Política industrial no Brasil

Uma vez que empresas ou setores ganham peso na economia, o país não consegue mais abandoná-las e direcionar recursos para novos produtos e firmas caso elas se tornem ultrapassadas

Por Naercio Menezes Filho – Valor – 21/11/2025 

Acadêmicos e entidades empresariais debatem há bastante tempo se devemos ter políticas industriais no Brasil. Nossa primeira tentativa nesta área ocorreu com a políticas de substituição de importações. Desde então, quase todo novo governo implementa uma nova política industrial. Mas a produtividade da indústria, depois de crescer bastante entre 1950 e 1980, permanece no mesmo nível desde então. Porque será que as políticas industriais dos tigres asiáticos funcionaram, mas as do Brasil não? Seria possível desenhar uma política industrial que leve o Brasil para a fronteira de produtividade?

A política industrial que prevaleceu ao longo do século XX era uma política de substituição de importações com proteção tarifária, para dificultar a entrada de produtos importados no Brasil, além de uma série de subsídios para setores específicos. Isto fez com que a indústria crescesse e se diversificasse. Mas este crescimento ocorreu sem aumento das exportações. A produção foi direcionada para o mercado interno, aproveitando o crescimento da renda provocado pela transição demográfica e pela migração do campo para a cidade, além do próprio tamanho de mercado.

Assim, quando a migração acabou e dívida pública explodiu, a indústria perdeu dinamismo e parou de crescer. Atualmente, é consensual que políticas de substituição de importações sem incentivos às exportações geram complacência, acomodação e redução de inovações. No Brasil, elas foram substituídas pelas políticas industriais 2.0. São políticas direcionadas para a inovação, que sempre envolvem algum plano para o setor automobilístico, e que almejam aumentar os gastos das empresas brasileiras com Pesquisa e Desenvolvimento (P&D).

Um artigo recente muito interessante avaliou o impacto das políticas de subsídio aos gastos em P&D implementadas pela Finep (Financiadora de Estudos e Projetos) (1)Usando técnicas econométricas sofisticadas, os autores mostram que as firmas que recebem estes subsídios crescem mais do que as que não recebem, diversificando sua produção e aumentando o número de estabelecimentos. Os efeitos são maiores para as firmas menores e mais jovens, que provavelmente tinham muitas dificuldades para obter crédito nas condições oferecidas pela Finep.

Os resultados mostram também que estes empréstimos aumentam as inovações nas firmas beneficiadas e a contratação de cientistas. Mas os ganhos em termos de inovações na fronteira do conhecimento são tímidos. Utilizando bases de dados de patentes, os autores mostram que não houve efeito dos empréstimos sobre as citações das patentes obtidas, que são o principal indicador de impacto tecnológico das inovações. O estudo mostra que as firmas beneficiadas usaram os subsídios para introduzir produtos parecidos com os que já existiam em outros países, mas que não conseguiam entrar no Brasil por causa de proteções tarifárias. Ou seja, é necessário que haja proteção tarifária para que programas de subsídio à inovação no Brasil tenham efeitos sobre as inovações.

Mais de uma década após os empréstimos, as firmas que conseguiram os subsídios ainda não tinham conseguido exportar para os países mais desenvolvidos, ou seja, não conseguiram ser competitivas internacionalmente. Este artigo traz um bom resumo dos efeitos da nova geração de políticas industriais no Brasil. Por mais que estas políticas sejam cuidadosas, acompanhem as empresas beneficiadas e possam ter resultados positivos em termos de inovação, emprego e lucros, elas não conseguem fazer com que as empresas brasileiras concorram com produtos sofisticados na Europa, EUA e Asia. Por que será que isto ocorre?

Para responder esta questão, podemos comparar as nossas políticas industriais com as políticas adotadas pelos tigres asiáticos, que conseguiram romper as fronteiras internacionais. Marcas como Samsung e Hyundai são admiradas no mundo todo. Entre 1970 e 2000, o crescimento médio dos tigres asiáticos foi de 6% ao ano, com cerca de 20% deste crescimento oriundo de inovações. O PIB per capita destes países, que representava apenas 25% do PIB per capita americano em 1970, passou para quase 70% atualmente. Porque estes países deram certo?

Além de terem obtido um grande avanço educacional neste período, o tipo de política industrial aplicada nestes países foi diferente do que ocorreu nos demais. Um artigo recente mostra que estas políticas eram baseadas em crescimento da produtividade, derivada de inovações de processo e de produto, com mudança da composição industrial para setores e tarefas cada vez mais sofisticadas, com as firmas aprendendo continuamente durante o processo (2). As políticas de proteção tarifária e substituição de importações foram bem mais tímidas do que as que adotadas na América Latina e ocorreram somente no início do processo.

Para que isto ocorresse foi necessário ter uma burocracia estatal competente e isolada dos interesses empresariais, que pudesse direcionar recursos para o desenvolvimento de indústrias sofisticadas. Além disto, a ênfase estava nas exportações, que eram condição necessária para que os benefícios continuassem. Finalmente, não havia seleção de empresas vencedoras, pois o apoio era dado para setores como um todo e a concorrência no mercado era estimulada para revelar quem seriam os verdadeiros vencedores.

Porque não conseguimos fazer este tipo de política por aqui? A resposta parece estar na nossa incapacidade de deixar que empresas perdedoras fiquem para trás. Como nos mostram Aghion e Howit (os últimos vencedores do prêmio Nobel), para que haja crescimento sustentado, é necessário que haja um processo de “destruição criativa”, ou seja, alguns precisam perder para que outros possam avançar. Mas isto é muito complicado no Brasil. Uma vez que empresas ou setores ganham peso na economia, nós não conseguimos mais abandoná-las e direcionar recursos para novos produtos e firmas caso elas se tornem ultrapassadas.

Um exemplo típico é a Zona Franca de Manaus, que não deu certo, mas que nunca vai acabar. Outro é do Perse, um programa de incentivos a setores afetados pela pandemia que existe até hoje. Uma vez que as empresas começam a crescer mais no Brasil, elas rapidamente mobilizam políticos, a imprensa e os tomadores de decisão, que não as deixam naufragar.Isto quase aconteceu novamente no caso do banco Master. É por isso que uma política industrial no estilo dos tigres asiáticos dificilmente vai funcionar por aqui.

“R&D Subsidy and Import Substitution: Growing in the Shadow of Protection”, Gustavo Souza e Gabriel Garber.

“Industrial Policy, Asian Miracle Style”, Reda Cherif e Fuad Hasanov.

Naercio Menezes Filho, professor titular da Cátedra Ruth Cardoso no Insper, professor associado da FEA-USP e membro da Academia Brasileira de Ciências, escreve mensalmente às sextas-feiras. naercioamf@insper.edu.br)

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Revolução silenciosa transformou Cerrado em potência agrícola; Roberto Rodrigues analisa esse salto

Em palestra no ‘Estadão Summit Agro’, ex-ministro lembra como a ciência no campo converteu o País de importador a referência global em produtividade

Por Eduardo Geraque – Estadão – 06/12/2025

No momento em que completa mil meses de vida, como ele mesmo fez questão de mencionar, Roberto Rodrigues, professor emérito da Fundação Getulio Vargas (FGV), não contém a emoção ao falar da transformação do agronegócio brasileiro desde os anos 1970. A fala, recheada de histórias, brindou os participantes do Estadão Summit Agro, em São Paulo, onde apresentou a palestra magna “O legado do agronegócio para a COP-30”. Para o agrônomo, as mudanças que presenciou foram todas “absolutamente extraordinárias”. “E olha que vi o Pelé (1940-2022) e o Canhoteiro (1932-1974) jogarem”, brincou.

