Rodadas de arrecadação criam ‘fortalezas contábeis’ que superaram o recorde de 2021
Investidores aconselham principais empresas a se prepararem para tempos mais difíceis
George Hammond – Folha/Financial Times – 29.dez.2025
As startups mais faladas do Vale do Silício levantaram US$ 150 bilhões em financiamento neste ano, enquanto seus investidores as aconselham a construir “fortalezas contábeis” para se proteger caso o boom de investimentos em inteligência artificial colapse em 2026.
Dados da PitchBook mostram que as maiores empresas de capital fechado dos Estados Unidos captaram um volume recorde em 2025, superando com folga o pico anterior de US$ 92 bilhões registrado em 2021, à medida que investidores correram para apoiar os principais grupos de IA, como OpenAI e Anthropic.
Capitalistas de risco e especialistas do setor disseram que o dinheiro ajudará a blindar os fundadores contra uma retração nos investimentos, à medida que os mercados acionários começam a se preocupar com os gastos elevados em infraestrutura de IA —além de impulsionar o crescimento.
Outras empresas de IA em rápido crescimento, incluindo o grupo de agentes de programação Anysphere, a empresa de busca Perplexity e a startup de pesquisa em IA Thinking Machines Lab, também recorreram várias vezes ao capital de risco ao longo do ano.
Vários investidores disseram ter aconselhado as startups a formar reservas enquanto o entusiasmo em torno do potencial da IA para transformar a economia permanecesse elevado.
“O maior risco [para fundadores de startups] é não levantar dinheiro suficiente, o ambiente de financiamento secar e o negócio ir a zero”, disse Ryan Biggs, co-chefe de investimentos em capital de risco da Franklin Templeton. “Ou você aceita um pouco de diluição e, se o negócio der certo, isso realmente não importa: você continuará extraordinariamente rico de qualquer forma.”
Em média, as startups levantam novas rodadas de financiamento a cada dois ou três anos, segundo a Carta, empresa de software que acompanha os mercados privados. Recentemente, porém, as startups de IA com melhor desempenho têm voltado aos investidores em questão de meses —mesmo com o financiamento secando para muitas empresas menores.
“Os investidores estão se concentrando nesses negócios de estágio mais avançado, onde há mais certeza sobre quem será o vencedor”, disse Biggs. “Há uma dúzia de empresas nas quais você quer estar. Fora isso, o cenário é desafiador.”
Outro fator por trás do boom de captações em 2025 é que os principais grupos de IA estão crescendo em um ritmo muito mais rápido do que startups de tecnologia do passado.
A avaliação da Anysphere, criadora da ferramenta de programação Cursor, saltou de US$ 2,6 bilhões no início do ano para US$ 27 bilhões em novembro. No mesmo período, sua receita recorrente anual —métrica favorecida por startups de rápido crescimento— aumentou cerca de 20 vezes, chegando a US$ 1 bilhão.
A Perplexity, mecanismo de busca com IA que busca desafiar o Google, levantou dinheiro quatro vezes no último ano, apesar de seus executivos afirmarem que não precisam de mais caixa.
Pressões de custo levaram a captações mais frequentes, especialmente entre empresas que desenvolvem modelos de IA de “fronteira”, que exigem enormes quantidades de poder computacional e chips caros.
As receitas da OpenAI em 2025 giram em torno de US$ 13 bilhões, segundo pessoas próximas à empresa, mas o grupo perde bilhões de dólares por ano à medida que investe no desenvolvimento de seus modelos, produtos e infraestrutura.
Rodadas de financiamento de alto perfil também são oportunidades para as startups se promoverem junto a potenciais clientes e funcionários em um mercado extremamente competitivo por engenheiros de IA.
A enxurrada de negócios fez com que muitas firmas de capital de risco consumissem caixa mais rapidamente do que o previsto. Algumas das maiores já iniciaram o processo de captação de novos fundos. Entre elas estão Thrive Capital, Andreessen Horowitz e Tiger Global, segundo registros públicos e pessoas familiarizadas com o assunto.
Grupos como Lightspeed Venture Partners e Dragoneer levantaram novos fundos de vários bilhões de dólares em dezembro, sinalizando que as startups mais disputadas ainda conseguirão acessar mais capital de risco em 2026.
Investidores também disseram que os fundadores das maiores startups estão reforçando seus balanços para aproveitar oportunidades de aquisição, especialmente se o sentimento dos investidores mudar no próximo ano e concorrentes menores tiverem dificuldade para captar recursos.
“Apertem os cintos”, disse Jeremy Kranz, fundador da firma de capital de risco Sentinel Global e ex-chefe de investimentos em tecnologia do fundo soberano de Cingapura GIC.
“Vai ser como uma aquisição por semana no momento em que houver um susto nos mercados públicos. Esses caras vão pegar sua capitalização de mercado de US$ 500 bilhões como empresa de capital fechado e sair comprando tudo.”
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Surpreso, acabo de saber que a Wikipédia me aposentou como biógrafo
Mas o que seria dela sem a miríade de informações que chupa alegremente dos biógrafos e historiadores?
Ruy Castro – Folha – 27.dez.2025
Artigo recente num site a respeito da produção de biografias afirma que, em vista da tecnologia, os biógrafos terão de procurar novas maneiras de trabalhar se quiserem continuar a ter leitores. De repente, vejo-me citado: “Até há pouco, quem quisesse saber sobre a vida da Carmen Miranda teria de ler o livro do Ruy Castro [“Carmen, Uma Biografia”]. Hoje temos a Wikipédia“. Epa! Sem saber, eu fora aposentado pela Wikipédia! Que chato! E logo agora que ainda me via com anos de trabalho pela frente! Conformado, calcei as pantufas, sentei-me na cadeira de balanço, estendi uma manta sobre as pernas e fui à dita Wikipédia para aprender sobre Carmen Miranda.
O verbete de Carmen na Wikipédia tem nada menos que 34 telas. Fui brindado com duas generosas menções ao meu livro, o que achei justo —ou ele teria de se referir a mim em pelo menos metade das linhas. Dele constam informações que levantei sobre Carmen até então nunca publicadas —sua infância na Lapa, seus namorados, as pessoas que a ajudaram a deslanchar como cantora e detalhes íntimos sobre suas dependências químicas.
Ainda me lembro de como foi difícil chegar a elas nos cinco anos de trabalho que o livro me tomou, envolvendo mais de 250 informantes e colaboradores. Hoje este livro não poderia ser feito, porque 100% das pessoas que conviveram com Carmen e com quem falei entre 2000 e 2005 já morreram. E não me consta que a tão reputada Wikipédia tenha a capacidade de ressuscitar fontes.
Aliás, pergunto-me como seria a Wikipédia sem a miríade de informações a custo levantadas pelos biógrafos e historiadores, os quais, tendo suas obras publicadas, veem essas informações tornadas públicas e, daí, aptas a serem alegremente chupadas por ela e servidas ao público à revelia deles.
“Carmen, Uma Biografia” não é o meu único livro a abastecer verbetes da Wikipédia —Wikipédia esta que não me serviu de muita coisa quando eu os estava escrevendo. No fundo, é como se eu estivesse alimentando o monstro que me destruirá.
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A inteligência artificial parece ser mais útil quando o texto é simples e segue uma fórmula
FRANCESCO AGNELLINI – Fast Company Brasil – 27-12-2025
Com o avanço da inteligência artificial generativa, ficou cada vez mais difícil saber se um texto foi escrito por um humano ou por uma máquina. E, de acordo com um estudo divulgado pela empresa de marketing digital Graphite, mais da metade dos artigos publicados na internet hoje já é produzida por IA.
Se é mais provável encontrar textos gerados por modelos de inteligência artificial do que por pessoas, seria só uma questão de tempo até que a escrita humana se torne obsoleta? Ou estaríamos apenas diante de um avanço tecnológico ao qual acabaremos nos adaptando?
Pensar sobre essas questões me fez lembrar de “Apocalípticos e Integrados”, de Umberto Eco, uma coletânea de ensaios escritos no início dos anos 1960.
Neles, Eco descreve duas posturas diante das mídias de massa. De um lado, os “apocalípticos”, que temem a decadência cultural e o colapso moral. Do outro, os “integrados”, que celebram novas tecnologias como um avanço democrático para a cultura. Na época, Eco falava sobre rádio e TV.
