Preocupadas com ChatGPT, universidades começam a rever métodos de ensino


Alunos usam inteligência artificial que fornece informação e explica conceitos em trabalhos escolares

Kalley Huang Folha/The New York Times 18/01/2023

Antony Aumann, professor de filosofia na Universidade de Northern Michigan, estava corrigindo redações de alunos de seu curso de religiões mundiais, no mês passado, quando se deparou com “de longe o melhor texto da classe”. O trabalho analisava a moralidade da proibição da burca, usando parágrafos enxutos, exemplos corretos e argumentos rigorosos.

Imediatamente, Aumann farejou alguma coisa suspeita. Ele chamou o estudante para perguntar se ele próprio havia escrito a redação. O estudante admitiu que usara o ChatGPT, um chatbot que fornece informação, explica conceitos e gera ideias em frases simples –e que, nesse caso, havia escrito o trabalho do aluno.

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Campus da Universidade da Flórida, em Gainesville. Em reação ao aumento do uso do ChatGPT por alunos, universidades estão reestruturando cursos – Todd Anderson – 13.jan.2023/The New York Times

Alarmado com a descoberta, Aumann decidiu mudar o modo como as redações serão escritas em seus cursos deste semestre. Ele pretende exigir que os alunos redijam os primeiros rascunhos dos textos em sala de aula, usando browsers que monitoram e restringem a atividade do computador. Eles terão que explicar cada modificação feita em versões posteriores dos textos. Aumann, que pensa em talvez abrir mão de redações em semestres subsequentes, também pretende incluir o ChatGPT em suas aulas, pedindo aos estudantes que avaliem as respostas dadas pelo chatbot.

“O que vai acontecer em sala de aula não será mais ‘aqui estão algumas perguntas –vamos discutir isso entre nós, seres humanos’”, ele disse, mas “alguma coisa como ‘e o que esse robô alienígena pensa sobre a questão?”

Em todo o país, professores como Aumann, diretores de departamentos e administradores universitários estão começando a reavaliar os procedimentos em sala de aula em resposta ao ChatGPT, levando a uma transformação potencialmente enorme no ensino e aprendizagem. Alguns professores estão redesenhando seus cursos completamente, adotando mudanças que incluem mais exames orais, trabalhos de grupo e trabalhos que precisam ser escritos à mão, e não digitados.

As iniciativas fazem parte de um esforço empreendido em tempo real para lidar com uma nova onda tecnológica conhecida como inteligência artificial generativa. Lançado em novembro pelo laboratório de inteligência artificial OpenAI, o ChatGPT está na vanguarda dessa onda. Em resposta a solicitações curtas, o chatbot gera textos surpreendentemente bem articulados e nuançados, tanto que as pessoas o estão usando para escrever cartas de amor, poesia, fan fiction –e seus trabalhos escolares.

A novidade está causando confusão em algumas escolas secundárias, onde professores e administradores se esforçam para discernir se os alunos estão usando o chatbot para fazer sua lição de casa. Para impedir trapaças, algumas redes de ensino público, incluindo as de Nova York e Seattle, proibiram a ferramenta nas redes de wi-fi e nos computadores das escolas. Mas os estudantes não têm dificuldade em encontrar maneiras de contornar a proibição e acessar o ChatGPT.

No setor do ensino superior, faculdades e universidades vêm relutando em proibir a ferramenta de IA. Os administradores duvidam que uma proibição surtiria efeito e não querem desrespeitar a liberdade acadêmica. Devido a isso, o modo de ensino dos professores está mudando.

Lá fora

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“Procuramos instituir políticas gerais que reforçam a autoridade do professor para comandar uma aula”, em vez de atacar métodos específicos de trapacear, disse Joe Glover, diretor administrativo da Universidade da Flórida. “Esta não vai ser a última inovação com a qual teremos que lidar.”

Isso é especialmente verdade porque a IA generativa ainda está em seus primórdios. A OpenAI prevê lançar outra ferramenta em breve, o GPT-4, que será melhor que as versões anteriores em gerar textos. O Google construiu o chatbot rival LaMDA, e a Microsoft está discutindo um investimento de US$ 10 bilhões (R$ 51,2 bilhões) na OpenAI. Algumas startups do Vale do Silício, entre elas a Stability AI e a Character.AI, também estão trabalhando sobre ferramentas de IA generativa.

Um representante da OpenAI disse que o laboratório reconhece que seus programas podem ser usados para enganar pessoas e está desenvolvendo tecnologia para ajudar as pessoas a identificar textos gerados pelo ChatGPT.

O ChatGPT saltou para o topo da agenda de muitas universidades. Administradores estão criando forças-tarefa e promovendo debates envolvendo suas instituições inteiras para decidir como reagir à ferramenta. Boa parte da orientação proposta consiste em adaptar-se à tecnologia.

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Reunião de uma faculdade da Universidade da Flórida para discutir como lidar com o ChatGPT – Todd Anderson – 13.jan.2023/The New York Times)

Em instituições que incluem a Universidade George Washington, em Washington, a Universidade Rutgers, em New Brunswick, Nova Jersey, e a Universidade Appalachian State, em Boone, Carolina do Norte, docentes estão reduzindo o número de trabalhos que pedem aos alunos para fazer em casa, que durante a pandemia viraram o método de avaliação mais utilizado, mas agora parecem ser vulneráveis a chatbots. Estão optando em vez disso por trabalhos a ser feitos em sala de aula, trabalhos manuscritos, trabalhos em grupo e exames orais.

Acabaram-se as instruções do tipo “escreva cinco páginas sobre o tema x”. Em lugar disso, alguns professores preparam perguntas que esperam que sejam intricadas demais para ser respondidas pelos chatbots e pedem aos alunos que escrevam sobre sua própria vida e acontecimentos atuais.

