Casal de empresários quer oferecer tecnologia e educação para que outras pessoas também superem o ciclo de pobreza
Por Renée Pereira e Carlos Eduardo Valim – Estadão – 31/10/2025
Quando Luiz Donaduzzi nasceu, em janeiro de 1955, em Jaguari (RS), seu pai, Aldemar, enxergou no filho a oportunidade de realizar o que a vida até então lhe negara e, sobretudo, de romper o ciclo de pobreza que marcava a família — descendente de imigrantes europeus chegados ao Brasil entre 1860 e 1870. A escola e o estudo se tornaram quase um mantra para o patriarca, que fez da educação uma promessa e um propósito: transformar o menino em um homem de sucesso.
Não foram poucos os desafios e os percalços no caminho, mas Aldemar cumpriu sua palavra. Luiz estudou, formou-se e construiu uma trajetória que o consagrou como um grande empresário — um homem que, hoje, também tem seus próprios mantras. Um deles é devolver à sociedade parte do que conquistou, ajudando famílias de baixa renda a oferecer educação a seus filhos.
Formado em farmácia e bioquímica pela Universidade Estadual de Maringá e doutor em Biotecnologia pelo Instituto Politécnico de Lorraine de Nancy, Donaduzzi criou uma das maiores empresas do setor farmacêutico brasileiro. Hoje, a Prati-Donaduzzi, fundada em 1993, é a maior produtora de medicamentos genéricos do País, em volume produzido, e vale cerca de R$ 8 bilhões.

Carmen e Luiz Donaduzzi no projeto Biopark, que tem objetivo de criar uma cidade tecnológica e de inovação no Paraná Foto: Divulgação/Biopark
Para você
“Fizemos fortuna. Seria escandaloso ter todo esse dinheiro e deixar tudo para os filhos”, diz Donaduzzi. A ideologia e a decisão de doar parte da fortuna sempre foi compartilhada pela mulher, Carmen, com quem teve dois filhos. Ela era irmã de um colega de classe de Luiz na época em que ele estudava em um ginásio agrícola.
Carmen chegou a se declarar para Luiz aos 15 anos em uma carta, mas não foi correspondida. Tempos mais tarde eles se reencontraram, namoraram e se casaram, em 1976. Após concluir a faculdade, os dois foram fazer pós-graduação na França, onde nasceu o primeiro filho. De volta ao Brasil, decidiram criar um negócio próprio e tudo começou com a venda de chás.
A ideia veio após uma breve pesquisa em uma farmácia em Pernambuco, onde estavam morando. Ali Luiz concluiu que os chás poderiam ter grande demanda no inverno chuvoso do Estado. “No dia seguinte, foi ao mercado e comprou chás a granel, grampo, grampeador e saquinhos plásticos. O casal começaria pelo mais simples possível”, segundo um trecho do livro Pressa de Futuro, escrito por Rogério Godinho, que conta a trajetória de Donaduzzi e sua mulher.
O próximo passo era produzir algum tipo de medicamento. Carmen estudou livros, enciclopédias, e o primeiro produto a ser feito pelo casal foi a pasta d’água, usada para tratar queimaduras, assaduras e irritações de pele. Depois vieram algumas cápsulas feitas manualmente — e com muito esforço de Carmen e Luiz.
Após muitas idas e vindas, de volta ao Sul, o casal deu início à construção da Prati-Donaduzzi. Naquela época, o governo do Paraná dava incentivos para empresas que quisessem investir e gerar empregos na região. A cidade escolhida foi Toledo. Ali, a farmacêutica começou a produzir medicamentos quase que de forma artesanal, sem máquinas — as primeiras que chegaram à fábrica eram usadas e tiveram de passar por consertos e adaptações.
Hoje a Prati-Donaduzzi tem capacidade para produzir 17 bilhões de doses por ano e conta com uma equipe de mais de 5 mil profissionais. A empresa fechou o ano de 2024 com faturamento de R$ 2,4 bilhões, e a expectativa é de, em 2027, chegar a R$ 4 bilhões — uma receita mais de 10 vezes superior à de 2013.
Em 2016, o casal Donaduzzi decidiu profissionalizar a gestão da empresa e entregou o comando para Eder Fernando Maffissoni, que era o diretor de Marketing da companhia. Hoje Donaduzzi está no conselho de administração. “Vou lá, fico por duas horas, aprovo as compras e os investimentos e confio no trabalho dos executivos”, diz ele.