Rodrigues lembrou que, quando iniciou sua trajetória na agronomia (formou-se em 1965 na Esalq/USP), o Brasil ainda era um importador líquido de alimentos. “Nos anos 1970, importávamos 30% do que consumíamos”, recordou. A guinada tecnológica, consolidada a partir da criação da Embrapa e da formação de uma comunidade científica especializada em ambientes tropicais, mudou o mapa da agricultura nacional, avaliou o professor. Em cinco décadas, o País passou a ser um dos maiores exportadores agrícolas do planeta. “Esse é um feito de uma grandeza incomum. Transformamos solos ácidos, pobres e imprestáveis em áreas altamente produtivas”.

Segundo o agrônomo (ministro da Agricultura entre janeiro de 2003 e junho de 2006, no primeiro governo Lula), as mudanças são fruto de um processo raro, que combinou ciência aplicada, adoção tecnológica massiva, sistemas integrados e formação técnica. “O Cerrado se tornou o laboratório e, ao mesmo tempo, a vitrine da agricultura tropical”. A incorporação de correção de solo, cultivares tropicais, manejo integrado, plantio direto e sistemas como ILPF (Integração Lavoura-Pecuária-Floresta) permitiram que o País desenvolvesse um modelo único, hoje observado de perto por delegações estrangeiras. “Na COP, houve um interesse enorme. Foram mais de 40 visitas de autoridades internacionais para entender nossa tecnologia tropical. Todo mundo quer saber como conseguimos.”

Ao esmiuçar o que sustentou a chamada, por ele mesmo, revolução silenciosa do Cerrado, Rodrigues lembra que a virada começou com o desenvolvimento, pela Embrapa e universidades, de técnicas de correção e manejo, como a aplicação de calcário para reduzir a acidez, o uso de fósforo para elevar a fertilidade e a adoção de sistemas de plantio que preservavam a estrutura do solo.

Outro eixo decisivo foi a tropicalização genética. Rodrigues destacou que as primeiras variedades de soja, trigo e outras culturas eram incompatíveis com as condições de luz e temperatura do Cerrado. A criação de cultivares adaptadas ao regime tropical, capazes de florescer e produzir em dias mais curtos e sob temperaturas elevadas, marcou o início da expansão agrícola. “Sem a ciência tropical, não teria havido revolução”.

Para o professor, o sucesso do agronegócio nacional provocou um movimento oposto à antiga desconfiança sobre o setor. “Havia dúvidas sobre a credibilidade da agricultura brasileira. Hoje há um reconhecimento global: o mundo descobriu o valor tecnológico da agricultura tropical.”

Debate climático

Durante a COP-30, em Belém — onde Rodrigues esteve como enviado especial da Agricultura, a convite do presidente da conferência, o embaixador André Corrêa do Lago —, ficou claro, afirmou ele, como a agricultura deixou de ser tratada como um tema periférico no debate climático. “Em outras COPs, falava-se de agricultura quase apenas como segurança alimentar. Desta vez, foi diferente. Agricultura entrou como tema estratégico”.

O Brasil exerceu protagonismo ao mostrar soluções climáticas baseadas em tecnologia tropical, uma agenda que articula produtividade, conservação de florestas e redução de emissões.

Os temas do momento se sobrepuseram ao longo dos debates na conferência, relatou o enviado especial: financiamento climático, mecanismos de redução de emissões, uso de biocombustíveis, SAF (combustível sustentável de aviação) e pecuária de baixa emissão. “A mensagem final foi clara: a agricultura tropical, se bem manejada, não é problema, é solução climática”, disse Rodrigues.

De olho no futuro, Rodrigues — que deu o pontapé inicial em um projeto chamado Agro Brasil 2050 — insiste na tese de que a agricultura tropical será cada vez mais central, inclusive como garantidora da paz mundial em um momento de incertezas geopolíticas profundas.

“O modelo tropical replicado pode garantir resiliência alimentar, gerar renda para países pobres, reduzir desigualdades e contribuir para a estabilidade climática”, afirmou. Segundo ele, essa é a contribuição mais estratégica que o País pode oferecer ao planeta, e que deve orientar sua atuação nos próximos anos.

Rodrigues é otimista. Ele afirma que nunca esteve tão confiante no papel que o País pode desempenhar. “Quero um Brasil protagonista, ajudando a promover paz, energia limpa, emprego e alimentos para o mundo. É isso que o modelo tropical pode oferecer. É isso que eu quero ver, e que vale a pena construirmos juntos.”

Revolução silenciosa transformou Cerrado em potência agrícola; Roberto Rodrigues analisa esse salto – Estadão

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Antes uma aposta, baterias para redes elétricas estão em toda parte

  • Feitas de íon-lítio, elas são utilizadas em cada vez mais redes elétricas em todo o mundo
  • Inovação ajuda a reduzir a necessidade de usinas e linhas de transmissão caras

Ivan Penn – Folha/The New York Times – 6.dez.2025

As baterias de íon-lítio, que alimentam desde celulares até carros, estão salvando cada vez mais redes elétricas em todo o mundo.

Baterias do tamanho de contêineres de carga estão sendo conectadas a linhas de energia e instaladas ao lado de painéis solares e turbinas eólicas. Elas armazenam energia quando ela é abundante e barata e a liberam quando o consumo de eletricidade dispara, ajudando a reduzir a necessidade de usinas e linhas de transmissão caras.

Pesquisadores americanos inventaram a bateria de íon-lítio na década de 1970 e depois mostraram que esses dispositivos poderiam ajudar a rede elétrica. Mas, por muito tempo, as baterias avançaram pouco porque operadores de redes e executivos de concessionárias as viam como caras e arriscadas.

Um dos primeiros avanços ocorreu há cerca de 15 anos, quando engenheiros de uma empresa de energia dos EUA instalaram uma das primeiras baterias de íon-lítio conectadas a uma rede elétrica em um deserto a quase 2.700 metros de altitude no Chile. Desafiando noções convencionais de como o sistema elétrico deveria funcionar, essa equipe ajudou a provar que as baterias poderiam tornar as redes mais estáveis e confiáveis.

A ideia de armazenar energia não era nova. Thomas Edison desenvolveu baterias alcalinas de níquel-ferro principalmente para a indústria e os primeiros veículos elétricos. Diversas empresas tentaram outras tecnologias, como o sódio-enxofre, que não ganharam muita tração. E algumas concessionárias bombeiam água morro acima há décadas para depois liberá-la para gerar eletricidade.

Mas esses sistemas eram relativamente limitados. Em comparação, o tipo de bateria de íon-lítio instalada no Deserto do Atacama em 2009 agora é usado em todo o mundo.

O rápido crescimento da energia eólica e solar e a crescente demanda por eletricidade criada por data centers tornam as baterias essenciais. Elas armazenam o excedente de energia renovável para momentos sem vento ou sol e mantêm o equilíbrio entre oferta e demanda.

Veja a Califórnia. Nos últimos anos, autoridades estaduais frequentemente pediam aos moradores que reduzissem o uso de eletricidade em dias quentes de verão para evitar apagões. Mas não houve tais alertas desde 2022, principalmente porque as baterias permitiram ao estado usar sua abundante energia solar até a noite. Nos últimos sete anos, a Califórnia adicionou 30 vezes mais capacidade de armazenamento de bateria do que tinha em 2018.

O restante do mundo também viu um crescimento impressionante, segundo a Agência Internacional de Energia (AIE), uma organização multilateral com sede em Paris. O boom só foi possível graças a uma queda surpreendente de 90% no custo das baterias nos últimos 15 anos, à medida que novas fábricas entraram em operação. A China é de longe a maior fabricante de baterias do mundo, mas Europa, Índia e Estados Unidos também vêm ampliando a produção.

“As baterias estão mudando o jogo diante dos nossos olhos”, disse recentemente Fatih Birol, diretor-executivo da AIE.

