Por que quem defende o “quiet quitting” odeia a própria expressão?


A desistência silenciosa pode ser uma expressão confusa e falha, mas é parte de uma recalibração maior no mercado de trabalho

Por Jo Constantz, Bloomberg/Valor 24/08/2022 

Não chame isso de “quiet quitting”, ou desistência silenciosa, em português. Esse é o grito de guerra de um crescente coro nas redes sociais, incluindo um fórum no Reddit que ficou famoso nos EUA por reclamações trabalhistas e que conta com mais de 2 milhões de membros.

Os editores no fórum r/antiwork argumentam que chamar o fenômeno do “quiet quitting” de qualquer variedade de “desistência” implica que os funcionários estão agindo mal, quando na realidade o termo significa simplesmente cumprir o que está descrito no trabalho e estabelecer limites para saúde.

Posts no fórum do Reddit, que decolou durante a pandemia com o lema “desemprego para todos, não apenas para os ricos”, culpam a mídia pela cobertura frenética do conceito de desistência silenciosa, que deveria ser considerado a norma, não uma nova tendência. Outros veem o novo bordão, o “quiet quitting”, como uma ferramenta que os empregadores podem usar contra os funcionários por não trabalharem mais do que o que o contrato (e nível de remuneração) estipula.

Expressões memoráveis têm ganhado prestígio no fórum do Reddit. Entre elas, está o “aja de acordo com seu salário” e “demissão silenciosa”, este termo usado quando os chefes tornam as vidas de seus funcionários horríveis, mas não chegam a demiti-los.

A internet foi inundada nos EUA com explicações e debates sobre a chamada desistência silenciosa, a nova palavra da moda que significa fazer o seu trabalho conforme descrito. Os entusiastas descrevem a mentalidade como um retiro furtivo da cultura da agitação (hustle culture, em inglês) que dominou a era pré-pandemia.

Não é só no Reddit

A reação contra o termo “quiet quitting” está aumentando, e não apenas no Reddit. Comentários no Twitter apontam que a desistência silenciosa é uma expressão confusa e falha.

“Eles chamam de “desistência silenciosa”, mas é realmente só fazer as suas tarefas durante o horário comercial normal. As pessoas merecem um bom equilíbrio entre o trabalho e a vida. E não ter de responder a um email do trabalho às 10h da noite não é desistir. É apenas ser um humano normal que tem uma vida e define limites para sua saúde”, diz a mensagem do LinkedIn.

No TikTok, Shini Ko, 28, concorda que o termo é problemático.

“A ideia de abandonar a cultura da agitação e não ir além é basicamente ter uma fronteira saudável entre trabalho e vida. Eu só não acho que o termo desistência silenciosa seja apropriado para isso, porque soa negativo”, disse ela em entrevista. “É mais perigoso do que empoderador”

Ko trabalha no Canadá como desenvolvedora de software para pagar as contas e financiar sua paixão: Bao Bao, uma fazenda orgânica que ela iniciou no ano passado especializada em vegetais de herança asiática.

Ko observa que definir limites claros no trabalho não significa que você não está fazendo seu trabalho. “A agricultura é cara, e eu não poderia ter começado minha fazenda sem meu salário”, disse ela. “É muito importante para mim ter isso em mente porque, no final das contas, ainda preciso fazer meu trabalho direito.”

Termo revelador

Para Rahaf Harfoush, uma antropóloga que estuda a cultura digital e a cultura da vida profissional, a discussão em torno da escolha de palavras deve fazer parte do debate tanto quanto entender se a desistência silenciosa é uma boa ideia ou não.

“O próprio termo em si é uma escolha de vocabulário não intencional e muito reveladora sobre a cultura da agitação em si”, disse ela em entrevista. O termo expõe o conflito interno que as pessoas enfrentam quando se trata de estabelecer limites entre vida profissional e pessoal. “Com a desistência silenciosa, há quase uma vergonha e as pessoas admitem isso, porque, se não houvesse, não chamaríamos de desistência silenciosa.”

Harfoush publicou um estudo de três anos sobre a cultura da agitação, que explora as maneiras pelas quais os trabalhadores permanecem profundamente enraizados nos ideais de sacrifício, dando tudo de si e superando as expectativas – mesmo que isso possa resultar em doença, exaustão e esgotamento.

“Esses são os ideais que estão enterrados em nosso subconsciente. Então, embora possamos querer equilíbrio entre vida profissional e pessoal, quando ouço as pessoas falarem sobre desistir silenciosamente, eu fico tipo, ‘Ah, ainda não deixamos isso de lado’”, disse Harfoush.

Enquanto os funcionários sentirem que têm uma chance de serem recompensados por todas as horas extras, as centenas (ou milhares) de horas não compensadas podem valer a pena. No entanto, muitos trabalhadores, especialmente as gerações mais jovens, não veem mais os benefícios disso.

Os salários não acompanham a inflação, enquanto a alta no preço dos aluguéis e a crise da habitação colocam a qualidade de vida básica e os principais marcos fora de alcance.

Harfoush disse que a tendência do “quiet quitting” (com ou sem nome apropriado) é parte de uma recalibração maior no mercado de trabalho.

“Muitas promessas geracionais feitas às pessoas foram quebradas. Disseram que se trabalhássemos muito, e que se fôssemos mais longe, e que se pudéssemos alcançar essa promoção, a recompensa seria poder comprar uma casa, poder ir à escola, poder conseguir um bom emprego, poderíamos subir de nível”, disse ela. “Disseram que, em troca do sacrifício no mercado de trabalho, haveria benefícios. E agora o que estamos vendo, pelo menos com os millennials, é que essas promessas não são verdadeiras.”

https://valor.globo.com/carreira/noticia/2022/08/24/por-que-quem-defende-o-quiet-quitting-odeia-a-propria-expressao.ghtml

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