8 milhões de alunos não têm internet para aprendizado dentro da escola no Brasil

Acesso à internet para ensino melhorou na última década, mas cenário é marcado por desigualdade

Problema é maior na região Norte e no resto da Amazônia 

Heloísa Vasconcelos/Vitor Antonio/Tiago Cardoso – Folha – 21.set.2025

Enquanto pais e educadores de parte do país discutem a melhor maneira de usar ferramentas inteligência artificial em tarefas escolares, cerca de 8 milhões de alunos de escolas públicas no Brasil não usam a internet para fins pedagógicos dentro do colégio. O país tem cerca de 47 milhões de estudantes no ensino básico.

Das 137.847 escolas públicas que responderam sobre acesso à internet no último Censo Escolar, 33,67% delas afirmaram que não usam a rede para fins pedagógicos e 10% (13.802) disseram que não têm qualquer acesso à internet, nem para fins administrativos, o que impacta a vida de 1 milhão de estudantes.

Há, ainda, 18 mil escolas sem acesso à banda larga, portanto com velocidade baixa para uso adequado, e 2.104 escolas públicas (1,5%) que não possuem qualquer acesso porque não dispõem de energia elétrica.

Os dados são do Censo Escolar divulgado em 2024, relativo à atividade de 2023, portanto o índice de conectividade pode ter aumentado desde então. O questionário perguntava se o colégio tinha acesso à internet, mas também se a internet era ferramenta para fins pedagógicos.

A pesquisa TIC Educação, feita em 2024 pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI) e divulgada na última semana a partir de uma amostra, indica que 43% dos colégios públicos não dispõem de equipamentos para que estudantes acessem a rede e que 62% dos professores usam tecnologia em sala, mas apenas 54% tiveram formação recente.

De modo geral, a conectividade na educação melhorou de forma significativa na última década, com 90% da rede pública conectada, mas existem três principais gargalos: melhorar a qualidade do acesso, diminuir a desigualdade regional e fornecer infraestrutura básica em algumas áreas, como luz.

Levantamento da Folha indica que o fosso digital está concentrado no Norte: 67,6% das escolas federais, estaduais e municipais que responderam o Censo no Acre não possuem internet para atividades pedagógicas. No Amazonas e em Roraima, as proporções são de 67,5% e 66,1%, respectivamente.

Em Belém, sede da COP-30, 66,3% das escolas públicas não acessam internet para aprendizado. Em Macapá, são 56,5%.

Em nota, a Secretaria de Estado da Educação do Pará diz que todas as escolas da rede estadual estão contempladas por um programa de acesso por meio de antenas Starlink (a internet via satélite de Elon Musk). No Censo de 2024, 470 das escolas estaduais informaram não ter internet.

O vazio de conexão está relacionado ao da infraestrutura —da ausência de estradas asfaltadas para escolas rurais à falta de energia elétrica. No Acre, 68,7% das escolas sem internet também não têm luz.

A uma distância de 50 km até o primeiro asfalto, a escola estadual Raimunda Aneli, em Rio Branco (AC), ilustra esse caso. Os professores improvisam para garantir ensino de qualidade aos 44 estudantes matriculados, entre educação básica e de jovens e adultos.

Professor e diretor da instituição, Francisco Barbosa afirma que a falta de conectividade é apenas um dos desafios. Sem energia para armazenar alimentos, a merenda escolar se reduz a enlatados e produtos industrializados, como pães e biscoitos.

“Nosso acesso é difícil, para chegar tem 55 km de estrada, no asfalto, depois mais 50 km de ramal. A gente fica o mês todinho na escola, vai uma vez por mês para casa porque não consegue no final de semana”, diz. Há anos a direção da escola busca recursos do governo para instalar placas fotovoltaicas, que poderiam fornecer energia pelo menos para atividades mais básicas.

“Para colocar internet hoje não é tão difícil, porque você mesmo pode comprar e colocar, o problema é que precisa de energia.”

Há uma barreira geográfica sobretudo na Amazônia Legal, em áreas indígenas, quilombolas e de outras comunidades tradicionais. Segundo o Censo Escolar, apenas 7,7% das escolas fora dessas localizações especiais não possuem acesso à internet. Em terras indígenas, a proporção sobe para 55,75%.

O Brasil possui projetos de âmbito federal e estadual para a conectividade, como o Banda Larga nas Escolas (PBLE) e a Estratégia Nacional de Escolas Conectadas (Enec), que prevê atender praticamente toda a rede pública de ensino com banda larga até 2026, com investimento de R$ 6,5 bilhões.

Criado em 2008, o PBLE prevê a conexão do ensino fundamental e médio até o final deste ano. Até agosto deste ano, 5.727 das mais de 63 mil instituições monitoradas não possuíam a velocidade mínima necessária para atividades educacionais.

A Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações) diz que esses dados podem ser “impactados tanto pela instalação quanto pela desinstalação de conexões em escolas que não constaram do Censo, e tais alterações podem ser refletidas na base de dados do PBLE em diversos momentos ao longo do período”.

Em nota, a agência acrescenta que grande parte das escolas públicas urbanas está sem conexão por razões que “fogem à alçada da prestadora de serviços”, como ausência de energia, endereço errado da escola ou negativa de autorização dos gestores para a instalação.

Para Sônia Fátima Schwendler, professora da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e especialista em educação no campo, a ausência de conexão impacta diretamente a qualidade do ensino e pode aprofundar desigualdades sociais.

“A falta de conectividade muitas vezes faz com que não seja assegurado o direito à educação, um direito fundamental do ser humano, que está na nossa Constituição”, afirma.

Ela defende que a conectividade escolar integre uma política de Estado, não apenas projetos isolados. “Nem sempre existe a atratividade para as empresas em locais remotos, mas isso precisa ser entendido como política pública. Em um mundo conectado, onde há gente, essa gente precisa estar conectada.”

Ao olhar para a taxa de aprovação de ano e o indicador de rendimento de ensino calculados pelo Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), as escolas sem internet apresentam uma tendência de pontuações mais baixas. A maioria pontua entre uma aprovação escolar de 40% a 70%.

Paulo Kuester Neto, supervisor de projetos de ciência de dados do NIC.br (Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR), destaca que, para além da conexão, é preciso garantir qualidade no acesso à internet, com bons indicadores de latência e velocidade de download e upload. A meta de velocidade de internet nas escolas públicas é de 1 Mbps por aluno no turno com maior número de estudantes.

Essa realidade é um tanto distante. Em Goiás, estado com melhor proporção de escolas públicas conectadas, só 18,2% das instituições possuem uma velocidade boa ou ótima, conforme o Nic.br.

“O primeiro desafio, que já é enorme, é tentar levar a internet de acordo com a meta estabelecida para todas as escolas públicas. Existe um segundo desafio que é para dentro da escola, para todos os ambientes escolares, as salas de aula, a biblioteca, eu preciso preparar a escola para que ela ilumine e conecte os seus espaços”, diz Kuester.

8 milhões de alunos não têm internet dentro da escola – 21/09/2025 – Educação – Folha

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Os 200 milhões de trabalhadores temporários da China são um alerta para o mundo

Cerca de 40% da força de trabalho urbana da China está em empregos flexíveis; isso deverá moldar a economia e a sociedade do país nos próximos anos

Por Estadão/The Economist – 20/09/2025 

A maior força de trabalho do mundo passou por uma transformação extraordinária. Os trabalhadores agrícolas e o proletariado industrial da China foram acompanhados por um exército de trabalhadores temporários. Dezenas de milhões agora usam plataformas tecnológicas para encontrar empregos por períodos curtos; 200 milhões, ou 40% da força de trabalho urbana, dependem de algum tipo de trabalho flexível.

A sorte desses trabalhadores precários, muitos dos quais lutam para comprar imóveis e ter acesso a serviços e benefícios públicos, moldará a economia e a sociedade da China nos próximos anos. À medida que a tecnologia remodela os mercados de trabalho, os trabalhadores temporários da China oferecem lições para países em todo o mundo.

Graças, em parte, à sua adoção precoce dos “superaplicativos” que organizam muitas facetas da vida das pessoas, a China é o lar da economia gig (modelo de mercado caracterizado por empregos temporários e flexíveis) mais avançada do mundo. Hoje, 84 milhões de pessoas dependem de formas de emprego baseadas em plataformas, incluindo motoristas de aplicativos de transporte e entregadores de comida.

Com a disseminação dos aplicativos de consumo, esse tipo de trabalho também se tornou predominante nos países emergentes da Ásia. Na Índia, cerca de 10 milhões de pessoas trabalham na economia gig, em plataformas e fora delas. Na Malásia, são 1,2 milhão, cerca de 7% da força de trabalho.

Ultimamente, o trabalho temporário na China se espalhou para o seu famoso setor manufatureiro. O proletariado regulamentado está sendo gradualmente substituído por milhões de trabalhadores temporários que preenchem vagas “sob demanda”, passando de uma fábrica para outra sob a orientação de gigantescas plataformas de recrutamento.

Os empregos geralmente não exigem nenhuma habilidade além do conhecimento do alfabeto romano. Os trabalhadores podem permanecer neles por não mais do que algumas semanas ou até mesmo dias. Pesquisadores estimam que sejam cerca de 40 milhões, um terço da força de trabalho industrial da China — e mais de três vezes o tamanho da força de trabalho dos Estados Unidos.