Mas hoje, podemos ver esses mesmos comportamentos em relação à IA. Eco argumentava que nenhum desses extremos ajuda a avançar o debate. Não faz sentido encarar uma nova mídia como uma ameaça total ou solução milagrosa. Em vez disso, sugeria observar como as pessoas e comunidades realmente utilizam essas ferramentas, quais riscos e oportunidades surgem e como essas tecnologias moldam – e às vezes reforçam – as estruturas de poder.
“O QUE ACONTECERÁ COM O TRABALHO CRIATIVO – TANTO COMO PROFISSÃO QUANTO COMO FONTE DE SIGNIFICADO?”
É claro que os temores que a IA desperta entre os defensores da democracia não são os mesmos que afligem escritores e artistas. Para esses profissionais, a questão central é a autoria: como competir com sistemas treinados com base em milhões de textos e capazes de escrever em altíssima velocidade? E, caso isso se torne a norma, o que acontecerá com o trabalho criativo – tanto como profissão quanto como fonte de significado?
Antes de tudo, é importante esclarecer o que o estudo da Graphite chama de “conteúdo online”. Eles analisaram mais de 65 mil artigos aleatórios com pelo menos 100 palavras – um universo que inclui desde pesquisas científicas até textos promocionais sobre suplementos “milagrosos”.
Um olhar mais atento revela que a maior parte do conteúdo gerado está em textos voltados ao grande público: notícias, tutoriais, posts de lifestyle, resenhas e explicações sobre produtos.
Do ponto de vista econômico, esse tipo de conteúdo existe para informar ou persuadir, não para ser original ou criativo. Em outras palavras, a IA parece ser mais útil quando o texto é de baixo risco e segue uma fórmula – como uma carta de apresentação ou um texto de divulgação.
E é justamente desse tipo de demanda que vive toda uma indústria de escritores freelance – inclusive muitos tradutores – que produzem posts para blogs, textos instrutivos, materiais para SEO e conteúdos para redes sociais. A chegada dos grandes modelos de linguagem já eliminou boa parte desses trabalhos.
A IA PARECE SER MAIS ÚTIL QUANDO O TEXTO SEGUE UMA FÓRMULA – COMO UMA CARTA DE APRESENTAÇÃO OU UM TEXTO DE DIVULGAÇÃO.
VOZES HUMANAS IMPORTAM AINDA MAIS
Mas o que acontece quando as pessoas passam a depender da inteligência artificial para escrever? Pesquisas mostram que a IA pode até ajudar a superar o bloqueio criativo, mas, ao mesmo tempo, tende a reduzir a diversidade de pensamentos.
Isso aparece no estilo de escrita: os sistemas acabam empurrando os usuários para formas parecidas de escrever, apagando nuances que normalmente tornam a voz de cada pessoa única.
Pesquisadores também observam uma tendência a padrões de escrita ocidentais – especialmente do inglês – entre pessoas de outras culturas, o que levanta preocupações sobre um novo tipo de colonialismo alimentado pela IA.
SE CONSIDERARMOS QUE A IA DEVE CONTINUAR EVOLUINDO, É PROVÁVEL QUE TEXTOS HUMANOS REFLEXIVOS E ORIGINAIS SE TORNEM MAIS VALORIZADOS
Nesse cenário, textos que expressam personalidade, intenção e originalidade tendem a ganhar ainda mais valor no ecossistema de mídia – e podem desempenhar um papel fundamental no treinamento das próximas gerações de modelos de linguagem.
Se deixarmos de lado os cenários mais catastróficos e considerarmos que a IA deve continuar evoluindo – talvez em ritmo menor do que o dos últimos anos –, é bem provável que textos humanos reflexivos e originais se tornem ainda mais valorizados.
Em outras palavras: o trabalho de escritores, jornalistas e pensadores não vai perder relevância só porque boa parte do conteúdo online já não é mais escrita por humanos.
Francesco Agnellini é professor de estudos digitais e de dados na Universidade de Binghamton, Universidade Estadual de Nova York.
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Entreguei recentemente um dos projetos mais transformadores da minha carreira – e, curiosamente, ele começou de forma bastante convencional: um pedido do Sebrae, em parceria com a consultoria ABGI, para produzir um relatório sobre políticas públicas de ecossistemas de inovação ao redor do mundo. O escopo parecia típico de consultoria: mapear falhas de mercado, analisar experiências internacionais, propor recomendações estruturadas para o Brasil. Só que, no meio do caminho, algo mudou de escala – e de natureza – a ponto de transformar o que seria um simples relatório em uma plataforma tecnológica interativa viva e, junto com ela, a minha própria visão sobre o futuro do trabalho intelectual.
Em vez de me apoiar apenas em pesquisa manual – ou mesmo auxiliada por assistentes, como o ChatGPT -, decidi experimentar algo que vinha testando em projetos menores: orquestrar agentes autônomos de inteligência artificial para fazer, em paralelo, aquilo que nenhum consultor conseguiria fazer sozinho em tempo hábil. Um único agente automatizado rodou algumas horas e voltou com uma base de 16,4 mil buscas em dez idiomas, algo humanamente inalcançável nesse prazo. A partir daí, eu sabia que a única forma de trabalhar com um volume tão grande de resultados, era usando ainda mais IA.
Então criei uma espécie de “equipe invisível”: um agente traduzia, outro classificava, outro sintetizava, outro cruzava dados, todos operando em ciclos de calibração em que eu deixava de ser executor e passava a ser uma espécie de maestro do sistema.
O resultado dessa orquestração não coube em um PDF de 200 páginas. Em vez de um documento estático, nasceu a Lupa IA, uma plataforma web interativa onde qualquer pessoa pode explorar políticas públicas em diferentes países, filtrar por temas, visualizar relações semânticas em grafos e até conversar, em linguagem natural, com uma agente treinada sobre a própria base de dados. O que antes se encerraria em um relatório que envelhece no dia seguinte à entrega virou um produto vivo, atualizável, que continua gerando valor muito depois do fim formal do projeto.
Quando coloquei os números na mesa, percebi que não estava apenas “ganhando eficiência”, mas rompendo uma barreira: as 16.400 buscas e mais de 220 mil análises realizadas equivaleriam, no modelo tradicional, a algo como 12 anos de trabalho de um consultor dedicado, comprimidos em pouco mais de dois meses. Em vez de uma equipe de cinco a oito consultores, mais desenvolvedores, havia um único consultor humano coordenando uma constelação de agentes de IA, por uma fração do custo usual do mercado. Foi ali que caiu a ficha: com IA, pela primeira vez, consegui entregar melhor, mais rápido e mais barato, tudo ao mesmo tempo – algo que sempre me disseram ser impossível sem sacrificar pelo menos uma dessas variáveis.
Essa experiência me deixou com uma sensação ambígua: encantamento com o que se torna possível e certo incômodo com o abismo de competências que começa a se abrir não só nas atividades de consultoria, mas em todas as profissões baseadas em conhecimento. Trinta anos depois de aprender a programar em um monitor de fósforo verde, voltei a “programar sem programar”, usando linguagem natural para construir sistemas complexos.
Percebi que o diferencial já não está em saber o que fazer, mas em saber como fazer e traduzir isso em arquiteturas híbridas entre humano e máquina. O futuro da consultoria – e, em grande medida, do trabalho qualificado – não será reservado a quem ignora a IA, mas a quem consegue transformá-la em extensão do próprio pensamento, multiplicando em 1, 20 vezes ou 70x o alcance do que antes cabia em um único cérebro e em uma única agenda.
Impactado por essa experiência, entendi que está se criando um abismo de conhecimento e habilidades entre os que sabem e os que não sabem operar dentro dessa nova dinâmica.
Esse domínio será cada vez mais fundamental para qualquer negócio ou profissional que quer seguir competitivo. A IA não vão substituir os humanos, mas outros humanos com habilidades para amplificar seu trabalho com IA, vão. O que você faria se seu concorrente passasse a oferecer soluções 20 vezes melhores por um décimo do preço? É sobre isso. E, pensando nisso, eu decidi orientar o trabalho de educação da minha empresa, a 10K Digital, para educar pessoas e organizações sobre esse novo mundo e criar um hub de conhecimento sobre esta temática.
