariamente da estrada e depois que foi revelado que apenas um técnico estava dentro do carro do Uber, a maioria das empresas resolveu manter duas pessoas em seus veículos de teste o tempo todo.Foi um momento claro em que toda a indústria deixou de ser um mercado em alta para um mercado em baixa. Ficou claro que a tecnologia estava longe de ficar pronta. Os carros ainda cometiam erros de maneiras inesperadas. E resolver os obstáculos de segurança levaria muito mais tempo do que o esperado. Com essas dificuldades muitas empresas quebraram ou foram vendidas para quem tinha caixa para aguentar o tranco. Por exemplo, no ano passado, a Drive.ai, uma start-up apoiada por US $ 77 milhões, foi vendida para a Apple. Ficou claro que o desenvolvimento de veículos autônomos vai exigir muitos recursos só disponíveis para os realmente grandes players.

Marketplace: a terceirização do comércio

por Evandro Milet

O setor de marketplaces movimentou R$ 100 bilhões em 2019 no Brasil e chegará a R$ 162 bilhões, ou mais, em 2022. O modelo de negócio funciona como um shopping center virtual, abrigando lojistas independentes, que ganham exposição e facilidades diversas de acesso ao mercado, em troca de um percentual em torno de 12% das vendas. Algumas plataformas trabalham apenas nesse modelo, enquanto outras agregam o modelo marketplace ao ecommerce normal onde negociam com seus próprios fornecedores. No ecommerce brasileiro o Mercado Livre tinha pouco mais de um terço do varejo online em 2019, seguido por B2W (com 20%), Magalu (cerca de 13%) e Via Varejo (8%), mais recentemente a gigante Amazon que operava levemente ampliou suas atividades no Brasil, incluindo o marketplace.

A B2W, dona de Americanas.com e Submarino, criou o sistema mais completo do mercado de comércio eletrônico entre as empresas de capital nacional (Magazine Luiza e Via Varejo são bem menores). São 55 mil lojistas e 30 milhões de itens à venda na sua plataforma que oferece cardápio completo para um lojista: crédito, logística de armazenagem, embalagem e entrega, SAC, gestão integrada de vendas nessa e outras plataformas, ERP e backoffice e publicidade na rede, caracterizando o que poderia ser chamado de ecommerce-as-a-service. 

As plataformas aceitam vendedores até sem o CNPJ, apenas com CPF, e as internacionais como Amazon e a gigante chinesa Alibaba propiciam espaço para vender em vários países, ampliando exponencialmente a oportunidade de exportação para empresas brasileiras. 

No varejo brasileiro são 5 milhões de empresas com CNPJ e apenas 50.000 vendem online. Com a crise da pandemia, que atingiu duramente o comércio, o Magazine Luiza tirou rapidamente da gaveta o projeto “Parceiro Magalu”, com regras simples de adesão e taxas baixas. Em uma semana, 160 mil trabalhadores autônomos e 15 mil empresas entraram na plataforma vendendo seus produtos. O espaço para pessoas físicas já abrigava 200.000 vendedores. A meta é atingir milhões de pessoas que são autônomas e não podem sair de casa.

Já a Via Varejo, dona das Casas Bahia, Extra.com e Ponto Frio, colocou cerca de 20.000 vendedores, impedidos de ir às lojas, a vender no WhatsApp. A última tendência está na aposta em revendedores pessoas físicas, uma espécie de modernização do vendedor da Avon, que ganha comissão a produto vendido a um amigo, utilizando as populares lives para vender de tudo.

Nesse ambiente de desemprego e isolamento social é um alento e oportunidade para muita gente.

PicPay: Isolamento multiplica antenados no setor financeiro

A necessidade de isolamento social acelerou a curva de adoção de serviços mais modernos

Por GUEITIRO GENSO – 8 maio 2020

Na história da humanidade, a inovação sempre seguiu um ciclo de adoção, mas foi em 1962 que o professor de psicologia Everett M. Rogers conseguiu desenvolver uma teoria chamada “difusão de inovação” ou “curva de adoção”. Ele queria explicar por que algumas pessoas adquirem novos produtos ou adotam novos comportamentos antes de outros.

Durante a avaliação da teoria, ele concluiu que as pessoas são classificadas em cinco perfis, de acordo com o tempo que demoram para fazer a aquisição de um novo produto ou de uma nova solução. São eles: inovadores, adotantes iniciais, maioria inicial, maioria tardia e, finalmente, retardatários.