UM COMEÇO ACIDENTADO

O uso de baterias na rede não foi fácil.

Uma empresa da Virgínia chamada AES começou a testar baterias de rede em Indiana, Pensilvânia e Califórnia já em 2008, mas concessionárias de energia dos EUA só começaram a usá-las comercialmente dois anos depois. O ritmo foi lento no início.

“Não havia experiência com armazenamento por bateria”, disse Carla Peterman, ex-integrante da Comissão de Energia da Califórnia e hoje vice-presidente executiva da Pacific Gas & Electric, a maior concessionária do estado. “Era um pouco da questão do ovo ou da galinha: não havia o suficiente instalado para realmente dizer que isso poderia ser uma grande parte do sistema energético.”

Mas alguns americanos viam claramente os benefícios das baterias. Um deles era Christopher Shelton, executivo da AES, que possui concessionárias e usinas no mundo inteiro.

Ele começou a estudar baterias de íon-lítio quando seus chefes pediram aos funcionários que apresentassem propostas para uma “ideia de um bilhão de dólares”. Shelton disse que acreditava que as baterias poderiam reduzir a necessidade de usinas acionadas apenas quando a demanda por eletricidade atingia picos.

“Por que construir um ativo que você não vai usar mais de 5% do tempo?”, disse Shelton. “Nós dizíamos que as baterias deveriam ser uma alternativa às usinas de pico.”

Ele instalou as primeiras células de bateria em uma discreta subestação elétrica nos arredores de Indianápolis, cidade famosa por sua corrida de 500 milhas. A empresa depois conectou outra em Norristown, Pensilvânia, em um centro de operações do maior operador de rede do país, o PJM Interconnection. Em seguida, a área de Los Angeles foi conectada, seguida por uma bateria maior para a rede de Indianápolis.

Embora os testes tenham sido bem-sucedidos, não impressionaram muitos executivos de concessionárias americanas. A reação foi típica de um setor que se orgulha por manter o que conhece melhor: grandes usinas a carvão, gás e nuclear. Qualquer outra coisa era geralmente tratada como uma ameaça que poderia causar blecautes.

“TESTANDO NA LUA”

Pouco além de alguma raposa-do-deserto vive no planalto desolado do Chile onde a AES instalou seu projeto de bateria. O local fica a várias horas dos aeroportos mais próximos, em Calama e Antofagasta.

Depois de pousar, os visitantes precisam dirigir ao menos quatro horas até os salares do Atacama, onde trabalhadores coletam lítio — um ingrediente fundamental das baterias.

O acampamento da AES fica uma hora adiante. Ele se situa em um caminho rochoso e não pavimentado, cheio de pneus estourados ao longo da trilha. Embora as temperaturas durante o final da primavera e o início do verão possam chegar a 27ºC, as noites beiram o congelamento.

“Era como levar a bateria e testá-la na Lua”, disse Joaquín Meléndez, engenheiro que liderou o projeto da AES sob Shelton.

No início dos anos 2000, o Chile enfrentou uma crise energética porque a Argentina, seu principal fornecedor de gás natural, não conseguia entregar o suficiente. Isso deixou o Chile — que não tem fontes domésticas de combustível — com pouca energia para sua população e para suas minas de cobre, iodo e lítio.

O país foi forçado a depender de usinas que queimavam carvão importado e caro. Mas essas usinas não podiam aumentar ou diminuir sua produção rapidamente, enquanto as necessidades das mineradoras variavam muito.

Foi aí que as baterias entraram. Enquanto uma usina a carvão pode levar cerca de 12 minutos para entrar em operação, as baterias podem fornecer energia quase instantaneamente. Ao combinar as duas, engenheiros perceberam que as baterias poderiam fornecer eletricidade às minas enquanto as usinas a carvão se aqueciam.

Meléndez trabalhou 16 horas por dia durante seis meses para conectar a primeira bateria de íon-lítio comercializada a uma rede elétrica. Esse equipamento ainda está lá, embora a maioria de suas funções tenha sido transferida para unidades mais novas, eficientes e acessíveis.

O projeto foi imediatamente bem-sucedido, ajudando a manter o sistema elétrico estável quando operações de mineração causavam picos que antes levavam a falhas e quedas de energia.

Nos anos seguintes, a AES instalou mais baterias nos Estados Unidos e no Chile, incluindo ao lado de grandes usinas solares.

Na última década, baterias ajudaram o Chile a usar menos carvão. Em dezembro passado, o país obteve mais de 40% de sua eletricidade de painéis solares e turbinas eólicas, ante 19% cinco anos antes, de acordo com a Ember Energy Research, uma organização sem fins lucrativos. Austrália, Reino Unido, China, Índia e outros países também vêm adicionando muita energia renovável e baterias.

Shelton disse que até ele se surpreendeu com o crescimento recente. “Nós subestimamos o quanto os preços cairiam.”

Baterias para redes elétricas estão em toda parte – 06/12/2025 – Mercado – Folha

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China avança para dominar o próximo grande recurso estratégico: o mar

Plataformas capazes de resistir a explosões nucleares marcam escalada na disputa pelo controle das águas internacionais

JESUS DIAZ – Fast Company Brasil – 05-12-2025 

Monopólio das terras raras. Cadeias produtivas quase impossíveis de superar. Modelos de IA gratuitos que já rivalizam – ou até superam – os norte-americanos. Mais artigos científicos e mais doutores em ciência, tecnologia, engenharia e matemática do que em qualquer outro país.

Se você tem acompanhado esses temas ultimamente, já percebeu que a estratégia de décadas da China para se tornar a maior superpotência global está se concretizando. O que muita gente não nota é outra peça central desse plano: a corrida de Pequim para dominar o recurso mais estratégico do planeta – o oceano.

A ambição marítima chinesa deixou de ser apenas regional e ganhou escala global, impulsionada por uma expansão naval “em velocidade vertiginosa”, comparada à dos EUA na Segunda Guerra Mundial. Hoje, a China já tem a maior frota militar do mundo em número de embarcações.

Mas a estratégia de Pequim para controlar a região do Indo-Pacífico – e mais – vai muito além de navios de guerra. A China tem recorrido com frequência a táticas de “zona cinzenta”, que misturam pesquisa científica e projeção militar de forma difícil de distinguir.

A estratégia inclui o uso de ativos “civis” com dupla função – de navios oceanográficos a frotas de pesca militarizadas – para mapear rotas estratégicas e afirmar soberania sem disparar um único tiro.

Essa estratégia de “avançar sem atacar” está agora entrando em uma nova fase: megaestruturas pensadas para garantir uma presença permanente em águas disputadas – ilhas flutuantes e bases submarinas.

Pequim afirma que está construindo essas estruturas para a chamada economia azul – a ideia de que o mar é um gigantesco recurso ainda pouco explorado – o que, em parte, é verdade.

A PLATAFORMA FOI PROJETADA PARA ACOMODAR 238 PESSOAS POR ATÉ QUATRO MESES SEM REABASTECIMENTO.

Mas elas são projetadas com resistência de nível militar, funcionando, na prática, como bases avançadas que ampliam o alcance chinês muito além de seu litoral, mantendo ao mesmo tempo uma aparência de projeto civil.

Os desenvolvimentos mais recentes incluem bases em águas profundas, centros de dados submersos e, agora, uma plataforma flutuante de pesquisa capaz de resistir até a explosões nucleares.

Juntos, esses projetos formam uma infraestrutura integrada para operações de longo prazo, extração de recursos e processamento de dados no mar – tudo para ampliar a vantagem científica e industrial da China e expandir sua presença nos mares do mundo todo.

A PRIMEIRA DO GÊNERO

Segundo um artigo publicado no “Chinese Journal of Ship Research”, a nova instalação é uma plataforma semissubmersível de 86 mil toneladas, descrita por seus criadores como uma ilha artificial móvel e autossuficiente.

