A última obra de Niemeyer – No mundo da arquitetura, a morte nem sempre é fatal


por The Economist 11 de junho de 2020

Em Plagwitz, o antigo bairro industrial de Leipzig, Ludwig Koehne fica no meio de uma esfera gigante projetada por Oscar Niemeyer em 2011, um ano antes da morte do arquiteto brasileiro aos 104 anos. O mezanino abobadado e envidraçado da esfera deve ser inaugurado ainda este ano como restaurante, e o seu ventre mais aconchegante como bar. 

Eu queria uma fidelidade póstuma ao design original;, diz Koehne, um empresário alemão. O prédio precisava ter a assinatura do mestre. A Esfera Niemeyer, como Koehne chama, fica empoleirada em uma torre estreita de apoio na borda de um prédio de dois andares que abriga a cantina de suas duas empresas, Kirow Ardelt, que fabrica guindastes, e HeiterBlick, fabricante de bondes. A cúpula lisa e branca brilhante contrasta com os tijolos angulares desgastados pelo tempo, carmesim profundo – resultado de um elaborado esforço de construção envolvendo Jair Valera, chefe de longa data do escritório de Niemeyer no Rio, e os engenheiros estruturais e arquitetos reunidos por Koehne na Alemanha. Juntamente com um projeto no sul da França, este será o último trabalho de Niemeyer, o pai de curvas arquitetônicas sensuais que complementavam os cubos incansáveis do modernismo.

 A conclusão da esfera é um tributo à sua visão – mas também destaca a natureza colaborativa de sua profissão e a noção escorregadia de autenticidade. Sempre é preciso mais do que um único gênio para criar um belo edifício, razão pela qual, no mundo da arquitetura, a morte nem sempre é fatal.O longo hiato entre a morte de Niemeyer e a abertura da esfera não é sem precedentes. O prédio da IBM em Chicago, projetado por Mies van der Rohe, foi concluído dois anos depois de sua morte. Para a igreja de Le Corbusier em Firminy, na França, a diferença foi de imensos 41 anos. 

Por mais excepcionais que esses casos póstumos pareçam, o trabalho em equipe que eles exigem é rotineiro. A maioria dos edifícios é o produto de muito trabalho não reconhecido, diz Donald McNeill, da Universidade de Sydney, que pesquisou os métodos de empresas globais de arquitetura. Ele vê o foco popular nos arquitetos estrelados como uma simplificação pela mídia e pelos profissionais de marketing. Grandes projetos, diz ele, são o resultado do trabalho de designers, engenheiros e até dos clientes. 

A voz do mestre

E, frequentemente, de outros arquitetos. Rem Koolhaas, um arquiteto holandês, observou o papel dos práticos americanos que nos anos 50 ajudaram os grandes nomes da Europa a construir arranha-céus lendários em Nova York. Emery Roth cooperou com Walter Gropius no prédio da MetLife, Philip Johnson deu uma mão para van der Rohe no prédio da Seagram, e Wallace Harrison supervisionou a entrada de Le Corbusier (e Niemeyer) na sede da ONU. O próprio Koolhaas colaborou com Ole Scheeren na sede da China Central Television em Beijing; o chamado Pepino em Londres é geralmente atribuído a Lord Norman Foster, mas Ken Shuttleworth desenhou os esboços iniciais. Há uma diferença real entre como a arquitetura opera e como é percebida, comenta Hilde Heynen, da Universidade Católica de Leuven, na Bélgica. 

No caso da esfera de Leipzig, a história começou em 2007, quando Koehne visitou Brasília e ficou impressionado com os projetos de Niemeyer para a residência presidencial, que foi concluída em 1960, e a catedral da cidade, concluída em 1970. Quatro anos depois, pensando em um restaurante – seu refeitório merecia um upgrade –   Koehne escreveu para Niemeyer e foi convidado para ir ao Rio. Em pouco tempo, ele recebeu um e-mail com esboços, alturas e seções transversais. Estava tudo lá, a torre como um mastro de sustentação, a esfera com dois níveis – exatamente como está aqui agora. 

Mas a física do design era insana, pensou Koehne. Como vamos construir isso? Foram necessários mais dois anos para encontrar os engenheiros estruturais certos e vários outros anos para obter um progresso significativo. Nesse ínterim, Niemeyer morreu. Felizmente, o Valera estava presente e queria terminar o projeto.Eu conhecia Oscar muito bem, diz ele. “Isso facilitou para mim saber o que ele teria feito” – o que, lembra Valera, sempre incluía ouvir o cliente. Seu próprio papel não diminui a autenticidade do edifício, ele insiste:Esta é uma obra de arquitetura de Oscar Niemeyer – foi ideia dele.

https://www.economist.com/books-and-arts/2020/06/11/in-the-world-of-architecture-death-is-not-always-fatal


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Um comentário em “A última obra de Niemeyer – No mundo da arquitetura, a morte nem sempre é fatal

  1. Aqui na Serra, ES, temos projeto de Niemayer, na área cultural, na rotatória da Av Eudes Cherrer, e infelizmente não foi adiante por n fatores. Seria um marco importante para a cidade. Foi desenvolvido o conceitual ano antes de seu falecimento.

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