A teoria dá conta de explicar o fenômeno da adoção da inovação em diversos mercados e setores – e no financeiro não foi diferente. Entre a época das transações financeiras realizadas presencialmente em um guichê e o momento atual, em que podemos fazer tudo pelo smartphone, experimentamos o ATM e o Internet Banking, sempre tendo a curva de adoção de uma nova tecnologia presente no contexto.

Outro fenômeno observado durante essa evolução tecnológica no mercado é que, à medida que evoluiu o canal, mais o consumidor se empoderou, a ponto de hoje estar na mão dele a decisão de trocar de marca no sistema. Basta deletar um aplicativo e fazer o download de outro.

Voltando ao ciclo de adoção no sistema financeiro, já vínhamos assistindo à adoção pelo consumidor brasileiro, em larga escala, do uso do smartphone como meio para fazer todas as suas transações financeiras.

Ocorre que a necessidade de isolamento social acelerou essa curva de adoção. No último mês, os maiores bancos brasileiros intensificaram campanhas de divulgação de seus apps, acelerando a educação digital.

Resultados podem ser vistos. Um dos cincos maiores bancos brasileiros, por exemplo, divulgou que 1,5 milhão de clientes que nunca tinham usado serviços financeiros por seu aplicativo tiveram essa experiência pela primeira vez.

Não foi diferente nas fintechs, nas empresas que nasceram com DNA digital ou que têm o propósito de levar soluções financeiras por meio do smartphone. Apenas no PicPay, maior carteira digital do país, com 19 milhões de usuários, foram abertas mais de 3 milhões de contas digitais de pagamento no mês de abril.

Esse fenômeno de aceleração da curva de adoção traz ganhos para a sociedade. Neste momento em que a prioridade é cuidar da saúde, o pagamento à distância é, de fato, uma forma de diminuir os riscos de contágio do coronavírus. Além desse benefício, as carteiras digitais estão conseguindo levar soluções para o comércio local, que está passando pela reinvenção do seu modelo de negócio.

Como forma de ajudar os pequenos comerciantes locais a sobreviverem em época de isolamento, o PicPay, aceito em mais de 2,5 milhões de estabelecimentos comerciais, lançou o “link de pagamento”, para cobranças à distância. Assim, a curva de adoção de novas tecnologias é acelerada também nos pequenos negócios.

Gueitiro Genso é CEO do PicPay.

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Negócios da China: a dependência do mundo

Uma pesquisa recente de uma TV italiana perguntou aos assinantes qual país fora da Europa eles preferiam como aliado. De 800 que responderam, 36% responderam China e só 30% responderam Estados Unidos. A Itália não conseguiu, na própria Europa, apoio quando foi atingida duramente pela pandemia. A China tem usado a sua capacidade de produção na área médica como soft power, na Itália e outros países, agora que está saindo da crise do coronavírus. Jack Ma, o bilionário co-fundador da Alibaba, um gigante do e-commerce, enviou aviões com respiradores, testes e kits de proteção para todos os 54 países da África. A Huawei, que disputa no mundo a implantação das redes 5G e que é tratada nos Estados Unidos como ameaça à segurança, já entregou grande partida de máscaras, óculos de proteção e luvas para hospitais de Nova York. E também doou uma infinidade de máscaras para países onde disputa a implantação de redes 5G e enfrenta a forte oposição política dos Estados Unidos, como Canadá e Holanda. Da mesma forma quando Trump resolveu retirar seu apoio financeiro à OMS, a China cobriu e também já contribui com 55% do que os EUA aportam na ONU.

Hoje, cerca de 16% do PIB mundial é chinês, muito mais do que os 4,3% na crise sanitária anterior de grandes proporções, a epidemia da Sars, em 2002-3. Essa presença cria problemas por outro lado. A China se transformou na fábrica do mundo, inicialmente pelo baixo custo de mão de obra e depois também pela alta produtividade e pela tecnologia que aprendeu a desenvolver. Com a crise atual, a concentração na China da produção de uma série de insumos das cadeias globais provocou a interrupção de indústrias no mundo, inclusive no Brasil. A China é a maior fornecedora de autopeças para o Brasil, com US$ 13,2 bilhões importados no ano passado. Boa parte da eletrônica embarcada vem da China e 50% da frota brasileira hoje tem câmbio automático, que não é feito no país.