Documentos da China State Shipbuilding Corporation – que ficará responsável pela construção – descrevem um navio de casco duplo com 138 metros de comprimento e 85 metros de largura e um convés principal elevado a 45 metros acima da linha d’água, segundo o “South China Morning Post”.

A plataforma foi projetada para acomodar 238 pessoas por até quatro meses sem reabastecimento. Não existe nada parecido no mundo.

Yang Deqing, da Universidade Jiao Tong de Xangai, explica que a estrutura foi pensada para “residência de longo prazo”. A superestrutura inclui compartimentos de energia, comunicação e navegação reforçados para continuar operando mesmo após uma explosão nuclear.

Ela pode operar em mar de nível sete – com ondas de seis a nove metros – e suportar tufões de categoria 17, a mais alta da escala chinesa.

Segundo o líder do projeto, Lin Zhongqin, a equipe está “correndo para finalizar o design e a construção”, com previsão de operação plena em 2028. A embarcação deve navegar a cerca de 27 km/h para realizar pesquisas em águas profundas e testar tecnologias de mineração no Mar do Sul da China.

UMA ESTAÇÃO ESPACIAL SUBMARINA

O país também está construindo uma base submarina digna de filme de espionagem, a cerca de dois mil metros de profundidade – aparentemente a primeira de várias.

Segundo Yin Jianping, do Instituto de Oceanografia do Mar do Sul da China, trata-se de uma espécie de “estação espacial no fundo do mar”. Os módulos pressurizados foram projetados para acomodar seis cientistas por até um mês.

A base vai estudar formas de extrair hidrato de metano – para atender à crescente demanda energética da China – e mapear depósitos de terras raras, cobalto e níquel. Ela vai contar com o navio de perfuração Meng Xiang e com uma rede de submersíveis não tripulados, que também atuará como sistema de vigilância para o país.

Primeiro módulo do data center submarino chinêsPrimeiro módulo do data center submarino chinês foi lançado em (Crédito: Reprodução/ YouTube)

Em paralelo, a China implantou seu primeiro data center submarino comercial na costa da província de Hainan. Uma estrutura de 1.433 toneladas, a 35 metros de profundidade, abriga 24 módulos de servidores. O gerente do projeto, Pu Ding, destaca que eles “colocaram toda a cabine de dados em alto-mar porque a água pode ajudar a resfriar a temperatura”.

Os desenvolvedores afirmam que esse resfriamento passivo pode economizar cerca de 90% da energia normalmente usada para climatização em data centers em terra.

A China não vai parar por aí. Vai continuar a fabricar iPhones, ímãs de terras raras e a construir as melhores IAs, usando o maior exército de especialistas do mundo. Mas também quer se tornar a maior superpotência marítima – assim como a Espanha, a Grã-Bretanha e os EUA em séculos passados.


SOBRE O AUTOR

Jesus Diaz fundou o novo Sploid para a Gawker Media depois de sete anos trabalhando no Gizmodo. É diretor criativo, roteirista e produtor da The Magic Sauce e colaborador da Fast Company.

China avança para dominar o próximo grande recurso estratégico: o mar | Fast Company Brasil

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The Economist: As novas fronteiras de inovação chinesa que desafiam regulações e o Ocidente

Com táxis robóticos e novos medicamentos, China mostra seu poder tecnológico ao mercado global

Por Estadão/The Economist – 29/11/2025 

Aqueles que se preocupam com a forma de lidar com a liderança da China em tecnologia — e são muitos — pensam muito em veículos elétricos (EVs), painéis solares e inteligência artificial de código aberto. Para essas pessoas, temos más notícias. Esta semana, relatamos como a China está avançando rapidamente em duas outras tecnologias de ponta: veículos autônomos e novos medicamentos. À medida que essas indústrias se espalham pelo mundo, elas exemplificarão o poder da inovação chinesa.

O progresso da China em cada uma dessas áreas importantes tem sido impressionante. Uma revolução dos táxis robóticos está ganhando força, o que pode remodelar o transporte, a logística e a vida urbana cotidiana. Os táxis autônomos do país, construídos por um terço do custo dos da Waymo nos Estados Unidos, estão acumulando milhões de quilômetros rodados e firmando parcerias na Europa e no Oriente Médio.

Na medicina, a China deixou de ser uma fabricante imitadora de genéricos para se tornar a segunda maior desenvolvedora de novos medicamentos do mundo, incluindo aqueles que combatem o câncer. Rivais ocidentais estão licenciando os produtos de suas empresas. O dia em que uma gigante farmacêutica surgirá da China não parece mais tão distante.

Para você

O crescimento de ambas as indústrias diz muito sobre como funciona a inovação chinesa. Um vasto leque de talentos, uma ampla base industrial e uma enorme escala combinam-se para impulsioná-la rapidamente na cadeia de valor. A produção de táxis robóticos aproveitou a fabricação em massa de veículos elétricos e o domínio no fornecimento de lidars (sistema de sensoriamento remoto) e outros sensores necessários para a condução autônoma; a escala também ajudou a reduzir os custos. Exércitos de pacientes recrutados para ensaios clínicos e lucros com a fabricação de medicamentos genéricos aceleraram a inovação farmacêutica.

Um ingrediente mais surpreendente do sucesso da China são seus reguladores ágeis e permissivos. Como em outros setores, os governos locais ofereceram às empresas crédito barato e outras ajudas. Mas foi a agilidade na regulamentação que realmente impulsionou o progresso.

Logo após os líderes políticos definirem sua ambição de tornar a China uma “superpotência em biotecnologia” em 2016, o país implementou uma série de reformas. A força de trabalho do órgão regulador de medicamentos quadruplicou entre 2015 e 2018, e um acúmulo de 20 mil novos pedidos de registro de medicamentos foi eliminado em apenas dois anos.

O tempo necessário para obter aprovação para testes em humanos diminuiu de 501 dias para 87. No ano passado, as empresas do país realizaram um terço dos ensaios clínicos do mundo.

Da mesma forma, a China foi pioneira na experimentação de táxis robóticos. Autoridades locais, interessadas em atrair talentos e investimentos, aprovaram projetos-piloto em ritmo acelerado e instalaram sensores e outras infraestruturas digitais para ajudar a orientar veículos autônomos; os testes foram realizados em mais de 50 cidades.

Muitos também experimentaram leis sobre responsabilidades e diretrizes para testes. Embora os acidentes tenham causado algumas interrupções, os projetos-piloto ajudaram engenheiros e formuladores de políticas a compreender a nova tecnologia.

A concorrência acirrada no mercado interno impõe condições difíceis às empresas individuais, mas as sobreviventes são condicionadas a se tornarem campeãs de exportação hipercompetitivas. As operadoras de táxis robóticos da China competem entre si e com táxis baratos dirigidos por humanos em uma economia dominada pela deflação.

As novas tecnologias recebem subsídios que, em última análise, saem do bolso de sua população mal remunerada. Muitas empresas deficitárias não sobreviverão às guerras de preços resultantes. Mas aquelas que sobreviverem buscarão lucros no exterior.

Uma nova onda de inovação chinesa de baixo custo irá, portanto, espalhar-se pelo mundo. Isso acontecerá de diferentes maneiras. Os medicamentos baratos da China podem trazer benefícios, especialmente para os países em desenvolvimento. Mas, para as empresas chinesas, o lucrativo mercado americano, que é a fonte de 70% dos lucros farmacêuticos globais, é o prêmio mais atraente.

E a importância da China para os pipelines das farmacêuticas ocidentais significa que a relação pode até ser simbiótica. Os táxis robóticos, por outro lado, provavelmente seguirão o caminho mais comum para as exportações de tecnologia da China.