Uma das razões para o aumento desse exército de trabalhadores temporários é que as empresas querem flexibilidade. Os empregadores valorizam a liberdade de expandir ou reduzir seus negócios, respondendo à demanda sazonal, às variações do mercado e às mudanças na geopolítica.

A tecnologia também tem desempenhado um papel importante. Os aplicativos para smartphones ajudam a combinar os pedidos dos clientes com os entregadores disponíveis; na indústria, a tecnologia automatizou muitas tarefas complexas que antes exigiam experiência. Embora isso tenha criado empregos para engenheiros altamente qualificados, deixou lacunas na montagem, embalagem e inspeção que qualquer pessoa pode preencher.

O emprego flexível de todos os tipos é adequado para muitos trabalhadores. Aqueles que são hábeis em navegar pela economia de plataforma podem ganhar mais mudando de emprego do que ganhariam com um único empregador. Uma pesquisa realizada em 2022 descobriu que a renda mensal dos motoristas de entrega dedicados na China era quase um quinto maior do que a dos trabalhadores migrantes. Outros, sem a tolerância dos pais para o trabalho árduo, não estão dispostos a realizar a mesma tarefa repetitiva semana após semana.

Apesar desses benefícios, os trabalhadores temporários enfrentam dificuldades. Sem um relacionamento mais estável com seu empregador, os trabalhadores mais jovens nunca adquirirão as habilidades necessárias para prosperar na vida. Tendo deixado suas cidades natais rurais, eles podem não conseguir criar raízes nas cidades onde trabalham de forma tão promíscua.

Sem comprovação de emprego estável, eles podem ter acesso aos serviços públicos urbanos negado. E se não conseguirem se estabelecer, podem nunca se casar e ter filhos, agravando o envelhecimento da população chinesa. De uma forma ou de outra, esse grupo de trabalhadores terá de sustentar muitos idosos, além de si mesmos.

Algumas dessas dificuldades, como o sistema hukou de serviços públicos urbanos, são exclusivas da China. Mas, em outros aspectos, vale a pena estudar a experiência chinesa. Muitos países, especialmente na Ásia em desenvolvimento, esperam igualar seu sucesso na indústria manufatureira. Nenhum deles pode se dar ao luxo de desperdiçar o potencial dos jovens.

A escassez de bons empregos é uma das razões pelas quais os jovens em vários países asiáticos se levantaram em protesto contra as negociações ilícitas de seus líderes políticos. Na Indonésia, as manifestações em agosto se tornaram violentas depois que um veículo blindado atropelou um trabalhador temporário que prestava serviços de transporte em sua motocicleta.

Uma lição da China é não dar demasiada importância à indústria. Os países que perderam o poder industrial ou nunca o alcançaram sonham que os empregos nas fábricas podem proporcionar emprego estável, aumento dos salários e estabilidade social. Isso pode ser verdade para alguns engenheiros e técnicos. Mas a China mostra que outras funções podem ser substituídas ou desqualificadas pela automação.

Isso leva a outra lição: seria inútil tentar erradicar o trabalho temporário na esperança de que empregos permanentes tomem seu lugar. A verdadeira alternativa ao trabalho temporário muitas vezes é a falta de trabalho. Uma pesquisa recente descobriu que 77% dos motoristas de aplicativos entraram no setor após perderem seus empregos anteriores.

As plataformas de recrutamento não inventaram o emprego precário. E embora seus algoritmos possam ser cruéis, pressionando os motoristas a dirigir de forma imprudente, eles são uma melhoria em relação aos intermediários que costumavam combinar trabalhadores e empregadores.

Em muitas partes da Ásia, incluindo a China, os trabalhadores diaristas ainda se aglomeram à beira da estrada de manhã cedo, esperando que os empregadores os escolham entre a multidão.

A lição final, portanto, é que os governos devem repensar o contrato social para tornar o trabalho temporário o mais benéfico possível. A China regulamentou os algoritmos para torná-los um pouco mais brandos. Também está tentando diminuir a divisão entre o novo e o antigo, incentivando as plataformas de comércio eletrônico a fornecer segurança social aos trabalhadores temporários.

A Índia está persuadindo os trabalhadores das plataformas a se registrarem para receber benefícios como seguro contra acidentes e, eventualmente, assistência médica.

Passos importantes

Mas os governos precisam ser ainda mais ambiciosos. Em vez de tentar encaixar o trabalho temporário em seus esquemas existentes, eles devem redesenhar as próprias políticas. A China poderia tornar as contribuições obrigatórias dos empregadores menos onerosas, reduzindo seu incentivo para escolher trabalhadores temporários em vez de permanentes.

Os países deveriam tornar as aposentadorias mais portáteis, permitindo uma ligação mais estreita entre o que as pessoas pagam e o que recebem. Muitos países asiáticos correm o risco de envelhecer antes de enriquecer. Ajudar os trabalhadores precários a prosperar é mais urgente agora do que nunca.

The Economist: Os 200 milhões de trabalhadores temporários da China são um alerta para o mundo – Estadão

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Essa é a tecnologia mais impactante da Apple atualmente — e ela não é um iPhone

Tradução em tempo real diretamente nos AirPods mudam a maneira de como as pessoas podem interagir no mundo

Por Brian X. Chen – Estadão/The New York Times – 21/09/2025 

Nesta semana, eu encontrei um velho amigo, e ele me contou sobre o que fez no verão americano. Ele e sua namorada visitaram a família no Arizona. Sua sobrinha o arrastou para uma sessão de “Lilo e Stitch”. Ele estava trabalhando duro em uma nova startup. Ele disse tudo isso em espanhol, uma língua que eu nunca aprendi, mas eu entendi cada palavra.

Isso aconteceu porque eu estava usando os novos fones de ouvido da Apple que chegou às lojas nesta sexta-feira, 19. Os AirPods Pro 3, que custam a partir de R$ 2,7 mil, usam inteligência artificial (IA) para fazer traduções em tempo real, sua característica nova mais significativa — eles têm um cancelamento de ruído ligeiramente melhor, mas não são tão diferentes da versão anterior.

Enquanto meu amigo falava, o assistente virtual da Apple, Siri, agia como intérprete, falando em uma voz robótica que convertia imediatamente as palavras em espanhol para inglês nos meus ouvidos.

Posteriormente, eu revisei uma transcrição da conversa produzida no meu iPhone para confirmar a precisão da tradução. Com a exceção de alguns erros onde a Siri confundiu pronomes (referindo-se à namorada do meu amigo como “ele” em vez de “ela”), o resultado foi sólido.

Eu fiquei impressionado. Este foi o exemplo mais forte que eu já vi de tecnologia de IA funcionando de uma maneira contínua e prática, que poderia ser benéfica para muitas pessoas. Filhos de imigrantes que preferem falar sua língua nativa podem ter mais facilidade para se comunicar. Turistas em outros países podem entender melhor motoristas de táxi, funcionários de hotel e funcionários de companhias aéreas.

Também me ajudaria na minha vida cotidiana para entender um prestador de serviço que não fala inglês e está tentando explicar o seu trabalho.

E francamente, eu também fiquei surpreso. A empreitada da Apple na IA generativa, a tecnologia que impulsiona chatbots como o ChatGPT e o Gemini, tem sido atrapalhada, para dizer o mínimo. A empresa nunca terminou de lançar alguns dos recursos de IA que prometeu para o iPhone 16 do ano passado porque a tecnologia não funcionava bem. E as ferramentas de IA da Apple que estão disponíveis para edição de fotos e resumir artigos têm sido decepcionantes em comparação com ferramentas semelhantes do Google.

A robusta tecnologia de tradução nos AirPods é um sinal de que a Apple ainda está na corrida da IA, apesar de seus primeiros tropeços. Tradutores de linguagem digital não são novos, mas a execução do recurso pela Apple com os AirPods, um produto que se encaixa perfeitamente nos ouvidos, deve fazer uma diferença profunda na frequência com que as pessoas usam a tecnologia.

Por mais de uma década, os consumidores têm lutado com aplicativos de tradução, como o Google Translate e o Microsoft Translator. Eles exigiam que os usuários segurassem o microfone do telefone perto de uma pessoa falando uma língua estrangeira e esperassem que uma tradução fosse mostrada na tela ou reproduzida por meio dos pequenos alto-falantes do telefone. As traduções muitas vezes eram imprecisas.

Em contraste, os usuários de AirPods precisam apenas fazer um gesto para ativar o intérprete digital. Cerca de um segundo após alguém falar, a tradução é reproduzida na língua preferida do usuário nos fones de ouvido.

Aqui está o que você precisa saber sobre como usar o tradutor, como funciona a tecnologia e por que é provável que seja melhor do que aplicativos de tradução anteriores.

Introdução

Configurar os AirPods Pro foi simples. Abri o estojo ao lado do meu iPhone e toquei em um botão para parear os fones de ouvido. Para usar o software de tradução, precisei atualizar para o sistema operacional mais recente, o iOS 26, e ativar a Apple Intelligence, a plataforma de IA da Apple.