Na atual crise o mundo também percebeu que o setor de fármacos está concentrado. Talvez 80% dos insumos consumidos no Brasil venham da China e da Índia, que restringiu exportações para privilegiar seus cidadãos. Nos EUA, a importação de fármacos é de 72% e máscaras cirúrgicas são 95% importadas da China.

Quase três quartos dos anticoagulantes importados pela Itália vêm da China. O mesmo vale para 60% dos antibióticos importados pelo Japão e 40% dos importados por Alemanha, Itália e França. O governo japonês resolveu repensar toda a sua cadeia de fornecimento para ter, pelo menos, alternativas em outros países asiáticos. EUA fazem a mesma coisa, pensando primordialmente no México como alternativa. No Brasil, o Ministério da Defesa está estudando o problema. Pode ser oportunidade para o Brasil de atrair novas indústrias,  se conseguir reduzir os custos e pode ser um baque, não se sabe ainda de qual tamanho, para a indústria chinesa.

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O Brasil foi o único país do G20 a aumentar exportações neste ano

Por Murillo de Aragão – Atualizado em 8 maio 2020, 10h52 – Publicado em 8 maio 2020

Em meio às trevas da pandemia provocada pelo novo coronavírus, brilham pontos de luz sobre a economia brasileira. A divulgação do balanço do comércio exterior no primeiro quadrimestre deste ano trouxe excepcionais notícias.

A Organização Mundial do Comércio prevê que o comércio internacional cairá entre 13% e 32% em 2020. O Brasil, contudo, surpreendeu no período apresentando a menor variação de fluxo. O país foi o único do G20, grupo das vinte maiores economias do mundo, a expandir seu volume exportado num cenário bastante adverso.

No caso brasileiro, não se verifica queda da demanda por parte da Ásia. O Brasil exportou mais ainda para aquela região nos primeiros meses do ano do que o habitual.

Aliás, mesmo sem considerar a China e o Japão, as duas maiores economias asiáticas, o Brasil vende mais para o resto do continente do que para os Estados Unidos e o México juntos. Com China e Japão na conta, o resultado é espetacular.

O quadro é ainda mais positivo se considerarmos que a Ásia deve sair da crise antes das outras regiões do planeta. Continuando a comprar do Brasil, sobretudo proteína, nos ajudará a minimizar os efeitos de uma recessão.

No período examinado já batemos recordes históricos de venda de carne suína e bovina para a China. A demanda chinesa por minério de ferro também não recuou. Para completar, o quadro recessivo empurrou para baixo os fretes marítimos. Assim, exportar ficou mais barato.

Tanto durante a pandemia quanto na saída da crise, o mundo continuará a precisar de alimentos

São excelentes notícias. Provavelmente no fim do ano teremos o maior superávit comercial da história em nossas relações com a China. Em parte, pela queda de nossas importações. Mas o aumento de nossas exportações é muito positivo.

Já somos o maior exportador de soja em grão, suco de laranja, carne bovina, carne de frango, café e açúcar. Estamos entre os maiores na exportação de minério de ferro, carne suína, farelo de soja e milho. São produtos de demanda pouco elástica e que continuarão a ser bastante procurados mundo afora. O Brasil já se transformou em celeiro do mundo e somos, juntamente com os Estados Unidos, uma verdadeira superpotência agroexportadora.

Ser otimista em tempos de tragédia econômica é um risco. Mas a análise fria dos dados de nosso comércio internacional ante as nossas potencialidades indica que, pelo menos nesse segmento, teremos notícias positivas.

Nouriel Roubini e Ray Dalio, dois expoentes das finanças internacionais, acreditam que o mundo poderá viver uma grande depressão nos anos vindouros. As exportações de bens alimentícios e outros itens em que o Brasil apresenta vantagens comparativas serão importantes para que o país evite esse cenário. Pois, tanto durante a pandemia quanto na saída da crise dela decorrente, o mundo vai continuar a precisar dos alimentos brasileiros, o que se caracteriza como uma situação estratégica favorável para nós.

Por fim, analisando as perspectivas de nosso comércio internacional, a política externa brasileira deve ser, no melhor interesse do país, orientada por decisões pragmáticas que atendam aos nossos objetivos estratégicos.

Publicado em VEJA de 13 de maio de 2020, edição nº 2686

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