Eles são bloqueados pelos Estados Unidos, que têm sua própria indústria e sérias preocupações com a segurança, mas provavelmente ganharão espaço em outros lugares, onde os esforços domésticos para alcançar autonomia estão muito atrasados.

Como o resto do mundo deve responder? A concorrência corre o risco de esvaziar as economias ocidentais. Quando há evidências de dumping e subsídios chineses, as contramedidas contra as exportações chinesas são justificadas e necessárias. Quando há riscos à segurança, as medidas também são justificadas.

Os dados coletados por táxis robóticos podem representar uma ameaça à vigilância; a indústria farmacêutica chinesa sofreu escândalos de corrupção. No entanto, o protecionismo impulsivo em nome da segurança seria um erro. Bloquear ou limitar os frutos da inovação chinesa privaria os consumidores dos benefícios de medicamentos e transportes mais baratos e melhores, em um momento em que os eleitores se preocupam com a acessibilidade.

É por isso que seria melhor para as economias ocidentais repensarem como a inovação funciona em seus países. É tentador ser fatalista em relação à ascensão da China — concluir que seu domínio sobre as tecnologias do futuro só pode ser alcançado por meio de ditames autoritários e doações desperdiçadoras e que, portanto, as democracias não podem seguir seus passos.

Mas a inventividade do setor privado chinês e a agilidade de seus reguladores também têm sido ingredientes cruciais. Aqui, infelizmente, o Ocidente está indo na direção errada.

A vida em ritmo lento

Os Estados Unidos têm escala e recursos financeiros para competir. Mas em muitos Estados, especialmente os democratas, os reguladores estão bloqueando ou atrasando os veículos autônomos. O governo está travando uma guerra contra as universidades e cortando fundos para pesquisa básica.

Assim como em outros países ocidentais, ele é hostil aos imigrantes, incluindo os mais talentosos. No setor farmacêutico, com o aumento da participação da China nos ensaios clínicos, a Europa está perdendo terreno. Suas economias precisam desesperadamente se integrar ainda mais para que possam financiar e desenvolver novas tecnologias. Também nesse caso, os reguladores muitas vezes valorizam a segurança em detrimento da assunção de riscos e da experimentação.

Nada indica que a China deva ser dona do futuro. Mas se o Ocidente quiser competir em carros autônomos e medicina, sem falar em veículos elétricos, energia solar e outras tecnologias vitais, ele precisa aprender as lições certas com a ascensão da China.

The Economist: As novas fronteiras de inovação chinesa que desafiam regulações e o Ocidente – Estadão

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Gêmeos digitais e IA são destaques em feira de automação nos EUA

Interação entre robôs e seres humanos chama a atenção e exige revisão do layout das fábricas

Por Lucianne Carneiro — Valor – 02/12/2025

Gêmeos digitais (reprodução digital em tempo real), inteligência artificial, sensores digitais, robótica autônoma e internet das coisas foram alguns dos destaques nos corredores e nos auditórios da Automation Fair, feira de automação realizada no fim de novembro em Chicago, nos Estados Unidos.

São tecnologias que se tornam cada vez mais interligadas e com utilização mais intensa e avançada nas máquinas e equipamentos industriais. A interação entre robôs e seres humanos também chama a atenção e exige inclusive uma revisão do layout das fábricas.

“A tecnologia que vai sustentar essa transformação [das operações industriais] passa por abordagem definida por softwares, uso de inteligência artificial em todos os níveis e robótica”, resume Blake Moret, diretor-executivo da empresa de automação industrial Rockwell, responsável pela feira.

Na avaliação do superintendente de projetos de inovação da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Carlos Bork, o mundo se aproxima da quinta revolução industrial. “Nós estamos chegando ou já estamos definitivamente na quinta revolução industrial. A inteligência artificial é na verdade um processamento de dados muito rápido, inserido nesse sistema computacional. Isso dá agilidade e velocidade aos processos e às tomadas de decisão.”

A quinta revolução industrial – conhecida também como indústria 5.0 ou indústria 4.1 – é uma evolução da indústria 4.0. Na quarta revolução já aparecia aprendizagem de máquina e internet das coisas, que agora avança para englobar usos mais refinados da inteligência artificial e a interação entre robôs e humanos.

“Temos muitas tecnologias acontecendo ao mesmo tempo, diferentes possibilidades e muito ‘hype’ [moda]. Em cinco anos, muito do que usamos hoje estará obsoleto. Mas decisões tomadas hoje, com os melhores parceiros, vão ajudar a inventar o futuro da operação industrial”, diz o vice-presidente sênior e diretor de tecnologia da Rockwell, Cyril Perducat.

Robôs móveis autônomos estão na mira dos fabricantes e das indústrias

A tecnologia dos gêmeos digitais estava presente em grande parte dos estandes da feira e também foi muito citada entre os palestrantes. É um modelo virtual, em terceira dimensão, que reproduz produtos e processos em tempo real. Com esta alternativa de simulação, por exemplo, o custo de implantação de uma nova fábrica ou linha de montagem é reduzido.

Outra das frentes é o uso de tecnologias preditivas na manutenção de máquinas e equipamentos. Ao identificar padrões no uso de maquinário, é possível estimar quando reparos e ajustes são necessários.

Com isso, as paradas na produção podem ser programadas e os custos são menores. Em uma etapa futura de progresso, ainda não disponível, espera-se que se possa apontar quais reparos são indicados.

Robôs avançados também chamavam atenção na Automation Fair, mas não os robôs humanoides mais comuns no imaginário popular. Os robôs móveis autônomos (ou AMRs, na sigla em inglês), com sensores capazes de desviar de obstáculos, estão na mira dos fabricantes e das indústrias em busca de automação. Se versões mais simples são conhecidas para varrer casas, modelos mais sofisticados podem oferecer mais eficiência para a automação industrial.

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De multiagentes de IA a cibersegurança preditiva: as tendências da tecnologia para 2026

Previsões de longo prazo incluem mais de 2.000 processos legais por ‘morte por IA’ e trilhões movimentados por sistemas automatizados

Por Henrique Sampaio – Estadão – 02/12/2025

Durante o Gartner IT Symposium 2025, realizado em Orlando, na Flórida em novembro, a Gartner apresentou as tendências tecnológicas estratégicas que devem moldar 2026 e os cinco anos seguintes. A consultoria, uma das maiores referências globais em pesquisa e análise de tecnologia, destacou que a disrupção digital está se acelerando e que a inteligência artificial não é mais opcional: ela passou a ser o núcleo operacional de empresas que buscam competitividade, segurança e eficiência.

A lista divulgada reúne dez tendências que mostram como organizações de ponta estão respondendo a um mundo hiperconectado e orientado por IA. Conheça:

1. Plataformas de desenvolvimento nativas em IA

Essas plataformas usam IAs generativas como ChatGPT, Gemini e Claude para ajudar programadores a criar softwares muito mais rápido. Isso significa que empresas poderão lançar aplicativos, serviços digitais e soluções internas em questão de dias, não meses. A Gartner prevê que, até 2030, 80% das organizações terão equipes menores de desenvolvimento em razão das IAs.

2. Plataformas de supercomputação para IA

São estruturas superpotentes formadas por chips como CPUs, GPUs e ASICs – este último, um chip de processamento projetado sob medida para uma única tarefa ou função. Elas permitem treinar IAs maiores, rodar simulações avançadas e analisar volumes gigantes de dados.

Na prática, isso pode significar diagnósticos médicos mais rápidos, carros autônomos mais seguros, traduções automáticas melhores e IAs domésticas que entendem mais contexto. Até 2028, 40% das empresas líderes devem usar esse tipo de arquitetura.

3. Computação confidencial

É uma forma de proteger dados sensíveis enquanto estão sendo processados. Imagine mandar suas informações para um serviço na nuvem e ter a garantia de que nem o dono do servidor pode ver o que está sendo feito com elas.