IA não é sobre o futuro. É sobre ser mais produtivo e competitivo agora, de preferência antes que os demais, para aproveitar o momento. Não falo de apenas saber usar ferramentas de IA, mas dominá-las de forma avançada. É a diferença entre saber fazer tabelas e operações simples no Excel e conseguir criar planilhas complexas, conectadas com bancos de dados vivos, com fórmulas complexas e macros avançadas.
Assim como dominar o Excel na década de 1990 ou PowerPoint em 2000 era um diferencial, o conhecimento profundo de IA será a ferramenta mais importante desta década, com a diferença de que o tamanho dos benefícios e ganhos em produtividade é muito maior, assim como a velocidade dos desenvolvimentos na área.
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Inteligências artificiais chinesas são mais baratas e mais rápidas
Ronaldo Lemos – Folha – 16.nov.2025
Gafes revelam verdades. Veja esta. Uma startup de IA (Inteligência Artificial) do Vale do Silício, nos Estados Unidos, apresentou há poucos dias sua inteligência artificial capaz de programar.
Chamada Cursor, a empresa deixou o público impressionado com a competência e a velocidade do seu produto, muito superior à concorrência. No entanto, um detalhe chamou a atenção: a ferramenta ficava trocando as instruções em inglês por caracteres chineses enquanto realizava as tarefas.
Isso levantou a suspeita de que o produto foi construído em cima de uma IA chinesa de código aberto (a empresa não quis comentar). Se for verdade, a Cursor não está sozinha. O presidente do Airbnb revelou no mês passado que está usando uma IA do Alibaba, chamada Qwen, para o atendimento dos clientes. A razão alegada é que o Qwen seria “rápido e barato”.
Várias outras empresas americanas estão começando a usar IAs chinesas. A razão é significativa. Enquanto os EUA apostam em modelos de IA fechados, os chineses apostam em modelos abertos. Os primeiros têm se mostrado caros, pouco flexíveis e lentos.
Já os modelos chineses têm apresentado performance comparável aos modelos americanos. Mas são rápidos, baratos e “open source” (podem ser customizados, retreinados e operar a partir de servidores próprios).
Por exemplo, a empresa chinesa MiniMax alega que seu modelo M2 é comparável em competência ao modelo Claude Sonnet 4.5 da Anthropic. No entanto, o M2 custa 92% mais barato no uso que o modelo americano.
Essa inflexão já é visível nos rankings. Pegue o top dez das maiores empresas de IA em participação de mercado medida pela Openrouter. Quatro delas são chinesas: Deepseek, Qwen, Minimax e Z-AI. Em novembro de 2024 não havia nenhuma chinesa na lista.
Em outro ranking que mede somente os modelos de código aberto mais baixados, o Qwen está em terceiro lugar, logo abaixo da OpenAI e da Meta. No entanto, em termos de criação de modelos customizados a partir dele, o Qwen está na liderança, com mais de 170 mil novas IAs criadas com ele (dados da Hugging Face).
Tudo isso mostra um duelo entre filosofias distintas. As IAs americanas têm sido platônicas. Têm focado modelos de alta capacidade teórica, mas fechados, e deixando de lado preço e velocidade. As chinesas têm sido aristotélicas. Focadas em resolver problemas da realidade com modelos abertos, que podem ser retreinados e customizados, velozes e com preço menor.
Em outras palavras, as IAs americanas são modelos de grande “sabedoria”, mas ainda divorciadas da realidade prática. As chinesas pensam a sabedoria como algo instrumental, para resolver problemas que existem aqui e agora.
Tudo lembra a frase que Gurdjieff disse ainda nos anos 1920 e pode ser chave para pensar a inteligência artificial: “Se a sabedoria se distancia demais da existência, ela se torna nociva. Em vez de servir à vida e ajudar as pessoas em seus desafios, começa a complicar a vida humana, trazendo novas dificuldades, problemas e calamidades que não havia antes. Civilizações inteiras pereceram porque a sabedoria divorciou-se da existência, ou a existência se divorciou da sabedoria”. Escutemos G.
READER
Já era – Um mundo sem robôs
Já é – Inteligências artificiais fingindo ser humanas
Já vem –Humanos fingindo ser bots (como no movimento 我在人间当bot – “Sou um bot entre os humanos”, na China)
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Aplicativos de vídeos hiper-realistas como o Sora, da OpenAI, inundaram as redes recentemente e levaram a reações como Zelda Williams, filha do ator Robin Williams, que pediu que parassem de lhe enviar conteúdos com a imagem do pai
Por AFP – 24/12/2025
Em uma realidade paralela, a rainha Elizabeth II elogia bolinhos de queijo em um supermercado, um Saddam Hussein armado até os dentes entra se exibindo em um ringue de luta livre e o Papa João Paulo II tenta andar de skate.
Vídeos hiper-realistas de celebridades falecidas, criados com aplicativos de inteligência artificial (IA) fáceis de usar, como o Sora, da OpenAI, inundam as redes sociais e suscitam um debate sobre o controle de imagem de pessoas comuns e personalidades já falecidas.
O aplicativo da OpenAI, lançado em setembro e considerado por muitos uma máquina de deepfakes (ou seja, conteúdos hiper-realistas falsos gerados por IA), produziu um fluxo de vídeos de personalidades históricas, incluindo Winston Churchill, além de celebridades como Michael Jackson e Elvis Presley.
Em um clipe no TikTok, a rainha Elizabeth II, usando coroa e colar de pérolas, chega de scooter em um combate de luta livre, passa pela corda e pula sobre um lutador. Em outro clipe no Facebook, a rainha elogia bolinhos de queijo no corredor de um supermercado. E também aparece jogando futebol em outro.
Pode ser engraçado, mas nem todos os vídeos gerados pelo modelo Sora 2, da OpenAI, provocaram risos.
Em outubro, a gigante da IA impediu os usuários de seu aplicativo Sora de criarem vídeos usando a imagem de Martin Luther King Jr. após queixas de seus herdeiros. Alguns usuários fizeram vídeos nos quais este ícone da luta pelos direitos civis rugia como um macaco durante seu famoso discurso “I have a dream” (“Eu tenho um sonho”), e fazia comentários grosseiros, ofensivos ou racistas.
— Estamos entrando no “vale da estranheza” — explicou Constance de Saint Laurent, professora da Universidade de Maynooth, na Irlanda, em alusão à teoria segundo a qual um objeto que alcança certo grau de semelhança antropomórfica ou de hiper-realismo provoca uma sensação de angústia e mal-estar.
— Se, de repente, você começar a receber vídeos de um ente querido falecido, seria traumático — disse ela. — Estes vídeos têm consequências reais.
Nas últimas semanas, os filhos do ator Robin Williams e do ativista Malcolm X condenaram o uso do Sora para criar vídeos de seus pais falecidos.
Zelda Williams, filha de Robin Williams, pediu recentemente no Instagram que parassem de lhe enviar clipes do pai gerados por IA. “É enlouquecedor”, afirmou ela.
Um porta-voz da OpenAI reconheceu que, embora “em nome da liberdade de expressão exista um forte interesse na representação de figuras históricas”, as personalidades públicas e suas famílias deveriam ter controle final sobre sua imagem. Para as personalidades falecidas recentemente, representantes autorizados agora podem solicitar que sua imagem não seja usada no Sora, acrescentou.
— Apesar de a OpenAI afirmar sua vontade de permitir às pessoas controlar sua imagem, publicaram uma ferramenta que claramente faz o contrário — afirmou Hany Farid, cofundador da empresa americana de cibersegurança GetReal Security e professor da Universidade da Califórnia em Berkeley. — Embora, em grande medida, tenham posto fim à criação de vídeos de Martin Luther King Jr., não impedem que os usuários se apropriem da identidade de muitas outras celebridades.
Falta de restrição
O problema é que o uso da imagem de determinadas personagens públicas não está restrito a um único sistema de inteligência artificial.
— Para além de a OpenAI implementar certas proteções para essa figura política, haverá outro modelo de IA que não o fará, e portanto este problema só vai piorar — advertiu Farid.
Isto ficou evidente após o assassinato este mês do diretor de cinema americano Rob Reiner, morto com a mulher, Michelle Singer, por um filho do casal, Nick. Os checadores da AFP descobriram clipes com sua imagem gerados por IA divulgados on-line.