Após deixar a presidência da empresa, então com 61 anos, o empresário passou a ter mais tempo para pensar em outras iniciativas. Mas ele não queria ter mais um negócio para ganhar dinheiro. Seu objetivo era criar algo que pudesse ajudar a vida das pessoas, diz.
“A empresa vale em torno de R$ 8 bilhões, e quem fez isso não fomos nós. Foram os trabalhadores”, diz ele. O casal não tem o objetivo de vender, ter sócio ou abrir o capital da companhia. “Seria como vender as crianças”, diz Donaduzzi.
Cidade tecnológica
Atualmente, o cotidiano deles envolve outras iniciativas. A principal consiste em gastar boa parte da fortuna acumulada na criação do Biopark, uma espécie de cidade tecnológica e voltada para a educação, de 5 milhões de metros quadrados (m²), localizada a 10 quilômetros de Toledo, onde fica a Prati-Donaduzzi. Para desenvolver o projeto, o casal criou uma associação para transferir parte da fortuna e investir no ensino, empreendedorismo e inovação. Isso tudo dentro do Biopark.
A ideia, conforme o livro que relata a vida dos Donaduzzi, era criar um projeto como o de Sophia Antipolis (um parque tecnológico localizado a noroeste de Antibes e sudoeste de Nice, no sul da França), uma região que em 1969 havia sido capaz de atrair grandes corporações com a estratégia de estimular a inovação. “Décadas depois, a região empregava mais de 40 mil pessoas em pesquisa científica de ponta.”
No futuro, a minicidade dos Donaduzzi poderá abrigar 75 mil pessoas, incluindo parte dos profissionais da farmacêutica e suas famílias. O casal afirma já ter investido R$ 402 milhões no projeto e diz que ainda deve colocar mais R$ 400 milhões.
O ensino no Brasil remonta à Revolução Industrial, ao estilo das casernas e prisões. Nós pedimos para a prefeitura a lista de crianças consideradas problemas, para trazermos para nossa escola.
Carmen Donaduzzi
Isso envolve residências para as famílias que terão crianças estudando no local, um hospital comunitário, doado para a Universidade Federal do Paraná, e faculdade. Hoje as moradias são cedidas como benefício aos estudantes bolsistas do Biopark que atendem a uma série de requisitos. Há também algumas unidades onde moram colaboradores da indústria. “Queremos tudo assim. Vamos estar mortos em 10 anos”, brinca Luiz.
O coração do empreendimento é desenvolver uma educação de qualidade, desde a infância até o ensino superior. A origem da iniciativa foi perceber que as crianças-problema do ensino tradicional eram apenas malconduzidas e que poderiam ter alto desempenho e fazer a diferença na sociedade. A escola é gratuita para os alunos selecionados, assim como os outros estabelecimentos do Biopark.
“O ensino no Brasil remonta à Revolução Industrial, ao estilo das casernas e prisões”, diz Carmen. “Nós pedimos para a prefeitura a lista de crianças consideradas problemas, para trazermos para nossa escola.”
Eles são estimulados a participar de uma incubadora infantil de invenções, que já construiu coisas que vão de pequenos foguetes e cadeiras de rodas elétricas até a formas de acabar com o cascudinho do frango, uma praga que afeta a produção agrícola. “A mudança no ensino não vai vir dos insiders dessa área, mas sim com os outsiders”, defende Luiz. “E a inteligência artificial vai chegar como um tsunami.”
Os Donaduzzis doaram parte do terreno para receber um campus da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR) e construíram um espaço para ter outro campus da UFPR. Também trouxe o Clube de Ciências, o projeto para crianças e adolescentes entre 8 e 17 anos, que surgiu ainda dentro da Prati-Donaduzzi.
Para outros alunos, foi construído um colégio, e no futuro deve ter ainda uma creche. Por fim, há uma faculdade, a Biopark Educação, que promove cursos de ciência e tecnologia, engenharia de biotecnologia, farmácia, administração de empresas, tecnologia, ciência de dados, engenharia de software, inteligência artificial, psicologia e pedagogia.
“Queremos transformá-la numa universidade, em sete ou oito anos. Para isso, ainda precisaremos ter mais cursos, como os de engenharia e pedagogia”, afirma Carmen.
Os filhos do casal estão no empreendimento: Victor Donaduzzi, formado em química, é diretor comercial do Biopark e Sara Donaduzzi, que cursou psicologia, atua na parte de RH do Biopark. O trabalho do casal de empresários é para que os filhos continuem a perpetuar o mantra que começou com Aldemar Donaduzzi: levar educação e conhecimento a um número cada vez maior de crianças.
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