Depois, precisei abrir o novo app Traduzir da Apple e baixar os idiomas que eu queria traduzir. Espanhol, francês, alemão, português e inglês estão disponíveis agora, e mais virão em breve. Selecionei o idioma que a outra pessoa estava falando (neste caso, espanhol) e o idioma que eu queria ouvir.

Existem alguns atalhos para ativar o intérprete, mas a maneira mais simples é manter pressionado ambos os hastes dos AirPods por alguns segundos, o que tocará um som. A partir daí, ambas as pessoas podem começar a falar, e uma transcrição aparece no app Traduzir enquanto uma voz lê as palavras traduzidas em voz alta.

Proprietários dos AirPods Pro 2 de 2022 e dos AirPods 4 do ano passado, com cancelamento de ruído, também podem obter a tecnologia de tradução por meio de uma atualização de software. Um iPhone recente, como o iPhone 15 Pro ou um dispositivo da série 16, também é necessário para usar o Apple Intelligence para fazer as traduções.

Para que uma conversa fluida seja traduzida em ambas as direções, é melhor que ambas as pessoas estejam usando AirPods. Dado quão populares já são os fones da Apple, com centenas de milhões vendidos em todo o mundo, isso parece bastante provável.

Ainda assim, há momentos em que essa tecnologia será útil mesmo com apenas uma pessoa usando AirPods. Muitos imigrantes com quem interajo, incluindo minha babá e sogra, sentem-se à vontade para falar apenas em sua língua nativa, mas conseguem entender minhas respostas em inglês, então poder compreendê-los também seria muito benéfico.

Por que as traduções estão ficando melhores

A dependência dos AirPods em modelos de linguagem extensivos, a tecnologia que usa estatísticas complexas para adivinhar quais palavras pertencem juntas, deve tornar as traduções mais precisas do que as tecnologias anteriores, diz Dimitra Vergyri, diretor de tecnologia de fala no SRI, o laboratório de pesquisa por trás da versão inicial do Siri antes de ser adquirido pela Apple.

Algumas palavras carregam significados diferentes dependendo do contexto, e grandes modelos de linguagem são capazes de analisar todo o escopo de uma conversa para interpretar corretamente o que as pessoas estão dizendo. Tecnologias de tradução mais antigas faziam traduções fragmentadas, uma sentença de cada vez, o que poderia resultar em grandes erros porque faltava contexto, explica Vergyri.

Ainda assim, a tecnologia de IA nos AirPods pode ter pontos cegos que poderiam levar a situações sociais embaraçosas, ela acrescentou. Palavras sozinhas não contabilizam outros tipos de contexto, como emoções e nuances culturais. No Marrocos, por exemplo, pode ser indelicado entrar em uma conversa sem uma saudação adequada, que frequentemente envolve perguntar sobre a família de uma pessoa e sua saúde.

“A lacuna ainda existe para uma comunicação real,” diz Vergyri. Ela acrescentou, no entanto, que a tecnologia de tradução se tornaria cada vez mais importante à medida que os trabalhadores corporativos se tornassem mais globais e precisassem se comunicar entre culturas.

Essa é a tecnologia mais impactante da Apple atualmente — e ela não é um iPhone – Estadão

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Um sistema de inteligência artificial capaz de prever as doenças que teremos

Tecnologia similar ao ChatGPT calcula as probabilidades de adoecimento entre mil enfermidades diferentes

Por Fernando Reinach – Estadão – 19/09/2025 

A IA não vai acabar com a medicina nem com a advocacia. Pelo contrário.

Quem não gostaria de saber as doenças que vão nos afetar nas próximas décadas? Prever esse futuro incerto é um dos objetivos da Medicina, principalmente porque muitas dessas doenças podem ser evitadas. O esforço nessa direção tem uma longa história.

Com base na história médica de cada um de nós, e no que ocorreu com pessoas que possuíam histórias médicas semelhantes, os médicos já desenvolveram métodos razoáveis de previsão para muitas doenças específicas.

Por exemplo, se você fuma, tem colesterol alto, sobrepeso e não faz exercícios, existem algoritmos que permitem calcular suas chances de ter um problema cardíaco no futuro.

Mas existem centenas de outros fatores que podem influenciar essas probabilidades, como algumas infecções. E incorporar todos esses fatores para prever cada doença se torna uma tarefa extremamente complexa.

A novidade é que foi desenvolvido um sistema de inteligência artificial, similar ao ChatGPT, treinado para calcular a probabilidade de uma pessoa vir a sofrer cada uma de mais de mil doenças distintas.

Em países desenvolvidos, com um sistema médico público, como Inglaterra e Suécia, a história médica de cada pessoa é registrada em um banco de dados único. Ao contrário do Brasil, onde essa informação está espalhada em diversos lugares, como a memória da sua mãe (dados do parto e das doenças infantis), naquela gaveta onde você guarda os exames clínicos que fez durante a vida, ou na sua ficha em cada médico que consultou, nesses países há um único repositório com todos os seus dados. Cada consulta, cada diagnóstico, cada prescrição, cada cirurgia, e assim por diante.

Foi usando centenas de milhares desses registros que, no passado, os cientistas conseguiram, por exemplo, construir os algoritmos que relacionam o risco de doença cardíaca aos níveis de colesterol.

Com a descoberta dos métodos de inteligência artificial, é possível treinar um sistema da IA com a totalidade dos dados médicos de cada pessoa e pedir a ele que crie essas previsões. Na Inglaterra, dados de milhões de pessoas incluem tudo que o sistema de saúde sabe sobre a pessoa: desde a data de nascimento, o peso em cada consulta, que vacinas tomou, quando teve pneumonia, com que remédio foi tratado, os exames clínicos e procedimentos. Tudo.

Foram usados dados de 400 mil pessoas para treinar um sistema chamado Delphi-2M criado para relacionar a cada doença, em cada etapa da vida, as informações existentes nas histórias médicas das pessoas. Claro que o sistema de IA “redescobriu” a relação entre colesterol a doença cardíaca.

Mas ele também descobriu milhares de correlações novas – algumas fracas, outras fortes – entre o histórico da pessoa e suas doenças. No total, o sistema de IA foi capaz de calcular a probabilidade do aparecimento de 1.256 doenças distintas.

Mas será que essas previsões estão corretas? Para testar o sistema, foram usados os dados de outras 100 mil pessoas que não foram incluídas no treinamento do Delphi-2M.

Funciona assim: pego os dados de uma pessoa de 60 anos. Forneço ao sistema de IA os dados da pessoa relativos aos seus primeiros 40 anos de vida (nascimento aos 40 anos) e peço para o sistema prever o que acontecerá com a pessoa nos próximos 20 anos (dos 40 aos 60).

Em seguida, comparo o que o sistema previu que iria acontecer com o que de fato aconteceu (os dados reais dessa pessoa dos 40 aos 60). Fazendo simulações e comparações desse tipo com 100 mil pessoas, é possível medir quão precisas são as predições.

Usando um índice de acerto em que o valor 1 equivale a acertar sempre e 0,5 equivale ao resultado obtido ao acaso (pense em um teste de múltipla escolha com 2 alternativas. Acertar 50% é o que você obtém se chutar todas as respostas), essa primeira versão do Delphi-2M tem índice de acerto de 0,75 para o que vai nos próximos 10 anos. Esse índice cai para 0,7 nos 10 anos seguintes.

Um segundo teste, usando 1,9 milhões de suecos, apresentou resultados semelhantes. É impressionante, já que sabemos que em quase todas as doenças existem variáveis randômicas que afetam o surgimento de uma doença. Por esse motivo, a previsão será sempre estatística.

Os cientistas acreditam que esses modelos iniciais ainda estão distantes de serem usados no cotidiano médico, pois precisam ser aperfeiçoados e treinados com uma quantidade muito maior de dados, de pessoas de diferentes países. Mas estão impressionados com o resultado, não só pelo alto valor preditivo, o que vai permitir a adoção de tratamentos preventivos, mas pelo fato de ele prever 1.256 doenças.

Vai chegar o dia em que nosso médico vai alimentar um sistema como esse, com nossa histórica médica, receber de volta o que pode acontecer conosco e discutir os riscos que corremos nos próximos 10 a 20 anos de vida. E, mais importante, o que podemos fazer para evitar esses perigos.

Mas para isso cada pessoa terá de possuir sua história médica completa, devidamente registrada, e isso está longe de ocorrer em países como o Brasil. O sistema mais próximo que temos no Brasil é do DataSus, que inclui parte dos dados das pessoas atendidas pelo Sistema Único de Saúde.

Mais informações: Learning the natural history of human disease with generative transformers. Nature https://doi.org/10.1038/s41586-025-09529-3 2025

Um sistema de inteligência artificial capaz de prever as doenças que teremos – Estadão

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Um guia para entender o que as empresas de IA estão tentando construir e quais os resultados

  • Amazon, Microsoft, Google, Meta e OpenAI planejam gastar pelo menos US$ 325 bilhões até o fim do ano
  • Indústria de tecnologia tem se esforçado para explicar por que está investindo tanto dinheiro no ramo

Cade Metz e Karen Weise – Folha/The New York Times – 19.set.2025

Sam Altman, diretor-executivo da OpenAI, não tem inibição alguma de revelar quanto sua empresa planeja gastar em esforços para construir inteligência artificial.