À medida que proliferam as ferramentas avançadas de IA, a vulnerabilidade não se limita mais às figuras públicas: pessoas falecidas não famosas também podem ter seus nomes, sua imagem e suas palavras distorcidos com objetivos de manipulação.
Pesquisadores advertem que a propagação descontrolada de conteúdo sintético — chamado “AI slop” (“lixo de IA”, em tradução livre) — poderia, em última instância, afugentar os usuários das redes sociais.
— O problema da desinformação em geral não é tanto que as pessoas acreditem nela. Muita gente não acredita — disse Saint Laurent. — O problema é que veem informação real e não confiam que seja verdade. E ferramentas como o Sora vão amplificar massivamente este fenômeno.
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A colunista Tatiana Iwai escreve sobre um tipo de comportamento vinculado ao uso de tecnologia no trabalho que pode levar a danos reputacionais
Por Tatiana Iwai – Valor – 21/10/2025
A cada dia, aprendemos um pouco mais sobre as potencialidades da IA, assim como sobre os desafios que ela traz. Uma pesquisa recém-publicada na “Harvard Business Review” nomeia um desafio que experimentamos no trabalho já há algum tempo. É um novo tipo de oportunismo: o “workslop” produzido pela IA generativa.
Possivelmente, você já teve o desprazer de recebê-lo. À primeira vista, o material parece de qualidade – um relatório ou texto bem escrito e estruturado, ou uma apresentação visualmente bem acabada e com narrativa coerente. Mas, uma leitura atenta revela o vazio por trás da forma. É um conteúdo raso e repetitivo, sem a substância necessária para realmente avançar o trabalho. Ou seja,, o workslop inverte o propósito central da IA. Em vez de aumentar produtividade ao apoiar a criação e lapidação de trabalhos de qualidade, gera apenas pseudo-trabalho.
Ainda que o termo workslop seja novo, o comportamento que ele descreve não é. A falta de comprometimento sempre foi uma das principais barreiras para a dinâmica de times de alto desempenho, especialmente em projetos complexos e inovadores, que exigem tarefas interdependentes, realizadas por várias mãos e diferentes expertises.
Para que o time funcione, há uma expectativa tácita: cada membro deve se responsabilizar por sua parte de forma confiável e com qualidade. Quando alguém não entrega, atrasa ou entrega algo claramente malfeito, o problema é nítido. O workslop é mais sutil. Relatórios longos, textos aparentemente bem estruturados ou apresentações polidas criam a ilusão de um trabalho bem executado. Mas, na prática, escondem um vazio que obriga colegas a refazer ou melhorar algo que parecia estar pronto. É o free-riding – a carona no esforço alheio – em versão digital, mas mais difícil de detectar e, justamente por isso, mais silencioso.
Os pesquisadores de Stanford e da BetterUp Labs, responsáveis pelo estudo, mostram o impacto concreto na produtividade. Na amostra com mais de mil profissionais, 40% reportaram ter recebido workslop no mês anterior e desperdiçado, em média, duas horas para consertá-lo. Ao cruzar este tempo com sua remuneração reportada, o estudo calculou um custo de 186 dólares por trabalhador por mês. Em uma organização de dez mil funcionários, os pesquisadores estimam uma perda de 9 milhões em produtividade por ano. Não é pouco.
Para além destes impactos, podemos pensar ainda em outro menos visível, mas não menos danoso: a quebra de confiança entre as pessoas. À primeira vista, pode parecer que o workslop prejudica apenas a percepção de competência do colega. Ou seja, ao se engajar em workslop e entregar algo de baixo esforço e qualidade, a pessoa passa a ser vista como menos adequada para projetos de maior visibilidade e importância. Isso, por si só, já seria preocupante. O dano reputacional, porém, pode ser ainda mais profundo.
Pesquisas em confiança interpessoal indicam que ela se forma a partir de três julgamentos centrais. Ao avaliar se alguém é confiável, levamos em conta: competência, ou seja, se a pessoa é capaz de entregar o que prometeu; integridade, se cumpre suas promessas e mantém consistência entre o que diz e faz; e, benevolência, se demonstra cuidado conosco, levando em conta nosso bem-estar e evitando agir de forma a nos prejudicar.
Quem se engaja em workslop não está terceirizando o trabalho para a tecnologia, mas para o colega. Ao outro, recai o fardo de lidar com um material longo e vazio, sem profundidade, cheio de lacunas e imprecisões grosseiras e ainda refazer tudo. Muitas vezes, revisar e corrigir workslop é mais custoso do que executar a tarefa do zero. Mais do que tempo e esforço perdidos, fica a frustração de ter sido enganado. Com isso, o trabalho de má qualidade resultante do workslop tende a ser visto menos como falta de competência e mais como sinal de baixa benevolência ou integridade. E essas são violações de confiança muito mais difíceis de reparar.
Um episódio que sinaliza menor competência é, em geral, mais fácil de superar. Demonstrações de competência podem variar conforme o tipo de tarefa, pressão de tempo ou outros fatores circunstanciais, de modo que mesmo alguém competente pode, ocasionalmente, entregar algo aquém do esperado. Já quando se trata de benevolência e integridade, a história é diferente. Um único episódio em que a pessoa demonstra descaso com o outro pode deixar marcas mais duradouras. Afinal, não se espera que integridade e benevolência oscilem conforme a conveniência. Aqui, há menos nuances e atenuantes. A pessoa é ou não íntegra. Ela se importa ou não com o outro. E um único episódio pode revelar algo visto como estável e definitivo.
Claro que episódios de workslop podem ser vistos como falhas interpessoais menores, que configuram quebras de confiança de menor severidade. Ainda assim, vale a reflexão sobre seus riscos e trade-offs de curto e longo prazo. Ainda que o workslop possa poupar tempo de forma imediata, há um preço alto e invisível a ser pago: o desgaste da reputação ao longo do tempo. Afinal, reputação, ao contrário de um relatório vazio, não se reconstrói em duas horas de retrabalho.
Tatiana Iwai é professora e pesquisadora de comportamento e liderança no Insper. Coordenadora do Núcleo de Comportamento Organizacional e Gestão de Pessoas do Centro de Estudos em Negócios do Insper. Doutora em Administração de Empresas pela Fundação Getúlio Vargas (FGV). Ao longo de sua carreira, atuou como consultora de mudança organizacional, desenvolvendo projetos para empresas nacionais e multinacionais.
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Corredor interoceânico mexicano cria caminho entre Atlântico e Pacífico, desafia o Canal do Panamá no Istmo de Tehuantepec e impulsiona o nearshoring regional.
O corredor interoceânico mexicano promete cortar o caminho entre Atlântico e Pacífico para 20 horas, movimentar 200 milhões de toneladas por ano, atrair indústrias em nearshoring e testar limites entre desenvolvimento, comunidades locais e natureza sensível ao longo do Istmo de Tehuantepec sob escrutínio ambiental e geopolítico global
Em 2023, enquanto o Lago Gatún forçava o Canal do Panamá a reduzir o número de travessias diárias e formar filas de mais de 200 navios, o México acelerava um plano antigo para criar um novo caminho entre Atlântico e Pacífico sem eclusas, sem dependência de reservatórios de água doce e com apoio direto das grandes potências interessadas em rotas mais rápidas e previsíveis.
A partir de 2020, com o avanço do nearshoring, o país viu o investimento estrangeiro direto crescer mais de 40 por cento entre 2020 e 2024, e só em 2023 mais de 400 empresas dos Estados Unidos e da Europa anunciaram que deixariam a China para se instalar em território mexicano, reforçando a aposta de que um corredor ferroviário interoceânico poderia redesenhar o tabuleiro logístico das Américas.
Crise no Canal do Panamá abre disputa por um novo caminho entre Atlântico e Pacífico
Por mais de um século, desde 1914, o Canal do Panamá concentrou quase 6 por cento do comércio mundial, algo próximo de 270 bilhões de dólares em mercadorias por ano, em uma faixa de água com pouco mais de 100 metros de largura e cerca de 14 mil navios cruzando o istmo anualmente.
Quando o Lago Gatún atingiu o nível mais baixo dos últimos 60 anos, a lógica desse sistema ficou exposta.
A seca associada ao El Niño obrigou o canal a reduzir o número de travessias de 36 para apenas 20 por dia, forçando porta contêineres a navegar com metade da carga para evitar encalhes.