Sid Dobrin, diretor do departamento de inglês da Universidade da Flórida, disse que “os estudantes estão usando o ChatGPT para apresentar plágios, porque as tarefas podem ser plagiadas”.

Frederick Luis Aldama, diretor de humanidades na Universidade do Texas em Austin, disse que pretende ensinar textos mais novos ou mais de nicho, sobre os quais o ChatGPT talvez tenha menos informação. Por exemplo, em vez de “Sonho de Uma Noite de Verão”, optará pelos primeiros sonetos de William Shakespeare.

Para ele, o chatbot pode motivar pessoas “interessadas em textos canônicos primários a sair de sua zona de conforto para procurar coisas que não estejam online”.

Caso os novos métodos que adotaram não consigam impedir o plágio, Aldama e outros docentes disseram que pretendem instituir critérios de expectativas e avaliação mais rigorosas. Hoje já não basta que uma redação ou ensaio tenha uma tese, introdução, parágrafos adicionais e conclusão.

“Precisamos melhorar nosso jogo”, disse Aldama. “A imaginação, criatividade e análise inovadora que normalmente faz um trabalho merecer nota A agora precisam estar presentes também nos trabalhos que receberão um B.”

As universidades também querem educar os alunos em relação às novas ferramentas de IA. A Universidade de Buffalo, em Nova York, e a Universidade Furman, em Greenville, Carolina do Sul, disseram que pretendem embutir uma discussão de ferramentas de IA nos cursos obrigatórios que apresentam conceitos como integridade acadêmica aos calouros.

“Precisamos incluir um cenário sobre isso para que os estudantes possam ver um exemplo concreto”, disse Kelly Ahuna, diretora do setor de integridade acadêmica em Buffalo. “Em vez de flagrar os problemas quando acontecem, queremos impedir que ocorram.”

Outras universidades estão tentando definir limites para o uso de IA. A Universidade de Washington, em St. Louis, e a Universidade de Vermont, em Burlington, estão fazendo uma revisão de suas políticas de integridade acadêmica para incluir a IA generativa em suas definições de plágio.

John Dyer, vice-presidente de admissões e tecnologias educacionais no Seminário Teológico de Dallas, disse que a linguagem usada no código de honra do seminário “já estava parecendo um pouco arcaica de qualquer maneira”. Ele pretende atualizar a definição de plágio para incluir: “O uso de texto escrito por um sistema de geração, fazendo-o passar por texto próprio (por exemplo, inserir um prompt numa ferramenta de inteligência artificial e utilizar o resultado num trabalho acadêmico)”.

O uso indevido de ferramentas de IA provavelmente não vai acabar, razão por que alguns docentes e universidades disseram que pretendem utilizar detectores para erradicar essa atividade. O serviço de detecção de plágios Turnitin disse que este ano vai passar a incorporar mais elementos para identificar IA, incluindo o ChatGPT.

Mais de 6.000 professores das universidades Harvard, Yale, de Rhode Island e outras se inscreveram para usar o programa GPTZero, que promete detectar textos gerados por IA prontamente. A informação é de Edward Tian, criador do programa e aluno de último ano da Universidade de Princeton.

Alguns alunos acham útil usar ferramentas de IA para aprender. Lizzie Shackney, 27 anos, que estuda direito e design na Universidade da Pensilvânia, começou a usar o ChatGPT para gerar ideias para trabalhos acadêmicos e depurar conjuntos de problemas de codificação.

“Há disciplinas em que querem que você compartilhe e não tenha trabalho desnecessário”, ela disse, falando de suas aulas de ciências da computação e de estatística. “Onde meu cérebro é útil é em entender o significado do código.”

Mas ela tem receios. Segundo ela, o ChatGPT às vezes explica ideias e cita fontes incorretamente. A Universidade da Pensilvânia não adotou normas quanto ao uso da ferramenta, de modo que ela não quer usar o ChatGPT, caso a universidade o proíba ou o encare como engodo.

Outros estudantes não têm os mesmos escrúpulos, compartilhando em fóruns como o Reddit que já entregaram trabalhos escritos e resolvidos pelo ChatGPT –e que às vezes até o fizeram para colegas. A hashtag #chatgpt já teve mais de 578 milhões de visualizações no Twitter. Usuários compartilham vídeos da ferramenta escrevendo trabalhos acadêmicos e resolvendo problemas de codificação.

Um vídeo mostra um estudante copiando uma prova de múltipla escolha e colando-a na ferramenta, com a legenda: “Não sei quanto a vocês, mas eu vou mandar o ChatGPT fazer meus exames finais. Divirtam-se estudando!”

Tradução de Clara Allain

https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2023/01/preocupadas-com-chatgpt-universidades-comecam-a-rever-metodos-de-ensino.shtml

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Um comentário em “Preocupadas com ChatGPT, universidades começam a rever métodos de ensino

  1. E TEM MUITOS QUE DIRÃO QUE O PRODUTO DO TRABALHO É GENUÍNO,O MESMO ESTÁ ACONTECENDO COM A ARTE,HOJE ARTISTAS QUE NUNCA PEGARAM NUM PINCEL, NÃO SABEM O CHEIRO DA TINTA,SOLVENTES,PIGMENTOS,ETC ESTÃO VENDENDO ARTE DE COMPUTADOR!!, É MAIS OU MENOS COMO ESTE TEXTO,CHEIO DE TERMOS EM INGLÊS,VC TEM QUE PEGAR UM DICIONÁRIO PRÁ ENTENDER O CONTEXTO!,SE NÃO HOUVER RESPEITO AS NORMAS,CADA UM FAZ O QUE QUER E SABE DEUS QUEM ENTENDERÁ DO QUE SE TRATA!

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