“Pode-se esperar que a OpenAI gaste trilhões de dólares em coisas como a construção de centros de dados em um futuro próximo”, afirmou Altman recentemente, referindo-se às imensas instalações de computação que alimentam as tecnologias de IA da empresa.

“Vários economistas provavelmente vão esfregar as mãos e dizer: ‘Isso é loucura. É imprudência.’ Ou algo do tipo. E vamos responder: ‘Querem saber de uma coisa? Nos deixem fazer nosso trabalho.'”

Mas o que é exatamente esse trabalho? À medida que gasta cada vez mais, transformando terras agrícolas em centros de dados e pesquisadores de IA em alguns dos trabalhadores mais bem pagos do país, a indústria de tecnologia também tem se esforçado para dar explicações sobre o que está construindo e por que está investindo tanto dinheiro nesse empreendimento.

Será que está construindo um sistema de IA tão inteligente quanto o ser humano? Uma máquina divina que vai mudar o mundo se não destruir a humanidade primeiro? Está trabalhando em versões mais sofisticadas de softwares que são comercializados há décadas? Todo esse dinheiro está sendo aplicado em um plano ousado para criar falsos amigos on-line e anúncios mais eficientes? Ou o setor está apenas com medo de perder a corrida, já que muitos outros estão fazendo o mesmo?

Aqui está um resumo das visões, das mais plausíveis às puramente fantásticas, e por que essas ideias têm sido tão perseguidas.

PROMESSA: UM MECANISMO DE BUSCA MELHOR

Os chatbots funcionam de maneira muito semelhante a um mecanismo de busca, com a diferença de que geram respostas em linguagem simples, e não uma lista de links azuis. Essa pode ser uma maneira mais rápida, fácil e intuitiva de responder a perguntas, embora os chatbots errem com frequência e até inventem coisas.

Por que isso está sendo construído?

O mecanismo de busca do Google é o negócio mais lucrativo da indústria de tecnologia. Se pudessem oferecer uma maneira melhor de pesquisar informações, as empresas poderiam conquistar um mercado de bilhões de pessoas.

Isso se aproxima da realidade?

Centenas de milhões de indivíduos já estão usando chatbots para coletar informações. Mensalmente, mais de 700 milhões usam apenas o ChatGPT.

Mas lucrar com essa tecnologia é um desafio. Operar um chatbot é significativamente mais caro do que manter um site comum. Além disso, a tecnologia não se adapta necessariamente ao método consagrado de gerar receita em um mecanismo de busca: a publicidade digital.

A OpenAI vende uma versão do ChatGPT a US$ 20 (R$ 100) por mês e, de acordo com a companhia, isso cobre o custo da entrega. Mas esses assinantes representam menos de 6% das pessoas que agora usam o ChatGPT.

A versão gratuita ainda está no vermelho, porque a OpenAI não começou a experimentar a publicação de anúncios. O Google, por outro lado, gera US$ 54 bilhões (R$ 288 bilhões) em receita publicitária a cada trimestre com seu mecanismo de busca, que é usado por cerca de dois bilhões de pessoas diariamente.

(O “The New York Times” processou a OpenAI e a Microsoft, alegando violação de direitos autorais de conteúdo noticioso relacionado a sistemas de IA. As empresas negaram essas afirmações.)

PROMESSA: FERRAMENTAS QUE TORNAM OS FUNCIONÁRIOS DE ESCRITÓRIO MAIS PRODUTIVOS (E TALVEZ VENHAM A SUBSTITUÍ-LOS)

A tecnologia que impulsiona o ChatGPT não se limita a responder perguntas; é uma ferramenta que ajuda as pessoas a executar seu trabalho. A IA pode gerar programas de computador, resumir documentos e reuniões, redigir emails e até mesmo usar outros aplicativos de software, como planilhas e calendários on-line.

Por que isso está sendo construído?

Os executivos de tecnologia acreditam que a IA pode transformar o mundo dos negócios à medida que se expande para escritórios de advocacia, hospitais, redações e muito mais. Corporações como a Microsoft e a OpenAI já estão gerando uma vasta receita com a venda de sistemas de IA que podem gerar programas de computador.

A Amazon, o Google, a Meta, a Microsoft e a OpenAI planejam gastar este ano mais de US$ 325 bilhões (R$ 1,7 trilhão) combinados em centros de dados gigantescos, o que representa US$ 100 bilhões (R$ 530 bilhões) a mais do que o orçamento anual da Bélgica. Com o tempo, cerca de 10% da infraestrutura será usada para construir tecnologias de IA, enquanto 80 a 90 por cento serão usados para fornecer essas tecnologias aos clientes, de acordo com o diretor-executivo da Amazon, Andy Jassy.

Isso se aproxima da realidade?

Muitas empresas já estão testando a IA, mas ela ainda não foi maciçamente implantada na economia dos EUA. A menos que companhias como a Amazon, o Google e a OpenAI continuem a melhorar essas tecnologias, a adesão pode ser mais lenta do que o esperado.

Cerca de oito em cada dez corporações começaram a usar IA generativa, mas muitas declararam que “ela não tem impacto significativo nos resultados financeiros”, segundo uma pesquisa da McKinsey & Co.

“O castelo de cartas vai começar a desmoronar. A quantidade de dinheiro que está sendo gasta não é proporcional ao montante que está entrando”, observou Sasha Luccioni, pesquisadora da startup de inteligência artificial Hugging Face.

PROMESSA: UM ASSISTENTE DE IA PARA TUDO

As empresas de tecnologia também estão incorporando tecnologia semelhante a chatbots em uma grande variedade de produtos e serviços de consumo. Segundo elas, a IA vai funcionar como um assistente digital que aparece sempre que necessário.

A Meta está adicionando a tecnologia aos seus óculos inteligentes, permitindo que as pessoas identifiquem pontos de referência enquanto caminham pela rua e traduzam placas de rua quando visitam um país estrangeiro. A Amazon vê a IA como uma forma de melhorar tudo, desde seus sites de compras até sua assistente de voz Alexa.

Por que isso está sendo construído?

Se você começar a usar um assistente digital, a companhia por trás do bot terá mais maneiras de chamar sua atenção e, por fim, de lhe vender coisas.

Portanto, essas empresas estão adicionando tecnologia de IA ao maior número possível de dispositivos e serviços online, visando controlar a maneira como você usa a internet.

“Tudo vai ser transformado com a IA. Esse não é um projeto científico”, disse Rohit Prasad, vice-presidente sênior da Amazon.

Isso se aproxima da realidade?

Os óculos com IA da Meta ainda são um produto de nicho usado por alguns milhões de pessoas. A Alexa da Amazon é muito mais popular, mas seu público ainda é pequeno em comparação com todos os computadores e telefones do mundo.

Por si só, a Alexa tem sido um prejuízo financeiro desde que foi lançada, há mais de uma década. É usada principalmente para aprimorar outros produtos e serviços.

Quando a Amazon reiniciou a Alexa com uma nova tecnologia de IA, ofereceu a atualização gratuitamente para qualquer pessoa que pagasse pelo seu programa de assinatura Prime. A IA pode torná-la mais popular, mas é improvável que se transforme em uma fonte de renda em breve.

PROMESSA: AMIGOS DE IA


A Meta e várias startups, incluindo a Character.AI e a xAI de Elon Musk, estão começando a oferecer bots de IA que proporcionam um novo tipo de companhia. Pode-se interagir com esses bots nas redes sociais da mesma maneira que se interage com os amigos.

“As pessoas em geral querem mais conectividade do que já têm”, declarou o diretor-executivo da Meta, Mark Zuckerberg, em entrevista recente a um podcast.

Por que isso está sendo construído?

Zuckerberg e Musk administram redes sociais e podem cobrar por seus amigos virtuais. O segundo está oferecendo seus bots mediante um serviço de assinatura que custa US$ 300 (R$ 1.600) por mês.

A Meta também pode cobrar uma taxa de assinatura por amigos virtuais, assim como a OpenAI faz com o ChatGPT, embora a primeira tenha preferido, há muito tempo, aumentar a receita publicitária retendo as pessoas em redes como o Facebook e o Instagram e em aplicativos como o WhatsApp. (A Meta também está aplicando a IA nessa área. Descobriu recentemente que as pessoas são quase 7% mais propensas a clicar em anúncios criados com novas técnicas de IA.)

Isso se aproxima da realidade?

Embora algumas pessoas já tratem os chatbots como amigos, as corporações de IA estão começando a receber críticas pesadas. Essas tecnologias podem afastar as pessoas das relações humanas e levá-las a comportamentos delirantes e alarmantes.

Ainda faltam anos para que esse mercado se torne viável, e é apenas um dos muitos cenários que as empresas estão explorando.

Alguns observadores comparam o que os executivos de tecnologia estão fazendo com o movimento de peças em um tabuleiro de jogo: tentar vencer os rivais na próxima grande jogada tecnológica.

“Tanto poder nas mãos de tão pouca gente. E esse pessoal está jogando uma partida de xadrez que tem implicações para todos nós”, comentou David Cahn, sócio da empresa de capital de risco Sequoia, do Vale do Silício.

PROMESSA: AVANÇOS CIENTÍFICOS


Dario Amodei, diretor-executivo da Anthropic, uma das principais rivais da OpenAI, acredita que em apenas alguns anos —talvez já no ano que vem— a inteligência artificial será algo como ter um “país inteiro de gênios dentro de um centro de dados” que podem trabalhar juntos para resolver os maiores problemas científicos que nossa sociedade enfrenta.