Em 2023, mais de 200 navios ficaram parados em engarrafamentos aquáticos, enquanto companhias calculavam o custo de desviar rotas para contornar a América do Sul, adicionando cerca de 13 mil quilômetros e semanas de viagem a cada travessia.
Nesse vácuo, a ideia mexicana de um eixo terrestre competitivo ganhou tração política e econômica.
Como o corredor interoceânico mexicano encurta o caminho entre Atlântico e Pacífico
O chamado Corredor Interoceânico do Istmo de Tehuantepec foi desenhado para funcionar como um canal de ferro, nas palavras do ex-presidente Andrés Manuel López Obrador, substituindo as eclusas por trilhos e portos modernizados.
A meta é coordenar contêineres que representam cerca de 5 por cento do comércio global, algo equivalente a 200 milhões de toneladas de carga por ano, com a promessa de reduzir a travessia a aproximadamente 20 horas.
Em vez de um navio gastar dias esperando vaga no Panamá, a carga desembarca em um porto mexicano do Pacífico, percorre o istmo por trem e embarca novamente no Atlântico, ou no sentido inverso.
Cada trem carrega mais de 120 contêineres, o equivalente a um navio de porte médio, cruzando selvas e planícies a cerca de 70 quilômetros por hora.
Quando toda a ferrovia estiver em operação plena, o tempo de transporte interno entre os dois oceanos deverá cair mais de 80 por cento em relação ao modelo original e às esperas em filas marítimas.
Portos de Salina Cruz e Coatzacoalcos redesenham a ligação oceano ferrovia
Para viabilizar o novo caminho entre Atlântico e Pacífico, o México começou pelo mar.
No Pacífico, o porto de Salina Cruz, antigo terminal de petróleo com profundidade entre 10 e 14 metros, passou por dragagem massiva que retirou dezenas de milhões de metros cúbicos de sedimento, aprofundando o canal para cerca de 23 a 24 metros, nível comparável aos maiores terminais de contêineres do mundo.
Além disso, foi construído um quebra mar de aproximadamente 6 quilômetros, mais largo e mais alto, projetado para suportar ventos de categoria de furacão e ondas de até 10 metros em uma baía conhecida por tempestades severas.
Centenas de sensores monitoram vento, corrente e ondulação em tempo real, enquanto mais de duas mil estacas de concreto reforçam píeres preparados para receber guindastes automatizados e navios pós panamax com até 24 mil TEUs.
Do lado atlântico, Coatzacoalcos enfrentava assoreamento intenso, píeres deteriorados e restrição de calado.
A dragagem elevou a profundidade do canal de acesso para cerca de 12 metros, permitindo entrada regular de navios médios e grandes sem depender de maré.
Um muro de proteção de aproximadamente 700 metros reduz o impacto das ondas, e a ferrovia passa a chegar diretamente ao cais, transferindo carga do trem para o navio sem necessidade de caminhões intermediários.
O tempo de liberação de mercadorias, que levava dias, caiu para algo em torno de duas a três horas, segundo o projeto apresentado.
Ferrovia renovada, nearshoring e polos industriais no Istmo de Tehuantepec
No interior do istmo, quase toda a malha ferroviária histórica teve de ser refeita.
Cerca de 90 por cento dos trilhos foram substituídos, com dormentes de concreto armado, nova camada de brita de basalto e viadutos em áreas alagadas ou de solo instável.
Em trechos críticos, engenheiros elevaram o leito da via com estacas metálicas e aterros controlados para garantir a estabilidade de trens de carga pesados.
Ao lado da ferrovia, o governo estruturou dez polos de desenvolvimento para o bem estar, parques industriais com vocações específicas em petroquímica, eletrônicos, logística, agricultura de alta tecnologia e energia limpa.
O Estado oferece eletricidade, água, fibra óptica e infraestrutura digital, enquanto empresas recebem pacotes de incentivos com isenções ou reduções profundas de impostos por 10 a 15 anos.
As estimativas oficiais falam em mais de 250 mil empregos diretos e mais de meio milhão considerando a cadeia produtiva, concentrados em regiões onde cerca de metade da população vive hoje abaixo da linha de pobreza.
Essa combinação de ferrovia renovada, polos industriais e portos reconfigurados tenta transformar o corredor em peça central do nearshoring.
Indústrias que migram da Ásia ganham acesso a um caminho entre Atlântico e Pacífico mais curto e menos vulnerável à falta de água, ao mesmo tempo em que se posicionam a poucas horas de caminhão da fronteira com os Estados Unidos, principal mercado de destino dessa produção.
Linha K, novo eixo do corredor interoceânico mexicano
Por trás do discurso sobre um novo caminho entre Atlântico e Pacífico, os números mostram que o corredor interoceânico mexicano ainda está em plena obra.
A Linha K do trem interoceânico, eixo que prolonga o corredor em direção ao sul, tem hoje cerca de 87,7 por cento de avanço físico e previsão oficial de conclusão em junho de 2026, segundo a Secretaria da Marinha.
A Linha K é dividida em três trechos principais no Istmo de Tehuantepec.
O trecho entre Ciudad Ixtepec e Tonalá está praticamente pronto, com cerca de 99,4 por cento concluído e em testes de carga desde agosto, ajustando trilhos e estrutura para suportar composições pesadas.
O trecho Tonalá–Huixtla avança em torno de 79,3 por cento e deve ser finalizado em julho do próximo ano, enquanto o segmento Huixtla–Ciudad Hidalgo e a Linha KA até Puerto Chiapas passam de 84 por cento de execução, com entrega prevista para fevereiro.
No total, serão reabilitados 447 quilômetros de trilhos, com 14 estações, 439 pontes, 14 desvios, 626 obras de drenagem e três pátios de transferência redistribuindo carga entre ferrovia e rodovias.
A presidente Claudia Sheinbaum anunciou a inauguração do primeiro trecho da Linha K em novembro e revelou que já há negociações com o governo da Guatemala para prolongar a malha até o país vizinho.
A ideia é transformar o corredor interoceânico mexicano em espinha dorsal de uma rota regional, conectando o caminho entre Atlântico e Pacífico às cadeias produtivas da América Central e ampliando o alcance do nearshoring além da fronteira mexicana.
Trem suburbano, viadutos gigantes e impacto nas cidades do istmo
Enquanto os trens de carga ainda aguardam a conclusão integral da Linha K, o governo prepara o lançamento de um serviço suburbano de baixo custo, batizado de El Tehuanito.
A previsão é que o trem comece a operar em dezembro deste ano, com duas rotas de tarifa reduzida voltadas a moradores de baixa renda do Istmo de Tehuantepec.
Uma linha ligará Ubero a Ixtepec e a outra Unión Hidalgo a Salina Cruz, cobrindo cerca de 189 quilômetros em dias úteis e usando estações que já estão acima de 80 por cento de conclusão.
Na engenharia pesada, o destaque é o viaduto de Huixtla, com cerca de quatro quilômetros e trezentos metros de extensão e execução próxima a 99 por cento, estrutura que sozinha gerou cerca de mil e quinhentos empregos diretos.
Ao redor, parques lineares em cidades como Arriaga e o próprio Huixtla passam de metade das obras concluídas, sinalizando que o corredor interoceânico mexicano não se limita ao eixo de carga, mas redesenha a urbanização local, com áreas de lazer, ciclovias e novos acessos conectados à ferrovia.
Orçamento bilionário e prioridade política para o corredor interoceânico mexicano
O orçamento federal mexicano para 2026 reserva cerca de cento e cinco bilhões de pesos para novos trens e vinte e cinco bilhões de pesos específicamente para o Istmo de Tehuantepec, consolidando o corredor interoceânico mexicano como projeto prioritário do governo.
Na prática, isso significa mais recursos para comprar material rodante, concluir a Linha K, reforçar o caminho entre Atlântico e Pacífico e equipar os polos industriais que ancoram a estratégia de nearshoring.
Além da carga de longo curso, linhas já reabilitadas, como as Linhas Z e FA, oferecem hoje serviços mistos de passageiros e carga.
Desde o fim de 2023 e meados de 2024, elas transportaram mais de cento e trinta mil passageiros e quase novecentas mil toneladas de diversos produtos, um ensaio do potencial de integração entre transporte regional e o novo corredor terrestre que disputa espaço logístico com o Canal do Panamá.
