O Brasil é empreendedor desde sempre


por Evandro Milet

Em “História da Riqueza no Brasil”, Jorge Caldeira subverte grande parte da nossa história, desde as noções básicas até a argumentação usada nas obras de Caio Prado, Sérgio Buarque de Holanda e Gilberto Freyre.

Caldeira inovou ao utilizar a econometria, possível agora com a informatização de dados antes dispersos em arquivos em papel, como os de vários censos realizados no país. Os números mostraram um Brasil diferente do que conhecíamos. A noção de que o Brasil colônia dependia da exportação de açúcar e no interior predominava a economia de subsistência cai por terra com os novos números. 

Havia no interior uma economia pujante, correndo fora dos registros oficiais e, portanto, do pagamento de impostos, capaz de gerar excedentes e permitir a acumulação de riqueza. Por esse motivo a economia colonial era, no final do século XVIII, muito maior que a de Portugal. O empreendedorismo é característica marcante na história do povo brasileiro, não só no interior, mas até com os indígenas. 

Ao longo de toda a costa, os tupi-guarani foram parceiros, inicialmente trocando pau-brasil, valiosíssimo na Europa, por instrumentos de ferro que os indígenas não conheciam. A derrubada de uma árvore podia demorar um décimo do tempo com as novas ferramentas. Essa relação foi ampliada pelo costume dos tupis, onde os filhos saiam para se casar com mulheres fora da taba e as mulheres permaneciam, atraindo parceiros de fora, o que provocou grande número de casamentos de índias com portugueses e selou uma parceria que durou muito tempo.

Em vários trechos, o livro ajuda a compor o quadro do porquê da diferença de desenvolvimento entre o Brasil e Estados Unidos, considerando que, em 1800, os dois países se equivaliam em população e tamanho da economia. Uma das causas foi o analfabetismo resolvido lá e aqui não durante o século XIX. 

Outras causas foram a ausência de universidades( a USP foi a primeira, apenas em 1933) e tipografia no país, onde não circulavam livros, até a vinda da família real em 1808. E por fim a estagnação da economia durante o império, com a manutenção da escravidão e os entraves ao desenvolvimento do capitalismo. A renda per capita passou de 670 dólares em 1820 para 704 em 1890, mostrando claramente uma estagnação. Nos EUA, a renda per capita quase que triplicou entre 1820 e 1890 passando de 1,3 mil para 4 mil dólares.

O país ficou sufocado pelo peso do governo nas relações do mercado. 

Isso fica evidente nas primeiras medidas da República, liberando a economia e provocando um crescimento espetacular do país. Em São Paulo, o número de bancos saltou de 5 para 22 entre 1889 e 1890. As indústrias organizadas em sociedades anônimas saltaram de 4 para 64 em 1890, e em 1891 já eram 210. A indústria têxtil passou de 79 mil fusos instalados em 1883 para 280 mil em 1898. 

A tendência de crescimento se consolidou a partir daí, apesar de crises cíclicas. Em 1907 havia 3,25 fábricas no país, em 1920 eram 13,3 mil. Em 1890 havia 9,9 mil quilômetros de linhas férreas, em 1930 atingiram 32 mil quilômetros. A partir daí, a ênfase foi toda para o modal rodoviário, ao ponto de chegarmos hoje com apenas 28,2 mil quilômetros de ferrovias( dos quais 8,6 mil não estão em uso), menos do que em 1930, e uma distorção enorme na logística de pessoas e cargas no país.

Até 1973, o país era a economia que mais crescera no mundo nas oito décadas anteriores. Depois disso o peso do Estado, dívidas crescentes, inflação, carga tributária e excesso de burocracia nos fazem marcar passo. 

Mas mantemos sempre a esperança de uma retomada rumo a um país civilizado e desenvolvido.

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