Por que isso está sendo construído?

Tecnólogos como Amodei presumem que esse tipo de tecnologia vai mudar a vida como a conhecemos. No ano passado, ele mencionou em um ensaio de 14 mil palavras que a IA poderá finalmente curar o câncer, acabar com a pobreza e até mesmo trazer a paz mundial. E previu que, em uma década, dobrará a expectativa de vida média das pessoas para 150 anos.

Isso se aproxima da realidade?

Não está claro como essas tecnologias serão construídas —ou até mesmo se são possíveis.

Mas James Manyika, vice-presidente sênior de pesquisa, laboratórios, tecnologia e sociedade do Google, disse que, à medida que a empresa persegue objetivos mais ambiciosos, criará tecnologias que podem ser usadas de imediato. Como exemplo, ele cita o AlphaFold, sistema desenvolvido pelo Google que pode ajudar a acelerar a descoberta de medicamentos de maneiras pequenas, mas importantes, e que recentemente venceu o Prêmio Nobel de Química.

Uma companhia derivada do Google chamada Isomorphic Labs tem como objetivo obter lucro ajudando as corporações farmacêuticas a usar esse tipo de tecnologia.

PROMESSA: IA TÃO INTELIGENTE QUANTO UM SER HUMANO, OU ATÉ MAIS

Executivos como Zuckerberg e Demis Hassabis, chefe do laboratório de pesquisa DeepMind do Google, afirmam que a empresa deles está buscando a inteligência artificial geral, ou IAG, abreviação para uma máquina que pode igualar os poderes do cérebro humano, ou uma tecnologia ainda mais poderosa chamada superinteligência.

Por que isso está sendo construído?

Muitos tecnólogos estão determinados a alcançar o maior objetivo que podem imaginar: a superinteligência. Perseguem esse sonho desde a década de 1950.

Isso se aproxima da realidade?

Termos como IAG e superinteligência são difíceis de determinar. Os cientistas nem mesmo conseguem chegar a um acordo sobre como definir a inteligência humana.

Mas uma máquina que realmente iguale os poderes do cérebro humano ainda está a muitos anos de distância, talvez décadas ou mais.

Ninguém ainda explicou com clareza como as corporações vão ganhar dinheiro com esse tipo de tecnologia. Ao gastar centenas de bilhões em novos centros de dados, as empresas de tecnologia estão dando um salto no escuro, munidas apenas de fé.

Esse salto é alimentado pela mesma mistura que muitas vezes impulsiona os magnatas do Vale do Silício: ganância, ego e medo de ser destituído por uma descoberta inesperada. “Se eu tivesse de dar uma resposta em uma palavra, seria Fomo” [sigla em inglês para a expressão Fear Of Missing Out, cuja tradução livre é “medo de ficar de fora”], declarou Oren Etzioni, diretor-executivo fundador do Instituto Allen de Inteligência Artificial.

O medo de ficar de fora não sai barato. Altman comentou que, como ele e seus rivais perseguem esses objetivos ambiciosos, alguns investidores talvez estejam gastando demais. Os pesquisadores podem desenvolver maneiras de construir IA usando muito menos hardware. As pessoas podem não querer as tecnologias de IA que essas companhias estão desenvolvendo. O aprimoramento rápido das tecnologias de IA nos últimos anos pode desacelerar ou até mesmo chegar a um impasse. Toda a economia pode mudar por motivos não relacionados.

“Alguns de nossos concorrentes vão fracassar e outros vão se sair muito bem. É assim que o capitalismo funciona. Minha suspeita é de que alguém vai perder uma quantia fenomenal de dinheiro”, afirmou Altman.

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‘Não estou aqui para substituir humanos’, afirma ministra da Albânia gerada por inteligência artificial

  • Diella foi nomeada na semana passada pelo primeiro-ministro e diz querer ajudar pessoas
  • Bot será responsável por garantir que contratos públicos sejam “100% livres de corrupção”

Folha/AFP – 18.set.2025

A ministra albanesa gerada por inteligência artificial, uma estreia mundial, discursou nesta quinta-feira (18) perante o Parlamento do país dos Bálcãs e garantiu que seu objetivo não é “substituir os humanos, mas ajudá-los”.

A nova ministra, batizada com o nome de Diella, foi nomeada na semana passada pelo primeiro-ministro da Albânia, o socialista Edi Rama.

Diella será responsável por todas as decisões sobre licitações de contratos públicos para garantir que sejam “100% livres de corrupção” e que todos os fundos públicos submetidos a esse procedimento sejam “perfeitamente transparentes”, indicou então Rama.

A luta contra a corrupção, especialmente na administração pública, é um critério-chave para a candidatura da Albânia à União Europeia. O primeiro-ministro albanês quer que a nação balcânica de 2,8 milhões de habitantes se torne membro do bloco europeu até 2030.

Diella falou por videoconferência aos deputados albaneses, reunidos para deliberar sobre o programa do governo de Rama. Não foram dados detalhes sobre como foi gerado seu discurso.

“Alguns me chamaram de inconstitucional porque não sou um ser humano”, disse Diella, cujo nome em albanês significa sol.

“Permitam-me lembrar: o verdadeiro perigo para as Constituições nunca foram as máquinas, mas as decisões desumanas daqueles que estão no poder”, apontou a ministra, vestida com o traje tradicional albanês.

Sua nomeação foi duramente criticada pela oposição. “O objetivo não é outro senão chamar a atenção”, criticou nesta quinta-feira o ex-primeiro-ministro e líder da oposição, Sali Berisha, ele mesmo acusado de corrupção.

“É impossível conter a corrupção com Diella”, acrescentou. “Quem vai controlar a Diella? Diella é inconstitucional”, disse, acrescentando que seu partido recorrerá ao Tribunal Constitucional.

Edi Rama, que conseguiu um quarto mandato nas eleições de maio, teve que interromper seu discurso várias vezes devido às vaias da oposição. No entanto, seu programa de governo foi aprovado.

Albânia: ministra de IA não quer substituir humanos – 18/09/2025 – Tec – Folha

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Quanta água o ChatGPT ‘bebe’ para responder sua pergunta? Data centers se multiplicam no Brasil e cientistas tentam estimar impacto

Camilla Veras Mota – BBC News Brasil – 8 agosto 2025

As fotos que você posta nas redes, o filme que vê no streaming, a aposta nos sites de bets, tudo isso é processado em um data center, um centro de armazenamento de dados que funciona como uma espécie de “cérebro” da internet.

E que é também um ávido consumidor de energia.

“Eles funcionam como um computador gigante de alta performance”, ilustra Juliano Covas, gerente comercial e de engenharia para o segmento de data centers da América Latina da Corning Optical Communications.

Com corredores cheios de armários de ferros com pilhas de servidores, os data centers demandam muita eletricidade, usada tanto pelas máquinas em si quanto pelo sistema de refrigeração que funciona sem parar para impedir que elas superaqueçam.

Com o aumento da conectividade, essas estruturas se multiplicaram no Brasil nos últimos anos.

Hoje há 162 data centers espalhados pelo país, conforme estimativas da Associação Brasileira de Data Centers (não há dados públicos oficiais), com capacidade instalada em torno de 750MW e 800MW.

Algo dessa magnitude, para efeito de comparação, é semelhante ao consumo de energia de uma cidade de cerca de dois milhões de habitantes, conforme estimativas feitas por técnicos da Empresa de Pesquisa Energética (EPE) a pedido da reportagem.

Com a popularização do uso da inteligência artificial, contudo, a expansão prevista para a próxima década deve multiplicar esse número em mais de 20 vezes.

Nessa escala, o segmento de data centers pode se tornar estratégico — foi inclusive mencionado nesta semana pelo ministro da Fazenda, Fernando Haddad, como setor que pode ser explorado em conjunto com os Estados Unidos em meio à negociação do tarifaço americano.

Haddad justificou dizendo que o Brasil possui grande oferta de energia pra manter esses centros de processamento de dados funcionando.

De acordo com os números do Ministério de Minas e Energia, a demanda por energia por data centers no Brasil deve chegar a 17.716 MW em 2038, estimativa feita com base nos pedidos de acesso à rede de energia do país enviados pelas empresas à pasta.

Um desses pedidos, que recebeu recentemente o aval do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), é um megaempreendimento de 300 MW, com investimento previsto de R$ 50 bilhões, que deve ser erguido na região do porto do Pecém, no Ceará, para abrigar um data center que estaria gerando interesse em grandes empresas de tecnologia como a chinesa ByteDance, dona do TikTok, conforme noticiou a agência Reuters.

À reportagem, o TikTok afirmou que não se manifestaria sobre o assunto.

A Casa dos Ventos, responsável pelo projeto, disse que o início da construção está previsto para o segundo semestre de 2025 e que a expectativa é que o complexo entre em operação em 2027.

‘Data centers são caixas pretas’

Usando a mesma analogia do consumo de eletricidade por habitante (que não é uma comparação perfeita, mas serve para dar dimensão da magnitude), a demanda por energia projetada para os data centers em 2038 equivaleria à de uma cidade de 43 milhões de habitantes, quase quatro vezes a população da cidade de São Paulo (11,5 milhões, conforme o Censo 2022).