Portos de Coatzacoalcos, Salina Cruz, Dos Bocas e Puerto Chiapas na rota interoceânica
Do lado atlântico, Coatzacoalcos avança na consolidação como porta de entrada do caminho entre Atlântico e Pacífico.
O terminal multiuso do porto está perto de ser concluído, com obras acima de 97 por cento, enquanto o prédio da Unidade de Proteção Marítima e Portuária deve ficar pronto em meados de 2026.
A ideia é integrar controle de segurança, fiscalização e logística em um único complexo, reduzindo o tempo de permanência dos navios no cais.
No Pacífico, Salina Cruz praticamente encerrou a etapa de dragagem de aprofundamento do canal, com mais de 87 por cento dos trabalhos concluídos e entrega prevista para este mês, consolidando o porto como ponto chave do corredor interoceânico mexicano.
Em Dos Bocas, o cais do Terminal de Granéis Minerais já foi entregue, mas os quebra mares leste e oeste, projetados para proteger a baía contra ondas e tempestades, só devem ficar prontos em 2029.
Em Puerto Chiapas, a infraestrutura portuária também se aproxima da reta final, com quase toda a unidade de proteção marítima, edifícios administrativos e pátios ferroviários concluídos, preparando o extremo sul para receber parte dos fluxos associados à Linha K.
Núcleos de desenvolvimento, moradia e disputa por terras no traçado
Ao longo do caminho entre Atlântico e Pacífico, o governo mexicano estruturou catorze Núcleos de Desenvolvimento para o Bem Estar, zonas industriais conhecidas como Podebis, beneficiadas por incentivos fiscais federais e estaduais.
Nove já foram concedidos à iniciativa privada, três estão em licitação internacional e dois aguardam declaração formal. A promessa é que esses núcleos recebam fábricas, centros logísticos e serviços associados ao nearshoring, irradiando empregos e renda em municípios historicamente negligenciados.
No campo social, os dados oficiais registram a entrega de mais de quatro mil moradias e quase cinco mil subsídios para melhorias habitacionais em comunidades do Istmo de Tehuantepec desde 2023, além do financiamento e execução de cerca de cento e cinquenta projetos comunitários.
O discurso oficial insiste que o corredor interoceânico mexicano deve ser vetor de desenvolvimento social e econômico tanto quanto de competitividade logística, e não apenas uma via rápida para contêineres.
Em paralelo, a expansão da via de acesso Roberto Ayala–Dos Bocas, que atravessa os municípios de Huimanguillo, Cárdenas, Comalcalco e Paraíso, em Tabasco, exige a aquisição de mil setecentas e sessenta e seis propriedades até 2027.
O trecho está pouco acima de 40 por cento de execução e escancara o outro lado desse novo caminho entre Atlântico e Pacífico, onde negociações fundiárias, deslocamento de famílias e disputas locais por indenização se tornam tão sensíveis quanto qualquer obra de ponte, túnel ou pátio ferroviário.
Natureza pressionada, lições do canal da Nicarágua e da rota do Ártico
O avanço do projeto interoceânico não vem sem custos ambientais.
A experiência recente do complexo de refino de Dos Bocas, na Baía de Paraíso, ilustra a tensão: para erguer tanques e dutos, extensas áreas de manguezais foram removidas, enfraquecendo a proteção natural da costa e abrindo espaço para erosão acelerada, ao mesmo tempo em que enchentes ligadas ao rio Grijalva passaram a atingir a região com maior intensidade.
Relatórios ambientais citados por organizações locais falam em milhares de indivíduos de mais de uma centena de espécies afetadas, incluindo dezenas de espécies ameaçadas.
No próprio istmo, parques eólicos erguidos em zonas de vento extremo se multiplicam como florestas de aço.
Embora gerem energia renovável, as pás de dezenas de metros girando a alta velocidade transformaram parte do céu em barreira letal para aves de rapina e morcegos migratórios, com registros de carcaças ao redor dos aerogeradores e alertas sobre alterações em rotas migratórias.
O desafio declarado pelos responsáveis pelo corredor é aplicar soluções baseadas na natureza e programas de recuperação de ecossistemas capazes de compensar os impactos sobre fauna e vegetação.
Fora do México, o histórico de megaprojetos concorrentes ao Panamá deixa lições adicionais.
Em 2013, a Nicarágua lançou um canal de 276 quilômetros financiado por um grupo chinês, com custo estimado em 50 bilhões de dólares e promessa de superar o canal panamenho, mas o traçado atravessaria o Lago Nicarágua, principal fonte de água potável do país, e afetaria dezenas de comunidades indígenas.
A combinação de protestos e colapso financeiro do investidor fez a iniciativa naufragar poucos anos depois, deixando no terreno apenas marcos enferrujados e canteiros abandonados.
No extremo norte, o derretimento acelerado do Ártico abre a possibilidade da Passagem Noroeste ligar Atlântico e Pacífico sem taxas, sem eclusas e sem filas, encurtando rotas entre Europa e Ásia em mais de 7 mil quilômetros.
Algumas projeções otimistas apontam para um primeiro verão sem gelo completo por volta de 2035, o que criaria um terceiro competidor para o comércio interoceânico em cima de uma crise climática ainda mais grave.
Nesse tabuleiro, o corredor terrestre mexicano tenta se firmar como alternativa estável em um mundo de rotas cada vez mais vulneráveis ao clima.
Diante de um México que investe pesado para criar um novo caminho entre Atlântico e Pacífico, desafiando o Canal do Panamá e equilibrando empregos, indústria e pressão ambiental no Istmo de Tehuantepec, você acha que esse corredor ferroviário interoceânico realmente tem força para mudar o mapa do comércio mundial ou tende a virar apenas mais um megaprojeto abaixo das expectativas?
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Estimativa é que projeto custe até US$ 10 bilhões, número apenas 7,6% inferior ao atual valor de mercado da empresa
Por Luciana Dyniewicz – Estadão – 21/12/2025
Especulada há aproximadamente um ano, a possibilidade de a Embraer desenvolver um avião de cerca de 200 lugares, que possa competir diretamente com as gigantes Boeing e Airbus, ganhou força neste mês em meio a comentários do CEO global da Lufthansa, Carsten Spohr. Em visita ao Brasil, o executivo alemão afirmou querer que a fabricante brasileira produza aeronaves maiores e disse que discutiria isso com a direção da Embraer. O apoio — e a encomenda — de companhias aéreas é chave para que o projeto se torne realidade.
Hoje, a Embraer produz aviões de no máximo 146 lugares e um alcance de 5.556 quilômetros. Assim, o maior jato da brasileira compete apenas com os A220, da Airbus, cuja capacidade é de até 160 passageiros.
Se passar a fabricar aeronaves maiores, a Embraer poderia brigar diretamente com a família do A320, da Airbus, cujos aviões têm de 120 a 244 lugares, e com a do 737, da Boeing, que tem jatos com 126 a 220 lugares. Aeronaves com capacidade para 150 a 180 passageiros são as mais demandadas na história da aviação comercial.
Para você
Fábrica da Embraer em São José dos Campos (SP); parte dos engenheiros da empresa está focada no desenvolvimento de um ‘carro voador’
Procurada para comentar o assunto, a Embraer afirmou, em nota, ter “produtos novos e competitivos em todos os segmentos” e estar focada em aumentar as vendas do portfólio atual. “Em paralelo, continuamos investindo em novas tecnologias, com o objetivo de estarmos prontos para o próximo ciclo de desenvolvimento de produtos no futuro, independentemente do segmento (aviação comercial, executiva ou de defesa). No entanto, não podemos fornecer uma data específica para essa decisão.”
“Estamos fazendo estudos para outros produtos para o futuro. Pode ser um avião executivo, um avião comercial, mas são estudos ainda. Não temos resposta sobre o produto que vai ser ou como vamos construir isso.”
Gomes Neto disse ainda que não tinha pressa para desenvolver um novo projeto, dado que quase 25% de seus 4 mil engenheiros estão trabalhando na criação do eVTOL (o carro voador que vem sendo desenvolvido pela subsidiária Eve) e outra parte importante desse time está focada em melhorias do portfólio atual.