Essa tecnologia, baseada em TEEs (Trusted Execution Environments, ou ambientes de execução confiável), deve proteger 75% das operações realizadas mesmo em infraestruturas consideradas não confiáveis até 2029, um recurso essencial para bancos, hospitais e serviços que lidam com dados sensíveis.

4. Sistemas multiagentes

São vários agentes de IA trabalhando em conjunto. Pense em um “time” de assistentes digitais que conversam entre si para resolver tarefas complexas: um pode buscar informações, outro compara preços, outro agenda compromissos. Esse modelo deve se tornar comum em atendimento ao cliente, logística e até nas casas conectadas. A experiência poderá ficar mais fluida e proativa, como se tivéssemos vários “mini-ChatGPTs” especializados operando ao mesmo tempo.

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5. Modelos de linguagem específicos de domínio (DSLMs)

Diferente de modelos generalistas, esses modelos são treinados para áreas específicas, como saúde, finanças, direito e varejo. Para o usuário, isso significa respostas mais precisas e seguras. Por exemplo: uma IA médica será treinada só com dados da área, reduzindo erros. A Gartner prevê que, até 2028, mais da metade dos modelos usados por empresas será desse tipo.

6. IA física

É quando a IA deixa de ser só software e passa a agir no mundo real, em robôs, drones e máquinas inteligentes. Isso impacta desde fazendas que usam drones para mapear plantações até entregas automatizadas, operações de segurança e obras com máquinas que tomam decisões em campo. Para o consumidor, isso pode gerar serviços mais rápidos e seguros, além de produtos mais personalizados.

Robô R1 da Unitree foi anunciado por menos de US$ 6 mil no WAIC 2025, evento realizado na China Foto: Reprodução/Unitree

7. Cibersegurança preditiva

Com agentes de IA cada vez mais sofisticados (inclusive maliciosos), a segurança digital precisa ser antecipatória. Em vez de reagir a ataques, sistemas passam a tentar prever movimentos suspeitos antes que eles ocorram. Até 2030, metade dos investimentos em segurança será voltada a esse tipo de proteção. Para o público, isso significa menos fraudes, menos vazamentos e sistemas mais confiáveis.

8. Proveniência digital

Com tanto conteúdo gerado por IA e tanto software vindo de terceiros, fica difícil saber o que é verdadeiro ou de onde veio algo. Proveniência digital é a solução: mecanismos que confirmam autoria, origem e integridade de dados. Isso vale para fotos, textos, músicas, códigos e até documentos oficiais. Empresas que ignorarem isso podem enfrentar multas bilionárias até 2029. Para o usuário, é crucial para combater deepfakes e golpes.

9. Plataformas de segurança para IA

São sistemas dedicados a proteger modelos de IA usados por empresas. Eles impedem problemas como manipulação de prompts, vazamento de dados e “agentes rebeldes”. Até 2028, mais de 50% das organizações terão plataformas desse tipo, de acordo com a Gartner. Para o público, isso aumenta a confiança em chatbots bancários, assistentes virtuais de saúde, sistemas de recomendação e outros serviços baseados em IA.

10. Geopatriação

É o movimento de tirar dados de nuvens globais e colocá-los em servidores locais para reduzir riscos geopolíticos. Isso afeta desde empresas até governos que querem maior controle sobre informações sensíveis. A Gartner prevê que, até 2030, 75% das organizações da Europa e Oriente Médio farão essa migração. A consequência para o usuário é mais proteção regulatória e mais transparência sobre onde seus dados estão.

Além das tendências centrais, a Gartner apresentou previsões para além de 2026 para o mundo da tecnologia:

  • Até 2026, a redução das habilidades de pensamento crítico associada ao uso de IA fará com que 50% das organizações adotem avaliações “sem IA”.
  • Até o fim de 2026, ações judiciais classificadas como “morte causada por IA” ultrapassarão 2.000 casos devido à falta de mecanismos adequados de segurança.
  • Até 2027, o uso de IA generativa e agentes de IA criará o primeiro grande desafio às ferramentas tradicionais de produtividade em 30 anos, provocando uma movimentação de US$ 58 bilhões no mercado.
  • Até 2027, o uso de agentes de IA reduzirá em pelo menos 50% a diferença entre custo e valor em contratos centrados em processos.
  • Até 2027, 75% dos processos de contratação exigirão certificações e testes de proficiência em IA para candidatos.
  • Até 2027, 35% dos países ficarão dependentes de plataformas regionais de IA baseadas em dados contextuais proprietários.
  • Até 2027, a fragmentação regulatória da IA se expandirá para cobrir 50% da economia global, exigindo aproximadamente US$ 5 bilhões em investimentos de conformidade.
  • Até 2028, empresas que utilizarem IA multiagente em 80% dos processos voltados ao cliente irão dominar seus mercados.
  • Até 2028, 90% das transações B2B serão intermediadas por agentes de IA, movimentando mais de US$ 15 trilhões em plataformas automatizadas de transação.
  • Até 2030, 20% das transações monetárias serão programáveis, permitindo que agentes de IA apliquem condições diretamente nos pagamentos.

De multiagentes de IA a cibersegurança preditiva: as tendências da tecnologia para 2026 – Estadão

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Nova onda da robótica chega ao varejo e acena com mais eficiência

“Os robôs serão usados para dar informações, conduzir o cliente para diversas áreas da loja, prestar serviços, gerenciar estoque em tempo real e até fazer vendas”, afirma Vinicius Ribeiro, especialista em inteligência artificial (IA) na Pluginbot

Katia Simões – Valor – 28/11/2025

Braço robótico do Bob’s, desenvolvido no Brasil, prepara milk-shakes — Foto: Divulgação/Bob’s

“Nos próximos cinco anos, robôs humanoides atuarão não só na gestão de estoques, 24 horas por dia, mas também no atendimento a clientes em lojas físicas”, diz a futurista americana Amy Webb, CEO do Future Today Strategy Group (FTSG). E não é necessário cruzar fronteiras para constatar que a previsão começa a se tornar realidade. Os robôs de serviço — que não atuam dentro do ambiente industrial — podem ser vistos na hotelaria, nos hospitais, em eventos e até transitando por alguns shoppings centers.

Quem circula na hora do almoço pela praça de alimentação do Shopping Iguatemi Alphaville, em Barueri (SP), tem grandes chances de cruzar com o ADA. O robô retira os pedidos de comida nos restaurantes e leva a um hub central, onde os entregadores do iFood recebem os pacotes. Em média, transporta 35 pedidos por dia e percorre 10 quilômetros entre idas e vindas. Hoje são quatro robôs em atuação nos shoppings Iguatemi Alphaville e Galleria, em Campinas, informa Mariana Werneck, diretora sênior de logística no iFood. “O uso de robôs reduz o tempo que o entregador gastaria para entrar no shopping, localizar o restaurante e retirar o pedido, além de diminuir o tempo de entrega para os clientes”, afirma ela. “A ideia é chegar a mil robôs até 2030.”

O ADA é um dos robôs desenvolvidos pela startup Synkar, de Ribeirão Preto, que até o fim do ano contará com 35 robôs a trabalho de marketplaces, hotéis e condomínios, aptos a realizar tarefas em ambientes internos e externos. “O desafio é escalar a produção. Hoje, levamos três meses para fabricar dez unidades”, revela o CEO da Synkar, Lucas Assis. “O objetivo é reduzir esse tempo para 20 dias, a fim de encerrar o primeiro semestre de 2026 com cem unidades em operação.” O tíquete médio mensal pelo uso do robô é de R$ 9 mil. O aluguel começa com R$ 4,5 mil e varia de acordo com o volume de aplicações e quantidade de robôs.