Mas o que isso significa — qual vai ser o impacto desse crescimento?

Via de regra, qualquer aumento na produção de energia elétrica, ainda que renovável, gera algum tipo de impacto ambiental, que pode inclusive afetar negativamente as populações que vivem próximo às usinas (leia mais abaixo).

No caso dos data centers, os especialistas ouvidos pela BBC News Brasil apontaram que hoje é difícil fazer essa estimativa com precisão, especialmente com a disseminação da inteligência artificial.

Data centers que têm a capacidade de treinar, implementar e disponibilizar aplicações e serviços de IA são equipados com circuitos eletrônicos com chips de alto desempenho (como o H100 da Nvidia) que consomem muito mais energia do que os tradicionais.

O quanto mais, contudo, hoje ainda é difícil dizer. Cientistas que têm se dedicado a tentar estimar o consumo de energia — e o impacto ambiental como um todo — afirmam que a quantidade de informações compartilhadas pelas empresas de tecnologia e operadores de data centers não é suficiente para fazer um cálculo acurado.

Não se sabe, por exemplo, em que capacidade os data centers operam — se consomem algo perto de toda a energia que a infraestrutura dispõe ou muito menos que isso.

Outro dado considerado importante que não é compartilhado pelas empresas é qual percentual dos servidores é usado para treinar os modelos e para a operação de fato dos chatbots, a chamada “inferência”, processo usado para gerar o texto de resposta.

Ou ainda quais data centers são usados para esse tipo de serviço.

“Os data centers são caixas pretas”, diz Alex de Vries, fundador do Digiconomist, projeto que há uma década estuda as consequências não-intencionais das tendências digitais.

“Nós estamos conversando por Zoom agora e eu não faço ideia em que parte do mundo estão os servidores que estão processando a chamada”, ilustra o economista, que mora nos arredores de Amsterdam e pesquisa o consumo de energia e o impacto ambiental da IA como parte do doutorado na Vrije Universiteit Amsterdam.

De Vries tenta calcular o uso de eletricidade a partir dos chips da maior fornecedora hoje para a indústria de IA, a Taiwan Semiconductor Manufacturing Company (TSMC), levando em consideração o volume de chips vendidos pela empresa e fazendo suposições sobre a capacidade utilizada dos data centers onde eles operam, a eficiência do sistema de refrigeração e os demais parâmetros para os quais não há informações divulgadas.

“É um desvio enorme para se chegar a algo que deveria ser muito simples de obter”, ele comenta.

“As empresas sabem exatamente quanto de energia seus sistemas de IA estão usando, eles apenas optam por não publicar essa informação”, completa.

Com o cálculo, ele chega em uma estimativa do consumo global de energia pela inteligência artificial, que no ano passado se comparava a toda a eletricidade usada na Holanda.

“Em 2025 esse número deve dobrar, a inteligência artificial vai consumir duas vezes mais energia do que um país como a Holanda”, afirma De Vries.

O economista tem advogado por mais transparência por parte das empresas de tecnologia, argumentando que hoje é difícil confrontar os custos e benefícios da inteligência artificial.

“Enquanto isso, a demanda por energia está crescendo tão rápido. Nunca vimos nada parecido antes”, ressalta De Vries.

Uma pergunta pro ChatGPT consome uma garrafa d’água?

Fabro Steibel, que é diretor-executivo do Instituto de Tecnologia e Sociedade (ITS), pontua que o uso de data centers no Brasil é muito diferente do que se observa em países como os EUA, por exemplo, onde algumas dessas instalações são usadas para treinar modelos de linguagem grandes (LLM, na sigla em inglês) como o ChatGPT, Claude e Gemini.

“A gente não é ‘big techs‘”, ele pondera, emendando que a comparação que ficou famosa no último ano, de que uma pergunta ao ChatGPT consumiria algo semelhante a uma garrafa d’água, não é generalizável para o setor como um todo.

“Isso não foi inventado, mas é um caso bem específico, em um determinado contexto”, completa.

Essa ideia nasce, segundo ele, a partir de uma reportagem do Washington Post de setembro de 2024 que repercutia um estudo de pesquisadores da Universidade da California, Riverside com uma estimativa do gasto de água para que o chatbot escreva um email de 100 palavras (519 ml).

O próprio texto destaca que o consumo de água varia a depender do sistema de refrigeração usado pelo data center e lista diferentes estimativas a depender do Estado americano em que estivesse localizado, indo de 235 ml no Texas a 1.468 ml em Washington.

O consumo de água nos data centers se dá basicamente de duas formas: indireta, quando a energia usada na instalação vem de hidrelétricas, e direta, quando o recurso é usado no sistema de refrigeração do prédio.

Há dois modelos bastante diferentes de refrigeração, entretanto. Um deles usa uma torre de resfriamento em que a água que passa pelo circuito evapora, criando a necessidade de adição de água pura constantemente ao sistema.

Nos Estados Unidos, que concentra cerca de três mil data centers, o uso desse sistema tem causado impacto em pequenas cidades pelo país e gerado atritos entre as populações locais e grandes empresas de tecnologia.

O segundo é um sistema de refrigeração de ciclo fechado, em que o uso de água é significativamente menor.

Esse, segundo a assessoria da Casa dos Ventos, será o modelo utilizado no grande data center previsto para ser construído no Ceará.

À reportagem, a empresa afirmou ainda que o data center terá acesso exclusivo “a 300MW de energia fornecida por parques eólicos e solares”.

O lado B das energias renováveis

Mesmo as energias renováveis, contudo, têm algum tipo de impacto, ainda que em termos de emissões de gases de efeito estufa elas sejam muito menos danosas do que os combustíveis fósseis.

Há casos em que o barulho das turbinas eólicas, por exemplo, chega a causar depressão, insônia e surdez em quem mora nas proximidades.

Ou conflitos territoriais entre as empresas e comunidades locais, que são tema de pesquisa da professora da Universidade Federal do Ceará (UFC) Adryane Gorayeb, que é também membro do Observatório da Energia Eólica.

Em uma das comunidades estudadas por ela, localizada no litoral do Ceará, o empreendimento aterrou uma das lagoas entre dunas que era usada para pesca durante o inverno, comprometendo a subsistência da população local, e bloqueou a única via que os moradores usavam para sair e entrar no vilarejo, forçando-os a escalar dunas mais altas para se deslocarem.

“Muitas das comunidades tradicionais do litoral impactadas pela construção de usinas vivem uma rotina de ameaças aos seus direitos mais básicos, desde acesso à água, alimentos e à terra”, comenta.

O Observatório da Energia Eólica recentemente expandiu seu escopo para pesquisar também os impactos da energia solar, que vão desde consumo de água para lavar os painéis até uso de agrotóxicos na manutenção da vegetação que cresce abaixo das placas solares.

Soluções locais

Fabro Steibel, da ITS, argumenta que o Brasil está produzindo “soluções locais” na construção de uma infraestrutura local voltada para a inteligência artificial com potencial de produzir impacto ambiental significativamente menor do que o observado em países como os EUA.

“A necessidade faz a solução. Se eles [big techs] têm todo o equipamento à disposição, não têm incentivo nenhum de revolucionar. A gente não tem esse recurso”, destaca.

E cita como exemplo a previsão, na recém-aprovada lei de fomento à IA aprovada em Goiás, do uso de biometano para produção de energia para data centers. O ITS coordenou a consulta pública realizada durante a elaboração da proposta.

“O data center movido a biometano existe? Não, ele é outra frequência, outra coisa. Mas pode existir. E o biometano tá ali, é o que sobra da soja e do milho.”

Goiás espera se tornar o primeiro Estado do país a usar os chips mais avançados da Nvidia, o Blackwell B200, que foram encomendados pelo Centro de Excelência em IA da Universidade Federal de Goiás (UFG). O objetivo é integrá-los em oito supercomputadores que serão usados em cerca de 70 projetos de pesquisa.

A reportagem tentou contato com o Centro de Excelência em IA da universidade pedindo detalhes sobre a estimativa de consumo de energia da nova estrutura, mas não teve retorno.

ChatGPT: quanta água ‘bebe’ sua pergunta ao bot? Cientistas tentam estimar impacto ambiental da IA – BBC News Brasil

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Como o etanol de milho conquistou 20% do mercado, e por que ele atrai a Petrobras

A produção cresce mais de 30% ao ano. Duas companhias, Inpasa e FS, concentram 80% desse mercado, e podem virar sócias da estatal.

Por Alexandre Versignassi – InvestNews – 15 set. 2025

Pergunta do Show do Milhão: a empresa que mais produz etanol no Brasil usa qual matéria prima? 

A) Cana-de-açúcar

B) Milho

Você está certo disso? Vamos à resposta: alternativa B. Porque a maior produtora de etanol em 2024 não foi a Raízen, que cultiva 13 mil km² de cana (o equivalente a metade do Estado do Sergipe). Foi a Inpasa, que faz etanol de milho: 3,7 bilhões de litros – à frente dos 3,1 bilhões da Raízen.

É isso. Enquanto a produção de etanol de cana está praticamente travada no mesmo patamar há 10 anos, a de etanol de milho cresce, desde 2020, a uma taxa média assombrosa: 33% ao ano.