O desenvolvimento de um avião de cerca de 200 lugares demandaria entre US$ 8 bilhões (R$ 43,4 bilhões) e US$ 10 bilhões (R$ 55 bilhões), de acordo com o analista do setor Alberto Valerio, do UBS BB. Se o custo alcançar US$ 10 bilhões, ficaria próximo ao valor atual da companhia no mercado (R$ 59,5 bilhões). “A empresa tem competência para desenvolver um avião como esse. Mas tem um risco”, diz Valerio.
O analista acrescenta que, para desenvolver uma nova aeronave, a Embraer precisaria levantar capital no mercado emitindo ações e dívida, além de fechar parcerias com clientes e fornecedores de peças como motores e GPS. “Também precisaria de garantias de que terá um volume robusto de encomendas por parte das companhias aéreas.” Valerio afirma que o ideal seria que “umas três” companhias do porte da Lufthansa fizessem encomendas de cerca de 300 aeronaves cada uma.
Também analista do setor, André Mazini, do Citi, é outro a afirmar que a Embraer tem capacidade de engenharia para criar um novo avião. “A questão é mais fechar a parte financeira e garantir a capacidade de manutenção no pós-venda. Hoje, essa capacidade é boa, mas precisa continuar avançando”, diz ele.
Mazini afirma ainda que as companhias aéreas “claramente querem sair do duopólio”. Como apenas Boeing e Airbus fabricam hoje jatos de 200 lugares, a entrada de uma terceira competidora no mercado poderia pressionar os preços das aeronaves para baixo. Em sua visita ao Brasil neste mês, o CEO da Lufthansa destacou que, se houvesse três fabricantes no segmento, a velocidade de inovação aumentaria. Afirmou também ver espaço no mercado para aviões de melhor qualidade e mais baratos.
Quando a decisão poderia acontecer?
O analista do Citi lembra que executivos da Embraer já sinalizaram que a empresa não assumiria um projeto dessa magnitude sozinha e que gostaria que as companhias aéreas apoiassem o desenvolvimento da aeronave com encomendas. “Um modo para viabilizar o avião seria que as aéreas entrassem com uns US$ 3 bilhões (em encomendas), ajudando a custear o projeto. As fabricantes de motores, como GE, com mais US$ 3 bilhões. O BNDES, com outros US$ 2 bilhões, e a Embraer, com uns US$ 2 bilhões. Aí ficaria mais palatável”, diz.
Os dois analistas dizem acreditar que a companhia não vai tomar uma decisão no curto prazo. Para Valerio, nada será definido até 2027. “Antes de começar algo novo, a Embraer quer amadurecer a Eve.” Subsidiária da Embraer que desenvolve um “carro voador”, a Eve deve concluir o desenvolvimento e a certificação de sua aeronave no fim de 2027. “A equipe de engenharia está focada nisso”, destaca o analista.
Mazini também afirma que a Embraer pretende fazer com que a Eve “ande com as próprias pernas” antes de assumir um novo desafio. “Eles (a direção da fabricante brasileira) não querem estressar o balanço da empresa com muita coisa ao mesmo tempo.”
O analista pondera que hoje a Eve tem praticamente apenas cartas de intenção de compras. Essas cartas precisam virar pedidos firmes para a empresa receber pré-pagamentos. “Quando isso acontecer, vai entrar dinheiro no caixa. Aí as coisas podem começar a avançar.”
Para Mazini, a Embraer também vai aguardar uma nova geração de motores de aviões ser desenvolvida. O desenho dessa tecnologia deverá ser definido em 2027, e nenhuma fabricante de aeronaves desenvolverá um jato agora usando os motores antigos — daí a necessidade de aguardar. “Não dá para dissociar um novo avião de um novo motor. Não haverá anúncios (por parte da Embraer) agora, porque a empresa precisa de detalhes desse motor.”
Além de um anúncio não ser esperado para breve, o desenvolvimento do avião também não será rápido. As aeronaves colocadas mais rapidamente no mercado levaram cerca de quatro anos desde o momento do anúncio até o primeiro voo. Quando as fabricantes anunciam a realização do novo projeto, porém, elas costumam já estar há algum tempo trabalhando previamente nele.
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Para Fernando Ganem, termo foi banalizado ao ser usado por qualquer um para promover protocolos médicos duvidosos, principalmente nas redes sociais; Faculdade Sírio-Libanês abriu neste semestre primeira turma de graduação em Medicina
Por Fabiana Cambricoli – Estadão – 20/12/2025
Com a multiplicação, nas redes sociais, de perfis de profissionais de saúde que divulgam “protocolos médicos” duvidosos – muitas vezes apresentados como se tivessem respaldo científico —, uma das tarefas centrais das faculdades de Medicina é ensinar o estudante a reconhecer o que é evidência de verdade de fato e, sobretudo, onde buscá-la. A avaliação é do cardiologista Fernando Ganem, diretor médico do Hospital Sírio-Libanês, cuja faculdade recebeu sua primeira turma de Medicina neste semestre.
Para Ganem, o termo “evidência científica” foi banalizado e passou a ser usado por alguns como verniz de credibilidade para práticas que não se sustentam em bases sólidas. Por isso, diz, esse é um debate que precisa começar cedo na formação médica.
“Na graduação, a gente tenta trazer, desde o primeiro momento, o que é a evidência científica de fato. Inclusive, porque a palavra evidência científica está banalizada. Qualquer pessoa bota nas mídias sociais que tem protocolos com as melhores evidências”, afirmou ele, em entrevista ao Estadão.
Na conversa, ele detalhou por que o Sírio-Libanês decidiu abrir uma escola médica em meio à expansão sem precedentes de cursos no País e quais diferenciais a instituição busca oferecer, em especial na integração dos ensinamentos teóricos e práticos, e na oferta de disciplinas não óbvias: como empreendedorismo, gestão e inovação.
Ganem também refletiu sobre o impacto do excesso de informação em saúde (boa e ruim) e do uso da inteligência artificial generativa na relação médico-paciente. “Hoje a gente tem um desafio chamado Dr. ChatGPT. Os pacientes chegam com a pesquisa feita, com os exames a serem feitos e com as opções terapêuticas. Isso gera um trabalho maior, um dispêndio de energia maior no sentido de você tentar explicar e chegar naquilo que realmente é fato”, disse.
Por outro lado, ele apontou áreas em que a IA pode trazer ganhos concretos para o sistema de saúde, como apoio a exames de imagem, alertas de piora clínica e predição de risco, mas defendeu cautela para evitar erros e distorções induzidos pela tecnologia. Leia abaixo os principais trechos da entrevista.
Diante de um aumento sem precedentes de escolas médicas, por que o Sírio-Libanês decidiu abrir um curso de Medicina e quais os diferenciais que vocês acham que conseguiram trazer para a formação médica?
Todo mundo sabe da proliferação de faculdades de Medicina pelo Brasil, e acho que o Sírio-Libanês tinha uma responsabilidade no sentido de construir um curso de graduação. Ele é uma instituição que se consolidou no setor saúde do ponto de vista assistencial e de pesquisa, mas é uma instituição com uma vocação de ensino indiscutível. A grande maioria do corpo clínico daqui faz parte também de outras instituições, predominantemente Universidade de São Paulo (USP). O nosso corpo clínico hoje tem mais de 40 professores titulares em alguma instituição, mais de 150 doutores. Então, como juntar aquilo que a gente tem na assistência com o ensino? E aí vem a concepção da nossa faculdade. Ela tem a obrigação de compartilhar conhecimento e formar acadêmicos com tudo o que o
Ministério da Educação preconiza como pré-requisito, mas adaptando duas coisas principalmente: a experiência da saúde suplementar e do SUS, que é a realidade brasileira, e o que está chegando por aí: formação em gestão, formação em empreendedorismo, incorporação de tecnologia e inovação digital.
E a gente tem no início do curso uma integração da cadeira básica com a cadeira clínica. Então, a gente não tem as matérias tradicionais – bioquímica, física, biofísica, farmacologia –, que logo no início do do curso mantém o aluno muito distante da prática. A gente entende que este modelo é muito difícil de garantir o engajamento. Eu assisti a uma aula recentemente e foi muito bacana, porque ela começa falando de bioquímica e proteína. Na sequência, fala de órgãos e sistemas. Passa por patologias e, no final, vem uma grande especialista falar sobre Alzheimer e explicar por que aquela proteína é fundamental no desenvolvimento do Alzheimer e por que algumas moléculas são importantes na solicitação do exame para fazer um diagnóstico mais assertivo.