Robô ADA, do iFood, retira pedidos em restaurantes e os leva até os entregadores — Foto: Divulgação/iFood

Na visão de Vinicius Ribeiro, especialista em inteligência artificial (IA) na Pluginbot, plataforma de gestão de robôs que integra artefatos de diversas tecnologias, o varejo é a próxima onda da indústria da robótica: “Os robôs serão usados para dar informações, conduzir o cliente para diversas áreas da loja, prestar serviços, gerenciar estoque em tempo real e até fazer vendas”. Criada em 2017, a plataforma conta com mais de cem robôs em operação nas áreas da saúde, energia, bancos, aeroportos e, mais recentemente, no varejo. “Nos últimos 18 meses, colocamos três equipamentos para testes em lojas de departamentos e de moda, com resultados bastante positivos”, diz Ribeiro. “A partir de R$ 80 mil, é possível desenvolver um robô de atendimento.”

No Brasil, o último levantamento sobre o número de robôs em atuação é de 2019 e registrou 15,6 mil unidades — considerando braços robóticos, cabots (robôs colaborativos), miniaturizados, humanoides de serviços e autônomos móveis. A estimativa é que hoje somem 25 mil. Trata-se de um mercado bilionário que não cresce numa velocidade ainda maior principalmente por conta do preço alto. “O maior obstáculo ainda é o custo, mas não é o único”, afirma Anderson Harayashiki, professor do curso de engenharia de controle e automação do Instituto Mauá. “No Brasil, a barreira cultural é realidade. O consumidor gosta de interagir com gente. Sem contar que ainda não temos um ecossistema bem preparado para lidar com a tecnologia.”

Rodrigo Catani, sócio-diretor da Gouvêa Consulting, por sua vez, observa que a chegada dos robôs ao varejo se dá pela melhoria da eficiência operacional, redução de custos, aumento da produtividade e melhor experiência do cliente. “Os robôs estão presentes nas áreas de preparação de alimentos, controle de estoques e logística, e agora começam a interagir diretamente com os clientes”, revela. “O varejo tem uma curva de aprendizagem grande pela frente, pensando na experiência do cliente e na análise se a tecnologia faz ou não sentido para o tipo de negócio.”

É com o propósito de melhorar a experiência do consumidor na ponta que a Heineken colocou para rodar várias iniciativas envolvendo robôs. A primeira delas foi em 2021, com o B.O.T (Beer Outdoor Transporter), robô capaz de conduzir de maneira autônoma um cooler com até 12 latas de cerveja. Em 2024 foi a vez do HEI, robô-garçom criado para interagir com os clientes e promover experiência de atendimento. Durante quatro semanas o HEI atuou em vários bares dentro da campanha “Sabor Heineken. Só Heineken”, agilizando pedidos, respondendo curiosidades sobre a marca e destacando os diferenciais das cervejas, conta Jussara Calife, diretora de trade marketing on+off da Heineken. Foram mais de quatro mil interações e 70% de conversão das mesas que inicialmente tinham pedido marcas concorrentes. O objetivo é usar a tecnologia combinada com experiência para aproximar pessoas, não para substituí-las.

HEI, o robô-garçom da Heineken, foi bem-sucedido em 70% das abordagens a clientes — Foto: Divulgação/Heineken

O setor de food service é um dos mais avançados no uso de robôs, seja para o preparo de alimentos, seja no salão. Por aqui, na primeira loja do Bob’s totalmente repaginada, em Ipanema, no Rio de Janeiro, um robô prepara na frente do cliente o tradicional milk-shake crocante da casa. “Estamos experimentando a tecnologia, que foi desenvolvida por uma empresa nacional”, afirma Ricardo Bomeny, presidente da BFFC. Embora o braço robótico tenha sido feito sob medida, a BFFC não é dona do equipamento — paga cerca de R$ 10 mil mensais pela locação. Segundo Bomeny, a intenção no primeiro momento é instalar o robô em apenas mais duas ou três lojas da rede, que deve fechar o ano com 1.130 unidades.

Dados da pesquisa Trends Ecossistema agosto/setembro 2025, apresentada pela Galunion, revelam que 2% das redes de franquia de food service — que correspondem a 16% das 3,3 mil marcas franqueadoras — já adotam robôs de salão e 38% têm interesse em adotá-los. “Quando se trata de foco do investimento nos próximos dois anos, a parte de robótica e equipamentos culinários high tech ainda é acanhada: 6% das redes têm intenção, 4% dos fornecedores e 2% entre os independentes”, afirma Simone Galante, fundadora e CEO da Galunion.

Na avaliação de Bruno Gorodicht, coordenador da Comissão de Food Service da Associação Brasileira de Franchising, o robô vem para padronizar serviços, desde linha de produção e atendimento até entregas. “Não vejo o robô-garçom funcionando no Brasil como acontece no Japão”, afirma. “Mas, se olharmos para dentro da cozinha, há oportunidade de melhorar a operação.”

O segmento de farmácias também está de olho na tecnologia. Em junho entrou em operação o primeiro robô de autoatendimento no Brasil. Instalado numa das unidades da rede Drogamais, na cidade de Bandeirantes (PR), o robô seleciona e dispensa medicamentos em dez segundos. “O BD Rowa apresenta uma série de funcionalidades, o que torna a operação mais ágil, sendo possível diminuir em até 33% o tempo gasto na busca de produto, além de garantir 100% de acurácia na informação dos SKUs [códigos para identificar itens] disponíveis no estoque”, afirma Juliano Paggiaro, presidente da BD Brasil. Instalado na frente da drogaria, o robô faz a leitura da receita, separa e dispensa o medicamento, permitindo que a farmácia opere 24 horas, sete dias na semana. O investimento gira em torno de R$ 1,5 milhão para um modelo simples. O tempo de separação de pedidos on-line chegou a cair até 75%.

Nova onda da robótica chega ao varejo e acena com mais eficiência | Revista Inovação | Valor Econômico

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A revolucionária automação dos veículos não está nas ruas, mas em fazendas e minas

Empresas brasileiras, incluindo Grunner e Lume Robotics, já perceberam a imensa oportunidade na automação de veículos no campo e em plantas de mineração

Por Marcelo Moura – Valor – 28/11/2025

A revolução dos carros sem motorista não veio como a indústria automotiva havia prometido na década passada. Após 20 anos do desenvolvimento do primeiro automóvel capaz de dirigir sozinho por um terreno desconhecido — o Stanley, um Volkswagen Touareg lotado de radares e computadores da Universidade Stanford —, os dispositivos de mobilidade autônoma nos carros de passeio ainda se resumem a assistentes de direção, como aqueles que giram a direção para estacionar o carro na vaga e, no trânsito, acionam os freios para evitar colisões. É nos caminhões, em parque fechado, que os robôs estão acelerando.

Com escassez de mão de obra especializada e alta demanda por produtividade, fazendas, minas e parques logísticos se tornam o terreno natural para essa transformação. Ali, os veículos encontram ambiente controlado, cumprem trajetos repetitivos e estão dispensados de atender regras de trânsito válidas para as vias públicas.

No Brasil, uma das empresas que melhor ilustram esse movimento é a Grunner, fabricante de equipamentos de automação para caminhões nascida em 2018 em Lençóis Paulista, no interior de São Paulo. Produtora de cana-de-açúcar, a empresa perdia produtividade conforme os tratores compactavam a terra e esmagavam a base das plantas durante a colheita. Para amenizar o problema, a equipe começou a adaptar caminhões em sua própria oficina, criando soluções caseiras de tráfego controlado. O resultado foi tão eficiente que chamou a atenção de parceiros e, logo, se transformou em um negócio à parte.