Ou seja, quase todo o crescimento do mais brasileiro dos biocombustíveis vem hoje do etanol de milho, que até outro dia era sinônimo de álcool produzido nos EUA. 

Agora a história é outra. Essa variante já responde por 20% do etanol brasileiro – 7,5 bilhões de litros, de um total de 37 bilhões. E deve passar de 30% nos próximos 10 anos, pelas projeções da EPE

Vamos olhar essa indústria um pouco mais de perto. A Inpasa tem um bom tempo de rodagem. Começou com o etanol de milho em 2007, mas no Paraguai. O nome da empresa, inclusive, é um acrônimo para Industria Paraguaya de Alcoholes S.A. Só que o dono é brasileiro: José Odvar Lopes, o “Seu Zé”. 

Em 2019, a Inpasa virou uma indústria brasileira também: inaugurou sua primeira usina em Sinop (MT), grande produtora de milho. E no ano passado Seu Zé destronou Binho – como os amigos chamam Rubens Ometto, o controlador da Raízen.

A Inpasa teve uma receita líquida de R$ 13,6 bilhões em 2024; 23% maior na comparação anual. Ela não divulga o lucro. A Moody’s, porém, estima que a margem líquida ali seja de 18%. Isso sugere um lucro de R$ 2,4 bilhões no ano passado.   

E ela tem aproveitado o dinheiro para expandir em outra área: a da distribuição de combustíveis. De acordo com o Brazil Journal, José Odvar Lopes chegou a comprar R$ 30 milhões por dia em ações da Vibra e já detém, por meio de um fundo da família, 3% da dona dos postos BR; uma fração avaliada em R$ 800 milhões.  

A Inpasa não foi a primeira do país, de qualquer forma, a dedicar-se ao etanol de milho. O pioneirismo aí cabe à Usimat. Em 2012, ela montou uma “usina flex” na cidade de Campos de Júlio (MT), capaz de processar cana e milho – alternando as safras de um e de outro.

Já a primeira companhia 100% dedicada aos sabugos veio um pouco mais tarde, em 2017. Trata-se da FS, controlada pela americana Summit – o nome completo dela também é em outra língua: Fueling Sustainability (basicamente, “abastecendo a sustentabilidade”).

Ela estreou com uma usina em Lucas do Rio Verde (MT), tirando 280 milhões de litros. Em 2020, bateu a marca de 1 bilhão. Hoje, são 2,4 bilhões. Isso faz da FS a terceira maior produtora de etanol do país (seja de cana, seja de milho), atrás apenas da Inpasa e da Raízen. No ano passado, ela viu seu faturamento saltar 32%, a R$ 10,7 bilhões. De lucro, R$ 937 milhões. 

A FS tem três usinas; a Inpasa Brasil cinco. Todas ficam no Centro-Oeste, próximas dos fornecedores de matéria prima. Para dar uma ideia melhor da dimensão desse par: elas produzem 80% do etanol de milho no Brasil.

Não à toa, elas entraram na mira da Petrobras.

Petrobras: back to the game

A estatal anunciou no final do ano passado que pretende voltar ao mercado de produção de etanol, que ela tinha abandonado na década passada. Ela tinha joint ventures com sucro-alcooleiras, incluindo a São Martinho, onde também contava com uma participação acionária relevante, de 6,5%. Mas saiu em 2018, para se concentrar em óleo e gás.

Agora ela quer voltar ao jogo. Magda Chambriard, a presidente, disse no início do ano que não via sentido em deixar de lado o combustível que concorre com a gasolina. A ideia é voltar ao sistema de joint ventures, com participação minoritária em empresas de etanol. Mas quais empresas? 

A Petrobras ainda não abriu, mas a Bloomberg noticiou na última quarta-feira (10), citando fontes próximas do caso, que as negociações estão avançadas justamente com a Inpasa e a FS, as gigantes do etanol de milho.

E por que milho? O Brasil, afinal, é o país da cana desde o século 16. Somos o segundo maior produtor de etanol (atrás dos EUA) e o primeiro, de longe, de açúcar.

Num país tão canavieiro, então, como é que o etanol de milho cresceu tanto em meia dúzia de anos? E o que teria encantado a Petrobras nessa seara? É o que vamos ver agora. 

Até 40% mais barato

Como você leu aqui no intertítulo: é bem mais barato produzir etanol de milho. Primeiro, porque a oferta nacional aumentou.

A área de terras para o cultivo de milho cresceu 15% desde o fim da década passada. Nesse mesmo intervalo, a produção subiu 25%. Um aumento razoável na produtividade. Ao mesmo tempo, os preços internacionais do milho passam por uma baixa. Nos últimos três anos, a queda é de 35%.

As usinas compram milho dos produtores. Com mais matéria prima no mercado, a preços menores, o custo delas tem caído. Na safra 2024/2025, a produção de etanol de milho custou R$ 1,88 por litro, de acordo com um relatório do BTG, contra R$ 2,36 do etanol de cana. Uma economia de 20%.

E o resto? Aí que vem o pulo do gato. A fabricação do etanol de milho gera um subproduto valioso, o DDG – sigla em inglês para “grãos secos de destilaria”, que é vendido como ração. 

Vale ver como a mágica acontece. Produzir etanol é igual a produzir uísque, pelo menos nos primeiros passos. Você mói os grãos de milho e mistura com água. Então coloca um levedura ali – um fungo, que “come” o açúcar do milho. Feita a “digestão”, o fungo libera gás e álcool.

O que fica é uma espécie de cerveja – um líquido gasoso com baixo teor de álcool. Mas não é cerveja que você quer. O próximo passo é ferver essa mistura. O etanol evapora primeiro, então o vapor que sai é rico em álcool. Ele vai por tubos até uma serpentina fria, onde vira líquido de novo. A alquimia está feita: o milho virou álcool. 

O que sobra é um líquido cheio de milho moído sem o açúcar, sem o amido. Você seca essa sopa, e o que tem na mão é um farelo rico em proteína (com pelo menos 30%, contra 8% do milho original). Por isso o DDG é valioso como ração animal. Tanto que um dos clientes da FS é a BRF, que usa o grão seco de destilaria para alimentar as aves e suínos da unidade que tem em Lucas do Rio Verde.   

Na transformação da cana em álcool você não tem um subproduto assim. Como a planta é puro amido, o que sobra ali não serve como ração. Na transformação de milho, fica o DDG – e mais outro subproduto, o óleo de milho, que serve para fazer biodiesel.

E o fato é que a venda do DDG e do óleo de milho fazem com que o custo de produção do etanol de milho fique até 40% menor na comparação com o etanol de cana.   

A simbiose com a soja

Outra vantagem do etanol de milho é a simbiose com a maior cultura do país: a de soja.   

No Centro-Oeste, você planta soja na primavera (setembro/outubro) e colhe no verão (janeiro/fevereiro). São pouco mais de 100 dias. Mas não adianta plantar de novo em março. Essa safra pegaria o inverno, com menos horas de luz solar, e a planta não se desenvolveria a contento.

A saída é ou deixar a terra em repouso ou plantar alguma outra cultura, amiga do outono/inverno. É justamente o caso do milho, que não se incomoda com a luminosidade menor dessa época. Se houver demanda para milho, então, vale a pena aproveitar a janela da soja e produzir, como dizem no agro, o “milho-safrinha”.  

O etanol de milho, com seu crescimento veloz, garante essa demanda. E temos aí um círculo virtuoso: com mais usinas, há mais incentivo para que o oceano de áreas de plantação de soja no país produza milho no inverno. São 24 usinas no país hoje. Elas já consomem 15% da produção brasileira de milho – sendo que um terço volta para a cadeia de produção de alimentos, na forma de DDG.   

Nada disso significa que o etanol de cana vá acabar. A demanda é intensa. Não é só o álcool combustível, você sabe. A gasolina comum já levava 27% de etanol, por determinação legal. A partir de agosto, passou para 30%. E é possível que, no futuro, pule para 35%. E 80% da produção de etanol segue dependendo dos canaviais. 

Mas o crescimento tende a vir do etanol de milho mesmo, por conta do preço de produção mais baixo. E também porque as sucroalcooleiras não têm esse nome à toa, claro. Elas também usam a cana para produzir açúcar – commodity da qual o Brasil representa metade das exportações globais.

Na década passada, entre as safras de 2011 e 2019, a proporção média das usinas de cana ficou em 44,4% açúcar X 55,6% etanol – com base nos dados da Unica, uma entidade representativa do setor. Entre as de 2020 e de 2025, a proporção açucareira aumentou: 48,8% X 51,2%. Ou seja: a “concorrência interna” com o açúcar tem ficado mais acirrada. 

Como a Petrobras não trabalha com açúcar, é natural o interesse dela pelo etanol de milho – algo que praticamente não existia no Brasil quando a estatal saiu do setor de álcool.

Agora não apenas existe. Já é uma peça fundamental no portfólio brasileiro energia limpa. 