E aí a gente vê o quanto você consegue agregar na atenção e envolvimento. Então, acho que iniciativas como essa de trazer, além do currículo tradicional, integração da cadeira básica com a área clínica e complementação da formação com áreas de gestão, iniciação científica, iniciação à pesquisa e até empreendedorismo vão cumprir um papel de formar profissionais mais diferenciados.
Como vocês veem a questão da proliferação de perfis de médicos nas redes sociais promovendo terapias sem evidências científicas? Isso é uma preocupação na faculdade? Como abordar esse tema desde o início da formação dos novos médicos?
O que a gente mais carece hoje na sociedade são fontes de informação fidedigna. Na área da graduação, a gente sempre tenta trazer, desde o primeiro momento, o que é a evidência científica de fato. Inclusive, porque a palavra evidência científica está banalizada. Qualquer pessoa bota nas mídias sociais que tem protocolos com as melhores evidências. Não. A gente quer compartilhar com os estudantes onde buscar as evidências que realmente fazem sentido. Isso é condição sine qua non. Nós precisamos garantir quais são as fontes fidedignas de conhecimento naquela área.
Na sociedade, eu vejo com muita tristeza o poder que qualquer um tem, uma vez que você deu acesso ou permitiu que qualquer pessoa consiga difundir alguma informação. Isso acontece e eu fico muito triste quando isso é feito por um médico porque, mesmo que a informação seja correta e fidedigna, ela não é percebida da mesma forma por todo mundo. Pior ainda se a informação for fundada. Isso a gente vê todos os dias: os soros do rejuvenescimento, os que dissolvem gordura nas artérias….
Hoje não é incomum ter residentes tendo os seus sites em que eles divulgam técnicas, diagnósticos, terapias. E nós fazemos um trabalho logo na chegada de todos eles aqui trazendo casos reais do impacto deste comportamento e que ele não é o mais adequado, além de cases para a gente usar como exemplo. Eu estou muito tranquilo que a instituição está conseguindo transmitir esse tipo de preocupação. É nossa obrigação fazer isso.
A faculdade de Medicina do Sírio-Libanês oferece também aulas que ensinam a metodologia científica?
A gente tem um curso específico de pesquisa, de iniciação científica, onde você consegue dar o grau de relevância de cada estudo. Então, estudo de caso, estudo observacional, série de casos, estudos multicêntricos, ensaios clínicos, enfim, isso tudo faz parte parte do currículo dos nossos acadêmicos. Isso é reforçado a cada momento. Na residência, a gente tem o mesmo tipo de comportamento. E hoje eles estão muito mais preparados. Nós não tínhamos isso. Para a geração de 20, 30 anos atrás, era muito diferente. Nós tínhamos grandes livros, textos, tínhamos grandes mentores e professores, mas as publicações científicas eram trazidas para a gente em três ou quatro grandes bibliotecas, você tinha que fazer solicitação de um artigo que levava de 15 a 30 dias. Um paper não chegava em tempo real. Hoje, todas as publicações chegam em tempo real. O cuidado está em como eu consigo dar para eles (estudantes) a noção de que eles precisam buscar a fonte mais correta.
E de que forma esse maior acesso a informações boas e ruins em saúde impactam a adesão dos pacientes a tratamentos? Além de gestor, o senhor é cardiologista. De que forma isso vem impactando a prática clínica?
Hoje a gente tem um desafio chamado Dr. ChatGPT. O Dr. Google ficou velhinho, ele está desatualizado. Os pacientes chegam hoje com a pesquisa feita, com os exames a serem feitos e com as opções terapêuticas. Nós já vivenciamos uma situação aqui de um paciente em uma situação bastante grave, em que vários especialistas estavam juntos tentando cuidar e o filho discutindo de igual para igual com as equipes sobre qual o tipo de terapia que ele preferia. Isso gera um trabalho maior, um dispêndio de energia maior no sentido de você tentar explicar e chegar naquilo que realmente é fato.
Por outro lado, é muito bom poder trabalhar com pessoas que têm informação e bom senso. Quando você lida com pessoas que têm informação, buscam a informação, se interessam pelo tema e estão abertas a discutir o assunto, é muito bacana. Uma das maiores dificuldades que a gente tem hoje é perguntar para a pessoa: “Quais são os remédios que você toma?” E a pessoa responde: “É aquele comprimido que vem numa caixinha quadrada, um comprimido redondo e branquinho”. Às vezes a pessoa não sabe por que o remédio foi passado. Isso acontece em quase todos os níveis sociais.
Além de gestor, o senhor é cardiologista e as doenças cardiovasculares, embora sejam, em sua maioria, preveníveis, ainda são a principal causa de morte no Brasil e no mundo. Por que isso ainda acontece mesmo com tanta informação sobre prevenção?
A gente conhece os fatores de risco, mas a doença cardiovascular continua sendo a primeira causa de óbito no mundo, em qualquer lugar, apesar de mais recursos diagnósticos e de novas terapias. Alguns fatores de risco são modificáveis e é nesses fatores de risco que não há uma intervenção ou um controle adequado, porque depende muito de mudança de estilo de vida. Se você pensa, falando de infarto e morte súbita, existe um fator de risco genético e isso é imutável, não tem como interferir, mas tabagismo, diabetes, dislipidemia, que é o aumento de colesterol não controlado, sedentarismo são fatores modificáveis.
Então, apesar de a gente saber tudo isso, a gente é um país que ainda tem muitos sedentários, a gente é um país que tende a ter obesos. A gente tem muito mais gente com acesso à informação e à saúde, mas não há mudança de estilo de vida. Uma outra coisa é a adesão ao tratamento. Não é incomum a pessoa passar por todas as etapas, conseguir ter a receita e não seguir adequadamente o tratamento porque não acha que é importante ou porque acha que aquele fármaco não está fazendo bem ou está interferindo em outra coisa.
O senhor mencionou os pacientes usando ChatGPT. Há uma grande expectativa sobre o uso da inteligência artificial no setor saúde. Em que áreas o senhor acha que ela tem mais potencial? O Sírio-Libanês está usando algumas dessas ferramentas?
Acho que tem várias frentes que a gente pode usar IA em benefício de todo o sistema: em triagem de pronto-socorro e alertas para deterioração clínica de pacientes, por exemplo. A gente sabe que um paciente internado, antes de evoluir para uma situação catastrófica, já dá sinais de 12 a 24 horas antes. Às vezes, eles não são muito relevantes para a equipe, mas quando você coloca junto esta informação, você tem preditores de um prognóstico adverso.
Na área de radiologia, a inteligência artificial tem sido usada para uma série de coisas: detecção de nódulos, perfis de imagens que sugerem um desfecho pior. Do ponto de vista de gestão de fluxo de pacientes, também: a inteligência artificial hoje consegue trazer para a gente uma inteligência de alocação de agendas, predição de população que falta mais. Então, tem muita iniciativa começando, e a gente tem que saber qual é o limite delas.
Esses exemplos que o senhor citou já estão sendo usados no Sírio-Libanês?
Em agendamento, apoio a (exames de) imagem, apoio a protocolos clínicos e deterioração de situações em pacientes internados.
E tem alguma outra área que vocês ainda não estão usando mas que veem um futuro promissor?
A inteligência artificial para tirar etapas do atendimento do profissional, a gente ainda não pensa nesse caminho. A gente está pensando em como utilizar, na verdade. Porque como é que eu modulo a inteligência artificial na prática? Como eu garanto que eu não tenha alucinações ou desvios da inteligência artificial? Mas neste momento a gente está sendo bastante crítico e estudando para saber quais perspectivas ou em quais frentes a gente vai poder usar.
Hoje, eletrocardiogramas com laudo normal, a inteligência artificial consegue analisar e prever se aquele paciente vai ter uma insuficiência cardíaca daqui a cinco ou dez anos. Não é que o médico não enxerga, mas na análise convencional de um exame como o eletro, ele dá o laudo como normal. Mas a inteligência artificial consegue analisar desvios que nós não percebemos e pode prever uma insuficiência cardíaca no futuro.
No ecocardiograma, análises conseguem predizer algumas patologias que a análise clínica não consegue ver. Então, tem muita coisa por aí, mas a gente não implantou isso, isso está sendo discutido, as sociedades de especialidade têm discutido isso, como usar esse dado para realmente incorporar na prática clínica da área.
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