A empresa firmou parceria com a Mercedes-Benz, adaptando caminhões da montadora para uso agrícola e lançando um modelo de automação semiautônoma voltado à colheita de cana. O sistema permite que os veículos sigam rotas georreferenciadas com precisão de até 2,5 centímetros, coordenando o deslocamento em relação às colhedoras. O operador só assume o controle ao final do trajeto, durante o transbordo da carga.

A empresa registrou 15 patentes no Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI), incluindo uma de modelo de utilidade concedida pelo órgão — que garante exclusividade sobre o conceito do produto até 2033. Segundo o fabricante, a redução no consumo de diesel chega a 40% — e em alguns casos ultrapassa 50%. “Hoje, temos 1.342 máquinas operando no setor sucroenergético e mais de cem kits de direção automática em uso na mineração”, afirma André Luiz Torquetti, gerente nacional de vendas e marketing da Grunner.

Com uma meta de faturar R$ 500 milhões em 2025, ante R$ 350 milhões em 2024, a Grunner prepara novas aplicações da tecnologia em outras culturas e segmentos industriais. Seu sistema atual corresponde ao Nível 2 da classificação da SAE, em que o caminhão assume o controle de direção e aceleração, mas ainda exige supervisão humana. Para avançar nos níveis 3 e 4 — em que o veículo poderia operar de forma condicional ou totalmente autônoma em ambientes determinados —, seria necessário um salto em infraestrutura e conectividade. “Apenas 1% das propriedades rurais no Brasil têm uma rede privada ou cobertura 4G”, afirma Gregori Boschi, fundador da Boschi Inteligência de Mercado.

Em campos de mineração, 30 caminhões autônomos da Vale trafegam pelas reservas de Carajás (no Pará), Brucutu e Capanema (em Minas Gerais). No porto de Aracruz, no Espírito Santo, a startup Lume Robotics adaptou um caminhão em parceria com a Portocel e a Vix Logística. Monitorado por câmeras e sensores, transporta celulose internamente sem intervenção humana. O denominador comum desses projetos é o ambiente controlado. “É nesse tipo de operação que a automação se paga primeiro: trajetos repetitivos, velocidade constante, alto custo de erro e ganho direto de produtividade”, diz Boschi. 

Esse futuro pode chegar, em parte, como profecia autorrealizada. Um estudo do Instituto de Logística e Suply Chain (Ilos), com dados da Secretaria Nacional de Trânsito (Senatran), aponta a escassez de mão de obra. Dos 4,4 milhões de caminhoneiros habilitados, apenas 4% têm entre 18 e 30 anos — e 60% têm mais de 50. Entre os motivos para os jovens motoristas seguirem outras profissões estão a possibilidade de trabalhar como motorista de aplicativo nas cidades, o alto custo do caminhão e o medo de perder emprego para um robô. “A promessa de caminhões autônomos nas estradas na década passada afastou os jovens”, diz Mauricio Lima, sócio-fundador do Ilos. “O que está acontecendo é o inverso: o mercado vai sofrer com a falta de condutores. Se a partir de hoje o Brasil só fabricasse caminhão autônomo, levaria 30 anos para renovar completamente a frota.”

No exterior, o avanço é gradual. Um estudo da consultoria McKinsey estima que os Estados Unidos vão liderar a adoção de caminhões autônomos, com 13% da frota pesada automatizada até 2035, impulsionados por escassez de motoristas e longas distâncias entre centros logísticos. A China deve alcançar 11%, favorecida pela estrutura industrial e pela extensão de seus corredores de transporte, e a Europa, 4%, limitada por complexidades operacionais e custo. Um relatório do Fórum Econômico Mundial afirma que a fase atual é de projetos-piloto e rotas fixas, especialmente em operações hub-to-hub, entre centros de carga. O estudo aponta que, até 2035, 30% das novas vendas de caminhões nos Estados Unidos poderão ser de modelos autônomos — mas a adoção dependerá de infraestrutura e regulamentação consistentes.

Enquanto a revolução não chega às ruas, em volume suficiente para atrair grandes montadoras, empresas de nicho como a Grunner lideram a marcha — do portão para dentro.

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Inovadores são perguntadores e questionadores

Por Evandro Milet – Portal ES360 – 30/11/2025

Empresas inovadoras são, quase sempre, dirigidas por líderes inovadores. Conclusão: se você quiser inovação, precisará ter competências criativas na equipe de alta direção de sua empresa. Inovadores pensam diferente, mas também agem diferente. O livro DNA do Inovador, de Clayton Christensen e outros, identificou as cinco competências que distinguem os inovadores dos executivos típicos e afirma que essas características, que são inatas em alguns, podem ser aprendidas e praticadas. São elas: associar, questionar, observar, cultivar o networking e experimentar. O pensamento associativo coleta, organiza e dá sentido às informações captadas pelas outras quatro competências, gerando as inovações.

Vou abordar aqui hoje apenas a competência de questionar, algo que a nossa cultura costuma nos impor barreiras. Os dois grandes fatores que inibem as perguntas são: ter receio de parecer ignorante e não querer ser visto como uma pessoa desagradável ou que não gosta de colaborar.

O primeiro fator se desenvolve na escola, para não parecer pouco inteligente e ser zoado pelos colegas. Principalmente, refreamos as perguntas mais disruptivas, justamente aquelas que levam mais tarde às inovações mais revolucionárias. Crianças perguntam tudo e depois vão perdendo essa faculdade quando crescem.

O segundo fator fica potencializado se o questionamento for para um superior hierárquico que se mostre inseguro, alguma estrela vaidosa ou quem se considere “pai” de uma ideia estabelecida – pais não gostam de ouvir críticas aos filhos, normalmente. Chefes autoritários costumam não gostar dos perguntadores.

Como o livro mostra, os grandes indagadores têm um alto nível de autoestima e humildade suficiente para aprender com qualquer pessoa, mesmo com aqueles que supostamente sabem menos do que eles. Inovadores são grandes questionadores e mostram paixão pelo ato de perguntar. O que, como, onde, por que, quando, e se, por que não, são expressões comuns na cabeça dos inovadores. Querem saber porque as coisas são assim e porque não de outra forma. 

A pesquisa apresentada no livro, baseada na análise de comportamento de inúmeros executivos, mostrou que os inovadores fazem mais perguntas que os não inovadores e fazem perguntas mais provocativas. Fazer muitas perguntas aos clientes é importantíssimo para produzir soluções poderosas para os problemas.

Na Toyota foi criado o processo dos cinco “por quês” sucessivos para desvendar cadeias de causas e chegar a soluções inovadoras. Os programas de qualidade difundiram a ferramenta do 5W1H(Why, What, When, Who, Where, How) para diagnósticos e planos de ação, institucionalizando os questionamentos. Entretanto, em uma palestra, certa vez, um questionador gaiato, funcionário de governo, me disse que lá só funcionava o 5N1T, e traduziu: Não, Nada, Nunca, Nenhum, Ninguém e Talvez. Creio que ele inventou isso na hora. Tudo bem, bom humor faz parte.

No lado sério, os autores descobriram também que os inovadores têm muito mais chances de lançar com sucesso produtos ou negócios inovadores quando combinam o ímpeto de perguntar com as outras competências do DNA do Inovador. Em outras palavras: perguntar enquanto observam, perguntar enquanto conversam com seu network, perguntar enquanto experimentam e quando estão tentando associar tudo. Deve-se questionar tudo, até o que parece óbvio. 

Perguntas provocadoras feitas por inovadores alargam limites, crenças e fronteiras. E todos podem aprender a fazer isso. No geral, podemos perguntar tudo para o Google ou para o ChatGPT e dá para aprender muito, assim como vendo vídeos no YouTube sobre qualquer coisa, mas no desenvolvimento de uma ideia, de um projeto ou de uma startup, não questionar tudo pode ser o caminho do fracasso.  

Inovadores são perguntadores e questionadores – ES360

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