Alexandre Versignassi

Editor-executivo do InvestNews. Autor do livro “Crash – Uma Breve História da Economia”, finalista do Prêmio Jabuti. Foi diretor de redação das revistas Superinteressante e Você S/A

Como o etanol de milho conquistou 20% do mercado, e por que ele atrai a Petrobras | InvestNews

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Redesenho da soberania tecnológica da indústria automotiva

Por Antônio Jorge Martins e Otaviano Canuto – Valor – 03/09/2025

O setor automotivo voltou ao centro das atenções econômicas e geopolíticas em 2025. Medidas como a taxação de 25% sobre a importação de veículos e autopeças anunciada pelo governo dos Estados Unidos revelam a dimensão estratégica dessa indústria, não apenas como motor econômico, mas como vetor de competitividade e soberania tecnológica, além de influência geoeconômica sobre o futuro da eletromobilidade em função do acesso a terras raras.

O movimento protecionista não deve ser interpretado apenas como ação de política comercial do governo americano, com base nas importações do setor automotivo em 2024 terem alcançado US$ 420 bilhões, representando 35% do déficit comercial dos Estados Unidos.

A reconfiguração do mercado global de veículos, marcada por avanços tecnológicos acelerados, motorização elétrica dos veículos e ascensão de novos e inúmeros players, em especial, dos fabricantes chineses, tiveram um peso bem mais preponderante.

Depois do tombo causado pela pandemia — quando as vendas de carros de passeio despencaram para 54,7 milhões de unidades em 2020 — o mercado mundial recuperou terreno, alcançando 67,5 milhões de unidades vendidas em 2024, ligeiramente superior ao volume de 2019 — 64,8 milhões — segundo dados da Organização Internacional de Fabricantes de Veículos Motorizados (OICA).

A novidade, no entanto, está no perfil dos novos protagonistas. Montadoras chinesas vêm conquistando espaço global com modelos de veículos altamente tecnológicos, preços agressivos e forte movimento de internacionalização em todos os continentes, pressionando os fabricantes tradicionais do setor a reverem estruturas organizacionais, níveis de competitividade, motorização e tecnologia embarcada.

De acordo com a agência Reuters, os fabricantes chineses praticam preços nas exportações de veículos elétricos até 150% superiores aos do mercado de origem, avançando sobre Europa, América Latina, Oriente Médio e outros países da Ásia em busca de escala e margem de lucro, tornando a internacionalização de suas operações uma necessidade estratégica na busca de retorno financeiro aos seus investidores privados.

Deve-se destacar que os preços de venda praticados na China são extremamente aviltados pela presença de um sem número de ofertantes chineses, fomentados pelo governo através da criação de mais de 200 startups, algumas delas já desaparecidas.

Um dos componentes que mais influenciam o preço final de um veículo elétrico é a bateria, que emerge como componente estratégico para o futuro da indústria automotiva, representando até 40% do seu custo total — dependendo do modelo, autonomia e tempo de recarga — estando no epicentro da competitividade global e impactando a viabilidade econômico-financeira das montadoras. Seu domínio tecnológico pertence na fase atual a um grupo chinês.

Nesse contexto, o acesso a matérias-primas estratégicas, como o lítio, o cobalto e as terras raras, tornou-se crucial. Estes elementos são fundamentais para a fabricação de baterias e motores elétricos de alto desempenho, sendo utilizados em componentes como ímãs permanentes. 

A China detém posição dominante na cadeia de fornecimento e refino de terras raras — controlando cerca de 70% da produção mundial, 87% do processamento e 91% do refinamento, segundo artigo de Dampsey, Hodgson e Smyth no “Financial Times” de 24 de abril. Deve-se destacar que o interesse dos Estados Unidos sobre a Groenlândia e Ucrânia se fundamenta nas terras raras.

Os veículos elétricos, que incluem as motorizações híbridas, são considerados imperativos estratégicos para a sobrevivência e o crescimento sustentável das empresas. A busca por descarbonização, eficiência energética e novas experiências de mobilidade como carros autônomos tem levado a uma transformação radical das linhas de produção através do uso intensivo de robotização e inteligência artificial.

O principal insumo que sintetiza esse novo cenário da indústria automotiva são os semicondutores. A escassez desses componentes durante a pandemia expôs a fragilidade da cadeia global e catalisou uma corrida pela soberania tecnológica. A resposta veio com alianças estratégicas, novos projetos fabris e políticas públicas de incentivo ao desenvolvimento local, com destaque primordial para a China, Taiwan e Estados Unidos.

Os EUA seguem liderando o desenvolvimento de chips de alta performance. A China, embora ainda dependente, acelerou a criação de startups no setor com forte apoio do Estado. Algumas montadoras, por sua vez, passaram a integrar verticalmente tal desenvolvimento objetivando a redução de custos e a busca de diferenciais perante a concorrência.

Dessa forma, parcerias tecnológicas tornam-se relevantes na medida em que, de softwares embarcados à infraestrutura energética, os veículos modernos exigem uma orquestração complexa de competências, sendo que para isso, alianças tornam-se indispensáveis.

O ambiente competitivo impõe reestruturações, fusões, aquisições, reorganizações logísticas e reinvenção dos modelos operacionais. A resposta dos fabricantes tradicionais à pressão tecnológica e de custos da China será decisiva para a composição de um novo mapa global da indústria automotiva.

O sucesso das empresas estará atrelado à capacidade de liderar com visão competitiva, inovar com criação de valor, operar com escala elevada e estabelecer parcerias estratégicas, propiciando de forma conjunta a necessária evolução tecnológica contínua.

O setor automotivo global vive um momento decisivo através de um novo ambiente onde apenas os fabricantes capazes de transformar inovação em valor sustentável terão lugar de destaque. Neste “Novo Setor Automotivo”, competitividade não é mais um diferencial — é uma condição de sobrevivência, que será conquistada com estratégia, velocidade, capital humano e soberania tecnológica com a geração de resultados financeiros.

Antônio Jorge Martins atua como coordenador acadêmico da FGV, com formação em engenharia, pós graduação em finanças e mestrado em sustentabilidade empresarial, com vivência em Diretoria Financeira de Empresas de Capital Aberto, Conselhos de Administração e Consultorias Empresariais.

Otaviano Canuto foi vice-presidente e diretor executivo no Banco Mundial, diretor executivo no FMI e vice-presidente no Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). Também foi secretário de assuntos internacionais no Ministério da Fazenda e professor da USP e da Unicamp. Atualmente é membro sênior do Policy Center for the New South, membro sênior não-residente da Brookings Institution e professor na Elliott School of International Affairs da George Washington University.

Redesenho da soberania tecnológica da indústria automotiva | Opinião | Valor Econômico

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Airbags e IA: engenheiros de Dubai criam avião que pode se salvar sozinho; entenda

Inspirado pela tragédia da Air India, eles propõem sistema de segurança revolucionário para proteger vidas em quedas iminentes

Por O Globo — Dubai – 13/09/2025 A imagem gerada por IA mostra como o conceito poderia ser na realidadeA imagem gerada por IA mostra como o conceito poderia ser na realidade — Foto: Divulgação

Em 12 de junho de 2025, o voo AI171 da Air India decolou de Ahmedabad com destino a Londres e caiu 32 segundos após a partida, matando 241 pessoas a bordo e 19 no solo. A causa: ambos os motores perderam potência repentinamente devido ao corte de combustível, deixando pilotos e passageiros sem opções.

Esse desastre inspirou dois jovens engenheiros do Instituto de Tecnologia e Ciência Birla, em Dubai, a criarem uma solução radical para salvar vidas em situações extremas. Eshel Wasim e Dharsan Srinivasan desenvolveram o Projeto Rebirth, um sistema de sobrevivência para aviões que utiliza inteligência artificial e tecnologias inovadoras para transformar acidentes fatais em pousos possíveis.

O conceito é ousado: se uma queda for inevitável, sensores e IA monitoram continuamente parâmetros como altitude, velocidade, status dos motores, direção e resposta do piloto. Segundo o New York Post, se uma colisão for iminente abaixo de 3.000 pés, o sistema é ativado automaticamente, embora o piloto ainda possa desativá-lo manualmente.

Os airbags (na foto) são ativados rapidamente, envolvendo o nariz, a cauda e a barriga em menos de dois segundos — Foto: DivulgaçãoOs airbags (na foto) são ativados rapidamente, envolvendo o nariz, a cauda e a barriga em menos de dois segundos — Foto: Divulgação

O Rebirth combina airbags externos que envolvem o nariz, a barriga e a cauda da aeronave, formando uma cápsula protetora capaz de absorver impactos, com fluidos inteligentes que se tornam mais viscosos sob pressão para dissipar energia e motores capazes de gerar empuxo reverso, reduzindo a velocidade de descida.

O Projeto Rebirth ainda está no campo das ideias, mas já chamou atenção internacional. A dupla inscreveu o conceito no Prêmio James Dyson 2025, uma competição de design que oferece £ 30 mil (cerca de R$ 219 mil) ao vencedor global para desenvolver sua ideia. “Minha mãe não conseguia dormir depois do acidente de Ahmedabad. Ela não parava de pensar no medo que os passageiros e pilotos deviam sentir, sabendo que não havia saída. Esse desamparo nos assombrava”, contou Eshel Wasim ao The Sun.

Embora ainda precise de testes e aprovação regulatória, o projeto representa uma visão ousada do futuro da aviação: um sistema que não espera pelo pior, mas age para evitá-lo.

Airbags e IA: engenheiros de Dubai criam avião que pode se salvar sozinho; entenda

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