A próxima revolução do software corporativo está em arquiteturas que tornam a inteligência contínua e integrada a cada fluxo de negócio
ENRIQUE DANS – Fast Company Brasil – 12-11-2025
Executivos adoram dizer que estão “adotando IA” em seus negócios. Mas a maioria ainda enxerga a inteligência artificial como um acessório, não como algo central: colocam um chatbot aqui, automatizam um relatório ali – e chamam isso de transformação. É o mesmo erro que muitas empresas cometeram no início da internet, quando criavam sites que funcionavam apenas como vitrines digitais, sem repensar seus modelos de negócio a partir da interação online.
A IA não é um complemento. É uma camada estrutural que pode redefinir como as empresas funcionam – dos fluxos de trabalho às decisões e produtos. Quem tratá-la como um simples enfeite vai ficar para trás; quem a incorporar à estrutura do negócio vai liderar.
Como disse o estrategista de produto Connor Davis, “em breve, toda grande empresa terá uma camada agente – um sistema que não só automatiza tarefas, como também as organiza e conecta entre diferentes áreas.”
Essa diferença é fundamental. Automação é sobre eficiência: fazer o que já se faz, só que de forma mais rápida e barata. Agência é sobre delegar: deixar que o sistema tome decisões, coordene ações e até gerencie outros softwares por você. É a evolução de ferramentas que apenas seguem comandos para assistentes que entendem o contexto.
A mudança parece sutil, mas é profunda. Quando uma equipe financeira usa um modelo de linguagem para resumir relatórios trimestrais, isso é automação. Quando esse mesmo sistema identifica anomalias, ajusta projeções e envia recomendações ao diretor financeiro, isso é agência.
Empresas que perceberam essa virada já estão se reorganizando. Elas não estão apenas integrando IA aos seus processos – estão redesenhando todo o fluxo de trabalho em torno da inteligência artificial.
O QUE SIGNIFICA SER “IA FIRST”
Colocar a inteligência artificial no centro de tudo – o tão falado “IA first” –, não significa usar o modelo mais recente nem adicionar recursos generativos. Significa criar produtos e processos que já nascem com inteligência integrada – como parte do seu DNA.
Como explicou Andrew Bolis: “a IA será a camada que conecta e orquestra todas as ferramentas SaaS [software como serviço]. Em vez de pessoas pulando de um aplicativo para outro, os agentes executarão suas intenções de forma automática entre os sistemas.”
Esse é o futuro dos softwares corporativos. Hoje, as pessoas ainda são o elo entre ferramentas – copiando dados entre CRMs, planilhas e dashboards. No futuro, a camada agente fará isso automaticamente, transformando sistemas isolados em um único “organismo” inteligente e adaptável.
Essa evolução lembra o que aconteceu quando as APIs mudaram a internet. No início, as empresas criavam aplicativos separados. Depois, as APIs começaram a conectá-los. Agora, os agentes de IA farão o mesmo – mas também tomarão decisões.
OS TRÊS PILARES DE UMA ARQUITETURA IA FIRST
Empresas que realmente colocam a IA no centro têm três pilares em comum:
- Um sistema de dados inteligente, não apenas um repositório
Sistemas tradicionais apenas armazenam informações; sistemas IA first as compreendem. Isso exige criar camadas contextuais – como embeddings, grafos de conhecimento e mecanismos de busca semântica – que permitam acessar dados em linguagem natural e usá-los em tempo real. - Uma interface baseada em linguagem
Se sua equipe ainda precisa clicar em menus e navegar por painéis, vocês estão atrasados. Em empresas IA first, a interação acontece por meio da linguagem – por voz, texto ou comandos sensíveis ao contexto. A interface se torna conversacional porque o trabalho passa a ser cognitivo. - Uma camada de agentes autônomos
Toda empresa IA first precisa de uma camada de orquestração que possa agir de forma autônoma dentro de limites definidos. Esses agentes não apenas buscam informações: eles executam tarefas – escrevem códigos, agendam reuniões, fazem compras, atendem clientes e realizam verificações de compliance. A questão não é se eles funcionam, mas o quanto você está disposto a confiar neles.
A MUDANÇA CULTURAL QUE OS EXECUTIVOS PRECISAM LIDERAR
Essa transformação não é só técnica – é, acima de tudo, cultural. Construir uma organização IA first exige que líderes deixem para trás décadas de pensamento linear sobre processos e hierarquias.
A pergunta agora não é mais “como a tecnologia pode ajudar nossos funcionários”, mas “como os funcionários podem supervisionar uma tecnologia que trabalha ao lado deles”. O gestor de amanhã não vai apenas liderar pessoas – vai coordenar pessoas e agentes.
Executivos que enxergam a IA apenas como mais uma ferramenta não vão perceber essa mudança. A questão certa a se fazer não é “qual software comprar”, e sim “quais decisões estamos prontos para delegar às máquinas”.
Essa nova era exige um modelo de governança diferente: limites éticos claros, transparência sobre dados e mecanismos de supervisão que garantam que as decisões da inteligência artificial sejam auditáveis e explicáveis. Empresas que não definirem essas regras desde cedo acabarão com sistemas que funcionam – mas que servem aos objetivos errados.
O futuro dos agentes de IA não é algo distante – ele já chegou. A grande pergunta é: sua empresa está pronta para parar de testar e começar a delegar?
SOBRE O AUTOR
Enrique Dans leciona inovação na IE Business School desde 1990, hackeando a educação como consultor sênior de transformação digital na IE University e agora se dedicando ainda mais à Turing Dream.
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